Conciliação família-trabalho vivida a dois: Um estudo qualitativo com casais
com filhos pequenos
Introdução
Ao longo do ciclo vital, o indivíduo é confrontado com diferentes desafios e
tarefas desenvolvi mentais. As necessidades de conciliação dos vários contextos
de vida assumem, também, diferentes características ao longo do
desenvolvimento. No presente trabalho centramo-nos na segunda etapa do ciclo
familiar (Relvas, 2006), associada ao nascimento dos filhos, transição
especialmente desafiante para o indivíduo e para o casal. Aprender a ser pai ou
mãe é um processo particularmente exigente e envolve uma necessidade de
reorganização familiar, pela definição de papéis parentais e pela redefinição
das fronteiras em relação ao casal e ao exterior (Relvas, 2006). Devido à
elevada saliência atribuída ao papel parental, por vezes, os casais sentem
dificuldades em delimitá-lo no tempo e no espaço, correndo o risco de
desinvestir noutras áreas igualmente importantes, das quais se destaca a
vivência da conjugalidade em pleno (Alarcão, 2006). Por outro lado, e porque as
necessidades desenvolvimentais dos filhos também imprimem exigências
específicas aos cuidados dos pais e à dinâmica familiar (Carter &
McGoldrick, 2005), optámos por centrar este estudo em casais com filhos na
primeira infância ou em idade pré-escolar. Nesta etapa da vida das famílias, a
necessidade de disponibilidade física e psicológica para o exercício da
parentalidade coloca desafios particulares à conciliação trabalho-família.
As exigências colocadas aos casais têm vindo a ser alteradas ao longo do tempo,
nomeadamente devido a mudanças socioculturais. De facto, nas últimas décadas,
temos assistido a um elevado número das famílias em que ambos os cônjuges
desempenham funções laborais remuneradas (Matias, Fontaine, Simão, Oliveira,
& Mendonça, 2010). No caso português, a década de 60 marcou uma mudança no
paradigma vigente, com a mulher a encetar um movimento de participação ativa
nas esferas até então tradicionalmente masculinas (Aboim, 2007) e, por
conseguinte, a inserção da mulher no mercado de trabalho no nosso país é hoje
evidente. Os dados mostram que, ao nível nacional, a população empregada é
constituída por 52% e 48% de homens e mulheres, respetivamente (INE, 2012). As
motivações económicas são importantes, mas não explicam todo o fenómeno, uma
vez que podemos identificar questões de realização profissional e pessoal, bem
como de manutenção da autoestima (Rice, 1979).
Na atualidade, tanto homens como mulheres desempenham funções laborais
exigentes, nomeadamente em termos do número de horas de trabalho. Ainda assim,
parecem permanecer algumas diferenças ao nível do que é socialmente expectável
na vida familiar para cada um dos géneros. Por exemplo, encontram-se diferenças
no trabalho doméstico, sendo que, apesar do crescente envolvi -mento do homem
neste domínio, a responsabilidade continua a ser predominantemente feminina
(Aboim, 2007). Relativamente às tarefas do âmbito da parentalidade, alguns
casais procuram dividir responsabilidades de forma igualitária (Deutsch, 2001).
Contudo, as tarefas concretizadas pelos pais e pelas mães parecem ser
qualitativamente diferentes: se as mães tendem a assumir uma maior
responsabilidade pelos cuidados diretos e indiretos, os pais revelam-se mais
ativos nas áreas da disciplina e da brincadeira e lazer no exterior (Deutsch,
2001; Pimenta, Veríssimo, Monteiro, & Costa, 2010). Estas especificidades
levam-nos a refletir sobre o conceito de identidade de género. Nesta época de
mudança, em que se espera um crescente envolvimento do homem no cuidado dos
filhos, bem como a sua participação nas tarefas domésticas, persiste a
associação destas mesmas tarefas a valores tendencialmente percecionados como
femininos (nomeadamente, a afetividade e a passividade), contrapondo-se à
masculinidade frequentemente associada ao meio laboral (Aboim, 2007).
Por tudo isto, as famílias em que ambos trabalham deparam-se com um conjunto de
exigências que implicam uma articulação dos diferentes contextos em que se
inserem e dos diferentes papéis (conjugal, parental, profissional) que assumem.
Não obstante, apesar das múltiplas responsabilidades e dificuldades, estes
casais parecem ser geralmente saudáveis e bem-sucedidos (Haddock, Zimmerman,
Current, & Harvey, 2008; Haddock, Zimmerman, Ziemba, & Current, 2001).
Mais, alguma investigação aponta para o facto de os benefícios que retiram da
conciliação dos vários papéis parecerem sobrepor-se às dificuldades existentes
(Matias et al., 2010; Veríssimo, Pimenta, Borges, Costa, Monteiro, Torres,
& Martins, 2013).
Ao longo do tempo, as relações entre trabalho e família têm vindo a ser alvo de
diferentes modelos explicativos na literatura. O modelo da compensaçãodefine as
experiências dos dois domínios como antitéticas, ou seja, pressupõe que estes
se relacionam inversamente (Evans & Bartolome, 1984). Assim, é esperado
que, perante condições insatisfatórias numa das esferas, os indivíduos
respondam com um maior envolvimento no outro contexto. Um segundo modelo
assenta na hipótese da segmentação, que enfatiza a separação do trabalho e da
família na vida individual, assumindo que são domínios distintos, psicológica e
fisicamente e, portanto, independentes (Elizur, 1986). Por fim, encontramos o
modelo da interferência(ou spillover), que assume que as experiências num
domínio influenciam as experiências do(s) outro(s) em que o indivíduo está
envolvido (Sumer & Knight, 2001).
Sumer e Knight (2001) sugerem que estes três processos (compensação,
segmentação e interferência) não são mutuamente exclusivos, pelo que é possível
que alguns aspetos da vida familiar e profissional sejam mais sujeitos à
interferência, enquanto outros sejam mais propensos à segmentação ou à
compensação. Os autores sugerem, ainda, que estas dinâmicas podem diferir entre
indivíduos, bem como no mesmo indivíduo ao longo do tempo, estando associadas a
dimensões distintas, quer da personalidade, quer do contexto (Sumer &
Knight, 2001).
A família e o trabalho são dois contextos que exigem um elevado envolvimento
pessoal e, como tal, podem ser responsáveis pela vivência de alguma tensão por
parte daqueles que os conjugam. O stress, os constrangimentos de tempo e o
aumento da pressão experienciada podem contribuir para a experiência de emoções
negativas que são, por sua vez, transportadas para os contextos de interação do
indivíduo (Rothbard, 2001). Ainda que o estudo do conflito tenha vindo a
prevalecer na literatura, outros autores falam de uma interferência positiva,
facilitaçãoou enriquecimento (Carlson, Kacmar, Wayne, & Grzywacz, 2006;
Greenhaus & Powell, 2006; Rothbard, 2001). Assim, o conceito de
enriquecimento aplica-se a toda a extensão de experiências de um papel que
melhoram a qualidade de vida noutro papel e insere-se numa lógica da expansão
de energia(Marks, 1977).Esta perspetiva defende que o ser humano não dispõe de
uma quantidade fixa de tempo e energia e que, pelo contrário, esta poderá ser
expandida com o envolvimento do mesmo em diferentes domínios (Greenhaus &
Powell, 2006).
