Desenvolvimento cognitivo e aprendizagem da matemática
INTRODUÇÃO
Como nos sugerem Fonseca (1984, 1986, 1999) e Kirk, Gallagher e Anastasiow
(1999), a matemática ou aritmética pode ser pensada como um sistema de
linguagem que em vez de letras e palavras, utiliza símbolos numéricos. Os
mesmos autores sugerem assim que a leitura e a aritmética são similares de
muitas maneiras, pois números e palavras substituem conceitos, existem sistemas
de regras para orientar o uso correcto de números e palavras, etc.
Assim, suportando-se na hierarquia da linguagem, Fonseca (1984, 1986, 1999) e
Kirk, Gallagher e Anastasiow (1999) propõem a existência de quatro níveis da
linguagem:
— Linguagem interior (não verbal e verbal);
— Linguagem auditiva ou falada, que envolve um nível receptivo
(compreensão) e um nível expressivo (fala);
— Linguagem visual ou escrita, que envolve igualmente um nível
receptivo (leitura) e um nível expressivo (escrita); e
— Linguagem conceptual ou quantitativa.
Não obstante a existência dos vários níveis, Fonseca (1984, 1999) e Johnson e
Myklebust (1991) referem-nos que todos eles têm a sua génese na experiência,
que é incorporada por meio da linguagem interior, a qual constitui o primeiro
estádio da aquisição da linguagem.
Assim, Fonseca (1986) diz-nos que tanto filogenética como ontogeneticamente a
acção ou a experiência é o fundamento sensório-motor, percetivo-motor e
psicomotor que dá origem à linguagem. Deste modo, a linguagem inicial, que é
puramente gestual e não-verbal, parte da acção (i.e., da paráfrase, em que o
gesto representa e substitui a palavra) e, consequentemente, para se
compreender o que um bebé está a tentar dizer é necessário observar aquilo que
ele está a fazer (Fonseca, 1986).
No entanto, como refere o mesmo autor, apesar de a linguagem se edificar a
partir da acção e da motricidade, posteriormente ela liberta-se desse contexto
de acção, isto é, de início a linguagem começa por emergir da acção, mas mais
tarde é ela que passa a antecipar, a regular e a estruturar a acção de um modo
sistemático.
Apesar da existência dos diferentes níveis da linguagem, a nossa preocupação
centra-se no último a ser dominado em termos cognitivos, nomeadamente a
linguagem quantitativa. Assim, começaremos com uma breve abordagem ao seu
desenvolvimento, a que se seguirá o estudo de alguns dos processos
neuropsicológicos envolvidos bem como das componentes da matemática.
Em síntese, parece-nos pertinente e justificada a preocupação de perceber a
linguagem matemática como o culminar de uma evolução cognitiva e linguística,
apenas presente na espécie humana, e resultante de várias conquistas evolutivas
da espécie e diferentes conquistas desenvolvimentistas da criança.
O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO E A LINGUAGEM QUANTITATIVA
Para explicar o desenvolvimento da linguagem quantitativa iremos utilizar duas
teorias. A teoria de Myklebust (1965), de acordo com a qual o desenvolvimento
cognitivo ocorre ao longo de cinco fases: sensação, percepção, imagem,
simbolizaçãoe conceptualização. A segunda teoria é a de Piaget e Inhelder
(1995), segundo a qual o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos se processa
em quatro etapas: estádio sensório-motor, estádio pré-operatório, estádio das
operações concretase estádio das operações formais.
De acordo com Myklebust (1965) a primeira fase envolve a sensação, que é
considerada como o nível mais básico da experiência humana. Assim, a
estimulação, numa dialéctica de qualidade e quantidade, assume uma importância
significativa em termos de desenvolvimento.
A segunda fase, a percepção, refere-se à selecção e à interpretação dos
estímulos. Ou seja, é o primeiro processo de tratamento da informação ao nível
do sistema nervoso central.
