A contribuição da sensibilidade materna e paterna para o desenvolvimento
cognitivo de crianças em idade pré-escolar
INTRODUÇÃO
Durante os primeiros anos de vida o contexto familiar desempenha um papel
primordial enquanto promotor do desenvolvimento cognitivo, emocional e social
da criança (e.g., Barocas et al., 1991; Lugo-Gil & Tamis-LeMonda, 2008;
Mistry, Benner, Biesanz, Clark, & Howes, 2010; Morris, Silk, Steinberg,
Myers, & Robinson, 2007; Raikes et al., 2006). Um dos processos pelos quais
este contexto proximal exerce a sua influência na criança e seu desenvolvimento
decorre da qualidade dos comportamentos parentais durante as interações diárias
entre a criança e os seus progenitores. Nesta linha, a sensibilidade surge como
uma característica-chave em qualquer interação diádica bem- sucedida. Definida
como a capacidade de perceber e interpretar corretamente os comportamentos e
sinais emitidos pela criança, assegurando uma resposta adequada e contingente
aos mesmos (Ainsworth, 1969), a sensibilidade é também vista como um importante
preditor de uma relação de vinculação segura entre a criança e os progenitores
na infância (Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978), bem como na idade
pré-escolar (Stevenson-Hinde, Chicot, Shouldice, & Hinde, 2013), apesar do
seu poder preditivo moderado (De Wolff & van IJzendoorn, 1997).
Por outro lado, à medida que as crianças crescem e se tornam mais autónomas e
competentes, a sensibilidade parental no decorrer de interações diádicas torna-
se particularmente relevante para a promoção do desenvolvimento cognitivo das
crianças ao longo dos primeiros anos de vida e, consequentemente, para a sua
preparação para os desafios académicos inerentes à entrada na escola (e.g.,
Cabrera, Shannon, & Tamis-LeMonda, 2007; Hirsh-Pasek & Burchinal, 2006;
Kelly, Morisset, Barnard, Hammond, & Booth, 1996; Lemelin, Tarabulsy, &
Provost, 2006; Martin, Ryan, & Brooks- Gunn, 2007; Tamis-LeMonda, Shannon,
Cabrera, & Lamb, 2004). Assim, crianças que, em idade pré-escolar,
apresentam um melhor desempenho em tarefas de avaliação do QI e da linguagem
são aquelas cujas mães e pais, sendo mais sensíveis, tomam em consideração o
ponto de vista da criança, respeitam a sua autonomia, percebem quando devem ou
não intervir na interação e respondem de forma adequada e contingente,
atendendo às necessidades e interesses da criança naquela situação (e.g.,
Martin et al., 2007; Tamis-LeMonda et al., 2004). Esta definição de
sensibilidade encontra-se intimamente ligada ao conceito de scaffolding.
Efetivamente, mães e pais sensíveis tendem a providenciar o
scaffoldingnecessário para promover a aprendizagem e o melhor desempenho
possível por parte das crianças (e.g., Baker, Sonnenschein, & Gilat, 1996;
Engle & McElwain, 2013). Neste caso, a sensibilidade parental passa, assim,
por adequar a intervenção do adulto à dificuldade da tarefa, idade, ritmo e
nível de desenvolvimento da criança (o que esta é capaz de realizar sozinha).
De igual modo, os progenitores sensíveis são capazes de melhor estruturar a
interação, determinando o timing(momento em que deve intervir) e o tipo de
suporte (verbal ou não verbal) a fornecer e, desta forma, respeitando as
necessidades e interesses da criança, promoverem a sua competência e
aprendizagem nas atividades que realiza. A título exemplificativo, uma resposta
sensível de scaffoldingpoderá ter lugar numa situação em que a criança é bem-
sucedida numa tarefa sem o apoio do adulto e, por isso, no momento seguinte
este não oferece qualquer tipo de assistência. Em contrapartida, um progenitor
menos sensível poderá fornecer suporte após um sucesso obtido pela criança de
forma independente, ou poderá continuar a providenciar a mesma quantidade e
qualidade, ou até um nível mais reduzido, de suporte após um insucesso da
criança (Baker et al., 1996).
