O impacto das memórias de vergonha na adolescência: A escala de Centralidade do
Acontecimento
Introdução
As experiências adversas, em particular, as experiências precoces de vergonha
podem funcionar como memórias traumáticas e tornarem-se centrais na
autoidentidade, podendo ter consequências mais tarde na vida do indivíduo, ao
nível da vulnerabilidade à psicopatologia (Gilbert, 1998, 2000; Schore, 2001;
Tangney, Burggraf, & Wagner, 1995).
Diversos estudos têm mostrado que as memórias pessoais vívidas e altamente
acessíveis de um indivíduo podem ter um papel relevante na atribuição de
significado e na estruturação das suas narrativas de vida, modelando a sua
autoconceção (Berntsen & Rubin, 2006, 2007; Pillemer, 2003). A este
propósito Berntsen, Willert e Rubin (2003) chamam a atenção para o facto do
impacto destas memórias poder ser negativo caso as memórias de traumas ou
acontecimentos de vida negativos se transformem em pontos de referência
cognitivos para a organização de conhecimento autobiográfico. Este impacto pode
estender-se à interpretação de experiências não traumáticas e às expectativas
em relação ao futuro.
Nesta linha de pensamento, focada essencialmente na integração da memória
traumática na história de vida e autoconceção do indivíduo, surge a Escala da
Centralidade do Acontecimento (Centrality of Event Scale, CES) desenvolvida por
Berntsen e Rubin (2006). Este instrumento procura avaliar até que ponto a
memória de um acontecimento stressor (evento emocional marcante/traumático)
representa um ponto de referência central para a identidade pessoal e
atribuição de significado a outros acontecimentos de vida.
A escala de Centralidade do Acontecimento (CES) assenta nos pressupostos
fundamentais da teoria da Centralidade do Acontecimento desenvolvida por
Berntsen e Rubin (2006, 2007), segundo a qual a recordação de uma memória
emocional altamente acessível pode funcionar como um ponto de referência para a
organização mnésica de outras experiências de vida. Diversos estudos mostraram
que os indivíduos diferem entre si quanto à extensão em que um forte evento
emocional negativo se torna central para a sua identidade, história de vida e
perspetiva do mundo, estando estas diferenças relacionadas com a gravidade da
sintomatologia associada ao stress pós-traumático (Berntsen & Rubin, 2006,
2007; Bernstsen et al., 2003; Thomsen & Berntsen, 2009). Com base neste
racional teórico, a CES propõe-se medir três funções sobrepostas e
interdependentes das memórias pessoais que se constituem como componentes da
centralidade de uma memória. Nomeadamente, em que medida a memória traumática
se torna (1) um ponto de referência para as inferências no dia-a-dia; (2) um
ponto de viragem na história de vida do indivíduo; (3) um componente central na
identidade do indivíduo (Berntsen & Rubin, 2006, 2007). Segundo estes
autores, e com base na literatura sobre as memórias autobiográficas e
heurísticas de disponibilidade, estas são as três formas responsáveis pela
elevada conexão entre a memória de um acontecimento traumático ou stressor e
outros tipos de informação autobiográfica nas redes cognitivas do indivíduo. De
acordo com Tversky e Kahneman (1973), as heurísticas de disponibilidade
referem-se à forma como julgamos a frequência e a probabilidade de ocorrência
de conjuntos específicos de acontecimentos, sendo influenciada pela facilidade
com que somos capazes de os recordar. Outras características de um determinado
acontecimento, como a raridade, a surpresa e a intensidade emocional, para além
da frequência, influenciam a sua elevada acessibilidade (Rubin & Kozin,
1984). Assim, uma vez que as memórias traumáticas são altamente acessíveis, o
indivíduo terá tendência a sobrestimar a probabilidade de ocorrência desses
acontecimentos no futuro (Berntsen & Rubin, 2006).
Estudos das características psicométricas deste instrumento revelaram uma boa
fidelidade (α=.94) e a análise da sua estrutura fatorial sugere um modelo
unidimensional, concluindo que as três funções avaliadas pela CES não
correspondem a fatores independentes da escala (Berntsen & Rubin, 2006).
A versão portuguesa de Matos, Pinto-Gouveia e Gomes (2010) revelou igualmente
uma boa consistência interna (α=.96) e foi também confirmada a sua estrutura
unidimensional.
