Prevenção do consumo de álcool em manuais escolares de Ciências Naturais
portugueses
RÉSUMÉ
La consommation d'alcool est très répandue parmi les étudiants adolescents
devient, de plus en plus, un problème sérieux. C'est pourquoi la prévention
doit se faire à l'école et les manuels scolaires sont une ressource importante
dans ce processus. Cette étude analyse les approches à la question de la
consommation d'alcool proposées par les manuels portugais de Sciences
Naturelles (9ième année de scolarité). Ainsi, nous avons analysé sept manuels
scolaires existant au Portugal pour l'année scolaire 2008/2009 et utilisés
jusqu'à 2014. Ces manuels traitent la question de la consommation d'alcool de
façon très incomplète et assez superficielle. En aucun cas, nous avons trouvé
des suggestions d'activités qui puissent développer chez les jeunes les
compétences nécessaires pour résister aux pressions qui mènent, souvent, à la
consommation. Les auteurs de manuels devraient prendre en compte le besoin
d'approfondir cette thématique.
Mots-clé: Manuels scolaires; Prévention de l'alcoolisme; Education; Adolescence
Introdução1
O consumo de álcool é responsável por 3,7% do total de mortes e por 14,4% da
morbilidade a nível mundial (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2007). Em 2002
morreram 600.000 europeus de causas relacionadas com o alcoolismo,
representando 6,3% de mortes prematuras, correspondendo 63.000 dessas mortes a
jovens entre os 15 e os 29 anos de idade (OMS, 2005).
Embora o alcoolismo nos adultos seja um problema de saúde, social e económico
grave e muito prevalente, o consumo abusivo de álcool pelos adolescentes e
jovens tem consequências diferentes das evidenciadas nos adultos, devido à fase
de desenvolvimento em que se encontram (Pechansky, Szobot, & Scivoletto,
2004). O padrão de consumo de álcool dos jovens atuais é diferente dos do
passado, caracterizando-se por um consumo compulsivo normalmente ao fim de
semana. Este comportamento origina frequentemente problemas imediatos como a
embriaguez, podendo levar ao coma, ou até mesmo à morte (Calafat & Munar,
1999). O consumo excessivo e agudo de álcool pelos adolescentes e jovens
adultos (Pechansky et al., 2004) tem sido a principal causa de acidentes de
tráfego (Calafat, 2002). Em Portugal, os acidentes rodoviários são a principal
causa de morte entre os jovens de 15 a 19 anos e estão entre as primeiras
causas de morte entre os menores de 25 anos (Nogueira, Silva, Santos, &
Azevedo, 2008).
O consumo abusivo de álcool pelos jovens está também associado a comportamentos
de risco, entre os quais se encontram as relações sexuais desprotegidas
(Calafat, 2002), expondo-se ao contágio de doenças sexualmente transmissíveis
como a SIDA, sífilis e aumentando o risco de gravidez indesejada (Calafat &
Munar, 1999). O consumo de álcool interfere ainda com os resultados escolares,
uma vez que afeta a memória (McKinnon, O'Rourke, Thompson, & Berumen,
2004).
Não obstante as consequências do consumo de álcool para os jovens, o relatório
do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs (ESPAD) de 2011
(Hibell et al., 2012), que envolveu mais de 100.000 estudantes de 36 países
europeus com idades compreendidas entre os 15 e os 16 anos de idade, revelou
que, em média, 56% dos rapazes e 50% das raparigas referiram ter consumido
bebidas alcoólicas nos últimos 30 dias (que antecederam o inquérito do ESPAD).
Mais de metade dos jovens de ambos os sexos tinham um consumo regular de
álcool. Apesar de se registar uma prevalência elevada de consumidores de álcool
entre adolescentes portugueses, a prevalência média registada no ano de 2011
(52%) é mais baixa do que a prevalência média registada nos países
participantes no ESPAD (56%) (Hibell et al., 2012).
