Desenho e avaliação de programas de desenvolvimento de competências parentais
para pais negligentes: Uma revisão e reflexão
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como principal objetivo apresentar uma revisão crítica da
literatura sobre programas de intervenção para famílias negligentes. Com base
no presente objetivo, propomo-nos (i) apresentar alguns indicadores da
prevalência da negligência a nível nacional; (ii) definir o fenómeno da
negligência e rever brevemente a literatura que aborde teoricamente os seus
principais determinantes e problemáticas associadas; (iii) rever alguns modelos
de intervenção junto de famílias em situação de risco psicossocial, com
práticas parentais negligentes e/ou maltratantes associadas, e (iv)
sistematizar uma proposta de modelo de intervenção bem como metodologias de
desenho e avaliação de programas com vista à redução das práticas parentais
negligentes.
Negligência parental: Prevalência e relevância social
As dinâmicas familiares negligentes associam-se geralmente à falta de
conhecimento ou competência parental para educar, supervisionar e responder às
necessidades dos filhos menores. A nível nacional, e ainda que circunscritos às
duas principais cidades do país (Lisboa e Porto), os trabalhos de Amaro (1986)
indicam uma taxa de negligência superior à de outros tipos de mau trato (48%
dos casos). A prevalênciada negligência de crianças e jovens em Portugal tem
constituído um dos principais motivos de abertura de processos pelos serviços
de proteção de menores (38.2% dos processos; Relatório da Comissão Nacional de
Crianças e Jovens em Risco [CPCJ], 2011).
Atendendo a que as dinâmicas familiares negligentes podem representar um risco
para o pleno desenvolvimento da criança, as respostas institucionais previstas
para estas situações podem incluir a retirada dos menores das suas famílias e
sua consequente institucionalização. No entanto, são inúmeros os estudos que
documentam os graves danos psicossociais que a separação do agregado familiar
de origem pode provocar, nomeadamente a constante necessidade de adaptação a
novos contextos, bem como ambivalência no reconhecimento das figuras parentais
e na construção da relação de vinculação (e.g., Fernández, Alvarez, &
Bravo, 2003; Martins, 2005; Palacios, 2003). Neste contexto, como alternativa à
separação da família e/ou institucionalização da criança, a preservação
familiar tem sido apontada como a estratégia potencialmente mais adequada no
trabalho com pais negligentes (e.g., Caldera et al., 2007; Fernández et al.,
2003; Martins, 2005; Palacios, 2003; Rodrigo, Máiquez, Correa, Martín, &
Rodríguez, 2006). A intervenção junto destas famílias assume assim particular
relevância social, como estratégia para evitar a rutura definitiva (Martins,
2005; Tribuna & Relvas, 2002). Para além de se apresentar como uma
alternativa à institucionalização cujas consequências psicológicas, sociais e
económicas se encontram largamente documentadas, a intervenção com famílias
negligentes procura constituir-se como uma resposta eficaz na redução e/ou
extinção das próprias práticas parentais abusivas, que podem representar um
risco (ou perigo) para a criança que, após sinalizada, permanece no seu
agregado familiar.
Em consonância com a literatura supracitada, a medida de "apoio junto dos
pais" representa cerca de 77% das medidas aplicadas pelas CPCJ, ao
contrário do acolhimento institucional, que se aplica em apenas 9% das
situações (Relatório CPCJ, 2011). Estes indicadores sugerem a crescente
prevalência de estratégias de preservação familiar fundamentadas no superior
interesse da criança e a sequente necessidade de desenvolver, implementar e
avaliar programas de intervenção com pais negligentes.
A negligência parental como forma de mau trato
Foi já durante o séc. XX que a negligência começou a ser considerada como um
problema social e definida como uma forma de mau trato (que por sua vez já
havia sido reconhecido como tal no século anterior; Miller-Perrin & Perrin,
1999). Embora se assista ainda a alguma falta de consenso quanto à definição
dos conceitos (Zigler & Hall, 1989), mau trato diz geralmente respeito a
"qualquer forma de trato físico e (ou) emocional, não acidental e
inadequado, resultante de disfunções e (ou) carências nas relações entre
crianças ou jovens e pessoas mais velhas, num contexto de uma relação de
responsabilidade, confiança e (ou) poder" (Magalhães, 2004, p. 33) que
perturbem o desenvolvimento físico, psicológico ou emocional considerado como
normal para a criança (Pontón, Franco, & Ramírez, 2006; Roig & De Paúl,
1993). O mau trato pode ser ativo, quando inclui o uso da força física, sexual
ou psicológica; ou passivo, quando revela omissão e falha nos cuidados que
condicionam o bem-estar da criança (Barudy, 1998).
A negligência, do latim negligentia, significa descuido e falta de cuidado e é
descrita como uma forma frequente de mau trato infantil que se traduz na
dificuldade ou na incompetência dos pais para salvaguardarem a saúde e o bem-
estar da criança (Delgado, 1996). Este tipo de mau trato pode ser consciente ou
inconsciente, e decorre geralmente de falta de informação, incapacidade ou
pobreza (Roig & De Paúl, 1993). A negligência surge também definida como
uma falha, pontual ou permanente, na provisão de necessidades básicas às
crianças (e.g., como a alimentação, higiene, vestuário, proteção e supervisão
em situações perigosas, educação e cuidados médicos; Moreno, 2002), que pode
dar origem a danos no seu desenvolvimento e bem-estar (Wolock & Horowitz,
1984).
Numa abordagem mais sistemática, Calheiros (2006) distingue as diferentes
formas de negligência, referindo que (i) a negligência física diz respeito à
falta de provisão, ou seja, à omissão, por parte dos adultos, de cuidados
básicos à criança ao nível das suas necessidades físicas (habitação,
alimentação, higiene, vestuário, acompanhamento da saúde física), (ii) a
negligência educacional refere-se a omissões parentais relativamente ao
acompanhamento escolar, desenvolvimento e saúde mental da criança e, (iii) a
falta de supervisão, referindo-se a omissões dos pais ao nível dos cuidados com
a segurança física, socialização, estimulação e acompanhamento aos filhos
menores.
