Aprendizagem social e emocional: Reflexões sobre a teoria e a prática na escola
portuguesa
INTRODUÇÃO
A convicção de que para além da família, a escola e a sociedade deverão
promover, de forma explícita, os aspetos sociais e emocionais do
desenvolvimento de crianças e adolescentes, emergiu em consonância com a
aceitação da diversidade do funcionamento humano. Assim, torna-se essencial que
a Escola assuma um papel mais abrangente na promoção do desenvolvimento e na
formação global de crianças e adolescentes, não incidindo apenas no seu
desenvolvimento cognitivo, mas também no seu desenvolvimento social e
emocional: as escolas serão melhor sucedidas na sua missão educacional se
envidarem esforços para integrar a aprendizagem social e emocional na
experiência educativa dos alunos, maximizando o seu potencial para o sucesso
atual e futuro na vida pessoal e profissional (Elias et al., 1997; Fernández-
Berrocal & Ruiz, 2008; Zins, Weissberg, Wang, & Walberg, 2001).
As escolas são espaços sociais e a aprendizagem é, de igual modo, um processo
social (Vygotsky, 1962): de facto, os alunos não aprendem sozinhos, mas
sobretudo de forma colaborativa com os seus professores, em parceria com os
seus pares e com o encorajamento das suas famílias (César & Oliveira, 2005;
Machado & César, 2012). Ora, já que os fatores sociais e emocionais afetam
a forma e o tempo da aprendizagem, as escolas têm que atender a estes aspetos
para beneficiar todos os alunos (Elias et al., 1997), uma vez que as emoções
podem facilitar ou bloquear a aprendizagem e, em última instância, o sucesso
dos alunos (Pekrun, Goetz, Titz, & Perry, 2002; Santos, 1983; Schutz &
Pekrun, 2007).
Embora, historicamente, as escolas tenham procurado integrar nos seus objetivos
áreas como o caráter moral, a cidadania e a responsabilidade social, esta
questão foi, muitas vezes, pensada pelos educadores de forma fragmentada, quer
como um fim em si mesmo, quer como contribuição específica para desenvolver a
saúde, a segurança ou a cidadania (Zins, Bloodworth, Weissberg, & Walberg,
2004). De facto, só recentemente se tem observado um interesse crescente nas
áreas do desenvolvimento social e emocional dos alunos (Zins et al., 2001).
Neste quadro, este estudo visa contribuir para a compreensão e clarificação do
papel atual da Escola na promoção de competências sociais e emocionais dos
alunos, explorando a perceção dos professores sobre a importância destas áreas
no desenvolvimento global dos alunos e sobre o investimento em estratégias para
promover a aprendizagem social e emocional, avaliando de que forma percecionam
o impacto das atuais alterações da reforma educativa portuguesa nestas áreas.
O PAPEL DAS COMPETÊNCIAS SOCIOEMOCIONAIS NO CONTEXTO ESCOLAR
Um dos desafios nucleares que se coloca à Escola contemporânea é o de servir
uma diversidade de alunos, não apenas do ponto de vista cultural, mas também do
ponto de vista cognitivo e motivacional (Learning First Aliance, 2001): no
contexto escolar existem alunos academicamente melhor sucedidos, comprometidos
e participativos na turma e nas atividades curriculares, enquanto outros
necessitam de mais apoio académico e demonstram ter menor ligação ou
envolvimento com a escola (Greemberg et al., 2003). Por outro lado, se as
questões relacionadas com a indisciplina, o desafeto, a ausência de
compromisso, a alienação e o abandono limitam o sucesso na escola e conduzem ao
fracasso (Zins, Bloodworth, et al., 2004), torna-se fulcral responder aos
diversos desafios socioemocionais que interferem com a capacidade dos alunos
para se comprometerem e envolverem na escola e de terem melhor rendimento
académico.
Ora, considerando a estreita relação entre fatores sociais, emocionais e
académicos, a literatura não dissocia as várias dimensões e avança mesmo com o
conceito de aprendizagem social, emocional e académica (Zins, Weissberg, Wang,
& Walberg, 2004), valorizando o papel que as competências socioemocionais
têm na promoção do rendimento académico e na aprendizagem ao longo da vida
(Zins, Weissberg, et al., 2004). De facto, esta perspetiva social, emocional e
académica oferece propostas de cariz preventivo nas escolas, desenvolvendo
esforços para promover a saúde, o caráter e a cidadania, ao mesmo tempo que
elabora linhas de intervenção para potenciar o rendimento académico, a par de
outras funções escolares dos alunos (Greenberg et al., 2003).
Alguns estudos meta-analíticos recentes têm vindo a demonstrar a eficácia
destas linhas de intervenção, apresentando resultados que indicam um impacto
significativo no desenvolvimento de competências socioemocionais dos alunos,
quando comparado com outros resultados avaliados (Durlak, Weissberg, Dymnicki,
Taylor, & Schellinger, 2011; Payton et al., 2008). Mais ainda, verificou-se
que estes programas conduzem também a efeitos indiretos no desenvolvimento dos
alunos, como seja a redução da ansiedade, da depressão ou da perturbação
emocional, a prevenção de problemas de conduta, a melhoria do rendimento
académico, bem como a promoção de comportamentos prossociais e de atitudes mais
positivas face à escola (Durlak et al., 2011; Payton et al., 2008; Sklad,
Diekstra, Ritter, Ben, & Gravesteijn, 2012).