O papel da sensibilidade materna no desenvolvimento cognitivo das crianças
encontra-se bastante explorado e consolidado na literatura (e.g., Baker et al.,
1996; Brooks-Gunn, Han, & Waldfogel, 2002; Hirsh-Pasek & Burchinal,
2006; Kelly et al., 1996; Lemelin et al., 2006). No entanto, e dado que é, hoje
em dia, indiscutível a importância da figura paterna para o desenvolvimento da
criança, há um interesse crescente da comunidade científica sobre a
contribuição da sensibilidade paterna para o desenvolvimento cognitivo da
criança (e.g., Cabrera et al., 2007; Martin et al., 2007; Ryan, Martin, &
Brooks-Gunn, 2006; Tamis-LeMonda et al., 2004).
Uma primeira vaga de investigação sugere mais semelhanças do que diferenças no
que diz respeito aos comportamentos adotados pelas mães e pelos pais, no
decorrer das interações com os seus filhos (Cabrera et al., 2007; Ryan et al.,
2006; Tamis-LeMonda et al., 2004). Neste sentido, mães e pais parecem ser
igualmente sensíveis, cognitivamente estimulantes e aceitantes quando interagem
com as suas crianças. Comparativamente à sensibilidade materna, também a
sensibilidade paterna surge associada a melhores resultados em tarefas de
avaliação cognitiva em crianças em idade pré-escolar (Cabrera et al., 2007;
Martin et al., 2007; Ryan et al., 2006; Tamis-LeMonda et al., 2004). Todavia, a
influência materna e paterna no desenvolvimento cognitivo da criança parece
refletir-se de forma diferencial ao longo do tempo. Cabrera e colaboradores
(2007) verificaram que os comportamentos paternos, avaliados em termos de
sensibilidade, aceitação e estimulação cognitiva, seriam especial- mente
relevantes em idades mais precoces, nomeadamente aos 2 e 3 anos, e não aos 5
anos de idade. Em contrapartida, os comportamentos maternos estavam associados
com os resultados cognitivos das crianças em todos os momentos de avaliação.
Este estudo tem como objetivo principal explorar, na mesma amostra de crianças,
o valor preditivo da sensibilidade materna e paterna para o desenvolvimento
cognitivo dos seus filhos em idade pré- escolar. Tendo em conta os desafios
cognitivos que caraterizam este período desenvolvimental, procurámos avaliar a
sensibilidade parental em termos da capacidade das mães e dos pais de encararem
as interações com a criança como uma oportunidade para estimular e promover o
desempenho ótimo desta última.
MÉTODO
Participantes
Na presente investigação participaram 70 crianças caucasianas, 39 (55.7%) do
sexo masculino, respetivas mães e pais, de uma amostra inicial de 77 famílias
que integram um estudo longitudinal mais vasto em curso (cinco casos foram
excluídos devido à inexistência de interação diádica entre a criança e um dos
progenitores, um caso foi excluído por falta de informação acerca do nível de
escolaridade do pai e outro caso pelo facto da língua materna da mãe não ser o
português). As crianças, com idades compreendidas entre 53 e 60 meses (M=55.03,
DP=1.56), foram recrutadas em instituições de ensino pré-escolar no norte de
Portugal. A idade das mães variou entre 26 e 46 anos (M=36.73, DP=3.54) e os
pais tinham entre 25 e 69 anos de idade (M=38.54, DP=6.23). Relativamente ao
nível de escolaridade parental, 10 mães (14.3%) e 28 pais (40.0%) possuíam até
12º ano, 49 mães (70.0%) e 31 pais (44.3%) tinham licenciatura, bacharelato ou
pós-graduação, e, por fim, 11 mães e 11 pais (15.7%) completaram o grau de
mestrado ou doutoramento. Refira-se ainda que esta foi uma amostra de
conveniência, recrutada em estabelecimentos de ensino pré-escolar públicos e
privados, tendo como critério de inclusão as crianças apresentarem um
desenvolvimento típico. Todos os participantes eram provenientes de meio
urbano.
