Livros de Alfabetização e de Português: os professores e as suas escolhas.
Livros Didácticos: entre a escolha e a avaliação
Nota de Leitura
BATISTA, Antônio A. G. & VAL, Maria da Graça C. (Orgs.) (2004). Livros de
Alfabetização e de Português: os professores e as suas escolhas. Belo
Horizonte: Autêntica.
A colectânea organizada por Antônio Augusto Gomes Batista e Maria da Graça
Costa Val insere-se no PNLD (Plano Nacional do Livro Didáctico), o programa da
iniciativa do Ministério da Educação brasileiro que, desde 1996, se ocupa da
avaliação, aquisição e distribuição gratuita de livros didácticos às escolas
públicas do ensino fundamental (a que basicamente corresponde o Ensino Básico
português). O PNLD enquadra-se num cenário de desenvolvimento de políticas
públicas que voltam as suas preocupações para o acesso e disponibilização aos
professores de recursos didácticos mais qualificados nas salas de aula, tal
como o referem Val, Bregunci, Silva, Castanheira & Martins (p. 75),
enquadramento que também pôde contar com a elaboração de instrumentos de
controlo curricular, designadamente a criação dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (PCNs).
A obra dá voz aos professores e às suas escolhas de livros didácticos de
Alfabetização e de Português da 1ª à 4ª séries no PNLD/2001, valorizando,
assim, uma dimensão e um agente do processo de avaliação dos livros didácticos:
a figura do professor, nomeadamente o papel que por ele é desempenhado no
momento da escolha do manual escolar e no da sua prática pedagógica.
Os seis capítulos desta colectânea resultam de diversas investigações que se
"voltam para distintas facetas deste fenómeno complexo que é o livro didático"
(p. 9); em todos eles, os seus autores tomam como referência que o livro
didáctico é um elemento central e estruturante do discurso pedagógico, dos seus
conteúdos e processos de transmissão, pretendendo e podendo, através deles,
aceder à concepção, ao desenvolvimento e à avaliação das práticas pedagógicas.
A transversalidade nota-se, ainda, no que respeita à atenção oferecida aos
professores, procurando caracterizar a posição destes profissionais a partir
das suas perspectivas, pontos de vista e critérios de apreciação e avaliação
por eles efectivamente utilizados na adopção e uso dos livros didácticos
(p.30). A importância da obra no Brasil passa por até ela serem praticamente
inexistentes os estudos com enfoque sobre o processo de escolha dos docentes. É
nesta medida que Batista, em "O processo de escolha de livros: o que dizem os
professores?", para captar essas perspectivas, se socorre de categorias prévias
construídas a partir do próprio programa de avaliação, na ausência, pois, de
outras investigações que pudessem auxiliar essa construção.
Os dados devolvidos pelo questionário que foi aplicado, mesmo com as limitações
inerentes a este tipo de instrumento, fazem-nos crer que não há univocidade
entre os critérios utilizados pela avaliação dos livros nas duas instâncias que
se equacionam: avaliação ministerial e escolhas dos professores, considerando
que esta última é também ela uma modalidade avaliativa, na medida em que é
capaz de corroborar ou não a avaliação da primeira; o mesmo será dizer que os
professores não se revêem na avaliação que o ministério faz dos livros.
Com efeito, o não reconhecimento, nesse sistema, dos seus critérios de
qualidade e, assim, revelando "discordância com o sistema de classificação"
(p.42), leva a que muitos professores escolham as obras que não são
Recomendadas com Distinção, justificando essa escolha com critérios da ordem da
estruturação do trabalho pedagógico. Ainda assim, a maioria dos professores que
participaram desta pesquisa admite a preferência por livros classificados com a
menção mais elevada. Esta aparente contradição, notada entre os discursos dos
professores acerca das suas escolhas e os dados do PNLD, impõe uma interrogação
sobre as razões que a motivam.
O discurso dos professores, pela argumentação desvelada na pesquisa, desloca a
discrepância entre critérios nos diferentes níveis de avaliação do Programa
para a figura do aluno, seus interesses e realidades. Na verdade, esse
afastamento radicará nos próprios docentes que não partilham as mesmas
convicções e concepções sobre o ensino e a aprendizagem da língua que a
instância ministerial impõe como mais válida e cujo paradigma teórico, por
pertencer ao domínio do 'construtivismo', se afasta das práticas mais
tradicionais e consagradas de ensino da língua.