Não obstante as potencialidades documentadas da aprendizagem social e
emocional, a temática do desenvolvimento de competências socioemocionais
insere-se num debate atual mais amplo sobre o desenvolvimento de competências a
nível escolar. De facto, alguns autores consideram que o desenvolvimento de
competências não pode ter um caráter meramente prescritivo, enciclopedista e
dissociado da experiência emocional e intelectual que qualquer aprendizagem
requer. Nesta linha, consideram que apenas uma estruturação coerente e
transversal da educação possibilitará aos alunos em formação uma apropriação
crítica e reflexiva do conhecimento e o desenvolvimento das suas competências
(Patto, 2000).
Por outro lado, alguns autores defendem, ainda, que a sociedade não poderá
atribuir exclusivamente à Escola a função de educar os cidadãos, alegando a sua
maior capacidade e competência para o efeito, pois consideram que o sistema
educativo não será muito mais virtuoso do que a sociedade da qual extrai os
seus recursos. Neste sentido, apenas um esforço concertado entre a Escola e as
demais instituições da sociedade permitirão um avanço essencial no
desenvolvimento dos alunos, cidadãos de amanhã (Perrenoud, 2004).
APRENDIZAGEM SOCIAL, EMOCIONAL E ACADÉMICA: PRÁTICAS E EFEITOS
A aprendizagem social e emocional é o processo através do qual cada aluno
desenvolve a sua capacidade de integrar o pensamento, a emoção e o
comportamento para alcançar e concretizar tarefas sociais importantes. Neste
sentido, os alunos desenvolvem competências que lhes permitem reconhecer,
expressar e gerir emoções, construir relações saudáveis, estabelecer objetivos
positivos, dar resposta a necessidades pessoais e sociais (Collaborative for
Academic, Social, and Emotional Learning ' CASEL, 2003; Lemerise & Arsenio,
2000; Zins et al., 2001). A aprendizagem social e emocional potencia, assim, o
uso de diversas competências cognitivas e interpessoais para alcançar, de forma
ética, objetivos relevantes, quer socialmente, quer do ponto de vista do
desenvolvimento (Zins et al., 2001).
De entre as diversas competências relevantes da aprendizagem socioemocional
destacam-se particularmente a autoconsciência, o autocontrolo, a consciência
social, as competências de relacionamento interpessoal e a tomada de decisão
responsável (CASEL, 2005). Estas competências, por sua vez, vão potenciar um
melhor ajustamento e rendimento académico, refletido em comportamentos sociais
mais positivos, menores problemas comportamentais, menor stresse emocional e
melhores resultados em avaliações e testes (Greenberg et al., 2003). A
aprendizagem social e emocional vai assim, em última instância, capacitar os
alunos para se tornarem mais informados, mais responsáveis, mais empáticos,
mais produtivos e mais ativos na sociedade, promovendo a participação ativa na
sociedade e a cidadania (Zins et al., 2001).
Na verdade, alunos que definem objetivos positivos em termos académicos revelam
ter maior autodisciplina, capacidade de se automotivarem, de regularem o
stresse, de organizarem o trabalho, de aprenderem mais e de obterem melhores
resultados (Duckworth & Selligman, 2005). Por outro lado, alunos que usam
competências de resolução de problemas para ultrapassar obstáculos, parecem
tomar decisões mais responsáveis sobre o estudo e são academicamente melhor
sucedidos (Zins & Elias, 2006).
A longo prazo, o domínio de competências socioemocionais potenciará o
desenvolvimento mais ajustado do aluno, contribuindo, assim, para a melhoria do
seu envolvimento na escola, conseguido através de um ambiente de respeito e de
compromisso com as práticas instituídas pela mesma (McNeeley, Nonnemaker, &
Blum, 2002; Osterman, 2000).
De forma semelhante às competências académicas, as competências socioemocionais
podem ser aprendidas e praticadas, através da participação em atividades
construtivas dentro e fora da sala de aula (Elias et al., 1997), fomentando a
sua melhoria e integração progressivas, logo, respondendo às situações mais
complexas que os jovens enfrentam em termos académicos, sociais, de cidadania e
de saúde (CASEL, 2003; Elias et al., 1997).
No entanto, uma questão comummente discutida na aprendizagem socioemocional
relaciona- se com o facto de esta poder, na operacionalização de algumas
práticas, inflacionar a carga horária escolar, já por si bastante exigente.
Contudo, as várias opções de desenvolvimento de competências sociais e
emocionais podem variar, desde as mínimas até às mais substanciais, no grau de
adaptação e mudança na vida da escola (Zins & Elias, 2006).
Ora, são várias as oportunidades para o desenvolvimento da aprendizagem social
e emocional dos alunos no contexto escolar, pois para além da possibilidade de
adoção de um currículo específico, o reforço desta aprendizagem pode conseguir-
se com a introdução, de forma transversal, de atividades de aprendizagem social
e emocional nas disciplinas existentes no currículo regular, o desenvolvimento
de um ambiente de aprendizagem, de respeito e de apoio, a alteração de
processos de instrução (ensino cooperativo), a promoção de parcerias entre
escola, família e comunidade, o envolvimento ativo e experiencial dos alunos no
processo de aprendizagem, o uso de competências socioemocionais na gestão do
comportamento, de práticas de disciplina e políticas da escola e, ainda, a
integração de métodos de aprendizagem socioemocional nas atividades
extracurriculares (César & Oliveira, 2005; Machado & César, 2012; Zins,
Weissberg, et al., 2004).