Medidas
Dados sociodemográficos
O preenchimento de uma ficha elaborada pela equipa de investigação do estudo
longitudinal mais vasto permitiu recolher informação pessoal acerca dos
participantes, nomeadamente sexo e idade da criança, bem como idade, nível de
escolaridade e ocupação profissional dos progenitores.
Desenvolvimento cognitivo
Atendendo à extensão do protocolo de avaliação do projeto longitudinal mais
vasto, e à semelhança de outros estudos (e.g., Shields, Palermo, Powers, Grewe,
& Smith, 2003; Trzesniewski, Moffitt, Caspi, Taylor, & Maughan, 2006),
o desenvolvimento cognitivo da criança foi avaliado através da administração do
formato curto da Wechsler Preschool and Primary Scale of Intelligence ' Revised
(WPPSI-R; Wechsler, 2003). Assim, a escolha recaiu sobre a combinação do
formato curto composto pelos subtestes Quadradose Informação(rtt=.890, r=.859)
(Sattler, 1992). No subteste Quadrados é pedido que a criança reproduza os
desenhos previamente apresentados pelo investigador, com o auxílio de blocos de
duas cores, num determinado espaço de tempo. Por sua vez, o subteste Informação
pressupõe a resposta da criança a um conjunto de questões relacionadas com
informação factual. Note-se que o subteste Quadrados é aquele que apresenta
correlação mais elevada com a Escala Compósita de Realização (r=.66) e com a
Escala Completa (r=.70). De igual modo, também o subteste Informação apresenta
a correlação mais elevada com a Escala Compósita Verbal (r=.68) e com a Escala
Completa (r=.67) (Wechsler, 2003). No presente estudo foi obtido um valor bruto
para cada um dos subtestes, o qual foi posteriormente convertido num valor
padronizado que varia entre 1 e 19 pontos (M=10.0, SD=3.0), doravante
designados de QI de Realização e QI Verbal. Por fim, a soma dos valores
padronizados dos dois subtestes permitiu obter o QI estimado equivalente à
Escala Completa, que pode variar entre 43 e 160 pontos (M=100.0, SD=15.0), no
presente estudo designado como QI Total (Sattler, 1992).
Sensibilidade parental
A sensibilidadematerna e paterna foi avaliada durante sessões de jogo livre '
criança com a mãe e criança com o pai, respetivamente ', durante as quais foi
pedido à díade para realizar construções com blocos de diferentes tamanhos,
cores e formatos. A sensibilidade avalia a capacidade de perceber e interpretar
corretamente os sinais verbais e não-verbais da criança e, assim, emitir uma
resposta contingente e adequada aos comportamentos desta (Ainsworth, 1969;
Ainsworth et al., 1978). Para efeitos deste estudo, a definição de
sensibilidade foi adaptada de forma a contemplar a capacidade das mães e dos
pais promoverem um desempenho superior da criança na tarefa, comparativamente
àquele que teria se a realizasse sozinha. À semelhança de outros autores (e.g.,
Carvalho et al., 2012; Leerkes, Blankson, & O'Brien, 2009), esta dimensão
foi avaliada com recurso a uma escala Likertde 3 pontos especialmente
desenvolvida no contexto desta investigação, que varia entre sensibilidade
reduzida (1) característica do adulto que não interpreta corretamente os
sinais da criança, não adequando, portanto, o seu suporte às necessidades da
mesma; sensibilidade média (2) típica do adulto que demonstra compreender os
sinais emitidos pela criança, bem como os seus comportamentos, embora nem
sempre demonstre uma resposta contingente aos mesmos, pelo que poderá
proporcionar suporte em demasia quando a criança não necessita ou vice-versa; e
sensibilidade elevada (3) em que o adulto interpreta corretamente os sinais e
necessidades da criança, fornecendo suporte de forma adequada, pelo que se
envolve na interação e procura ensinar a criança de um modo contingente.