As consequências da negligência foram também alvo de estudo e de sistematização
(e.g., Azevedo & Maia, 2006; Crittenden, 1999; González, 2007), que
salientam o impacto da negligência física na saúde (e.g., má nutrição, hipo-
crescimento cerebral, infeções respiratórias ou gastrointestinais, problemas
auditivos, visuais ou auto-mutilação da criança); a relação entre a negligência
educacional e elevados níveis de absentismo e abandono escolar; a ocorrência de
sinais como auto-suficiência compulsiva, falsa maturidade, dificuldades nas
relações sociais e isolamento em crianças vítimas de negligência emocional; e
ameaça à integridade física da criança decorrente da falta de supervisão.
Modelos de suporte teóricos
No âmbito da Psicologia Comunitária, o modelo ecológico de desenvolvimento
humano (Bronfenbrenner, 1979), e o modelo de Belsky (1993), constituem uma
referência na compreensão do fenómeno da negligência assente na interação do
indivíduo com o meio. À luz destes modelos, a negligência é determinada pelo
equilíbrio entre os fatores stressores e os de suporte (Belsky, 1980; Belsky
& Vondra, 1989). Quando os factores stressores superam os de suporte, a
probabilidade de mau trato à criança tende a aumentar (Belsky, 1993).
O Modelo Transacional de Cicchetti e Rizley (1981) permite igualmente enquadrar
este fenómeno, definindo o mau trato como expressão de um desequilíbrio no
sistema pais-criançameio. Os autores concebem os fatores de risco em duas
vertentes: potencializadora, que aumentam a probabilidade de mau trato, e
compensatória, que diminuem o risco de mau trato. Os fatores de vulnerabilidade
podem ser constantes quando incluem fatores a longo termo, de ordem biológica,
histórica, psicológica ou ecológica, ou flutuantes, quando as condições
indutoras de stress na família que podem levar os pais ao mau trato ou
negligência são transitórias. É da falta de equilíbrio entre factores
potenciadores e compensatórios que poderão resultar padrões de parentalidade
negligente.
Mais recentemente e no âmbito de um modelo cognitivo de processamento de
informação social (e.g., Milner, 1993, 2003), Crittenden (1993) sugere que a
negligência parental poderá decorrer de falhas ou enviesamentos no
processamento de informação, nomeadamente informação relativa à criança
(Crittenden, 1993; Hildyard & Wolfe, 2007). Assim, a negligência poderá
decorrer da incapacidade dos cuidadores em (1) perceber os sinais e estados da
criança, (2) interpretar corretamente estes sinais, (3) selecionar e (4)
implementar uma resposta adequada.
Fatores potenciadores e fatores compensatórios
Fatores potenciadores da negligência.De acordo com vários estudos (e.g.,
Magnuson & Duncan, 2002; McLoyd, 1998) a desvantagem económica das famílias
pode associar-se a práticas parentais abusivas, nomeadamente à negligência
(Almeida, André, & Almeida, 1999; Bondarenko, 2008; Bronfenbrenner, 1986;
Calheiros, 2006; Evans & English, 2002; Flores, 2004; Peirson, Larendeau,
& Chamberland, 2001). Note-se, no entanto, que a pobreza não tem uma
relação direta com a negligência. A negligência surge associada a fatores de
risco decorrentes da situação de pobreza, que aumentam a probabilidade de o
indivíduo experienciar situações geradoras de stress e desgaste psicológico que
poderão contribuir para a parentalidade negligente (e.g., Bronfenbrenner, 1986;
Tang, 2008).
A escassez de recursos financeiros e materiais, as dificuldades em suprir
necessidades básicas, inadequação da habitação, instabilidade no emprego ou
desemprego a par do isolamento social, baixa inserção sociocultural, e
exposição a situações de violência doméstica ou comunitária constituem alguns
dos fatores (Evans & English, 2002; Peirson et al., 2001) que
frequentemente colocam as famílias em situação de vulnerabilidade psicossocial
ou de exclusão social (Bondarenko, 2008). Por sua vez, crianças em situação de
pobreza são também elas expostas, no seu ambiente imediato, a fatores de
stress, físicos e psicológicos. Estes fatores, constituem situações de
vulnerabilidade potencialmente geradoras de problemas de comportamento e de
dificuldades de auto-regulação (Evans & English, 2002). Estes contextos
repercutem-se na relação pais-filhos, tornando-a mais negativa, e potenciam a
emergência de práticas parentais abusivas (Dearing, 2008).
A falta de condições de habitabilidade, de estrutura e organização (Evans &
English, 2002) aparecem também na literatura como fatores de risco da
negligência (e.g., Stavrianos, Stavrianou, Stavrianou, & Kafas, 2009). Este
aspeto assume especial importância na medida em que ambientes organizados e com
rotinas padronizadas tendem a promover o desenvolvimento de competências
cognitivas adequadas, nomeadamente ao nível da compreensão e representação dos
eventos de vida diários, ao contrário do observado em ambientes caóticos
(Flores, 2004).
De entre os múltiplos fatores frequentemente associados a práticas parentais
negligentes, destacam-se ainda o abuso de substâncias por parte dos cuidadores,
indutores de padrões de interação negativos, baixos níveis de competência
parental e problemas graves de saúde (Peirson et al., 2001; Stavrianos et al.,
2009), e ainda a presença de psicopatologias nos pais (Belsky, 1993).