Mais ainda, é extremamente difícil ou, até, ineficaz desenvolver através de
instrução formal todas as competências socioemocionais necessárias para o
crescimento pleno do aluno. Neste sentido, os programas de aprendizagem social
e emocional consideram importante capitalizar também os processos de instrução
informal, apoiando os alunos na aprendizagem, a partir das suas próprias
interações diárias com os outros e, em geral, estabelecer um clima na escola
que facilite este tipo de aprendizagem (Lopes & Salovey, 2001).
Não obstante, os processos e as estruturas organizacionais deverão assegurar a
qualidade da implementação e a promoção da sustentabilidade das estratégias de
desenvolvimento pessoal e socioemocional (Greenberg, 2004), pois sem estas
condições, poderão existir desvios face ao planeamento prévio e as bases e
estratégias dos programas poderão ficar inadvertidamente comprometidas (Zins
& Elias, 2006). Assim, tanto a fidelidade a um programa como a sua
adaptação devem ser convenientemente atendidas, sob pena de comprometerem a
eficácia dos resultados (Elliott & Mihalic, 2004).
DESENVOLVIMENTO SOCIAL E EMOCIONAL NO CONTEXTO PORTUGUÊS
Até agora, um reduzido número de escolas conseguiu atuar estrategicamente para
integrar, de forma eficaz, a aprendizagem social, emocional e académica dos
alunos (Adelman & Taylor, 2000). Globalmente, a insuficiente
operacionalização destas aprendizagens ficou a dever-se à contribuição de
fatores como a ausência de planeamento curricular a longo prazo, a inadequação
das infraestruturas escolares para realizar atividades de prevenção, as
limitações na avaliação dos resultados dos programas, os baixos níveis de
financiamento e a ausência de preparação dos professores para formarem alunos
nestas áreas (Greenberg et al., 2003).
No contexto educativo português, não obstante o artigo 46º da Lei de Bases do
Sistema Educativo, de outubro de 1986, ter proposto que a organização
curricular deveria ter em conta o equilíbrio do desenvolvimento afetivo e
social com as demais componentes da formação do aluno, foi apenas em 1989 que
surgiram indicações objetivas sobre a forma como operacionalizar as questões do
desenvolvimento social e emocional nas escolas: o Ministério da Educação
defendeu a disseminação da aprendizagem social e emocional pelo currículo, a
criação de uma disciplina não curricular para o desenvolvimento de projetos
(Área de Projeto), a instrução específica de uma hora por semana destas
componentes (Desenvolvimento Pessoal e Social), como alternativa à disciplina
de instrução de Religião Moral e Católica, e o desenvolvimento de atividades
extracurriculares (Campos & Menezes, 1996).
No entanto, o interesse pelo desenvolvimento destas competências diminuiu no
sistema educativo durante a década de 90, tendo sido aprovado apenas um
programa de Desenvolvimento Pessoal e Social para o 3.º ciclo do ensino básico
(Faria, 2011). De facto, só com o Decreto-Lei 6/2001, de 18 de janeiro, que
promoveu uma reorganização curricular do ensino obrigatório, foi formalmente
constituída uma área disciplinar de Desenvolvimento Pessoal e Social, que
incluía 3 disciplinas para todos os alunos do ensino básico ' Formação Cívica,
Área de Projeto e Estudo Acompanhado ', disciplinas estas com uma maior
componente de educação para a cidadania do que para o desenvolvimento pessoal e
social (Menezes, 2007).
Posteriormente, e em particular no que se refere aos princípios orientadores e
de organização e gestão curricular do ensino secundário, o Decreto-Lei 74/2004,
de 26 de março, considerou a introdução da disciplina de Área de Projeto neste
ciclo de ensino, como uma área de integração de saberes e competências
adquiridas ao longo do curso, em torno do desenvolvimento de metodologias de
estudo, investigação e trabalho em grupo. Esta disciplina, através do Decreto-
Lei 50/2011, de 8 de abril, veio, recentemente, a ser excluída da organização
curricular do ensino secundário, defendendo-se que não se deveria constituir
como disciplina autónoma, mas sim transversal ao currículo, favorecendo,
alegadamente, a menor carga horária dos alunos nos últimos anos de formação. No
mesmo decreto foi ainda definida a criação da disciplina de Formação Cívica
para o 10.º ano, com vista ao reforço da formação nas áreas da educação para a
cidadania, para a saúde e para a sexualidade.
Contudo, atualmente, com as alterações previstas na nova revisão da estrutura
curricular, assiste- se a uma intencional centralização do currículo nos
conhecimentos fundamentais (...) reforçando a aprendizagem nas disciplinas
essenciais (Ministério da Educação e Ciência, 2011). Neste sentido, esta
proposta procura diminuir a dispersão curricular, reforçando a carga horária de
disciplinas ditas essenciais ou académicas, e excluindo disciplinas de caráter
pessoal e social, como por exemplo, a disciplina de Formação Cívica no 2.º e
3.º ciclos do ensino básico e no 10.º ano. Ora, em particular no ensino
secundário, esta alteração de paradigma, no sentido de um desinvestimento nas
componentes referidas, é particularmente evidente com a exclusão da disciplina
de Área de Projeto no 12.º ano e a futura exclusão da Formação Cívica no 10.º
ano.
