Democracia, justiça e direitos humanos: pontos cegos' do discurso humanista na
era dos mercados
Introdução
Hoje, a democracia, os direitos humanos e a justiça são centrais nos discursos
das políticas públicas internacionais, exigindo-se cada vez mais o seu
aprofundamento e a sua ampliação, ainda que as práticas que ocorrem em alguns
lugares do globo pareçam ir em sentido contrário tal como alguns discursos
subsidiários da caverna dos mercados e da globalização neoliberalizada.
Na verdade, em muitas regiões, a democracia aparece infligida por investidas
que a querem colocar do lado da "pós-democracia", extremamente útil à ordem do
mercado, o que leva alguns teóricos a questionar-se se a democracia deveria,
por exemplo, ser considerada ou não um direito humano (Ramcharan, 2008) e, de
modo mais radical, se se justificaria continuarmos a falar em humanismo.
Por sua vez, os direitos humanos, embora sejam considerados naturalmente como
um dos pilares da ordem mundial contemporânea, fornecendo políticas e
contribuindo para a ordem pública, quer internacionalmente quer nacionalmente,
têm sido incapazes de superar discordâncias quer em torno da sua fundamentação,
estrutura, justificação, origem e amplitude, quer também em termos da sua
relação com a justiça e a democracia. Nesse sentido, uma das questões
pertinentes que poderia colocar-se seria precisamente a da utilidade dos
direitos humanos.
No respeitante à justiça, ela tem vindo a ser defendida cada vez mais na sua
pluridimensionalidade, característica esta que lhe dá um cariz de uma certa
anormalidade, com a (des)vantagem de a tornar mais adaptável mas também mais
funcional aos mercados, à custa, logicamente, da substantividade da democracia
e dos direitos. E aqui se coloca a mesma questão: que relevância para o bem-
estar de todos e da saúde democrática do sistema político pugnar por uma
justiça tão maleável, tão plástica, que tudo parece justificar?
Além do que ficou dito, há que reconhecer que na relação da justiça com os
direitos os desencontros são vários e nem sempre é fácil articular estes dois
conceitos, embora muitos dos consensos em redor da sua natural articulação se
teçam a partir da ideia de que qualquer teoria dos direitos humanos implica
sempre uma teoria de justiça distributiva ou que os direitos humanos derivam
das regras sociais necessárias para assegurar que os interesses básicos de
todos os indivíduos sejam satisfeitos (ver Macleod, 2005). Outros autores,
imbuídos da mesma preocupação, apresentam a relação entre justiça e direitos
humanos de uma forma ainda mais ampla: os direitos seriam naturalmente os
garantes da justiça social ou os instrumentos de realização de conceções
compreensivas de uma vida boa.
Perante todas as vicissitudes por quem tem passado a relação entre democracia,
direitos humanos e justiça, a atual ideologia do humanismo, visível em
discursos de pendor político, económico, social e cultural, tem emergido para
muitos como uma espécie de bússola para recolocar esta trilogia nos seus
devidos lugares, mas de uma forma sui generis, que implica a sua
ressemantização para melhor corresponder aos desafios atuais. Por outras
palavras, a onda do que aqui é apelidado de novo humanismo traz consigo
evidências que, na sua perceção imediata e próxima, acabam por construir uma
realidade e uma verdade (e dominações também) coerentes com o novo espírito do
capitalismo tardio, escondendo simultaneamente pontos cegos, ou seja, outras
realidades, outras conexões, outras verdades, não conformes com a atual ordem
económica e financeira e o modo como a democracia, os direitos humanos e a
justiça aí encaixam.
1. O discurso humanista dos nossos tempos
Um dos modos mais expeditos de apregoar aos quatro ventos a nossa fé na
democracia, nos direitos humanos e na justiça é integrá-los num conjunto bem
ordenado, envolto num discurso humanista em que o Homem assuma uma posição
central.
Com efeito, é difícil rebater a argumentação daqueles que fundamentam as suas
posições sobre os direitos e a justiça e mesmo sobre a democracia a partir dos
pressupostos filosóficos do humanismo, ainda que não se saiba muito bem, por
vezes, o que se entende por humanismo ou de que humanismo estamos a falar.
Esta ignorância (ou ocultação), contudo, não impede de se invocar o santo nome
do humanismo para produzir um discurso coeso e aparentemente convincente, em
torno da democracia, dos direitos humanos e da justiça, ultrapassando, ou
preenchendo, os pontos cegos que a compreensão crítica destes conceitos poderia
suscitar. Será talvez por isso que o atual recurso ao humanismo não passe de
mais uma manifestação de ignorância que nos querem impor, ou, então, de um
recurso que intenta dispensar-nos de pensar, facto que é perfeitamente
funcional ao pensamento único que deriva do atual estádio do capitalismo
apresentado, por vezes, como condescendente e compassivo.
Na verdade, o espírito do capitalismo atual nunca deixou cair a bandeira do
humanismo. Pelo contrário, sempre a desfraldou aos quatro ventos, mas num
sentido que, de modo nenhum, pode ser confundido com a orientação do humanismo
(filosófico) clássico.
O denominador comum de todas as variantes do humanismo é, efetivamente, o
convencimento de que o ser humano é em si mesmo um valor e de que deve ser
tratado como tal. A própria palavra o inculca: humanismo significa a doutrina
do primado do Homem, a afirmação e defesa do humano.
Com efeito, e recorrendo à história das ideias políticas, a origem do humanismo
moderno ocidental anda ligada à história da libertação, por ação da burguesia,
das estruturas feudalizadas que vincavam a servidão humana. É efetivamente com
a ascensão da burguesia e com a fé nas possibilidades da razão que o humanismo,
conjuntamente com o otimismo, a crença no progresso e o individualismo, emergem
com vigor na racionalidade ocidental. Consequentemente, podemos dizer que o
humanismo clássico é o humanismo burguês, caracterizado como racionalista,
abstrato, de pendor idealista, que defende que o homem nasce Homem, porque a
Razão é o atributo natural de todos os homens; ou seja, o Homem é um ente
genérico, um ser abstrato dotado de razão.