Crittenden (1999) sistematiza os fatores stressores da negligência agrupando-os
por tipos de negligência que promovem, referindo (i) a negligência
desorganizada, caracterizada por práticas parentais inconsistentes, observadas
em famílias em constante crises cíclicas, que vivem em ambientes totalmente
desorganizados, desenvolvendo respostas emocionais imprevisíveis à criança;
(ii) a negligência emocional, que se caracteriza pela desconexão emocional
entre pais e filhos, cujas relações são pautadas por regras limitadas e
demasiado ponderadas, nas quais não há lugar a afetos; e (iii) a negligência
depressiva, que reflete, segundo a autora, a clássica imagem da criança
negligenciada, a quem são asseguradas as principais necessidades físicas, mas à
qual são ignorados pelos pais todos os pedidos de atenção, acabando por
desenvolver apatia e sintomas depressivos.
Fatores compensatórios da negligência.As práticas parentais negligentes podem
ser prevenidas ou diminuídas por vários fatores que compensam o risco de
negligência e que potenciam os pontos fortes das famílias. A promoção do
adequado desempenho parental, por exemplo, funciona como fator de proteção
nomeadamente para as crianças que enfrentam os riscos associados à pobreza
(Hanson, McLanahan, & Thomson, 1997). O suporte social constitui-se também
enquanto fator protetor da negligência. De acordo com vários autores (e.g.,
Horwath, 2007; Matos & Sousa, 2004; Stavrianos et al., 2009) as redes de
suporte social, formais ou informais, funcionam como um
"amortecedor" dos sentimentos de stress experienciados pelos pais,
ao promoverem apoio e suporte às necessidades imediatas das famílias.
A própria estrutura familiar pode também constituir-se como um fator de
proteção da negligência. A literatura indica que em famílias ondem coabitam os
dois cuidadores, a probabilidade de ocorrerem práticas negligentes é menor do
que em famílias monoparentais, assim como em famílias com menor dimensão, sem
muitos filhos (Peirson et al., 2001). Neste contexto, Horwath (2007) destaca
ainda o papel das "avós" maternas no apoio às filhas, na educação
dos netos, e no suporte emocional que podem trazer contribuindo para o bem-
estar da família.
As rotinas familiares constituem outro dos fatores protetores do risco de
negligência. Vários estudos empíricos, referenciados por Fiese e Marjinsky
(1999), evidenciam a importância destas rotinas na organização da vida familiar
e nas práticas parentais do cuidar, que revelam ser importantes vetores na
resolução de problemas entre pais e filhos e entre o casal (Kiser, Bennett,
Heston, & Paavola, 2005).
Padrões de vinculação segura com o cuidador principal constituem igualmente um
fator compensatório na interação pais-filhos, na medida em que estes cuidadores
apresentam maior capacidade de responder adequadamente às necessidades das
crianças e demonstram mais afetividade em relação aos seus filhos (Morton &
Browne, 1998; Stavrianos et al, 2009).
Vários estudos referenciados por Pereira (2012) sugerem ainda que a própria
criança apresenta fatores que se podem constituir como protetores ou
compensatórios da ocorrência da negligência, nomeadamente ao nível do
temperamento e comportamento, cujas capacidades de auto-regulação, gestão de
emoções ou resolução de problemas, poderão aumentar ou diminuir a
responsividade dos cuidadores (Belsky, 1993; Deater-Deckard, Ivy, & Smith,
2005; Peirson et al., 2001).
PROGRAMAS DE INTERVENÇÃO COM FAMÍLIAS MALTRATANTES
A manutenção da criança na sua família de origem, e consequente extinção da
situação de perigo a que a criança está exposta, exige respostas de intervenção
integradas na família.
A literatura sobre os determinantes da negligência e fatores de risco e
proteção serve de suporte teórico ao desenvolvimento de programas que visam, de
uma forma geral, providenciar no imediato recursos concretos, relacionados com
as necessidades básicas mas também responder às necessidades psicossociais e
educativas das famílias (DePanfilis, 1999).
A promoção das competências parentais com famílias em situação de risco,
nomeadamente negligentes, deverá assim abordar conteúdos relativos à satisfação
das necessidades da criança, à relação educativa (Abreu-Lima et al., 2010),
atendendo ainda às necessidades dos cuidadores, à sua auto-estima e bem-estar
(Cruz & Carvalho, 2011).
Em consonância com estas evidências, e no contexto português, a Lei de Proteção
de Crianças e Jovens em Perigo (Lei n.º 147/99, de 1 de Setembro) prevê que,
quando são aplicadas medidas de apoio junto dos cuidadores (artigos 39º e 40º),
estes possam beneficiar de formação com vista ao melhor exercício das suas
funções parentais (artigo 41º).
Apresentação dos programas de formação parental
Atendendo à importância de conhecer o estado da arte nacional no contexto da
formação parental, referimos em seguida um conjunto de programas desenvolvidos
com famílias em situação de risco, dando conta das suas principais
características, designadamente os objetivos, suporte teórico, dinamizadores,
público-alvo, metodologias de avaliação, estratégias de intervenção e
resultados (ver Quadro_1). A escolha dos programas analisados, de um vasto
leque de programas existentes, fundamenta-se no facto de apresentarem
informação sistematizada, como é o caso dos projetos de formação parental
financiados pelo Programa Crianças e Jovens em Riscoda Fundação Calouste
Gulbenkian e dos programas baseados em evidência (para definição ver Guerra,
Graham, & Tolan, 2011; McCall, 2009), nacionais e internacionais
implementados em Portugal, apresentados no Relatório de Avaliação de
Intervenções de Educação Parental(Abreu-Lima et al., 2010; Almeida et al.,
2012).
