Representações sociais da velhice
Introdução
As representações sociais decorrem do processo de socialização e estão
diretamente associadas à identidade coletiva. Os factos sociais correspondem a
modos de agir e a representações que são exteriores ao indivíduo. No pensamento
de Durkheim (1964), a sociedade e a consciência coletiva são entidades morais.
Logo, o que as pessoas sentem, pensam ou fazem é independente da sua vontade
individual e traduz um comportamento estabelecido pela sociedade. Nesta
leitura, os factos sociais exercem um poder coercitivo. É algo que existe e que
permanece para além do indivíduo. Neste sentido, a construção de representações
simbólicas partilhadas pelos membros dos sistemas sociais habitam um universo
de sociabilização específico.
Sobre o tempo que vivemos, vários registos nos dão conta que estes são marcados
por grandes transformações que interferem tanto nos nossos modos de vida como
na forma como nos representamos e representamos os outros. Vários teóricos que
refletem estas transformações societárias denominam o período que vivemos de
"modernidade reflexiva" (Beck, Giddens, & Lash, 1997),
"pós-modernidade" (Hall, 1998), "modernidade tardia"
(Chouliaraki & Fairclough, 1999; Giddens, 1997) ou "modernidade
líquida" (Bauman, 2000). Com esta panóplia, pretende-se equacionar um
novo período onde ressalta a incerteza, a fluidez, o individualismo e a
precaridade. Apesar da heterogeneidade das nomenclaturas utilizadas na
caraterização do atual momento sócio-histórico, é consensual aceitar que a
linearidade etapistaassociada ao ciclo de vida já não reflete as mudanças rumo
à individualização e pluralização que atualmente se verificam (Aboim, 2010).
Será que as características deste novo período se refletem nas representações
sociais da velhice?
Idade como critério e representação social
A evidência científica tem destacado a enorme heterogeneidade inter-individual
que distingue as pessoas à medida que envelhecem. Novos vocábulos ou expressões
eufemísticas são utilizadas para designar as pessoas que chegam às idades
avançadas. Apesar da utilização de um vocábulo ou expressão para denominar um
grupo pressupor sempre um processo de homogeneização, a literatura não utiliza
comummente terminologias pluralizadas para dar conta da heterogeneidade das
velhices. "Terceira idade", "idade madura" e
"velhice" são formas empregues. Importa, contudo, referir que o
aparente paralelismo semântico dos termos não significa uma utilização
igualitária ao nível discursivo. O vocábulo "velhice" e a expressão
"terceira idade" são disso exemplo, segundo Annamaria Palacios
(2004). O título que esta investigadora deu a uma das suas comunicações é
paradigmático: "Velhice, palavra quase proibida; terceira idade,
expressão quase hegemônica: apontamentos sobre o conceito de mudança discursiva
na publicidade contemporânea".
A velhice além de categoria social é, segundo Minois, "um termo que quase
sempre nos causa calafrios, uma palavra carregada de inquietude, de fraqueza e
por vezes de angústia" (1999, p. 11). Por outro lado "[a]inda que
aponte para a etapa final da vida, a nomenclatura terceira idade faz
desaparecer a alusão direta a vocábulos tão semanticamente marcados, como
velhice, senilidade e envelhecimento" (Palacios, 2004, p. 4).
É consabido que o significado social dos grupos sociais depende do palco sócio-
histórico em que vivemos. Se recuarmos uns séculos, podemos verificar que
"[o]s velhos eram poucos e, por isso, valorizados por seus semelhantes
mais jovens; para chegar a uma idade avançada era necessário possuir certo
status ou poder que permitisse uma alimentação e forma de vida sem as carências
e trabalhos exaustivos da maioria da população" (Moragas, 2003, p. 5).
Ainda segundo Moragas, ter idade avançada simbolizava pertença a uma elite.