Greenhaus e Powell (2006) propõem que o enriquecimento pode ocorrer por duas
vias: a instrumental e a afetiva. A primeira acontece quando um recurso gerado
no papel A é diretamente aplicado no papel B, isto é, quando as capacidades,
habilidades e os valores desenvolvidos num dos domínios (trabalho ou família)
são aplicados diretamente e com sucesso noutro papel (família ou trabalho). O
enriquecimento afetivo, por sua vez, baseia-se na transferência do afeto ou
emoção positivos de um papel para o outro. Neste caso, um recurso gerado num
dos papéis pode produzir no indivíduo afeto positivo, o que, por sua vez,
contribuirá para o elevado desempenho e afeto positivo no outro papel.
Importante referir que as relações entre trabalho e família se fazem pautar por
bidirecionalidade, independentemente de nos centrarmos numa lógica de conflito
ou de enriquecimento (Greenhaus & Powell, 2006). Por outro lado, dada a
complexidade das dinâmicas inerentes ao envolvimento no trabalho e na família,
o enriquecimento e o conflito surgem como construtos independentes, podendo
coocorrer. Assim, é possível que um indivíduo experiencie simultaneamente
interferências negativas e positivas entre as duas esferas (Rothbard, 2001).
Tendo em conta a elevada prevalência de famílias em que ambos trabalham, seria
importante o estudo mais aprofundado das questões da conciliação trabalho-
família, nomeadamente no que diz respeito a condições que favorecem a vivência
positiva da articulação entre os contextos familiar e profissional. Alguns
autores ressaltam esta lacuna na literatura, concluindo que muitas das
estratégias propostas para a conciliação eficaz dos domínios do trabalho e da
família parecem pouco adaptadas às necessidades reais das famílias (Matias et
al., 2010; Vieira, Ávila, & Matos, 2012).
Neste contexto, o presente trabalho assume-se como exploratório e teve como
ponto de partida as seguintes questões de investigação:
1) Como vivem os casais participantes do estudo a articulação das exigências do
trabalho e da família?
2) Que estratégias usam estes casais na articulação das esferas do trabalho e
da família?
3) Como mantêm os casais em estudo a proximidade emocional no dia-a-dia?
4) Qual o papel da intimidade no casal, na articulação das esferas do trabalho
e da família?
Método
Participantes
A amostra foi constituída por 8 casais heterossexuais (16 participantes), em
que ambos os cônjuges desempenhavam uma atividade profissional remunerada a
tempo inteiro. Todas as famílias tinham pelo menos um filho com idade inferior
a 6 anos. Pretendíamos conhecer a realidade de famílias que não tivessem
iniciado a transição para o ensino formal do primeiro ciclo, pela consciência
de que, nesta fase, surgem diferentes dimensões do cuidar (e.g., o apoio nas
tarefas escolares) e uma marcada abertura ao sistema extrafamiliar (Relvas,
2006).
A idade dos homens compreendia-se entre os 33 e os 40 anos, com uma média de
36,25 anos (DP=2,19), e a das mulheres entre os 31 e os 41 anos, com uma média
de 35,13 (DP=3,3). O tempo médio de relação amorosa era de 11,8 anos (DP=4,9) e
o tempo médio de coabitação com o parceiro amoroso de 8,4 anos (DP=3,3). Quatro
casais tinham apenas um filho, 2 casais tinham 2 filhos e 2 casais tinham 3
filhos. As idades dos filhos variam entre 6 meses e 17 anos, tendo todos os
casais filhos na primeira infância ou em idade pré-escolar, sendo que dois
casais tinham ainda um filho adolescente.
A escolaridade dos participantes distribuía-se em 9º ano (M=3; F=1)1, 12º ano
(M=2; F=0), licenciatura (M=2; F=7) e pós-graduação (M=1; F=0). De acordo com a
Classificação Internacional de Ocupações (International Standard Classification
of Occupations), a amostra inclui 7 profissionais de ensino, 4 trabalhadores de
serviços e de vendas, 2 profissionais administrativos de serviço público, 2
artífices e trabalhadores similares, e 1 profissional de saúde. Os
participantes eram da zona do Porto e de Leiria.
O procedimento de seleção da amostra foi realizado por conveniência, na medida
em que os participantes foram selecionados por cumprirem os critérios
definidos, recorrendo-se também ao método de "bola de neve". Assim,
os critérios de inclusão englobavam: (1) coabitar com o companheiro amoroso,
independentemente de serem casados ou de viverem em união de facto, (2) ter
pelo menos um/a filho/a na primeira infância ou em idade pré-escolar, (3) ambos
os cônjuges exercerem uma atividade profissional remunerada a tempo inteiro.
Instrumento
Tendo como objetivo principal estudar o modo como vivem estes casais a
articulação trabalho-família, optou-se por uma metodologia qualitativa, de modo
a aceder ao relato das experiências vividas pelos casais e os significados
construídos em torno delas. Esta opção metodológica prende-se com o objetivo de
alargar o conhecimento sobre o tema, validando a multiplicidade de experiências
possíveis, por contraste com a necessidade de testagem de hipóteses concretas.
A análise não se centrou na quantificação dos dados qualitativos, mas no
recurso a métodos não matemáticos de interpretação, com o objetivo de
exploração de conceitos e relações nos dados, posteriormente organizados num
esquema de interpretação teórica (Strauss & Corbin, 1998).
Recorreu-se, deste modo, a uma entrevista semiestruturada, construída para o
presente estudo (Mendonça & Matos, 2015)2. Para além de recolher alguns
dados demográficos (idade dos participantes, escolaridade, profissão, número e
idades dos filhos, duração da relação amorosa e tempo de coabitação), a
entrevista encontrava-se dividida em diferentes áreas. A primeira estava
relacionada com o trabalho, com questões que procuravam explorar o
enquadramento do mesmo na vida do participante (e.g., "Há quanto tempo
tem este trabalho?"; "Gostaria de me descrever um pouco o seu
trabalho? Fale-me do que faz."), bem como os significados atribuídos ao
mesmo (e.g., "O que significa o trabalho para si? O que lhe traz?";
"Em que medida está satisfeito com a sua vida profissional?
Porquê?"). Exploraram-se, ainda, questões associadas à realização e
satisfação profissionais e a perceção sobre o trabalho do companheiro romântico
(e.g., "Como é o trabalho do seu marido? Costumam falar do
trabalho?").
A segunda temática da entrevista debruçou-se sobre a vida familiar, na qual se
procurava compreender as satisfações e exigências associadas ao papel parental
e as especificidades das próprias crianças (e.g., "Fale-me um pouco dos
seus filhos."; "Em que medida está satisfeito enquanto pai/mãe?
Gostaria que algo fosse diferente?"). Exploraram-se aspetos da transição
para a parentalidade e da rotina familiar (e.g., "Sente que a sua vida
familiar tem mudado ao longo do tempo? Em que medida?"). Algumas questões
procuravam compreender a história da relação conjugal (e.g., "Como é o
seu marido/mulher?"; "Costuma conversar sobre as dificuldades com o
seu companheiro? Costumam conversar sobre o modo como se sentem?"), bem
como eventuais mudanças sentidas ao longo do tempo (e.g., "Fale-me do seu
casamento. Identifica mudanças na relação desde o início?").
Por fim, era abordada a temática da conciliação quer diretamente (e.g.
