Um professor, um currículo?: Um estudo com duas professoras de Matemática do
3.º ciclo
Introdução
Vivemos, actualmente, um período de desenvolvimento curricular, nomeadamente no
que respeita à disciplina de Matemática no Ensino Básico. Essas mudanças
curriculares são consequência de diversos acontecimentos que têm ocorrido na
última década. Em 2004, foi publicado o primeiro relatório do PISA (GAVE, 2004)
que revelou que os alunos portugueses estavam abaixo dos seus pares europeus no
que respeita à literacia matemática. Em 2005, foram realizados os primeiros
exames nacionais do 3.º ciclo. Em consequência dos maus resultados obtidos, o
Ministério de Educação solicitou aos professores que realizassem uma reflexão
conjunta sobre as razões que os poderiam explicar. Em 2006, o Ministério da
Educação lança o Plano de Acção para a Matemática (ME, 2006), com vista à
melhoria do ensino desta disciplina, do qual fizeram parte o Programa de
Formação Contínua em Matemática para os 1.º e 2.º ciclos de escolaridade, o
Plano da Matemática e a elaboração de um novo currículo para a disciplina,
homologado em 2007 e em vigor, de forma generalizada, em 2010/2011.
Diversos autores (Canavarro, 2003; Pacheco, 1996, Gimeno, 2000; Roldão, 1999a)
consideram que o professor é um elemento chave no processo curricular. Deste
modo, é pertinente saber como cada professor faz a ponte entre os documentos
prescritos e a sua prática, ou seja, como exerce o seu protagonismo curricular.
Este artigo baseia-se numa investigação realizada no âmbito de uma dissertação
de mestrado. O estudo tem como objectivo estudar o protagonismo curricular de
duas professoras de Matemática do 3.º ciclo do Ensino Básico e a forma como
estas se relacionam com o currículo prescrito. Para orientar o estudo, foram
formuladas as seguintes questões:
Como interpretam os professores o currículo oficial de Matemática?
Qual o grau de liberdade que sentem na gestão curricular que desenvolvem?
Como o justificam?
Como fazem a sua gestão curricular?
O currículo
A palavra currículo é de origem latina ' currere ' e significa caminho,
jornada, trajectória, percurso. A definição de currículo não é, até ao momento,
consensual na comunidade científica internacional ou portuguesa. Como tal, o
desenho e a forma como se desenvolve o currículo dependem da perspectiva de
cada um (Pacheco, 1996; Paiva & Guimarães, 2006). Vilhena (1999, p. 35)
refere que, face às diferentes definições de currículo que têm vindo a ser
publicadas,
é totalmente desaconselhável (e indesejável até, porque empobrecedor) a
proposta de uma definição mais abrangente, pretensiosamente detentora da
verdade, dada a carga ambígua deste conceito polissémico (...).
Em Portugal, o conceito de currículo tem vindo a ser desenvolvido entre a
comunidade de investigadores e professores, embora ainda muitos professores
utilizem programa ou currículo como sinónimos (Paiva & Guimarães, 2006).
Roldão (1999b) considera que tal se deve ao facto dos programas terem tido um
carácter prescritivo muito forte. Assim, o currículo acaba por ser encarado
como um programa: um "corpo rígido e uniforme de conhecimentos"
(Roldão, 1999b, p. 37). A autora considera que os programas são necessários na
medida em que estes definem linhas de orientação e métodos de aprendizagem, mas
"são sempre apenas instrumentos do currículo" (p. 45) que devem ser
modificados não para que o programa seja cumprido, mas sim para que o currículo
seja cumprido.
Em 2001, foi publicado o Decreto-Lei nº 6/2001 que reorganiza os novos
currículos do Ensino Básico. Neste decreto define-se currículo nacional como
o conjunto de aprendizagens e competências a desenvolver pelos alunos ao longo
do Ensino Básico, de acordo com os objectivos consagrados na Lei de Bases do
Sistema Educativo para este nível de ensino (2º artº, 1).
Porfírio (1998) considera que o currículo deve ser encarado como
o conjunto de experiências de aprendizagem (basicamente organizadas pelo
professor e que portanto reflectem a sua intervenção no que constitui o
currículo) e as actividades que os alunos desenvolvem (e que reflectem a
intervenção do aluno no que é o currículo (p. 32).
Pacheco e Paraskeva (2000) defendem que o currículo deve ser visto como um
projecto, cuja construção e desenvolvimento são interactivos, implicando
unidade, continuidade e interdependência entre aquilo que se decide, o
currículo normativo escrito, e o processo de o colocar na prática feito pelos
professores, não seguindo uma filosofia de top down (acreditando que as
mudanças devem ser concebidas pelo poder administrativo), mas reconhecendo que
a actuação do professor depende não só das estruturas, como também das suas
vivências e experiências. Reconhecem ainda a importância do papel do aluno na
construção do currículo, de modo que este o sinta como seu.
Nesta linha, Vilhena (1999) avança com uma tipologia possível de currículo: o
currículo real(ou aberto) ' o que "o aluno tem oportunidade de
aprender" (p. 64), sendo o conhecimento filtrado pelo professor (mediador
curricular) a partir do currículo normativo (escrito pela entidades
governamentais), o currículo oculto ' os conhecimentos/atitudes/valores que o
aluno adquire e que não são ensinados de forma intencional por parte do
professor, e o currículo nulo ' os conhecimentos que "o aluno não tem
oportunidade de aprender" (p. 78).