Como bem esclarece Sara Monteiro (p. 201), à matriz construtivista se deveu, na
década de 90, o aparecimento de livros didácticos que apresentam uma nova
abordagem de aquisição da língua escrita, centrada nos processos sociais,
afectivos e cognitivos que rodeiam a aprendizagem, um rumo de que o campo
académico já havia significativamente dado conta, em décadas anteriores, quando
as investigações com essa orientação começaram a generalizar-se.
O efeito resultante desses novos paradigmas teóricos educacionais nos manuais
escolares foi o da construção de uma nova identidade para esses livros,
acusando e comprovando, por um lado, a influência do conhecimento que se produz
na academia sobre a produção didáctica e o mundo editorial do manual e, por
outro lado, a circunstancialidade destes recursos.
Se tivermos em conta a voz dos professores, a construção dessa nova identidade
para os livros didácticos a que se assistiu com o PNLD não parece ter sido por
eles acompanhada, pois embora retoricamente reconheçam o valor dessa nova
identidade, não se revelam, contudo, disponíveis para atender às novas
concepções. Refugiam-se, assim e por desconhecimento, num discurso que dá
primazia a um "saber-fazer" escolar ancorado no conhecimento anterior que
possuem das colecções didácticas, das editoras, dos autores, das suas práticas
pedagógicas e que lhes dá maior segurança enquanto profissionais detentores de
um conjunto de competências específicas.
A desconsideração da certificação dos livros inscritos no Programa verifica-se,
por um outro lado, na utilização e no aproveitamento ou antes, na ausência
deles que os professores dizem fazer do Guia de Livros Didácticos,
manifestando preferência pela análise directa das obras e não atendendo às
finalidades com que esse Guia surge e circula pelas escolas e professores.
Tal desacreditação leva-nos a considerar sobretudo pelo exemplo que este
plano pode constituir para outros contextos, como o português até que ponto
terão conhecimento os professores do instrumento (uma grelha de avaliação) que
serve a categorização em menções levada a cabo pelo ministério, da sua
sustentação nas teorias interaccionistas da aprendizagem e como é para estes
profissionais feita a comunicação de todo o processo que envolve o programa
em outras palavras, de que modo chega aos professores o trabalho dos
especialistas que participam do PNLD e como estão os seus pressupostos
expressos nos critérios adoptados para avaliação das obras?
O estudo exploratório de Val et al. vem confirmar os dados do estudo de Batista
no respeitante à tendência, em três níveis de análise do programa escolha,
recepção e uso ', para a escolha de livros didácticos com as menções mais
baixas e a afirmação de um juízo valorativo para os mais recomendados que não
passa, porém, da atribuição de um mérito relativo. A valorização dos livros
recomendados com distinção perde imediatamente todo o seu sentido e potencial
quando os professores não lhes reconhecem capacidade de uso pedagógico no
quotidiano por, segundo os mesmos, carecerem de adequação aos alunos, às suas
estruturas cognitivas, afectivas e sociais e às suas 'enciclopédias'.
Perante estas evidências, às autoras abriam-se dois caminhos de comentários:
justificar as atitudes dos professores para com os livros melhores como fruto
de desactualização de conhecimentos, formação insuficiente e inadequada,
teimosia, resistência em alterar práticas de ensino perpetuadas e pacifistas,
ou um olhar alternativo sobre estes discursos. É este segundo caminho o
escolhido, pelo que estas atitudes são vistas como demandas de uma classe
profissional pelo reconhecimento de um "saberfazer" fundamentado nas condições
laborais e num saber de experiência feito; reflecte-se, ainda, sobre outros
aspectos positivos que se prendem com um reconhecimento expresso da necessidade
de complemento das experiências pedagógicas dos manuais com alternativas
produzidas e seleccionadas pelos professores e sempre condicionadas pelo
contexto em que trabalham.