"Como é que os dois equilibram as exigências do trabalho e da família? O
que faz cada um?") quer através da apresentação de cenários da vida
quotidiana (e.g., "Imagine o fim de um dia normal de trabalho. Gostava de
me descrever como é quando chega a casa?"; "Quereceitas daria a
outros casais para lidarem com as responsabilidades?").
A entrevista qualitativa pressupõe o entrevistado como construtor de
significados, ativo na criação do conhecimento (Gubrium & Holstein, 2001).
Deste modo, pretendeu-se uma abordagem aberta e flexível, com o objetivo de
fazer emergir informação da experiência dos casais, libertando as questões de
qualquer caráter prescritivo. A análise de conteúdo foi realizada com apoio do
programa QSR NVivo 8.
Procedimento
Realizou-se um primeiro contacto telefónico, no qual se apresentavam os
objetivos do estudo e se esclareciam eventuais dúvidas. Caso o casal
concordasse participar, agendava-se uma data para a entrevista, num horário
conveniente para ambos os cônjuges. Os participantes eram informados acerca da
possibilidade de realização da entrevista nas instalações da Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), mas o
local era, em última instância, definido pelos mesmos. Assim, as entrevistas de
dois casais foram realizadas num gabinete de consultas do Serviço de Consultas
de Psicologia da FPCEUP, enquanto outras três tiveram lugar na casa dos
participantes. Um dos casais solicitou, ainda, a realização das entrevistas
numa sala do seu local de trabalho e outros dois em espaços públicos.
As entrevistas foram administradas aos elementos do casal individualmente e uma
imediatamente a seguir à outra, controlando-se assim a possibilidade de
partilha de informações antes do segundo elemento ser entrevistado. Pretendia-
se, desta forma, garantir uma maior genuinidade das respostas e uma posterior
análise diádica menos contaminada. Realizaram-se gravações áudio das
entrevistas para uma maior fidelidade no processo de análise dos dados. Antes
de se iniciar a entrevista, apresentou-se, oralmente e por escrito, o objetivo
do estudo, afirmando o caráter confidencial e voluntário da participação, e a
possibilidade de desistência a qualquer momento da entrevista. Os participantes
tiveram igualmente a informação de que os dados iriam ser unicamente utilizados
para fins de investigação científica. Os participantes preencheram um
consentimento informado relativamente à sua participação no estudo e à
autorização para registo áudio das entrevistas.
As entrevistas tiveram uma duração de aproximadamente 90 minutos e procuraram
abordar várias questões da vida profissional e familiar. Numa tentativa de
adequar as entrevistas, o guião inicial da entrevista foi testado com um casal
e reformulado, com o objetivo de tornar as questões mais claras.
As dezasseis entrevistas foram integralmente transcritas e um primeiro juiz
realizou a análise de conteúdo, criando um sistema hierarquizado de categorias
e suas componentes, com recurso ao QSR NVivo 8. O nível de análise do presente
estudo foi o tema enquanto unidade semântica. A unidade de contexto também foi
considerada nas codificações realizadas. Deste modo, a seleção dos excertos das
entrevistas procurou captar a mensagem subjacente ao discurso global sobre a
temática (Bardin, 1977). As transcrições integrais das entrevistas foram lidas
por um segundo juiz e o sistema de categorias inicialmente construído foi
discutido e reformulado, em conjunto, para uma maior aproximação aos discursos
dos participantes. Ainda que, numa primeira fase, a codificação para a criação
das categorias tenha sido realizada ao nível de cada participante
individualmente, num segundo momento cruzou-se a informação dos dois elementos
do casal, contemplando-se uma perspetiva diádica na análise. Embora se faça
referência à frequência das categorias ao longo da apresentação dos resultados,
a preocupação não é a da quantificação per si como indicadora de
representatividade, mas antes da identificação da diversidade de experiências
de conciliação família-trabalho de alguns casais que são, naturalmente,
qualitativamente diferentes, mas que também têm pontos em comum. Importante
referir que o sistema de categorias emergente dos discursos incluía conceitos
que transcendem o campo da conciliação. Não obstante, no presente trabalho
serão apenas apresentados os resultados relativos a esta temática.
Resultados
A apresentação dos resultados será realizada de acordo com o sistema de
categorias emergente dos discursos. Este é constituído por duas dimensões
principais: Relação entre trabalho e famíliae as Estratégias de conciliação. A
primeira divide-se em três subcategorias, designadamente: Compensação,
Segmentação, Interferência. Por sua vez, a categoria Estratégias de
conciliaçãodivide-se em quatro subcategorias: Intimidade, Coping cognitivo,
Coping emocionale Coping comportamental.Cada uma destas subcategorias apresenta
diferentes componentes, como é possível observar no esquema em árvore
apresentado (cf. Figura_1).
Relação entre trabalho e família
No âmbito da relação entre as duas esferas, os participantes fizeram
referências que permitem identificar os diferentes modelos apresentados na
literatura: compensação, segmentação e interferência.
A compensaçãofoi mencionada por alguns participantes (N=7), mas sempre na
direção do trabalho para a família. A satisfação encontrada na família,
nomeadamente na interação com os filhos, parece contribuir para o bem-estar dos
indivíduos, atenuando o humor negativo decorrente das adversidades encontradas
no trabalho. No que diz respeito à relação conjugal, esta parece desempenhar a
função de porto seguro, no qual os indivíduos procuram o conforto em momentos
de fragilidade, nomeadamente quando vivenciam experiências percebidas como
desagradáveis no trabalho ("A minha mulher é o meu porto de
abrigo.",6M3).
Para muitos participantes (N=13), a segmentaçãoé vista como um objetivo
(componente ideal) ("Isso... trabalho é trabalho e casa é casa.",
8F). Com recurso a verbos como tentare evitar, os indivíduos demonstram o
esforço consciente que lhes exige esta procura da separação das duas esferas.
Quando estão em casa, a maioria dos entrevistados tentanão falar nem pensar no
trabalho ("Faço mesmo o esforço para desligar o botão e, mesmo que esteja
a pensar, faço esforço e digo: acabou!", 7M). Por outro lado, alguns
participantes demonstraram a preocupação de não levar as "coisas de casa
para o trabalho" (5F), ainda que admitam que nem sempre é possível
(componente realidade). Como percebemos, para alguns participantes esta
segmentação é um ideal difícil de atingir ("A gente não devia levar a
casa para o trabalho, nem o trabalho para casa. Mas, às vezes, se calhar passa
um bocadinho...", 8M), mas esta não é a posição generalizada. Uma das
entrevistadas, cujo envolvimento no trabalho é elevado (e.g., tem vários cargos
de responsabilidade no local de trabalho, propõe várias iniciativas para além
do trabalho estipulado) afirma ter facilidade na separação das duas esferas,
referindo: "Consigo chegar bem ao emprego, mesmo depois de ter tido uma
chatice muito grande, com o maior dos sorrisos, e ninguém repara."(2F).
Importa salientar que esta participante parece descrever uma tendência para o
evitamento do parceiro amoroso ("adoro o meu marido... pronto, mas não é
o: não conseguia viver sem ti!";"Eu, se puder evitar por qualquer
coisa esses confrontos, fujo."; "Um afastamento muito grande.