Considera-se nesta investigação a definição de currículo de Gimeno (2000) que
se baseia num modelo interactivo subdividido em vários níveis que se relacionam
e se influenciam mutuamente: o currículo prescrito, definido por equipas
especializadas por proposta do Governo; o currículo apresentado, constituído
pelos programas, manuais e outros documentos de apoio à prática lectiva, onde
são apresentadas as principais linhas do currículo prescrito; o currículo
moldado pelos professores, traduzido nas planificações que o professor ou grupo
de professores elabora de forma a colocar em prática o currículo prescrito; o
currículo em acção, como sendo o conjunto de aprendizagens que efectivamente o
professor coloca em prática na sala de aula; o currículo realizado, que traduz
o que os alunos aprendem e, por último, o currículo avaliado, que diz respeito
àquilo que o professor avalia.
Durante o desenvolvimento curricular são tomadas diversas decisões em vários
contextos. Pacheco (1996) considera três contextos principais de gestão: o
político-administrativo, onde é elaborado o currículo prescrito, assim como o
apresentado por equipas especializadas ou autores de materiais no caso do
currículo moldado, o de gestão, que considera as decisões tomadas a nível
regional ou escola ' e o de realização, reuniões de grupo e sala de aula.
O currículo de Matemática
A Matemática é uma disciplina obrigatória do Ensino Básico Português. Algumas
das justificações para a sua inclusão no currículo do ensino básico são: a sua
utilidade para o dia-a-dia, o possibilitar desenvolver capacidades para
intervir no mundo, a sua contribuição no desenvolvimento científico e
tecnológico e a sua importância cultural e social (DGIDC, 2007). Em Portugal, o
currículo de Matemática tem sofrido várias alterações resultantes, em parte, de
influências internacionais (ex: NCTM, 1994), estudos nacionais (ex: Abrantes,
1994) e avanço tecnológico (ex: calculadoras gráficas).
À data em que foram recolhidos os dados (ano lectivo 2006/07), o currículo de
Matemática era constituído pelos programas de Matemática de 1991 (ME. DGEBS.,
1991a; 1991b), o Currículo Nacional do Ensino Básico (DEB, 2001) e a Lei de
Bases (1986). Os dois primeiros documentos foram criados com dez anos de
intervalo pelo que apresentam diferenças nas finalidades, conceitos
estruturantes e orientações (Santos et al, 2007). Relativamente às finalidades,
no documento de 1991 é enunciada uma lista de capacidades e conceitos
específicos da Matemática, enquanto no documento de 2001 se recorre a conceitos
ou ideias mais aglutinadores sobre o valor e o papel da aprendizagem da
Matemática. No documento de 1991, os objectivos gerais e específicos estão
organizados em torno de temas matemáticos, dividindo-se em conhecimentos,
capacidades e atitudes, já o documento de 2001, organiza-se em torno da ideia
de competência matemática "que envolve, de forma integrada, um conjunto de
atitudes, de capacidades e de conhecimentos relativos à matemática" (DEB,
2001, p. 43). Há ainda a destacar as diferenças no modo como as tecnologias são
abordadas e os níveis de raciocínio propostos em cada ciclo.
O professor como protagonista curricular
Dada a importância que os professores têm na implementação do currículo, Roldão
(1999a) considera que o professor terá de ser "decisor e gestordo
currículo" (p. 48, a bold e em itálico no original) na medida em que tem
de decidir e agir perante diferentes situações, utilizando o seu conhecimento
profissional para lidar com situações concretas. Desta forma, pode considerar-
se que o professor é o principal protagonista (Canavarro, 2003; Pacheco, 1996)
das decisões curriculares, uma vez que tem de tomar várias decisões,
individualmente ou em grupo, aquando da planificação do currículo prescrito '
currículo moldado pelos professores ' e na aula, na sequência da resposta dos
seus alunos às tarefas por ele propostas, currículo em acção ' e na escolha e
elaboração dos instrumentos de avaliação ' currículo avaliado.
No entanto, cada professor é um indivíduo único. A interpretação que cada
professor faz do currículo é diferente, devido às suas características
pessoais, à concepção que tem de educação e da própria Matemática e,
consequentemente, a forma como coloca em prática, podendo assim criar situações
de aprendizagem distintas (Canavarro, 2003; Gimeno, 2000).
Na investigação levada a cabo por Canavarro (2003), as diferentes
interpretações e valorizações que as duas professoras participantes têm de
currículo são consequência das suas personalidades, das responsabilidades que
sentem enquanto professoras, da sua visão da Matemática, das finalidades do
ensino e de condições associadas à prática lectiva. As professoras identificam
como factores influenciadores nessa interpretação: o carácter prescritivo do
currículo, as limitações do calendário escolar, os recursos consultados, o
apoio dos colegas, as características dos alunos e, ainda, o peso e a
importância do exame nacional.
O estudo exploratório levado a cabo por Mosquito (2008) sobre as práticas de
professores de Matemática do 3.º ciclo da área da Grande Lisboa revelou que os
professores davam especial importância à aprendizagem de conceitos (cerca de
noventa por cento), seguindo-se-lhe os hábitos de trabalho e a resolução de
problemas.
