Variáveis pessoais e socioculturais de diferenciação das expectativas
académicas: Estudo com alunos do Ensino Superior do Norte de Portugal e Galiza
Introdução
Nas últimas décadas temos assistido a uma elevada procura do Ensino Superior
(ES) por parte dos jovens, que, na sua maioria, transitam diretamente do ensino
secundário para uma educação superior (estudantes tradicionais). Em função
desta maior procura, associada a uma maior democratização do acesso ao ES,
verifica-se também uma maior diversidade de estudantes em termos das suas
capacidades, motivações, projetos futuros e competências académicas anteriores,
explicando a diversidade sociocultural crescente desta população estudantil
(Almeida, Guisande, Soares, & Saavedra, 2006; Pope, Mueller, &
Reynolds, 2009; Thorpe, Snell, Hoskins, & Bryant, 2007).
Um dos aspetos que diferencia os estudantes na sua transição para o ES prende-
se com as suas expectativas académicas, entendidas aqui como os objetivos ou
aspirações com que os estudantes justificam a sua candidatura e frequência
deste nível de ensino. De acordo com a literatura disponível, estas
expectativas condicionam os níveis de participação e de envolvimento dos
estudantes nas diversas atividades que descrevem o novo contexto académico e
social (Almeida, Fernandes, Soares, Vasconcelos, & Freitas, 2003; Howard,
2005; Konings, Brand-Gruwel, van Merrienboer, & Broers, 2008; Kuh, Cruce,
Shoup, Kinzie, & Gonyea, 2008; Kuh, Gonyea, & Williams, 2005; Monteiro,
Almeida, Cruz, & Vasconcelos, 2010). Neste sentido, as expectativas são
entendidas como uma variável importante na explicação das trajetórias de
transição e adaptação dos estudantes às exigências e desafios do ES (Almeida et
al., 2003; Howard, 2005).
A investigação em torno das expectativas académicas dos estudantes do ES foca
diferentes tópicos, nomeadamente a sua evolução ao longo do percurso académico
e o seu impacto na aprendizagem e conclusão dos cursos pelos estudantes.
Analisando a evolução das expectativas, a literatura sugere que os estudantes
ingressam no ES com níveis elevados de expectativas que, muitas vezes, não
conseguem concretizar ou manter ao longo do primeiro ano (Almeida et al., 2003;
Baker, McNeil, & Siryk, 1985; Cook & Leckey, 1999; Credé &
Niehorster, 2012; Smith & Wertlieb, 2005). Este desencontro entre
expectativas iniciais e vivências posteriores aparece associado a dificuldades
na integração académica e social, bem como à insatisfação, stress e abandono do
ES (Braxton, Vesper, & Hossler, 1995; Cole, Kennedy, & Ben-Avie, 2009;
Deaño, Alfonso, Conde, Garcia-Señoran, & Tellado, 2014; Gigliotti, 1987;
Jackson, Pancer, Pratt, & Hunsberger, 2000; Miller, 2005). Por outro lado,
a investigação sugere que uma maior congruência entre expectativas e vivências
está associada a níveis mais elevados de motivação, persistência e sucesso
académico dos estudantes (Deaño et al., 2014; Fernandes & Almeida, 2005;
Neuville et al., 2007; Perera & McIlveen, 2014; Robbins, Lauver, Le, Davis,
& Langley, 2004).