No contexto americano, de forma semelhante ao que está a acontecer em Portugal,
tem-se vindo a assistir a um interesse redobrado, acompanhado de pressão por
parte dos políticos e do público em geral, na melhoria dos resultados
académicos dos alunos. Em parte como consequência desta maior exigência, muitas
escolas aumentaram o tempo letivo das disciplinas curriculares, enquanto que
reduziram o tempo das disciplinas não curriculares, não sujeitas a avaliação
(Greenberg et al., 2003). Deste modo, em vez de existir uma integração destes
segmentos e uma maior compreensão da contribuição destas áreas na prevenção do
insucesso académico, bem como no desenvolvimento global dos alunos, parece
estar a ser adotada a opção de enfatizar a educação centrada no desempenho.
Na sociedade portuguesa, a controvérsia em torno deste tema adensou-se face às
recentes propostas de alteração das componentes de desenvolvimento social e
emocional nos curricula, bem como à ausência de um período de debate público
alargado, anterior à proposta. De facto, o Conselho Nacional da Educação (CNE),
no parecer n.º 2/2012, emitido no Diário da República, de 7 de março, sublinha
a importância da aprendizagem ao longo da vida e clarifica que há aprendizagens
indispensáveis para se sobreviver num mundo complexo e em acelerada mudança
(...) as chamadas aprendizagens de vida' que dificilmente encontram espaço na
tradicional divisão dos curricula apenas em disciplinas (p. 8443), defendendo
claramente um tempo próprio para a disciplina de Formação Cívica em futuros
curricula.
Por sua vez, a Federação Nacional de Educação (FNE), no seu parecer, de janeiro
de 2012, sobre a revisão curricular, considerou que as competências essenciais
que incluem o pensamento divergente, a criatividade, o senso crítico, o
empreendedorismo (...) (p. 7), não se encontram previstas de forma intencional
nos programas atuais, nem tão pouco existe uma devida exploração dos projetos
pessoais de vida dos alunos, que a escola deveria garantir ao longo do percurso
escolar, promovendo, assim, a motivação intrínseca que conduz ao significado
pessoal das aprendizagens. Mais ainda, realça que não é explícito como é
garantido através do currículo, no seu mais amplo significado, o
desenvolvimento de atitudes e a consciencialização de valores, subordinando-se
a aquisição de conhecimentos ao domínio de aptidões e capacidades que propiciem
o desenvolvimento pessoal e social dos alunos (FNE, 2012, p. 12). Por esta
ordem de razões, a FNE opôs-se à eliminação da disciplina de Formação Cívica,
evidenciando a sua pertinência ao longo do percurso académico e de vida dos
alunos, (...) particularmente em áreas tão significativas como o
autoconhecimento, o desenvolvimento vocacional, o senso crítico e o pensamento
divergente. (p. 11).
Também a Federação Nacional dos Professores (FENPROF) considerou, numa nota à
comunicação social, as medidas atuais como empobrecedoras do currículo, havendo
uma clara desvalorização das áreas da formação cívica dos jovens (p. 1),
tornando-se clara a supressão de disciplinas essenciais à formação integral dos
jovens, para o reforço da carga horária em disciplinas curriculares (FENPROF,
2011).
Mais ainda, o Movimento Escola Pública (MEP, 2012), numa reflexão sobre a
proposta de revisão curricular, em 30 de janeiro de 2012, manifestou-se,
também, contra a exclusão da disciplina de Formação Cívica, condenando o recuo
na promoção das capacidades que a escola oferece aos seus jovens, afirmando que
não basta ser capaz de assimilar e reproduzir a informação transmitida, [pois]
é preciso aprender a saber transformá-la em conhecimento e capacidades (p. 2).
De facto, o panorama educativo atual reflete o progressivo desinvestimento e a
consequente desvalorização a que a aprendizagem social e emocional dos alunos
tem sido votada pelo sistema educativo português, centrando atualmente os seus
esforços no desenvolvimento de competências ditas tradicionais ou formais e
alheando-se das necessidades de formação dos alunos a nível social e emocional.
Nesta perspetiva, poder-se-á salientar que a Escola, para garantir o seu papel,
cada vez mais transdisciplinar e universal, deverá integrar um modelo de
desenvolvimento do aluno mais amplo e holístico, não incidindo apenas no seu
desenvolvimento cognitivo mas também no seu desenvolvimento social e emocional.
Assim sendo, este estudo, de cariz qualitativo, e com um propósito
exploratório, pretende contribuir para o debate na sociedade portuguesa,
captando a perspetiva de professores sobre o passado, o presente e o futuro das
políticas e das práticas educativas na área da aprendizagem social e emocional.
MÉTODO
O presente estudo teve como principal objetivo conhecer a perspetiva de
professores sobre o papel da Escola na promoção da aprendizagem social e
emocional dos alunos, particularmente no ensino secundário. Neste sentido,
procurou indagar qual a importância atribuída às dimensões sociais e emocionais
da aprendizagem, as práticas e estratégias implementadas para promover o seu
desenvolvimento nos alunos, bem como o impacto neste domínio das atuais
alterações na reforma educativa.
Participantes
Neste estudo participaram 12 docentes, maioritariamente do sexo feminino (75%),
com idades compreendidas entre 32 e 57 anos (M=44,3; DP=8,95), dos quais 50%
lecionam ou já lecionaram disciplinas de desenvolvimento socioemocional, 58,3%
são membros do Conselho Pedagógico, desempenhando funções em 3 escolas do
ensino secundário do Grande Porto. Os docentes tinham entre 7 e 33 anos de
experiência profissional (M=21,4; DP=9,70) e, na sua maioria, possuíam a
licenciatura (66,7%), 25% concluíra o mestrado e 0,08% o doutoramento.