Dadas as características de cada professor, a forma como cada um se relaciona
com o currículo poderá ser também diferente. Tanner e Tanner (citados em
Gimeno, 2000) consideram três formas possíveis: imitação-manutenção, que traduz
uma perspectiva em que o professor se limita a cumprir o currículo prescrito,
em última análise, sem qualquer influência sua; mediação numa perspectiva em
que o professor é o mediador entre o currículo e aquilo que os alunos aprendem;
e orientador gerador na medida em que o professor constrói o seu próprio
currículo. A relação com o currículo pode ser justificada de modos diversos.
Segundo Pacheco (1996), a normativa, quando o professor recorre ao currículo
prescrito para justificar a forma como faz; o processual, quando recorre ao
decidido no grupo dos seus pares, perspectivando o currículo; e a discursiva,
quando justifica o que faz pelas suas convicções.
A interpretação que cada professor faz do currículo implica uma série de
tomadas de decisão que visam geri-lo. Consideramos que a gestão curricular pode
ser encarada como um processo de tomadas de decisão estruturadas em várias
dimensões: analisar ' reflectir sobre os conteúdos a leccionar e como; decidir
' optar por metodologias; concretizar a decisão ' desenvolver a acção decidida;
avaliar ' não apenas os resultados mas também o desenvolvimento; prosseguir '
reorientando ou abandonando a decisão tomada (Roldão, 1999b).
Para Ponte (2005) existem dois níveis de gestão curricular: um nível macro e um
nível micro. Considera a nível macro o planeamento da prática lectiva:
elaboração das várias planificações (anual, trimestral, unidade, semanal) que
poderá ser individual ou colaborativo (Santos, 2001) e a nível micro a
realização da planificação na aula. O autor refere que, na planificação e
realização da aula, o professor deverá ter em conta os objectivos do currículo,
os alunos e as condições físicas da sala de aula. Destes factores dependerá o
tipo de ensino que proporá e, consequentemente, a actividade que o professor e
o aluno terão no decorrer da aula.
Metodologia
Neste estudo optou-se por uma investigação qualitativa interpretativa (Cohen et
al, 2000) com design de estudo de caso (Stake, 1994; Yin, 1989) visto que as
questões formuladas assentam no como e no porquê e se procurou interpretar as
palavras e as acções dos participantes.
Dadas as características da investigação, optámos por a realizar numa escola
onde a primeira autora trabalhara - uma escola da zona da Grande Lisboa com 3.º
ciclo e ensino secundário - de modo que os professores não se sentissem muito
inibidos com a sua presença nas aulas ou nas reuniões com os seus pares. Foi
pedida autorização à escola para a realização do estudo. Foram definidos como
critérios para selecção das professoras: pertencerem ao quadro da escola (desta
forma, ambas conheceriam a escola e a comunidade educativa), leccionarem o
mesmo ano de escolaridade (para se poder comparar práticas quando leccionassem
as mesmas unidades), e terem diferentes tipos de participação na comunidade (de
forma a perceber se existe alguma relação entre a participação na comunidade e
a forma como justificam as suas decisões no que respeita ao currículo). Foram
contactados três professores e após uma conversa informal onde se explicou o
objectivo do estudo foram seleccionadas duas professoras que concordaram em
participar no estudo e consentiram que os dados recolhidos fossem publicados,
preservando o anonimato dos vários intervenientes. Foram atribuídos a estas
professoras os nomes fictícios de Inês e Sara.
Visto se tratar de um estudo interpretativo, Stake (1994) considera necessários
obterem-se os dados por várias vias para que estes possam ser confrontados e,
consequentemente, as conclusões que deles se extraem possam ser fiáveis. Por
este motivo, foram utilizados como instrumentos de recolha de dados: a
entrevista semi-estruturada às professoras, que foi gravada em áudio e
posteriormente transcrita integralmente (Fontana & Frey, 1994), a
observação não participante de aulas e reuniões (Adler & Adler, 1994),
registadas em áudio e transcritas apenas as partes que se consideraram
fundamentais para a realização deste estudo, e a recolha documental (Bogdan
& Biklen, 1994), onde se incluiem diversos documentos realizados pelos
professores e o diário de bordo da investigadora.
Foram realizadas quatro entrevistas semi-estruturadas a Inês: numa primeira
entrevista procurou-se saber o seu percurso profissional e as concepções que
tem sobre o currículo, as restantes foram reflexões sobre as aulas observadas.
Realizaram-se duas entrevistas semi-estruturadas a Sara: na primeira, procurou-
se saber o seu percurso profissional e na segunda entrevista, mais extensa,
procurou-se reflectir sobre alguns dos aspectos das aulas observadas e saber a
opinião da professora sobre os documentos oficiais que integram o currículo.
Embora, no caso de Sara, apenas se tenham feito duas entrevistas os dados
recolhidos permitiram responder às questões do estudo.
Assistiu-se a três reuniões do grupo do 8.º ano, que tiveram como objectivo,
respectivamente, a elaboração da planificação anual, o balanço da planificação
e do Plano da Matemática. Quanto às aulas, a investigadora observou algumas
antes da recolha dos dados para que alunos e professoras se habituassem à sua
presença, tendo-se áudio-gravado três aulas de Inês e quatro aulas de Sara.