Alguma investigação analisa, também, as diferenças nas expectativas académicas
segundo algumas variáveis pessoais dos estudantes (Almeida et al., 2006;
Alfonso et al., 2013). Por exemplo, alguns autores mencionam que estudantes
provenientes de estratos sociais mais desfavorecidos, geralmente também
estudantes de primeira geração ou sem antecedentes familiares de frequência do
ES, acedem ao ES com ideias menos claras sobre o que é a universidade e que
desafios coloca, por vezes formulando expectativas pouco realistas ou, ainda,
acreditando pouco nas suas capacidades para os superar (Davies, Slack, Hughes,
Mangan, & Vigurs, 2008; Menon, Saiti, & Socratous, 2007; Thorpe et al.,
2007). Também algumas diferenças têm sido apontadas nas expectativas académicas
considerando o sexo dos estudantes. Assim, nalguns estudos, as mulheres revelam
expectativas mais elevadas de envolvimento académico, apresentando, aliás, uma
taxa superior de conclusão dos seus cursos (Mau & Bikos, 2000; Mello, 2008;
Wells, Seifert, & Saunders, 2013). Aprofundando as diferenças de género nas
diversas dimensões ou tipos de expectativas, os homens apresentam resultados
mais elevados nas expectativas relacionadas com o investimento no curso, como
oportunidade de acesso ao emprego ou a uma carreira profissional (Sax &
Harper, 2007), enquanto as mulheres apresentam resultados mais elevados nas
expectativas referentes ao relacionamento interpessoal, seja na procura do
apoio dos colegas (Gibson & Lawrence, 2010; Sax, Bryant, & Harper,
2005), seja da sua maior disponibilidade para um envolvimento em atividades de
voluntariado (Hu & Wolniak, 2013; Sax & Harper, 2007). Podendo as
estudantes estar mais dependentes emocionalmente da família e do grupo de
amigos, a sua participação em programas de mobilidade internacional pode não
ser tão valorizada pelas mesmas. Ainda, a participação em atividades
científicas com os professores, ou em atividades de carácter político, pode ser
superior nos rapazes, pois são atividades que são vistas como requerendo maior
autonomia, competição e liderança, tradicionalmente mais associadas aos
estudantes homens (Lopez, 2014; Sax, 2009; Sax & Harper, 2007; Zeldin,
Britner, & Pajares, 2008). Por último, para alguns autores as estudantes
estão mais propensas a considerar a opinião e a pressão dos outros (Lopez,
2014; Sax & Harper, 2007; Zeldin et al., 2008), o que aliás pode contribuir
para o seu maior compromisso académico com a frequência e conclusão do curso
(Dwyer, Hodson, & McCloud, 2013; Wells et al., 2013).
Na linha de outros instrumentos internacionais disponíveis para avaliar as
expectativas dos estudantes do ES (Baker et al., 1985; Braxton et al., 1995;
Kuh & Pace, 1998), avançámos na construção e validação de um questionário
que pretende abarcar várias dimensões das expectativas académicas. O
questionário apresenta uma abordagem multidimensional de expectativas
académicas, com base em estudos anteriores (Almeida et al., 2003; Fernandes
& Almeida, 2005; Soares, Guisande, Diniz, & Almeida, 2006), designando-
se por Questionário de Perceções Académicas - Expectativas (Almeida, Costa,
Alves, Gonçalves, & Araújo, 2012; Almeida, Deaño, et al., 2012) e
integrando 42 itens distribuídos por sete dimensões: Formação para o emprego/
carreira; Desenvolvimento pessoal; Mobilidade internacional; Envolvimento
político e cidadania; Pressão social; Qualidade da formação; e Interação
social.
Neste artigo, estudando uma amostra de estudantes da região da Galiza (Espanha)
e do norte de Portugal a frequentarem o primeiro ano do ES, pretendemos
analisar eventuais diferenças nas sete dimensões ou tipos de expectativas
académicas, considerando o país de origem, se os pais frequentaram ou não o ES
e, ainda, o sexo dos estudantes.
Método
Participantes
Neste estudo participaram 717 estudantes do primeiro ano, de Portugal (n = 362)
e de Espanha (n = 355). Não foram considerados estudantes com mais de 25 anos,
oscilando a idade entre 17 e 25 anos, tanto em Espanha (M = 19.59, DP = 1.92)
como em Portugal (M = 18.56, DP = 1.39). Os cursos frequentados pelos
estudantes repartiam-se, nos dois países, por duas grandes áreas científicas:
cursos de ciências jurídicas, sociais e humanas (52%) e cursos de ciências e
tecnologias (48%). Face aos objetivos do estudo, balanceou-se a amostra por
ambos os países tomando em consideração o sexo dos estudantes e se um ou os
dois pais haviam ou não frequentado o Ensino Superior. Face a estes cuidados
havidos na constituição da amostra, não se observa uma diferença
estatisticamente significativa segundo o país em relação ao sexo dos alunos (χ2
(1) = .006, p = .937) e segundo o país em relação aos pais terem ou não
frequentado o Ensino Superior (χ2(1) = .009, p = .923). Do mesmo modo, não se
observa uma associação estatisticamente significativa entre o sexo e a formação
superior dos pais (χ2(1) = 3.242, p =.072).
