A psicologia cognitiva e o estudo do raciocínio dedutivo no último meio século
Dedicamos este artigo ao Professor Frederico Pereira, que
foi quem nos iniciou na aventura da psicologia cognitiva.
Aproveitamos também para fazer um especial agradecimento
pela sua visão, que permitiu transformar um armazém na
Feira Popular num dos mais prestigiados Institutos
Universitários ' o ISPA-IU. A consciência do passado é
então lembrar que a liderança do Professor Frederico
Pereira durante cerca de 30 anos (como Director/Reitor),
nos proporcionou estudar, ensinar, investigar, trabalhar, e
conviver, numa escola guiada por ideias que nos fizeram
voar (e chegar) longe, com valores humanistas, pensamento
crítico, inteligência e intervenção social ímpares, e onde
a estética e a arte se aliava, por exemplo, ao bom
acolhimento do ser humano em toda a sua diversidade.
É na segunda metade do séc. XX que acontece a chamada revolução cognitiva, pelo
que a sua história é quase concomitante com a da psicologia em Portugal. É nos
anos 50 que surgem os pioneiros da psicologia cognitiva, marcando uma enorme
distância conceptual relativamente ao comportamentalismo. O interesse já não é
o da mera descrição de regularidades, mas sim o de compreender os fenómenos
psicológicos, voltando a colocar no seu vocabulário científico tudo o que o
comportamentalista Watson (1930) havia retirado, por considerar termos
subjectivos, ou mesmo concepções medievais (e.g., percepção, imagem, propósito,
pensamento, emoção). Apesar de a Psicanálise ter já há muito tempo realçado o
papel dos processos que não são imediatamente observáveis na vida psicológica,
é só com o ressurgimento da psicologia cognitiva que os processos mentais
voltam a ser o objecto da Psicologia. Se falamos em ressurgimento é porque o
interesse sobre os processos mentais é anterior à época do comportamentalismo,
mas ficou como que obscurecido durante algumas décadas. Embora, como refere
Miller (2003), o interesse pela mente nunca desapareceu da psicologia social ou
clínica, e apenas os experimentalistas americanos é que acreditavam que o
comportamentalismo funcionaria.
A data para assinalar o estabelecimento da psicologia cognitiva é difícil de
precisar, tanto mais que ela não foi concomitante em todo o mundo. Miller
(2003), por exemplo, assinala em 1960 a criação do Centro de Estudos
Cognitivos, em Harvard, por parte de Bruner, e a que ele também adere. Mas na
Europa as tendências eram mais diversas, sendo só nos anos 80 que surge a
Sociedade Europeia de Psicologia Cognitiva. Note-se que a revista Cognitive
Psychologyé anterior, surgindo em 1970. E em 1977 surge o primeiro número da
revista Cognitive Science, que Bara (1995) considera ser a data para assinalar
o nascimento da ciência cognitiva, da qual a psicologia cognitiva faz parte, ao
lado da linguística, da filosofia, da inteligência artificial, da neurociência,
e da antropologia, num objectivo comum de compreender a mente humana.
A emergência da Psicologia Cognitiva tem um contexto que a potencializa,
nomeadamente os desenvolvimentos que, na segunda metade do séc. XX, ocorrem na
teoria da informação, na linguística, e na ciência da computação (cf. Anderson,
2004; Barsalou, 1992). O estudo da cognição humana passou a ter um objectivo
dominante, que exerceu grande influência quer na Psicologia Cognitiva quer na
Ciência Cognitiva, e que é conhecido como a abordagem do processamento de
informação, onde se pretende perceber como é que o ser humano codifica a
informação que lhe chega do mundo externo, como é que processa internamente
essa informação, e como transmite essa informação novamente para o mundo
externo. Nesta perspectiva, o computador torna-se uma boa metáfora para a
teoria do processamento de informação, sendo que a psicologia partilha com a
ciência da computação o interesse em explicar como é que os sistemas adquirem,
armazenam, recuperam, e produzem informação. Segundo Barsalou (1992), se no
início a arquitectura do computador servia para definir teorias sobre a
cognição humana, com os avanços na psicologia cognitiva, e nas neurociências, o
interesse passa a ser o de desenvolver arquitecturas comparáveis à cognição
humana na ciência dos computadores, referindo que Em vez de modelar os humanos
à imagem dos computadores, não será surpreendente se nós, eventualmente,
modelarmos os computadores à nossa própria imagem (p. 8).
Apesar desta concordância relativamente ao objecto de estudo ' o processamento
de informação ' alguma discordância se observa relativamente a qual é a melhor
abordagem para compreender a mente humana. Referimo-nos em particular às
controvérsias, por exemplo, entre abordagens mais laboratoriais versus
abordagens mais ecológicas, e respectivas inter-críticas, como a
artificialidade do ambiente e das tarefas propostas em laboratório, ou a
impossibilidade de controlo, e consequen- temente de estabelecer
generalizações, através do estudo da cognição humana no mundo natural. Hoje em
dia já é consensual para diversos autores (cf. Cohen, 1996), que o ideal é uma
abordagem híbrida, aproveitando os conhecimentos gerados por cada uma delas:
Teorias e descobertas que derivam das experiências de laboratório direcionam a
procura de análogos na vida quotidiana, e as descobertas originadas por estudos
naturalistas são seguidas em rigorosas experiências, de tal modo que aquilo a
que se pode chamar uma metodologia híbrida se tornou vulgar (p. 7).
Não queremos deixar de assinalar a importância destes movimentos em direcção a
uma cognição mais situada, que retoma valores pioneiros, como o interesse pelo
contexto (pessoal, histórico e social) em que ocorrem as operações mentais. O
contexto deixa assim de ser encarado como uma mera variável adicional, ou
adjacente, passando a ser visto como algo que opera no interior do próprio
mecanismo cognitivo. Apesar de alguns avanços em direcção a uma cognição mais
situada, Jerome Bruner (1990), prestigiado pioneiro da psicologia cognitiva,
continua a considerar que os propósitos iniciais da revolução cognitiva foram
atraiçoados, e propõe retoma- los numa revolução cognitiva renovada, com uma
abordagem mais interpretativa da cognição humana, onde o aspecto central é o da
criação de significado.