Criado por mim, tenho que admitir. (...) E como não estava bem fisicamente e
detestava, detestava-me... apesar de ele dizer que me adorava de todas as
formas e feitios, afastei-me."), sendo que a literatura sugere que
adultos com características evitantes têm uma maior predisposição para o
investimento no trabalho enquanto fuga das questões relacionais (Hazan &
Shaver, 1990). Por contraponto, o cônjuge expõe a importância que atribui ao
self-disclosure, na medida em que procura que a companheira partilhe o modo
como se sente em relação às diferentes áreas da vida ("Ela é uma pessoa
mais fechada em relação a mim, e tento expressar-me mais a nível sentimental
e... claro que sinto mais do que ela. Ela não se abre assim tanto, e eu tento
puxar por ela para conversarmos ao máximo, no que for possível.", 2M).
Estes resultados parecem ser consonantes com os obtidos por Brunell, Pilkington
e Webster (2007), que pressupõem que uma menor autorrevelação das mulheres
contribui para uma menor satisfação com a relação amorosa nos homens.
Porém, não são todos os participantes que procuram a segmentação, sendo que,
num dos casais, parece verificar-se uma certa fusão dos contextos profissional
e pessoal. Por trabalharem juntos, ambos os cônjuges referem haver um
"complemento" do casal nas duas esferas. Parece existir uma
perceção de disponibilidade do outro, que é visto como companheiro de trabalho
e de vida ("Companheiro, no sentido de companhia! É a companhia que eu
tenho, é a ele que eu tenho! E ele tem-me a mim. E estamos aqui para o que der
e vier.", 3F).
Para além dos diferentes posicionamentos relativamente à separação do trabalho
e da família, também o próprio conceito de segmentação difere de casal para
casal. Se, para alguns, separar papéis passa por tentar não trazer tarefas
laborais para realizar em casa, sem que isso impeça a partilha de assuntos
profissionais com o cônjuge ("Se tiver que falar com o meu marido sobre o
meu trabalho, falo", 1F), outros percecionam este mesmo diálogo como
prejudicial e, portanto, evitável ("E depois falo dos problemas [do
trabalho] com o meu marido, porque no emprego não sou de falar. Tenho
consciência que faço mal, que não devo fazer isso, porque ele fica cansado e
chateado", 7F). As perspetivas sobre a segmentação parecem, ainda, ser
influenciadas pelas características da profissão e pelos significados
atribuídos à mesma. Por exemplo, um dos participantes tem uma profissão de
risco e, neste caso, a segmentação parece surgir como estratégia de controlo da
ansiedade, tanto para o próprio ("Só me lembro[do trabalho] quando tenho
outro dia. Ter que me levantar [risos], e chegar a tempo (...) A qualquer
altura podemos ser chamados para uma situação em que podemos pôr a nossa vida
em risco.", 4M), como para a companheira ("Quando ele chega a casa,
pergunto sempre se correu tudo bem, porque é um trabalho de risco e..., mas não
é uma coisa que nos ocupe muito tempo familiar. Falamos, algumas coisas, de
algumas situações, mas não muito.", 4F). Por outro lado, os participantes
que atribuem ao trabalho significados maioritariamente funcionais ("O que
é o trabalho que me traz? Um ordenado ao fim do mês, que é muito bom!",
8F; "Com o trabalho pagamos a casa, damos de comer à pequenita...e
pronto. É assim, acho que o trabalho, para mim, significa estabilidade.",
8M) desvalorizando questões mais associadas à realização profissional (N=2)
descrevem uma maior facilidade na segmentação ("Trabalho é no trabalho,
mais nada.", 8M).
Ainda que, como referido, encontremos relatos de compensação e de segmentação,
na maior parte das vezes, as duas áreas tendem a interpor-se no dia-a-dia dos
casais, que identificam uma elevada interferência.O estudo deste mecanismo é
complexo e, para uma compreensão mais completa das várias formas que assume,
apresentaremos a análise diferenciada das mesmas.
Interferência positiva na direção trabalho-família. Este aspeto é apenas
referido pelos elementos de um dos casais (casal 3), assumindo, para estes, uma
relevância significativa. Reportam-se à estabilidade profissional enquanto
requisito da própria estabilidade familiar. Assim, a estabilidade profissional
parece contribuir para uma maior tranquilidade, que se associa à predisposição
para experiências mais positivas na interação familiar ("A vida amorosa
só é perfeita se o resto estiver bem alicerçado. E, neste momento, com a nossa
profissão estabilizada, é muito positivo.", 3M).
Interferência positiva na direção família-trabalho. Esta interferência esteve
presente em grande parte das entrevistas (N=9). Os indivíduos referem-se à
família como "estrutura-base" (5F), "a estrutura da minha
vida", "centro da nossa vida" (7M). Este sentimento de
pertença encontrado no núcleo familiar transmite força e "uma
tranquilidade" (1M) que parecem ajudar a encarar os desafios do
quotidiano e, em concreto, da vida profissional ("O facto de ter um bom
núcleo familiar ajuda na vida profissional.", 5F).
Os discursos podem ser lidos à luz da teoria da vinculação, nomeadamente a
partir do conceito de base segura, aplicado à relação conjugal (Waters &
Cummings, 2000). Assiste-se ao apoio e encorajamento de um parceiro à
exploração e prossecução de objetivos pessoais do outro e, designadamente, ao
investimento em contextos diversos, como é o caso do contexto laboral (Hazan
& Shaver, 1990; Vasquez, Durik & Hyde, 2002). Este aspeto é ilustrado
no seguinte excerto:
"Se eu me sentir realizado a nível conjugal com a minha esposa, vou-me
sentir mais forte, porque vou sentir que há ali um amor próximo, um amor único,
que nos une e que nos ajuda a levar a vida para a frente. Isso vai-me
fortalecer muito mais por dentro. E, portanto, quando eu for falar com... ou
ter qualquer relacionamento profissional, ou que seja pessoal, eu vou muito
mais fortalecido.(...) A minha mulher não nos deixa ficar parados. Está
sempre... Leva-me sempre para a frente. Porque, às vezes, temos tendência a
esmorecer, de nos deitar, etc., mas ela está sempre ali! Parece que vai buscar
energia, está sempre pronta a levar as coisas para a frente! Isso é muito bom
para quem está ao lado dela, porque apanhamos boleia dela e vamos com
ela."(7M). Por sua vez, o sistema familiar (cônjuge e filhos) é referido
como fonte de satisfação. Deste modo, identificamos a transferência de humor
positivo em casa para o trabalho ("Saímos de casa com mais energia, com
um sorriso nos lábios, e é mais fácil encarar os problemas do dia-a-
dia.", 4F).
É ainda possível que exista a transferência de competências desenvolvidas no
seio familiar para o desempenho no trabalho. Um dos participantes refere a sua
perspetiva acerca do trabalho desenvolvido pela companheira, cujo desempenho
avalia como "fantástico" (3M), associando as suas competências às
desenvolvidas no âmbito da parentalidade. Esta, porém, não estabelece
espontaneamente esta relação em nenhum momento da entrevista ("Enquanto
mulher, [ser mãe] é uma realização muito grande. E eu gosto imenso de crianças,
não é? Mas uma coisa são os meus alunos e outra coisa são as minhas
filhas.", 3F).
A interferência positiva da família para o trabalho surge com maior
predominância nos discursos das mulheres (N=6) comparativamente com os dos
homens (N=3), algo que poderá estar associado a uma eventual maior saliência do
envolvimento familiar para as mesmas. Por outro lado, não podemos esquecer que
este é um estudo de perceções e um estudo exploratório do discurso verbal dos
sujeitos. Deste modo, a expressão emocional, tendencialmente maior nas mulheres
(Blier & Blier-Wilson, 1989; Fiorentini, 2013), poderá ter uma influência
nesta questão. É possível que as mulheres apresentem uma maior facilidade na
expressão dos aspetos relacionais e emocionais que, emergentes da vida
familiar, influenciam positivamente a vida profissional.
