Contributo de fatores individuais, sociais e ambientais para a decisão de
prosseguir uma gravidez não planeada na adolescência: Um estudo caracterizador
da realidade portuguesa
Introdução
Cerca de 4% dos nascimentos portugueses ocorrem em mulheres com menos de 20
anos (PORDATA, 2013b). Este fenómeno é mais frequente em Portugal do que na
maioria dos países da União Europeia (United Nations Population Found [UNPF],
2013), o que constitui uma preocupação premente à luz das mudanças sociais que
marcaram as últimas décadas. Espera-se atualmente que o papel da mulher na
sociedade vá além das tradicionais funções de esposa e de mãe e, como tal, que
as jovens concluam os seus estudos e ingressem no mercado de trabalho antes da
transição para a maternidade (Canavarro & Pereira, 2001; UNPF, 2013). A par
destas expectativas, a recente despenalização da interrupção voluntária da
gravidez quando realizada, por opção da mulher, nas 10 primeiras semanas de
gravidez (IVG, Lei n.º 16/2007, de 17 de abril) e a sua crescente
disponibilização em serviços de saúde públicos de todo o país (Direção-Geral da
Saúde [DGS], 2009, 2013) têm contribuído para que o processo de tomada de
decisão entre o prosseguimento e a interrupção da gravidez se coloque cada vez
em caso de gravidez adolescente. No entanto, 62% das adolescentes que
engravidam tornam-se mães (DGS, 2013; PORDATA, 2013b); entre aquelas que não
planearam a gravidez, estima-se que 46% a tenham prosseguido por opção, dado
que tinham enquadramento legal para a IVG (Pires, Pereira, Araújo Pedrosa,
& Canavarro, 2013). Uma vez que esta decisão poder ter implicações
imediatas e duradouras para o desenvolvimento e saúde das jovens (Figueiredo,
Pacheco, & Magarinho, 2004; Pires, Araújo Pedrosa, & Canavarro, 2013) e
dos seus filhos (Black et al., 2002; Kashan, Baker, & Kenny, 2010), e dado
que não são do nosso conhecimento estudos nacionais sobre o tema, torna-se
necessário explorar os fatores que contribuem para a decisão de prosseguir uma
gravidez não planeada na adolescência à luz do atual quadro legislativo
português. Tal conhecimento poderá contribuir para uma atuação mais informada e
ajustada às características e aos contextos de vida destas jovens por parte dos
profissionais de saúde envolvidos no apoio ao processo de tomada de decisão e à
posterior adaptação da jovem à sua decisão reprodutiva.
Compreensão da decisão reprodutiva na adolescência
Até à data da despenalização da IVG verificaram-se dificuldades incontornáveis
ao nível da investigação sobre a decisão reprodutiva subjacente ao
prosseguimento ou à interrupção de uma gravidez não planeada na realidade
sociocultural portuguesa. No caso da população adolescente, conhecemos apenas
um estudo que se debruçou sobre a questão (Ourô & Leal, 1998). Após a
despenalização, alguns trabalhos proporcionaram contributos importantes para a
compreensão do perfil sociodemográfico e clínico das mulheres que optam pela
IVG (Canário, 2009; Guedes, 2008; Pereira, Pires, & Canavarro, 2013;
Pimenta, 2010; Santos, 2010). No entanto, estes estudos são no geral
unicêntricos e descritivos, não tendo como objetivo a análise dos fatores que
influenciam a decisão reprodutiva, nem das especificidades da mesma entre
adolescentes.
Internacionalmente, o Modelo Bioecológico (Bronfenbrenner, 1979; Bronfenbrenner
& Morris, 1998) tem vindo a ser considerado uma grelha adequada para a
compreensão da decisão reprodutiva na adolescência. De acordo com este modelo,
os estudos têm salientado o contributo de fatores de diferentes níveis de
influência e das suas interações recíprocas para a determinação desta decisão.
Os fatores mais mencionados dizem respeito a características individuais (e.g.,
desenvolvimentais e comportamentais), às características dos principais
sistemas sociais em que o desenvolvimento ocorre (e.g., família, escola e
religião) e à interação que o indivíduo mantém com os mesmos. Também as
características ambientais (i.e., condições culturais e económicas dos locais
de residência) têm sido referidas (Evans, 2001; Lee, Clements, Ingham, &
Stone, 2004; Murry, 1995).
No entanto, os estudos que abordam o efeito de fatores de diferentes níveis de
influência, propondo-se a testar as possíveis interações entre eles, são
escassos (Evans, 2001; Murry, 1995). Verifica-se ainda que nestes e em vários
outros estudos (e.g., Coleman, 2006; Lee et al., 2004; Madkour, Xie, &
Harville, 2013) a análise dos fatores de influência é feita com base no
resultado reprodutivo (i.e., gravidez levada a termo vs. gravidez
interrompida). Por si só, este resultado não reflete todas as questões
essenciais à compreensão da decisão reprodutiva. A limitação mais relevante
parece-nos ser a de que este resultado não incorpora a existência ou não de
oportunidade legal para a interrupção. Acresce que as restrições legais e
condições de realização da interrupção (e.g., prazos legais e acessibilidade
aos serviços) variam de acordo com o país em causa. Todas estas variáveis podem
comportar diferenças assinaláveis ao nível dos fatores explicativos da decisão
reprodutiva (Adamczyk, 2008; Murry, 1995; Peres & Heilborn, 2006; Stotland,
1996).
Por estas razões, e com vista a uma maior compreensão da decisão reprodutiva na
adolescência em Portugal, reveste-se de particular importância explorar
simultaneamente o contributo dos fatores individuais, sociais e ambientais
apontados na literatura, tendo em conta as possíveis interações entre eles e as
especificidades nacionais ao nível da despenalização da IVG.
Fatores explicativos da decisão reprodutiva na adolescência
Individuais.A idade, as competências cognitivas, a autonomia da jovem no
processo de decisão e o padrão contracetivo prévio têm sido as variáveis
individuais mais apontadas como suscetíveis de influenciar a decisão
reprodutiva.