Os programas de formação parental ou, de acordo com a designação de Abreu-Lima
e colaboradores (2010), as intervençõesde formação parental brevemente
resumidas no Quadro_1, refletem de forma global o objetivode promover práticas
parentais positivas, que funcionem como fatores de proteção à criança em
situação de risco, nomeadamente através da sua consistência, de disciplina
apropriada, de respeito pela individualidade da criança, de suporte emocional,
de reforço dos comportamentos de aprendizagem e de responsividade adequada às
necessidades da criança (Peirson et al., 2001). Alguns dos programas
apresentados focam-se mais especificamente na melhoria da qualidade da relação
pais-filhos, como por exemplo o projeto Escola de Pais(Pacheco et al., 2011), e
nas estratégias disciplinares dos pais, reforçando a assertividade e
responsividade na aplicação de regras e disciplina como por exemplo o programa
Em Busca do Tesouro das Famílias(ver Abreu-Lima et al., 2010). De uma forma
geral, os programas visam também prevenir as respostas de acolhimento
institucional, nomeadamente aqueles que se destinam a famílias com filhos
sinalizados aos serviços de proteção de crianças e jovens, como é o caso do
projeto SAFER(Dinis, Delgado, & Chaleira, 2011) ou o projeto Nova_Mente(Vaz
et al., 2011). Outro dos programas referidos, o Novas Oportunidades Parentais
(Santos, Santos, & Ribeiro, 2011), tem ainda como objetivo principal a
reintegração familiar, ou seja, intervém com famílias cujos filhos já se
encontram em resposta institucional. De uma maneira geral, os objetivos dos
programas analisados são relativamente explícitos, embora nem sempre
operacionalizados de forma mensurável, o que poderá dificultar a avaliação da
sua eficaz concretização e sobretudo dos resultados produzidos, como é exemplo
o Projeto Laço(D'Espiney, Oliveira, & Borges, 2011).
Relativamente à fundamentação teóricados programas apresentados, prevalecem as
teorias ecológicas e sistémicas (Belsky, 1993; Bronfenbrenner, 1979) e os
modelos cognitivocomportamentais. No entanto, alguns programas fundamentam-se
em modelos de intervenção de natureza mais terapêutica, salientando-se ainda
aqueles que apresentam modelos específicos ao próprio programa, como é o caso
do Projeto Nova_Mente(Vaz et al., 2011) assente no Modelo de Reeducação de
Nicholas Hobbs, e do Projecto SAFER(Dinis et al., 2011) baseado no modelo
Families Firstdo programa internacional Homebuilders, da Universidade do
Michigan. No entanto, na maioria dos casos, os modelos de enquadramento
descritos fundamentam apenas aspetos globais dos programas, destacando-se a
escassez na apresentação de teorias e evidências empíricas específicas que
fundamentem a estrutura, os conteúdos e os próprios procedimentos de aplicação
e avaliação. Como exceção destacam-se alguns programas internacionais,
adaptados em contexto nacional, que seguem modelos específicos, baseados na
evidência que fundamenta claramente as intervenções propostas, como é o caso do
Strengthning Families Program(ver Kumpfer, Whiteside, Green, & Allen,
2010).
Os dinamizadoresdos programas de formação parental, são, na sua maioria
técnicos com formação superior em Psicologia ou Serviço Social, embora nem
sempre com formação específica no programa ou em educação parental. Neste
contexto, destacamos o Projeto SAFER(Dinis et al., 2011) e os programas Mais
Família - Mais Criança, Em busca do tesouro das famíliase Missão C(ver
Abreu-Lima et al., 2010), que incluem obrigatoriamente formação específica no
programa e respectiva supervisão. A este respeito, muitos têm sido os autores
que defendem que a eficácia destes programas está dependente de uma série de
variáveis características da própria implementação dos programas, nomeadamente
o tipo de formação dos dinamizadores dos programas (Centers for Disease Control
& Prevention, 2003; Sweet & Appelbaum, 2004). Por exemplo, LeCroy e
Whitaker (2005) procuraram identificar as principais dificuldades dos
profissionais envolvidos no Programa Healthy Families America. Para tal,
desenvolveram um instrumento (Difficult Situations Inventory) para avaliar
quais as áreas com maior necessidade de formação, e desenvolver programas de
treino de competências específicas para os mesmos aprenderem a atuar nas
situações mais complexas. As situações identificadas como as mais difíceis
foram: trabalhar com recursos limitados no apoio às famílias; facilitar às
famílias o acesso a serviços para necessidades específicas, nomeadamente
serviços de saúde mental; lidar com o abuso de substâncias (drogas e álcool)
por parte dos pais; trabalhar com famílias desmotivadas; mudar estilos
parentais e contactar com os pais que, ao contrário das mães, mais dificilmente
participam nos programas.
Ao nível do público-alvo, os programas de formação parental apresentados são,
de uma forma geral, destinados a famílias em elevado risco psicossocial, com
filhos referenciados aos serviços de proteção de menores por mau trato ou
negligência. No entanto, alguns programas são mais abrangentes, intervindo ao
nível da prevenção com famílias ditas normativas, apresentando estas ou não
dificuldades no exercício da sua parentalidade. O projeto Para Pais sobre
Filhos(Rodrigues et al., 2011) e o Projeto Laço(D'Espiney et al., 2011)
destacam-se na intervenção ao nível preventivo. Já o Projeto Nova_Mente(Vaz et
al., 2011) é dirigido especificamente a famílias em situação de risco
psicossocial, beneficiárias de Rendimento Social de Inserção (R.S.I.), ou
acompanhadas pelos serviços de proteção de crianças e jovens em risco. Uma das
limitações que, ao nível dos destinatários dos programas, tem sido identificada
na literatura (Duggan et al., 2004) é a fraca participação dos pais (por
oposição às mães) nos programas de intervenção parental. De uma maneira geral
os programas analisados não fazem referência a esta limitação. Por outro lado
nem sempre são explícitos os critérios que fundamentam a aplicação dos
programas a determinadas populações nem quais os critérios considerados para
inclusão no programa.
Relativamente às estratégiasutilizadas nos referidos programas, prevalecem as
sessões temáticas em grupo, com a utilização de métodos expositivos, em formato
de sala de aula, como, por exemplo, no projeto Novas Oportunidades Parentais
(Santos et al., 2011), geralmente realizadas com uma periodicidade semanal.