Foi muito cedo que, por exemplo, a ênfase começou a deslocar-se do
significado' para a informação', da construçãode significado para o
processamentode informação. Estes são temas profundamente diferentes.
O factor crucial nesta mudança foi a introdução da computação como
metáfora dominante e como critério necessário para um bom modelo
teórico. (Bruner, 1990, p. 4)
Não é nossa intenção fazer aqui uma história da psicologia cognitiva, mas
esperamos que os que a fizerem sejam atentos aos interesses políticos/
económicos que estão por detrás, e que subsidiam, ou não, a investigação
científica. Essa visão histórica permitirá uma melhor compreensão do presente,
e potencia uma perspectiva mais crítica do futuro. O nosso propósito é, apenas,
o de dar uma ideia do desenvolvimento ocorrido, neste último meio século, no
domínio do raciocínio dedutivo, onde nós investigamos há já cerca de um quarto
de século, fazendo assim parte dos que foram tendo um crescente interesse pelos
processos cognitivos superiores. Uma nota curiosa para assinalar este crescente
interesse é dada por Anderson (2004), ao comparar o livro de psicologia
cognitiva de Neisser publicado em 1967, que continha 6 capítulos sobre
percepção e atenção, e 4 capítulos sobre memória, linguagem, e pensamento,
relativamente ao seu próprio livro, que dedica apenas 2 capítulos à percepção e
atenção, e 10 à memória, linguagem e pensamento.
No estudo mais sistemático do pensamento, que a psicologia começou a
desenvolver a partir da segunda metade do séc. XX, Bruner é um pioneiro que
merece também aqui destaque pela sua obra intitulada A study of thinking,
editado em 1956, em co-autoria com Goodnow e Austin, onde são investigadas as
estratégias que as pessoas usam para formar conceitos. Mas a área do pensamento
humano é tão vasta, que os psicólogos tiveram de repartir esforços pelos seus
diferentes domínios (e.g., formação de conceitos, julgamento e tomada de
decisão, raciocínio dedutivo, indutivo, resolução de problemas, criatividade),
que são hoje em dia agrupados numa área designada por pensamento e raciocínio
(ver, e.g., Holyoak & Morrison, 2005).
Como consequência, estas diferentes áreas tiveram distintos desenvolvimentos, e
foi preciso algum tempo, e algum acumular de evidências empíricas, para que se
proporcionasse um olhar mais alargado, em busca de processos comuns às diversas
formas de pensamento (e.g., Evans, 1989, 2010; Evans & Over, 1996; Johnson-
Laird, 2006; Kahneman, 2011). O nosso objectivo aqui é mais modesto, cingindo-
se ao domínio do raciocínio dedutivo, cujo desenvolvimento iremos descrever de
modo breve.
RACIOCÍNIO DEDUTIVO
A world without deduction would be a world without science,
technology, laws, social conventions, and culture. (Johnson-Laird
& Byrne, 1991, p. 3)
O estudo do raciocínio dedutivo tornou-se um dos principais domínios da
psicologia cognitiva, sobretudo a partir dos anos 80. Iremos rever, de modo
breve, os primeiros estudos neste domínio da psicologia cognitiva, onde será
realçado o papel da herança da Lógica, para a seguir falar da área que se
tornou o paradigma preferencial para compreender a inferência dedutiva ' o
raciocínio condicional ' e sobre ela apresentar as principais teorias
psicológicas para explicar a dedução. Terminaremos com duas áreas recentemente
por nós investigadas ' inferências temporais e espaciais, e inferências sobre
intenções.
Os primeiros estudos
O interesse pela dedução tem a sua origem na filosofia, mais concretamente na
área da lógica, e a sua influência fez-se sentir desde logo na psicologia, quer
ao nível teórico, como adiante veremos, quer ao nível empírico, pelo que os
primeiros estudos usaram como material de raciocínio os silogismos categóricos.
Note-se que o interesse por este tipo de problema remonta a Aristóteles, e
portanto ao séc. IV, e durante centenas de anos dominaram a análise lógica (cf.
Manktelow, 2012). Mas a influência da lógica também se reflecte no modo como o
desempenho das pessoas nestas tarefas era avaliado, i.e., em termos de
conclusões certas ou erradas, com base nesta teoria normativa, dado que nesse
tempo a ideia de racionalidade estava ligada à ideia de lógica. No entanto, a
separação da psicologia e da filosofia acaba por ocorrer, dado que o interesse
da lógica se prende com o como devemos raciocinar, de modo a assegurar a
validade das conclusões, enquanto o interesse da psicologia se prende com o
como raciocinamos.
Por convenção, os silogismos categóricos, peças elementares da lógica
aristotélica, contém duas premissas, sendo que cada premissa tem um
quantificador (e.g., Todos, Alguns), e pode ser expressa no modo afirmativo ou
negativo. Há um termo comum nas duas premissas, normalmente designado por B,
sendo possível estabelecer uma conclusão que relaciona os outros dois elementos
(A e C), como no seguinte exemplo:
Todos os A são B
Todos os B são C
Logo: Todos os A são C.
De acordo com Evans, Newstead e Byrne (1993), as metodologias usadas nos
estudos pioneiros neste domínio são as ainda hoje praticadas. Em geral, os
participantes nestas experiências de laboratório recebem as premissas e têm de
avaliar a validade de conclusões apresentadas, ou então têm de escrever a
conclusão.