"Envelheciam os sacerdotes, os reis, os nobres e privilegiados que
desfrutavam de poder sobre a maioria e que não tinham que se preocupar em obter
seu sustento básico; controlavam os recursos materiais e espirituais nas
sociedades históricas" (Moragas, 2003, p. 5). Na contemporaneidade, a
idade tem sido o marcador utilizado para a passagem para a categoria social
denominada de "velhice" que "[f]icou institucionalmente
fechada nas fronteiras de um limiar de idade fixo, cujo acesso é reforçado pela
detenção de uma pensão de reforma" (Fernandes, 2001, pp. 43-44). Contudo
a utilização da idade cronológica, como critério para a constituição de grupos
socialmente reconhecidos, é contestada na literatura há quase um século, na
pena do sociólogo francês Maurice Halbwachs, ao afirmar que o uso da idade não
é, em última instância, um dado natural, mesmo quando utilizado para medir a
evolução biológica dos indivíduos. A literatura reporta em múltiplas redações
que é em resultado de práticas sociais, sobretudo por necessidades
organizativas, que os agrupamentos etários, constituídos a partir da variável
idade, podem ser considerados "noções sociais" (Halbwachs, 1935;
Lenoir, 1998).
É com a entrada na reforma que o indivíduo adquire "as propriedades que
são socialmente imputadas à velhice. Perde o estatuto social atribuído a partir
do trabalho profissional - a reforma é também uma forma de exclusão
social - e adquire o estatuto desvalorizado de
'reformado'" (Fernandes, 2001, p. 44) e mimeticamente entra
na categoria dos "velhos/idosos" já que usufrui uma pensão de
velhice. Segundo o portal português da Segurança Social, a pensão de velhice é
definida como "um valor pago mensalmente, destinado a proteger os
beneficiários do regime geral de Segurança Social, na situação de velhice,
substituindo as remunerações de trabalho". No mesmo site informa-se que
tem direito à pensão de velhice o beneficiário que tenha completado 65 anos de
idade em 2013 e 66 anos em 2014 e 2015. A idade é um marcador ideal, para quem
pretende classificar, apresentando concomitantemente garantia, estabelecida a
classificação, de neutralidade e de igualdade. É também "flexível como
ilustra o novo limite, de 66 anos, estabelecido na Portaria 378-G/2013 de 31 de
dezembro". Segundo Marc Bessin, na senda de Percheron, o critério da
idade, enquanto número, parece ser neutro e objetivo já que é aplicável a todos
e aceite por todos, "[n]ão discutimos esta variável, não podemos mudá-la.
Neste sentido, porque a idade cronológica põe o conjunto de indivíduos iguais
uns aos outros perante as várias instituições que operam de acordo com este
critério, a utilização deste método encontra-se naturalmente justificada"
(1994, p. 8). No entanto, como bem demonstrou Halbwachs (1935), um sistema de
classificação baseado na idade é reversível através de manipulação social:
utilizam-se diferentes valores da escala de medida, refletindo tão só a
composição das populações e os enredos que decorrem nos palcos histórico-
geográficos. O "jogo" de manipulação, com base na
"idade" cronológica, implica, intrinsecamente, uma redefinição das
capacidades e do poder social atribuídos aos diferentes momentos do curso de
vida. "Nesta classificação identitária, a velhice é, na verdade,
desnaturalizada como realidade biológica intratável, para se tornar,
simultaneamente, o meio e o fim de uma construção social", afirma Daniel
(2006, p. 115).
Uma questão teoricamente importante consiste em analisar as idades a que
correspondem os grupos que, no início do século XXI, são considerados
"velhos/idosos", ao nível da "linguagem demográfica".
Se analisarmos o último agrupamento de idades - o designado
eufemisticamente como sendo o dos "idosos", verificamos que este é
constituído pelas pessoas com 65 e mais anos de idade. Idade até há pouco tempo
coincidente com a idade normal de acesso à pensão de velhice. No entanto, se
recuarmos 100 anos até ao V Censo de 1 de dezembro de 1911, verificamos a
existência de três grandes agrupamentos, sendo que o último era composto pelas
pessoas de mais de 60 anos. No Censo de 1911, o agrupamento constituído pelos
"menores de 15 anos" era denominado como o das crianças. O
agrupamento constituído pelos indivíduos dos 15 aos 60 anos denominava-se de
"elemento produtivo". Por fim, o último agrupamento era denominado
como os de mais de 60 anos. A rotulagem de idosos/velhos não figurava no censo.
Nas palavras de Ana Alexandra Fernandes, e na senda de Anne-Marie Guillemard,
no início do século XX a velhice permanece invisível "sem forma definida,
com contornos contrastados, característica de uma sociedade em que a condição
de velho era função do património familiar (...). (1997, p. 23)". Ainda
segundo Fernandes, esta velhice era invisível porque a solidariedade para com
estes "idosos é praticamente uma solidariedade familiar, privada,
remetida para o interior do espaço doméstico. Na ausência desta, a velhice
desprotegida era atirada para o espaço público, identificada com a mendicidade
e recebia então algum consolo das instituições de caridade" (1997, p.