Mas existem outros humanismos, com sementes na inquietação dos povos, no
inconformismo da juventude e da intelectualidade; ou fundamentado na
necessidade de dissolução do indivíduo no impessoal, no anonimato, na vontade
de poder, no absurdo, na unidimensionalidade, no conhecimento; ou assente na
dignidade do humano e na sua libertação das cadeias da opressão, da dominação,
do colonialismo, do capital; ou escurado no personalismo, na valorização do ser
em detrimento do ter; ou radicado na imanência do homem na natureza; ou baseado
na relação com a transcendência, com o Ser ou com a divindade.
Todavia, eu quero falar aqui de um outro tipo de humanismo, do novo humanismo,
assente em pressupostos sintonizados com o "novo espírito do capitalismo" de
que falam Boltanski e Chiapello (1999), que integra não apenas os pressupostos
do capitalismo, isto é, a ratio do livre mercado, mas também, numa espécie de
apropriação crítica da crítica, uma série de argumentos dos críticos do
neoliberalismo (o que, consequentemente, torna mais difícil a missão da sua
desocultação ou da sua desconstrução).
De facto, o discurso insinuoso do novo humanismo recorre a um arsenal de
conceitos lustrosos e a uma argumentação sustentada também do ponto de vista
crítico, disponibilizando, deste modo, ao mundo empresarial e mercantil uma
retórica atraente a par de uma estruturação discursiva difícil de desconstruir.
Exemplificando o que acabo de dizer, os dois autores atrás citados elencam os
seguintes conceitos, que se comportam como uma espécie de atratores estranhos
de novos discursos, de novas qualidades, de novas mensagens, enfim, de novas
verdades:
(...) a autonomia, a espontaneidade, a mobilidade, a capacidade
rizomática, a polivalência, a comunicabilidade, a abertura aos outros
e às novidades, a disponibilidade, a criatividade, a intuição
visionária, a sensibilidade às diferenças, a capacidade de dar
atenção à vivência alheia e a aceitação de múltiplas experiências, a
atracção pelo informal e a busca de contatos interpessoais ( )
(Boltanski & Chiapello, 1999, p. 150).
Acresce a esta lista mais um conjunto sugestivo de outros conceitos, que me
permito sugerir: empregabilidade, comunicação, cooperação, qualidade,
aprendizagem ao longo da vida, requalificação, coesão social, inclusão,
competências, projeto, colaboradores, comunidades de produção, downsizing
todos eles apontando para a prioridade do mundo heraclitiano, da adaptação a
condições que fluem permanentemente na transitoriedade, na amoldabilidade, na
liquidez (ver Bauman, 2003).
Como é fácil de intuir, deste campo semântico podemos produzir um discurso com
todos os ingredientes que satisfaçam uma ementa humanista mais ou menos
apetitosa aos espíritos amantes do bom Mercado (mas também do bom Estado e até
da boa Comunidade).
Um desses ingredientes, e para começar, é precisamente a "aptidão para a
comunicação". Aliás, a comunicação é uma das bases fundamentais das novas
capacidades no capitalismo informacional, em que a rede de trabalho é a rede de
comunicação entre pessoas. Neste sentido, permanecer em rede é permanecer mais
humano e simultaneamente mais produtivo e consumidor. A rede é, pois, uma forma
social mais eficiente e justa do que as relações formais tradicionais.
Há, depois, que adicionar um outro composto a esta receita com sabor idêntico:
o dos projetos. Com efeito, diz-se que a sociedade atual é uma sociedade de
projetos, pelo que o homem atual deve desenvolver a aptidão para ter uma
vivência conexionista, a par de uma disponibilidade para se tornar volante,
nómada, sem residência fixa, com pensamento rizomático. Por conseguinte, o que
importa é envolvimento em projetos, uma vez que estes propiciam outras
oportunidades não apenas de conhecer pessoas mas de aprender novas competências
e de comprometer-se com novos contratos.
E agora mais um conceito-aperitivo se torna capital: o das competências,
nomeadamente as competências relacionais como: a abertura, o autocontrolo, a
disponibilidade e o bom humor, entre muitas outras (ver Boltanski &
Chiapello, 1999; Cardoso, Estêvão, & Silva, 2006), que nos colocam num
patamar superior de grandeza, de empregabilidade, de flexibilidade. O mesmo se
diga das virtudes salvíficas da formação promotora de competências, que
qualquer organização e qualquer pessoa, crentes no sortilégio dos mercados,
deverão adotar para marcarem a sua diferença crítica face às organizações e
pessoas que apenas sobrevivem e que desistiram de apostar na meritocracia
global.
Mas a composição da receita não fica por aqui. A coesão social ou mesmo a
inclusão funcionam também muito bem como calmantes aos efeitos mais picantes
dos seus conceitos aliados, tal como o da competitividade ' que quase sempre
vêm juntos nos documentos oficiais (por exemplo da União Europeia) ', e deste
modo podem servir para atenuar, pela humanização, orientações sociais mais
excludentes ou centrífugas que podem resultar do jogo competitivo.
Para servir esta iguaria, importa um novo perfil de indivíduo, naturalmente
moldado pela ideologia do compromisso com os pressupostos do espírito do
capitalismo, ou seja, pelo "conjunto de crenças associadas à ordem capitalista
que contribuem para sustentar e legitimar esta ordem e apoiar, legitimando-os,
os modos de acção e as disposições que são coerentes com ele", nas palavras de
Boltanski e Chiapello (1999, p. 46).