Instrumento
Considerando a especificidade da temática, foi utilizado um questionário com
questões abertas, criado de raiz para este estudo, que abordava a temática da
aprendizagem social e emocional, a partir de questões sobre o seu
desenvolvimento no contexto escolar atual, a sua dinamização e práticas no
ensino secundário, bem como o balanço e as consequências das alterações
curriculares em curso (cf. Quadro_1).
O instrumento foi sujeito a um estudo prévio de reflexão falada com 3
professores com características semelhantes aos da amostra do estudo.
Globalmente, o questionário sobre a aprendizagem social e emocional, bem como o
questionário sociodemográfico construídos para este estudo revelaram-se
ajustados, quer à especificidade da amostra quer aos objetivos. Na reflexão
falada foi sugerido que se enfatizasse o papel do desenvolvimento social e
emocional no sucesso académico dos alunos. O tempo de resposta ao questionário
foi, em média, de 40 minutos.
Procedimento
Quanto ao procedimento seguido na recolha de dados, num primeiro momento
procedeu-se à seleção de três escolas que integrassem o ciclo de ensino
secundário, na área do Grande Porto, heterogéneas quanto à sua localização
(central vs. periférica), tipo de ensino (público vs. privado) e posição
ocupada no rankinganual de escolas, e que pudessem espelhar desta forma
realidades distintas. Após o contacto informal com as várias instituições e uma
vez constatada a sua recetividade e disponibilidade, foram formalizados os
pedidos de autorização e confirmado o consentimento das escolas para a
realização do estudo.
Foi solicitado a cada instituição que selecionasse quatro docentes que
lecionassem ou tivessem lecionado disciplinas de desenvolvimento
socioemocional, tendo sido explicados os objetivos do estudo e garantido o
anonimato e a confidencialidade dos respetivos dados. O questionário sobre a
aprendizagem social e emocional, bem como o questionário sociodemográfico foram
enviados por correio eletrónico e, consequentemente, respondidos de acordo com
a disponibilidade dos partici- pantes. A literatura tem revelado um número
crescente de estudos que integram métodos de recolha de dados mediados pelo
computador, através do acesso à internet, o que tem conduzido também a um
aumento da investigação sobre as vantagens e as desvantagens destas
metodologias (Hunter, 2012; Katz et al., 2008; Wright, 2005). Neste estudo, a
opção de enviar por correio eletrónico o questionário assentou nos benefícios
relacionados com a sua acessibilidade, o uso personalizado do tempo e os
menores custos associados (Katz et al., 2008; Wright, 2005), bem como a menor
pressão exercida sobre as respostas dos participantes (Boshier, 1990) e a
distância social criada pela internet, que facilita a discussão de temáticas
consideradas mais sensíveis (Cantrell & Lupinacci, 2007).
Análise de dados
A codificação e a análise das respostas às questões abertas foram realizadas
com recurso ao programa NVivo 8.A codificação dos dados foi realizada tendo por
base uma árvore de categorias e subcategorias definidas a priori, segundo o
método top down(Miller & Fox, 2004), que impõe que os dados sejam
organizados em função dos objetivos do estudo e/ou dimensões/questões do
questionário. As categorias previamente definidas foram sendo progressivamente
refinadas ao longo da codificação. Num segundo momento seguiu-se a análise
exploratória dos dados emergentes nas categorias e subcategorias da árvore
relativas ao desenvolvimento da aprendizagem social e emocional na escola.
Nesta abordagem qualitativa asseguraram-se aspetos como a fidelidade e a
validade dos dados recolhidos (Silverman, 2001): (i) quanto à fidelidade, os
procedimentos foram definidos a priori, no sentido do investigador reproduzir
de forma estandardizada e em condições semelhantes quer a recolha de dados
(uniformização das instruções e questionário com questões abertas), quer o seu
tratamento e análise (predefinição de categorias, supervisão da codificação por
um segundo investigador e envolvimento dos investigadores em todas as fases da
investigação); (ii) já quanto à validade, particularmente a validade interna,
procurou-se uma constante correspondência entre os dados encontrados e a
realidade, através da descrição detalhada de indicadores e de conceitos, para
serem clarificados e compreendidos do mesmo modo pelos investigadores, bem como
a verificação do processo de codificação e das conclusões obtidas a partir da
análise de categorias.
RESULTADOS
O desenvolvimento social e emocional na escola atual
— A Escola atual, apesar de todas as pressões que hoje em dia a
possam fazer desviar da totalidade das suas funções, continua a ser
por excelência o local de desenvolvimento global dos alunos. Quem
olha para a Escola atual, para o seu corpo docente e para as
estratégias aplicadas consegue ver que ainda é a escola que ajuda a
descobrir, dá forma e lança as bases da sociedade.Entrevistado 12
(E12).
Na perceção dos docentes foi consensual que a Escola tem, atualmente, uma
função mais alargada e exigente no que se refere à formação global do aluno,
sendo considerada como um espaço privilegiado e vocacionado para o
desenvolvimento e formação integral da pessoa.(E9).De facto, os docentes
encararam a formação pessoal e social como um princípio educativopor si
mesmo, imprescindível num contexto de um mundo em clara mutação(E10),conside-
rando que é num mundo pluralde opiniões, culturas e estratos sociais que se
potencia e concretiza a educação de cidadãos autónomos, participativos e
civicamente responsáveis(E9).