Os resultados da aplicação deste instrumento a uma amostra da população geral e
a indivíduos expostos a situações traumáticas evidenciaram que as memórias
traumáticas parecem ter uma maior integração na autoconceção, emergindo como
pontos de referência cognitivos para a organização de outras memórias e
estabelecendo expectativas para o futuro (Berntsen & Rubin, 2006, 2007,
2008; Thomsen & Berntsen, 2009). Também a investigação de Pinto-Gouveia e
Matos (2010) realizada numa amostra portuguesa de adultos mostrou que os
indivíduos cujas experiências de vergonha tinham sido marcantes em determinada
altura das suas vidas, tinham-se tornado pontos de referência para a história
de vida e identidade dos próprios, tendiam a evidenciar maiores níveis de
vergonha interna e externa na idade adulta. Paralelamente, os resultados
indicaram ainda que a extensão na qual uma memória emocional negativa era
central na identidade e história de vida, estava positivamente relacionada com
a depressão, ansiedade e a gravidade do stress pós-traumático (Pinto-Gouveia
& Matos, 2010).
Não obstante a crescente investigação sobre as experiências e as memórias de
vergonha (Tangney & Dearing, 2002), esta tem sido focada maioritariamente
em adultos, sendo importante alargar os estudos a adolescentes e procurar
compreender as implicações destas memórias neste período de vida específico.
A transição para a adolescência é marcada por uma maior vulnerabilidade a
problemas emocionais explicada, em parte, pela grande diversidade de mudanças
fisiológicas, psicológicas, relacionais e ambientais que ocorrem neste período.
Estas mudanças envolvem modelos complexos do eu e dos outros, a formação de uma
nova e autónoma identidade, preocupações com as relações entre os pares, a
estruturação de novas identidades entre os pares e diminuição da influência dos
pais acompanhada por uma crescente importância dos pares enquanto fontes de
suporte (Allen & Land, 1999; Gilbert & Irons, 2009; McLean, 2005;
Steinberg, 2002; Wolfe & Mash, 2006).
Este conjunto de tarefas desenvolvimentais pode tornar a adolescência um
período de especial vulnerabilidade ao impacto das experiências adversas. Por
outro lado, é também nesta altura que os jovens se envolvem em processos de
raciocínios autobiográficos e começam a fazer conexões entre o eu e eventos
passados. De facto, pesquisas recentes têm mostrado que é na adolescência que
as memórias pessoais tornam-se integradas na própria narrativa de vida e
autoidentidade (McLean, 2005, 2008; McLean, Breen, & Fournier, 2010; McLean
& Thorne, 2003; Thorne, McLean, & Lawrence, 2004).
O presente estudo procura contribuir ao nível da avaliação das memórias de
vergonha através da adaptação e análise das propriedades psicométricas da
Escala de Centralidade do Acontecimento, na versão para adolescentes (CES-A).
Paralelamente, pretende examinar o impacto das experiências de vergonha,
verificando se estas podem funcionar como acontecimentos determinantes e
centrais na formação da identidade do adolescente, bem como explorar a relação
entre as experiências de vergonha e sintomas de desajustamento psicológico
(sintomas de ansiedade, stress e depressão).
Método
Participantes
Participaram neste estudo 365 adolescentes, 167 rapazes (45.8%) e 198 raparigas
(54.2%) com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos (M=14.99, DP=1.77) a
frequentar o 3º ciclo do ensino básico e o ensino secundário de escolas
públicas da zona centro do País (M=9.25, DP=1.61). Não foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas entre rapazes e raparigas no que diz
respeito à idade, t(363)=0.23, p=.817, embora se distingam significativamente
em relação aos anos de escolaridade, t(363)=-2.208, p=.028, com as raparigas a
apresentarem uma média mais elevada (M=9.42, DP=1.58) que os rapazes (M=9.05,
DP=1.61).
Instrumentos
Escala de Centralidade do Acontecimento (CES - Centrality of Event Scale;
Berntsen & Rubin, 2006; versão portuguesa para adolescentes de Matos,
Pinto-Gouveia, & Cunha, 2011) pretende avaliar em que medida a memória de
um acontecimento stressor representa um ponto de referência central para a
identidade pessoal e atribuição de significado a outras experiências de vida. É
constituído por 20 itens, cotados numa escala de 5 pontos (1 - Discordo
totalmente; 5 - Concordo totalmente). Quanto maior a pontuação, mais o
acontecimento stressor é percecionada como central para a identidade pessoal.