Todas as interações foram codificadas pelo investigador que desenvolveu a
escala e para efeitos de acordo inter-observadores foi treinado um segundo
juiz, o qual cotou 20% de interações da amostra total (n=28, 14 díades mãe-
criança e 14 díades pai-criança). Foram obtidos níveis elevados de acordo para
a sensibilidade materna (ric=.89) e paterna (ric=.88). Refira-se ainda que,
aquando da cotação da sensibilidade parental, os dois juízes encontravam-se
cegos quanto às restantes variáveis do estudo ' desenvolvimento cognitivo das
crianças e nível de escolaridade parental.
Procedimento
As crianças foram observadas em contexto laboratorial aos 4½ anos, em duas
sessões independentes ' uma com a mãe e outra com o pai. Entre outras tarefas
administradas, cada díade envolveu-se numa interação de jogo livre com blocos
de diversos tamanhos, formatos e cores, com os quais as crianças deveriam
realizar construções com a ajuda dos progenitores. As díades foram instruídas a
utilizar blocos que se encontravam no interior de uma caixa, sem tempo limite,
do modo que lhes fosse mais conveniente. Os progenitores preencheram uma ficha
de dados sociodemográficos. Numa das sessões, procedeu-se igualmente à
avaliação do desenvolvimento cognitivo das crianças.
RESULTADOS
Num primeiro momento, e atendendo à natureza ordinal da variável sensibilidade
parental, foram utilizados testes não-paramétricos para explorar a associação
desta variável com o desenvolvimento cognitivo das crianças aos 4½ anos e
testar diferenças entre a sensibilidade materna e paterna. Posteriormente,
procedeu-se a análises de regressão linear hierárquica de forma a responder à
questão de investigação.
Aos 4½ anos, as crianças apresentaram um QI Total médio de 118.51 (SD=12.39),
sendo que os valores referentes ao QI Total e QI Verbal se encontram
ligeiramente acima da média padrão (QI Total ' M=100.0, SD=15.0; QI Verbal '
M=10.0, SD=3.0) (ver Tabela_1). Por outro lado, os resultados mostraram que a
maioria das interações entre as crianças e os seus progenitores era pautada por
níveis de sensibilidade parental média a elevada. Em contraste, 13 mães (18.6%)
e 20 pais (28.6%) demons- traram sensibilidade reduzida no decorrer da tarefa
desenvolvida com os seus filhos (ver Tabela_1). Não foram encontradas
diferenças significativas entre mães e pais ao nível da sensibilidade eviden-
ciada durante a interação com as crianças, Z=-.307, p=.759.
A Tabela_2 apresenta as correlações entre o desenvolvimento cognitivo das
crianças aos 4½ anos, sexo e idade das crianças, bem com as características
parentais. Por um lado, o desenvolvimento cognitivo não está associado ao sexo
ou idade das crianças. Em contrapartida, o nível de escolaridade das mães está
positivamente correlacionado com o QI de Realização e marginalmente
correlacionado com o QI Total da criança. De igual modo, também o nível de
escolaridade dos pais está positivamente correlacionado com o QI de Realização
e QI Total das crianças. Assim, quanto mais elevado o nível de escolaridade dos
progenitores, melhor é o desenvolvimento cognitivo da criança. Relativamente à
sensibilidade parental, a sensibilidade materna revelou uma associação positiva
significativa com o QI de Realização e o QI Total. Não foi encontrada
correlação significativa entre o desenvolvimento cognitivo da criança e a
sensibilidade paterna.