A análise de dados recorreu a domínios pré-definidos através do quadro de
fundamentação teórico. Foram considerados: a pessoa e a profissional; o
currículo prescrito; e a gestão curricular. A gestão curricular incluiu as
categorias propostas pelo NCTM (1994): o ambiente de aprendizagem, as
actividades matemáticas, o discurso de professor e do aluno e o ensino e a
aprendizagem, onde se incluiu ainda a subcategoria turma.
Inês
A pessoa e a profissional. Inês tem cerca de cinquenta anos. É morena, com o
cabelo grisalho curto, de estatura média, veste-se de forma descontraída, sem
grandes preocupações com a moda. É uma pessoa simpática, educada, atenciosa,
que parece preferir passar despercebida a ser o centro das atenções.
Formou-se em Engenharia Química no Instituto Técnico de Lisboa, no entanto
nunca exerceu a profissão por, naquele tempo, ser considerada uma profissão
difícil para uma mulher. Deste modo, enveredou pelo ensino. No primeiro ano
leccionou Matemática e nos três seguintes Físico-Química, mas assim que teve
hipótese voltou a leccionar Matemática. Quando teve oportunidade de fazer a
profissionalização em exercício, fê-lo.
Entrou em 1986 para a escola onde ainda hoje lecciona. Desde essa altura tem
desempenhado diversos cargos: delegada de departamento, coordenadora da Área
Escola, Directora de Turma, responsável pelas instalações. Na altura da
investigação, Inês é delegada de departamento, Directora de turma e lecciona o
8.º e 12.º anos.
Inês aparenta ser uma pessoa preocupada com a comunicação e a partilha de
experiências entre colegas tendo ao longo dos anos trabalhado colaborativamente
com outros colegas de Matemática ou de outras disciplinas na elaboração de
exposições e na preparação e leccionação de aulas. Tem procurado, sem sucesso,
como delegada de departamento, criar momentos semanais para discutir as
práticas de sala de aula ' as suas e as dos seus colegas: "Não nos
juntamos para debater este tipo de questões: "é assim, temos de dar este
conteúdo qual é a melhor maneira? Como é que costumas dar?" Refere que a
resistência surge principalmente por parte dos colegas que com ela estão na
escola há alguns anos. Inês considera que estes já se acomodaram e por isso
acabam por não sentir necessidade de alterar as suas práticas ao contrário dos
professores que ainda estão no início de carreira: "Eu continuo a achar
que de facto os colegas que são mais novos (...) ainda não ganharam os tais
vicios, o tal acomodar e que vêm com um espirito diferente e que trazem um novo
espírito para o grupo".
Dentro da sala de aula, Inês diz procurar criar momentos em que os alunos
partilhem as suas ideias visto considerar que ensinar não é só leccionar os
conteúdos previstos no currículo.
O currículo de Matemática. Quando questionada sobre o currículo de Matemática,
Inês refere o programa de Matemática de 91. Acredita que o programa dá-lhe
liberdade para reordenar. Considera que é um roteiro que pode ser alterado
desde que se percorram todas as paragens: "Eu por mim não fico presa. Eu
alterava radicalmente a ordem de algumas coisas, radicalmente não, estou a
exagerar um pouco!".
Para Inês, cumprir o programa é trabalhar os conteúdos de modo que os
"objectivos mínimos sejam atingidos" e, sempre que acha necessário,
ir um pouco mais longe mesmo que não exista nenhuma indicação expressa no
programa:
É efectivamente dar os conteúdos que são indicados, não é? Procurando que os
objectivos sejam atingidos, pelo menos os objectivos mínimos. (...) Agora eu
acho que nós devemos fazer mais do que só dar o programa, não é? (...) [O
programa refere que deve ser abordado um conteúdo] mas apenas como actividade
lúdica e eu digo, isto só não chega! Devemos fazer uns calculozinhos, pronto!
Inês encara o 3.º ciclo como o é de facto, um ciclo ' um espaço de três anos em
que pode trabalhar com os alunos de forma a apropriarem-se dos conteúdos
propostos no programa. Desta forma, por vezes, faz várias alterações ao roteiro
proposto nos programas da disciplina. Por exemplo: a unidade de estatística,
habitualmente, lecciona no 8.º ano, e as simetrias aborda no 9.º ano, quando
lecciona o capítulo das transformações geométricas:
Por exemplo, (...) no 7.º ano dá-se um bocadinho de estatística, não é? (...)
Então porque é que se dá aquilo no 7.º, e não se dá tudo no 8.º?
No que respeita à avaliação e aliado ao facto de ter continuidade pedagógica
com as suas turmas durante o ciclo, gere a avaliação sumativa como um ciclo,
podendo aprovar um aluno à sua disciplina num determinado ano, mesmo que este
não tenha feito uma avaliação satisfatória nos vários conteúdos, dando assim
mais tempo para que o aluno faça as aprendizagens necessárias para completar
com sucesso o 3.º ciclo:
Vejo como um ciclo (...) Senão se calhar não daria nota, nível três, por
exemplo, a alguns alunos no 7.º ano. (...) estamos sempre a tempo de limar
arestas e de consertar, complementar qualquer coisa que não foi apanhado em
determinado momento até ao 9º.