No presente estudo utilizámos a versão portuguesa (idêntica à de adultos) com
as instruções ligeiramente modificadas da versão original. Enquanto na versão
original é pedido que o respondente se recorde de um acontecimento de vida
stressante ou traumático, na versão Portuguesa especificámos o acontecimento de
cariz stressante ou traumático a uma experiência de vergonha. Inicialmente é
dada uma breve descrição do que é uma experiência ou emoção de vergonha, sendo
posteriormente pedido aos participantes que recordem uma dessas experiências
mais marcantes da sua infância ou adolescência e respondam ao conjunto de itens
que se segue. Os dados psicométricos desta escala serão apresentados mais à
frente, uma vez que este é o objetivo central do presente estudo.
Uma vez que foi pedido aos participantes para responderem à CES-A com base numa
experiência de vergonha, optou-se por utilizar a avaliação da vergonha interna
(ISS) e externa (OAS) para efeitos de validade convergente da CES-A. Para a
realização de estudos de validade discriminante, foram administradas as escalas
de depressão, ansiedade e stress (DASS-21).
Escala de Vergonha provocada pelos Outros (OAS; Goss, Gilbert, & Allan,
1994; versão portuguesa para adolescentes de Figueira & Salvador, 2010) é
composta por 18 itens que avaliam a vergonha externa, i.e., aquilo que os
sujeitos pensam acerca da forma como os outros os veem. Apresentou, neste
estudo, um valor alfa de Cronbach de .95, tradutor de uma boa consistência
interna.
Escala de Vergonha Internalizada (ISS; Cook, 1994/2001; versão portuguesa para
adolescentes de Januário & Salvador, 2011) engloba 24 itens assentes em
descrições fenomenológicas da experiência de vergonha que procuram avaliar a
vergonha interna e 6 itens que avaliam a auto-estima. No presente estudo,
apenas a subescala de vergonha foi utilizada, apresentando uma boa consistência
interna (α=.95).
Escalas de Depressão, Ansiedade e Stress (DASS-21; Lovibond & Lovibond,
1995; versão portuguesa de Pais-Ribeiro, Honrado, & Leal, 2004) são
compostas por 21 itens que avaliam três dimensões de sintomas psicopatológicos:
depressão, ansiedade e stress. No nosso estudo verificaram-se também bons
índices de consistência interna (Depressão: α=.89, Ansiedade: α=.88 e Stress:
α=.90).
Procedimentos
Uma vez que a Escala da Centralidade do Acontecimento apenas tinha sido
aplicada em adultos, foi necessário proceder a algumas alterações para a sua
administração em adolescentes. Conceptualmente trata-se do mesmo instrumento
dispondo presentemente de duas versões, para adultos (CES) e para adolescentes
(CES-A).
Inicialmente as instruções do instrumento foram modificadas da terceira para a
segunda pessoa do singular. Posteriormente, foi realizado um pré teste
constituído por 20 jovens com idades compreendidas entre os 12 e os 18, onde se
pretendeu verificar dúvidas ou dificuldades de compreensibilidade dos itens.
Uma vez que não surgiram dúvidas acerca da formulação dos itens, estes foram
mantidos sem qualquer alteração, tendo apenas sido realizados pequenos
ajustamentos na linguagem das instruções, formato de apresentação da escala no
sentido de tornar mais acessível e atraente a sua utilização. Assumimos uma
perspetiva conservadora que se propunha respeitar a perspetiva teórica
subjacente ao desenvolvimento desta escala, pelo que mantivemos a sua estrutura
original. Assim, inspecionámos as relações entre itens e dimensões,
reproduzindo os procedimentos dos estudos anteriores (versão original e versão
portuguesa).
Após a autorização dos diretores das escolas para a realização do estudo, foi
solicitada a permissão dos pais e consentimento informado dos adolescentes. Os
jovens foram previamente informados acerca dos objetivos do estudo, do seu
carácter voluntário, anónimo e confidencial, bem como do direito de desistência
de participação em qualquer momento. O preenchimento dos instrumentos decorreu
em grupo na sala de aula, demorando cerca de 20 minutos, e supervisionado por
um dos investigadores.