O problema, então, é levar a que os indivíduos ou os trabalhadores, de
preferência dóceis, bons serventes, com mentes e corpos abertos, maleáveis,
adaptáveis e bonitos, aceitem que a atividade lucrativa constitui um bem comum
para a sociedade, porquanto ela traz progresso material, garante a satisfação
das necessidades e favorece a liberdade política. Neste sentido, há que
problematizar, entre outras coisas, a distinção entre vida privada e vida
profissional: a vida dos negócios e o capital de amizades devem juntar-se,
porque tal atitude favorece o êxito e está em sintonia com a necessidade de
estar em rede. Ou seja, os afetos, o senso moral e a honra também são
importantes para o campo profissional.
Estes argumentos podem, no entanto, revelar-se insuficientes para comprometer
os trabalhadores. Há que procurar, por isso, outras justificações fora do
princípio da acumulação, que legitimem esse seu compromisso. Ora, na fase atual
do capitalismo, é precisamente a revalorização do indivíduo, do self,
instituído como mágico ou empreendedor/empresário de si próprio, que deve estar
na ordem do dia e no centro da nova moralidade, aparentemente mais festiva e
também mais líquida.
Então, o indivíduo deve investir nas suas competências para se tornar mais
facilmente empregável e, em certo sentido, mais explorável, possibilitando, a
outro nível, a naturalização das hierarquias (pessoais, sociais, laborais...)
que daí possam resultar. Ele deve, entre outras coisas, tornar-se num
verdadeiro aprendente ao longo da vida, pois só deste modo revelará o seu
valor, a sua transferibilidade, a justeza do seu lugar na sociedade e no
mercado e poderá ser, então, reconhecido naturalmente como justo, enfim, como
grande' nesta nova ordem institucional, ainda que permaneça numa espécie de
servidão dourada a outros senhores (por exemplo, à organização em que trabalha
' ver Estêvão, 2012d, p. 118).
Segundo este enquadramento, a aprendizagem ao longo da vida (e da formação),
aparentemente amiga de qualquer humanismo, revela-se aqui inequivocamente ao
serviço de outros deuses, nomeadamente os deuses do mercado, ou, mais
parcimoniosamente, da sociedade do conhecimento. Ela é mais uma construção
pedagógica desarticulada do contexto e das questões do conhecimento e da
epistemologia, que nos inibe de falar de outros tempos e de outros espaços onde
se afirmam outros sujeitos e outras pedagogias (de emancipação, por exemplo).
Há, por conseguinte, na perspetiva do novo humanismo, um imperativo claro que
decorre do que atrás foi dito e que tem a ver com a necessidade de cada
indivíduo explorar as potencialidades próprias, assumindo a responsabilidade do
seu trajeto pessoal e profissional, sem dependência do Estado ou da própria
sociedade. Doravante, o que acontecer a cada um não poderá ser interpretado
como fruto de qualquer maldição do mercado ou da sociedade mais ou menos
empresarializada, mas será devido antes ao mérito ou demérito, ao talento ou
não na condução da própria vida, à capacidade ou incapacidade de aproveitar as
novas oportunidades de construção de novas subjetividades ligadas agora ao
autocontrolo, à motivação, ao compromisso. Isto significa, então, que as
próprias carências' ou deméritos' para concorrer no mercado não podem ser
entendidos como "produções históricas de discriminações" nas diversas
políticas, nomeadamente de emprego e de educação (ver Arroyo, 2012, p. 168),
mas resultados naturais do empenhamento individual.
Resulta daqui que esta espécie de universalização da responsabilização
individual, em nome também da igualdade (embora "ficcional", segundo
Martuccelli, 2001, p. 238) entre todos os indivíduos, pode não passar, ao
contrário do que é afirmado pelos ideólogos do novo humanismo, de uma das novas
formas de dominação social, na medida em que as responsabilidades que os
indivíduos devem assumir estão frequentemente nos antípodas da realização de
si, ao mesmo tempo que perdem certas proteções práticas e simbólicas, arcando
com o peso da sua existência.
Para terminar este ponto, o novo humanismo corresponde ao humanismo
plastificado, com pouca substância, mas que permite encontrar sempre, e com
relativa facilidade, um argumento para melhor justificar o nosso lugar no
mundo, na sociedade, no mercado. Trata-se de um humanismo particularmente apto
para incentivar a manifestação e a criação de um self empreendedor, ou, nas
palavras de Rose (1999, p. 161), de uma vida "a tornar-se numa contínua
capitalização económica do self" (por formações, competências, preparação para
a procura incessante de trabalho). Trata-se, enfim, de um humanismo assente no
estatuto da autorreferencialidade, que adquiriu agora uma outra visibilidade e
se constituiu, na verdade, na nova forma de governamentalidade neoliberal,
indiferente à condição social de cada um.
Daqui resulta, entre outros aspetos, "uma nova economia moral", no dizer de
Ball (2006), em que um dos seus princípios é a afirmação de que a competição é
natural à pessoa e de que a realização do indivíduo é um assunto
fundamentalmente privado, respeitando o livre jogo do mercado e a sua ratio
enquanto fundamento de toda a racionalidade. O que verdadeiramente interessa é
a satisfação de si próprio, são os resultados, não os princípios.
E é assim que a obscuração do campo de um outro humanismo (pontos cegos') é
preenchido plenamente pelas informações e verdades provenientes das novas
realidades em redor e pela nova construção ideológica, ou pelo outro olho', do
novo humanismo.
2. A democracia do humanismo atual
Vários modelos têm sido apresentados para tornar a democracia mais
participativa, mais ativa, mais atuante, mais deliberativa, que propicie aos
cidadãos a possibilidade de se tornarem não apenas governados, como acontece
com a fórmula representativa da democracia, mas também governantes'.
Contudo, a democracia mais sintonizada com o novo humanismo referido no ponto
anterior é, na expressão feliz de Crouch (2004), a "pós-democracia", ponto
visível do modo de governar os indivíduos, sem necessidade de preencher a
declaração de interesses, objetivamente ao serviço das metas de mercado.