A terceira fase diz respeito ao papel da imagem, que traduz um processo
cognitivo a partir do qual a criança pode diferenciar ou identificar uma
percepção de um objeto ou da informação de uma outra percepção já recebida no
passado. Confirma-se assim a intervenção da memória como função de
consolidação, de conservação e de retenção de experiências anteriores.
A quarta fase, a simbolização, resulta da capacidade cognitiva de representar e
resumir experiências por meio de símbolos, que permitem o raciocínio concreto.
Deste modo, a simbolização diferencia-se da percepção porque associa
significados (aspectos cognitivos) aos símbolos, que incluem aspectos
receptivos e aspectos expressivos.
A quinta fase compreende a conceptualização, a qual traduz o nível mais elevado
e aperfeiçoado da aprendizagem humana e do seu processamento cognitivo, que
permite a classificação, a ordenação e a categorização das percepções. É graças
às conceptualizações que as percepções se agrupam por atributos de
significação, que permitem a elaboração e a expressão do pensamento.
Por seu lado, Piaget (1965, inFonseca, 1984, 1999) sugere-nos que no primeiro
estádio ou estádio sensório-motor(0-2 anos), a criança aprende por intermédio
da experiência, verificando-se que nesta fase a criança não tem palavras para
pensar (linguagem interior), mas já consegue antecipar experiências com base
nas acções que as precedem (e.g., deixa de chorar quando a agarram ao colo,
pois, geralmente esta acção precede uma experiência agradável como é o comer).
Ou seja, a criança tem um papel exploratório, em que investiga o envolvimento
físico com o seu corpo e sentidos, pois ainda não desenvolveu uma linguagem
simbólica específica para o fazer (Piaget, 1953, inCasas, 1988).
No estádio pré-operatório(2-7 anos), para além de já conseguir utilizar os
símbolos (i.e., representações sob a forma de linguagem falada, receptiva ou
expressiva), de utilizar o jogo imaginativo e de utilizar a expressão gráfica,
a criança começa a ser capaz de julgar a forma, o tamanho e as relações,
baseando-se para tal em experiências e não em raciocínios, mas em que esses
julgamentos são frequentemente intuitivos e desajustados (Piaget, 1965,
inFonseca, 1984, 1999).
Assim, nesta fase a criança desenvolve um entendimento rudimentar da
matemática, o qual está presente no uso de conceitos da linguagem tais como
mais, menos, metade, adicionar, etc. (Piaget, 1953, inCasas, 1988).
Dos 7 aos 12 anos (estádio das operações concretas) a criança já é capaz de
pensar de modo lógico, função essa que é facilitada pelo uso de materiais
concretos e por situações reais (Piaget, 1965, inFonseca, 1984, 1999). Este é
pois o estádio em que se inicia o pensamento lógico-matemático e a criança
passa a estar em condições de adquirir o primeiro processo de aprendizagem do
cálculo, o número (Piaget, 1953, inCasas, 1988).
Por último, no estádio das operações formais(12 anos em diante) a criança já é
capaz de utilizar operações lógicas abstractas e deste modo já é capaz de
raciocinar pessoalmente acerca de um problema e chegar a conclusões lógicas
(Piaget, 1965, inFonseca, 1984, 1999), isto é, a criança já é capaz de usar a
lógica na solução de problemas (Piaget, 1953, inCasas, 1988).
Em síntese, actualmente, conceptualiza-se a matemática como envolvendo
estruturas e relações que na aprendizagem devem emergir de experiências
concretas (Fonseca, 1984, 1999). Isto é, concebe-se que a aprendizagem e
domínio da matemática segue um processo de construção lento e gradual, que vai
do concreto e específico para o abstracto e geral, e que as actividades
concretas e manipulativas com os objectos constituem os alicerces desta
construção (Citoler, 1996).
Em síntese, quando equacionamos a linguagem quantitativa, fica desde logo claro
que esta percorre os diferentes estádios do desenvolvimento cognitivo propostos
por Myklebust (1965). Começando na transformação das sensações de tamanho,
quantidade, forma, etc. em percepções e em imagens mentais, passa-se para uma
substituição simbólica e abstracta dessas representações internas em números. O
culmina do processo alcança-se com a conceptualização, que permite toda a
manipulação conceptual necessária na resolução de problemas e no domínio da
álgebra.