Uma revisão aprofundada dos estudos com silogismos categóricos está fora do
alcance do presente artigo (para esse efeito ver, e.g., Evans, Newstead, &
Byrne, 1993; Johnson-Laird & Bara, 1984; Johnson-Laird & Byrne, 1991;
Manktelow, 2012). Apenas quisemos dar uma imagem dos estudos iniciais sobre o
raciocínio dedutivo, salientando a influência da lógica neste domínio (de que
voltaremos a falar a propósito das teorias psicológicas para explicar a
dedução). Progressivamente, os psicólogos foram-se interessando mais por
colocar tarefas de raciocínio com formulações mais próximas das frases que as
pessoas utilizam no seu quotidiano, desenvolvendo a área do raciocínio
proposicional, nomeadamente com as conectivas e, ou, e se, onde o estudo
das frases condicionais do tipo Se A, então C se tornou um paradigma de
investigação e de construção de teorias sobre a dedução humana. Por essa razão,
iremos referir mais em detalhe a investigação no âmbito do raciocínio com
condicionais.
Raciocínio condicional
Nos anos 80, e dado o acumular de dados empíricos que revelavam que as pessoas
raciocinam de modo diferente mediante problemas formalmente idênticos (mas
diferentes no seu conteúdo), emergem novas teorias que se demarcam da lógica, e
o crescente interesse pela exploração de conteúdos diversos centra-se nas
frases condicionais do tipo Se A, então C, tendência ainda dominante nos dias
de hoje. Tal facto não é surpreendente, se pensarmos na diversidade de
conteúdos/contextos que no quotidiano tem a forma de frases condicionais.
Segundo Johnson- Laird e Byrne (1991), as três formas mais importantes em que
um estado de coisas (antecedente) constrange outro (consequente) são:
— relações inferenciais (e.g., Se o número for divisível por 2,
então é um número par)
— relações causais (e.g., Se o vaso não tivesse caído, então não se
teria partido)
— relações deônticas (e.g., Se não tivéssemos prometido, então não
precisávamos de ir)
Evans e Over (2004) referem uma categoria especial de condicionais em que o
falante tem a intenção de mudar o comportamento do ouvinte, salientando 4
tipos: Promessa(e.g., pai para o filho: Se passares no exame,compro-te uma
bicicleta); Dica(e.g., amigo para amigo: Se passares no exame, o teu pai
compra-te uma bicicleta); Ameaça(e.g., patrão para o empregado: Se chegar
outra vez atrasado ao trabalho eu despeço-o); e Aviso(e.g., colega para
colega: Se chegares outra vez atrasado ao trabalho, o patrão despede-
te).Fillebaum (1975, 1976, citado por Evans & Over, 2004) foi pioneiro a
investigar este tipo de condicionais, que recentemente tiveram um renovado
interesse (e.g., Beller, Bender, & Kuhnmunch, 2005; Egan & Byrne, 2012;
Newstead, Ellis, Evans, & Dennis, 1997; Ohm & Thompson, 2004), o que
pensamos ser revelador de uma maior utilização de conteúdos/contextos do
quotidiano cada vez mais diversificados, no intuito de perceber como as pessoas
raciocinam.
Mas, independentemente do tipo de conteúdo utilizado ser mais ligado ao uso
feito no quotidiano, ou mais abstracto' (e.g., Se há um quadrado, então há um
triângulo), o tipo de tarefa mais utilizada para o estudo do raciocínio
condicional baseia-se nas quatro inferências clássicas, herdadas da lógica
proposicional, com base numa premissa maior que é a própria frase condicional,
e uma premissa menor que afirma ou nega o antecedente da condicional (que
precede o se), ou o seu consequente (que precede o então), a partir do que
se deriva a conclusão:
De um ponto de vista lógico, e no quadro da implicação material, só duas destas
inferências são válidas (MP e MT), sendo que as falácias (AC e NA) se tornam
válidas apenas para bi- condicionais, i.e., para frases do tipo Se e só se p,
então q.
Com o acumular de evidência empírica de que as pessoas frequentemente
interpretam as condicionais de diferentes modos, o grande desafio tem sido o de
construir uma teoria psicológica que permita explicar como raciocinamos,
abarcando todos os aspectos do problema que influenciam os processos de
raciocínio ' forma, conteúdo e contexto. Mais recentemente, também tem havido
uma preocupação com as diferenças individuais, como por exemplo a capacidade da
memória de trabalho, a capacidade de procurar contra-exemplos, ou o nível de
necessidade de cognição (e.g., Couto, Quelhas, & Juhos, 2010).
Mas a teorização sobre o modo como raciocinamos não tem sido pacífica,
originando mesmo grandes controvérsias que tem animado o debate. Um dos
problemas, no nosso entender, reside no enfoque parcial de diversas teorias,
salientando os aspectos formais em detrimento do conteúdo/contexto, ou o
inverso. Ora, o que precisamos é de uma teoria que explique a capacidade de
raciocinar com material mais temático, bem como com material mais neutro, do
tipo Se há um A escrito na folha então, há um 2 escrito na mesma folha', que
comporta três situações: duas são intuitivas, a folha tem o A e tem o 2 ou
então, a folha não tem o A e não tem o 2. No entanto, o significado da frase é
consistente com uma terceira situação em que a folha não tem A mas tem o 2.
Resumindo, o significado básico da condicional é o de que quando a folha tem a
A tem de ter o 2, e quando a folha não tem a A pode ou pode não ter o 2.
Perante esta condicional, quando é apresentada a premissa menor informando que
Não há um A, a falácia da Negação do Antecedente (NA) pode ser evitada, i.e.,
não se concluí que Não há um 2, mas sim que Pode ou não haver um 2, que é o
mesmo que dizer que Não se pode concluir nada. Mas vejamos um caso de
conteúdo temático, e contextualizado, como o de uma mãe que diz para o filho:
Se arrumares o teu quarto, então podes ir ao cinema, seguido da informação de
que o filho Não arrumou o quarto, que concluímos? Será que vamos pensar como
no exemplo acima, e concluir que Pode ou não ter ido ao cinema? Não, a
inferência mais imediata é de que Não vai ao cinema, pelo que surge a falácia
AC. Então afinal como raciocinamos? Por vezes parece que raciocinamos de acordo
com a lógica, outras vezes distanciamo-nos dela. Como iremos ver há várias
teorias que pretendem dar uma resposta a esta questão.