Interferência negativa na direção trabalho-família. No que diz respeito ao
mecanismo de interferência, esta é a direção mais enfatizada pelos
participantes, tendo sido, aliás, mencionada por todos os entrevistados. O
trabalho surge como modelador da vida familiar, não só ao nível das dinâmicas,
dos horários e das rotinas mas, também, da própria estrutura familiar. Por
exemplo, a decisão de ter mais um filho é seriamente ponderada de acordo com as
especificidades da vida profissional, nomeadamente a estabilidade profissional
e as questões económicas ("Era precisoque as condições a nível financeiro
e a estabilidade que existe agora se modificassem. (...) É caro ter um
filho!", 8M).
Novamente, a interferência manifesta-se de diferentes formas. A mais óbvia
prende-se com horários de trabalho exigentes, que "tiram tempo"
(6F) à vida familiar e contribuem para a perceção de "sobrecarga muito
maior" (6F) do próprio e do cônjuge. Esta questão é agravada pelo facto
de, muitas vezes, os participantes terem necessidade de trazer trabalho para
casa. De referir ainda que, de acordo com alguns estudos, o investimento da
mulher no trabalho tem influência nos níveis de stressexperienciados pelo
companheiro (Karambayya & Reilly, 1992). Resultados semelhantes foram
encontrados por Ten Brummelhuis, Haar e van der Lippe (2010), que referem que
os índices de exaustão, irritabilidade e angústia (distress) da mulher têm
influência nos níveis de exaustão, irritabilidade e angústia (distress) do
companheiro, mas não o contrário. Esta questão parece verificar-se no casal 2,
em que a mulher refere investir fortemente na sua carreira, desempenhando um
cargo de gestão ("Sempre tive um bom reconhecimento da minha vida
profissional.",2F). Por sua vez, o marido explica que as exigências do
trabalho da companheira têm uma influência negativa em si, sendo indutoras de
stress("Há certas alturas em que fico stressado, porque ela por vezes não
tem horas para chegar a casa. Reuniões a altas horas, às vezes ao
sábado...", 2M), e dificultam a gestão da dinâmica familiar ("A
nível familiar, também... por vezes o miúdo quer a mãe, e a mãe ao sábado não
está, está em reuniões, ou porque tem exames para corrigir.", 2M).
No casal 5, por sua vez, é o homem quem tem um trabalho especialmente exigente,
que implica inclusivamente passar algumas noites fora de casa. Ao longo da
entrevista, descreve-nos elevados níveis de stress("nunca estou 100%
tranquilo... teoricamente estou de férias, mas estou a atender o telefone,
estou a responder a e-mails, etc.", 5M). Porém, este stressnão emerge no
discurso da companheira, que parece valorizar o investimento do marido na vida
profissional. Ao descrever o companheiro, destaca: "O meu marido é uma
pessoa honesta, trabalhadora, de bom coração, sincero, um ótimo pai e um ótimo
marido.", (5F). Por outro lado, a participante parece adotar uma atitude
flexível, funcionando como apoio na articulação das necessidades da família e
das exigências do trabalho do marido, algo reportado pelo parceiro. De referir
que as características do trabalho da mesma (e.g., não tem necessidade de levar
trabalho para casa) parecem facilitar esta atitude colaborativa.
Verifica-se muitas vezes uma elevada dificuldade em esquecer o trabalho, o que
se traduz numa menor disponibilidade para o envolvimento na vida familiar
("nunca estou 100% tranquilo", 5M). Parece, ainda, ser comum (N=9)
a transferência para a família do humor negativo gerado no trabalho ("Ela
nota que eu ando um pouco em baixo, devido ao trabalho. Interage um pouco com a
família", 2M), bem como do stressprofissional ("O stress do dia-a-
dia e depois chegar a casa e eles[as crianças] pegarem-se... eles às vezes
exageram e por tabela exagero eu também.", 6M).
De forma expressa ou implícita, surgem, repetidamente, relatos de cansaço
físico e, sobretudo, psicológico que se traduzem frequentemente na
indisponibilidade para interagir de forma positiva com os filhos ("Chego
extremamente cansado. Nesses dias é difícil para me concentrar para conseguir
brincar com eles como gostaria.", 7M). Dada a elevada saliência que o
papel parental assume na vida dos indivíduos ("[Os meus filhos] são parte
de mim. Eu sem eles não sou eu, já. (...). Acho que, se me faltasse algum,
morria parte de mim, mesmo. Não sei imaginar a minha vida sem eles.", 6F;
"A minha filha é tudo. (...) Se tivesse que dar tudo o que tenho por uma
ou outra[filha e esposa], desfazia-me das coisas sem problema nenhum.",
8M), todas estas questões contribuem para a emergência de marcados sentimentos
de culpabilidade.
Para além da parentalidade, também a conjugalidade parece ser influenciada
negativamente pelas questões profissionais. Deste modo, o desinvestimento da
relação conjugal parece ser acentuado pelo cansaço para vários participantes
(N=8), associando-se a uma perceção de afastamento do casal ("Também o
cansaço, o trabalho... Tenho consciência que é da minha parte...Às vezes não
nos deixa estarmos tão juntos, tão próximos", 7F).
A tensão experienciada no trabalho reflete-se, em alguns casos (N=2), na saúde
dos participantes ("Eu quase todos os dias chego com dores de cabeça, por
isso o trabalho dá-me muita dor de cabeça", 2M), o que interfere
igualmente com a vida em casa.
Interferência negativa na direção família-trabalho. A interferência negativa
nesta direção parece surgir pontualmente na eventualidade de algum problema
familiar que, segundo os participantes, tende a dificultar a capacidade de
concentração e de investimento no trabalho ("E, se a pessoa não estiver
bem em casa, vai andar no trabalho e vai andar a pensar nisso... não está
concentrado no trabalho", 1M). Verifica-se ainda a transferência do humor
negativo gerado no contexto familiar para o trabalho e os indivíduos descrevem
uma tendência para desencadear interações negativas ("Se a pessoa tiver
uma discussão em casa chega ao trabalho irritado... e, se calhar, começa também
uma chatice no trabalho.", 8M). Ainda, o cansaço decorrente do cuidado
dos filhos pequenos acaba por dificultar algumas vezes o desempenho
profissional ("Basta-me ter uma noite mal dormida, quando a minha filha
era mais pequena, que tinha o dia logo a correr-me muito mal!", 5F).
Por outro lado, alguns participantes (N=4) manifestam a renúncia à persecução
de determinados objetivos profissionais por anteciparem dificuldades familiares
e por recearem comprometer o desempenho do seu papel parental e conjugal
("Fui pensando[num projeto profissional diferente], mas nunca quis porque
sabia o tempo que isso me ia tomar e o que ia perder em casa.", 6M).
A interferência assume, porém, outras formas, associando-se à idiossincrasia da
experiência dos indivíduos. Numa das entrevistas, talvez pelo facto de o
participante desempenhar uma profissão de risco, é relatada a dificuldade de
concentração no trabalho em alguns momentos, por se recordar do filho,
experiência que parece ser vivida com ansiedade ("Fico sempre muito
ansioso porque vem-me sempre ao pensamento o meu filho, e fico ansioso para
chegar a casa e vê-lo cá em casa.", 4M).