Procedimento estatístico
Na análise dos dados recorreu-se ao software PASW Statistics versão 19.0 (IBM
SPSS Statistics).
Testámos um modelo de Análise Fatorial Confirmatória da estrutura
unidimensional da Escala da Centralidade do Acontecimento para Adolescentes
(CES-A) com recurso ao software Amos (v.19, SPSS Inc. IBM). A análise da
consistência interna dos vários instrumentos de autorresposta foi calculada
através do alfa de Cronbach. A qualidade dos itens da CES-A foi analisada
mediante o cálculo da correlação do item com o total da escala excluindo o
próprio item (Field, 2013; Howell, 2008). No estudo da estabilidade temporal
foi utilizado o coeficiente de correlação de Spearman, dado o tamanho reduzido
da amostra e o Teste t para amostras emparelhadas na comparação das médias da
mesma amostra em dois momentos diferentes. Para comparação de grupos de
indivíduos, rapazes e raparigas, recorreu-se ao Teste t de Student para
amostras independentes (Howell, 2006). Finalmente para o estudo da relação
entre as variáveis em estudo, recorremos à determinação do coeficiente de
Pearson.
Resultados
Análise preliminar dos dados
A validação do pressuposto da normalidade multivariada das variáveis foi
avaliada pelos coeficientes de assimetria (Sk) e curtose (Ku), tendo-se
verificado que nenhuma variável apresentou indicadores de violações severas à
distribuição normal (Sk<|3| e Ku<|10|) (Kline, 2005). A existência de outliers
foi avaliada pela distância quadrada de Mahalanobis (D2), que indicou a
presença de alguns valores extremos (Maroco, 2010), mas optou-se pela
manutenção dos mesmos para não diminuir a variabilidade associada ao fator em
estudo e não limitar uma interpretação relevante nesta análise.
Análise Fatorial Confirmatória
No presente estudo realizou-se uma Análise Fatorial Confirmatória (AFC) como
método confirmatório da estrutura unifatorial da Escala da Centralidade do
Acontecimento numa amostra de adolescentes (CES-A). Esta metodologia, inserida
no âmbito dos modelos de equações estruturais, serve essencialmente para
confirmar padrões estruturais, ou seja, se os factores latentes são
responsáveis pelo comportamento de determinados indicadores (i.e., variáveis
manifestas) de acordo com um modelo teórico (Maroco, 2010). Seguiu-se esta
opção para testar o modelo, uma vez que em trabalhos anteriores os resultados
indicavam a solução unidimensional da CES quer numa amostra de adultos (Matos,
Pinto-Gouveia, & Gomes, 2010) quer numa população de adolescentes (Cunha,
Matos, Xavier, & Faria, 2013). O método de estimação do modelo utilizado
foi o Método de Máxima Verosimilhança (ML; Maximum Likelihood).
Para analisar a qualidade global da AFC observou-se o teste de qui-quadrado (χ2
), que mede a discrepância entre o modelo e os dados (Byrne, 2010) e cujo valor
se pretende que seja o mais pequeno possível. Contudo, este teste estatístico é
muito sensível ao tamanho da amostra e a desvios à normalidade e linearidade
(Schermelleh-Engel, Moosbrugger, & Müller, 2003) pelo que foram utilizados,
em simultâneo, outros indicadores. Assim, utilizaram-se os seguintes índices de
qualidade de ajustamento: qui-quadrado normalizado (χ2
/gl); Goodness of Fit Index (GFI); Root Mean Square Residual (RMR); Comparative
Fit Index (CFI); Tucker-Lewis Index (TLI); Root Mean Square Error of
Approximation (RMSEA). Considerou-se que valores do qui-quadrado normalizado
(χ2
/gl) inferiores a 5 são aceitáveis, valores de GFI, CFI e TLI iguais ou
superiores a .90 correspondem a um bom ajustamento dos dados (Kline, 2005;
Maroco, 2010). Usou-se como referência um valor de RMR inferior a .08 como
indicador de um bom ajustamento, com RMR=0 a indicar um ajustamento perfeito
(Brown, 2006; Joreskog & Sorbom, 1996; Maroco, 2010). Quanto aos valores de
RMSEA foram considerados os seguintes indicadores: inferiores a .05 (excelente
ajustamento), iguais ou inferiores a .08 (bom ajustamento) e iguais ou
inferiores a .10 (ajustamento marginal) (Arbuckle, 2009; Brown, 2006; Maroco,
2010).