No que concerne ao consumo excessivo de álcool (5 ou mais bebidas na mesma
ocasião) nos últimos 30 dias, é de 27% nos rapazes e 19% nas raparigas. Apesar
de se registar uma prevalência elevada de "binge drinking" entre adolescentes
portugueses, a prevalência média registada no ano de 2011 (22%) é mais baixa do
que a prevalência média registada nos países participantes no ESPAD (41%).
Comparativamente com o ano de 2007, registou-se um decréscimo apreciável de
"binge drinking" em ambos os sexos (de 58% para 27% no sexo masculino e de 53%
para 19% no sexo feminino). Apesar disto, a evolução do consumo nos últimos 16
anos parece apontar para uma tendência crescente desta forma de consumo,
principalmente no sexo feminino (Hibell et al., 1997, 2000, 2004, 2009, 2012).
Os resultados do Health Behaviour in School Aged Children (HBSC) obtidos numa
amostra total de mais de 207.000 estudantes, de 38 países e regiões da Europa e
América do Norte, demonstram que, em Portugal, no ano de 2010, as bebidas mais
consumidas semanalmente por rapazes de 15 anos de idade foram a cerveja (8%),
seguindo-se as bebidas brancas (5%), os alcopops (4%) e o vinho (3%). No que
respeita às raparigas, do mesmo grupo etário, as bebidas preferencialmente
consumidas semanalmente foram as bebidas brancas (4%), seguindo-se a cerveja
(3%), os alcopops (2%) e o vinho (1%). Comparativamente com a média dos
restantes países participantes no HBSC, Portugal regista prevalências mais
baixas de consumo semanal para todos os tipos de bebidas e em ambos os sexos.
No sexo masculino, as bebidas mais consumidas semanalmente acompanham as
tendências europeias, sendo que a bebida mais consumida foi a cerveja (18%),
seguindo-se, com a mesma prevalência, as bebidas brancas e os alcopops (9%
cada) e o consumo de vinho (6%). Esta tendência não se regis-ta no sexo
feminino, já que a bebida mais consumida pela média de jovens participantes no
estudo HBSC foram os alcopops (8%), seguindo-se a cerveja (7%), as bebidas
brancas (6%) e o vinho (4%) (Currie et al., 2012).
Prevenção do consumo de álcool
Os comportamentos têm consequências sobre a saúde, pelo que a adoção de
condutas adequadas, de modo a promover e a conservar a saúde, pode conseguir-se
através da Educação para a Saúde e, particularmente, através da educação sobre
o álcool e outras drogas (Calafat & Munar, 1999). De forma a atingir as
metas definidas, a OMS (2000) aponta como uma das medidas a inclusão, no
sistema educativo, desde o pré-escolar, de formação alcoológica, implementada
através de um programa integrado de formação, que desenvolva a resistência ao
consumo precoce de álcool e a capacidade de efetuar escolhas saudáveis, estando
previsto financiamento de atividades de educação para a saúde com verbas
resultantes da cobrança de impostos da venda das bebidas alcoólicas.
Neste contexto, a redução do consumo de álcool apresenta-se como um dos
objetivos primordiais da Organização Mundial de Saúde (OMS) e dos governos
europeus (Pascual, 2002) e pode conseguir-se através da Educação para a Saúde
e, particularmente, através da educação sobre o álcool e outras drogas,
conforme anteriormente referido. O Ministério da Educação português definiu
alguns temas transversais às diversas áreas disciplinares, um dos quais é a
educação para a saúde e o bem-estar, do qual fazem parte a educação alimentar,
a educação sexual e a educação para a prevenção de situações de risco pessoal,
onde se inclui a prevenção do consumo de drogas (Ministério da Educação, 2001).
Neste sentido, sendo objetivo prioritário da política educativa a adoção de
medidas de promoção da saúde escolar, o Despacho interno de 27 de setembro de
2006 do Secretário de Estado da Educação determinou que os Agrupamentos/Escolas
devem incluir no seu Projeto Educativo temáticas no âmbito da Promoção e
Educação para a Saúde, sendo uma das mais importantes o consumo de substâncias
psicoativas.