A interferência negativa da família para o trabalho é mais vezes referida pelos
homens (N=7), ainda que as mulheres também o abordem (N=5), resultado que
parece diferir dos encontrados em estudos anteriores (Byron, 2005; Heraty,
Morley, & Cleveland, 2008). Tendo em conta a maior quantidade de exigências
familiares das mulheres comparativamente aos homens, poderia esperar-se que
estas relatassem com maior frequência a perceção de interferência negativa da
família para o trabalho. Contudo, esta questão poderá estar relacionada com a
eventual perceção do trabalho familiar enquanto responsabilidade da mulher,
pelo que a realização do mesmo contribuirá para a manutenção e reforço da
identidade de género (Fontaine, Andrade, Matias, Gato, & Mendonça, 2007).
Estratégias de conciliação
Quando questionados acerca das "receitas"que consideram importantes
para lidar com as exigências do dia-a-dia, os participantes identificaram
diferentes estratégias de conciliação das esferas do trabalho e da família,
sendo que algumas destas surgem associadas à intimidade.
A intimidade é um processo interpessoal, no qual dois parceiros se tornam
física e emocionalmente próximos, permitindo-se conhecer o outro e explorar-se
na relação (Reis & Shaver, 1988). Caracteriza-se pela capacidade de
investir em relações onde imperam a partilha e a mutualidade, sem que este
envolvimento implique a perda do sentido de individualidade (Costa, 2005). A
construção da intimidade sofre a influência dos modelos internos dinâmicos do
sujeito face a si próprio (modelo de si) e face aos outros (modelo dos outros),
que surgem como linhas orientadoras do investimento do indivíduo nas relações
de proximidade (Bartholomew & Horowitz, 1991). Estes modelos são
(re)construídos ao longo do tempo, e a forma como evoluem é complexa. Podemos
dizer que são pautados por continuidadedesde a infância até à idade adulta,
visto que as experiências precoces com as figuras de vinculação primárias têm
influência na qualidade das relações futuras e no modo como o comportamento dos
outros é interpretado. São também marcados por descontinuidade, na medida em
que as experiências das novas relações, numa fase mais tardia da vida, poderão
contribuir para a reformulação dos modelos iniciais. Deste modo, um indivíduo
com uma vinculação insegura na infância poderá estabelecer uma relação de
segurança na idade adulta, com um parceiro apoiante e atento às suas
necessidades (Cassidy, 2000; Matos, 2002).
No que concerne à intimidade, Costa (2005) fala da importância do respeito pelo
outro e do investimento na resolução construtiva de diferenças para a
intimidade, questões frequentemente trazidas pelos participantes.
Assim, na subcategoria relativa ao respeito pelo outro,encontramos relatos de
intimidade ("Respeitar e tentar compreender. Ser compreensiva com a
pessoa que está ao nosso lado. Mas principalmente respeitar a pessoa.",
4F). Alguns participantes falam, ainda, da importância da atenção ao outropara
a articulação satisfatória das diferentes esferas ("estar disponível para
estar atento ao outro, e ver se o outro está a ser feliz.", 7M). Por sua
vez, a autenticidadecaracteriza-se pela capacidade da autorrevelação, pela
partilha genuína de aspetos da individualidade, no sentido de "ser
verdadeiro, dizer aquilo que se sente", (3F) e é uma das características
destacadas pelos participantes, enquanto aspeto importante na gestão dos vários
domínios da vida. Os participantes definem ainda, como estratégias de
conciliação, aspetos que favorecem a proximidade do casal. Esta questão parece
estar associada à crença de que é "preciso trabalhar para que a relação
funcione.", (4F). É o caso dos momentos para o casal("Tenho que
voltar a namorar a sério com a minha esposa, tenho que lhe prestar mais
atenção...", 7M). Porém, mais do que a simples existência de momentos a
dois, ter tempo de qualidade com o companheiro parece ser importante para a
maioria dos entrevistados ("Ir tentando reinventar as coisas, e tentar
aproveitar o tempo que temos.", 6M). Ainda que identifiquem como uma
possível estratégia, os casais referem que nem sempre é possível ter este
espaço para a díade, não apenas pelas circunstâncias do quotidiano mas também
porque, por vezes, o subsistema conjugal é intersetado pelo parental.
Por fim, o diálogoé identificado como estratégia pela maioria dos
participantes. Parecem recorrer-lhe enquanto estratégia de resolução
construtiva do conflito ("Se temos um ponto de vista diferente, nunca o
mostramos à frente dela[da filha]. E conversamos depois à parte.", 5F),
mas também enquanto meio de self-disclosure ("Não vou discutir esse tipo
de coisas com a minha mãe ou com o meu irmão, porque é com o meu marido que eu
vivo, é com ele que eu partilho tudo e mais alguma coisa.", 3F) e de
prestação de apoio ao companheiro ("Vejo logo que há preocupação a nível
profissional ou a nível sentimental, dou logo conta disso. Tentamos conversar
um pouco, a ver se resolvemos a situação.", 2M). A integração do self-
disclosurena categoria da intimidade surge na sequência de resultados da
literatura que mostram que a capacidade e o desejo para realizar o mesmo, bem
como a sua adequação ao contexto, parecem estar associados a dimensões da
vinculação ao parceiro amoroso (Mikulincer & Shaver, 2007). Deste modo,
sujeitos seguros apresentam uma maior capacidade de self-disclosuredo que
indivíduos com padrões de vinculação mais inseguros, uma vez que criam
expectativas positivas acerca da disponibilidade e responsividade do outro,
pelo que valorizam e são capazes de autorrevelação, numa frequência e adaptação
ao contexto adequadas (Mikulincer & Shaver, 2007). Nas relações de
intimidade, é esperado um equilíbrio entre as dimensões da proximidade e da
solitude. Assim, o indivíduo que mantém uma vinculação segura é capaz de
autonomia e de estar sozinho, investindo em áreas importantes para si como o
trabalho e, simultaneamente, de serna relação, numa lógica de investimento e de
interdependência mútua (Costa, 2005; Vasquez et al., 2002). A relação de
proximidade que mantém com o parceiro transmite um sentimento de segurança que
inclusivamente incentiva o comporta mento de exploração de contextos externos
ao casal, como é o caso do meio laboral (Fonseca, Soares & Martins, 2006;
Matias, Vieira, & Matos, in press; Vasquez et al., 2002). O comporta mento
de vinculação, por sua vez, caracteriza-se pela procura do outro, especialmente
em situações percecionadas como de ameaça, numa tentativa de restabelecimento
do sentido de segurança percebida (Ainsworth, 1989; Bowlby, 1969). Neste
processo, tem um papel fundamental a ativação do sistema comportamental de
prestação de cuidados do parceiro, que alerta o parceiro para as necessidades
do outro e o motiva a providenciar apoio e conforto (Collins & Feeney,
2000; Collins & Ford, 2010).
Porém, em momentos de crise ou de ativação emocional, nem sempre os sujeitos
procuram o apoio do companheiro. Pelo contrário, em alguns casos verifica-se o
recurso ao evitamento("Eu, se puder guardar sempre tudo para mim, guardo.