A nosso ver, esta assunção do manual como um instrumento auxiliar da prática
pedagógica não deve, pois, tornar menos válidos os critérios de apreciação
adoptados pelo PNLD, nem tão pouco colidir com os seus objectivos de melhoria
da qualidade dos recursos didáctico-pedagógicos disponíveis para os
professores. Poderemos pensar, então, que negar a exclusividade do livro
didáctico fortalece a tese de que a sua condição de material impresso não
encerra lacunas, mas antes limitações facilmente compreendidas no que o
trabalho pedagógico acarreta de subjectivo e de imprevisível. Ainda assim, não
nos parece que a natureza altamente situada e redutora do manual possa mitigar
a utilidade da avaliação em torno da qualidade de que o Programa tem procurado
dar conta ou anular a sua função estruturante do discurso e do trabalho
pedagógico, de resto como se comprova pelas afirmações dos professores que
instituem entre os critérios de avaliação mais determinantes "a diversidade de
exercícios e de actividades" (p. 87).
Será também nesta linha de pensamento que Delia Lerner, no seu capítulo "Livro
didático e a transformação do ensino da língua", comentando os resultados de
uma pesquisa anterior de Batista que tomou como objecto "a escolha de livros
didáticos da 1ª à 4ª série" (p. 116), problematiza numa visão pessimista a
contribuição deste género (o manual) para a transformação do ensino da língua.
Partindo da análise de duas obras inscritas no PNLD/2001 de matrizes teóricas
distintas (o interacccionismo e uma prática mais tradicional) e que polarizam
escolhas (uma recebeu a mais alta recomendação, mas foi a menos escolhida,
enquanto que a outra, com a menção mais baixa, foi a mais seleccionada), o
texto de Lerner discute como a "concepção das práticas de linguagem e de sua
aprendizagem propostas pelos PCNs" (p.116) se encontra materializada nos livros
didácticos e como essa operacionalização pode contribuir ou não para a
transformação do ensino da língua.
Neste sentido, a autora dá conta de como, por detrás da elaboração do Guia do
Livro Didáctico, estaria a preocupação de tornar efectivos nas salas de aula os
princípios e as concepções de ensino da língua advogados pelos PCNs que,
segundo Rojo (2002: 32), visam um "leitor/produtor de textos [...] eficaz e
competente da linguagem escrita, imerso em práticas sociais e em atividades de
linguagem letradas, que, em diferentes situações comunicativas, utiliza-se dos
géneros do discurso para construir ou reconstruir os sentidos de textos que lê
ou produz", remando contra a "visão corrente do leitor/escrevente como aquele
que domina o código escrito para decifrar ou cifrar palavras, frases e textos
e, mesmo, daquele leitor/escrevente que, dentre os seus conhecimentos de mundo,
abriga, na memória de longo prazo, as estruturas gráficas, lexicais, frasais,
textuais, esquemáticas necessárias para compreender e produzir,
estrategicamente, textos com variadas metas comunicativas".
Estas duas visões de livros didácticos podem ser potenciais auxiliadores na
categorização dos dois livros didácticos analisados, ajudando na compreensão
das funções que num e noutro se atribuem aos sujeitos da interacção pedagógica,
professor e alunos, assim como das funções que os manuais, distintos entre si,
acabam por cumprir. Apesar, então, de os livros serem diferentes nas funções
que atribuem aos sujeitos da interacção pedagógica um mais próximo dos PCNs,
outro mais afastado as semelhanças entre os dois são ainda assim de notar,
nomeadamente quanto à concepção de livro subjacente que é a de um tradicional
"livro de leitura" (p. 127) em que "as situações de leitura e de escrita
carecem de um propósito explícito, reconhecido" (p.128).
É precisamente sobre esta preocupação com novos modos de ler que o capítulo
"Escolha de livros de alfabetização e perspectivas pedagógicas do ensino da
leitura" se constrói. Nos resultados dos estudos de caso que Isabel Frade
apresenta, polariza-se a intervenção sobre o domínio da leitura, a partir do
reconhecimento nos discursos dos professores de que "há livros de alfabetização
para ler e livros de alfabetização para ensinar a ler" (p. 182), sendo que
aqueles parecem preferir estes últimos. No entanto, essa divisão é atenuada
pela desconstrução de uma certa mistificação criada em torno dos novos livros
de alfabetização com orientação 'construtivista', acabando, assim, por se
problematizar o ensino da língua escrita.