A reespecificação do modelo foi feita a partir dos índices de modificação
(superiores a 11; p<0,001) produzidos pelo software Amos e com base em
considerações teóricas (i.e., conteúdo dos itens). Para efeitos de comparação
dos modelos recorreu-se ao MECVI, indicando que o modelo com menor valor de
MECVI é o modelo melhor e mais estável na população (Maroco, 2010).
A qualidade do ajustamento local foi avaliada pelos pesos factoriais
estandardizados (λ≥.50) e pela fiabilidade individual dos itens (R2
≥.25) (Maroco, 2010). A Fiabilidade Compósita (FC) indica a consistência
interna dos itens que refletem o fator, considerando-se valores de FC≥.70
indicadores de uma adequada fiabilidade de constructo (Maroco, 2010).
Os resultados da AFC com base nos índices de ajustamento mostram que o modelo
unifactorial da CES-A apresentou uma qualidade de ajustamento global sofrível:
χ2
(170)=615.673, p<.001; χ2
/df=3.622; GFI=.833; RMR=.086; CFI=.897; TLI=.885; RMSEA=.085, P
[rmsea≤.05]=p≤.001; MECVI=1.925.
De seguida, recorremos à análise dos índices de modificação com o objetivo de
melhorar o ajustamento do modelo. Com base nos valores mais elevados dos
índices de modificação, procedemos então à correlação dos erros de medida dos
seguintes itens: do item 7 (e7) e do item 11 (e11); do item 16 (e16) e do item
17 (e17); do item 1 (e1) e do item 2 (e2); do item 14 (e14) e item 15 (e15); do
item 2 (e2) e do item 9 (e9); do item 1 (e1) e do item 6 (e6); do item 15 (e15)
e do item 18 (e18). Estas correlações também se justificam de um ponto de vista
teórico pela semelhança do conteúdo dos itens (cf. Figura_1).
O modelo simplificado (Figura_1) mostrou uma boa validade fatorial e um melhor
ajustamento aos dados. Apesar do valor significativo do Qui-quadrado, ML χ2
(163)=399,083, p<.001 (valor possivelmente enviesado devido à elevada
sensibilidade deste índice ao tamanho da amostra; Schermelleh-Engel et al.,
2003), os índices de qualidade de ajustamento revelam, de um modo geral, uma
adequação boa da estrutura unidimensional da CES-A à amostra em estudo: χ2/
df=2.448; GFI=.897; RMR=.069; CFI=.945; TLI=.936; RMSEA=.063, P
[rmsea≤.05]=p≤.003; MECVI=1.370. Em relação aos índices absolutos (χ2/df, GFI,
RMR), verifica-se que, apesar dos valores de χ2/dfe GFI serem sofríveis, o
valor do RMR é abaixo do ponto de corte (<.08) (Brown, 2006; Joreskog &
Sorbom, 1996). Quanto aos índices relativos (CFI, TLI) os resultados são acima
dos valores recomendados (.90) (Byrne, 2001, 2010; Kline, 2005). No que
concerne ao índice de discrepância populacional dado pelo RMSEA verifica-se que
o ajustamento dos dados é considerado bom para o intervalo [0.05; 0.08]
(Arbuckle, 2009). Adicionalmente, através do teste de diferenças de Qui-
quadrado verifica-se que o modelo simplificado apresenta uma qualidade de
ajustamento significativamente superior à do modelo original na amostra em
estudo (χ2
(7)=216.59>χ2
0.95;(7)=14.067), bem como um MECVI consideravelmente menor (1.925 versus
1.370).
Relativamente à qualidade de ajustamento local do modelo (Figura_1) verifica-se
que todos os itens apresentam pesos fatoriais elevados, que variam entre .52
(item 7) e .80 (item 10), e fiabilidades individuais igualmente elevadas que
vão desde .28 (item 7 e item 1) até .64 (item 10). A fiabilidade compósita do
modelo simplificado revelou-se elevada, sendo de .97 para o total da escala (20
itens).