Alguns dos programas apresentam formatos mais específicos, como o Escola de
Pais(Pacheco et al., 2011) que utiliza registos de vídeo de interações
cuidador-criança, apresentando-os e discutindo-os em sessões de pequeno grupo,
complementadas com visitas domiciliárias a cada família. Esta estratégia de
intervenção grupal/individual é também a adotada no âmbito de outros projetos
- Nova_Mente(Vaz et al., 2011), Para Pais sobre Filhos(Rodrigues et al.,
2011) e Novas Oportunidades Parentais(Santos et al., 2011). Já o projeto SAFER
(Dinis et al., 2011) centra a sua intervenção em cada família, através de um
acompanhamento intensivo, focalizado e limitado no tempo, através de visitas
domiciliárias, complementadas com sessões temáticas de grupo. Alguns programas
como o Construir Famílias, adaptado do Programa Apoyo Personal y Familiar
(Rodrigo et al., 2006), reforçam ainda a importância dos serviços de apoio às
famílias durante a formação, como o transporte ou cuidados prestados às
crianças durante as sessões que, de acordo com Abreu-Lima e colaboradores
(2010), facilitam a participação e manutenção das famílias nos programas. A
partir da informação disponível de cada um dos programas analisados não é
possível identificar o que determina a opção por uma ou outra estratégia
- visitas domiciliárias (home-based) e atividades nos serviços da
comunidade (center-based). No entanto a literatura indica (e.g., Chaffin,
Bonner, & Hill, 2001), como recomendação geral a utilização de múltiplas
estratégias na medida em que estas devem ser vistas como complementares.
Quanto à metodologia de avaliação, os programas analisados apresentam, na sua
maioria, metodologias de avaliação pouco estruturadas, salientando-se ainda a
escassez de designs experimentais ou quasi-experimentais. A este respeito
destacam-se os programas que prevêem apenas uma avaliação com base na
satisfação dos participantes, como é o caso do Projeto Laço(D'Espiney et
al., 2011). Alguns dos programas utilizam ainda outras metodologias de natureza
qualitativa, com a realização de grupos focais, como o projeto Nova_Mente(Vaz
et al., 2011) ou o SAFER(Dinis et al., 2011). Os programas internacionalmente
estandardizados, aplicados em contexto nacional, apresentam protocolos de
avaliação mais estruturados, como é o caso do programa Construir Famílias,
adaptado do programa Apoyo Personal y Familiar(Rodrigo et al., 2006), e do
projeto Escola de Pais(Pacheco et al., 2011), que utiliza critérios bem
definidos de constituição da amostra e um design quasi-experimental, com pré e
pós-teste. Finalmente, os programas que apresentaram avaliação de follow-upsão
o projeto Nova_Mente(Vaz et al., 2011), que prevê a realização de follow-upapós
dois meses da intervenção, e o projeto SAFER(Dinis et al., 2011), que avalia
até um ano depois, se as crianças se mantêm na família de origem. Embora alguns
dos programas analisados utilizem metodologias qualitativas (e.g., entrevistas,
grupos de discussão), para aferir a satisfação das famílias com o programa e
obter informação acerca de outros aspetos relevantes da sua implementação, este
tipo de avaliação poderá ser insuficiente. O teste da validade interna dos
programas, e a avaliação da sua eficácia será melhor salvaguardado através da
aplicação de instrumentos específicos no contexto de delineamentos
(quasi)experimentais (e.g., Garrido & Camilo, 2012; Trochim & Donnelly,
2006).
Quanto aos resultadosdos programas, verifica-se que muitos não utilizaram um
design de tipo (quasi)experimental, com pré e pós-avaliação e menos ainda
incluíram grupos experimental e de controlo. Assim e apesar de, na sua maioria,
as famílias terem revelado elevados índices de satisfação com os programas,
torna-se difícil avaliar o impacto da intervenção nas competências das famílias
e na prevenção ou extinção da negligência. Destacamos, no entanto, três
programas nacionais que prevêem evidência da sua eficácia nomeadamente o
projeto Escola de Pais(Pacheco et al., 2011), que avalia as alterações ao nível
da qualidade da relação parental, e os projetos Nova_Mente(Vaz et al., 2011) e
SAFER(Dinis et al., 2011), que avaliam se as crianças se mantiveram nas
famílias de origem ou se existiram respostas de acolhimento institucional. Os
programas baseados em evidência empírica, apresentam resultados bastante mais
consistentes do impacto das intervenções, e alguns já com resultados
preliminares da implementação a amostras portuguesas como o programa Anos
Incríveis Básico(adaptado de Incredible-Years Program; Webster-Stratton,
Gaspar, & Seabra-Santos, 2012). Embora a própria natureza da situação de
crise, na intervenção com famílias em risco psicossocial, apresente sérios
constrangimentos ao desenho e implementação de programas com base em designs
(quasi)experimentais, que incluam grupos experimental e de controlo avaliados
com instrumentos adequados antes e após a aplicação do programa, só assim é
possível estabelecer relações de causalidade e adequadamente avaliar a eficácia
dos programas na promoção de práticas parentais adequadas (Garrido &
Camilo, 2012; Trochim & Donnelly, 2006). Neste sentido a maioria dos
programas apresentados poderá beneficiar de designs desta natureza para de que
forma mais adequada se possam realizar inferências acerca da sua eficácia.
CONSTRUÇÃO, IMPLEMENTAÇÃO E AVALIAÇÃO DE UM PROGRAMA DE FORMAÇÃO PARENTAL
Com base na literatura apresentada sobre negligência e programas de intervenção
com pais, e atendendo aos principais fatores de risco e de proteção associados
à negligência, procuramos nesta secção sistematizar as principais
características de um modelo de intervenção com famílias com páticas parentais
negligentes, dando ainda conta de um conjunto de estratégias de intervenção e
metodologias de avaliação, que apresentamos na Figura_1. Note-se no entanto que
esta proposta não se pretende constituir como um novo modelo mas apenas
integrar propostas distintas baseadas em evidência que demonstram melhores
resultados neste tipo de intervenções.