Considera que os conteúdos são estanques e que os alunos se apercebem disso.
Esta concepção tem alterado as suas práticas ao longo dos anos, não só ao nível
da planificação das aulas, como também na elaboração dos testes. Por exemplo,
numa das aulas observadas, a professora propôs a resolução de uma ficha de
exercícios de consolidação sobre equações do 2.º grau, a pares. Durante a
realização da ficha, os alunos começaram a sentir dificuldades na resolução das
equações do 1.º grau que surgiam após a aplicação da lei do anulamento do
produto:
P: Tomem lá atenção! Muitos de vós têm dúvidas nas equações do 1.º grau não é
suposto, mas vá lá!
A1: Para mim, é! Para mim é!
A2: Para mim também.
P: Estas, por acaso, não foi há muito tempo que demos.
A professora escreve a equação no quadro:
-3x + 1/2 = 0
Em seguida explica como se resolve.
Inês considera esta situação grave. No entanto, não sabe como colmatá-la e
sente dificuldade em explicá-la:
A coisa é assim, por mais que não se queira as coisas estão compartimentadas na
cabecinha deles e por isso, as coisas que ali naquele momento em que é dado até
fazem sentido, não o fazem noutra altura.
Por este motivo, os instrumentos de avaliação têm sofrido modificações,
nomeadamente os testes. No passado sempre procurou que todos os conteúdos
viessem no teste, no entanto, neste momento, tenta não misturar conteúdos que
considera que podem ser difíceis para os alunos, dizendo-lhes quais os que
sairão no teste. A par dos testes escritos, recorre também ao portefólio como
instrumento de avaliação.
Relativamente ao Currículo Nacional do Ensino Básico (DEB, 2001), Inês não acha
que tenha modificado as suas planificações ou aulas com a entrada em vigor
deste documento. Confessa sentir-se um pouco confusa com a terminologia
utilizada: "Olha, é assim: parece muito palavreado que eu sei que eles
acharam que ia ajudar de certeza..."
Para Inês, o currículo de Matemática resume-se ao programa de 1991. Sente
liberdade para geri-lo ao longo do ciclo, não só ao nível dos conteúdos, como
ao nível da avaliação sumativa que faz dos seus alunos.
Gestão curricular. Para Inês, o trabalho de preparação das aulas começa com a
elaboração da planificação anual realizada na primeira reunião de grupo que
coincidiu com a primeira reunião assistida. Coube a Inês presidir à reunião.
Elaborou-se a planificação anual recorrendo à do ano anterior ajustando o
número de aulas ao calendário do presente ano lectivo. Nas duas reuniões
seguintes, também presididas por Inês, foi feito o balanço da planificação,
constatando-se que todos os professores presentes seguiam planificações
diferentes a ritmos diferentes.
Relativamente às decisões tomadas em grupo, Inês sente-se dividida. Por um
lado, considera que deveria respeitar as decisões tomadas em grupo,
nomeadamente a planificação anual: "Estou a tentar, a sério, cumprir a
planificação do grupo", por outro lado, de acordo com as suas turmas, não
sente constragimentos em não levar a cabo as decisões tomadas em grupo,
informando mais tarde os seus colegas das suas decisões:
(...) A planificação é feita com a estatística em determinada altura. Eu acho
que tenho liberdade para chegar à minha turma e dizer: " não, nesta turma
eu não vou dar a estatística este ano " , percebes?
Inês refere que quando planifica as suas aulas recorre à planificação anual. No
entanto, faz ainda uso do conhecimento que tem das suas turmas, do programa, de
manuais, de livros teóricos ou lúdicos ou de outros materiais relevantes assim
como de conhecimentos que adquiriu nos vinte anos que lecciona. Consulta ainda
o programa prescrito, pontualmente. Para si, é importante criar um fio condutor
entre os conteúdos que lecciona: "Que prioridades assumo na planificação?
Bem, em primeiro lugar, é dar um fio condutor àquilo".
Assistiu-se às aulas da turma do 8.º X. Trata-se de uma turma com 28 alunos que
Inês acompanha desde o 7.º ano. Considera que a maior parte dos alunos são
motivados e atentos, que aspiram prosseguir estudos, no entanto existe outro
grupo de alunos que a professora tem dificuldade em motivar:
Uma dúzia, posso dizer, que são alunos bastantes interessados (...) Há ali
alunos que não me parece que vão conseguir fazer o que quer que seja. Nem sei
muito bem como é que lhes poderia dar a volta!
Nas várias aulas assistidas, a actividade dos alunos e da professora são
desenvolvidadas a partir de uma ficha de trabalho que propõe de acordo com as
características das turmas. A escolha pela ficha de trabalho prende-se com o
facto de acreditar ser importante para os alunos terem um suporte escrito com
os exercícios/problemas ou ideias importantes de determinada unidade para
estudarem, assim como é uma forma de controlar a sequência dos exercícios
(quando ficha de exercícios) a realizar. Utiliza o manual pontualmente para
marcar um trabalho para os alunos resolverem em casa, embora sinta que, mesmo
neste caso, os exercícios do manual não a satisfaçam por completo: "Até
nem tenho utilizado muito o manual a não ser para passar alguns exercícios
(...)".