Efetivamente, a pós-democracia, ou a democracia do neoliberalismo, tem os
ingredientes necessários à nova ordem do mercado. Ela deve contribuir, desde
logo, para que o Estado se torne num aparelho manipulável ao serviço do reforço
desta nova ordem, quer através de formas diretas quer por formas mais indiretas
ou invisíveis. Dito de outro modo, o Estado deve assumir-se, não como Estado-
nação, mas como "Estado-mercado" (Bobbit, 2002, cit. em Ainsley, 2004, p. 499),
que, pela sua modéstia ou pela sua imodéstia, deve expandir a nova ordem
mercadorizada, substituindo o velho slogan das "oportunidades para ser igual"
do Estado-nação pela nova palavra de ordem das "oportunidades para ser
desigual".
Por outro lado, o fornecimento de bem-estar pelo Estado a todas as pessoas com
propósitos redistributivos não tem, para os defensores da pós-democracia,
legitimidade moral, desde logo porque a imposição da justiça social por parte
do Estado é incompatível com a divergência moral da sociedade moderna (ver
Picó, 1999, p. 136). Acresce a isto o facto de que o Estado nunca se comportou
como um agente neutro e imparcial na distribuição da riqueza e de outros bens
sociais como a educação, saúde ou segurança, por exemplo. Agora, como Estado-
mercado, ele deve ser oficialmente e ideologicamente indiferente (sempre que
convenha) às diferenças, a não ser que estas sejam funcionalmente úteis e
lucrativas. É esta, pois, a lógica que deve presidir à estruturação democrática
do Estado e da sociedade.
Por outro lado, esta última, na pós-democracia, deve ser recuperada como uma
sociedade de empresários ou de empreendedores, que não pode, além disso,
descurar os interesses dos seus cidadãos preferidos, ou seja, os produtores e
os consumidores. Quem não se encaixar nestas categorias não será, portanto,
verdadeiramente cidadão ou um democrata. Aliás, neste nosso tempo, é por demais
evidente que não é cidadão quem quer, mas sim quem possui um determinado
conjunto de títulos e de expectativas. Mesmo a definição de cliente não se
aplica a qualquer um. Verdadeiramente quem define o que é ser cliente ou qual o
cliente que interessa não são os indivíduos mas cada empresa que fabrica e
comercializa os seus produtos para destinatários ou nichos de mercado com
perfis traçados previamente; ou seja, em certa medida, o cliente é uma figura
fabricada pelo mercado e pelas suas empresas.
Então, na pós-democracia talvez a imagem mais congruente e mais visível de
cidadão seja também o pós-cidadão, que possui recursos vários, quer produtivos,
quer de consumo, para sê-lo verdadeiramente e comportar-se como tal. Obviamente
que a grande fatia dos que ficam de fora desta pós-cidadania podem também ser
objeto de medidas especiais de cidadanização, que podem dar-lhes a sensação de
permanecerem integrados plenamente neste sistema: produtos de baixa gama, de
linha branca ou um dia de saldos fabulosos, por exemplo, ajudam a incutir, de
facto, a impressão de que, afinal, todos contam ou de que contam com eles!
Pesem embora estas medidas excecionais, neste tipo de democracia há sempre os
irrelevantes, como sejam os desadequados, os contemplativos, os incompetentes,
para não falar também dos incapacitados ou dos idosos, dos feios ou dos gordos,
sobretudo se eles não forem descobertos por qualquer sector económico como um
filão a explorar. Neste, como noutros campos, a exceção pode constituir-se, na
verdade, numa ótima oportunidade de negócio ou num verdadeiro nicho de mercado
lucrativo, porquanto estes diferentes' se tornam "coisas à venda" (expressão
de Arroyo, 2012) potencialmente lucrativas.
Torna-se evidente, por esta análise, que os pontos visíveis da pós-democracia
não nos deixam perceber quanto da dignidade de muitos de nós é violada pela
subalternização ou mesmo pela centrifugação do sistema oficial por nos
considerarem incompetentes ou então sem crédito bastante junto das instituições
que regulam a vida económica, social, cultural e política da pós-democracia
para nos considerarem cidadãos de pleno direito.
Poderíamos ampliar um pouco mais esta leitura colocando-a ao nível do
conhecimento que interessa na pós-democracia. Obviamente que o conhecimento
técnico ou tecnocrático, por um lado, e os que produzem resultados
economicamente rendíveis, por outro, tendem a ser os privilegiados e
financiados, até porque trazem bem-estar a toda a sociedade. Isto quer dizer
que a pretensa democratização do saber invocada pelo novo humanismo, ao não
valorizar verdadeiramente outras formas de saber, ofusca ou omite a relevância
de outros olhares, de outras epistemologias, de outras narrativas de
emancipação pelo conhecimento ou do conhecimento como reconhecimento (ver
Santos, 2007).
Um outro ponto a destacar no novo humanismo é aquele que sublinha o seu bom
relacionamento com conceitos tradicionalmente colocados nas posições mais
democráticas e substantivas da democracia, como é o caso dos conceitos de
participação e autonomia, o que, entre outras coisas, dificulta a sua
desocultação crítica.