23). Muitas transformações ocorreram na nossa sociedade desde esse período e
novas transformações são perspetivadas.
Nos nossos dias, a idade de reforma coincidia, até à entrada em vigor da
Portaria 378-G/2013 de 31 de dezembro, com a idade de entrada para o
"grupo" dos "velhos/idosos". Verificamos contudo na
agenda política de vários países o tópico do alongamento dos períodos
contributivos, com consequências nas idades de reforma, em debate. O elixir da
juventude parece estar a ser fornecido, em Portugal, por uma mão
"titereira" comandada por uma Troika. Como consequência desta
manipulação alongam-se os períodos contributivos e tornando-nos mais velhos
cada vez mais tarde (Daniel, 2011).
É consensual afirmar a existência de discriminação etária. O termo idadismo,
que aglutina a palavra "idade" com o sufixo "ismo", é
utilizado para dar conta desse fenómeno. Importa aqui referir que o termo
idadismohifenizado surge num artigo científico na pena de Robert Butler, em
1969. No seu artigo "Age-Ism: another form of bigatry" Robert
Butler define age discrimantion or age-ismcomo "o preconceito por um
grupo etário em relação a outras faixas etárias" (1969, p. 243). Nesse
artigo, Butler foca as reações negativas de uma comunidade relativamente à
construção de apartamentos para pessoas idosas na sua área geográfica. O autor
caracteriza esse tipo de preconceito como uma outra forma de fanatismo,
semelhante ao racismo e sexismo. Nos artigos subsequentes, Butler assume a
paternidade do termo e escreve-o de forma não-hifenizada.
O termo ageism, idadismoem português, refere-se tanto à discriminação etária
que os jovens como os mais velhos podem ser objeto. Quantas vezes ouviram
jovens a verbalizar que são atendidos de forma diferente dos seus congéneres de
idades mais avançadas nos locais de comércio? Quantas vezes presenciaram
atitudes de incompreensão relativas a congéneres com gestos lentificados em
filas do comércio? Por esse motivo, Ribeiro e Sousa (2008) optaram por utilizar
o termo velhismopara especificar a discriminação em relação aos mais velhos
enquanto outros autores utilizam, em português, o termo gerontismo.
De acordo com Lima, "o ageismtem uma componente afetiva (sentimentos face
à pessoa idosa), uma componente cognitiva (pensamentos, crenças e estereótipos
face à pessoa idosa) e uma componente comportamental (atitudes para com a
pessoa idosa)" (2010, p. 23). Segundo a autora, as atitudes negativas
relativamente ao envelhecimento têm uma proeminência nas sociedades
contemporâneas. Esta relevância reflete-se na qualidade de vida das pessoas,
"a discriminação afeta económica, social e psicologicamente o bem-estar
das pessoas idosas, excluindo-as e denegrindo-as" (Lima, 2010, p. 25).
Nas sociedades contemporâneas, a idade cronológica serve de marcador para
dividir o ciclo de vida das pessoas em três tempos. O primeiro relaciona-se com
a preparação para o trabalho, o segundo tempo com a atividade profissional e,
por último, o terceiro relaciona-se com a reforma. A atividade profissional na
contemporaneidade continua a ser um referencial que influi decisivamente tanto
na construção de identidades, como nas formas de sociabilidade. Se revisitarmos
teóricos que refletem a contemporaneidade, verificamos que existe consenso
sobre as implicações na vida e no agir dos sujeitos em consequência das
transformações socioeconómicas e tecnológicas que atualmente experienciamos.
