Práticas atuais e ideais em intervenção precoce no Alentejo: Perceções dos
profissionais
Práticas atuais e ideais em intervenção precoce no Alentejo: Perceções dos
profissionais
Helena Augusto*; Cecília Aguiar**; Leonor Carvalho***
*Instituto Superior de Educação e Ciências;
**UIPCDE, ISPA - Instituto Universitário / ISCTE - Instituto
Universitário de Lisboa;
***Associação Nacional de Intervenção Precoce
Correspondência
ABSTRACT
In this study we aim to understand the perceptions that professionals of Local
Intervention Teams (LIT) of Alentejo have about their typical practices, as
well as their perceptions about the ideal practices. Participants were 167
professionals from 25 teams from Portalegre, Évora, Beja, and the region of the
Alentejo coast. Data were collected with the Questionnaire to ECI Professionals
and the Portuguese translation of the Families in Natural Environments Scale of
Service Evaluation(FINESSE; McWilliam, 2000/2008). According to the results, it
appears that (1) there are statistically significant differences between the
perceptions that practitioners of LIT of Alentejo have regarding typical and
ideal practices; (2) there are no statistically significant differences between
the perceptions that professionals of LIT of Alentejo have, in relation to
typical and ideal practices, when considering variables such as age, years of
experience in ECI, basic training, and further training; and (3) there are
statistically significant differences between the perceptions of professionals
of LIT of Alentejo regarding typical practices, as a function of professionals
perceptions regarding the functioning of their team, with professionals that
rate their team as transdisciplinary reporting typical practices closer to
recommended practices. The results raise the need to increase
transdisciplinarity in LIT as well as the quality of their practices.
Key-words:Alentejo, Early childhood intervention, Ideal practices, Perceptions,
Typical practices.
INTRODUÇÃO
Os programas de intervenção precoce na infância (IPI) têm sido, ao longo dos
tempos, alvo de avaliações no sentido de determinar a sua eficácia, a sua
qualidade e os seus resultados (Mendes, 2010). Warfield e Hauser-Cram (2005)
consideram que é muito importante avaliar as perceções dos profissionais
relativamente aos programas, para se perceber não só quais as práticas
utilizadas, mas simultaneamente para sensibilizar os profissionais para as
práticas ideais. Assim, os programas devem efetuar avaliações às suas próprias
práticas no sentido de promover a sua qualidade (Aytch, Castro, & Selz-
Campbell, 2004).
Smith et al. (2002) e Sandall, Hemmeter, Smith e McLean (2005) consideram que
uma intervenção de qualidade em IPI se pauta pela presença de práticas
centradas na família, por uma intervenção em contextos naturais, por uma
intervenção baseada nas rotinas e por um funcionamento em equipa
transdisciplinar. Passamos a descrever sucintamente cada um destes pontos.
O princípio-chave da perspetiva centrada na família consiste em encarar a
família como a unidade de intervenção. Cabe ao profissional/técnico capacitar e
corresponsabilizar a família, respondendo às suas necessidades e preocupações,
proporcionando-lhe a informação necessária, não esquecendo a sua cultura, os
seus valores e singularidades, reconhecendo os pontos fortes da criança e do
seu meio, e intervir de forma adaptada e individualizada em cada família
(Carpenter, 2007; Moore & Larkin, 2005; Pimentel, 2005; Woods &
Lindeman, 2008). No entanto, colocar em prática intervenções centradas na
família não é tarefa fácil (Bailey et al., 2006). Segundo Turnbull e
colaboradores (2007), as dificuldades de implementação advêm do facto de as
famílias direcionarem os serviços para as necessidades dos filhos, considerando
que a satisfação das suas necessidades não irá influenciar o desenvolvimento da
criança, nem o seu bem-estar.
Nos programas centrados na família, os profissionais constituem recursos para
ajudar a família a concretizar os seus próprios objetivos. A intervenção vai ao
encontro das necessidades da família e é esta que define quais os objetivos que
quer atingir, ficando estes escritos no plano individualizado de apoio à
família (PIAF)1, com o seu consentimento. O técnico tem como papel facilitar o
acesso aos serviços e aos recursos formais e informais de que a família
necessita, bem como fortalecer as suas capacidades e competências (Dunst,
Johanson, Trivette, & Hamby, 1991; McBride, Brotherson, Joanning, Whiddon,
& Demmit, 1993). O profissional deixa de ter uma intervenção direta com a
criança e começa a realizar uma intervenção indireta, tendo como parceiros a
família e os educadores, e adotando o papel de agente facilitador (Buysse &
Weasley, 2005).
Apesar de a investigação demonstrar que têm havido mudanças ao nível das
políticas e das práticas subjacentes à IPI, indo estas cada vez mais ao
encontro das práticas recomendadas, no que diz respeito ao documento que
operacionaliza o envolvimento da família, o PIAF, têm havido alterações pouco
significativas (McWilliam et al., 1998). A investigação levada a cabo por
Campelo e Nunes (2008), em 15 equipas de IPI de Coimbra revelou que os PIAF
apresentavam uma qualidade moderada, havendo algumas lacunas nos documentos,
tais como a ausência da confirmação, por parte da família, do conteúdo do PIAF
e a ausência do consentimento escrito por parte dos pais para a entrega de
cópias a outros serviços. Do que foi possível concluir com este estudo, os
profissionais necessitam de formação relacionada com os procedimentos de
elaboração do PIAF para que este possa constituir, efetivamente, um instrumento
de planificação de intervenções centradas na família.