—A escola é, assim, o centro onde se operacionaliza a Formação
Pessoal e Social e onde se desenvolvem ações preventivas que
concorrem para que os jovens não sejam colocados à margem da
definição do seu futuro, mas que se constituam como atores e críticos
do seu próprio destino. A educação escolar, para além da missão
intrínseca de transmitir conhecimentos, terá, simultaneamente, de
contribuir para a capacitação dos alunos para a resolução dos seus
problemas de vida, estimulando o seu desenvolvimento psicológico e
confrontando-os com questões atinentes a valores, através de
atividades proporcionadas pela escola por forma a permitir-lhes um
maior desenvolvimento moral. (E10).
Enquanto promotora do desenvolvimento integral dos alunos, a Escola tem como
principais objetivos, na voz dos docentes, contribuir para o desenvolvimento da
cidadania, valores e solidariedade(E7), prevenir situações de risco e
reforçar os fatores sociais de proteção(E8),promovendo a inter-relação entre
os diversos intervenientes família/ escola/comunidade como agentes
participantes no processo de desenvolvimento socioeducativo(E8),bem como a
promoção de condições socioemocionais que contribuam para a consolidação do
sucesso escolar dos jovens (E8), como seja, o favorecimento da autoestima,
autoconfiança, eficácia e autonomia(E5) dos alunos.
Em particular, nos contextos educativos dos docentes, a área do desenvolvimento
pessoal e social foi globalmente valorizada enquanto objetivo de formação dos
alunos. No entanto, não havendo um plano definido da formação pessoal e social
dos alunos(E9), os docentes consideraram existir diferentes iniciativas e
projetos que vão sendo analisados e implementados pelos diferentes ciclos(E9),
bem como atividades de enriquecimento curricular (E1), com vista a
operacionalizar o desenvolvimento destas competências nos alunos, em que tanto
os alunos, como os pais e a comunidade são amplamente envolvidos(E1).
— Na minha escola, independentemente da existência ou não nos planos
curriculares nacionais de áreas de formação ligadas à formação
pessoal e social, sempre se considerou essencial a formação do
indivíduo, para além da mera transmissão de conhecimentos inscritos
nos programas curriculares. Houve e há a preocupação de incluir e pôr
em prática no seu Projeto Educativo a Formação Pessoal dos alunos.
(E2).
A aprendizagem social e emocional no ensino secundário
— Mais do que nunca espera-se da escola a tarefa de ultrapassar a
mera transmissão de conteúdos e de assumir um papel preponderante na
contribuição para a formação pessoal e social dos alunos, suscitando-
lhes, ao mesmo tempo, a aquisição de competências próprias que lhes
permitam lidar convenientemente com as tarefas da sua vida
quotidiana. Numa altura em que se assiste a uma profunda crise de
valores, a uma cada vez maior desestruturação das famílias, este
papel da escola enquanto escola que prepara para a vida' será
fundamental. (E10).
Globalmente, os docentes consideraram que a estrutura curricular do ensino
secundário está focalizada na promoção de aprendizagens ditas tradicionais,
sendo que neste ciclo de ensino o desenvolvimento de competências sociais e
emocionais tende a refletir, cada vez mais, uma função não prioritária da
escola. Consideraram que, de uma forma geral, a escola está orientada
exclusivamente para os resultados(E1), sendo que as disciplinas sujeitas a
exame nacional são as mais valorizadas. Acreditam que a formação pessoal e
social é menosprezadae que com as reestruturações curriculares existentes, a
exclusão da disciplina de Formação Cívica põe em causa a continuidade e a
abordagem formal do desenvolvimento pessoal e social.(E2).
— Atualmente, a escola tem papel preponderante na transmissão de
conteúdos e a atual organização curricular não permite ultrapassar
essa tarefa que, embora importante, deixa pouco tempo à aquisição de
outras competências que permitam aos alunos lidar convenientemente
com as tarefas da sua vida quotidiana. (E4).
A aprendizagem social e emocional permite ao aluno, na voz dos docentes, a
abertura a perspetivas diversas(E2), que facilitam o seu posicionamento e a
compreensão do mundo que o rodeia(E12). O desenvolvimento pessoal e social do
aluno vai refletir-se numa postura mais crítica, interventiva, autónoma e
responsável(E3) e mais capaz de enfrentar as adversidades(E6) do contexto
académico, tendo como consequência direta maior autoestima, autoconfiança e
consciência face aos estudos(E2), que se irá traduzir positivamente no seu
sucesso académico:
— O desenvolvimento pessoal e social dos alunos é fundamental para o
seu sucesso académico, quer no presente quer no futuro. Cada vez
mais, os nossos alunos têm de estar conscientes que a formação
curricular é um ponto de partida para a sua vida escolar e,
posteriormente, profissional. É a sua capacidade de saber lidar com
os outros, de saber afirmar-se como cidadão responsável e exemplar,
de saber trabalhar em equipa, que vai fazer a diferença. Um aluno que
consiga atingir uma dimensão pessoal e social mais vasta vai ser, com
certeza, melhor sucedido.(E11).