Inês procura diversificar as metodologias de trabalho na sala de aula. O
trabalho a pares ou o trabalho de grupo são justificados pela mensagem que quer
passar aos alunos de entreajuda, de partilhar de ideias com o colega, de ajuda
ao próximo:
Porque um diz qualquer coisa para o outro que ajuda a resolver aquele problema
na altura e o inverso também (...) Isto já é uma guerra tão grande, uma selva
tão grande não é? (...) Que tem de haver ali um espírito que os una de alguma
(...) Pelo menos o de se ajudarem até porque o professor não pode fazer tudo.
A metodologia adoptada depende dos conteúdos temáticos a abordar. Acredita que
o tema de Geometria se adequa melhor a metodologias onde os alunos possam
trocar impressões, enquanto o tema Números e cálculo é mais propício ao
trabalho individual.
Em síntese, Inês recorre nas suas planificações a médio e curto prazo às
planificações de grupo, manuais, livros e ao programa. Procura diversificar as
metodologias que utiliza na sala de aula dependendo dos temas a abordar.
Sara
A pessoa e a profissional.Sara tem cerca de quarenta anos. É loura, com cabelo
pelos ombros. Procura seguir as tendências da moda. É simpática, um pouco
nervosa, prestável.
Enquanto aluna sempre gostou de Matemática, considerando ter sido uma boa
aluna. Licenciou-se em Investigação Operacional na Universidade Nova. Começou
por trabalhar num banco. No entanto, após ter recebido um convite para
leccionar Matemática e ter experimentado, optou por se tornar professora. Fez a
profissionalização na Universidade Nova e mais tarde tirou o Mestrado em
Estatística e Gestão de Informação.
Lecciona há cerca de dezoito anos, doze dos quais passados nesta escola. No ano
lectivo em que decorreu a investigação, Sara leccionou Matemática ao 3.º ciclo,
estudo acompanhado, formação cívica e tinha ao seu cargo uma direcção de turma.
Para Sara, ensinar é sinónimo de educar. Assim, procura ensinar não só
conteúdos, mas também formas de estar e atitudes perante a vida:
É assim como ainda te disse há bocadinho é educar, estar numa sala de aula,
estar a aprender, brincar também com a Matemática, essencialmente e ter
respeito uns pelos outros.
Sara refere que, enquanto professora, o que gosta é de dar aulas, do contacto
que tem com os alunos dentro e fora da sala de aula. Não gosta de se reunir com
os colegas: "De dar aulas [riso]. Nada de reuniões, por favor".
Fora da sala de aula tem desenvolvido actividades com outros colegas como
visitas de estudo e passagens de modelos. Aponta como momentos marcantes, nos
últimos anos, as reuniões de classificação dos exames do 9.º ano: "(...) O
que me tem marcado mais agora ultimamente é a correcção vá, não se chama assim,
mas a correcção dos exames do 9.º ano".
O currículo de Matemática. Quando questionada sobre o currículo de Matemática,
Sara expressa incompreensão e mesmo desconfiança face às reformas curriculares,
a que tem assistido: "A visão que eu tenho de há uns anos para cá... a
noção de reforma é pegarem em vários capítulos, misturarem e tirarem um ao
calhas".
Considera importante que o professor conheça os programas, tanto o do ciclo que
lecciona, como também do ciclo anterior e do seguinte, para melhor fazer a
ponte do que os alunos já deram e daquilo que vão dar. Relativamente ao
programa do 3.º ciclo refere que é extenso, nomeadamente nos 7.º e 8.º anos.
Sara refere que o programa é limitador e estanque na medida em que se sente
obrigada a cumpri-lo, não só nos conteúdos que aborda nas suas aulas, como
também na ordem que é sugerida: "(...) como é que se vai dar o capítulo de
funções sem dar o capítulo de equações, primeiro?" Reconhece que a este
nível o grupo disciplinar pode ter alguma autonomia em propor uma nova ordem
para os conteúdos a abordar, maior do que a do professor ao nível individual,
mas não total:
Eu acho que são muito importantes as reuniões de planificação. Mas não é nas
reuniões de planificação que vamos ter toda a autonomia! Nem pensar! Porque o
programa do Ministério não nos dá essa autonomia!
Considera como sua obrigação cumprir o programa no sentido de seguir as
planificações estipuladas, visto se tratar de uma responsabilidade que o
professor tem não só para com os alunos, como para com os colegas. Desta forma,
sente que a planificação elaborada em grupo é bastante importante pois visa
uniformizar na escola os conteúdos que estão a ser leccionados num determinado
ano de escolaridade.
Quando questionada sobre o currículo, enfatiza o papel do programa, dizendo que
o documento Currículo Nacional Competências Essenciais (DEB, 2001) foi um
documento que não entrou na sua prática pois diz não o perceber: "Porque
acho que não é a introdução de, de um novo parâmetro que vai re-alterar a nossa
faceta, a nossa noção do que entendemos que é a, que é a a competência ou
não".
Em síntese, Sara considera não ter liberdade para alterar o programa
individualmente, reconhecendo que o grupo disciplinar tem alguma autonomia para
o fazer.