Tais transformações, segundo Maria Coutinho, Edite Krawulski e Dulce Soares,
"ao produzirem um contexto marcado por características como
transitoriedade, efemeridade, descontinuidade e caos, atingem algumas
categorias teóricas-chave na área das ciências humanas e sociais, dentre as
quais identidade e trabalho" (2007, p. 29). Apesar de perpassarem pelo
debate sobre a questão teórica da identidade diferentes conceções ora
acentuando o sujeito em transformação, mantendo contudo uma unidade
identitária, ora acentuando a fragmentação na trajetória identitária a partir
do posicionamento ocupado pelo sujeito, acreditamos que os atuais reformados
aos quais o Estado e as Empresas garantiram um emprego para a vida forjaram
identidades, a par das suas sociabilidades a partir do trabalho. Experienciam a
reforma como um corte para um novo modo de vida onde não existem horários nem
rotinas pré-estabelecidas. Esta transição, para um tempo onde o tempo é gerido
largamente pelo próprio, é experienciada para muitos como algo doloroso, não
sendo alheia a posição na hierarquia do trabalho detida no pretérito. São
sintomáticas as palavras de uma enfermeira entrevistada pelo psicólogo António
Fonseca: "Senhor Doutor, eu, durante os seis ou sete meses seguintes,
todos os dias continuei a ir almoçar ao bar do Hospital de São João porque eu
não tinha mais ninguém com quem almoçar, aquela era a minha família efetiva e,
portanto, para mim ter-me reformado significava não só ter deixado o emprego,
mas significava também ter deixado tudo resto, porque era ali que eu fazia a
minha vida toda, de manhã à noite" (2009, p. 159). Relativamente à
reflexão feita por António Fonseca, nomeadamente quando se reporta às perdas
- as perdas das rotinas, a perda dos amigos, a perda dos colegas de
trabalho, as perdas dos hábitos -, nós, que compartilhamos desta
reflexão, acrescentamos o seguinte: este acontecimento do curso de vidaé
acompanhado por uma metamorfose identitária, onde o poder do pretérito, o poder
advindo da profissão anteriormente exercida se esvai, obviamente nos limites da
respetiva biografia. É no olhar do outro que refletimos a nossa inserção no
mundo e, quando esse olhar nos desvaloriza, reescrevemos dolorosamente a nossa
identidade. É difícil envelhecer numa sociedade onde a esfera visual é
proeminente, numa sociedade onde se ocultam as rugas, os cabelos brancos, numa
sociedade idadistarelativamente aos mais velhos. O idadismosó pode florescer
quando existe uma auto-categorização e uma hetero-categorização das pessoas de
idade avançada como sendo aquelas que detêm um estatuto social mais baixo na
"hierarquia" das segmentações pela idade.
É visível uma permanente tensão e até mesmo uma certa dislexia pública em torno
do fenómeno do envelhecimento e da velhice. Evidenciamos a prevalência de
estereótipos idadistasque associam a velhice a dependência, falta de autonomia,
doença, institucionalização e uma desconsideração da sua heterogeneidade (de
género, por exemplo). Por outro lado, notamos um discurso político
internacional e nacional veiculado pelos mediaque induz a estereotipia
positiva, plasmada no conceito de Envelhecimento Ativo que quer manter os
idosos na participação cívica, política e económica o mais possível. Exemplo
dessa tensão são as incongruências nos próprios discursos no âmbito do Ano
Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre as Gerações (AEEASG).
Existem diferentes formas de envelhecer, individualmente, e, principalmente,
diferentes formas de encarar a velhice. No entanto, vemos frequentemente
correlacionado na história a visão da velhice associada ao desgaste, às perdas
e às doenças. Essa correlação tem sido questionada, na atualidade, uma vez que
diversas experiências de envelhecimento "bem-sucedido" têm sido
retratadas como, por exemplo, nos grupos de convivência e universidades da
terceira idade.
Parece-nos, assim, teoricamente relevante compreender como é representada a
velhice, já que a auto e a hetero-categorização se refletem na identidade
induzindo o agir. A representação da velhice é uma concepção que se plasma na
identidade das pessoas idosas enquanto elementos da sociedade e na sua própria
percepção enquanto grupo.