Relativamente à idade, os resultados têm sido inconsistentes. Enquanto alguns
autores concluem que as adolescentes mais novas optam mais frequentemente pelo
prosseguimento da gravidez (Murry, 1995; Ourô & Leal, 1998), outros
reportam resultados inversos (Miller & Moore, 1990; Zabin & Hayward,
1993) ou a inexistência de diferenças ao nível da idade entre as jovens que
prosseguem a gravidez e aquelas que a interrompem (Evans, 2001; Madkour et al.,
2013). Por um lado, esta incongruência poderá dever-se a variações
metodológicas entre os estudos (e.g., resultados avaliados, controlo do
planeamento da gravidez, amostras referentes a populações específicas) e a
diferenças legais/socioculturais relativas à interrupção (e.g., restrições
legais, envolvimento/consentimento parental, acessibilidade prática ao
procedimento). Por outro lado, consideramos que as discrepâncias poderão
igualmente dever-se à não consideração das possíveis interações entre a idade e
duas características do desenvolvimento adolescente que têm sido apontadas como
influentes nos seus processos de tomada de decisão em contexto reprodutivo: a
capacidade cognitiva para ponderar as alternativas possíveis e a autonomia no
processo de decisão.
A incapacidade de abstração para, de forma espontânea, ponderar as alternativas
possíveis tem sido apontada como uma das principais vulnerabilidades cognitivas
da população adolescente face a tomadas de decisão complexas (Halpern-Felsher
& Cauffman, 2001; Klaczynski, Byrnes, & Jacobs, 2001). Segundo Murry
(1995), quanto mais nova é a adolescente, menores são as suas capacidades para
ponderar as alternativas possíveis e, portanto, menor a probabilidade de
identificar os maiores custos que a maternidade poderá trazer à sua vida, por
comparação com os custos de uma interrupção. Consequentemente, maior será a sua
predisposição para prosseguir a gravidez. De forma congruente com esta
perspetiva, os resultados de Pires, Pereira et al. (2013) revelam que 85% das
adolescentes que prosseguem uma gravidez não planeada com enquadramento para a
IVG não ponderaram a possibilidade de interromper a gravidez. No entanto,
alguns autores chamam a atenção para a inexistência de uma relação inequívoca
entre a idade da adolescente e as suas competências para o processo de tomada
de decisão (Halpern-Felsher & Cauffman, 2001; Klaczynski et al., 2001). Em
função destas evidências, parece-nos possível hipotetizar que os resultados
inconsistentes relativamente ao efeito da idade na decisão reprodutiva possam
dever-se às diferentes oportunidades que as jovens da mesma idade podem ter
para ponderar as alternativas possíveis e, assim, identificar as respetivas
consequências. Neste sentido, é de esperar que as jovens mais novas decidam
prosseguir a gravidez apenas quando a ponderação das duas alternativas
possíveis não se verificar.
Outra característica inerente ao desenvolvimento adolescente que poderá
influenciar processos de tomada de decisão complexos é a autonomia no processo
de decisão (Klaczynski et al., 2001). Os resultados de alguns estudos sugerem
que as adolescentes mais novas poderão interromper mais frequentemente a
gravidez por estarem mais sujeitas à interferência de adultos significativos na
sua decisão (Coleman, 2006; Henshaw & Kost, 1992; Lee et al., 2004). De
acordo com esta perspetiva, os resultados de Evans (2001) revelam que as
adolescentes que prosseguem a gravidez sofrem menores níveis de interferência
de outros na sua decisão do que os seus pares que interrompem a gravidez.
Relativamente ao contexto português, apesar da inexistência de dados sobre a
interferência de outros na decisão de interromper a gravidez, os resultados de
Pires, Pereira et al. (2013) indicam que apenas cerca de 5% das adolescentes
que prosseguem uma gravidez não planeada com enquadramento para a IVG foram
influenciadas por outros na sua decisão. No entanto, alguns estudos
internacionais chamam a atenção para a possível inexistência de uma relação
linear entre a idade e a autonomia da jovem na decisão reprodutiva (Klaczynski
et al., 2001; Lee et al., 2004). Acresce que a realização de uma IVG por
menores de 16 anos em Portugal exige o consentimento do representante legal da
adolescente (Lei n.º 16/2007), mas, à semelhança dos demais países (Stotland,
1996), a opção pelo prosseguimento da gravidez pode ser feita de forma
autónoma, independentemente da idade da jovem. Como tal, parece-nos possível
hipotetizar que os resultados inconsistentes relativamente ao efeito da idade
na decisão reprodutiva possam igualmente dever-se a diferentes níveis de
envolvimento de adultos significativos na decisão de jovens da mesma idade. É
de esperar que as adolescentes mais novas optem pela interrupção de forma mais
frequente quando não são o principal agente da decisão, mas que possam optar de
forma mais frequente pelo prosseguimento quando são os principais agentes da
decisão.
Relativamente ao padrão contracetivo prévio, os estudos são consensuais, sendo
possível concluir que a utilização de contraceção à data da conceção é mais
frequente entre as jovens que prosseguem a gravidez do que entre as que a
interrompem (Murry, 1995). Estes efeitos têm sido explicados à luz da maior
predisposição das jovens que não utilizam contraceção para comportamentos de
risco no geral e no contexto reprodutivo, em particular, nos quais os autores
incluem a interrupção de gravidez (Coleman, 2006).
Sociais.No que diz respeito aos principais sistemas sociais em que o
desenvolvimento ocorre, bem como às interações que a adolescente estabelece com
os mesmos, as características familiares e o envolvimento escolar e religioso
são as variáveis que, de forma mais consensual, têm sido referidas como
explicativas da decisão reprodutiva. Pertencer a famílias não intactas (i.e.,
monoparentais, reconstituídas ou que não incluam nenhum dos pais biológicos;
Evans, 2001; Murry, 1995), com história materna de gravidez adolescente (Evans,
2001) e de nível socioeconómico baixo (Eisen, Zellman, Leibowitz, Chow, &
Evans, 1983; Murry, 1995) parece influenciar a decisão no sentido do
prosseguimento. Este efeito pode dever-se às reduzidas expectativas de vida das
adolescentes pertencentes a famílias mais pobres e à exposição a maiores níveis
de aceitabilidade da gravidez e da parentalidade fora do contexto da
conjugalidade e/ou em idades precoces vivenciada pelas adolescentes com
famílias não intactas e/ou com história materna de gravidez adolescente
(Coleman, 2006; Evans, 2001; Murry, 1995).