Do mesmo modo, Piaget e Inhelder (1995) também sugerem que existe uma
organização que vai do sensorial para o concreto, e desde para a simbolização e
para a abstracção. Ou seja, do contacto com os diferentes tamanhos,
quantidades, formas, etc. até à formação de um sentido de número, e deste à
manipulação concreta e/ou abstracta do mesmo.
ÁREAS BÁSICAS DA MATEMÁTICA
Apesar de podermos encontrar a matemática nos livros, na banda desenhada, nos
filmes, nos computadores e um pouco em tudo o que nos rodeia, são vários os
autores que nos referem que a matemática pode ser estruturada em três domínios:
a aritmética, a álgebra e a geometria. Tendo por fonte a Academia das Ciências
de Lisboa (2001), de seguida vamos fazer uma breve referência a cada uma destas
áreas da matemática.
Assim, a aritméticaé a parte da matemática que estuda os números, suas
propriedades e operações, ou seja, é a ciência dos números. Por seu lado, a
álgebrarefere-se ao estudo das equações, com letras no papel das variáveis,
distinguindo-se assim da aritmética que lida com números e respectivas
operações. Por fim, a geometriaconstitui o ramo da matemática que se ocupa das
propriedades que dizem respeito à forma, extensão e posição relativa dos
objectos no espaço, cujas representações se dizem então figuras geométricas.
Por outras palavras a aritmética refere-se à área da matemática que estuda os
números e as operações realizadas com eles Sendo que a ideia de número emerge
da comparação de uma quantidade com outra, ou seja, como consequência de
avaliar uma quantidade, pois avaliar uma quantidade é compará-la com outra, a
qual designamos unidade. Deste modo, agregando unidades é possível formar
quantidades, as quais são representadas pelos números.
Quando nos referimos à área da matemática na qual as operações aritméticas são
generalizadas através do uso de números, letras e símbolos falamos da álgebra.
Neste caso, cada letra ou símbolo representa simbolicamente um número ou outra
entidade matemática, e quando algum dos símbolos representa um valor
desconhecido chama-se incógnita.
Por último, e de um modo muito sintético, a geometria é a área da matemática
que estuda as propriedades e as medidas das figuras num plano ou no espaço.
Tendo em consideração que com este artigo não pretendemos de modo nenhum ser
exaustivos acerca do tema, de seguida faremos referência à aritmética, que para
além de ser o domínio mais estudado dos três em termos científicos, é aquele
que parece ser o mais importante de adquirir a um nível básico, tanto na sua
vertente informal (i.e., social), como na formal (i.e., académica).
Assim, estando a aritmética dependente de funções cognitivas complexas cuja
execução requer a colaboração de um certo número de componentes que interagem
entre si e que foram estudadas pela psicologia cognitiva (Sokol &
McCloskey, 1991, inCitoler, 1996), têm sido sugeridas várias categorias para
descrever a aritmética (Smith & Rivera, 1991).
No entanto, de entre as várias categorias, a psicologia cognitiva tem-se
interessado fundamentalmente pelos processos subjacentes às três componentes da
sequência evolutiva da competência na aritmética e que são o sentido de número,
a realização de operaçõesou cálculoe a resolução de problemas(Casas, 1988;
Citoler, 1996; Deaño, 1994).
De acordo com Cruz (1999, 2003, 2009) quando falamos de sentido de número,
também denominado por alguns autores por noção elementar de número,
genericamente referimo-nos a uma abstracção complexa que se forma lentamente
através de uma grande diversidade de experiências quotidianas, levadas a cabo
em casa e/ou na escola.
Depois, a realização de operações ou cálculoconstitui a segunda componente da
aritmética e refere-se aos processos mediante os quais se realizam
simbolicamente manipulações difíceis de realizar de forma real (Cruz, 1999,
2003, 2009).