Análise dos itens e consistência interna
O estudo da qualidade dos itens revela que existem correlações moderadas a
elevadas entre todos os itens, que oscilam entre (.53 e .78), o que indica que
não é necessário remover nenhum dos itens da escala. A leitura do indicador de
alfa de Cronbach caso o item seja retirado não revela qualquer alteração no
valor da consistência interna (.95) (Tabela_1).
O total da escala apresenta uma média de 52.03 (DP=18.03) e um valor alfa de
Cronbach de .95 o que atesta uma excelente fidelidade.
Os resultados obtidos na CES-A não se mostraram associados à idade (r=-.07,
p=243) e aos anos de escolaridade (r=-.08, p=.643). Não se verificaram
diferenças significativas nos valores médios obtidos entre rapazes e raparigas,
t (363)=-1.77, p=.078.
Fidelidade teste-reteste
A CES-A foi de novo administrada, 1 mês mais tarde, a um grupo de jovens
adolescentes (n=18), obtendo-se um coeficiente de correlação de Spearman de .46
que sugere uma modesta estabilidade temporal. Contudo, quando comparados os
valores médios da escala obtidos nos dois momentos, através da utilização do
Test t para amostras dependentes, verifica-se que não existe uma diferença
significativa nestes dois tempos de medida, t=-0.75, p=.462, o que abona em
favor da sua estabilidade. A fidelidade do reteste apresentou uma excelente
consistência interna (α=.96).
Estudo da relação entre as experiências de vergonha, centralidade do
acontecimento e psicopatologia
A Tabela_2 apresenta a matriz de correlações de Pearson realizadas entre a
subescala da vergonha interna (ISS), a vergonha externa (OAS), a centralidade
das memórias de vergonha (CES) e as três escalas de depressão, ansiedade e
stress (DASS-21).
Os resultados (Tabela_2) mostraram que a centralidade do acontecimento está
positivamente correlacionada com a vergonha externa (r=.54; p<.001), e com a
vergonha interna (r=.52; p<.001) nos adolescentes. Assim, podemos considerar
que adolescentes cujas memórias de vergonha se tornaram pontos de referência na
sua identidade e história de vida, tendem a apresentar valores mais elevados de
vergonha externa e interna.
A centralidade das memórias de vergonha está positiva e moderadamente
correlacionada com a depressão (r=.49; p<.001), com a ansiedade (r=.48; p<.001)
e com o stress (r=.45; p<.001). Por último, como seria expectável, verificou-se
que a vergonha externa e a vergonha interna apresentavam correlações moderadas
a elevadas (Field, 2013), com a sintomatologia psicopatológica.
Validade discriminante
De modo a analisar se os jovens com maiores índices de centralidade de memórias
se distinguiam de indivíduos com pontuações mais baixas na CES-A, relativamente
aos sintomas de depressão, ansiedade e stress, procedemos à formação de dois
grupos (CES-Alto e CES-Baixo) recorrendo ao valor da mediana (Tabela_3).
Os resultados mostram que os grupos se distinguem significativamente
relativamente aos sintomas de ansiedade, de depressão e de stress. Deste modo,
adolescentes cujas memórias de experiências de vergonha se constituem como
pontos de referência centrais para a atribuição de significados, na história de
vida e na identidade pessoal, tendem a manifestar mais sintomatologia
depressiva, ansiógena e de stress, quando comparados a indivíduos com menor
centralidade das memórias de vergonha.
Discussão
À luz da teoria da centralidade do acontecimento, a CES pretende avaliar o
impacto de um determinado evento na história de vida do indivíduo, nomeadamente
em que medida um acontecimento foi central na construção da sua identidade ou
teve um significado fundamental. No presente estudo foi solicitado aos
participantes que respondessem aos itens com base na recordação de uma
experiência de vergonha, considerada marcante e significativa, ocorrida durante
a infância e/ou adolescência, permitindo analisar o impacto de memórias de
vergonha. O objetivo fundamental desta investigação foi adaptar este
instrumento para adolescentes, analisar as suas características psicométricas e
confirmar a sua estrutura fatorial.
Assim, num primeiro momento, a versão portuguesa foi sujeita a ligeiras
adaptações de linguagem nas instruções e sujeita a um pré-teste com
adolescentes no sentido de verificar a compreensibilidade dos itens. A versão
final obtida para adolescentes (CES-A) foi posteriormente administrada a uma
amostra de jovens entre os doze e os dezoito anos.