Gestão curricular. Para Sara, a planificação feita em grupo no início do ano é
de extrema importância: "(...) temos uma planificação e mal ou bem temos
de a cumprir. E se alteramos um capítulo temos de justificar porquê".
Assim, as planificações das suas aulas são construídas tendo por base a
planificação realizada em grupo que adapta consoante o número de aulas e o
ritmo das turmas, procurando desta forma cumprir a planificação acordada:
"Colocar dentro da nossa cabeça que é um esquema que temos que tentar
cumprir. Claro que pode ser adaptado, mas tentar cumprir".
Nas três reuniões do grupo assistidas pela primeira investigadora, Sara apenas
esteve presente na primeira onde se acordou a planificação anual. Durante a
reunião, Sara colocou várias questões aos colegas, nomeadamente sobre o número
de aulas que achavam suficientes para leccionar cada unidade e quando proporiam
os momentos de avaliação.
Para elaborar as suas planificações Sara diz recorrer a outros manuais
escolares, para além do adoptado na escola, e à internet. Quanto aos
instrumentos de avaliação, Sara menciona apenas os testes.
Assistiu-se às aulas do 8.º Y de Sara, uma turma com dezasseis alunos em que a
maioria deles se encontravam fora da escolaridade obrigatória. Sara tinha
baixas expectativas relativamente ao aproveitamento da turma, embora
considerasse que os alunos eram trabalhadores e participativos durante as
aulas: "Era fraca, mas era trabalhadora. Eu penso que, de alguma maneira,
todos a nível geral eram empenhados em tentar aprender apesar de terem muitas
dificuldades".
Nas aulas assistidas a professora utilizou sempre o manual, tanto na resolução
de exercícios da unidade de equações do 2.º grau, como para a exploração de
conteúdos na unidade semelhança de triângulos. Procurou criar um ambiente de
sala de aula em que os alunos tinham à vontade para colocarem as suas dúvidas.
Sara intervém, incentivando os alunos, e colocando-se no seu lugar: "Não
precisas de estar nervoso! Este é muito difícil! Mas por ser muito difícil não
quer dizer que não se faça".
Sara salienta que uma das suas preocupações é que os alunos utilizem uma
linguagem rigorosa. Por exemplo, aquando da leitura de um exemplo do livro, por
parte de uma aluna, a professora interrompe para corrigir:
P: L. Lê.
L: AB
P: Comprimento do segmento de recta.
L: Comprimento do segmento de recta AB a dividir pelo comprimento do segmento
de recta XY (...)
P: Uhmm XZ. Então vamos lá ver qual é sempre a linguagem que devemos utilizar
nos critérios.
Durante as aulas observadas, a professora opta por metodologias diferentes:
resolução individual de exercícios com posterior correcção no quadro pelos
alunos - no caso das aulas assitidas da unidade equações do 2.º grau; leitura
de algumas páginas do manual, cópia de exemplos e exercícios resolvidos do
manual, resolução a pares de exercícios - nas aulas assistidas da unidade
Semelhança de Triângulos. Relativamente a esta última unidade, Sara justifica
esta opção metológica pelo facto de se tratar, na sua opinião, de um conteúdo
muito difícil pois, para além da linguagem específica, os exercícios resumem-se
a pequenas desmonstrações: "Eu acho que este tipo de matéria é quase uma
demonstração".
Em síntese, Sara recorre à planificação de grupo, a manuais e à internet para
preparar as suas aulas. Nas suas aulas utiliza o manual escolar, não só para
introduzir novos conceitos, como para os trabalhar.
Conclusões
Inês e Sara têm uma formação inicial diferente, mas ambas realizaram a sua
formação profissional após iniciarem a sua prática profissional. Para as duas
professoras ensinar é mais do que leccionar os conteúdos previstos no programa.
É também transmitir uma forma de estar com os outros. Sentem-se ambas
satisfeitas com a profissão que exercem, embora salientem aspectos distintos.
Inês considera importante a colaboração com outros pares, de Matemática ou não,
na partilha de experiências de sala de aula (que inclui construção de materiais
e reflexão sobre a sua utilização); Sara destaca que aquilo que gosta na
profissão é o contacto que tem com os alunos, dentro e fora da sala de aula,
confessando que não gosta de reuniões, embora as considere necessárias.
O documento Currículo Nacional do Ensino Básico não está presente no discurso
das professoras, por acreditarem que este documento apenas trouxe uma alteração
de nomenclatura, com a introdução da palavra competência, não constituindo uma
mais valia para a sua prática lectiva. Poder-se-á perguntar até que ponto esta
mudança curricular interrompida a meio do seu percurso por razões de ordem
política terá contribuído para esta situação. Assim, ambas consideram que o
currículo de Matemática se resume ao programa de 1991, referindo-se-lhe como de
uma listagem de conteúdos se tratasse. No entanto, nas suas aulas, assim como
nos seus discursos, estão presentes outros elementos para além dos conteúdos:
procuram promover um ambiente que desenvolva os objectivos relacionados com
atitudes e valores assim como a comunicação escrita e oral. Inês procura ainda
diversificar as metodologias de sala de aula e os instrumentos de avaliação.
Relativamente ao currículo prescrito, Inês sente que tem legitimidade em moldar
o currículo de acordo com as suas turmas e as concepções que tem dos temas,
pelo que ao longo do ciclo, altera a ordem do roteiro de aprendizagem nele
proposto de forma a criar um fio condutor entre as várias unidades que aborda.