Ora, sabemos pela sociologia das organizações, por exemplo, que o processo de
participação equivaleu historicamente mais a uma técnica ou a uma encenação
participativa do que verdadeiramente a uma participação substantiva, colocando-
se, objetivamente, ao serviço de uma engenharia social que visava, e visa,
sobretudo a eficiência. O mesmo se diga da autonomia outorgada, a partir da
década de 60 do século XX (mas com destaque nas duas décadas seguintes), aos
trabalhadores e às suas equipas, no sentido de se auto-organizarem para
produzir mais e com mais qualidade. Na verdade, estes processos foram
introduzidos segundo uma lógica que apontava para a ressurreição do taylorismo,
pela interiorização dos seus pressupostos e das suas formas de controlo, embora
com recurso a meios mais humanos e que penetravam mais profundamente na
interioridade das pessoas. Então, os apelos retóricos atuais a estes conceitos
pela neogestão' (preocupada em orientar o mundo do trabalho num sentido mais
humano) adquirem no novo humanismo uma nova significação, definhada
politicamente, mas permanecendo atraentes para o cumprimento de outras funções
como a do autocontrolo ao serviço da produtividade. Outros sentidos de
participação e autonomia, mais enriquecedores e emancipatórios da pessoa,
continuam, portanto, como pontos cegos do novo humanismo, encarregando-se este
de os tornar idênticos, quando emergem, aos que ele manipula.
Não é inocente, finalmente, que a pós-democracia enalteça e recorra também a
processos aparentemente mais democráticos, porque abertos a todos, de controlar
a vida das instituições. Se atendermos ao que se passa hoje em dia em muitas
organizações públicas, por exemplo, o controlo está presente pelo login e
password (ideia de um meu aluno de pós-graduação) ou por plataformas digitais,
assumindo, de certo modo, a forma do "sinóptico" de Bauman (1999, p. 60), o
qual não precisa de coação para alguém ser vigiado, porque ele "seduz as
pessoas à vigilância"; trata-se, assim, de uma espécie de big brother em que
todos se vigiam mutuamente (controlo social) e em que até o próprio controlo é
controlado.
É por isso que a democracia digital de hoje pode não passar de uma outra
expressão da pós-democracia que nos aponta para um novo ser humano: mais
autorreferencial e simultaneamente mais conexionista e redial; mais autónomo e
ao mesmo tempo mais (auto)controlado e previsível.
3. Direitos humanos e humanismo atual
Os direitos humanos têm servido vários senhores, colocando-se não raramente na
senda dos comportamentos considerados politicamente corretos, nomeadamente
quando estes se abrigam sob os desígnios do humanismo ou, de forma mais
visível, sob os auspícios do humanitarismo.
Por outro lado, os direitos humanos tal como ficaram na Declaração Universal de
1948 tenderam a ser interpretados à luz do favorecimento do indivíduo, na linha
das preferências ocidentais, menosprezando, segundo alguns pensadores, e em
nome da universalização, a sua contextualização e a dimensão coletiva do viver
humano, entre outros aspetos.
É por isso que hoje, segundo Matlary (2008), existe um conceito multiuso dos
direitos humanos em que a sua valoração se transforma num processo político
sujeito a alterações contínuas. Trata-se, por isso, de um processo de
fungibilidade dos direitos humanos em que é difícil encontrar critérios morais
e valores comuns a todos. Entrou-se, assim, prossegue a autora, numa espécie de
relativismo em que o indivíduo se torna a medida de todos as coisas ou, se
preferirmos, numa era do homem autorreferencial em que os valores se submetem
aos desígnios dos próprios indivíduos, num prenúncio claro do crepúsculo do
dever, já vaticinado há tempos por Lipovetsky (2004), na linha do que então
apelidou de "neo-individualismo".
Uma das consequências desta visão é que a compreensão da esfera pública tendeu
a reduzir-se e a tornar-se num espaço mínimo e residual, alterando-se,
simultaneamente, o substrato material' da cidadania e a interpretação dos
direitos individuais, passando estes a ser vistos de uma forma particular no
sentido da clientelização do papel do cidadão, enquanto a cidadania passou a
ser interpretada como um dever de normalidade económica e de mobilidade no
mercado.
Constata-se então aqui mais um ponto visível do discurso humanista de hoje, que
na sua apelação explícita à defesa dos direitos do indivíduo tende ao mesmo
tempo a ocultar o processo de ajustamento dos direitos às exigências e à
axiologia de mercado, ainda que com a anuência voluntária das vítimas'.
Este ponto pode parecer surpreendente à primeira vista, mas se tivermos em
conta, por exemplo, a nova centralidade do discurso político da desigualdade ou
da diferença, também em nome do humanismo, verificamos que agora ele passou a
promover sobretudo, como afirmam Gamarnikow e Green (2003, p. 219), a
"diversidade inclusiva" enquanto se adotam os mecanismos neoliberais para a
realizar sob o guarda-chuva do capitalismo social. E daí acrescentarem os
autores (p. 210) que os excluídos e os desafortunados passam a ser o foco das
políticas de "oportunidade", ao mesmo tempo que, por outro lado, a ênfase passa
a estar não tanto na igualização mas na distribuição equitativa de
oportunidades para alguém se tornar, ou se identificar, como desigual embora
incluído.
Este modo de captar o sentido da inclusão social é coerente com a preocupação
de tornar o sistema social e económico mais gerível, mais regulável e
aparentemente mais bondoso, evitando desequilíbrios ou a emergência de franjas
de população potencialmente perigosas para o bom funcionamento dos mercados.
Nesta sequência, a coesão social torna-se, também, uma dimensão indissociável
das políticas da competitividade, como é facilmente constatável nas políticas
europeias, por exemplo, orientadas primacialmente para o crescimento e para a
competitividade. Por outras palavras, a ideologia da inclusão e da coesão
social, sendo altamente permeável e sensível aos problemas sociais pode
contribuir para apaziguar interesses contraditórios, acalmando o sistema ou
protegendo-o de potenciais questionamentos sociais ou políticos. Além disso,
pode ter o condão de aliviar a culpa do sistema relativamente à injustiça
social para a fazer recair sobre as próprias vítimas (devido, por exemplo, à
sua incompetência). Finalmente, e sob o nome de uma cultura de tolerância e de
valorização da diferença e da diversidade, a ideologia da inclusão e da coesão
pode estar a "dissimular a problemática da heterogeneidade e da desigualdade
social" (Correia, 1999, p. 108).