Objetivos do programa
Com base na revisão de literatura realizada e na própria definição de
negligência, e tendo como finalidade diminuir as práticas parentais
negligentes, através do treino de competências parentais específicas, poderão
ser objetivosda intervenção: diminuir o nível de negligência físicaàs crianças/
jovens, desenvolvendo competências domésticas, educativas e relacionais dos
pais, motivando-os para (i) a organização e limpeza da habitação com vista a
melhorar as condições de habitabilidade e para (ii) a gestão consciente do
orçamento familiar, por forma a melhor suprir as necessidades básicas da
família ao nível da alimentação, saúde, vestuário e higiene; e diminuir o nível
de negligência educacionale falta de supervisãodas crianças/jovens, (i)
implicando os pais nas rotinas diárias dos filhos, nomeadamente na vida
escolar, (ii) apoiando-os na resolução de problemas de comportamento e
promovendo estilos parentais adequados, e (iii) promovendo espaços diários de
comunicação e convívio familiar, com vista à interação positiva pais-filhos. Os
objetivos deverão ser passíveis de operacionalização e mensuração e traduzir
resultados esperados a curto, médio e longo prazo (W. K. Kellogg Foundation,
1998). Deverão ainda atender à satisfação das necessidades da criança, à
relação educativa (Abreu-Lima et al., 2010), às necessidades dos cuidadores, à
sua auto-estima e bem-estar (Cruz & Carvalho, 2011; DePanfilis, 1999);
contextualizar culturalmente a intervenção; e ainda, privilegiar os recursos
comunitários na construção das redes de suporte social (DePanfilis, 1999). Para
dar respostas a estes objetivos, e com base nas recomendações da literatura,
apresentamos de seguida algumas linhas orientadoras para a construção de um
programa de desenvolvimento de competências parentais.
Estrutura e conteúdos dos programas
Os programas de intervenção com famílias negligentes poderão ser aplicados
durante um número limitado de sessões, para as quais deverão ser definidas
atividades de experimentação, lúdicas e reflexivas, sobre temáticas associadas
à problemática da negligência parental (ver Abreu-Lima et al., 2010; Camilo,
Garrido, & Sá, no prelo). Os conteúdos da formação poderão ser organizados
por temática e compilados num manual, com as características principais do
programa, os objetivos específicos e as dinâmicas de cada sessão, bem como o
protocolo de avaliação a seguir. Este manual reveste-se de especial importância
pois constitui um registo de todos os aspetos do programa que permite a sua
replicação.
No que diz respeito aos conteúdosabordados durante as sessões, estes podem
variar de acordo com as necessidades avaliadas para cada família e deverão
apresentar flexibilidade de adaptação às características da família (Abreu-Lima
et al., 2010). A título de exemplo, apresentamos alguns temas que a literatura
tem identificado com alguma consistência (Crittenden, 1999; Dearing, 2008;
Evans & English, 2002; Fiese & Marjinsky, 1999; Flores, 2004). Uma das
temáticas a abordar num programa desta natureza poderá ser a "perceção
parental sobre os filhos e a família". A abordagem desta temática tem
como objetivos capacitar os pais na identificação das principais
características dos filhos, reconhecer e refletir sobre as perspetivas que
outras pessoas têm dos seus filhos, e identificar possíveis reações da criança
ou jovem face a situações ou contextos diversos. Este tema-se fundamenta-se em
propostas da literatura (e.g., Belsky, 1993; Deater-Deckard et al., 2005;
Peirson et al., 2001; ver Pereira, 2012 para uma revisão), que sugerem que o
temperamento da criança assume um importante papel na evocação de
comportamentos parentais coercivos ou não responsivos, sendo por isso
importante que os pais consigam reconhecer os comportamentos dos filhos para
assim responderem de forma adequada.
Atendendo aos vários estudos que indicam que os ambientes familiares caóticos e
desorganizados promovem respostas emocionais imprevisíveis à criança, com
custos psicossociais bastante elevados para o seu desenvolvimento (Crittenden,
1999; Evans & English, 2002; Flores, 2004), poderá ser desenvolvida a
temática da "gestão doméstica". O desenvolvimento desta temática
tem como principais objetivos delinear com os pais as principais rotinas de
higiene, arrumação e organização do lar, tornando-os capazes de
operacionalizarem as rotinas identificadas e aplicarem estratégias de divisão
de tarefas domésticas (individuais e conjuntas).
A desvantagem económica das famílias é apontada na literatura como um dos
principais fatores de risco associados a práticas parentais abusivas (Magnuson
& Duncan, 2002; McLoyd, 1998), nomeadamente a negligência (Almeida et al.,
1999; Calheiros, 2006). A situação de pobreza provoca stress nos pais com
sequentes repercussões negativas na relação pais-filhos, aumentando as práticas
parentais abusivas (Dearing, 2008). Desta forma, a temática da "gestão
orçamental" poderá assumir especial importância, no sentido de tornar a
família capaz de delinear prioridades de aplicação do rendimento familiar
mensal, identificar necessidades a curto, médio e longo prazo definindo
objetivos de poupança, identificar estratégias de ensino do valor do dinheiro
aos filhos e planear a gestão da alimentação e de outras necessidades da
família, numa lógica de relação qualidade/custo.
As rotinas familiares assumem particular importância na organização da vida
familiar e nas práticas parentais do cuidar (Fiese & Marjinsky, 1999; Kiser
et al., 2005; Resnick, et al., 1997). A abordagem desta temática tem como
objetivos capacitar os pais para a definição de regras diárias que devem fazer
parte da rotina da criança/jovem, reconhecer diferentes estilos de comunicação
e formas de relacionamento e delinear estratégias eficazes de aplicação dessas
mesmas regras.
