Estilos parentais e relações de vinculação
As famílias, como primeiro contexto de socialização, desempenham um papel
fundamental no comportamento e desenvolvimento das crianças (Baumrind, 1991;
Parke & Buriel, 2006). As relações precoces têm sido identificadas como
fundamentais para o desenvolvimento da criança (Baumrind, 1978; Bornstein,
2002, 2006; Maccoby, 2000; Sroufe, 2000), sendo a qualidade dos cuidados
parentais apontada frequentemente como a variável mais importante para o
desenvolvimento infantil (Sroufe, 2002).
ESTILOS EDUCATIVOS PARENTAIS
A investigação tem mostrado diversos resultados que apontam para a importância
das relações precoces e das atitudes e comportamentos parentais neste âmbito,
nomeadamente no que respeita aos padrões educativos dos pais. Numa abordagem
tipológica, Baumrind prestou um contributo fundamental para o debate em torno
da influência dos pais no desenvolvimento das crianças, com a sua proposta de
três estilos parentais: Autoritário, autorizante e permissivo (Baumrind, 1967,
1971; Darling & Steinberg, 1993; Parke & Buriel, 2006).
Na definição da autora, os pais com um estilo autoritário apresentam valores
reduzidos de afectividade e elevados níveis de controlo e restritividade.
Exercem um controlo psicológico rígido, desencorajam a independência e
individualidade da criança e as trocas verbais entre eles. Tentam influenciar,
controlar e avaliar o comportamento e atitudes dos filhos de acordo com um
padrão absoluto, dão valor à obediência e favorecem a punição, e tentam incutir
à criança valores tradicionais como o respeito pela autoridade, o trabalho,
tradição e preservação da ordem (Baumrind, 1966, 1967, 1971).
Numa configuração autorizante (o estilo ideal para Baumrind), os pais exercem
um controlo firme e são afectuosos, calorosos e responsivos às necessidades das
crianças. Encorajam a comunicação aberta e as trocas verbais entre si e os seus
filhos, e promovem a sua autonomia e individualidade. Partilham as razões das
decisões tomadas, reconhecem os seus direitos e os direitos da criança, tentam
orientar as suas actividades de modo racional e têm uma atitude de confronto
face às divergências, sem exagerar nas restrições. Afirmam os seus valores de
modo claro, esperando das crianças que cumpram as normas que lhes dizem
respeito e partilham com elas as razões das decisões. Estes pais têm níveis
elevados de exigência mas também de afectividade e promovem um ambiente
intelectualmente estimulante para os seus filhos. Os pais autorizantes estão
altamente comprometidos e investem bastante na educação dos seus filhos
(Baumrind, 1967, 1971, 1993). Baumrind sugere que este estilo aumenta a
eficácia da parentalidade, alterando as características das crianças que, por
sua vez, fortalecem as capacidades dos pais como agentes de socialização
(Darling & Steinberg, 1993).
Os pais com um estilo permissivo têm uma atitude tolerante e de aceitação face
aos impulsos, desejos e acções da criança e evitam tomar posições de autoridade
e impor controlo ou restrições aos seus filhos. São pais pouco punitivos,
permitem às crianças regular o seu próprio comportamento e tomar as suas
próprias decisões sempre que possível, e exigem poucas regras de rotina
(Baumrind, 1967, 1971). Tanto os pais com um estilo permissivo como os pais com
um estilo autoritário fazem, segundo Baumrind, poucas exigências de maturidade
e comunicam de modo ineficaz (Baumrind, 1967).
Maccoby e Martin (1983) distinguiram os estilos parentais em função das
dimensões exigência e responsividade, com os pais autorizantes a manifestarem
níveis elevados nas duas dimensões e os autoritários apenas na dimensão
exigência, com responsividade reduzida. Os autores distinguem também dois
padrões distintos de baixa exigência, sendo os pais do tipo indulgente
responsivos mas pouco exigentes e tendo os pais do tipo negligente valores
reduzidos nas duas dimensões (Maccoby & Martin, 1983). Para além de
Dornbusch e colaboradores (Dornbusch, Ritter, Leiderman, Roberts, &
Fraleigh, 1987), que fizeram referência aos estilos indulgente e negligente
dentro da configuração permissiva, também Baumrind assinalou as dimensões
exigência e responsividade, bem como o estilo rejeitante-negligenciador,
enquadrado num padrão não-envolvido e caracterizado igualmente por baixa
exigência e responsividade (Baumrind, 1989, 1991).