No que se refere ao envolvimento escolar, espera-se que as jovens que já
abandonaram o sistema de ensino apresentem valores menos normativos acerca do
desenvolvimento adolescente e menores expectativas em termos de escolaridade e
carreira do que os seus pares que permanecem envolvidas com o sistema escolar.
Como tal, é de esperar que as primeiras se encontrem mais predispostas ao
prosseguimento de uma gravidez precoce (Adamczyk, 2008; Evans, 2001; Murry,
1995; Ourô & Leal, 1998).
Relativamente ao envolvimento religioso, os estudos têm revelado que as
adolescentes com afiliação religiosa optam mais frequentemente pelo
prosseguimento da gravidez, quando comparadas com as adolescentes sem afiliação
religiosa. Este efeito parece dever-se às atitudes negativas relativamente à
interrupção que podem decorrer desse envolvimento religioso (Adamczyk, 2008;
Evans, 2001).
Ambientais.Alguns estudos têm chamado a atenção para a relevância de integrar
as características ambientais - culturais e económicas - dos locais
de residência na compreensão dos processos de tomada de decisão subjacentes aos
comportamentos sexuais e reprodutivos na adolescência (Bradshaw, Finch, &
Miles, 2005; Evans, 2001; Lee et al., 2004) e/ou pré-conjugais (Adamczyk,
2008). De acordo com esses estudos, tais características podem constituir uma
importante operacionalização dos valores e condições de vida globais a que as
adolescentes se encontram expostas durante o seu desenvolvimento. Essa
exposição poderá influenciar as atitudes da adolescente em relação à
maternidade e à interrupção, bem como as suas expectativas de vida em termos de
educação e carreira, influenciando, assim, a sua decisão reprodutiva.
Alguns estudos têm concluído, por exemplo, que as adolescentes expostas a
ambientes rurais, mais empobrecidos e onde a valorização da escolarização
feminina é menor apresentam menores expectativas em termos de educação e
carreira. Espera-se, igualmente, que as adolescentes expostas a ambientes onde
a parentalidade fora do casamento é mais frequente apresentem uma maior
aceitabilidade da maternidade na adolescência. Em ambos os casos, as
adolescentes poderão estar mais predispostas ao prosseguimento da gravidez
(Adamczyk, 2008; Bradshaw et al., 2005; Evans, 2001; Lee et al., 2004).
Adamczyk (2008) sugere ainda que prosseguir uma gravidez pré-conjugal em
ambientes caracterizados por valores religiosos conservadores quanto à
sexualidade fora do contexto do matrimónio significa assumir publicamente o
incumprimento das normas dominantes. Tal facto pode levar as jovens a optar
menos frequentemente pelo prosseguimento da gravidez, por medo das reações
negativas da comunidade; a IVG, pelo seu carácter mais privado, poderá ser
vista pelas jovens como uma forma de ocultar esse incumprimento. Apesar de
neste estudo não se ter verificado um efeito significativo da religiosidade
local na decisão reprodutiva após o controlo da afiliação religiosa da jovem,
consideramos que tal pode ter ocorrido pela ausência de consideração da
interação entre essas duas variáveis. Sendo contrários os efeitos esperados da
religiosidade local e da afiliação religiosa da jovem na decisão reprodutiva
- uma vez que se espera que, quanto maior a religiosidade local, menos
frequente seja a opção pelo prosseguimento, mas também se espera que as jovens
com afiliação religiosa optem mais frequentemente pelo prosseguimento -,
parece-nos possível hipotetizar que o efeito inibidor do prosseguimento da
gravidez por parte da maior religiosidade da área de residência possa apenas
verificar-se quando as jovens não possuam afiliação religiosa.
Objetivos e hipóteses
Com vista a ultrapassar algumas das limitações descritas e tendo por base uma
perspetiva ecológica (Bronfenbrenner, 1979; Bronfenbrenner & Morris, 1998),
o objetivo geral do presente estudo consistiu em explorar o contributo de um
conjunto de fatores individuais, sociais e ambientais, bem como das possíveis
interações entre eles, para a decisão de prosseguir uma gravidez adolescente
não planeada à luz do atual quadro legislativo que despenaliza a IVG em
Portugal. De forma específica, hipotetizamos que (cf. Figura_1):
1) não ponderar as duas alternativas possíveis (i.e., o prosseguimento da
gravidez e a IVG), ser o principal agente da decisão e utilizar contraceção à
data da conceção influenciará a decisão no sentido do prosseguimento (efeitos
principais: fatores individuais);
2) pertencer a famílias não intactas, de baixo nível socioeconómico e com
história materna de gravidez adolescente, ter abandonado a escola antes da
conceção e possuir afiliação religiosa conduzirá as jovens de forma mais
frequente ao prosseguimento da gravidez (efeitos principais: fatores sociais);
3) residir em áreas rurais, mais empobrecidas, com menores níveis de
escolaridade da população feminina e onde a parentalidade fora do casamento é
mais frequente influenciará a decisão reprodutiva no sentido do prosseguimento
(efeitos principais: fatores ambientais);
4) ser mais nova influenciará a decisão no sentido do prosseguimento, mas
apenas quando não forem ponderadas ambas as alternativas possíveis e/ou de
forma mais frequente quando a adolescente for o principal agente da decisão
(efeitos moderados: interação entre fatores individuais; moderadores:
ponderação das alternativas e autonomia na decisão);
5) residir em locais com maior religiosidade influenciará a decisão no sentido
da interrupção, mas apenas quando a jovem não possuir afiliação religiosa
(efeito moderado: interação entre fatores ambientais e sociais; moderador:
afiliação religiosa).
Método
Participantes
A amostra foi constituída por 276 adolescentes que engravidaram de forma não
planeada e contactaram presencialmente com os serviços de saúde dentro do prazo
legal que lhes permitiria optar pela IVG (i.e., "nas primeiras 10 semanas
de gravidez", Lei n.º 16/2007, p. 2417). As participantes, com idades
entre os 12 e os 19 anos, encontravam-se distribuídas por dois grupos
distintos: (1) adolescentes que decidiram prosseguir a gravidez (APG, n=133) e
(2) adolescentes que decidiram interromper a gravidez (AIVG, n=143).