Em Portugal, o Grupo de Trabalho de Educação Sexual/Saúde (GTES) reforça a
relevância e a necessidade da obrigatoriedade da Promoção e Educação para a
Saúde nos estabelecimentos de ensino, do 1.º ao 12.º ano, fazendo parte
integrante do Projeto Educativo de cada escola, com as devidas adaptações à
realidade escolar, contemplando quatro áreas fundamentais de ação educativa:
"Alimentação e atividade física; Consumo de substâncias psicoativas, tabaco,
álcool e drogas; Sexualidade e infeções sexualmente transmissíveis, com
relevância para a prevenção da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA);
Violência em meio escolar/Saúde mental" (Sampaio, Baptista, Matos, & Silva,
2007, p. 4). O mesmo grupo elaborou referenciais para os temas "Educação
alimentar em meio escolar", "Consumo de substâncias psicoativas e prevenção em
meio escolar" e "Prevenção da violência em meio escolar" (Sampaio et al., 2007,
p. 5). É importante salientar que, não obstante a transversalidade da Educação
e Promoção da Saúde, a disciplina de Ciências Naturais, em particular, dada a
sua natureza, deve contribuir para a sua concretização em meio escolar e de
forma mais relevante no 9.º ano de escolaridade, dado as orientações
curriculares assim o indicarem. Desta forma, esta importantíssima missão faz
parte das atribuições dos docentes de Ciências Naturais, pelo que os mesmos
devem, na sua formação inicial, desenvolver competências que lhes permitam
desempenhar, com sucesso, essa função.
Os manuais escolares no ensino e na aprendizagem das Ciências
Os investigadores e os especialistas na Educação em Ciências consideram que os
manuais escolares são o recurso pedagógico que suporta o processo de
planificação e ensino das ciências. Na realidade, na maior parte das salas de
aula, os manuais escolares são utilizados e seguidos como se do currículo
nacional se tratasse e determinam o que é ensinado e aprendido sobre a Ciência
(Chiappetta, Fillman, & Sethna, 1991). Efetivamente, os dados da
investigação têm vindo a confirmar que o processo de ensino e aprendizagem é
mediado pelos manuais escolares, sendo o recurso didático mais utilizado na
sala de aula (Parcerisa, 1997).
Estudos efetuados em Portugal e Espanha sobre manuais escolares no primeiro
ciclo do Ensino Básico demonstram que os docentes são muito influenciados pelas
propostas de atividades apresentadas pelos manuais escolares, por vezes mais do
que pelas orientações curriculares do Ministério da Educação (Parcerisa, 1997;
Teixeira, Couceiro, Veiga, & Martins, 1999). Salienta-se que o conhecimento
científico chega a ser confundido com a informação contida nos manuais
escolares, existindo a crença de que tudo o que um manual escolar contém é
correto e adequado, quer em termos científicos, quer em termos didáticos
(Teixeira et al., 1999).
Os manuais escolares e a prevenção do consumo de álcool
De acordo com Gérard e Roegiers (1998), "Os manuais escolares de Ciências
Naturais, do 9.º ano de escolaridade, têm função importante na Promoção e
Educação para a Saúde e em particular na prevenção do consumo de álcool,
devendo desenvolver nos alunos a capacidade de reflexão, ajudando-os a fazer
opções adequadas e promovendo atitudes de rejeição do álcool" (p. 83).
Atendendo ao facto de as orientações curriculares de Ciências Naturais do 3.º
Ciclo do Ensino Básico (português) proporem que a abordagem da prevenção do
consumo de álcool seja feita no 9.º ano de escolaridade, integrado no tema
"Viver melhor na Terra", na subunidade "Opções que interferem no equilíbrio do
organismo", torna-se imperioso investigar os tópicos sobre o consumo de álcool
presentes nos manuais do 9.º ano e as atividades propostas para a sua
abordagem. Assim, esta investigação tem como principal objetivo analisar as
propostas de abordagem da temática da prevenção do consumo de álcool
apresentadas pelos manuais escolares. Esta análise é importante pelo facto de a
Lei n.º 47/2006, de 28 de agosto, prever que os manuais escolares tenham um
período de vigência, em regra, de seis anos, o que faz com que a revisão dos
manuais em estudo esteja prevista para o ano letivo de 2013/2014, podendo os
resultados desta investigação ajudar os autores a incorporar algumas sugestões.