Assim, a responsividade refere-se, segundo Baumrind (1991; Baumrind, Larzelere,
& Owens, 2010) à medida em que os pais intencionalmente promovem a
individualidade, auto-regulação e auto-afirmação da criança através do apoio,
afecto, suporte emocional, complacência e sintonia com as necessidades e
exigências da criança. Para Maccoby e Martin (1983), a responsividade pode ser
referente ao reforço contingente, controlo ou à sensibilidade e adaptação aos
sinais, estados e necessidades da criança. A dimensão exigência remete para as
exigências de maturidade, supervisão, disciplina e prontidão para confrontar a
criança que desobedece, no sentido da sua integração no contexto familiar
(Baumrind, 1991; Baumrind, Larzelere, & Owens, 2010).
ESTILOS PARENTAIS E RESULTADOS DESENVOLVIMENTAIS
As crianças expostas a um estilo autoritário tendem a ter valores mais
reduzidos no autoconceito, a ser mais apreensivas, receosas, inseguras,
agressivas, dependentes, socialmente inibidas, com dificuldades na regulação
das emoções e insatisfação, tendem também a ter mais comportamentos de
externalização e delinquência, e parecem ter níveis reduzidos de
responsabilidade social (Baumrind, 1967, 1971; Baumrind & Black, 1967;
Brar, 2003; Dornbusch et al., 1987; Hart, Newell, & Olsen, 2003; Hart,
Nelson, Robinson, Olsen, & McNeily-Choque, 1998; Lamborn, Mounts,
Steinberg, & Dornbusch, 1991; Nix et al., 1999; Odubote, 2008; Steinberg,
Dornbusch, & Brown, 1992). As raparigas apresentaram-se com níveis elevados
de assertividade social e, quando comparadas com os filhos de pais
autorizantes, parecem ser mais dependentes e dominadoras e os filhos mais
hostis e resistentes às directrizes do adulto (Baumrind 1967, 1971, 1989).
Alguns autores encontraram ainda associações negativas entre este estilo e as
competências académicas e a adaptação escolar (Dornbusch et al., 1987; Shumow,
Vandell, & Posner, 1998) e associações positivas com sintomas depressivos
(Darling, McCartney, & Taylor, 2006). Este estilo surge também relacionado
com afecto negativo (Lagacé-Séguin & d'Entremont, 2006).
Já uma configuração permissiva parece comprometer o desenvolvimento académico e
social das crianças, nomeadamente no que respeita à sua assertividade e
responsabilidade social, demonstrando dificuldades na autonomia, regulação das
emoções, baixos níveis de auto-controlo, auto-confiança, auto-estima,
persistência e de realização, imaturidade, dependência, impulsividade e
agressividade, bem como mais comportamentos disruptivos (Baumrind, 1967, 1971,
1977, 1989; Cole & Cole, 2001; Dornbusch et al., 1987; Lamborn et al.,
1991; Maccoby & Martin, 1983; Sommer, 2007). O estilo permissivo parece
também estar relacionado com o afecto negativo (Lagacé-Séguin &
d'Entremont, 2006). Em comparação com o estilo autoritário e o estilo
autorizante, estas crianças revelam níveis reduzidos de autonomia, auto-estima,
auto-controlo e capacidade de exploração. Quando comparados com os filhos de
pais autorizantes, os rapazes são também menos orientados para a realização e
as raparigas menos assertivas do ponto de vista social (Baumrind, 1971, 1977,
1989).