No conjunto percebe-se como o que se trata neste livro são as tensões entre a
tradição e a mudança que uma análise segundo os processos de recontextualização
do discurso pedagógico pode dilucidar. O capítulo de Ceris Silva, "Os novos
livros de alfabetização: o que muda e o que permanece da tradição escolar",
situa-se neste ponto de vista e visa perceber as mudanças significativas
operadas do PNLD/1998 para o PNLD/2001 ao nível das escolhas dos professores1.
O movimento de refluxo que se conclui parece dever-se, segundo a autora, a uma
maior acreditação inicial do Programa junto dos professores e a "um processo de
migração das preferências da primeira categoria para a segunda, decorrente, ao
que tudo indica, de uma avaliação negativa dos RD [Recomendado com Distinção]
por parte dos docentes. Assim, é preciso supor que a categoria RD teria passado
a exercer efeito negativo na escolha" (p. 19). Ao serem confrontados com as
suas escolhas e perante dificuldades com os livros mais recomendados, a
selecção de 2001 concretiza esse juízo quando os professores escolhem obras
capazes de melhor responder aos seus contextos.
São várias as interrogações que estas escolhas dos professores suscitam, entre
outras aquelas que resultam do facto de os professores não escolherem as obras
vinculadas à perspectiva construtivista. Com efeito, Batista (2001) constata
que a maioria dos livros apresentados ao PNLD são "obras fundamentadas na
psicogénese da língua escrita e na concepção de linguagem como enunciação" (p.
26). São também estas perguntas que governam o texto "Exercícios para
compreender o sistema de escrita nos livros de alfabetização", de Sara
Monteiro.
Mas não só de dimensão pedagógica e didáctica se pode reflectir a propósito das
escolhas dos professores; nelas está também imbuída a condição de mercadoria e
de bem comercial que o manual não deixa de ser. Ora, entende-se assim que a
produção didáctica está preferencialmente inserida numa rede económica e em
políticas de adopção estaduais que, ao instituir critérios de inscrição e de
avaliação das obras, acabam por regular essa mesma produção. Consequentemente,
os grupos que se ocupam da produção vêem-se na obrigatoriedade, porque
sobrevivem graças ao mercado escolar e dele retiram a sua maior fonte de
rendimentos, de atender às reivindicações do público que servem em primeira
instância, aos professores que são os agentes da escolha. É, pois, no
posicionamento desta estreita e embricada rede de relações entre o mercado
editorial, a avaliação do PNLD e o mercado escolar que se pode definir e
compreender o estatuto do livro didáctico no Brasil.
Genericamente, as conclusões que têm sido reiteradas a propósito da
implementação e do grau de consecução do Programa relacionam-se com a afirmação
de um princípio que tem que ver com a necessidade de os livros didácticos
partirem de pressupostos da comunidade académica e das orientações
curriculares. Porém, o que os professores buscam nos livros não parece ser o
mesmo que o PNLD tem tentado relevar e valorizar. Os especialistas que se
debruçam sobre estas matérias têm problematizado assim as aprendizagens que a
escola pública brasileira tem disponibilizado e de que forma o PNLD pode
contribuir para essa meta mais ambiciosa que é a melhoria da qualidade da
educação.
É assim que os estudos apresentados nesta colectânea são eles próprios abertos
a futuras investigações como forma de continuar a avaliar a implementação do
Programa nas diversas esferas da sua acção. Compreende-se, também assim, que
esses estudos dêem evidências quanto à necessidade de alterações a proceder a
vários níveis: de implementação do Programa e de formação dos professores, a
avaliar pelo feedback a que esta colectânea tão bem dá voz.
Entre nós, em tempos imprecisos e em que poderá estar próximo o aparecimento de
um instrumento de avaliação oficial para os livros de Português, a leitura
desta obra deixa antever zonas críticas de tensão e intervenção relevantes para
a prática de um sistema de certificação na linha do PNLD: expectativas de tal
sistema, objectivos e etapas de implementação, interacções entre agentes nesse
processo avaliativo, nomeadamente a voz dos profissionais do ensino e o modo
como podem participar ampla e democraticamente, para que as lições aprendidas
neste lugar, como neste caso concreto, sejam produtivas.