Metodologia
População e amostra
Selecionamos para este estudo os sete manuais escolares do 9.º ano de
escolaridade, de Ciências Naturais, das diversas editoras, apresentados para
adoção em 2008 (Quadro_1).
Todos os manuais escolares utilizados no estudo têm como ano de edição 2008 e,
de acordo com a Lei n.º 47/2006, de 28 de agosto e o Despacho n.º 29865/2007,
de 30 de novembro, manter-se-ão em vigor durante seis anos (do ano letivo 2008/
2009 ao ano letivo 2013/2014).
O número total de páginas varia entre 192 e 231, tendo uma média de 213,4
páginas. No que respeita ao número de páginas onde a temática da prevenção do
consumo de álcool é abordada, varia entre uma página e meia e quatro páginas,
ou seja, com uma média de 2,7 páginas (Quadro_2).
Seleção da técnica de recolha de dados
A análise de documentos foi considerada a técnica adequada de recolha de dados.
Esta é uma técnica que tem um enorme campo de aplicação, de acordo com Quivy e
Campenhoudt (2003), e também se mostra adequada quando a análise incide sobre
manuais escolares (Bardin, 1995).
Instrumentos de recolha de dados: Elaboração e validação
O objetivo deste estudo foi analisar as propostas (estratégias) de abordagem da
temática da prevenção do consumo de álcool apresentadas nos manuais escolares
de Ciências Naturais do 9.º ano de escolaridade. Para o efeito, construiu-se
uma grelha de análise onde constavam as dimensões que se pretendiam medir
(estando estas relacionadas com os objetivos do estudo) e as respetivas
categorias.
Na elaboração da grelha de análise das estratégias preventivas sugeridas pelos
manuais escolares foi utilizada a classificação para os modelos preventivos
apresentada por Calafat e Munar (1999), que divide as intervenções preventivas
do consumo de drogas, em geral, e do consumo de álcool, em particular, em: i)
Informativas; ii) Afetivas-Centradas nas Pessoas/Baseadas nos valores e tomadas
de decisões; iii) Centradas nas Situações/Competências Sociais. As primeiras
caracterizam-se pela transmissão de informação de forma unidirecional, com
pouca interatividade, e têm como principal finalidade a transmissão de
informação sobre bebidas alcoólicas e as consequências do consumo. As
intervenções baseadas "nos valores e tomada de decisões" têm por base o
esclarecimento de valores, o auxílio dos jovens na definição das suas próprias
prioridades e a orientação para a tomada de decisões adequadas. As intervenções
que incidem sobre a promoção de competências sociais integram componentes como
o treino de assertividade e de resolução de problemas, promovendo a capacidade
crítica quanto à publicidade e à pressão dos colegas, sendo igualmente
importante a promoção da resiliência.
Com base nas dimensões propostas por Calafat e Munar (1999) definiram-se, a
priori, as categorias (Bardin, 1995). No entanto, segundo De Ketele e Roegiers
(1999), o instrumento de recolha de informação é um utensílio aberto, não
podendo ser totalmente definido, pelo que à medida que a recolha da informação
foi sendo efetuada surgiu a necessidade de redefinir algumas categorias. As
dimensões e as categorias de análise finais constam no Quadro_1.
O processo de validação destas grelhas passou pela apreciação por parte de
especialistas, que verificaram a pertinência da informação a recolher, a sua
validade interna e externa. Entre esses especialistas estavam dois docentes de
didática das ciências, com muita experiência em investigação em Educação para a
Saúde, e dois professores do Ensino Secundário.