Esta espécie de silogismos com condicionais é o tipo de tarefa mais utilizada
no âmbito do raciocínio condicional, mas para um quadro mais completo vamos
referir duas outras tarefas também utilizadas: avaliação de tabelas de verdade
e tarefa de selecção de cartões. A avaliação de tabelas de verdade é desenhada
para analisar a compreensão das propriedades lógicas de condicionais (e.g.,
Johnson-Laird & Tagart, 1969). Nesta tarefa é apresentada uma proposição
condicional (e.g., Se há um cubo na mesa, então há uma esfera na mesa)
acompanhada por casos que tornam o seu antecedente e consequente verdadeiro (V)
ou falso (F). As combinações resultam em quatro contingências, VV (Há um cubo e
há uma esfera na mesa), VF (Há um cubo e não há nenhuma esfera na mesa), FV
(Não há nenhum cubo e há uma esfera na mesa) e FF (Não há nenhum cubo e não há
nenhuma esfera na mesa). A tarefa do participante consiste em considerar cada
uma das contingências e avaliar se nas circunstâncias definidas pela
contingência a condicional é verdadeira, falsa, ou irrelevante. Numa outra
versão, na tarefa de construção, o participante recebe apenas a condicional e
é-lhe pedido que construa as contingências que fazem com que a condicional seja
verdadeira ou falsa. A tarefa, recentemente, recebeu atenção renovada, por
exemplo no âmbito da teoria suposicional (e.g., Evans, Handley, Neilens, &
Over, 2008; Sevenants, Dieussaert, & Schaeken, in press; Sevenants,
Schroyens, Dieussaert, Schaeken, & D'Ydewalle, 2008).
O facto de as pessoas frequentemente tirarem conclusões que se afastam dos
padrões da lógica foi de algum modo surpreendente para os pioneiros do estudo
do raciocínio, merecendo aqui uma especial referência Peter Wason, que foi o
professor de dois investigadores de grande relevo neste domínio ' Phil Johnson-
Laird e Jonathan Evans ' e criador de tarefas do raciocínio que se tornaram
célebres até aos dias de hoje, como é o caso da tarefa de selecção de cartões
(Wason, 1966).
Na tarefa de selecção original (Wason, 1966) são mostradas quatro cartões às
pessoas, sendo- lhes dito que cada cartão tem de um dos lados uma letra e do
outro lado um número, mas as pessoas só vêm a face do cartão que está virada
para elas. É-lhes apresentada também a seguinte regra: Se num dos lados do
cartão há uma vogal, então do outro lado há um número par.. Os cartões mostram
um A, um R, um 2, e um 7. A tarefa dos sujeitos consiste em indicar que cartões
acham necessário virar, para saber se todos os cartões obedecem à regra. Quando
Wason colocou esta tarefa a universitários, ficou perplexo com o reduzido
número de pessoas que a resolvia com sucesso. A maior parte escolhia o cartão
com o A, ou o A e o 2, sendo que a resposta correcta é o A e o 7.
Note-se que apenas 4 a 10% de universitários resolveram correctamente esta
tarefa, com uma regra abstracta, ou arbitrária, deste tipo, mas com regras
temáticas (e.g., Se bebo cerveja, então tenho de ter mais de 18 anos) obteve-
se, em diversos estudos, um aumento substancial na frequência de respostas
correctas. A tarefa de selecção desempenhou um papel particularmente importante
no estudo do raciocínio deôntico (Cheng & Holyoak, 1985; Cosmides, 1989;
Griggs & Cox, 1982; Johnson-Laird, Legrenzi, & Legrenzi, 1972) e, desde
a sua introdução, foi sujeita a numerosas alterações procedimentais (para uma
revisão ver Evans & Over, 2004).
É neste ambiente gerador de múltiplos dados empíricos, que por vezes parecem
até contraditórios, bem como na ênfase que é dada ao papel do conteúdo dos
problemas, que surgem, nos anos oitenta, teorias sobre o raciocínio para
explicar os diversos resultados, nomeadamente com a tarefa de selecção, como é
o caso da teoria dos esquemas pragmáticos de raciocínio (Cheng & Holyoak,
1985), ou do contrato social (Cosmides, 1989). Apesar de fornecerem elegantes
explicações sobre os efeitos do conteúdo dos problemas, e de terem o mérito de
chamar a tenção para o papel do conteúdo/contexto no raciocínio, acabam por ser
perspectivas teóricas de domínio muito estrito, pelo que iremos centrar a nossa
discussão sobre as teorias psicológicas para explicar o raciocínio em redor das
teorias dominantes, que é o mesmo que dizer em redor da discussão sobre se nós
raciocinamos com regras ou modelos mentais. No final, apresentaremos também as
perspectivas mais recentes, onde também se discute se raciocinamos através de
probabilidades.
Teorias psicológicas do raciocínio
As primeiras teorizações psicológicas que tentam responder à questão de como
raciocinamos podem ser encontradas no grande pioneiro que foi Jean Piaget
(e.g., Inhelder & Piaget, 1955). Nestas teorizações mais antigas, de
Piaget, era defendida a ideia de que raciocinar não é mais do que o próprio
cálculo proposicional, o que reflete bem a influência da tradição filosófica,
onde raciocínio e lógica eram vistos como equivalentes. Note-se, no entanto,
que outros pioneiros como Bruner, Goodnow e Austin (1956) defendiam, já nessa
altura, que uma grande parte do raciocínio humano é apoiada por uma espécie de
processo temático e não por uma lógica abstracta. Mais do que a lógica, o
aspecto principal deste processo temático é a sua estrutura pragmática (p.
104).