Os filhos de pais autorizantes parecem ser crianças com melhor desempenho
académico, mais competentes e pró-sociais e ter menos problemas de
internalização e externalização (Baumrind, 1966, 1971, 1977, 1989; Dornbusch et
al., 1987; Grolnick & Ryan, 1989; Lamborn et al, 1991; Steinberg, Blatt-
Eisengart, & Cauffman, 2006; Steinberg, Dornbusch, & Brown, 1992;
Steinberg, Elmen, & Mounts, 1989; Steinberg, Lamborn, Dornbusch, &
Darling, 1992; Steinberg, Lamborn, Darling, Mounts, & Dornbusch, 1994) e
menor tendência para a internalização de sintomas (Williams et al., 2009). As
raparigas parecem ser mais independentes, intencionais, dominantes e orientadas
para a realização e os rapazes socialmente mais responsáveis, isto é,
demonstram uma atitude amigável e cooperante com pares e adultos, são
socialmente maduros e altruístas (Baumrind, 1971, 1989, 1991). Um estilo
parental autorizante parece, então, promover resultados mais favoráveis no
desenvolvimento das crianças, que apresentam menores níveis de problemas de
comportamento, ansiedade e depressão, maior número de comportamentos
exploratórios, maior assertividade, auto-confiança, auto-estima, competência
social, auto-regulação, criatividade, persistência, auto-controlo, e mais
competências académicas e de liderança (Baumrind, 1966, 1967, 1971, 1991, 1993;
Baumrind & Black, 1967; Eiden, Edwards, & Leonard, 2007; Grolnick &
Ryan, 1989; Lamborn et al., 1991; Maccoby & Martin, 1983; Reitman &
Gross, 1997; Steinberg, Mounts, Lamborn, & Dornbusch, 1991; Steinberg,
Lamborn, Darling, Mounts, & Dornbusch, 1994) e avaliam-se a si próprias
como mais competentes ao nível social e académico (Lamborn et al., 1991).
Assim, elevada responsividade parece estar associada a resultados positivos
quando conjugada com elevada exigência (no estilo autorizante) mas, quando
conjugada com baixos níveis de exigência (como na configuração permissiva),
parece ter resultados menos benéficos ao nível desenvolvimental (Baumrind,
1967, 1971, 1991). Os resultados desenvolvimentais são também benéficos quando
a exigência passa não sî por um reforço rigoroso mas igualmente por padrões de
comportamento adequados ao desenvolvimento, ao contrário de uma exigência que
passe por tipos de afirmação de poder coercivos-autoritários (como a disciplina
arbitrária, controlo psicológico ou críticas verbais hostis), cujos efeitos
sobre as crianças são raramente benéficos (Baumrind, Larzelere, & Owens,
2010).
Como resposta a algumas questões levantadas ao longo dos anos desde a
apresentação da tipologia de Baumrind, nomeadamente no que respeita às
diferenças nos resultados obtidos relativamente às especificidades culturais,
vários autores (Darling & Steinberg, 1993; Grusec & Goodnow, 1994; Mize
& Pettit, 1997; Stevenson-Hinde, 1998) têm também trabalhado a
identificação e distinção empírica entre práticas e estilos parentais. Darling
e Steinberg (1993) propõem que as práticas parentais englobam os comportamentos
definidos por conteúdos específicos e objectivos de socialização, sendo
avaliadas em termos de conteúdos e frequência do comportamento, e
operacionalizadas a diferentes níveis consoante a relação colocada em hipótese
entre o objectivo de socialização e o resultado desenvolvimental. Já os estilos
parentais são definidos como uma constelação de atitudes face à criança, que
lhe são comunicadas, e que criam um clima emocional no qual os comportamentos
dos pais são expressos. Estes incluem comportamentos específicos, dirigidos
para um objectivo e através dos quais os pais exercem as suas obrigações
(práticas parentais) e comportamentos não dirigidos para um objectivo ou
definidos por um objectivo, como o tom de voz ou a linguagem corporal. As
práticas podem, então, ser definidas enquanto estratégias específicas e os
estilos parentais como o clima ou atitude global de um vasto leque de
interacções pai-criança (Darling & Steinberg, 1993; Grusec & Goodnow,
1994; Mize & Pettit, 1997; Stevenson-Hinde, 1998).
RELAÇÕES DE VINCULAÇÃO
Uma relação de vinculação pode ser definida como o forte laço afectivo,
estabelecido por volta dos 7/8 meses, que liga a criança a uma ou mais figuras
estáveis e tidas como únicas, ao longo da sua vida. Estas relações são
construídas no contexto das interacções entre a criança e a figura de
vinculação e funcionam como um sistema de controlo comportamental que regula os
comportamentos de proximidade e de exploração do meio, isto é, a segurança na
vinculação reflecte-se pela forma como as crianças organizam os seus
comportamentos de modo a manter um equilíbrio entre a sua necessidades de
protecção e conforto e a sua necessidade de explorar o ambiente ao seu redor
(Bowlby, 1971; Monteiro, Veríssimo, Vaughn, Santos, & Fernandes, 2008). A
figura de vinculação funciona então como base segura — a criança afasta-se e
regressa para junto dela, periodicamente, para brincar ou estabelecer um breve
contacto, afastando-se novamente para explorar objectos ou interagir com outras
pessoas (Ainsworth, 1967; Ainsworth, Blehar, Waters, & Wall, 1978; Bowlby,
1971, 1989).