Por último, a terceira componente da aritmética é a resolução de problemase diz
respeito à realização de uma ou mais operações concretas e tradução das mesmas
mediante uma ou mais operações aritméticas (Cruz, 1999, 2003, 2009).
Como sugere Citoler (1996), em termos evolutivos a aprendizagem da matemática é
um processo lento e construtivo no qual os conhecimentos se vão integrando
parcial e gradualmente até que se constitui a habilidade global.
Assim, suportando-nos numa perspectiva evolutiva já que as indicações sobre a
sequência de aquisições destas habilidades constituem uma valiosa informação na
hora de desenhar uma intervenção educativa adaptada ao nível de desenvolvimento
da criança (Citoler, 1996), vamos de seguida fazer uma breve abordagem a
algumas das preocupações a ter aquando da instrução ou ensino da matemática em
geral e da aritmética em particular.
IMPLICAÇÕES E APLICAÇÕES EDUCATIVAS
Tendo em consideração os objectivos a que nos propúnhamos aquando da concepção
deste artigo, falta ainda fazer uma breve referência a algumas preocupações que
devem orientar o processo de instrução ou ensino antes de acabarmos esta breve
abordagem à matemática.
Assim, de acordo com Witzel, Smith e Brownell (2001) é fundamental que os
professores utilizem uma sequência de instruções que conduza o aluno ao longo
de três momentos, primeiro o Concreto, depois a Representação, e por fim a
Abstracção, pois esta facilita o raciocínio abstracto.
Mais concretamente, Witzel, Smith e Brownell (2001) sugerem-nos que os
professores devem:
— Ensinar através de situações que relacionem a matemática com a vida
dos alunos.
— Ter a certeza que os alunos já dominam os conhecimentos que
constituem os pré-requisitos de uma estratégia nova, antes de avançar
para ela.
— Instruir de modo explícito os alunos e modelar a resolução dos
problemas usando técnicas de pensar em voz alta, ou seja, mostrar aos
alunos como realizar cada passo enquanto diz em voz alta porque é que
cada um desses passos é realizado. É fundamental que os alunos saibam
porque é que estas operações têm de ser feitas, pois esse
conhecimento permite-lhes realizar a mesma sequência de passos num
problema diferente.
Por seu lado, Gersten (1999) sugere-nos que outra preocupação da instrução
deverá ser a promoção da automatização em áreas relacionadas com os factos
aritméticos básicos e as operações.
Assim, os factos matemáticos básicos têm de se tornar conhecimentos
declarativos, para que os alunos possam orientar os seus processos cognitivos
para pensamentos de ordem superior, referentes ao conhecimento processual.
Gersten (1999) sugere ainda que os conhecimentos processuais e declarativos
podem desenvolver-se de modo interactivo, com ganhos no primeiro a levarem a
ganhos no segundo, o qual, por sua vez, origina novos ganhos no primeiro.
Em consequência, de acordo com Schoenfeld (1992) as instruções para o ensino da
matemática devem levar os alunos a:
— Procurar soluções... não a memorizar apenas os procedimentos.
— Explorar padrões... não a memorizar fórmulas.
— Formular conjecturas... não a fazer apenas exercícios.
Reforçando estas directrizes de instrução, podemos referir que já Laplace
defendia que mesmo nas ciências matemáticas os nossos principais instrumentos
para descobrir a verdade são a indução e analogia.
Também Descartes, com as suas sábias palavras, nos dizia que Nunca nos
tornaremos matemáticos, mesmo que a nossa memória domine todas as demonstrações
feitas por outros, se o nosso espírito não for capaz de resolver todas as
espécies de problemas.
Em síntese, a matemática deve ser estudada como uma disciplina dinâmica,
evolutiva e de exploração, e não como um corpo rígido, absoluto e fechado de
leis a ser memorizadas, pois, como nos diz Galileu O livro do mundo está
escrito em linguagem matemática e o mundo está em constante mutação.