Instrumento
As expectativas académicas foram avaliadas através do Questionário de Perceções
Académicas - Expectativas (Almeida, Deaño, et al., 2012). Este
instrumento avalia as expectativas em sete dimensões: (i) Formação para o
emprego e carreira, referindo-se às expectativas para obtenção de melhores
condições de emprego no acesso ao mercado de trabalho (oito itens; e.g., Ter
melhores saídas profissionais no mercado de trabalho); ii) Desenvolvimento
pessoal e social, que reflete a valorização do desenvolvimento da autonomia e
identidade, autoconfiança e novas experiências de vida (oito itens; e.g.,
Ganhar confiança nas minhas potencialidades); iii) Mobilidade internacional,
que reflete a orientação do estudante para participar em programas de
mobilidade estudantil, intercâmbios e estadias internacionais (oito itens,
e.g., Participar na mobilidade estudantil, passando algum tempo do curso noutro
país); iv) Envolvimento político e cidadania, que reflete a motivação do aluno
para discutir a vida política, social e económica do país e contribuir para a
melhoria da sociedade, exercendo a sua cidadania ativamente (seis itens; e.g.,
Formar-me como um(a) cidadão(ã) comprometido(a) com os problemas da sociedade
atual); (v) Pressão social, que representa a resposta do estudante às
expectativas dos outros, nomeadamente da família e grupo de pares, face à sua
frequência do ES (quatro itens; e.g., Conseguir corresponder às expectativas
dos meus familiares); (vi) Qualidade da formação, que representa as
expectativas do estudante face às condições proporcionadas no Ensino Superior
para um aprofundamento dos seus conhecimentos (quatro itens; e.g., Aprofundar
conhecimentos/matérias na área do meu curso); e, vii) Interação social,
relativamente às expectativas do estudante para ter momentos de convivência e
diversão, em atividades de interação social no âmbito das relações
estabelecidas em contexto universitário (quatro itens; e.g., Ter momentos de
convívio e diversão). As respostas dos alunos são fornecidas numa escala de
tipo Likert, oscilando entre 1 (Discordo totalmente) e 6 (Concordo totalmente).
Nos estudos realizados até ao momento obtiveram-se alfas de Cronbach muito
satisfatórios para as dimensões identificadas, oscilando entre .78 e .93,
havendo ainda suporte empírico para a diferenciação das sete dimensões com base
nos resultados da análise fatorial dos itens (Deaño et al., 2015).
Procedimentos
Os dados foram recolhidos presencialmente, ocupando cerca de 15 minutos de um
tempo letivo cedido pelos professores, previamente contactados. Os estudantes
foram informados acerca dos objetivos do estudo e participaram livremente,
tendo-lhes sido garantida a confidencialidade dos resultados. A aplicação do
questionário, incluindo uma ficha para obtenção de dados sociodemográficos dos
estudantes, ocorreu no início do ano letivo, no 1º semestre. As análises
estatísticas foram realizadas através do programa IBM SPSS (versão 22.0).
Resultados
Na Tabela_1 apresentamos a média e o desvio-padrão (dentro de parêntesis) dos
resultados nas sete dimensões do questionário, considerando os estudantes em
função do país, se pelo menos um dos pais tem ou não formação superior (C/
FormSup ou S/FormSup, respetivamente) e do sexo.
Analisando as médias apresentadas na Tabela_1, verificamos que a oscilação na
dimensão Formação para o emprego e carreira se situa entre 5.28 e 5.59; na
dimensão de Desenvolvimento pessoal e socialentre 4.83 e 5.32; na dimensão
Mobilidade internacional entre 4.43 e 5.05; na dimensão Envolvimento político e
cidadania entre 4.13 e 5.15; na dimensão Pressão social entre 4.45 e 4.72; na
dimensão Qualidade de formação entre 4.38 e 5.15; e na dimensão Interação
socialentre 4.34 e 4.91.
Observando os resultados dos estudantes dos dois países, verifica-se que os
valores mais baixos nas médias pertencem aos estudantes espanhóis e os mais
elevados aos estudantes portugueses, situação que apenas se inverte na dimensão
Interação social. Contudo, tomando em consideração que a escala de resposta aos
itens oscila entre 1 e 6, podemos verificar que os estudantes, de uma maneira
geral, apresentam expectativas académicas elevadas (com médias superiores a
4.0), em particular nas dimensões Formação para o emprego e carreira e
Desenvolvimento pessoal e social.