No entanto, a ideia de que os raciocinadores recuperam a forma lógica de uma
inferência, e depois lhe aplicam as regras formais correspondentes de modo a
chegar a uma conclusão, vem a ter diversos adeptos e é ainda hoje defendida. Na
sua versão mais frequente é preconizada a existência de uma lógica mental, que
teria um reportório de regras válidas de acordo com a lógica proposicional, mas
que normalmente excluiria as regras da lógica mais complexas. Nesta
perspectiva, o debate é em redor de saber que tipo de lógica, e que tipo de
formalização é usada pelos raciocinadores (e.g., Braine, 1978; Braine &
O'Brien, 1998; Johnson-Laird, 1975; Rips, 1983, 1994). A primeira dificuldade
para estas teorias está na observação corrente de que as pessoas frequentemente
estabelecem conclusões não válidas, bem como respondem de modo diverso perante
problemas formalmente idênticos. A justificação que alguns autores encontram
para os erros observados reside em encarar esses erros como algo externo ao
raciocínio propria- mente dito, gerados num momento prévio de compreensão da
informação (e.g., Henle, 1962; Rumain, Connell, & Braine, 1983). Byrne
(1986) critica esta divisão entre compreensão/inter- pretação e raciocínio
puro, porque leva a uma teoria da dedução com dois mecanismos separados: um que
explica os erros e outro que explica as respostas correctas.
O problema é que a abordagem formal não consegue sobretudo explicar o
raciocínio baseado na linguagem natural, porque o raciocínio do quotidiano
depende de proposições situadas que podem mudar o seu significado de acordo com
o contexto da frase e de acordo com os conhecimentos gerais e crenças do
sujeito (Johnson-Laird & Byrne, 2002; Quelhas & Johnson-Laird, 2004,
2005; Quelhas, Johnson-Laird, & Juhos, 2010). Neste universo de
significados inconstantes, a tarefa de explicar como é que os raciocinadores
recuperam a forma lógica das proposições não foi ainda atingido.
Uma teoria alternativa à abordagem formal propõe que os raciocinadores usam
modelos mentais em vez de regras formais para fazerem as suas inferências. De
acordo com a teoria dos modelos mentais (Johnson-Laird, 1983, 2006; Johnson-
Laird & Byrne, 1991, 2002), os raciocinadores usam o significado das
palavras, a estrutura gramatical das frases, os seus conhecimentos e crenças,
para construir modelos das possibilidades a que as proposições se referem.
Assim, de acordo com a teoria dos modelos, o raciocínio depende de um tipo
específico de representações mentais. É com base nesses modelos que as pessoas
estabelecem uma conclusão, que é válida se não existir nenhum modelo das
proposições em que a conclusão não se verifique (ou seja, desde que não exista
nenhum contra-exemplo face à conclusão estabelecida). Na sua versão original
(e.g., Johnson-Laird & Byrne, 1991) a dedução era descrita em 3 fases: uma
fase de compreensão da informação, que compreende a elaboração de um modelo
mental da mesma, uma fase de descrição onde alguma conclusão é produzida, e uma
fase de validação, que se caracteriza pela procura de contra-exemplos à
conclusão estabelecida. Mas, actualmente, Johnson-Laird (2006) admite que o
mais frequente é as pessoas tirarem uma conclusão e é tudo, quer dizer, não
procuram os contra- exemplos. No entanto, recente investigação tem mostrado que
as pessoas, quando solicitadas nesse sentido, são capazes de enunciar diversos
contra-exemplos, que no domínio das condicionais têm sido descritos em dois
grandes tipos: alternativas e disablers', e que voltaremos a referir no ponto
sobre raciocínio e intencionalidade.
Para além dos modelos mentais representarem possibilidades, há duas outras
características que os tornam únicos no universo das representações mentais: os
modelos são icónicos, i.e., as partes do modelo (até onde isso é possível)
correspondem às partes do que o modelo representa; e a outra característica é
que obedecem ao princípio de verdade, de acordo com o qual o que representamos
em modelos são as possibilidades que são verdadeiras, de acordo com o que é
descrito. O princípio de verdade constrange os modelos a dois níveis (Johnson-
Laird & Savary, 1999): (1) os modelos mentais representam estados de coisas
que são possíveis face a uma dada proposição, mas não representam o que é falso
(salvo excepções, como por exemplo a representação do que é proibido perante
uma condicional deôntica de obrigação, segundo Quelhas e Byrne (2003); (2) cada
modelo mental de uma possibilidade representa o que é verdadeiro nessa
possibilidade e não o que é falso. Por exemplo, e para a disjunção exclusiva
Há um cão ou um gato, teremos uma possibilidade em que há um cão, e outra
possibilidade em que há um gato, estando omisso aquilo que não pode haver em
cada possibilidade, por exemplo na possibilidade em que há um cão não pode
haver um gato:
Cão
Gato
Gerar modelos que, simultaneamente, tenham em conta o significado das palavras
de uma proposição, a sua estrutura gramatical, o contexto em que é enunciada,
os conhecimentos gerais e crenças dos sujeitos, dota o processo interpretativo
de um alto nível de flexibilidade e permite uma variedade de diferentes
interpretações face a uma dada frase. A diversidade de interpretações das
frases condicionais com a estrutura se-então, proposta por Johnson-Laird e
Byrne (2002) é uma útil e recente ilustração deste ponto. De acordo com os
autores, a diversidade de significados de uma condicional é resultado de uma
interacção entre o seu significado nuclear e um mecanismo de modulação. Para
definir o significado nuclear consideremos uma condicional que seja tanto
quanto possível independente do conhecimento e que não tenha nenhuma relação
referencial ou semântica entre as proposições para além da sua co-ocorrência na
mesma frase, como por exemplo:
Se há um triângulo, então há um círculo.
Esta condicional refere-se a três possibilidades:
Δ Ο
não-Δ Ο
não-Δ não-Ο
onde cada linha representa uma possibilidade, pelo que na primeira linha há um
triângulo e um círculo, na segunda não há um triângulo e há um círculo, e na
terceira não há um triângulo e não há um círculo.