O acompanhamento da saúde é também uma temática importante a ser introduzida
nas intervenções de formação parental, com vista a assegurar as necessidades da
criança (Calheiros, 2006). Com esta temática pretende-se que os pais
compreendam a importância da vigilância da saúde física e mental dos seus
filhos, conheçam corretamente as instituições de saúde e como as utilizar e
identifiquem práticas preventivas e de supervisão dos consumos (álcool, tabaco,
drogas).
Também o acompanhamento escolar integra o constructo da negligência (e.g.,
Calheiros, 2006) e poderá ser igualmente uma temática a abordar. Diz-nos a
literatura (Eccles & Harold, 1996; Epstein, 1983) que o envolvimento das
famílias assume especial importância no desempenho e integração positiva em
contexto escolar das crianças e que a relação escola-família interfere de forma
positiva no seu desenvolvimento. O trabalho com os pais neste âmbito poderá ter
como principais objetivos valorizar a importância da escola, compreender a
importância das rotinas escolares para a criança/jovem e da relação escola-
família, delinear estratégias de apoio às rotinas escolares e definir e
rotinizar o tempo de estudo dos filhos.
A abordagem destas temáticas procura ainda prevenir e minimizar problemas
associados a comportamentos de risco, assumindo a supervisão parental uma
importante estratégia na diminuição destes comportamentos (Valladares &
Moore, 2009).
Metodologia do programa
Seleção e caracterização da amostra.A amostra deve ser constituída a partir de
critérios objetivos de inclusão e exclusão, instituindo à priori as
características que famílias e menores devem apresentar, e qual o seu nível de
risco. Para selecionar a amostra é possível recorrer a dados processuais sobre
as famílias (e.g., dados demográficos, estrutura familiar e redes de suporte),
a informações fornecidas pelos técnicos das instituições que as acompanham
(e.g., escola, saúde, serviços de protecção de crianças e jovens) e ainda à
aplicação de instrumentos às famílias e aos técnicos.
Quando é utilizado um delineamento experimental ou quasi-experimental os
elementos do grupo experimental e de controlo devem apresentar características
semelhantes, avaliadas antes da intervenção (e.g., famílias semelhantes, a
viver em contextos semelhantes, com problemas semelhantes), que são
distribuídos aleatoriamente por um grupo experimental ao qual o programa é
aplicado e por um grupo de controlo ao qual o programa não é aplicado (e.g.,
Garrido & Camilo, 2012; Trochim & Donnelly, 2006).
Procedimentos
Um dos aspetos referidos na literatura que mais se associa ao sucesso de um
programa de intervenção neste contexto é o estabelecimento de uma relação entre
o dinamizador do programa e a família. Esta relação permite ao dinamizador
conhecer melhor o quotidiano de cada um dos elementos da família e a relação
existente entre cada um deles, privilegiando a aliança de ajuda que é apontada
por DePanfilis (1999) como uma das condições mais importantes para a eficácia
dos programas de formação parental. Atendendo à importância da relação de
parceria entre os técnicos e cuidadores, as sessões poderão ser realizadas em
conjunto com agentes sociais que acompanhem as famílias e com quem mantêm uma
relação segura. Todavia, estes técnicos devem ser especializados e ter formação
específica no programa de formação parental aplicado (Gomby, 2007). Poderão
ainda ser contemplados mecanismos de supervisão aos quais os técnicos poderão
recorrer sempre que tal seja necessário.
O programa de formação parental poderá ser aplicado através de visitas
domiciliárias, realizadas semanalmente às famílias para trabalhar aspetos
específicos. No entanto, ao longo do programa de intervenção deverão existir
sessões de grupo, na qual são apresentados conteúdos mais gerais e partilhadas
entre as várias famílias as experiências, sucessos, dificuldades sentidas e
mudanças concretizadas ao longo do processo. Esta prática fundamenta-se na
literatura que indica que estas sessões promovem sentimentos de apoio e ativam
a rede de suporte social formal, na medida em que utilizam as estruturas da
comunidade, e redes de suporte informal que se podem desenvolver no âmbito da
interação com o grupo (Chaffin et al., 2001; MacLeod & Nelson, 2000; Sweet
& Appelbaum, 2004).
Cada sessão poderá iniciar-se com um momento de reflexão com a família sobre as
dificuldades inerentes à execução de uma "tarefa semanal", tentando
discutir a aplicação das aprendizagens da anterior sessão ao contexto diário. A
aprendizagem desenvolve-se pelo treino no quotidiano de cada família. Pretende-
se que as famílias, ao longo do programa, reflitam e analisem as suas práticas
menos positivas e, partindo do seu contexto diário, construam novos
conhecimentos e competências pessoais e familiares.
Na aplicação do programa deverá procurar envolver-se todos os elementos da
família (nomeadamente o pai; e.g., Duggan et al., 2004), privilegiando métodos
de resolução de tarefas conjuntas (pai e mãe ou em conjunto com os filhos)
através de exercícios com carácter reflexivo ou lúdico. Deverão ser atendidas a
as próprias dinâmicas familiares na medida em que, mesmo com conteúdos
estandardizados, o programa deverá adaptar-se o mais possível às necessidades e
características de cada família (Caldera et al., 2007; Duggan et al., 2004;
Gomby, 2007).
Outro aspeto particularmente importante que a literatura salienta é a
identificação de redes formais e informais de suporte social que deverão ser
ativadas, nomeadamente através do apoio no acesso aos serviços da comunidade,
cujas funções, condições de acesso e procedimentos deverão ser explicitados à
família, e ainda as vantagens da relações com família alargada, amigos e
vizinhança (Chaffin et al., 2001; MacLeod & Nelson, 2000; Sweet &
Appelbaum, 2004). Dizem Chaffin e colaboradores (2001) que a prevenção do mau
trato infantil e da negligência parental deverá iniciar-se nas comunidades, com
intervenções a vários níveis que permitam promover a utilização dos vários
serviços ao dispor das famílias na comunidade e as várias redes de suporte
social, formais e informais.