De modo a responder à questão de investigação, procedeu-se, então, a análises
de regressão linear hierárquica com o objetivo de predizer o QI total das
crianças a partir da sensibilidade materna e paterna, controlando o efeito do
nível de escolaridade parental. Todos os preditores foram previamente
transformados em variáveis dummy, dada a natureza ordinal das variáveis
originais. Os resultados estão apresentados na Tabela_3.
Os resultados da primeira análise de regressão (ver Tabela_3 ' Preditores
Maternos) mostraram que o nível de escolaridade materno explica 10% da
variância, F(2,67)=3.74, p=.029, do QI total das crianças, sendo que um nível
mais elevado de escolaridade materno prediz significativamente melhor
desenvolvimento cognitivo das crianças, ß=.32, t=2.68, p=.009. A inclusão da
sensibilidade materna no 2º bloco vem acrescentar 6% à variância explicada, F
(4,65)=3.14, p=.020. Melhor desenvolvimento cognitivo está associado a níveis
médios a elevados de sensibilidade materna, ß=-.26, t=-2.06, p=.044.
Os resultados da segunda análise de regressão (ver Tabela_3 ' Preditores
Paternos) revelaram o nível de escolaridade paterno como um preditor
marginalmente significativo, ß=.23, t=1.780, p=.077, explicando cerca de 8% da
variância, F(2,67)=2.74, p=.072, do QI total das crianças. A inclusão da
sensibilidade paterna não acrescenta qualquer variância explicada ao modelo de
regressão, F(4,65)=1.78, p=.143.
Por fim, foi realizado um terceiro e último modelo de regressão linear
hierárquico usando todos os preditores maternos e paternos que se revelaram
significativos e marginalmente significativos nos modelos testados
anteriormente (cf. Tabela_4). O nível de escolaridade materno e paterno explica
cerca de 14% da variância, F(2,67)=5.25, p=.008. A inclusão da sensibilidade
materna no modelo de regressão acrescenta 6% à variância explicada, F
(3,66)=5.47, p=.002. Melhor desenvolvimento cognitivo das crianças está
associado a um nível de escolaridade materno mais elevado e, tendencialmente, a
um nível de escolaridade paterno mais elevado bem como a níveis médios a
elevados de sensibilidade materna.
DISCUSSÃO
O presente estudo teve por objetivo predizer o desenvolvimento cognitivo das
crianças em idade pré-escolar a partir da sensibilidade materna e paterna, no
decorrer de uma interação diádica de jogo livre.
Relativamente ao desenvolvimento cognitivo aos 4½ anos, a nossa amostra
apresenta um QI Total e QI verbal ligeiramente acima da média. No entanto, é
necessária alguma precaução na interpretação destes resultados, uma vez que as
crianças foram avaliadas através do formato curto da Wechsler Preschool and
Primary Scale of Intelligence ' Revised(WPPSI-R), constituído por dois
subtestes. Por outro lado, Flynn (2006) sugere um aumento de 0.3 pontos por ano
no valor médio de QI, alertando para a necessidade de utilizar testes
estandardizados com normas o mais atualizadas possível. Tendo em conta que dez
anos separam a recolha de dados do presente estudo da revisão do procedimento
usado para avaliar o desenvolvimento cognitivo, seria de esperar um acréscimo
de cerca de 3 pontos no QI médio das crianças da nossa amostra.