Relativamente às principais características sociodemográficas, os grupos
revelaram-se equivalentes ao nível da etnia, sendo as jovens maioritariamente
Caucasianas (APG: n=121, 91.0%; AIVG: n=125, 87.4%). No entanto, comparadas com
as AIVG, as APG eram mais novas [M=16.29, DP=1.27; amplitude: 12-19 vs.AIVG:
M=17.05, DP=1.56, amplitude: 13-19; t(269.36)=5.73, p<.001, d=.53] e
encontravam-se mais frequentemente casadas/unidas de facto [n=38, 28.6%
vs.AIVG: n=7, 4.9%; χ2(1)=28.31, p<.001, V=.32] e fora do sistema de ensino à
data da avaliação [n=73, 54.9% vs.AIVG: n=22, 15.4%, χ2
(1)=47.64, p<.001, V=.42]. Relativamente às características obstétricas, não se
verificaram diferenças entre os grupos na história prévia de gravidez ou
interrupção. Para a maioria das adolescentes tratou-se da primeira gravidez
(APG: n=119, 89.5%; AIVG: n=131, 92.3%) e apenas uma minoria apresentava
história prévia de interrupção (APG: n=7, 5.3%; AIVG: n=8, 5.6%). As APG
apresentavam uma idade gestacional média de 20 semanas à data da avaliação
(M=19.96, DP=9.96, amplitude: 5-40). As AIVG reportaram uma idade gestacional
média de 7 semanas à data da IVG (M=6.96, DP=1.61, amplitude: 4-10).
Procedimentos
Os dados foram recolhidos entre maio de 2008 e novembro de 2013 em 52 serviços
de saúde públicos e um serviço de saúde privado, mediante a aprovação das
respetivas Comissões de Ética. Estas instituições foram selecionadas de forma a
garantir a recolha de dados de um grupo nacionalmente representativo de
adolescentes grávidas e de um grupo de comparação de adolescentes que
interromperam uma gravidez ao abrigo da Lei n.º 16/2007. Para tal, foram
selecionados hospitais, maternidades e unidades locais de saúde com valência de
obstetrícia de acordo com a sua localização geográfica por NUTS II
(Nomenclatura das Unidades Territoriais para Fins Estatísticos de Nível II,
Dec. Lei nº 244/2002, de 5 de novembro). Foram igualmente selecionados
hospitais e maternidades públicos e uma clínica privada com valência de
aconselhamento reprodutivo, de acordo com o critério geográfico e ainda tendo
por base a casuística anual de IVG (DGS, 2009, 2011).
As adolescentes grávidas foram convidadas a participar durante o seu seguimento
obstétrico, em qualquer momento da gravidez. Aquelas que acederam a colaborar
assinaram um formulário de consentimento informado para a participação no
estudo, no qual eram explicados os objetivos da investigação, salvaguardados o
anonimato e a confidencialidade das respostas e o caráter voluntário da
participação e explicados os papéis dos investigadores. Quando as participantes
tinham menos de 18 anos, os seus representantes legais assinaram também o
formulário de consentimento. A recolha de dados ocorreu através do
preenchimento de uma ficha de caracterização construída para o efeito, sob a
supervisão de um assistente de investigação.
No caso das adolescentes que interromperam a gravidez, o contacto foi realizado
durante o seu processo de aconselhamento reprodutivo, no final da segunda
consulta protocolada ao abrigo da Portaria nº 741-A/2007, de 21 de junho (i.e.,
a consulta destinada ao procedimento médico de IVG). Todas as adolescentes
tinham já tomado a sua decisão, assinado o consentimento livre e esclarecido
para a IVG e realizado o respetivo procedimento médico. Aquelas que acederam a
colaborar assinaram o formulário de consentimento informado para a participação
no estudo. Quando as participantes tinham menos de 16 anos - idade até à
qual as jovens necessitam do consentimento dos seus representantes legais para
a realização da IVG -, os seus representantes legais assinaram igualmente
o formulário de consentimento para participação no estudo. As participantes
foram instruídas a preencher uma versão adaptada da ficha de caracterização no
decorrer da semana para a qual ficasse marcada a consulta seguinte (i.e.,
terceira consulta protocolada ao abrigo da mesma Portaria). Nessa consulta,
deveriam devolver a ficha preenchida, em envelope fechado e sem qualquer
identificação. Sempre que esta devolução não ocorreu ou que a adolescente
revelou relutância no preenchimento da ficha fora da instituição, apesar de
aceitar colaborar no estudo, foi-lhe dada a possibilidade de preencher a ficha
na instituição, à data da terceira consulta.
No total, foram recolhidos dados de 660 adolescentes: 483 em seguimento
obstétrico e 177 em processo de aconselhamento reprodutivo. Cumpriam critérios
de inclusão jovens grávidas ou que interromperam uma gravidez, por opção, ao
abrigo da Lei n.º 16/2007, com idade inferior a 20 anos (World Health
Organization, 1975) e com um nível de compreensão da língua portuguesa adequado
ao preenchimento do protocolo de avaliação. Foram critérios de exclusão ter
engravidado de forma planeada, não ter enquadramento legal para a IVG à data do
primeiro contacto presencial com os serviços de saúde e não disponibilizar
informação sobre todas as variáveis em estudo. A seleção das participantes
encontra-se descrita na Figura_2.
Instrumentos
A recolha de informação foi feita através de uma ficha de caracterização, com
perguntas de resposta aberta e fechada, construída a partir da entrevista
semiestruturada utilizada na Unidade de Intervenção Psicológica da Maternidade
Daniel de Matos (Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE) para
triagem das utentes da Consulta de Grávidas Adolescentes (Araújo Pedrosa,
Canavarro, & Pereira, 2003).
As variáveis usadas para selecionar a amostra do presente estudo a partir do
total de participantes foram avaliadas através das perguntas "A gravidez
foi planeada para o momento atual?" e "Com quantas semanas de
gravidez iniciou as consultas?". As respostas foram respetivamente
codificadas como 0=não planeada vs.1=planeada e 0=fora do prazo legal para a
IVG, i.e., após as 10 primeiras semanas de gravidez vs.1=dentro do prazo legal
para a IVG, i.e., nas 10 primeiras semanas de gravidez.