O significado nuclear refere-se a três diferentes possibilidades que
correspondem aos da implicação material definida pela lógica. Mas, na vida
quotidiana, o significado das cláusulas e as ligações co-referenciais entre
elas pode modular o significado nuclear num processo de modulação semântica. Do
mesmo modo, o conhecimento sobre o contexto e o tópico da condicional pode
modular o seu significado nuclear num processo de modulação pragmática. Os
efeitos destes dois tipos de modulação são similares. Um efeito é bloquear a
construção de modelos de possibilidades. Por exemplo, a condicional Se o Tomás
joga um jogo de vídeo, então ele não joga o Tetris, refere-se apenas a duas
possibilidades:
jogo de vídeo não-Tetris
não-jogo de vídeo não-Tetris
a terceira possibilidade do significado nuclear,
não-jogo de vídeo Tetris
é bloqueada pelo conhecimento de que o Tetris é um jogo de vídeo. Numa série de
estudos Quelhas, Johnson-Laird e Juhos (2010) mostram que o efeito de
bloqueamento da modulação tem um impacto previsível nas inferências que as
pessoas fazem. Outro efeito da modulação é adicionar informação à relação entre
os eventos, objectos ou pessoas referidas nas cláusulas, quando as proposições
não fazem nenhuma afirmação explícita sobre elas. Este aspecto, iremos ilustrar
mais à frente, a propósito das inferências temporais e espaciais, bem como das
inferências com condicionais intencionais, recentemente investigadas por nós.
Para terminar esta breve ilustração das teorias psicológicas da dedução vamos
referir as perspectivas teóricas mais recentes, que se caracterizam por
adoptarem uma abordagem probabilística das condicionais, como é o caso da
abordagem suposicional de Evans e Over (Evans 2007; Evans & Over, 2004) e o
modelo de probabilidade condicional de Oaksford, Chater e Larkin (Chater &
Oaksford, 1999; Oaksford & Chater, 2001; Oaksford, Chater, & Larkin,
2000). Estas duas abordagens partilham perspectivas comuns, nomeadamente na
recuperação que fazem do teste de Ramsey (1931/1990), segundo o qual a
probabilidade da condicional Se p, então qé equivalente à probabilidade
condicional de qdado p.Segundo Evans e Over (2004), perante uma frase do tipo
Se p, então q, as pessoas direcionam a sua atenção para o antecedente p, e
depois de suporem pdecidem com que confiança podem inferir q, i.e., avaliam com
que probabilidade pse associa a q, ou pse associa a não-q. Quando a
probabilidade de p q' é julgada mais elevada do que p não-q', a probabilidade
condicional de qdado pé alta, e as pessoas atribuem uma alta probabilidade à
condicional Se p, então q (e no caso da probabilidade de p não-q'ser
superior, é atribuída uma baixa probabilidade à condicional).
Para Oaksford, Chater e Larkin (2000), as probabilidades são importantes no
processo de compreensão, dado que a maioria dos assuntos que atendemos no
quotidiano são (mais ou menos) incertos. No caso específico de condicionais é
assumido, à semelhança de outros autores (Chan & Chua, 1994; George, 1995,
1999; Liu, Lo, & Wu, 1996; Stevenson & Over, 1995), que a disposição
para realizar uma inferência se prende com a probabilidade condicional da
conclusão dada a premissa categórica. Quanto mais provável for a conclusão,
maior será a disposição para tirá-la.
Utilizando o cálculo de probabilidades e o teorema de Bayes, Oaksford et al.
(2000) calculam a probabilidade condicional das inferências condicionais e
apresentam o modelo como um conjunto de equações:
Neste modelo, a probabilidade de cada uma das inferências varia em função da
probabilidade da premissa categórica e da probabilidade da conclusão. O modelo
explica as taxas de inferência superiores com a inferência MP relativamente à
inferência MT e prevê que, em certo grau, as inferências falaciosas sejam
produzidas também. Como modelo, assenta nos conhecimentos sobre as
probabilidades das excepções [e.g., no caso da inferência MP, P(¬q|p)], dos
antecedentes e dos consequentes, e possibilita a previsão do efeito modulador
de factores pragmáticos derivados de conhecimentos.
Como se pode constatar, a discussão entre regras ou modelos, alarga-se agora às
probabilidades. De acordo com o autor da teoria dos modelos mentais (Johnson-
Laird, 2006), a mente não é um mecanismo nem lógico nem probabilístico, mas
antes faz simulações mentais. E, pelo facto de as probabilidades dizerem
respeito a frequências, não fazem sentido para eventos únicos. Queremos também
realçar que apesar de o raciocínio condicional ser paradigmático no estudo da
dedução, este tipo de raciocínio não se esgota aqui, pelo que as teorias da
dedução não deverão cingir-se à explicação do raciocínio condicional.
Por fim, não queremos deixar de fazer referência a uma teoria que tem vindo a
fortificar-se nos últimos 30 anos, que é a teoria de processamento dualista,
quer dizer, a perspectiva que nós temos dois modos distintos de processar a
informação: um modo mais rápido, intuitivo, e automático, que não requer a
memória de trabalho nem muita capacidade cognitiva; e outro modo mais lento,
reflexivo e controlado, que requer memória de trabalho e maior capacidade
cognitiva. Não iremos aqui descrever esta teoria porque não se trata de uma
teoria específica para explicar o raciocínio, mas sim de uma teoria mais
alargada sobre o modo como processamos a informação, e também achamos que essa
perspectiva pode ser partilhada por várias teorias sobre o raciocínio
(Schroyens, Schaeken, & Handley, 2003). Para uma revisão neste domínio, e
dentro da área do raciocínio, ver Evans (2010; Evans & Frankish, 2009).
Iremos de seguida descrever duas áreas de investigação sobre o raciocínio '
inferências temporais e espaciais, e inferências com condicionais intencionais
' que são as mais recentemente por nós exploradas. Trata-se de uma abordagem
centrada no quadro da teoria dos modelos mentais, que é a teoria que tem
norteado a nossa investigação há já mais de um quarto de século. Agora, em
2013, faz 30 anos que esta teoria surgiu, com o livro Mental Models que
Johnson-Laird publica em 1983, e foi para nós um privilégio ter podido
acompanhar e contribuir para este percurso, em especial ter podido colaborar
com o seu autor, Phil Johnson-Laird, bem como com diversos colaboradores, como
Michael Power, Ruth Byrne e Juan Garcia-Madruga. Também é gratificante
constatar que os modelos mentais se tornaram a teoria de raciocínio mais
influente (cf. Evans & Over, 2004, p. 59; Manktelow, 2012, p. 46).