Em particular, no ensino secundário, os docentes revelaram que as competências
socioemo- cionais facilitam a progressão dos alunos, uma vez que lhes
proporcionam um autoconhecimento firme, suportado em valores de respeito por
si e pelas diferenças que marcam o outro(E2) e uma perspetiva mais
responsávelna forma como encaram o novo ciclo de estudos.
— O processo de transição do 3º ciclo para o Secundário é um
tremendo passo de gigantes'. Para que o sucesso possa ser atingido
deverá existir uma teia' de apoio aos alunos (pais, diretor de
turma, psicólogo) que os guie nas escolhas que desejarem fazer.
(E12).
Apesar da importância reconhecida ao desenvolvimento de competências
socioemocionais na formação do aluno, os docentes realçaram as condicionantes e
dificuldades de resposta das escolas, referindo, em particular, que a falta de
tempo, de motivação e de preparação(E3), bem como o facto de ser considerada
por muitos como acessória(E9), não permitem uma resposta adequada.
As estratégias adotadas pela Escola na promoção do desenvolvimento social e
emocional dos alunos foram, globalmente, diversificadas (cf. Quadro_2).
No que se refere a possíveis processos de monitorização e de avaliação das
estratégias implementadas, a maioria dos docentes afirma não existir uma
avaliação diferente da dos demais processos educativos, isto é, por norma pouco
específica e sem uma avaliação formal do cumprimento dos objetivos propostos.
As alterações curriculares na área da aprendizagem social e emocional
— De que servirá à sociedade um matemático brilhante, um médico
ilustre, um empresário de sucesso, um investigador pioneiro, se não
souber pôr o seu trabalho ao serviço dos outros? (...) é premente que
sejam exploradas e desenvolvidas capacidades que permitam ao alunos
dar-se à sociedade, ao invés de apenas receberem conhecimentos que,
indubitavelmente, são essenciais e estruturantes, não sendo, no
entanto, suficientes.(E10).
De um modo geral, para os docentes a introdução de disciplinas na área de
desenvolvimento social e emocional constituiu uma mais valia indiscutível na
formação global do aluno, sendo percecionada como oportunidade para o
desenvolvimento da formação e do desenvolvimento pessoal e social(E3) que se
traduziria no desenvolvimento de competências que lhe seriam muito úteis,
independentemente da via que seguissem após a conclusão desse nível de ensino
(E2). De facto, consideraram que a disciplina de Formação Cívica e Área de
Projeto fomentava a maior estabilidade emocional, autoestima, confiança,
disciplina, capacidade de resolução de problemas, e comportamentos sociais
mais adequados(E8), assim como possibilitava aos professores e Diretores de
Turma a oportunidade de estar mais próximo e promover um desenvolvimento mais
equilibrado do adolescente(E12):
— Faço um balanço muito positivo (...) os resultados visíveis deram-
me a entender que os alunos sentiram que, pela experiência de
trabalhar de uma forma diferente daquela a que estavam habituados,
muito os ajudou a crescer. (E12).
Neste sentido, a exclusão de disciplinas implementadas há tão pouco tempo,
constitui, para os vários professores algo de profundamente negativo: um
retrocesso(E1), uma perda (E3) e o fim de um ciclo que não mais voltará
(E12) no que ao investimento na formação global dos alunos diz respeito.
Consideraram, ainda, que por muito que se perspetive a continuação do
investimento nestas competências, de um modo transversal, não existe tempo
para o fazer(E2), colocando em causa a continuidade e a abordagem formal do
desenvolvimento pessoal e social(E2):
— É uma visão redutora da educação. No mundo de hoje, a formação
para a cidadania, a educação para os valores, a educação
intercultural, a formação cívica são áreas educativas a reforçar face
à violência e à intolerância; a existência de um tempo educativo
inteiramente dedicado a estas dimensões da formação complementa o que
se faz no âmbito do currículo disciplinar (...). (E4).
No discurso dos docentes, a identificação e a proposta de medidas que possam
minimizar as consequências que advêm das atuais alterações curriculares
desvendou a futura dificuldade ou mesmo a impossibilidade em ultrapassar a
exclusão destas disciplinas por falta de tempo próprio para o fazer(E3). De
facto, sob pena de colocar em causa o desenvolvimento global do aluno, os
docentes consideraram que no futuro se deveria assegurar a formação nesta área,
quer seja através da transdisciplinaridade do currículo, transferindo essas
competências para as disciplinas curricu- lares existentes(E9), quer seja pela
valorização destas componentes no projeto educativo da Escola:
— A única solução possível será, como já indicado, que as várias
disciplinas, dentro dos limites possíveis, concorram para as
finalidades de uma área como a do desenvolvimento pessoal e social.
Só a nível da execução de um plano anual de atividades rico, coerente
e variado, e com a participação das várias áreas disciplinares, será
possível dar alguma resposta na via da formação dos alunos. (E2).
DISCUSSÃO
Numa sociedade complexa e progressivamente mais exigente, os alunos devem ser
preparados não só para serem bem sucedidos na escola, mas também para serem bem
sucedidos na vida. Nesta senda, a aprendizagem social e emocional reveste-se de
particular importância no contexto educativo, acres- centando um inegável valor
ao modelo preconizado de formação global do aluno. Mais ainda, a evidência do
papel adaptativo e potenciador das competências socioemocionais tem conduzido
ao seu crescente reconhecimento, particularmente no contexto escolar (Elias et
al., 1997; Zins et al., 2001).