Quanto às variáveis individuais propostas como explicativas da decisão
reprodutiva, a ponderação das alternativas possíveis foi avaliada através da
pergunta "Ponderou interromper a gravidez (APG)/prosseguir a gravidez
(AIVG)?" (0=não, i.e., a adolescente não ponderou as duas alternativas
vs.1=sim, i.e., a adolescente ponderou as duas alternativas). A autonomia da
decisão foi avaliada através da pergunta "[Se ponderou], porque não o
fez?". Quando a jovem apontou razões pessoais (e.g., APG: ser contra o
aborto, querer ter um filho, não ter coragem; AIVG: ainda se encontrar a
estudar, ser demasiado nova para ser mãe, considerar que um filho deve ser
desejado e este não o seria), considerámos que ela fora o principal agente da
decisão. Quando a jovem apontou a interferência de outros (e.g., a família/
o companheiro não permitiu/permitiram) considerámos que a adolescente não fora
o principal agente da decisão. A variável autonomia na decisão foi codificada
como 0=não, i.e., a adolescente não foi o principal agente da decisão vs.1=sim,
i.e., a adolescente foi o principal agente da decisão. O comportamento
contracetivo prévio foi avaliado através da pergunta "Utilizava algum
método contracetivo?" (0=não vs.1=sim).
Relativamente às variáveis sociais, a estrutura do agregado familiar e a
história materna de gravidez adolescente foram avaliadas através das perguntas
"Com quem viveu na infância?" e "Tem conhecimento de alguém
da sua família que tenha tido um bebé entre os 12 e os 19 anos? Quem?".
As respostas foram respetivamente codificadas como 0=família intacta, i.e.,
ambos os pais biológicos vs.1=família não intacta, i.e., todas as outras
estruturas (e.g., apena a mãe, apenas o pai, apenas familiares ou outros
adultos que não os pais biológicos) e 0=não, i.e., sem história materna de
gravidez adolescente vs.1=sim, i.e., com história materna de gravidez
adolescente. O nível socioeconómico foi avaliado de acordo com os critérios de
Simões (1994) para a população portuguesa e codificado como 0=baixo vs.1=médio/
alto. A situação escolar à data da conceção e a afiliação religiosa da jovem
foram avaliadas através das perguntas "Abandonou a escola? Quando?"
e "Religião. Qual?". As respostas foram respetivamente codificadas
como 0=não, i.e., não abandonou a escola antes de engravidar vs.1=sim, i.e.,
abandonou a escola antes de engravidar e 0=não, i.e., sem afiliação religiosa,
1=sim, i.e., com afiliação religiosa.
Por fim, o local de residência da jovem foi avaliado através da pergunta
"[Qual a] freguesia onde mora?", tendo sido considerado o município
correspondente, de acordo com a Carta Administrativa Oficial de Portugal
utilizada na cartografia de suporte à operação Censos 2011 (Instituto Nacional
de Estatística [INE], 2012). À semelhança dos estudos internacionais que
abordam a influência das características ambientais dos locais de residência
das jovens nos seus comportamentos sexuais e reprodutivos, considerámos um
conjunto de indicadores económicos e culturais representativos da ruralidade
(i.e., densidade populacional), da capacidade económica (i.e., proporção de
poder de compra, por total do país: 0-100), da escolaridade da população
feminina (i.e., proporção de mulheres que completaram o ensino secundário, por
total de mulheres: 0-100), dos contextos familiares de ocorrência da
maternidade (i.e., proporção de nados-vivos fora do casamento, por total de
nados vivos: 0-100) e da religiosidade (i.e., proporção de casamentos
católicos, por total de casamentos entre pessoas de sexos diferentes: 0-100). A
densidade populacional foi avaliada de acordo com os critérios estabelecidos
pelo INE (2012) e codificada como 0=baixa (nível 3) vs.1=alta/média (níveis 1 e
2). A fonte dos restantes indicadores foi a PORDATA (2013a, 2013c, 2013d,
2013e). A escolha do ensino secundário como referencial para a escolaridade
feminina foi feita de acordo com a sugestão de Evans (2001). O ano de
referência para todos os indicadores foi o de 2011.
Análises estatísticas
A análise estatística dos dados foi realizada com recurso ao programa
estatístico SPSS, v. 17. Para a caracterização da amostra, calculámos
estatísticas descritivas (frequências, médias e desvios-padrão). Para averiguar
a existência de diferenças entre os grupos ao nível das características
sociodemográficas e clínicas, bem como das variáveis propostas como
explicativas da decisão reprodutiva, recorremos a testes de qui-quadrado e a
testes tde Student. A significância destas e de todas as análises subsequentes
foi definida como p<.05. Estimámos ainda a magnitude dos resultados
encontrados, através do cálculo das estatísticas Vde Cramer e dde Cohen
(efeitos pequenos: d≥0.20, V≥0.10; efeitos médios: d≥0.50, V≥0.30; efeitos
grandes: d≥0.80, V≥0.50; Cohen, 1992; Field, 2009). As variáveis nas quais os
grupos não revelaram diferenças e cuja participação em efeitos de interação não
foi hipotetizada não foram incluídas nas análises posteriores.
Com o objetivo de explorar o contributo das variáveis individuais, sociais e
ambientais em estudo para a decisão reprodutiva, foram efetuadas análises de
regressão logística binária (método Enter). As variáveis foram introduzidas na
análise de regressão em três blocos, de acordo com a sua natureza individual
(bloco 1), social (bloco 2) ou ambiental (bloco 3, Modelo final: efeitos
principais). De forma a averiguar os efeitos moderadores da ponderação das
alternativas e da autonomia na decisão no efeito que a idade da jovem
apresentava na decisão reprodutiva, e o efeito moderador da afiliação religiosa
da jovem no efeito que a religiosidade da sua área de residência apresentava na
decisão reprodutiva, foram introduzidos os respetivos termos de interação
(i.e., Idade x Ponderação alternativas, Idade x Autonomia e Casamentos
católicos x Afiliação religiosa da jovem) num bloco adicional (bloco 4, Modelo
final: efeitos principais e de interação). Estes procedimentos seguiram as
diretrizes de Aiken e West (1991), uma vez que as variáveis contínuas foram
centradas de forma a reduzir a multicolinearidade entre a variável explicativa
e o termo de interação e que as variáveis explicativas e moderadoras foram
introduzidas na análise de regressão antes dos respetivos termos de interação.