Inferências relacionais (temporal e espacial)
As inferências relacionais foram estudadas, sobretudo, através de relações
transitivas como por exemplo mais alto do que, e em tarefas denominadas de
silogismos lineares ou problemas com séries de três termos, como por exemplo: A
é mais alto que B; B é mais alto que C; Quem é mais alto? Para uma revisão ver
Evans, Newstead e Byrne (1993, cap. 6), e com base na teoria dos modelos ver
Goodwin & Johnson-Laird (2005).
Nos estudos sobre o raciocínio com relações temporais e espaciais é habitual
usar proposições que explicitem essas relações (e.g., B está à direita da A
ou A acontece depois de B). Neste âmbito diversas investigações dão suporte à
teoria dos modelos mentais, quer no domínio do raciocínio temporal (e.g.,
Dierckx, Vandierendonck, & Pandelaere, 2003; Quelhas, Johnson-Laird, &
Juhos, 2010, Exp. 4; Schaeken & Johnson-Laird, 2000; Schaeken, Johnson-
Laird, & d'Ydewalle, 1996a,b; Vandierendonck & De Vooght, 1996), quer
no domínio do raciocínio espacial (e.g., Byrne & Johnson-Laird, 1989;
Carreiras & Santamaria, 1997; Duyck, Vandierendonck, & De Vooght, 2003;
Van der Henst, 1999; Vandierendonck & De Vooght, 1996).
No geral, os resultados destes estudos apontam para a evidência de que quantos
mais modelos são necessários construir, mais tempo os sujeitos demoram, e mais
erros cometem. Os problemas mais difíceis são os de múltiplos modelos e sem
resposta válida (Schaeken & Johnson-Laird, 2000; Schaeken, Johnson-Laird,
& d'Ydewalle, 1996a,b). Schaeken, Johnson-Laird e d'Ydewalle (1996a),
realçam que os erros surgem porque as pessoas não consideram todos os modelos,
e são erros normalmente consistentes com um dos modelos possíveis. No domínio
do raciocínio espacial, e usando problemas que requerem um ou múltiplos
modelos, mas que requerem sempre uma derivação formal idêntica, o facto de as
pessoas terem um melhor desempenho com problemas de um modelo, é algo que não
pode ser explicado pelas teorias formais (e.g., Byrne & Johnson-Laird,
1989; Carreiras & Santamaria, 1997).
Note-se, no entanto, que em todos os estudos acima referidos, as relações
(temporais ou espa- ciais) são explicitamente enunciadas (e.g., A colher está
à direita do prato, ou, A Maria toma um duche antes de beber o leite), pelo
que pouco se sabe sobre como raciocinamos quando este tipo de relações está
implícito. Juhos, Quelhas e Johnson-Laird (2012) usam relações implícitas com o
objectivo de mostrar um dos efeitos da modulação, já acima referido, que é o de
acrescentar informação sobre os eventos, objectos ou pessoas referidos nas suas
cláusulas e quando as propo- sições não fazem nenhuma menção explícita sobre
elas. Outro objectivo é o de contestar a crítica que tem sido feita à teoria
dos modelos, reafirmando que as condicionais não são vero-funcionais
(Johnson-Laird & Byrne, 2002, p. 673; Evans & Over, 2004, p. 21; Evans,
Over, & Handley, 2005), porque uma frase condicional não é necessariamente
verdadeira quando ambas as cláusulas são verdadeiras, dado que também é
necessário, por exemplo, que os dois eventos tenham ocorrido na correcta ordem
temporal. Isto porque os conhecimentos sobre os eventos do quotidiano permitem
que as pessoas infiram a sequência temporal dos mesmos. Para ilustrar que as
pessoas incorporam informação temporal implícita nas suas representações,
vejamos o seguinte exemplo:
Se a Luísa receber o dinheiro, então ela paga ao Paulo.
Se ela paga ao Paulo, então ele compra um computador novo.
A Luísa recebeu o dinheiro.
A Luísa recebeu o dinheiro antes do Paulo comprar o computador?
Neste exemplo as pessoas tendem a responder que sim (Quelhas et al., 2010, Exp.
4), e tendem a responder que não a um problema formalmente idêntico mas de
diferente conteúdo, como:
Se a Tania der uma bicicleta ao Mauro, então ele teve boas notas nos
exames.
Se ele teve boas notas nos exames, então ele estudou muito.
A Tania deu uma bicicleta ao Mauro.
A Tania deu uma bicicleta ao Mauro antes de ele estudar muito?
Juhos, Quelhas e Johnson-Laird (2012), mostram como as pessoas espontaneamente
ajustam o tempo verbal das conclusões à relação temporal implícita em
condicionais como Se o doente tomar um antipirético, então a febre descerá.,
e em que a seguir se afirma que A febre desce. Portanto: O doente tomouo
antipirético). No entanto, mediante condicionais não temporais a conclusão não
surge no passado mas sim no presente (e.g., Se o livro estiver em cima da
mesa, então a caneta estará em cima da secretária. A caneta está em cima da
secretária. Portanto: O livro estáem cima da mesa).
Note-se que estes efeitos de modulação não se restringem ao raciocínio com
condicionais. Apesar de esta ser a área de eleição para estudar o raciocínio
dedutivo, é sempre pertinente alargar os efeitos (bem como as teorias) a todas
as áreas do raciocínio dedutivo. Juhos, Quelhas e Johnson- Laird (2012), por
exemplo, alargam o efeito acima mencionado a disjunções, como por exemplo:
A Elsa fecha o negócio ou então é despedida. A Elsa é despedida.
Portanto, a Elsa não fechouo negócio.
Nesta disjunção, a conclusão é maioritariamente feita no passado, o que não
acontece na disjunção formalmente idêntica, como, por exemplo:
A Paula lê um livro ou vê televisão. A Paula vê televisão.
Portanto, a Paula não lê um livro.