Seguindo de perto os procedimentos utilizados nos estudos com adultos (Matos,
Pinto-Gouveia, & Gomes, 2010), verificou-se a estrutura fatorial deste
instrumento através de uma AFC. Os índices de ajustamento obtidos permitem
concluir tratar-se de uma estrutura unidimensional, o que abona em favor da
existência de um único padrão interpretável que remete para a centralidade de
um acontecimento, englobando as inferências no dia-a-dia, história de vida e
identidade pessoal. Estes resultados estão em consonância com as conclusões de
Berntsen e Rubin (2006) e com os dados obtidos numa população portuguesa de
adultos (Matos, Pinto-Gouveia, & Gomes, 2010).
A análise da consistência interna dos itens confirma igualmente uma boa
fidelidade deste instrumento e a análise teste-reteste indica uma estabilidade
temporal aceitável. Estes valores são semelhantes aos encontrados em estudos
conduzidos em adultos, quer com a versão americana (Berntsen & Rubin,
2006), quer com a versão portuguesa (Matos, Pinto-Gouveia, & Gomes, 2010).
O sexo e a idade não revelaram qualquer efeito significativo nos resultados da
CES-A, o mesmo acontecendo com estudos em adultos (Matos, Pinto-Gouveia, &
Gomes, 2010). A homogeneidade da amostra em termos de idade (M=14.99, DP=1.77)
poderá explicar a ausência de efeito desta variável.
No que respeita aos estudos de validade, as memórias de vergonha ou a
centralidade do evento (CES-A) encontram-se associadas aos sentimentos atuais
de vergonha externa e interna, mostrando que quanto maior é o impacto destas
experiências (maior a centralidade), maior é a crença de que os outros o vêm de
forma negativa (vergonha externa) e maior a perceção de si próprio como fraco,
sem valor e indesejável (vergonha interna).
Por último, relativamente à validade discriminante verifica-se que os
adolescentes com valores mais elevados de centralidade do acontecimento
reportam significativamente mais sintomas de depressão, ansiedade e stress,
comparativamente aos adolescentes com valores baixos na CES-A. Estes resultados
vão de encontro aos dados obtidos na população adulta (Matos, Pinto-Gouveia,
& Gomes, 2010), bem como estão em consonância com estudos anteriores que
defendem que experiências precoces hostis, e em particular as experiências de
vergonha, podem influenciar a maturação psicobiológica (Schore, 1998, 2001) e
aumentar a vulnerabilidade para a psicopatologia (Gilbert, Allan, & Goss,
1996; Gilbert & Perris, 2000).
O presente estudo apresenta algumas limitações. A utilização de uma amostra da
comunidade impede a generalização destes dados à população clínica, sendo assim
uma recomendação para futuros estudos, nomeadamente a sua aplicação a
indivíduos com o diagnóstico de Perturbação de Stress Pós-traumático. O tamanho
reduzido da amostra no estudo da estabilidade temporal limita a robustez das
conclusões, pelo que se torna importante replicar este estudo. O facto de nas
instruções do questionário ter sido solicitado expressamente a memória de uma
experiência de vergonha (de acordo com os nossos interesses), condiciona a
interpretação dos dados a este tipo de experiência. Porém, modificando as
instruções da CES-A, não as focando unicamente em experiências de vergonha,
esta medida poderá ser utilizada para avaliar a centralidade de outros
acontecimentos stressantes ou traumáticos, tal como a versão original.
Não obstante as limitações apontadas, este estudo tem o mérito de
disponibilizar um novo instrumento para a adolescência permitindo alargar a
investigação sobre o impacto das memórias de vergonha a esta faixa etária. Como
foi referido anteriormente, trata-se de um período desenvolvimental onde a
construção da identidade, o desenvolvimento do raciocínio autobiográfico, da
autoestima e da autonomia assumem um papel relevante. Os resultados obtidos
sugerem que as memórias de experiências de vergonha na infância e adolescência
podem assumir características de centralidade de memória na organização
cognitiva. O mesmo é dizer que estas memórias de vergonha podem constituir-se
como pontos de referência centrais para a atribuição de significados, como
pontos de viragem na narrativa pessoal e como componentes centrais no
desenvolvimento da identidade pessoal. Neste sentido, a identificação precoce
deste tipo de memórias poderá constituir um passo importante em termos de
intervenção psicológica junto dos adolescentes.