Estudo: "Para si a velhice faz-lhe lembrar"
Objetivámos mapear as representações da velhice a partir de uma amostra de
utentes e de cuidadores/as formais de uma Instituição Particular de
Solidariedade Social (IPSS) - Centro Paroquial de Bem-Estar Social de
Almalaguês. Este centro fornece duas respostas sociais dirigidas à população
idosa: o "Centro de Dia" e o "Serviço de Apoio
Domiciliário". A presente investigação focou-se nos utentes do
"Centro de Dia", resposta no âmbito do apoio social desenvolvida em
equipamento que consiste, segundo o Despacho conjunto n.º 407/98, na prestação
de um conjunto de serviços que contribuem para a manutenção das pessoas idosas
no seu meio sociofamiliar. Este equipamento está sediado numa freguesia rural
do Concelho de Coimbra com uma população residente, à data dos censos 2011, de
3111 habitantes dos quais 760 (24%) são pessoas idosas ([65-74]=438;
[≥75]=322). Utilizou-se como critério para inclusão dos utentes no estudo a
ausência de deterioração cognitiva e a idade (≥65 anos). Relativamente aos
cuidadores/as formais, o critério foi a sua proximidade funcional à população
idosa. Após a obtenção da autorização para a administração dos instrumentos de
inquirição na instituição, foram efetuados procedimentos diferentes para
inquirir as pessoas idosas e os cuidadores/as formais. As pessoas idosas foram
inquiridos individualmente. Esta opção metodológica deveu-se ao facto dos
utentes da resposta social de centro de dia apresentarem baixo nível de
escolaridade. Em relação aos técnicos optámos pela autoadministração.
Utilizámos como estímulo indutor "Para si velhice faz-lhe
lembrar...". Os instrumentos utilizados para a recolha dos dados foram o
Teste de Associação Livre de Palavras (TALP) e o Questionário. A hipótese que
formulámos é a de que a representação da velhice, sendo uma construção social,
traduz uma conceptualização negativa induzida pela consciência coletiva da
sociedade marcadamente caracterizada por uma ideia do envelhecimento enquanto
figuração do fim da vida ativa.
Após a recolha dos dados organizámos as evocações que emergiram a partir do
estímulo indutor "Para si velhice faz-lhe lembrar..." em dois
dicionários: um para os utentes e um outro para os cuidadores formais. As
evocações referidas livremente pelos participantes foram submetidas a alguns
agrupamentos, tendo-se optado por organizar todas as evocações por campos
semânticos. Convertemos todas as evocações que emergiram sob a forma de
expressão verbal ou substantivo a uma forma adjetiva singular, sempre que esse
procedimento se mostrou exequível. Eliminámos as evocações que, apesar de não
serem por nós considerámos idiossincrasias, evidenciaram reduzida frequência.
Resultados
No que concerne às características sociodemográficas dos utentes da IPSS
investigada, constata-se que a sua média de idades é de 76 anos (DP=10,4)
aproximando-se esta idade da esperança de vida à nascença do ano de 2011 que é
de 79,8.
As pessoas idosas inquiridas são predominantemente do sexo feminino (76%
versus24%). Estes resultados vão ao encontro das estatísticas nacionais que
referem uma feminização da população idosa. É nas idades mais avançadas que as
relações de masculinidade desequilibradas se acentuam com vantagem numérica
para as mulheres (Daniel, 2010). A diferença entre sexos, como expectável, é
estatisticamente significativa (χ2
=6,76; p=0,009).
Constatámos que a maioria da população inquirida (60%) é viúva, predominando a
viuvez feminina. Estes resultados eram expectáveis na medida em que o Instituto
Nacional de Estatística (INE) ao longo dos tempos, nas suas publicações
"Estatísticas Demográficas", tem dado conta deste fenómeno. Segundo
o INE, no ano de 2011 em Portugal foram contabilizados 45 592 casamentos
dissolvidos por morte do cônjuge, originando 13 442 viúvos e 32 150 viúvas.
"A viuvez afeta sobretudo as mulheres devido à sobremortalidade
masculina. A taxa bruta de viuvez das mulheres, naquele ano, foi mais do dobro
da dos homens (2,7 por mil homens e 5,8 por mil mulheres)" (INE, 2013, p.
117). Existe, nos dados recolhidos, diferença estaticamente significativa entre
as categorias que compõe o estado civil (χ2
=18,36; p<0,001).
No que diz respeito às habilitações literárias, o grau máximo de ensino obtido
pelos inquiridos que frequentam o centro de dia foi o ensino básico primário
com 56%; os restantes inquiridos não possuem grau de ensino (44%). Desta forma,
não são detetadas diferenças estaticamente significativa entre estas duas
categorias que compõem as habilitações literárias (χ2
=0,36; p<0,549). Se analisarmos os resultados definitivos do XV Recenseamento
Geral da População, Censos de 2011, verificamos que, relativamente à população
sem nível de escolaridade, o peso das pessoas com 65 anos ou mais anos de idade
é de 46%. Se analisarmos essa mesma percentagem a partir do género, diríamos
que o analfabetismo tanto na nossa amostra como na população portuguesa tem
género e é feminino (71,9% versus28,1%).