No sentido de analisarmos o significado estatístico das oscilações observadas
nos resultados segundo as três variáveis dos alunos (país, formação académica
dos pais e sexo) para as sete dimensões, procedemos a uma análise multivariada
da variância (F-Manova: 2 x 2 x 2). Em primeiro lugar, considerando os efeitos
secundários ou de interação, não se observou qualquer efeito significativo
considerando as três variáveis de agrupamento dos alunos em simultâneo. Da
mesma forma, não se observou qualquer efeito significativo combinando a
formação académica dos pais e o sexo dos alunos. Um efeito significativo de
interação foi, no entanto, observado quando cruzamos o país com o sexo para a
dimensão mobilidade (F(1,716) = 7.319; p = .007; eta2 = .007). Neste caso
concreto, verifica-se que em Portugal os resultados praticamente não se
diferenciam em função do sexo dos estudantes; contudo, em Espanha, os
estudantes do sexo masculino apresentam expectativas mais baixas de mobilidade
internacional, quando comparados com os estudantes portugueses ou com as
colegas de Espanha do sexo feminino (cf. Figura_1).
Quando cruzamos o país de origem dos estudantes com as habilitações académicas
dos seus pais observa-se um efeito significativo em três das sete dimensões,
mais concretamente na Formação para o emprego e carreira (F(1,716) = 7.547, p =
.033; eta2 = .006), Desenvolvimento pessoal e social (F(1,716) = 3.915, p =
.048, eta2 = .005) e Mobilidade internacional(F(1,716) = 5.317, p = .021, eta2
= .007). Estas interações apresentam um padrão de resultados relativamente
similar, conforme se pode observar nas Figuras_2, 3 e 4, nomeadamente nos dois
primeiros.
Assim, nas dimensões Formação para o emprego e carreira e Desenvolvimento
pessoal e social, os estudantes portugueses apresentam expectativas mais
elevadas do que os estudantes de Espanha, verificando-se ainda em Portugal que
as expectativas dos estudantes cujos pais possuem formação académica superior
suplantam ligeiramente as dos colegas cujos pais não possuem essa formação,
ocorrendo a situação inversa junto dos estudantes de Espanha. Neste último
caso, existe uma maior diferenciação segundo a formação académica dos pais,
observando-se expectativas mais elevadas por parte dos estudantes cujos pais
não possuem formação académica superior. Na dimensão Mobilidade internacional,
os valores não se diferenciam entre os estudantes de Espanha e de Portugal,
quando apenas se consideram os estudantes portugueses cujos pais não possuem
formação académica superior. Não obstante, para o subgrupo de estudantes
portugueses cujos pais possuem formação superior, as suas expectativas de
mobilidade internacional são bastante mais elevadas (cf. Figura_4).
Reportando-nos agora aos efeitos principais para as variáveis e dimensões em
que não se verificaram efeitos de interação, podemos observar diferenças
segundo o sexo nas dimensões Formação para a o emprego e carreira (F(1,716) =
7.177, p = .008, eta2 = .010, Desenvolvimento pessoal e social (F(1,716) =
18.536, p = .000, eta2 = .025), Envolvimento político e cidadania (F(1,716) =
50,090, p = .000, eta2 = .066) e Qualidade da formação (F(1,716) = 10.362, p =
.001, eta2 = .014). Em todas estas quatro dimensões, as alunas apresentam
expectativas mais elevadas do que os colegas do sexo masculino. Considerando a
formação académica dos pais, não se observa qualquer efeito significativo
tomando esta variável isoladamente. Por último, considerando o país, para além
dos efeitos secundários já descritos, observa-se um efeito principal desta
variável nas dimensões Envolvimento político e cidadania (F(1,716) = 65.789, p
= .000, eta2 = .086), Qualidade da formação (F(1,716) = 61.725, p = .000, eta2
= .080) e Interação social (F(1,716) = 37.971, p = .000, eta2 = .051). Este
efeito traduz níveis mais elevados de expectativas por parte dos estudantes
portugueses nas dimensões Envolvimento político e cidadania e Qualidade da
formação, e níveis mais elevados de expectativas de Interação social por parte
dos alunos espanhóis.