Recolha de dados
Neste estudo, a recolha de dados efetuou-se em três etapas: i) começou-se por
analisar todos os manuais escolares e dossiês suplementares, identificando, em
cada um deles, as páginas que abordavam a temática da prevenção do consumo de
bebidas alcoólicas, com o objetivo de selecionar o conteúdo a ser analisado;
ii) efetuou-se a análise de conteúdo dos manuais escolares (Bardin, 1995),
sendo feita a identificação das estratégias e a sua inclusão em cada uma das
dimensões e respetiva categoria de análise, pela primeira autora do estudo;
iii) numa outra etapa, e para garantir a qualidade dos dados, a primeira autora
do estudo repetiu a análise utilizando a mesma grelha. As discrepâncias
observadas foram alvo de uma análise cuidadosa de forma a minimizar os erros
inerentes à subjectividade da investigadora. A decisão final sobre a inclusão
da estratégia na categoria ficou a cargo de um investigador sénior (o
orientador do trabalho) após análise desses casos duvidosos com a primeira
autora do estudo. Com este procedimento minimizou-se os erros inerentes à
subjetividade que esta tarefa de classificação contém em si mesma.
Resultados/conclusões
A análise de conteúdo dos manuais escolares incidiu sobre as estratégias
preventivas por eles utilizadas, procurando verificar se as mesmas se enquadram
em estratégias "Informativas", "Afetivas ' Centradas nas Pessoas" ou "Centradas
nas Situações".
Observando o Quadro_3, constata-se que todos os manuais escolares de Ciências
Naturais do 9.º ano apresentam conhecimentos sobre o consumo de álcool.
No que se refere à estratégia preventiva baseada no combate de crenças sobre o
consumo de álcool, os manuais escolares M1, M3, M4, M5 e M6 não a utilizam,
pois não fazem qualquer referência às crenças e mitos que se encontram
associados ao consumo de álcool e, como tal, também não os desmistificam. Os
manuais escolares M2 e M7 fazem uma breve abordagem à desmistificação de
algumas crenças. Como se constata pela figura_1, o manual escolar M2 procura
romper a associação que existe entre as saídas de grupos de amigos, o
divertimento e o consumo de álcool.
O manual escolar M7 faz referência a mitos partilhados por inúmeras pessoas,
como sejam "o álcool dá força, aquece e faz esquecer os problemas" (M7, 2008,
p. 192), e propõe alguma reflexão, por exemplo, sobre a publicidade que, por
vezes, passa uma imagem de glamour e sucesso social associado ao consumo de
álcool. O mesmo manual escolar possui uma atividade intitulada "Consumo de
substâncias e sua interferência na saúde: mitos e realidades", onde são
apresentadas algumas afirmações para o aluno refletir, propondo-lhe que
identifique os mitos e as realidades, apresentando frases como: "A ingestão de
álcool não cria dependência; beber pouco não afecta as capacidades de condução"
(M7, 2008, p. 174).
Conhecer os níveis de consumo de álcool de alto e baixo risco é outra
estratégia preventiva que Calafat e Munar (1999) enquadram nas estratégias
informativas. Os manuais escolares M3, M4, M5 e M6 não facultam ao aluno essa
informação. O manual escolar M1, com a imagem da figura_2, permite que se faça
a dedução que beber um copo de vinho diariamente é um consumo de baixo risco,
mas, no entanto, o consumo num só dia de um elevado número de bebidas
alcoólicas terá como consequência a embriaguez e, se este facto se consumar
diariamente, estaremos perante uma situação de alcoolismo crónico, tratando-se,
por isso, de um consumo de alto risco.
O manual escolar M2, com a imagem da figura_3, não permite conhecer
efetivamente os níveis de consumo de álcool de alto e baixo risco.
O manual escolar M7 refere, ainda que muito vagamente, que "Factores como
idade, sexo, constituição física do indivíduo e hábitos de vida poderão
condicionar a quantidade de álcool que uma pessoa pode ingerir sem perder,
ainda que aparentemente, os reflexos e a coordenação motora" (M7, 2008, p.
194).
No que se refere à estratégia de estabelecimento dos níveis de consumo de
álcool aceitáveis e de risco, nenhum manual escolar propõe ao aluno qualquer
atividade que o incentive a estabelecer esses níveis.
Ao analisar os manuais escolares relativamente às estratégias "Afetivas
Centradas nas Pessoas", procurou verificar-se se os mesmos contribuem para uma
reflexão sobre os determinantes do consumo do álcool. No entanto, constata-se
que os manuais escolares não apresentam momentos que permitam ao aluno refletir
sobre os determinantes do consumo de álcool.