Só que, depois, manifesto pela minha forma de reagir. Afasto-me muito, e...
pronto.", 2F), que implica um movimento inverso à procura de proximidade,
através do afastamento do parceiro. A utilização desta estratégia associa-se,
por vezes, à perceção negativa do conflito. Porém, sabemos que a intimidade
também se desenvolve no conflito, que surge como meio para a afirmação e
validação do próprio selfenquanto diferente do outro (Costa, 2005).
A influência da conjugalidade nas dinâmicas trabalho-família surgiu, ainda, no
estudo de Vieira e colaboradores (2012), no qual a vinculação ao parceiro
romântico caracterizada por níveis de ansiedade elevados se associava a
elevados índices de conflito trabalho-família que, por sua vez, prediziam
elevados níveis de stressparental. Por sua vez, os resultados de Matias et al.
(in press) indicaram que a orientação para a carreira parece operar a ligação
entre a vinculação evitante e o conflito trabalho-família. Deste modo,
indivíduos mais evitantes na relação com o parceiro amoroso tendem a investir
mais na carreira e a experienciar níveis mais elevados de conflito trabalho-
família, e no caso das mulheres, também níveis inferiores de enriquecimento
família-trabalho. Num outro estudo, Fonseca e colaboradores (2006) encontraram
uma relação significativa entre o estilo de vinculação e a orientação para o
trabalho. Deste modo, indivíduos com estilos de vinculação segura e evitante
apresentam, na maioria, uma orientação segura para o trabalho. Por outro lado,
os autores encontraram que indivíduos com uma vinculação insegura-ansiosa/
ambivalente têm tendência para apresentar uma orientação insegura-ansiosa/
ambivalente no trabalho.
Como esperado, para além destas estratégias mais associadas à relação, surgem
as relativas à funcionalidade, associada a características como a estabilidade,
a harmonia e a avaliação positiva da relação (Costa, 2005; Narciso & Costa,
1996). A noção de equipa,referida pela maioria dos casais (N=12), parece
englobar estas duas dimensões: a intimidade e a funcionalidade. Estes
participantes relatam uma complementaridade dos elementos do casal ao nível da
realização das tarefas. Assim, segundo os entrevistados, a divisão destas tem
por base as exigências da esfera profissional de cada elemento do casal:
"Cada um tem que dar o máximo que pode, não é? É o bem comum e o objetivo
comum"(6M). É interessante perceber que, embora em alguns casos se
mantenha uma divisão mais definida das tarefas por cada cônjuge
("Normalmente, a parte do exterior é dele", 5F), muitas vezes esta
divisão não é rígida ("não é que seja rigoroso", 6M). Não obstante,
apesar desta aparente flexibilidade na gestão das tarefas familiares, parece
existir, nos casais que dividem tarefas de forma equitativa, uma tendência para
cobrar ao outro a sua participação ativa, sendo que "se um tiver que
limpar a casa, o outro tem que fazer outra coisa"(3M). A ênfase dada a
esta questão da justiça na divisão do trabalho doméstico por vários
participantes ("Nunca há aquela situação de eu estar muito atrapalhada e
estar o meu marido no sofá sem fazer nada.", 4F) leva-nos a refletir
acerca dos motivos subjacentes a esta regra implícita de que, quando um dos
elementos do casal desempenha uma tarefa doméstica, o outro não deverá estar
num momento de lazer. Por vezes, parece estar associada ao receio de manutenção
dos modelos de relação mais tradicionais: "Mete-me bastante impressão
aqueles casais... à moda antiga, não é? O pai sentado no sofá sem fazer nenhum,
e a mãe ali à volta com os filhos e com o trabalho"(6F). É possível que
os indivíduos procurem, deste modo, a contradição dos mesmos, contabilizando o
desempenho de cada um nas tarefas domésticas.
Ainda que, por vezes, os papéis não se distanciem de forma marcada dos
tradicionais, continuando a responsabilidade pelas tarefas domésticas a ser
atribuída à mulher ("Eu praticamente faço tudo! Não é? Já é o que uma
mulher faz sempre.", 8F), é percetível, no discurso dos homens, uma
preocupação relativamente à sobrecarga das companheiras: "Principalmente
ao fim-de-semana, tento aliviá-la disso."(8M). Esta atenção é confirmada
nos discursos das mulheres ("Se ele às vezes me vê um bocadinho mais
atrapalhada, ele inicia o jantar; ou, se eu estou a fazer o jantar, e ele vê
que as camas estão por fazer, ele faz-me as camas...", 3F). Ainda que
assumam a responsabilidade pela realização das tarefas domésticas, algo
identificável nomeadamente na formulação "faz-meas camas", de um
modo geral, as mulheres confirmam a manifestação do cuidado descrito pelos
maridos.
No exercício da parentalidade, esta questão de género parece não se colocar do
mesmo modo (Byron, 2005). Como sugerido por Relvas (2006), verifica-se um
esbatimento das diferenças dos papéis paterno e materno ("Agora, a nível
do nosso filho, dividimos todas as tarefas: desde o banhinho, mudar a fralda,
dar de comer.", 4M). A divisão das tarefas inerentes às responsabilidades
parentais parece, porém, ser influenciada pelos horários laborais de cada um
dos cônjuges, diferindo as questões da complementaridade de casal para casal. A
literatura mostra que, muitas vezes, embora ambos os pais se envolvam
ativamente no exercício da parentalidade, as tarefas desempenhadas por mulheres
e homens no que diz respeito aos filhos são qualitativamente diferentes
(Haddock et al., 2002; Pimenta et al., 2010). Contudo, esta diferenciação não
emerge dos relatos dos entrevistados, no que diz respeito ao cuidado dos
filhos.
Com base no discurso dos participantes, organizaram-se as restantes estratégias
em subcate gorias de coping, que coincidem com as identificadas por Neal e
Hammer (2009) no âmbito do seu estudo com casais em que ambos trabalham,
inseridos na geração "sandwich". Ainda que os participantes do
presente estudo se encontrem numa fase desenvolvimental distinta, as categorias
emergentes da análise de conteúdo dos discursos pareceram enquadrar-se nas
propostas pelos autores. Assim, na subcategoria coping cognitivo, inserimos o
recurso ao planeamento e organização("Podemos na mesma fazer tudo! Só que
tem é uma logística diferente, não é?", 6F), aspeto que, por vezes, se
cruza com o estabelecimento de rotinas ("Porque é uma vida com muitas
rotinas" [risos], 1M).
Os indivíduos referem que procuram ainda desdramatizar, aspeto que se associa a
um esforço consciente para instituir uma postura de flexibilidade em relação às
questões do quotidiano ("Não nos preocupamos muito com a casa durante a
semana. Ao fim-de-semana há de se arranjar tempo para dar um jeitinho.",
5F) e às próprias divergências familiares ("Tento conversar de forma a
não dar muita importância às coisas, relativizar o problema...", 4F). Em
alguns momentos, os participantes dizem recorrer a pensamentos positivose à
centração no presente. Ainda no que diz respeito às estratégias de
copingcognitivo, emerge a focalização no trabalho, que se traduz no estar
"lá intensivamente" (7M), num esforço de concentração para um bom
desempenho que, à partida, permitirá uma maior estabilidade profissional
("Resta-nos a nós, no dia-a-dia, no nosso trabalho, fazermos o melhor
para não termos nenhum motivo onde possam agarrar.", 5F). Por outro lado,
focalizar no trabalho permite, em alguns casos, não passar tanto tempo longe da
família ("Eu vou tentar ser o mais objetiva possível, não perder tempo,
para que possa sair mais cedo, para mais cedo ir buscar o meu filho e estar com
ele.", 4F), o que facilita a conciliação das duas esferas.