Os procedimentos estatísticos seguiram igualmente as instruções de Frazier, Tix
e Barron (2004) para a análise de múltiplos efeitos de interação através de
análises de regressão, uma vez que os termos de interação foram introduzidos
juntos, no mesmo bloco. De acordo com o recomendado por Pestana e Gageiro
(2009), a significância dos efeitos testados foi avaliada recorrendo à
estatística Wald. O tamanho dos efeitos significativos foi avaliado recorrendo
aos respetivos Odds Ratio(OR) e intervalos de confiança (IC). A adequação dos
modelos finais foi avaliada através da significância do modelo dada pelo teste
do qui-quadrado, da bondade do ajustamento dada pelo teste de Hosmer e Lemeshow
(se p>.05 confirmou-se a bondade do ajustamento), da força da associação dada
por R2
de Negelkerke e da percentagem de acertos (i.e., percentagem de casos
corretamente classificados).
Resultados
Comparação entre grupos
Como se pode observar no Quadro_1, verificámos que, comparadas com as AIVG, as
APG eram mais novas, tinham com menos frequência ponderado as duas
alternativas, sendo que mais frequentemente pertenciam a agregados de baixo
nível socioeconómico e com história materna de gravidez adolescente, tinham
abandonado a escola antes da conceção e viviam em municípios com uma densidade
populacional média/alta e com menor proporção de mulheres que completaram o
ensino secundário. Não se verificaram diferenças entre os grupos relativamente
às restantes variáveis.
Análise dos efeitos principais
Quando analisados os efeitos principais das variáveis em estudo na decisão
reprodutiva (Quadro_2, modelo final: efeitos principais), observou-se que foi
explicativo da decisão de prosseguir a gravidez ser mais nova (p<.001), não ter
ponderado as duas alternativas (p<.001), pertencer a famílias de baixo nível
socioeconómico (p=.010) e com história materna de gravidez adolescente
(p=.002), ter abandonado a escola antes da conceção (p<.001) e residir em
municípios com maior densidade populacional (p=.001) e menor proporção de
mulheres que concluíram o ensino secundário (p=.024). A probabilidade da
adolescente prosseguir a gravidez, em função de cada uma destas
características, encontram-se descritas no Quadro_2 (OR). A autonomia no
processo de decisão, a afiliação religiosa e a proporção de casamentos
católicos não foram explicativas da decisão reprodutiva.
Quando o modelo incluiu apenas a constante, a estatística -2Log-
likelihoodassumiu o valor de 382.26; este diminuiu para 280.64 no bloco 3 do
modelo, indicando que o valor explicativo do modelo aumentou com a consideração
dos efeitos principais das variáveis mencionadas. O modelo final foi
significativo [χ2
(10)=101.61, p<.001], classificando corretamente 75.4% dos casos e explicando
41.0% da variância da decisão reprodutiva. O teste de Hosmer e Lemeshow não foi
significativo [χ2
(8)(Hosmer & Lemeshow)=7.35, p=.499], revelando um adequado ajustamento
entre os resultados observados e esperados.
Análise dos efeitos de interação
Como é visível no Quadro_2 (modelo final: efeitos principais e de interação), o
efeito de interação entre a idade e autonomia na decisão não foi significativo.
No entanto, o efeito de interação entre a idade e a ponderação das duas
alternativas possíveis foi significativo (p=.009). Quando não foram ponderadas
ambas as alternativas, quanto menor a idade das adolescentes, mais frequente
foi a opção de prosseguir a gravidez (B=-0.62, p<.001, OR=0.54, IC=0.42/0.69).
No entanto, quando as adolescentes ponderaram as duas alternativas possíveis, o
efeito da idade na decisão reprodutiva não foi significativo (B=0.16, p=.548,
OR=1.17, IC=0.70/1.96; dados não apresentados no quadro). O efeito de interação
entre a proporção de casamentos católicos do município de residência e a
afiliação religiosa da adolescente foi significativo (p<.001). Quando as
adolescentes não possuíam afiliação religiosa, quanto maior a proporção de
casamentos católicos no município de residência, menos frequente foi a opção de
prosseguir a gravidez (B=-0.07, p=.005, OR=0.93, IC=0.89/0.98). No entanto,
quando as adolescentes tinham afiliação religiosa, quanto maior a proporção de
casamentos católicos no município de residência, mais frequente foi a opção de
prosseguir a gravidez (B=.04, p=.008, OR=1.04, IC=1.01/1.08; dados não
apresentados no quadro).
No modelo final incluindo os efeitos principais e de interação, a estatística -
2Log-likelihooddiminuiu para 258.52, indicando que o valor explicativo do
modelo aumentou com a consideração dos efeitos de interação mencionados. O
modelo final foi significativo [χ2
(13)=123.74, p<.001], classificando corretamente 77.2% dos casos e explicando
48.0% da variância na decisão reprodutiva. O teste de Hosmer e Lemeshow não foi
significativo [χ2
(8)(Hosmer & Lemeshow)=4.51, p=.809].
Discussão
O presente estudo teve como objetivo explorar o contributo de um conjunto de
fatores individuais, sociais e ambientais, bem como das possíveis interações
entre eles, para a decisão de prosseguir uma gravidez adolescente não planeada
à luz do recente quadro legislativo que despenaliza a IVG em Portugal. Não ter
ponderado as duas alternativas possíveis, pertencer a famílias de baixo nível
socioeconómico e com história materna de gravidez adolescente, ter abandonado a
escola antes da conceção e residir em áreas com maior densidade populacional e
onde a população feminina é menos escolarizada foram fatores explicativos da
decisão de prosseguir a gravidez. Verificámos, ainda, que a menor idade da
adolescente se associou à decisão de prosseguir a gravidez apenas quando não
foram ponderadas ambas as alternativas e que o efeito da religiosidade local
variou de acordo com o envolvimento religioso da jovem. Estes resultados têm
implicações importantes para a investigação e prática clínica ao nível da
decisão reprodutiva na adolescência, que discutiremos de seguida.