Quando o sistema de vinculação é activado devido às necessidades sentidas pela
criança, vai despertar o sistema de prestação de cuidados do cuidador, que irá
ao encontro das necessidades da criança (Marvin, Cooper, Hoffman, & Powell,
2002). Diferenças individuais na organização dos comportamentos de base segura
estão fortemente relacionadas com as respostas comportamentais da figura de
vinculação ao nível da sua sensibilidade aos sinais da criança, da aceitação do
papel de cuidador e das necessidades da criança, da cooperação com os
comportamentos da criança e da disponibilidade nas interacções diárias com a
criança (Ainsworth et al., 1978). È a percepção que a criança tem do suporte
disponível que aparece mais directamente associada à segurança na figura de
vinculação, ao permitir a exploração activa do mundo à sua volta (Booth, Rubin,
& Rose-Krasnor, 1998; Rubin, Hymel, Mills, & Rose-Krasnor, 1991;
Sroufe, 2000). Mães de crianças com relações de vinculação seguras são
frequentemente mais responsivas e sensíveis (Ainsworth, 1982; Ainsworth et al.,
1978).
De facto, a segurança das relações de vinculação está frequentemente associada
a uma parentalidade responsiva e sensível (Ainsworth & Bell, 1969;
Ainsworth et al., 1978; Bell & Ainsworth, 1972). Ainsworth (Ainsworth &
Bell, 1969; Ainsworth, Bell, & Stayton, 1974; Ainsworth et al., 1978)
introduziu o conceito de sensibilidade (também referido, por vezes, como
responsividade sensível (Ainsworth & Bowlby, 1991; Ainsworth et al., 1978;
De Wolff & Van IJzendoorn, 1997; Fearon et al., 2006) como a capacidade que
a figura cuidadora tem de perceber e interpretar os sinais da criança,
respondendo de forma pronta e adequada de acordo com as suas necessidades
desenvolvimentais. Tal como outros autores (Bowlby, 1971; Pederson & Moran,
1995; van IJzendoorn et al., 2007), assinala a sensibilidade da figura de
vinculação como uma característica de grande importância no desenvolvimento de
relações de vinculação seguras.
Bornstein (2002) refere-se à responsividade como um componente fundamental na
parentalidade, na medida em que, ao responderem pronta e adequadamente e de
modo confiável aos sinais dos seus filhos, os pais transmitem-lhes a mensagem
de que os mesmos podem confiar neles e na sua disponibilidade. Já De Wolff e
van IJzendoorn (1997) definiram responsividade (contiguity of response) como
conceito distinto do de sensibilidade, na medida em que o definem apenas pela
prontidão ou frequência de respostas da mãe aos sinais da criança,
independentemente se esses comportamentos são apropriados ou não, ou seja, sem
uma avaliação qualitativa do comportamento da mãe. No entanto, o termo
responsividade é também utilizado na literatura com referência à prontidão,
contingência e adequação das reacções dos pais (Ainsworth, Bell, & Stayton,
1974; Ainsworth et al., 1978; Baumrind, 1967, 1978; Bell & Ainsworth, 1972;
Bornstein, 1989a,b; Bowlby, 1971; De Wolff & van IJzendoorn, 1997).
A teoria da vinculação tem sido largamente utilizada na investigação sobre
parentalidade, nomeadamente a propósito do seu potencial impacto no
desenvolvimento infantil. Diversos estudos têm focado a influência das relações
de vinculação nos resultados desenvolvimentais das crianças (Sroufe, 2000).
Mães de crianças com relações de vinculação seguras apresentam níveis mais
elevados de sensibilidade, aceitação, cooperação e disponibilidade emocional
(Ainsworth, 1967). Por sua vez, as crianças com histórias de cuidados
responsivos e vinculação segura revelam valores mais elevados de competência
social (Veríssimo, Fernandes, Santos, Peceguina, Vaughn, & Bost, 2012),
mais comportamentos de partilha afectiva e mais competências de resolução de
problemas, parecem ser também mais autónomas, perseverantes, cognitivamente
flexíveis (Ainsworth et al., 1978), empáticas e flexíveis na gestão dos seus
impulsos e emoções e apresentar maiores níveis de auto-estima e autoconfiança
(Bowlby, 1988; Sroufe, 1983). Estas crianças tendem a responder mais
frequentemente com emoções positivas às iniciativas dos pares e apresentam
menor número de problemas emocionais, ao contrário das crianças com relações de
vinculação inseguras, com maior frequência de perturbações ansiosas e do
comportamento (Sroufe, 2000), mais sintomas depressivos (Graham &
Easterbrooks, 2000) e mais problemas de isolamento, auto-conceito, e nas
relações de um modo geral (Bowlby, 1988).