Assim, partilhando desta perspetiva, os docentes foram, globalmente,
consensuais ao considerar que a Escola tem a função de dotar os alunos com
competências sociais e emocionais que, a par das cognitivas, potenciam o seu
desenvolvimento integral e, consequentemente, promovem o seu êxito a vários
níveis. No entanto, a maioria reconheceu que na sua realidade escolar, apesar
da valorização implícita desta função, a não existência de um plano a nível
nacional de desenvolvimento social e emocional dos alunos, leva a que o
investimento de cada escola na promoção destas áreas seja variável e, em larga
medida, dependente dos seus próprios interesses e motivações.
Ao nível do ensino secundário, muito particularmente, o discurso dos docentes
reflete a função prioritária da Escola de transmissão dos saberes ditos
essenciais, logo, curriculares, relegando para segundo plano a promoção de
competências sociais e emocionais (Greenberg et al., 2003). A subvalorização
destas áreas parece, no geral, ser assumida pelos docentes, que afirmam não
existir uma abordagem mais produtiva desta área, nomeadamente pela ausência de
estrutura e organização curriculares vocacionadas para o seu desenvolvimento.
A estreita relação entre o domínio das competências sociais e emocionais, o
rendimento académico e a aprendizagem ao longo da vida (Zins, Weissberg, et
al., 2004) foram realçadas pelas várias vozes da Escola. De facto, estas
aprendizagens favorecem os alunos no confronto com adversi- dades várias, ao
mesmo tempo que proporcionam uma maior responsabilização, autonomia,
consciência face aos estudos, autoconfiançae motivação, promovendo a
prossecução de objetivos e de resultados de mestria e excelência, bem como a
procura constante do desenvolvimento. No ensino secundário, mais exigente do
ponto de vista académico e socioemocional, os docentes realçaram que o
desenvolvimento destas competências se apresenta como uma mais valia na gestão
do quotidiano escolar dos alunos, uma vez que possibilitam um maior
autoconhecimento, facilitador e potenciador da tomada de perspetiva
responsávelsobre a importância desta etapa da vida escolar no futuro
académico e profissional.
A Escola, sendo um espaço social privilegiado, proporciona, quer através de
práticas institucionalizadas, quer de forma espontânea e informal, um conjunto
diversificado de experiências que possibilitam ao aluno o desenvolvimento de
competências variadas, entre as quais as sociais e emocionais. Neste sentido,
várias estratégias promotoras da aprendizagem social e emocional foram
consideradas pelos docentes, mas foram sobretudo as de cariz extracurricular
(atividades culturais, desportivas ou comemorativas) as mais mencionadas, o
que, não obstante a sua capacidade de promover as competências socioemocionais,
por si só, têm um efeito limitado uma vez que não garantem que a aprendizagem
social e emocional abranja todos os alunos.
De facto, apesar do reconhecido investimento das escolas no desenvolvimento de
estratégias para a promoção de competências socioemocionais, a ausência de um
plano de desenvolvimento estruturado tornou-se evidente: em prejuízo do
desenvolvimento dos alunos, as estratégias adotadas apresentam-se muitas vezes
segmentadas, focalizadas em temáticas específicas e sem continuidade no tempo,
carecendo de objetivos particulares de formação nesta área e não sendo sujeitas
a uma avaliação de resultados, o que em larga medida poderá comprometer,
segundo a literatura, quer a sua implementação nas práticas escolares, quer os
eventuais efeitos sobre o desenvolvimento do aluno (Zins & Elias, 2006).
A introdução de disciplinas da área de desenvolvimento social e emocional
possibilitou, através de uma estrutura formalmente instituída, uma
oportunidade de desenvolvimentoe crescimentopara todos os jovens. A sua
prematura exclusão foi perspetivada pelos docentes como profundamente negativa
e comprometedora do desenvolvimento futuro dos alunos, constituindo um claro
recuo na política educativa, que desejavelmente deveria pugnar pela formação
global dos alunos: ora, manifestando claramente a dificuldade que a Escola terá
em colmatar esta exclusão prematura, os docentes apontaram a abordagem
transdisciplinar destes conteúdos no currículo, a par do investimento de cada
escola nestas áreas, como meios para combater os efeitos negativos das
alterações em curso.
CONCLUSÕES
Apesar de reconhecida a importância das competências sociais e emocionais no
percurso académico, a Escola encontra-se cada vez mais pressionada na sua
função de formar academicamente: como consequência da falta de tempo, de
recursos, de orientações precisas de formação e de alterações curriculares, a
Escola tem vindo a debater-se para conseguir responder às necessidades de
desenvolvimento global dos alunos.
De facto, à semelhança de outros países, devido às várias dificuldades de
operacionalização e implementação (Adelman & Taylor, 2000), a aprendizagem
social e emocional parece ter ainda um longo caminho a percorrer para que se
possa constituir como uma realidade na Escola atual.
Em suma, à medida que aumenta a compreensão dos efeitos do contexto social no
desenvol- vimento dos jovens, mais o contexto educativo se constituirá como
espaço privilegiado na promoção do desenvolvimento holístico e integrado do
aluno: neste sentido, e uma vez que as competências socioemocionais apresentam
uma estreita relação com o sucesso académico, as escolas, para serem eficazes
do ponto de vista socioeducativo, devem focalizar os seus esforços na
coordenação e integração das várias áreas, inclusive a socioemocional,
otimizando o potencial dos alunos para virem a ser bem sucedidos na escola e ao
longo da vida.