Os nossos resultados foram congruentes com os estudos internacionais que
sugerem que a decisão de prosseguir uma gravidez adolescente se associa a
contextos familiares empobrecidos (Eisen et al., 1983; Murry, 1995) e onde a
aceitabilidade de uma gravidez precoce poderá ser maior em função da sua
história prévia de maternidade adolescente (Coleman, 2006; Evans, 2001), assim
como a locais de residência onde a valorização de projetos de vida
escolarizados e de carreira poderá ser menor à luz da menor escolaridade da
população feminina (Adamczyk, 2008; Bradshaw et al., 2005; Evans, 2001; Lee et
al., 2004). Associados ao abandono escolar precoce (Adamczyk, 2008; Evans,
2001; Ourô & Leal, 1998) e à ausência de ponderação das alternativas
possíveis face à ocorrência da gravidez (Murry, 1995; Pires, Pereira et al.,
2013), estes contextos sociais e ambientais parecem contribuir para que a
maternidade adolescente se configure como um projeto de vida válido para a
jovem de engravida. Segundo diversos autores, sob estas condições, a
maternidade adolescente pode mesmo ser perspetivada como uma via de
autonomização e de realização pessoal (Araújo Pedrosa, Pires, Carvalho,
Canavarro, & Dattilio, 2011; Murry, 1995). Acresce que, quando a jovem
possui afiliação religiosa (Adamczyk, 2008; Evans, 2001) e o seu meio
envolvente apresenta um maior grau de religiosidade, parecem estar reunidas
condições desfavoráveis à realização de uma IVG.
No entanto, contrariamente ao esperado, o prosseguimento da gravidez foi mais
frequente em áreas urbanas do que em áreas rurais. Tal facto recomenda alguma
prudência na generalização dos resultados da investigação internacional para a
realidade sociocultural portuguesa, fornecendo importantes pistas para a
investigação futura. A ruralidade é habitualmente sugerida como potenciadora de
projetos de vida voltados para a família e para a maternidade na adolescência
(Bradshaw et al., 2005; Araújo Pedrosa et al., 2011). De forma congruente com
esta perspetiva, alguns estudos nacionais concluem que o planeamento da
gravidez adolescente é mais frequente no Alentejo e na Região Autónoma dos
Açores (Pires, Pereira et al., 2013), áreas cujos municípios são
maioritariamente rurais (INE, 2012). No entanto, de acordo com os nossos
resultados, esta influência não se verifica quando restringimos a nossa análise
à decisão reprodutiva das jovens que engravidaram de forma não planeada. Temos
ainda que, ao contrário do que acontece na maioria dos países onde foram
conduzidos os estudos revistos (e.g., Adamczyk, 2008; Bradshaw et al., 2005), a
pequena dimensão do nosso país e a descentralização das consultas de
aconselhamento reprodutivo por unidades hospitalares de todas as regiões e por
unidades locais de saúde em municípios geograficamente mais afastados desses
serviços centrais, sem custos para a utente (DGS, 2013), podem contribuir para
que a pertença a áreas rurais não seja sinónimo de dificuldades estruturais de
acesso à IVG. Acresce que a menor densidade populacional das áreas rurais
poderá ser sinónimo de uma maior proximidade da adolescente e da sua família
com a comunidade. A este nível, seria importante averiguar se o efeito inibidor
do prosseguimento da gravidez associado à pertença a áreas rurais se poderá
dever à maior visibilidade social que uma gravidez precoce assumiria nessas
áreas, por comparação àquela que assumiria em meios urbanos. Seria ainda
pertinente averiguar se este efeito inibidor do prosseguimento da gravidez se
poderá dever a diferenças percebidas pela adolescente ao nível das condições
estruturais de apoio à transição para a maternidade (e.g., disponibilização de
bens essenciais, como enxoval e alimentação, de formação parental e de creches
públicas) das áreas rurais, por comparação com as das áreas urbanas. Ao
percecionar menores recursos da comunidade em que se inserem para as apoiar na
transição para a maternidade, as adolescentes poderão ficar menos predispostas
ao prosseguimento da gravidez.
Os nossos resultados foram ainda contrários aos dos estudos que sugerem como
potenciais determinantes da decisão reprodutiva na adolescência a autonomia no
processo de decisão (Klaczynski et al., 2001), o padrão contracetivo prévio
(Murry, 1995), a constituição do agregado familiar (Evans, 2001) e o poder
económico e os contextos familiares associados à parentalidade nas áreas de
residência (Adamczyk, 2008; Bradshaw et al., 2005; Evans, 2001; Lee et al.,
2004). Estes resultados chamam a atenção para a importância de testar a
contribuição simultânea de fatores de diferentes níveis de influência e da
interação entre eles para a decisão reprodutiva, tendo em conta as
especificidades da realidade sociocultural em que ela ocorre. No caso
particular da autonomia, consideramos que os resultados alcançados poderão ser
tranquilizadores face às preocupações de alguns autores (e.g., Coleman, 2006)
sobre o efeito das leis de consentimento parental na decisão reprodutiva da
jovem. Entre as adolescentes da nossa amostra, apenas uma minoria indicou
outros significativos como sendo os principais agentes da decisão. No entanto,
consideramos necessários estudos futuros que se debrucem sobre a existência de
participação (ou não) de outros significativos e o formato sob a qual essa
participação ocorre.
Os resultados do presente estudo devem ser tidos em conta, por um lado, no
apoio a prestar ao processo de tomada de decisão reprodutiva na adolescência e,
por outro, no planeamento de intervenções destinadas ao apoio posterior no
processo de adaptação à transição para a maternidade ou à experiência de IVG.
No primeiro caso, apesar da inexistência de uma definição única sobre o que
constitui um processo de tomada de decisão de qualidade, os diversos modelos
teóricos que se debruçam sobre o tema são consensuais quanto à importância da
avaliação dos custos e benefícios associados a cada uma das alternativas
disponíveis, apenas possível quando ambas são ponderadas (Halpern-Felsher &
Cauffman, 2001). Neste sentido, ao não terem ponderado a opção de IVG, a
maioria das jovens da nossa amostra que optaram pelo prosseguimento poderá ter
desenvolvido processos de tomada de decisão reprodutiva de menor qualidade do
que os seus pares que interromperam a gravidez após terem ponderado ambas as
alternativas. Apesar da necessidade de estudos futuros que clarifiquem esta
questão, a promoção de momentos de reflexão guiada e desenvolvimentalmente
adaptada acerca das alternativas existentes e dos seus custos/benefícios poderá
ser essencial à qualidade do processo de tomada de decisão reprodutiva das
jovens que se dirijam aos serviços de saúde dentro do prazo legal para a IVG.
Esta reflexão é de extrema importância para as jovens que solicitam uma IVG,
tal como a Portaria nº 741-A/2007 o define, mas, à luz dos nossos resultados,
poderá ser igualmente relevante em caso de solicitação de acompanhamento pré-
natal, e tanto mais quanto mais jovem for a adolescente.