No que respeita à responsabilização dos alunos pelos próprios consumos, ao
desenvolvimento de competências de rejeição do álcool e à capacitação dos
alunos para a tomada de decisões, verifica-se que os manuais escolares
apresentam imagens e atividades (figura_4 e figura_5) que o docente pode
explorar para desenvolver essas competências nos alunos; no entanto, essa
proposta de abordagem não é apresentada pelo manual escolar.
O manual escolar M7 propõe que se reflita sobre a "influência que a publicidade
tem nos hábitos de consumo de álcool, alertando os alunos para a necessidade de
espírito crítico enquanto consumidores", sugerindo também que seja explorada "a
questão do falso sucesso (profissional, social) associado ao álcool" (M7, 2008,
p. 192) (figura_6). Com esta proposta pode, de alguma forma, conseguir-se uma
desmistificação de crenças associadas ao consumo de álcool e estimular o
espírito crítico dos alunos, responsabilizando-os pelos próprios consumos, ao
mesmo tempo que se podem desenvolver competências de rejeição do álcool,
capacitando-os para a tomada de decisões.
Seguidamente procurou verificar-se se os manuais escolares apresentam situações
que preparem os alunos para rejeitar ofertas de consumo de álcool e lhes
desenvolvam competências para enfrentar as pressões de grupo. Constatou-se que
nenhum dos manuais escolares apresenta estas propostas de abordagem.
O manual escolar M6 apresenta a imagem da figura_7. No entanto, não propõe que
a mesma seja explorada no sentido de desmistificar a relação entre divertimento
e consumo de álcool, bem como a resistência à pressão social e do grupo para
esse consumo.
Os manuais escolares, ao apresentarem as consequências individuais a curto e
longo prazo, bem como consequências familiares e sociais, de alguma forma podem
desenvolver nos alunos a capacidade de prever as consequências das suas
decisões.
Por último, no que respeita ao treino da assertividade, os manuais escolares
não apresentam propostas de atividades ou situações que o permitam aos alunos.
Conclusões
A temática da prevenção do consumo de álcool é abordada pelos sete manuais
escolares de Ciências Naturais do 9.º ano de escolaridade. No entanto,
possuindo estes, em média, 213,4 páginas, apenas dedicam a esta temática uma
média de 2,7 páginas.
Constata-se que nenhum manual aborda todos os tópicos sobre alcoolismo
referidos na grelha de análise. Verifica-se ainda que os manuais diferem muito
no que respeita ao número de conteúdos abordados. O manual que aborda um menor
número de conteúdos é o manual escolar M3 e o que aborda um maior número de
conteúdos é o manual escolar M2.
A análise de conteúdo revelou que a maioria dos manuais não desenvolve os
tópicos com a profundidade que seria desejável. Constata-se, ainda assim, que
há conteúdos que, embora não tenham sido explorados em profundidade, foram
apresentados em todos os manuais escolares, como sejam: a identificação do
álcool como uma droga; as consequências individuais a curto e longo prazo; a
distinção entre o consumo de álcool e a dependência (esta foi referida por
todos os manuais escolares, à exceção de um). Em oposição, nenhum manual
escolar faz a distinção entre bebidas alcoólicas fermentadas e destiladas e
apenas um manual escolar compara a graduação de diferentes bebidas alcoólicas.
Apenas um manual escolar define, ainda que superficialmente, bebidas
alcoólicas, sendo também o único que apresenta a fórmula de cálculo da taxa de
alcoolemia no sangue. A desmistificação das crenças sobre o álcool é referida
apenas por dois dos manuais escolares e os determinantes do alcoolismo são
referidos apenas por um manual escolar.
Pela análise efetuada aos manuais escolares, constata-se que não existe, na
maioria deles, uma preocupação em combater as crenças e mitos associados ao
consumo de álcool nem em informar sobre os níveis de consumo de alto e baixo
risco, e muito menos em envolver o aluno e torná-lo capaz de estabelecer os
níveis de consumo aceitáveis e os de risco. Nenhum sugere atividades para
desenvolver nos alunos competências para resistir às pressões que os levam ao
consumo.