Temos, então, que o discurso dos direitos humanos pode servir, como já disse,
vários senhores e vários humanismos, incluindo o mais dócil e maleável aos
pressupostos do mercado. Ou seja, ele pode servir de autêntico cavalo de
Tróia' para a invasão da ideologia mercantil, muitas vezes até em nome da
defesa dos direitos políticos e civis, como se fossem estes os únicos que
interessaria reivindicar e exercer (ver Estêvão, 2012b).
Por outro lado, não é possível ocultar que os direitos humanos ziguezagueiam
por vezes ao sabor dos humores políticos ou de políticas geoestratégicas nem
sempre confessadas, quer de governos quer de multinacionais (como é o caso das
sete irmãs do petróleo', por exemplo). Na literatura dos direitos humanos são
recorrentes as referências concretas à intervenção, invasão ou interferência
dos países ocidentais em casos específicos de pretensa violação dos direitos
humanos por parte de alguns países. A contrastar com esta militância' soergue-
se ao mesmo tempo um muro de silêncio, de omissões, de neutralidades face às
atrocidades cometidas, por exemplo, nos Balcãs (Bósnia e Kosovo) e no Iraque, à
limpeza étnica no Ruanda, à sonegação de direitos às mulheres na Arábia
Saudita, ao trabalho escravo na China e Bangladesh, à opressão dos curdos na
Turquia ou do povo do Sara Ocidental por parte de Marrocos. De facto, a
elasticidade multiuso dos direitos é aqui por demais evidente, em nome de
conceções oportunistas e economicamente interesseiras de certos países, que se
servem do seu poderio bélico para pacificar' a seu favor, sob o véu de
ignorância' dos direitos, certas regiões do mundo.
O novo humanismo, então, é surpreendentemente elástico no atinente aos
direitos, porquanto os molda de modo a torná-los em joguetes ao serviço dos
interesses mais ou menos imperiais ou neocolonialistas, mantendo aparentemente
a sua pureza inicial. Com efeito, a elasticidade do discurso humanista,
articulado com a elasticidade da vida social, permite estas veleidades, estes
desaforos pelo poder de criar ilusões e de encobrir outras realidades, enfim,
outras experiências e estados de dominação.
Mas poderá defender-se que o novo humanismo dá uma visão mais funcional e
concreta aos direitos, permitindo até manter uma plataforma mínima de direitos
potencialmente universalizáveis, em vez de uma listagem historicamente marcada,
não consensual, como a que consta da Declaração Universal dos Direitos Humanos
de 1948. Acrescenta-se que a implementação de alguns dos direitos da referida
Declaração seriam até política e socialmente deslocados (como, por exemplo, o
direito a férias), havendo necessidade, por isso, de os suprimir para melhor
proteger ou reforçar outros direitos. Além disso, esta visão contribuiria para
renegar uma certa idolatria universalista dos direitos, prejudicial aos mesmos,
cingindo-os ao humanamente possível', o que contribuiria para uma perspetiva
mais sensata e pragmática, embora mais limitada, destes mesmos direitos.
Mais. Aproveitando o que alguns autores defendem quanto ao desenvolvimento
histórico dos direitos humanos e às transformações que ocorrem na nossa
sociedade, o novo humanismo tem a oportunidade de reiterar o seu realismo ao
afirmar que os direitos têm a ver sobretudo com as forças da globalização e da
modernização (forças fiscais, comerciais, culturais e informacionais). Por
outras palavras, e como afirma Franck (2001), se os direitos humanos são
produtos de desenvolvimentos recentes, ou seja, da industrialização, da
urbanização e das revoluções nas comunicações e na informação, o novo humanismo
poderá, neste ponto, guindar-se a ideologia universal, cosmopolita, que recobre
todos estes aspetos do progresso humano. Além disso, permitiria ultrapassar a
velha querela da origem ocidental dos direitos, uma vez que agora se assumiria
claramente que as forças atrás referidas (de globalização e de modernização)
não são culturalmente específicas.
Não obstante a pertinência desta posição, a questão que se levanta aqui é de
saber em que sentido o novo humanismo interpreta os direitos humanos,
considerando, ainda, que a globalização e a modernização são, além disso,
altamente variáveis, porquanto elas podem ter vários sentidos, alguns mais
amigos dos direitos e outros menos, consoante o poder dos Estados, a capacidade
de controlo das instâncias de governança globais, o nível de homogeneização
cultural, o grau de penetração das economias de mercado, entre outros fatores.
Por outras palavras, quer a globalização quer a modernização são altamente
ambíguas, embora frequentemente se dotem de propriedades propensas à ocultação
de uma normatividade congruente com uma ideologia neoliberal e neoconservadora.
Ou seja, o novo humanismo pode parecer mais realista e cosmopolita, mais de
acordo com as exigências da nova ordem mundial, ainda que esta assente
sobretudo em pressupostos economicistas e financeirizados. Por conseguinte,
outras preocupações, outras dicotomias (como regulação/emancipação, por
exemplo), oriundas do velho humanismo clássico ou moderno, não passam de
quinquilharias guardadas no sótão da memória, com interesse residual. O novo
olhar da ciência e da tecnologia (consideradas como bens económicos e não como
património da humanidade), do conhecimento útil e produtivo, do pensamento
tecnocrático é que deve orientar a nossa visão do ser humano e dos seus
direitos. Consequentemente, os direitos humanos emancipados continuarão como
pontos cegos, ofuscados, ou então recriados, pelos pontos-luz dos direitos
regulados pelos princípios de mercado, que inspiram o novo humanismo.