Avaliação
Desenho de avaliação.Na avaliação de programas de intervenção, e não obstante
as limitações que apresentam em contextos de intervenção social e comunitária
(ver Garrido & Camilo, 2012), os delineamentos experimentais podem
constituir uma estratégia adequada pois possibilitam estabelecer se determinado
programa é causa de determinado resultado (e.g., Trochim & Donnelly, 2006).
A utilização de um delineamento experimental exige que a constituição da
amostra cumpra determinados pré-requisitos (ver selecção e caraterização da
amostra) e exige a constituição de dois grupos, experimental e de controlo,
avaliados antes do programa e no final do mesmo.
A avaliação do programa deverá contemplar a avaliação do impacto, através de
uma análise comparativa dos dois grupos - experimental e de controlo
- no pré-teste, ou seja antes da aplicação do programa e após a sua
conclusão (i.e., no pós-teste). Embora, o melhor indicador da eficácia do
programa se basei na observação de diferenças no grupo experimental e
inexistência de alterações no grupo de controlo, o sucesso de um programa
poderá apresentar diferentes padrões de resultados (ver Garrido & Camilo,
2012, para alguns exemplos). Esta avaliação poderá recorrer a instrumentos,
mais ou menos estruturados, adaptados a população em questão e sobretudo,
ajustados ao tipo de conhecimentos e competências que o programa pretende
desenvolver (ver Camilo et al., no prelo, para alguns exemplos).
Para além da avaliação do impactodo programa, deve ser realizada uma avaliação
de processo(McCall, 2009), respondendo ao como, porquê, com queme em que
circunstânciaso programa tem resultados (Durlak, 2010). Esta avaliação inclui a
correspondência entre o programa desenhado e implementado (fidelidade/
integridade); dosagem; qualidade dos componentes do programa; adesão dos
participantes; adaptação/mudanças realizadas ao programa. Esta avaliação poderá
envolver técnicas como a entrevista ou grupos focais, que requerem a
transcrição dos testemunhos e sua sistematização através de um procedimento
bottom-upde análise de conteúdo, objetivado na criação de categorias e
subcategorias resultantes da leitura exploratória da informação recolhida
(e.g., Guerra, 2006). Os temas definidos para a construção dos guiões das
entrevistas ou grupos focais deverão avaliar a perceção das famílias e técnicos
sobre os objetivos, expectativas e aprendizagens realizadas durante as sessões
(e.g., "quanto às sessões sobre gestão doméstica, o que consideram
importante terem aprendido?"), exemplos de aplicação concreta, exercícios
de que gostaram mais ou menos, sugestões para melhorar o programa e ainda sobre
aspetos metodológicos da aplicação do programa (e.g., duração e periodicidade
das sessões). Os guiões para técnicos podem ser orientados em torno da
adequação do programa (e.g., adequação das temáticas às necessidades das
famílias participantes), recolhendo os seus comentários, sugestões e exemplos
concretos. A título de exemplo (ver Quadro_2), as categorias poderão ter em
conta, as aprendizagens, os conhecimentos adquiridos ou sentimentos
experienciados durante o programa, as metodologias de aplicação, a adequação da
duração do programa e dos objetivos às necessidades da família. O processo de
avaliação poderá ainda incluir, sempre que adequado, alguns indicadores
recolhidos junto de instituições que acompanham a família e a criança
nomeadamente a escola, centro de saúde, e em alguns casos junto das comissões
de protecção crianças e jovens. Os procedimentos de avaliação utilizados
poderão ser repetidos em períodos sucessivos após o término do programa de modo
a avaliar os seus efeitos a médio e longo prazo.
COMENTÁRIOS FINAIS
A intervenção com pais constitui-se como uma importante alternativa à retirada
dos menores de uma família de origem com práticas negligentes. Este tipo de
intervenção assenta na preservação familiar em famílias negligentes e na
promoção das potencialidades de cada família enquanto principal instituição com
competência educativa. Os programas de desenvolvimento de competências
parentais deverão permitir às famílias responder às necessidades básicas dos
seus filhos menores (muitas vezes em articulação com programas governamentais
de apoio económico/familiar) e desenvolver a sua competência educativa de forma
a serem capazes de, eficazmente, desempenhar as suas funções parentais,
alterando a sua condição de "fator de risco" para "fator
protetor".
Todavia, a análise de alguns programas disponíveis, revela, de uma maneira
geral, propostas de formação parental, teórica e empiricamente pouco
fundamentadas, nem sempre adequados às reais necessidades das famílias, com
objectivos e estratégias generalistas e sem procedimentos de avaliação
concretos. A implementação pontual destes programas perpetua o risco a que as
crianças estão expostas, a constante vitimização das famílias que continuam a
sentir-se pouco capazes, e o desperdício de recursos financeiros, humanos e/ou
materiais. A literatura indica ainda que a intervenção nestas famílias deve ser
sistemática e prolongada porque a mudança é difícil e apresenta
constrangimentos muito complexos.
De acordo com a revisão de literatura apresentada, as respostas de intervenção
com pais deverão ser teoricamente fundamentadas e baseadas na evidência
empírica ou seja, em programas devidamente testados e validados, no sentido da
disseminação e generalização de novas práticas de intervenção com famílias
negligentes que, de uma forma articulada, integrada e participada, possam
capacitar as famílias e reduzir ou extinguir práticas parentais negligentes.
Neste sentido são vários os desafios que se colocam à intervenção sobre a
negligência e sobre os quais é importante refletir de forma teoricamente
enquadrada e sobretudo apoiada na evidência empírica. Foi esta a reflexão que
nos propusemos fazer na expectativa de assim contribuir para uma mais eficaz
intervenção sobre a negligência.