Discussão
O presente estudo procurou avaliar o impacto do país de origem, formação
académica dos pais e sexo dos estudantes nas suas expectativas para o ES. Face
a uma situação de progressivo aumento da diversidade sociocultural da população
estudantil nas instituições de ES, torna-se ainda mais relevante o estudo dos
fatores que diferenciam subgrupos face à qualidade da transição e adaptação ao
ES. Neste contexto, elegeram-se as expectativas dos estudantes como variável
central a essa transição e adaptação, moderando as trajetórias dos estudantes,
à medida que estes se confrontam com as exigências académicas e sociais
próprias deste novo contexto de ensino.
Os resultados do presente estudo sugerem que os estudantes, ao ingressarem no
ES, apresentam expectativas académicas elevadas, o que tem sido verificado
noutros estudos (Almeida et al., 2003; Baker et al., 1985; Cook & Leckey,
1999; Smith & Wertlieb, 2005). Neste estudo, estas elevadas expectativas
são extensíveis a todas as sete dimensões avaliadas pelo Questionário de
Perceções Académicas - Expectativas. Mesmo assim, avaliando-se as respostas da
globalidade da amostra e os vários subgrupos de estudantes considerados no
estudo, observam-se médias mais elevadas nas dimensões Formação para o emprego
e carreira e Desenvolvimento pessoal e social, sendo inversamente mais baixas
nas dimensões Interação social, Mobilidade internacional e Envolvimento
político e cidadania. Esta diferença traduz distintas prioridades de
envolvimento e de adaptação académica dos alunos que ingressam no primeiro ano,
onde as vivências adaptativas e eventuais dificuldades associadas ao curso e à
identidade podem ser dominantes, podendo as questões da mobilidade e do
envolvimento político/cidadania ser preocupações posteriores no percurso
académico.
Algumas diferenças nas expectativas académicas dos estudantes foram encontradas
em função do país, do sexo e da frequência ou não do ES por parte dos pais. Na
dimensão Mobilidade internacional, os estudantes espanhóis do sexo masculino
apresentam expectativas mais baixas quando comparados com as estudantes do sexo
feminino de Espanha e com os estudantes portugueses dos dois sexos. Em nosso
entender, ainda que a mobilidade não pareça assumir-se como uma prioridade em
estudantes do primeiro ano, este dado parece contrariar os resultados de outros
estudos que afirmam um maior envolvimento dos estudantes do sexo masculino em
programas de mobilidade estudantil, associados ao seu maior desprendimento
socioemocional, liderança e autonomia (Lopez, 2014; Sax, 2009; Sax &
Harper, 2007; Zeldin et al., 2008). Se cruzarmos o país de origem e a
existência de, pelo menos, um dos pais com formação superior, verifica-se um
efeito significativo dessa interação nas dimensões Formação para o emprego e
carreira e Desenvolvimento pessoal e social, traduzindo níveis particularmente
baixos de expectativas por parte dos estudantes espanhóis cujos pais têm
formação superior. Por sua vez, na dimensão Mobilidade internacional observam-
se expectativas mais elevadas por parte dos estudantes portugueses cujos pais
frequentaram o ES. Estes resultados podem estar associados a uma menor tradição
de ES em Portugal, que apenas foi sendo progressivamente alterada nas últimas
décadas, podendo a origem social dos alunos, em parte associada aos níveis de
escolarização dos pais, acabar por assumir um maior peso na diferenciação das
expectativas académicas em Portugal. Esta diferença nos estudantes portugueses
a favor dos alunos cujos pais possuem formação superior pode acompanhar uma
maior quantidade de informação sobre as possibilidades de mobilidade e sua
relevância, ao mesmo tempo que, estando a escolaridade dos pais associada ao
seu estatuto socioeconómico, serão estudantes com mais recursos económicos
familiares suscetíveis de viabilizarem estadias no estrangeiro. Por outro lado,
os estudantes espanhóis cujos pais apresentam formação académica superior
parecem apresentar níveis mais baixos de expectativas, situação que contraria a
investigação na área e justifica análises posteriores.