Juhos, Quelhas e Johnson-Laird (2012, Exp. 3), colocam também a hipótese de que
se aumentarmos o número de relações que um único modelo deve comportar, a sua
complexidade deve aumentar, pelo que prevêem que as pessoas acertem mais, e
demorem menos tempo, quando as suas conclusões são baseadas em condicionais com
apenas uma relação (temporal ou espacial), do que com duas relações (temporal e
espacial). Os resultados encontrados vão no sentido do que é preconizado. Note-
se que aqui a questão não é a quantidade de modelos implicados no raciocínio,
mas a sua qualidade, dependendo neste caso do número de relações que um modelo
contém, e que define a sua complexidade relacional. Halford, Wilson e Philips
(1998), propõem uma métrica em que a complexidade é função do número de
variáveis que podem ser relacionadas numa mesma representação mental, e que
neste caso nós operacionalizamos através do número de relações que um mesmo
modelo mental contém.
Este nosso interesse sobre a modulação semântica e pragmática do raciocínio
estende-se também ao raciocínio sobre intenções, i.e., sobre as razões
subjacentes às acções, que iremos descrever de seguida.
Raciocínio sobre intenções
Intencionalidade é uma das principais categorias da vida mental, tal como
espaço, tempo, e causa (Miller & Johnson-Laird, 1976). Na literatura do
raciocínio dedutivo, e nomeadamente do raciocínio condicional, tem sido
analisado o raciocínio temporal e espacial, como é exemplo os estudos acima
referidos, bem como o raciocínio causal, mas pouca atenção tem sido dada à
intencionalidade. Byrne, Quelhas e Juhos (submetido) conduzem uma série de
estudos neste domínio, e propõem uma teoria que explica como é que as pessoas
raciocinam com condicionais intencionais que contém diferentes tipos de razões
para as acções, tais como crenças, objectivos, obrigações e normas sociais. A
hipótese principal é a de que as pessoas distinguem diferentes tipos de razões
consoante a sua força, nomeadamente distinguem entre razões fortes, fracase
enabling', e independentemente de se tratar de uma razão interna (crença ou
objectivo) ou de uma razão externa (obrigação ou norma social).
As pessoas explicam as acções intencionais sobretudo através das suas razões,
sendo que uma acção intencional é aquela que é feita por alguma razão, enquanto
a acção não-intencional não tem qualquer razão. A nossa proposta de diferentes
tipos de razões, ou de relações razão-acção, é semelhante à proposta de que há
diferentes tipos de relações causa-efeito (Goldvarg & Johnson- Laird,
2001), mas não implica que se considere que estes dois tipos de relações são
semelhantes.
As razões diferem das causas de diversas formas. Por exemplo, as acções podem
ocorrer sem razões (e as razões podem ocorrer sem acções), mas os efeitos
tendem a ocorrer quando as suas causas ocorrem. Face a uma relação causa-efeito
e razão-acção, as pessoas tendem a pensar em alternativas para a causa, no
primeiro caso, e para a acção no segundo caso (Walsh & Byrne, 2007). As
pessoas fornecem razões para comportamentos que acreditam serem intencionais, e
causas para os não-intencionais (Malle, 1999; Reeder, 2009). A relação razão-
acção é menos consistente no tempo do que a relação causa-efeito (Hart &
Honoré, 1959/1985). Para Davidson (1963/2001), a razão primeira de uma razão
para uma acção é a sua causa.
Byrne, Quelhas e Juhos (submetido) fornecem evidência de que as pessoas chegam
a diferentes interpretações para relações razão-acção, através da recuperação
de contra-exemplos (alternativas ou disablers') para condicionais
intencionais, tendo verificado que:
1) Uma relação razão-acção fraca (e.g., Se a Alice tem por
objectivo ler os emails, então ela liga o computador) deverá gerar
razões alternativas para a acção, e.g., o objectivo da Alice nãoé ler
os emails, mas ela liga na mesma o computador, porque quer escrever
um artigo (Exp. 1). A consequência destas razões alternativas é que
as pessoas deixam de fazer as inferências NA e AC (Exp. 2). Estas
condicionais intencionais fracas são julgadas como mais fracas do que
as fortes, mas não tão fracas como as enabling' (Exp. 3).
2) Uma relação razão-acção enabling' (e.g., Se o objectivo da
Laura é falar com o namorado, então ela telefona-lhe) deverá gerar
razões disablers', i.e., algo que impede a acção de ocorrer na
presença de uma razão viável, e.g., o objectivo da Laura é falar com
o namorado, mas ela nãolhe telefona, passa antes em casa dele. As
razões disablers' suprimem as inferências MP e MT.
3) Uma relação razão-acção forte (e.g., Se o objectivo do Mário
é ter boas notas, então ele estuda muito), não deverá evocar nenhum
dos tipos de contra-exemplos (alternativas ou disablers'), pelo que
as pessoas tendem a fazer as quatro inferências (MP, MT, AC, NA).
Note-se que estes efeitos observados para as condicionais fortes, fracas e
enabling', ocorreram, independentemente de se tratar de uma intenção
relacionada com as crenças das pessoas, ou com os seus objectivos, ou ainda com
obrigações ou normas sociais.
Finalmente, queríamos relembrar que é, desde há várias décadas, através do
estudo do raciocínio com frases condicionais que os psicólogos tem procurado
perceber como raciocinamos dedutivamente, mas o interesse pelas condicionais
também existe no domínio da linguística e da filosofia, o que leva Johnson-
Laird a afirmar que o IF é a palavra inglesa mais pequena com mais publicações
(Johnson-Laird, 2006). Por último, e atendendo ao nosso particular interesse
pela modulação semântica e pragmática do raciocínio, e pelas temáticas
recentemente exploradas (raciocínio temporal e espacial, e intencional)
pensamos que nos aproximamos do que Bruner (1990) destaca como central na
psicologia que é o estudo da mente, no sentido de estados intencionais como
crer e desejar, acusando a computação enquanto metáfora da ciência cognitiva
pelo novo ataque aos estados mentais e à intencionalidade, bem como ao conceito
de acção que, segundo Bruner, implica a condução do agir sob a influência de
estados intencionais.