VINCULAÇÃO E ESTILOS PARENTAIS
A ligação entre uma vinculação segura e os estilos parentais de Baumrind foi
indicada pela primeira vez por Bowlby (1973), que referiu o estilo autorizante
como o mais vantajoso na promoção de uma vinculação segura (Page &
Bretherton, 2001). Bowlby (1973) apontou para a ligação entre as
características do estilo autorizante e os comportamentos parentais sensíveis,
cooperativos e de aceitação, tidos como fundamentais nas relações de vinculação
seguras (Breterthon, Golby, & Cho, 1997). Assim como Ainsworth e colegas
descreveram as mães de crianças com relações de vinculação seguras com níveis
mais elevados de sensibilidade, aceitação, cooperação e disponibilidade
emocional, também Baumrind descreveu as mães autorizantes com elevados níveis
de responsividade afectuosa e de suporte (Nair & Murray, 2005).
Parecem, assim, existir semelhanças entre o conceito de sensibilidade (ou
responsividade, segundo Bornstein) apresentando por Ainsworth, que a teoria da
vinculação tem destacado como principal promotor de uma vinculação segura, e
que remete para a capacidade de percepção e interpretação dos sinais da criança
e respectiva capacidade de resposta às suas necessidades e o estilo parental
autorizante (Karavasilis, Doyle, & Markiewicz, 2003), bem como o conceito
de responsividade referido por Baumrind e por Maccoby e Martin, que aludem a
uma sintonia com as necessidades dos filhos, à sensibilidade e adaptação a
esses mesmos sinais e necessidades.
Algumas investigações debruçaram-se sobre estas duas abordagens à
parentalidade. Karavasilis e colaboradores (Karavasilis, Doyle, &
Markiewicz, 2003) apontam que uma parentalidade autorizante parece promover
relações de vinculação seguras, tendo encontrado associações positivas entre o
estilo autorizante e uma vinculação segura à mãe em crianças (M=10.6, SD=1.0) e
adolescentes (M=15.1, SD=1.2). Os autores utilizaram o Parenting Styles
Questionaire (PSQ; Lamborn et al., 1991) para aceder às percepções sobre as
práticas parentais; a versão curta do Coping Stretegies Questionaire (CSQ;
Finnegan, Hodges, & Perry, 1996) para aceder aos padrões de vinculação
insegura das crianças; a escala de suporte social do Network of Relationships
Inventory(NRI; Furman & Buhrmester, 1985) que acede a 11 dimensões de
relacionamentos interpessoais das crianças; o Relationship Questionnnaire (RQ;
Bartholomew & Horowitz, 1991) para aceder à segurança da vinculação à mãe
nos adolescentes; e o Children's Social Desirability Questionnaire (CSD;
Crandall, Crandall, & Katkovsky, 1965) para aceder à auto-apresentação
positiva para controlo estatístico.
No estudo de Roelofs e colaboradores (Roelofs, Meesters, & Muris, 2008),
com crianças entre os 9 e os 12 anos, os autores utilizaram o Relationship
Questionnaire (RQ; Bartholomew & Horowitz, 1991) como medida do estilo de
vinculação romântico; o Relationship Questionnaire for Children (RQ-C), a
versão para crianças do questionário anterior; e o Parenting Practices
Questionnaire (PPQ; Robinson, Mandleco, Olsen, & Hart, 1995) para avaliar
os comportamentos parentais. As crianças com relações de vinculação inseguras
ao pai têm pais com valores mais reduzidos no estilo autorizante, comparadas
com as crianças com relações de vinculação seguras aos pais.