Paralelamente às questões cognitivas, encontram-se as relativas ao coping
emocional,no qual surgem estratégias como a fée a adoção de uma atitude de
persistência. Para articular as várias dimensões da vida de forma adaptativa,
os entrevistados destacam, ainda, que procuram ter calma e paciência. Por
último, os participantes referem a focalização na família, muitas vezes
relacionada com a disponibilidade emocional para a mesma ("Só passo a
pensar nos problemas no dia seguinte. Enquanto estou com eles,
pronto...", 1M) e com o tempo de qualidade passado com os familiares, em
especial com os filhos ("Sempre que estou com eles, tento estar com eles
mesmo, e brincar com eles...", 7M). Neste âmbito, podemos refletir acerca
da importância dos rituais familiares. Os rituais são práticas que encerram em
si conjuntos de significados co-construídos e partilhados pelos membros da
família (Crespo, 2011). É o caso do ritual do momento da refeição em conjunto
("O sagrado da mesa. O estar à mesa para comer. Tentar preservar
isso.", 3M) e de outros, específicos de cada família ("Depois vamos
dar banho ao nosso filho, os dois. Também é um momento de brincadeira e de
estarmos os três, que é sempre divertido, a hora do banho!", 4F). É
esperado pelos vários elementos da família que o padrão de interações se
repita. Esta expectativa aproxima os indivíduos e transmite-lhes um sentido de
segurança, já que os rituais contribuem para o estabelecimento de uma estrutura
previsível e estável ao longo do tempo (Spagnola & Fiese, 2007). Assim, os
pais assumem um papel de ritualizadores, o que progressivamente contribui para
a integração de um sentimento de pertença e de modelos de socialização nas
crianças (Crespo, 2011).
Por fim, o coping comportamentalengloba as estratégias de promoção de
envolvimento social (Neal & Hammer, 2009). De facto, os casais referem o
apoio informal, nomeadamente da família alargada. Neste aspeto, surge a
importância da distância geográfica como facilitador ou barreira à participação
das famílias de origem neste quotidiano ("Os meus pais também moram lá
perto, e isso ajuda bastante.",5F). Os amigos raramente são identificados
como um apoio e, por vezes, é apontada a falta de disponibilidade dos mesmos
("Eu costumo dizer que os amigos só são para a parte boa. Para a parte de
convívio e assim.", 2F). São ainda referidos apoios formais, obtidos
através da contratação de serviços, como é o caso de empregadas domésticas e de
amas. Importa referir que não se espera que a procura de apoio, nomeadamente no
seio da família alargada, tenha sempre um valor instrumental. Por vezes, este
apoio também poderá ser emocional. Na verdade, não esperamos que as categorias
identificadas sejam mutuamente exclusivas, uma vez que os aspetos que estas
encerram são interdependentes. Porém, a organização das mesmas emerge do
discurso dos entrevistados e, no caso específico do apoio social, a perspetiva
de copingcomporta -mental surgiu, em detrimento das questões emocionais.
De destacar que muitos participantes fizeram questão de frisar que, apesar do
apoio recebido por estas entidades, o principal recurso de que dispõem é, em
última instância, o do casal, enfatizando a postura ativa que assumem nestas
questões ("Todo os apoios, nós é que os procuramos", 3M). Este
resultado é concordante com as conclusões de Matias e colaboradores (2010)
relativamente à proatividade das famílias portuguesas no processo de
conciliação.
Conclusão
O presente estudo teve como objetivo explorar o modo como vivem os casais com
filhos pequenos a conciliação entre a vida familiar e o investimento
profissional. Ainda que os resultados tenham vindo a ser integrados com a
literatura na secção anterior, parece importante sintetizar algumas questões
emergentes dos discursos, nomeadamente as relativas ao papel da relação
conjugal na experiência da conciliação.
Os resultados sugerem que a intimidade assume uma dupla função. Em primeiro
lugar, enquanto fimem si mesmo, para o bem-estar individual e para a satisfação
com a relação conjugal. Por outro lado, enquanto meiopara atingir uma
articulação funcional e satisfatória da relação entre trabalho e família. Se a
relação conjugal é encarada como base segura (Collins & Feeney, 2000;
Waters & Cummings, 2000), faz sentido que a promoção da intimidade
contribua para uma maior capacidade de exploração de diferentes áreas,
nomeadamente no que diz respeito às possibilidades de conciliação dos vários
papéis exercidos (Matias et al., in press; Vasquez et al., 2002).
Ainda que seja necessária alguma precaução na análise dos resultados, estes
parecem trazer pistas importantes para a prática clínica, reforçando
nomeadamente a pertinência da intervenção ao nível das dimensões mais
relacionais e da intimidade, para além das mais funcionais, para as questões da
conciliação.
A intervenção não deverá, contudo, resumir-se ao nível microssistémico. Numa
perspetiva sociopolítica, advoga-se a importância da criação de apoios
institucionais às famílias, que permitam uma articulação mais eficaz, sem
prejuízo de dimensões essenciais como o tempo familiar, aspeto tantas vezes
referido pelos participantes. Torna-se, assim, importante o desenho de
investigações que procurem estudar quais as medidas de apoio à família mais
eficazes para a conciliação família-trabalho (Brough & O'Driscoll,
2010) e, deste modo, contribuir para que os casais vivam a multiplicidade de
papéis em pleno e sem experiências de culpabilidade.
Este trabalho apresenta algumas limitações que deverão ser referidas. Ao
contrário do que seria desejável num estudo qualitativo, a saturação dos dados
não foi garantida. Assim, acreditamos que as histórias descritas não descrevem
a totalidade de vivências possíveis e estamos conscientes de que uma recolha de
dados mais exaustiva permitiria aceder a experiências qualitativamente
diferentes das que aqui são apresentadas.
Por outro lado, o processo de tratamento dos dados não é imparcial. Apesar do
esforço efetuado no sentido do rigor na representação fiável das perceções dos
entrevistados, os esquemas interpretativos não são livres de influências das
grelhas de leitura prévias dos investigadores. Esta é uma interpretação
possível das histórias recolhidas, que não pretende reunir todas as leituras
possíveis, e que não é passível de ser generalizada.
Não obstante, a informação recolhida poderá contribuir para o desenho de novas
investigações sobre o tema. A título de exemplo, se assumirmos que a qualidade
da relação conjugal poderá ter um papel facilitador na articulação das esferas
familiar e profissional e, tendo em conta o crescente número de núcleos
familiares monoparentais no atual contexto português, poderia ser importante
investigar as dinâmicas de conciliação também nestas famílias. Tornar-se-ia,
ainda, interessante perceber quais os desafios da conciliação família-trabalho
vividos pelos casais sem filhos.
Por outro lado, nesta amostra, todos os participantes se encontravam a
desempenhar uma atividade profissional. Considerando a elevada taxa de
desemprego ao nível nacional, seria necessário perceber que dinâmicas assumem
as famílias quando um dos elementos do casal enfrenta uma situação de
desemprego, ou quando ambos se encontram em situações laborais precárias.
Em suma, apesar das limitações, consideramos que o presente estudo contribui
para a compreensão do fenómeno complexo da conciliação família-trabalho,
alertando para a importância da proximidade e da segurança emocionais vividas
na relação romântica para uma vivência mais positiva dos dois domínios.