Relativamente ao planeamento do apoio ao processo de adaptação à transição para
a maternidade, os nossos resultados chamam a atenção para a necessidade de
intervenções precoces e continuadas, nomeadamente durante a gravidez e após o
nascimento. Segundo estudos prévios, as condições sociais e económicas
desfavoráveis em que as jovens da nossa amostra decidiram prosseguir a gravidez
podem comprometer uma adesão adequada aos cuidados pré-natais, influenciando,
dessa forma, os resultados obstétricos e o próprio desenvolvimento infantil
(Araújo Pedrosa, 2009; Silva, 1992). Estas condições podem igualmente
dificultar a prestação de cuidados físicos e emocionais ao bebé, assim como o
desenvolvimento, a autonomia e a integração social das jovens mães (Canavarro
& Pereira, 2001; Soares & Jongenelen, 1998). Assim, a identificação
precoce dos casos de maior risco e a ativação de fatores individuais e
familiares de proteção nestes campos, bem como a mobilização atempada dos
recursos comunitários disponíveis, poderão ser iniciativas de extrema
importância na determinação de trajetórias de vida mais adaptativas.
Os nossos resultados sugerem ainda a pertinência de intervenções precoces e
especializadas com vista à prevenção de situações de desajustamento emocional
durante o processo de transição para a maternidade. De acordo com as evidências
da literatura, as jovens da nossa amostra que decidiram prosseguir a gravidez
poderão estar particularmente vulneráveis a este nível: a deterioração do
ajustamento das jovens após o parto e durante os primeiros meses de vida do
bebé, sugerido por diversos estudos (e.g., Araújo Pedrosa, 2009; Canavarro
& Pereira, 2001), tem sido precisamente explicado à luz do confronto que as
jovens vivenciam nesses períodos com as exigências antes não ponderadas da
maternidade, com a não concretização das expetativas de autonomização e
realização pessoal e conjugal, e com o agravamento das condições de vida que
habitualmente ocorre nestas situações (Araújo Pedrosa, 2009; Figueiredo et al.,
2004).
No que respeita às jovens que interrompem a gravidez, apesar de a investigação
mostrar poucos ou nenhuns riscos ao nível do seu funcionamento social posterior
(Bailey et al., 2001), de acordo com os nossos resultados, a averiguação do
ajustamento emocional destas jovens deve ser priorizado em investigações
futuras. Segundo diversos autores, as respostas emocionais negativas observadas
em adolescentes que realizaram uma IVG (e.g., Pereira et al., 2013) resultam
não tanto do procedimento em si, mas dos fatores individuais e contextuais
envolvidos nesta decisão reprodutiva (Brien & Fairbairn, 1996; Mufel,
Speckhard, & Sivuha, 2002; Poggenpoel & Mycurgh, 2002; Stotland, 1996).
De acordo com os nossos resultados, a decisão das jovens que interromperam a
gravidez foi tomada de forma tão autónoma quanto a decisão das jovens que
prosseguiram a gravidez, maioritariamente após a ponderação das alternativas
possíveis e enquadrada num percurso normativo do ponto de vista do
desenvolvimento adolescente (e.g., frequência da escola). No entanto, o
carácter inibidor do prosseguimento da gravidez revelado pela maior
religiosidade e pela ruralidade dos seus locais de residência sugere que esta
decisão pode não só decorrer das crenças da jovem acerca da maternidade e da
interrupção, formadas em interação com esses contextos, mas também das
expetativas da comunidade percebidas pela adolescente como condenatórias da
gravidez nesta fase da sua vida. Acresce que, segundo Adamczyk (2008), em
ambientes com estas características o estigma face à realização de uma IVG
poderá ser igualmente elevado, dificultando o ajustamento posterior da jovem
que a realiza, quer pelos sentimentos de culpa que podem ser despoletados, quer
pela dificuldade de mobilização de redes de apoio adequadas, quer, ainda, pela
reduzida empatia com que a jovem se poderá confrontar ao mobilizá-las (Brien
& Fairbairn, 1996; Mufel et al., 2002; Poggenpoel & Mycurgh, 2002).
O presente estudo tem algumas limitações que devem ser tidas em conta na
generalização dos seus resultados. Em primeiro lugar, trata-se de um estudo
transversal. Apesar de a ordem/estabilidade temporal ter sido assegurada
aquando da escolha dos fatores a incluir nos modelos explicativos da decisão
reprodutiva, investigações futuras deverão privilegiar uma metodologia
longitudinal, de forma a averiguar a causalidade das relações propostas
(Baltes, Reese, & Nesselroade, 1988). Também o caráter retrospetivo das
respostas pode ter aumentado a presença de enviesamentos típicos desse tipo de
avaliação (Logan, Holcombe, Manlove, & Ryan, 2007) e a natureza sensível
das questões incrementado a probabilidade de respostas socialmente desejáveis,
nomeadamente ao nível da utilização de contraceção, da ponderação de ambas as
alternativas e da interferência de outros na decisão.
Apesar destas limitações, o nosso estudo foi o primeiro a explorar as variáveis
que contribuem para a decisão de prosseguir uma gravidez não planeada na
adolescência à luz do atual quadro legislativo que despenaliza a IVG em
Portugal. Pelo seu desenho integrador de vários níveis de influência e pela
abrangência nacional da sua amostra, constitui, assim, um importante avanço na
compreensão deste fenómeno na realidade sociocultural portuguesa. A nível
internacional, foi ainda o primeiro estudo que partiu de uma perspetiva
ecológica com vista a explorar o contributo de fatores de diferentes níveis de
influência e das suas interações recíprocas para a decisão reprodutiva entre
adolescentes, restringindo a sua análise às adolescentes que tiveram a
oportunidade legal de decidir pela interrupção de uma gravidez não planeada.
Por fim, os nossos resultados têm importantes implicações para a prática
clínica e investigação na área da decisão reprodutiva na adolescência. Em
primeiro lugar, fundamentam a necessidade de políticas e práticas de saúde
especializadas e desenvolvimentalmente adequadas ao nível do apoio ao processo
de tomada de decisão reprodutiva e à posterior adaptação à mesma. Em segundo
lugar, fundamentam a necessidade de investigação ao nível do impacto que as
circunstâncias em que ocorre esta decisão reprodutiva poderão ter no
ajustamento subsequente das jovens que a vivenciam.