Este resultado pode ainda ser explicado pelo nível sociocultural médio-elevado
destas famílias, bem como o nível de escolaridade das mães e dos pais, o que
poderá implicar um maior acesso a experiências educativas e culturais mais
ricas e materiais didáticos mais diversificados e estimulantes. Efetivamente,
quando analisada a contribuição das variáveis parentais para o desenvolvimento
cognitivo das crianças, o nível educacional das mães e dos pais revelou-se
preditor do desenvolvi- mento cognitivo da criança, na medida em que um nível
de escolaridade mais elevado dos progenitores foi preditor de melhores
resultados na avaliação cognitiva da criança. Este resultado é concordante com
a literatura na área (Cabrera et al., 2007; Christian, Morrison, & Bryant,
1998; Pancsofar & Vernon-Feagans, 2006; Pancsofar, Vernon-Feagans, &
The Family Life Project Investigators, 2010; Tamis-LeMonda et al., 2004). Um
nível educacional mais elevado parece refletir-se nas crenças e práticas
parentais e, por conseguinte, na forma como mães e pais encaram a educação dos
seus filhos e os envolvem em atividades cognitivamente estimulantes. Neste
sentido, a título de exemplo, alguns autores sugerem que mães e pais com um
nível educacional mais elevado tendem a apresentar hábitos de leitura mais
frequentes com as crianças do que progenitores com baixo nível de escolaridade
(Duursma, Pan, & Raikes, 2008; Raikes et al., 2006). De igual modo, um
nível educacional mais elevado também parece estar associado a comportamentos
parentais mais positivos como a sensibilidade (Tamis-LeMonda et al., 2004).
Em contrapartida, e respondendo à nossa questão de investigação, apenas a
sensibilidade materna constituiu um preditor significativo do QI das crianças,
mesmo quando controlado o nível educacional das mães e dos pais. Assim, as
crianças com melhor desempenho nas tarefas de avaliação cognitiva tinham mães
que demonstraram níveis médios a elevados de sensibilidade durante a interação
com a criança. À semelhança de outras investigações (e.g., Cabrera et al.,
2007; Tamis-LeMonda et al., 2004), mães e pais não diferiram em termos de
sensibilidade. Porém, no presente estudo, a sensibilidade paterna não
contribuiu para o desenvolvimento cognitivo das crianças aos 4½ anos. Estes
resultados poderão ser explicados atendendo às especificidades da interação que
a criança estabelece individualmente com cada progenitor. Uma possível
explicação prende-se com o tempo que cada progenitor despende com a criança e o
tipo de atividades em que se envolvem durante esse período, aspetos que, no
estudo de Faria (2011), influenciaram os comportamentos interativos quer da
mãe/pai quer da criança em contexto de jogo. A este propósito, alguns estudos
sugerem que as mães continuam a ser o elemento da família que passa mais tempo
com a criança e a principal responsável por tarefas mais práticas como a
organização e prestação de cuidados (e.g., alimentação, dar banho). Contudo,
mães e pais parecem participar de forma igualitária nas atividades mais lúdicas
(e.g., brincadeira, ler histórias), que surgem como o principal contexto de
interação entre os pais e as crianças (Craig, 2006; Monteiro, Veríssimo,
Santos, & Vaughn, 2008; Pimenta, Veríssimo, Monteiro, & Pessoa e Costa,
2010). Além disso, as mães tendem ainda a realizar diferentes tarefas em
simultâneo de modo a garantir disponibilidade para as atividades lúdicas com a
criança (Craig, 2006). Como tal, e uma vez que atuam em contextos de interação
mais diversificados, as mães dispõem de um maior número de oportunidades para
promover o desenvolvimento cognitivo da criança. Por outro lado, as interações
entre as crianças e os pais tendem a ser mais enérgicas e fisicamente mais
desafiantes do que as interações que estabelecem com as mães (John,
Halliburton, & Humphrey, 2013; MacDonald & Parke, 1986), o que se torna
particularmente relevante durante o período pré- escolar em que o
desenvolvimento da capacidade física e motora da criança é mais notório. Em
contrapartida, as mães parecem interagir mais calmamente com as crianças,
procurando estruturar as atividades, ensinar e estabelecer limites (John et
al., 2013). Assim, as interações com as mães parecem reunir características que
poderão promover um contexto mais favorável à aprendizagem e estimulação
cognitiva. Por sua vez, as interações com os pais conduzem a criança a um
estado de maior ativação emocional, pelo que poderão tornar-se fundamentais
para a autorregulação comportamental e emocional da criança (Flanders, Leo,
Paquette, Pihl, & Séguin, 2009; Fletcher, StGeorge, & Freeman, 2013).