Nair e Murray (2005) apontam para a contribuição directa dos estilos parentais
para a segurança na vinculação em crianças entre os 2 e os 6 anos. Estes
autores utilizaram o Attachment Q-set (Waters, 1995) para aceder às relações de
vinculação; o Parental Authority Questionnaire (PAQ; Buri, 1991) para aceder
aos estilos parentais; o Daily Hassles Scale (DHS; Lazarus, Cohen, Folkman,
Kanner, & Schaefer, 1980) para medir o stress relativo que caracteriza a
vida quotidiana; o Beck Depression Inventory (BDI; Beck, Ward, Mendelson, Mock,
& Erbaugh, 1961) como índice de depressão materna; o Conflict Tactics Scale
(CTS; Strauss & Gelles, 1990) como medida do conflito; o Arizona Social
Support Interview Schedule (ASSIS; Barrera, 1981) para medir o suporte social;
e o Behavioral Style Questionnaire (BSQ; McDevitt & Carey, 1978) para medir
o temperamento.
No estudo de Neal e Frick-Horbury (2001) com estudantes universitários, 92% dos
estudantes que reportaram pais com um estilo autorizante tinham também relações
de vinculação seguras com os mesmos. Para avaliar as percepções dos
participantes acerca da sua história de vinculação, os autores utilizaram uma
versão modificada do Descriptions of Parental Caregiving Style(Hazan &
Shaver, 1986); o Attachment and Object Relations Inventory (AORI; Buelow,
McClain, & McIntosh, 1996) para aceder às relações com os outros e às
características relacionais de si próprio; eo Parenting Practices Survey
(Robinson et al., 1995) para avaliar os estilos parentais.
Muris e colaboradores (Muris, Meesters, & van der Berg, 2003) encontraram,
numa amostra de adolescentes, associações entre relações de vinculação seguras
e práticas educativas parentais menos rejeitantes e mais afectivas e calorosas.
Os autores utilizaram o Attachment Questionnaire for Children (AQC; Muris,
Mayer, & Meesters, 2000) para aceder aos padrões de vinculação; a versão
infantil do EMBU (EMBU-C; Castro, Toro, Van der Ende, & Arrindell, 1993)
para medir percepções acerca dos comportamentos parentais; e o Youth Self-
Report (YSR; Achenbach, 1991), para aceder a problemas emocionais e de
comportamento.
Um outro estudo de Muris e colaboradores (Muris, Meesters, Merckelbach, &
Hulsenbeck, 2000) utilizou as descrições prototípicas dos padrões de vinculação
de Hazan e Shaver (1986); uma versão modificada do EMBU-C (Castro et al., 1993)
para avaliar os comportamentos parentais; e o questionário PSWQ-C (Chorpita,
Tracey, Brown, Collica, & Barlow, 1997) para avaliar a preocupação em
crianças entre os 9 e os 13 anos. As crianças com relações de vinculação
ambivalentes reportaram mais frequentemente comportamentos educativos parentais
ansiosos que as crianças com relações de vinculação seguras e as crianças com
relações de vinculação evitantes reportaram mais frequentemente rejeição
parental que as crianças com relações de vinculação seguras.
Nos resultados do estudo de Roelofs e colaboradores (Roelofs, Meesters, Ter
Huurne, Bamelis, & Muris, 2006) as crianças com relações de vinculação
inseguras obtiveram valores significativamente superiores na rejeição parental
e sobreprotecção e significativamente inferiores na afectividade, comparadas
com as crianças com relações de vinculação seguras. Os autores utilizaram, numa
amostra com crianças entre os 9 e os 12 anos, o The Revised Child Anxiety and
Depression Scale(RCADS; Chorpita, Yim, Moffitt, Umemoto, & Francis, 2000)
para avaliar sintomas de internalização; uma versão de auto-relato do Teacher
Rating Scale of Aggression (TRA; Brown, Atkins, Osborne, & Milnamow, 1996)
para os sintomas de etxernalização; uma versão modificada do EMBU-C para os
comportamentos educativos parentais percebidos (Muris, Messters, & Van
Brajel, 2003); e para o estilo de vinculação o The Relationship Questionnaire
for Children (RQC; Bartholomew & Horowitz, 1991).