Quando questionados sobre o motivo que os levou a inscreverem-se nesta resposta
social, a dependência/doença surge como o motivo reportado com maior frequência
(48,6%), seguido da solidão (37,8%). São, contudo, assinaladas diferenças
estaticamente significativas entre as categorias que compõe esta variável (χ2
=34,8; p<0,001). Estes resultados podem ser compreendidos se se analisarem os
objetivos para que esta resposta social foi criada nos finais dos anos 60 do
século passado. Considerada a meio caminho entre o domicílio e o internamento,
esta resposta desenvolvida em equipamento aberto assegura "a prestação de
um conjunto de serviços que contribuem para a manutenção dos idosos no meio
sócio-familiar. Esta resposta social (...) presta apoio psicossocial e fomenta
as relações interpessoais a fim de evitar o isolamento" (MTSS, 2009, p.
12).
Relativamente aos funcionários constata-se que a sua média de idades se situa
nos 42 anos (DP=10,4). Destacamos que a presente investigação permitiu ainda
apurar que os funcionários do Centro de Dia são maioritariamente do sexo
feminino. É interessante verificar que a presença feminina na prática e na
assistência do cuidar tem raízes históricas que se perpetuam nas profissões
(92,6% versus7,4%). Os funcionários/as são maioritariamente casados/as (77,8%),
existindo diferenças estatísticas entre as categorias (χ2
=18,36; p<0,001).
Constata-se que a categoria modal das habilitações dos funcionários é o ensino
superior (33,%) e que não existem diferenças entre as categorias
habilitacionais (χ2
=1,296; p=0,730).
No que concerne à análise dos resultados provenientes do dicionário "Para
si Velhice faz-lhe lembrar..." as evocações modais, nos funcionários, são
a "solidão" (24%), uma evocação negativa com uma identidade social
ligada à ausência de rede. Segue-se a "doença" uma evocação
negativa ligada à perda de saúde e a "plenitude de vida" evocação
ambivalente se a sua significação se situar na "vida plena" ou em
"plena de vida". Ambas as evocações registam 12% (Figura_1).
A análise do mesmo estímulo indutor no dicionário dos utentes/clientes da IPSS
permite-nos afirmar que a evocação modal é, também, a "solidão"
logo de seguida de "doença", "dependência" e
"morte" - evocações de claro conteúdo negativo.
Nas evocações comuns a ambos os dicionários surgem "solidão",
"doença", "dependência" e "tristeza".
Destas evocações, a mais partilhada é a solidão que é modal a ambos os
dicionários. É consabido que os indivíduos tendem a vivenciar maior número de
perdas à medida que a idade avança. As perdas geracionais, a par da menor
energia tanto para ativar como para manter ativos os vínculos da rede, diminuem
nas idades avançadas verificando-se, normalmente, uma contração da rede. Estes
fatores com efeito cumulativos podem predizer maiores níveis de solidão (Figura
2).
Além da "solidão", as evocações que aparecem com maior frequência
são "dependência" e "doença", surgindo contudo em ordem
inversa nos dicionários. Não obstante os progressos da evolução na ciência,
verifica-se que existe uma grande probabilidade que o aumento da esperança
média de vida acarrete períodos mais longos de incapacidade e dependência para
a população de idade avançada. Segundo o relatório "Global Health and
Aging", chancelado pela World Health Organization, à medida que se
envelhece as doenças não-transmissíveis assumem preponderância nos países com
maior rendimento: "In 2008, noncommunicable diseases accounted for an
estimated 86 percent of the burden of disease in high-income countries, 65
percent in middle-income countries, and a surprising 37 percent in low-income
countries" (2011, p. 10). Ainda segundo mesmo relatório, "[O]ver
the next 10 to 15 years, people in every world region will suffer more death
and disability from such noncommunicable diseases as heart disease, cancer, and
diabetes than from infectious and parasitic diseases" (2011, pp. 9-10).