Os resultados obtidos sugerem, ainda, um efeito da variável sexo na
diferenciação das expectativas no que se refere às dimensões Formação para o
emprego e a carreira, Desenvolvimento pessoal e social, Envolvimento político e
cidadania e Qualidade da formação, apresentando as estudantes do sexo feminino
níveis mais elevados de expectativas. Dada a associação positiva entre níveis
de expectativas e índices de envolvimento académico (Almeida et al., 2003;
Howard, 2005; Konings et al., 2008; Kuh et al., 2008; Kuh et al., 2005), esta
diferenciação pode contribuir para as taxas superiores de permanência e de
sucesso académico por parte das estudantes do sexo feminino.
Considerações finais e investigação futura
Os resultados deste estudo sugerem que os estudantes ingressam no ES com
expectativas bastantes elevadas, o que merece das instituições alguma atenção.
Algumas vezes, tais expectativas traduzem desconhecimento e ilusões sobre o ES,
que seria interessante atenuar aquando do ingresso, sob pena de a desilusão se
instalar, dificultando a adaptação dos estudantes ao novo contexto académico.
Por outro lado, podendo a frustração das expectativas iniciais conduzir ao
desinvestimento e, no limite, ao abandono, seria importante os serviços de
ensino e apoio aos estudantes em contexto de ensino secundário e superior
estarem atentos a este processo e ajudarem os alunos a construir visões mais
realistas sobre o mundo académico, favorecendo a sua transição para o ES.
Defendendo-se um conceito multidimensional de expectativas académicas, e mesmo
tendo-se observado padrões elevados de expectativas nas diversas dimensões
consideradas nesta avaliação, assiste-se a alguma diferenciação segundo a
origem sociocultural dos estudantes, justificando alguma atenção por parte das
instituições de ES, cada vez mais preocupadas com a permanência e o sucesso dos
seus estudantes. Face a alguma novidade dos resultados obtidos, importa a
condução de novos estudos para o aprofundamento das diferenças observadas,
dando maior atenção aos cursos ou áreas científicas dos estudantes ou, ainda,
ao facto de os alunos frequentarem ou não um curso de primeira escolha e o seu
compromisso com a escolha (Araújo, Costa, Casanova, & Almeida, 2014). Estas
variáveis podem ajudar-nos a compreender por que os estudantes espanhóis do
sexo masculino provenientes de famílias em que os pais frequentaram o ES
apresentam expectativas académicas mais reduzidas, em contraste com o
habitualmente encontrado na investigação. Este cuidado na interpretação dos
nossos resultados faz tanto mais sentido quando verificamos que, na amostra
portuguesa e espanhola, não foi possível considerar os mesmos cursos na
formação das duas grandes áreas consideradas (cursos de ciências jurídicas,
sociais e humanas, e cursos de ciências e tecnologias).
Por último, importa realizar estudos sequenciais no tempo sobre as expectativas
dos alunos que ingressam no ES, procurando aprofundar como estas expectativas
acompanham as transformações sociais, por exemplo as crises económicas das
famílias e sociedade em geral, ou como influenciam a adaptação dos estudantes e
o seu sucesso académico (Almeida et al., 2003; Jackson et al., 2000; Smith
& Wertlieb, 2005; Soares et al., 2006). É possível que ocorra algum
desinvestimento dos jovens pela frequência do ES face às taxas de desemprego
dos diplomados, condicionando assim o seu envolvimento e investimento nas
tarefas escolares e relações sociais em contexto universitário. Esta situação,
aliás, pode estar, por um lado, mais vincada nos estudantes do sexo masculino,
pois a investigação sugere que investem mais no ES sobretudo pelas
oportunidades de acesso ao emprego e carreira, e, por outro, pode ocorrer à
medida que se avança no curso, pois o tema do desemprego dos diplomados tornar-
se-á mais frequente nas conversas entre colegas e com os professores. Uma outra
pista de investigação futura será procurar caraterizar perfis de estudantes que
ingressam no ES com base na diferenciação das suas expectativas, uma vez que se
reconhece que as motivações e objetivos neste acesso não são homogéneos na
população estudantil. Tais perfis poderão estar associados a diferenças de
trajetórias e investimento no estudo, socialização e desenvolvimento pessoal,
bem como aos resultados académicos destes mesmos estudantes.