Num estudo de Kerns (Kerns, Aspelmeier, Gentzler, & Grabill, 2001), uma
vinculação segura estava relacionada com monitorização mais próxima por parte
dos pais. Os autores utilizaram aSecurity Scale(Kerns, Klepac, & Cole,
1996) para aceder às percepções de segurança das crianças nas suas relações; o
Child Rearing Practices Report (CRPR; Block, 1965) para avaliar a aceitação e
vontade dos pais como figuras de vinculação; a monitorização foi avaliada
através de entrevistas telefónicas (Crouter & McHale, 1993; Crouter,
MacDermid, McHale, & Perry-Jenkins, 1990); e foi utilizado um conjunto de
perguntas construídas pelos autores e colocadas aos pais e às crianças, para
avaliar o contributo da criança para o processo de monitorização.
Bosmans e colaboradores (Bosmans, Braet, Leeuwen, & Beyers, 2006)
realizaram um estudo com adolescentes entre os 10 e os 18 anos, utilizando o
The Youth Self-Report(YSR; Achenbach, 1991) para avaliar problemas de
comportamento; oInventory of Parent and Peer Attachment (IPPA; Armsden &
Greenberg, 1987; traduzido por Noom, Decovic, & Meeus, 1999) para avaliar
as relações de vinculação à mãe e ao pai; e o Ghent Parental Behavior Scale
(GPBS, Van Leeuwen & Vermulst, 2004) para aceder aos comportamentos
parentais. Os resultados mostraram que a vinculação à mãe e ao pai medeia o
controlo negativo e os problemas de comportamento nos grupos entre os 10 e os
12 anos e entre os 13 e os 15 anos.
Os autores van Brakel, Muris, Bogels e Thomassen (2006) realizaram um estudo
com adolescentes entre os 11 e os 15 anos, utilizando o Behavioral Inhibition
Scale (BIS)para avaliar a inibição comportamental (Muris, Merckelbach, Wessel,
& Ven de van, 1999); o Attachment Questionnaire for Children (AQ-C)para
descrever os sentimentos das crianças e as suas percepções acerca das suas
relações com os pares; a versão modificada do EMBU-C (Castro et al., 1993;
Muris, Bosma, Meesters, & Schouten, 1998) para avaliar os comportamentos
educativos parentais; e o Screen for Child Anxiety Related Emotional Disorders
(SCARED)para medir sintomas de pânico, fobia social, ansiedade de separação,
ansiedade generalizada e fobia escolar (Birmaher et al., 1999). Níveis elevados
de inibição comportamental, vinculação insegura, controlo parental e práticas
educativas ansiosas estavam associados a níveis elevados de sintomas ansiosos.
Num estudo de Simões e colaboradores (Simões, Farate, Soares, & Pocinho,
2011), com uma amostra de crianças entre os 7 e os 11 anos, as mães que
providenciam maior suporte emocional identificam nos seus filhos um
comportamento de vinculação mais seguro e as mães que utilizam com os seus
filhos mais comportamentos de rejeição consideram que os mesmos têm um
comportamento de vinculação mais inseguro. Os autores utilizaram a versão
portuguesa do EMBUP (Canavarro, Pereira, & Canavarro, 2003) para avaliar a
percepção da mãe relativamente ao seu estilo educativo parental; e a Escala de
Percepção Materna do Comportamento de Vinculação da Criança (Dias, Soares,
& Freire, 2002) para avaliar a percepção da mãe sobre os comportamentos de
vinculação do filho.
Diversos estudos têm, assim, focado a influência das relações precoces nos
resultados desenvolvimentais das crianças, nomeadamente ao nível da adaptação
psicológica, social e académica. No entanto, são poucos os estudos que se
debruçam sobre a ligação entre estilos parentais e as relações de vinculação, o
que reflecte uma lacuna na investigação em parentalidade. Esta escassez é
superior no que respeita aos efeitos das relações de vinculação e dos estilos
parentais nos resultados desenvolvimentais das crianças. Ao mesmo tempo, são
também poucos os estudos que utilizem medidas que abranjam ambos os
progenitores e com método multiinformadores.
Face às duas grandes dimensões na parentalidade que podem ser distinguidas —
uma relativa ao controlo (psicológico ou comportamental) e outra relacionada
com o suporte/afecto, isto é, a parentalidade enquanto aceitação,
disponibilidade emocional, sensibilidade e ligação emocional pai-criança
(Cummings, Davies, & Campbell, 2000) — Cummings (Cummings & Cummings,
2002; Cummings et al., 2000), tal como Baumrind, sugere a integração das várias
abordagens de investigação em parentalidade, especificamente destas duas
grandes dimensões, para uma melhor compreensão das influências da parentalidade
no desenvolvimento das crianças.