A pluripatologia inerente à velhice é também um dos problemas associados às
idades avançadas: "o idoso português tem em média 5,6 patologias e
consome sete medicamentes por dia entre prescritos, naturais ou não
convencionais (Machado, 2009, p. 128). A quarta e última evocação é
"tristeza" que surge como correlato provável da própria
quotidianidade. "O velho sente-se um indivíduo diminuído, que luta para
continuar a ser homem. O coeficiente de adversidade das coisas cresce: as
escadas ficam mais duras de subir, as distâncias mais longas a percorrer. O
mundo fica eriçado de ameaças, de ciladas" (Bosi, 1983, p. 37). Além de
perder a sua força de trabalho, sente-se um pária (Bosi, 1983). Constatamos que
todos os atributos comuns a ambos os dicionários apresentam conotação negativa.
Já no que concerne aos atributos exclusivos nos dicionários das pessoas idosas
e dos cuidadores/as formais, verificamos que há um maior campo semântico quando
comparamos os atributos exclusivos dos funcionários (oito palavras diferentes)
com o dos idosos (cinco palavras diferentes). Facto que não será alheio às
habilitações literárias destas duas amostras (Figura_3).
Os inquiridos fazem referência a dois atributos: "plenitude da
vida" e "morte". Os cuidadores/as formais representam a
velhice como a plenitude da vida, enquanto as pessoas idosas como morte. Duas
evocações que poderão remeter ao mesmo campo representacional se a significação
da plenitude de vida se associar à vida completa.
Conclusões
Os resultados do estudo desenvolvido revelam que as palavras mais evocadas por
ambos os grupos foram solidão, doença e dependência. O trabalho empírico
permite-nos afirmar que a velhice é associada a atributos de cariz avaliativo
negativo que se encontram cristalizados no tempo. "A sociedade industrial
é maléfica para a velhice" (Bosi, 1983, p. 36). Consideramos, no entanto,
que as mudanças sociais que estão a ocorrer na sociedade, com consequências na
esfera individual, ainda não se repercutem na representação das velhices. Os
resultados encontrados levam-nos a afirmar que as características das pessoas
idosas sob resposta social poderão ter um efeito homogeneizante na
representação estereotipada do envelhecimento.
Se analisarmos as características do sistema (in)formal português, verificamos
que o Centro de Dia é uma resposta de interseção, desenhada para potenciar o
relacionamento, entre a rede de suporte informal e formal, retardando a
institucionalização permanente. É, assim, uma "alternativa" viável
para quem apesar dos limites ou não da sua rede social pessoal não quer, ou não
pode, recorrer à institucionalização. Os motivos elencados pelos nossos
inquiridos para recorrerem a esta resposta são ilustrativos. A dependência/
doença surge como primeira opção. Por este facto, este locuspoderá ser
representado como antecâmaras da institucionalização principalmente quando os
utentes que os frequentam apresentam rácios de dependência elevados,
mimetizando a representação das pessoas idosas de instituições de longa
permanência (Araújo, Coutinho, & Santos, 2006). Recordemos que quase 50%
dos inquiridos invocaram a dependência/doença como motivo para recorrem a esta
resposta.
A idade da reforma é, geralmente, um rótulo que se traduz numa diminuição da
atividade e, consequentemente, no abandono de um conjunto de direitos que
atualmente assistem os cidadãos da sociedade contemporânea. Neste sentido, é
urgente o estudo das práticas da vida quotidiana para perspetivar
subsequentemente os recursos que devem ser ativados para desmontar as
representações sociais das velhices. É nossa convicção que as alterações
socioculturais e as melhorias verificadas na qualidade de vida, a par da nova
narrativa discursiva do envelhecimento (produtivo, saudável, bem-sucedido,
positivo e ativo), podem vir a metamorfosear o campo representacional da
palavra "velhice".
Nas sociedades contemporâneas, a idade da reforma tem coincidido com o o início
da velhice. Esta nova fase traduz-se pela diminuição da atividade e,
consequentemente, no abandono de um conjunto de papéis socialmente valorizados.
"Reposicionar o idoso no conjunto do sistema de relações intergeracionais
constitui um imperativo democrático e um desafio político que as sociedades
envelhecidas enfrentam" (Cabral, Ferreira, Silva, Jerónimo, &
Marques, 2013, p. 12). É urgente, por isso, refletir nas idades da vida que
estão permeadas por normatizações que limitam a promoção do bem-estar dos mais
velhos para que desta forma alteremos conjuntamente o campo representacional
das velhices.