4. Justiça e humanismo actual
Escrevi, noutro trabalho (ver Estêvão, 2009), que, no cenário de um pretenso
realismo económico (agora em período crítico em certas zonas do mundo), há uma
certa impulsão para a "desformalização" da ideia de justiça social, ou para a
sua perceção como oferta apenas de garantias contingentes, ou ainda para a sua
minimização na medida em que se limita a cumprir direitos sociais de baixa
intensidade, de assistência aos mais desfavorecidos, de neo-pietismo em que as
intervenções neste campo obedeceriam a uma espécie de nova subsidiariedade do
social: "o público é para os que não podem alcançar o privado" (Alonso, 2000,
p. 179).
Penso que hoje, nomeadamente nos países em crise, já nem esta última afirmação
é válida! Na verdade, o acesso ao público começa também a ser cada vez mais
restritivo, o que pode levar a afirmar que o público está, nos tempos que
correm, aberto apenas àqueles que manifestam ser detentores de alguns recursos
materiais e/ou de determinado estatuto, devendo os restantes procurar o não-
público, o doméstico, o assistencial, o acaso, a fatalidade.
Neste contexto, a justiça social não importa ou importa pouco, valendo apenas a
justiça que torna o indivíduo mais eficiente e eficaz e, também, mais vendável.
Não surpreende, por isso, que nesta fase do desenvolvimento capitalista
continue a falar-se em justiça, até porque ela é extremamente funcional ao
próprio mercado. E este é mais um ponto cego do discurso do novo humanismo, que
não larga a justiça, embora já tivesse abandonado a justiça social.
No mesmo ímpeto, os subtextos de redistribuição tendem, na retórica oficial do
discurso neo-humanista, a ser omitidos, muitas vezes a favor de subtextos de
reconhecimento (ver Fraser, 2005). Ou seja, como que para equilibrar a balança
da justiça cega, aposta-se no prato da justiça cultural, como se as lutas pela
justiça social estivessem já ganhas. Nesse sentido, a sobrevalorização de uma
dimensão da justiça (neste caso, a cultural) pode constituir-se também num
ponto cego do novo humanismo, que nos desvia para outras lutas, deixando o
caminho aberto para o verdadeiro inimigo ocupar as nossas trincheiras ou
restringir os nossos espaços de ação e de intervenção.
Mas há ainda mais pontos cegos neste discurso quando prossegue na
(in)compreensão da (pluri)dimensionalidade da justiça. Se os teóricos mais
radicais pretendem ir além da justiça económica e da justiça cultural é
necessário reforçar então as defesas, contendo os seus intentos. Por
conseguinte, a proposta de uma terceira dimensão de que fala Fraser (2005),
relacionada com a justiça política, entendida como representação ou como
"paridade participativa", pode configurar-se como problemática para uma pós-
democracia que se dá mal com a politização da política e com a hegemonização de
categorias tradicionais como as de classe social. Então, remeter a justiça
política para a esfera dos interesses meramente teóricos, relevando ao mesmo
tempo a sua fraca produtividade e a sua tendência escusadamente conflitual,
pode ser sinal de sensatez política, e que o novo humanismo não deixa de
subscrever.
Tal como disse em cima, no novo humanismo persiste a preocupação pela justiça,
mas não de uma justiça qualquer. Ele apadrinha claramente a justiça de pendor
industrial e mercantil (ver Estêvão, 2004), cuja preocupação primordial não é a
igualdade mas antes a condução das vidas e das mentes pelos parâmetros de custo
e benefício, de eficácia, de maximização da eficiência mercantil,
independentemente dos efeitos de exploração, de competição e de desigualdade
que geram. Aliás, estes efeitos são omitidos ou catalogados como colaterais,
pelo que o novo humanismo continua a defender a justiça empresarialista e
mercantil como realização humana, que sintoniza o indivíduo com o que hoje
verdadeiramente interessa e que permite tecer os contornos realistas da
verdadeira justiça; neste caso, o cidadão autenticamente justo será aquele que
se tornou relevante ou ajustado na ordem institucional do mercado, isto é, o
cidadão eficiente e vendável.
Como é fácil de ver, a justiça empresarialista e mercantil tem relações
profundas e privilegiadas com o mundo das organizações. E tanto é assim que os
vários estudos que têm vindo a ser publicados neste domínio, de pendor
sobretudo psicossociológico, reportam as suas vantagens, designadamente na
ótica da eficiência organizacional. Nesse caso, praticar a justiça
organizacional pode significar que alguém se tornou vulnerável aos objetivos da
organização e que não só contribuiu para cumprir as metas de produção como
excedeu as expectativas. Será este o verdadeiro trabalhador de qualidade,
ordeiro, controlado, eficiente, respeitador, disciplinado, que vai permitir à
organização fazer mais com menos; será este, enfim, o verdadeiro cidadão
organizacional (Estêvão, 2012c).
Se este perfil corresponde a uma verdadeira humanização do trabalhador, tal
continua a ser um ponto cego do atual humanismo, sobretudo quando é sabido que
a qualidade, juntamente com a flexibilidade e as equipas de trabalho se
constituem com frequência, dentro das novas condições em que se processa a
gestão dos recursos humanos, no "tripé da subjugação" (Legge, 1995).
Enfim, a noção de justiça manipulada pelo novo humanismo (que preferencialmente
opta pelo conceito de equidade por uma maior vinculação à produtividade
económica e à contribuição individual) tende a provocar, mesmo quando invoca a
ética e a responsabilidade, a erosão dos valores da autoconfiança, da
colegialidade, da solidariedade, da justiça do cuidado, embora as ideologias do
empreendedorismo, da iniciativa e da responsabilidade individuais, das
competências, mobilizadas agora, possibilitem um olhar mais doce e mais humano
para as justiças que oprimem e instrumentalizam.