Pode ainda concluir-se que as estratégias preventivas sobre o consumo de
álcool, constantes dos manuais escolares, são sobretudo estratégias
informativas e, tal como refere Tovar (1995), apesar de informar ser uma forma
de prevenir, o mesmo autor duvida que a informação, só por si, seja capaz de
suscitar atitudes pró-abstinência e preventivas. Seria importante, tal como
defendem Calafat e Munar (1999), que os manuais escolares contemplassem
estratégias baseadas nos valores e tomada de decisões e estratégias baseadas no
desenvolvimento de competências sociais, integrando uma componente de maior
reflexão e interatividade, pois, de acordo com os mesmos autores, aumentaria a
eficácia preventiva.
Implicações
No que se refere à prevenção do consumo de álcool, é importante que se reforce
a abordagem das consequências do consumo de álcool a curto prazo, as
consequências familiares e sociais, e que se desmistifiquem as crenças
associadas ao consumo de álcool. Dado que o que se pretende é uma mudança de
atitudes e comportamentos, segundo Calafat e Munar (1999), dever-se-ão utilizar
as técnicas de "estudo de caso, de análise crítica de mensagens publicitárias,
de análise e resolução de problemas" (p. 64) e técnicas de treino de
competências e comportamentos. Por exemplo, é preciso que as crianças e jovens
aprendam a rejeitar o álcool, enfrentando situações de oferta, desenvolvam a
assertividade e a capacidade de comunicar, aprendendo a defender a sua opinião,
bem como desenvolvam a capacidade de prever as consequências das suas decisões,
aprendendo assim a tomar as decisões adequadas (Tovar, 1995).
Segundo Calafat e Munar (1999), qualquer que seja a metodologia e técnicas
selecionadas, é imperativo que sejam interativas, promotoras de reflexão, que
entendam o aluno como protagonista do processo educativo e o estimulem a
partilhar as suas dúvidas e a expor as suas crenças, de modo a que se faça uma
análise crítica das mesmas e se apresentem modos alternativos de atuação. Mais
se acrescenta que as intervenções específicas, para serem eficazes, devem
realizar-se em 10 a 15 sessões, durante um período aproximado de 5 semanas
(Calafat & Munar, 1999).
Uma vez que os resultados deste estudo revelaram que a proposta de abordagem da
problemática do alcoolismo se centra sobretudo na componente informativa, não
se preocupando com o desenvolvimento de valores e de competências sociais, é
necessário que os mesmos passem a integrar estas componentes. Por esse motivo,
os manuais escolares devem apresentar uma oferta mais variada de estratégias
com verdadeiro impacte na prevenção do consumo de álcool, ou o Ministério da
Educação português deve selecionar, adaptar ou editar um manual sobre prevenção
do consumo de álcool que sirva de apoio à implementação, por parte dos
professores, de estratégias preventivas. Poder-se-á referir que já existem
indicações emanadas do Ministério da Educação, como seja a publicação
intitulada Consumo de Substâncias Psicoactivas e Prevenção em Meio Escolar
(2007).
Embora muitos professores orientem a sua prática letiva pelo manual escolar, é
igualmente imprescindível uma boa formação de professores, já que esta permite
maior autonomia dos docentes face a este recurso educativo, tornando-os, muitas
vezes, competentes para criar os seus próprios materiais didáticos. Recomenda-
se, portanto, formação inicial e contínua de professores no que respeita à
educação para a saúde na prevenção dos consumos de drogas legais e ilegais.
Limitações do estudo
A principal limitação deste estudo é a não inclusão, na amostra, dos manuais
escolares adotados recentemente. Um estudo com os manuais escolares atuais será
realizado em breve e poderá ser útil na identificação de lacunas presentes no
que respeita aos conteúdos e metodologias para a abordagem do tema do
alcoolismo. Perante essas eventuais omissões, poderão ser apresentadas
sugestões para a melhoria do desempenho na prática docente.