Desta forma, Inês relaciona-se como mediadora do currículo prescrito (Tanner
& Tanner, citados em Gimeno, 2000). Sara é bastante crítica face ao
currículo prescrito. Considera-o limitador, não só nos conteúdos que aborda,
como na sequência que é proposta. Desta forma, a sua planificação ou é igual ao
roteiro de aprendizagem proposto, trabalhando com os seus alunos apenas os
conteúdos nele previstos ou é igual à planificação acordada em grupo. Sara
sente-se obrigada a cumprir a planificação acordada em grupo embora,
ocasionalmente, dadas as características dos alunos, possa alterar o número de
aulas em que aborda um ou outro conteúdo. Por outras palavras, o relacionamento
de Sara com o currículo prescrito e moldado é do tipo imitação-manutenção
(Tanner & Tanner, citados em Gimeno, 2000).
Inês e Sara leccionam na mesma escola, um mesmo ano lectivo e como tal
pertencem ao mesmo subgrupo disciplinar. Ambas as professoras reconhecem a
importância das reuniões de grupo, mas por motivos diferentes. Inês considera o
trabalho colaborativo relevante visto que a partilha de experiências permite o
seu desenvolvimento profissional. Já Sara considera importantes as reuniões de
grupo pois legitimam decisões tomadas na elaboração do currículo moldado e,
consequentemente, no currículo em acção e avaliado. A participação de ambas nas
reuniões é também distinta. Inês ouve e dá opiniões, Sara questiona de forma a
legitimar algumas das decisões que terá de tomar. Talvez por esse motivo, as
professoras sintam uma legitimidade diferente em cumprir as decisões tomadas
colectivamente. Enquanto Inês se divide entre respeitar e adaptar aos seus
alunos, Sara procura seguir à risca o que foi acordado pelo grupo, podendo
introduzir alguma alteração muito pontualmente. Desta forma, a legitimação
curricular de Inês é do tipo discursiva, enquanto a de Sara é tendencialmente
processual (Pacheco, 1996).
As professoras desenvolvem o currículo em acção (Gimeno, 2000) também de forma
diferente. Inês recorre a diversos mediadores curriculares na preparação das
suas aulas: manuais, livros teóricos e/ou lúdicos e, pontualmente, o programa.
Nas aulas, usa fichas de trabalho elaboradas por si e também exercícios do
manual para trabalho de casa. Como instrumentos de avaliação, recorre a testes
e ao portefólio. Utiliza diversas metodologias de ensino optando por um ensino
directo ou de aprendizagem exploratório tendo por base as concepções que tem
sobre os temas a abordar, o seu conhecimento profissional e as suas turmas.
Desta forma, Inês é orientadora-geradora (Tanner & Tanner, citados em
Gimeno, 2000) do currículo em acção e do avaliado. Já Sara é mediadora entre o
currículo apresentado (manuais escolares e internet) e as suas turmas, na
medida em que selecciona exercícios do manual que propõe aos alunos, optando
por um ensino directo (Ponte, 2005). Esta prática poderá estar relacionada com
a experiência profissional que a professora reconhece ter, assim como a
perspectiva que tem em relação às decisões tomadas no grupo disciplinar.
As professoras apresentam diferenças de participação na escola e na comunidade:
Inês é uma professora activa, sempre disponivel para participar com outros
colegas noutras experiências de aprendizagem, não necessariamente na área da
Matemática, sentindo necessidade de partilhar experiências com os seus pares;
já Sara, embora participe nas actividades da escola, diz não gostar de reuniões
e das formações que tem participado destaca as de classificação dos exames do
9º ano. Esta diferença de participação na escola e de formação contínua pode
explicar a forma como as professoras se relacionam com as várias facetas do
currículo: Inês sente maior confiança nas escolhas que faz, enquanto Sara tem
necessidade de se sentir apoiada pelo grupo de Matemática nas decisões que toma
sobre o currículo prescrito. Também na sala de aula (currículo em acção), esta
diferença está presente. Inês constrói ou recria fichas de trabalho que propõe
aos seus alunos procurando diversificar as metodologias de acordo com a unidade
e os objectivos que pretende promover; Sara recorre ao manual para leccionar,
diversificando as metodologias propostas.
O título que motivou o estudo inicial foi uma interrogação: um professor, um
currículo? Neste estudo procurou-se controlar alguns factores, como por
exemplo, a escola e o grupo disciplinar (que com dinâmicas diferentes poderiam
explicar diferenças entre os professores), o ano de escolaridade assim como as
unidades temáticas em que se observou a prática dos professores para que mais
fácilmente se pudessem encontrar pontos comuns e/ou diferenças. Este estudo,
tal como outros, quer nacionais (ex: Canavarro, 2003), quer internacionais (ex:
Gimeno, 2000) evidenciam que a forma como o professor molda o currículo
prescrito que lhe é proposto se relaciona com as suas concepções, o seu
conhecimento profissional, a sua personalidade, a turma com que trabalha e a
forma como participa na comunidade escolar. Em suma, o presente estudo
contribui para uma resposta positiva à questão inicialmente formulada. Por
outras palavras, cada professor tem o seu próprio currículo.