Para concluir este ponto, a essência da justiça do mercado advém da sua
capacidade de nos tornar naturalmente felizes pela posse, consumo e intercâmbio
de bens e produtos. Isto significa que recolocar no plano da visão formas ditas
extremas de justiça social, que se prendam, por exemplo, com o combate às
formas institucionalizadas de dominação e opressão nas relações de trabalho, na
tomada de decisões ou no plano cultural, como nos propõe Young (1990), pode
equivaler ao gesto de distanciamento crítico que poderá dar-nos uma visão mais
completa e radical da realidade social e política
5. Para um outro humanismo
Parece-me evidente que as vicissitudes por que tem passado a democracia exigem
um esforço na sua revitalização, enquadrando devidamente os direitos humanos e
a justiça na era dos mercados, sem serem adulterados na sua essência.
Assim, e a título descritivo e meramente exemplificativo, poderemos deparar-nos
com várias conceções de democracia que apontam para processos de construção e
defesa dos direitos distintos assim como para conceções diversificadas de
justiça.
No sentido de visualizar mais facilmente as relações entre estes conceitos,
observe-se o Quadro_I.
Pelo quadro torna-se claro que estes três conceitos, embora inter-relacionados,
não coincidem no seu sentido. Por outras palavras, a democracia não se
identifica com a justiça nem com os direitos, nem a justiça é completamente
sobreponível ao conceito de direitos humanos.
A este propósito, e reportando-me apenas à relação entre estes dois últimos
conceitos, considero, por exemplo, que a fundamentação da democracia nos
direitos assentes na justiça é, ou pode ser, mais radical que a fundamentação
da democracia nos direitos humanos explicitados na Declaração Universal dos
Direitos Humanos de 1948. Na linha de Rawls (1993), por exemplo, tal proposição
é perfeitamente compreensível e defensável.
Para além deste debate (e desta polémica), um outro cenário que defendo como
solução que dignifica a democracia, os direitos e a justiça é aquele que no
Quadro_I coloca a democracia "como direitos humanos" (Goodhart, 2005), uma vez
que reposiciona a democracia no campo das preocupações e da luta pelos direitos
compreendidos na sua essencialidade emancipatória e pela justiça social em
qualquer parte do mundo. Aqui, ser justo equivale, na verdade, a ser cidadão
solidário, que investe continuamente na cidadanização dos direitos de todos,
tendo em vista a emancipação. O contexto político-social e cultural propício ao
seu desenvolvimento é o da "demoglobalização", como alguns propõem, construída
a partir de baixo, em interdialogação e cordialidade, com as diversas forças
sociais e as múltiplas comunidades políticas.
Também eu considero que só na conversação bottom-up, em consensos sobrepostos,
construídos primeiramente em cada comunidade política concreta e depois entre
comunidades, é possível progredir numa conceção mais consistente de justiça
global e, ao mesmo tempo, construir uma plataforma consensualizada de direitos
universais, universalidade esta que não poderá ser, por isso, uma
universalidade de retas paralelas, mas antes uma "universalidade de
confluência" (Herrera Flores, 2000), construída a partir de baixo.
Trata-se então de uma proposta mais cosmopolítica de democracia, de justiça e
dos direitos, que não deixa de assumir igualmente as formas do respeito, do
amor e da solidariedade, que constituem o tripé do reconhecimento de Honneth
(2003), ao serviço do incremento de interações em que os sujeitos se interessam
reciprocamente pelos seus percursos de vida diferenciados, porque se valorizam
entre si e, deste modo, se experienciam a si próprios como valiosos para a
sociedade e para o mundo. Será por este caminho que passará, na minha
perspetiva, a construção da eticidade democrática e cosmopolítica e da própria
democracia entendida como direitos humanos (Estêvão, 2012b, 2012a).
Conclusão
Muitos têm ingenuamente acreditado nas virtudes intrínsecas do novo humanismo
para regular, de forma quase automática, a vida coletiva e, noutro plano, o
próprio liberalismo enquanto sistema económico e político.
Por outro lado, muitos outros estão convictos de que o modelo representativo,
muito formal e pouco substantivo da democracia tradicional já não serve. Então,
haverá que encontrar outros compromissos, outras definições, outros recursos.
Torná-la mais adaptável, mais flexível, mais líquida, mais desterritorializada
é, pois, o desafio que a democracia contemporânea deve enfrentar para melhor
corresponder ao carácter elástico do mundo social contemporâneo, para melhor
enquadrar a plasticidade dos estados e das experiências de dominação ordinárias
estruturantes do nosso quotidiano e para melhor combater a crítica do
desencantamento, da inautenticidade da vida quotidiana no cosmos capitalista
(ver Boltanski & Chiapello, 1999 e também Martuccelli, 2001).
A este propósito, e como os dois primeiros autores alertam, muitos esquecem-se
da capacidade regenerativa do capitalismo, que aproveita, de facto, as críticas
que lhe são dirigidas (por exemplo, de alienação no trabalho ou de mecanização
das relações humanas) para se renovar, encontrando, deste modo, pontos de apoio
moral que lhe faltam e dispositivos de justiça que o tornam mais humanizado.
Não obstante a importância da denúncia da obscuração do campo visual' por
parte do novo humanismo aqui descrito, há que ir mais além e anunciar um outro
humanismo, que não só exercite a ética da crítica à governamentalidade
estabelecida pelos interesses e exigências do Mercado, mas também a ética da
justiça e dos direitos, a ética do cuidado, do reconhecimento e da
solidariedade, quer em relação aos que nos são próximos, quer aos que nos são
distantes.
E assim se fará luz, creio, sobre os pontos cegos' que na ideologia oficial do
humanismo atual não emergem ou são ocultados por outros conceitos (ou pelos
mesmos conceitos, embora ressemantizados), mobilizando-nos para um outro olhar
sobre a democratização da sociedade, a justiça e o empenhamento nas lutas pela
dignidade própria e do outro. Assim emergirá um outro humanismo, com contornos
de um verdadeiro contra-humanismo alternativo, assente nos direitos humanos e
na sua narrativa emancipatória e onde todos seremos reconhecidos como
verdadeiros "sujeitos políticos e de políticas" (ver Arroyo, 2012, p. 330).