Neste sentido, a contribuição paterna para o desenvolvimento cognitivo das
crianças poderá ter efeitos diferenciados ao longo do tempo, sendo estes
especialmente significativos em idades mais precoces (Cabrera et al., 2007;
Ryan et al., 2006; Tamis-LeMonda et al., 2004), podendo, em idade pré-escolar,
a interação com o pai influenciar outras áreas do desenvolvimento da criança
igualmente importantes.
Quando analisamos a influência da sensibilidade parental no desenvolvimento
cognitivo da criança é necessária alguma cautela na interpretação da
direcionalidade dos resultados. De facto, estudos empíricos com crianças que
apresentam défices cognitivos sugerem que é possível que crianças com melhores
resultados ao nível do QI, comparativamente com as primeiras, possam emitir
sinais mais claros aos seus progenitores (Feniger-Schaal & Oppenheim, 2013;
Janssen, Schuengel, & Stolk, 2002), ou necessitar de uma menor intervenção
da parte dos mesmos. Neste sentido, quando uma criança alcança sucesso sozinha,
provavelmente o adulto continuará a manter uma posição mais passiva, intervindo
apenas quando a criança o solicitar. Por conseguinte, as mães e os pais de
crianças com QI mais elevado terão menos dificuldade em interpretar e responder
adequadamente aos comportamentos e sinais da criança, favorecendo a sua
sensibilidade.
É de referir alguns aspetos que constituíram limitações no presente trabalho
que devem ser considerados em investigações futuras. Assim, será interessante
incluir na amostra famílias com um nível sociocultural mais diversificado. Por
outro lado, a utilização de uma escala Likertmais ampla para codificar a
sensibilidade parental poderá permitir uma maior discriminação dos
comportamentos maternos e paternos nesta dimensão, tornando-se mais sensível a
possíveis diferenças existentes entre os progenitores. Seria ainda pertinente
incluir outras variáveis parentais na análise, nomeadamente informação sobre o
tempo que cada progenitor passa com a criança e o tipo de atividades que
normal- mente realizam durante esse período, o que poderia ser útil para a
interpretação dos resultados obtidos. Por último, seria também importante
analisar a qualidade do envolvimento da criança na atividade realizada com cada
um dos progenitores e seu papel nos resultados cognitivos da criança, uma vez
que o envolvimento da criança parece ser influenciado pela responsividade
estimulante e afetuosa do adulto no decorrer da interação diádica (Aguiar,
2006). Contudo, não podemos deixar de salientar também dois pontos fortes na
investigação apresentada. Um deles consiste na inclusão das mães e dos pais no
mesmo estudo, o que nem sempre se verifica quando é estudado o papel da figura
parental no desenvolvimento da criança. Além disso, o recurso a metodologia
observacional permite estudar processos complexos como a interação diádica
entre humanos, por vezes, impossível de descrever pelos próprios intervenientes
(Martins & Machado, 2006).
Indiscutivelmente, o desenvolvimento das crianças é influenciado pela forma
como estas interagem com as suas mães e os seus pais, sendo que cada progenitor
poderá contribuir de forma única para o desenvolvimento dos seus filhos (Lamb
& Tamis-LeMonda, 2004; Lewis & Lamb, 2003). A este propósito, se os
comportamentos maternos parecem contribuir essencialmente para o desenvolvi-
mento cognitivo da criança, a interação com o pai tem-se revelado proeminente
para o desenvol- vimento socio-emocional desta (Cabrera et al., 2007; Grossmann
et al., 2002). Neste sentido, é indispensável continuar a explorar o papel que
cada progenitor desempenha nas mais diversas áreas e fases do desenvolvimento
da criança, recorrendo, sempre que possível, a diferentes metodologias e fontes
de informação e incluindo mães e pais nesses estudos.