Os estudos empíricos revelam que, apesar do modelo centrado na família ser
defendido pela maior parte dos profissionais, estes ainda não o conseguiram
integrar plenamente nas suas práticas (Almeida, 2009). Bailey (1994) refere que
(a) existe uma grande discrepância entre as práticas ideais relatadas por
profissionais de intervenção precoce e as suas práticas reais, (b) a
intervenção vai mais ao encontro das necessidades das crianças do que das
famílias e (c) o planeamento da intervenção e a tomada de decisões são
efetuadas pelos profissionais, embora a família faça algumas sugestões. Em
investigações mais recentes, McWilliam, Snyder, Harbin, Porter e Munn (2000)
concluíram que, enquanto os profissionais de IPI consideravam que as suas
práticas eram centradas na família, as famílias consideravam que as mesmas eram
centradas na criança. No mesmo estudo, os autores verificaram ainda que os
profissionais de IPI que estão há mais tempo nos serviços apresentam melhores
resultados no que diz respeito às práticas centradas na família. Do mesmo modo,
Pereira e Serrano (2009) apuraram que a variável tempo influencia as práticas,
com os profissionais com mais de 10 anos de experiência em intervenção precoce
a apresentar melhores resultados, em comparação com os profissionais que têm
menos anos de serviço.
A intervenção é mais eficaz quando é implementada nos contextos naturais da
criança (Moore & Larkin, 2005). A intervenção centrada nos contextos
naturais pode ser entendida como uma extensão das práticas centradas na família
(Hanft & Pilkington, 2000), constituindo a intervenção no ambiente natural
da criança um dos principais pilares da IPI. De acordo com Hanft e Pilkington,
o conceito de ambientes naturais diz respeito à localização, às atividades, aos
tipos de aprendizagem e ao tipo de envolvimento profissional. No que diz
respeito ao local onde a intervenção ocorre, normalmente considera-se um
contexto natural qualquer local onde as crianças sem incapacidades participem
(Bricker, 2001). Este, na maioria das vezes, inclui a casa e a creche, ou
jardim de infância, e também inclui locais da comunidade, como o parque
infantil, os restaurantes e os locais de comércio (Hanft & Pilkington,
2000; McWilliam, Rasmussen, & Snyder, 2007; Woods & Kashinath, 2007).
McWilliam (2010b) desenvolveu um modelo de intervenção em contextos naturais
baseado em cinco componentes: (1) compreensão da ecologia da família, (2)
avaliação funcional das necessidades, (3) serviços transdisciplinares, (4)
visitas domiciliárias baseadas em apoio centrado na família e (5) colaboração/
consultoria com a creche/jardim-de-infância. Este modelo faz a ligação entre a
teoria existente e as práticas e constitui um sistema abrangente e coordenado
de prestação de serviços, baseados na teoria e na investigação.
As práticas de intervenção baseadas nas rotinas são fulcrais para o modelo
centrado na família e para as práticas nos contextos naturais de vida, uma vez
que têm por base as atividades diárias da família e da criança, que ocorrem nos
seus espaços naturais (Dunst, 2006; Dunst, Hamby, Trivette, Raab, & Bruder,
2002). As rotinas são definidas como acontecimentos funcionais, que ocorrem no
dia a dia e que têm um carácter regular e previsível, que podem proporcionar às
crianças situações de aprendizagem (Woods & Lindeman, 2008).
Relativamente ao quarto e último ponto, a Division for Early Childhood do
Council for Exceptional Children (Sandall et al., 2005) recomenda o modelo
transdisciplinar, enumerando algumas das suas vantagens: (a) a inclusão das
famílias como membros ativos da equipa; (b) a partilha e transferência de
saberes entre os profissionais, existindo por parte destes uma
"libertação de papéis"; (c) a intervenção focada na funcionalidade;
e (d) a premissa de que é com os cuidadores primários e nas rotinas regulares,
que são proporcionadas oportunidades de aprendizagem, potenciadoras do
desenvolvimento da criança.
A investigação nacional e internacional sugere que, atualmente, a IPI se
encontra ainda longe das práticas baseadas em evidências (e.g., Dunst,
Trivette, Raab, & Masiello, 2008; Pimentel, 2005). Por isso, é fundamental
analisar as práticas à luz dos métodos de investigação atuais, para compreender
quais as que devem continuar, ser interrompidas ou alteradas, com o objetivo de
se tornarem mais consistentes com as práticas recomendadas (Dunst et al.,
2008). Ou seja, é fulcral compreender as práticas que estão a ser usadas e como
os próprios profissionais avaliam o distanciamento entre aquilo que realizam
diariamente e aquilo que consideram ser as práticas ideais em IPI.
Em Portugal, nas últimas décadas houve uma grande expansão dos programas de
IPI. Em 1999, foi publicado o primeiro diploma legal, Despacho Conjunto n.º
891/99, de 19 de outubro, que enquadrava os princípios orientadores para se
organizar os serviços de IPI (Mendes, 2010). Este foi, simultaneamente,
impulsionado por projetos pioneiros já existentes desde o final dos anos 80 do
século XX, como o Projeto Integrado de Intervenção Precoce (PIIP) do distrito
de Coimbra, e impulsionador de projetos análogos, a nível nacional e, em
particular, na região Centro e no Alentejo (Almeida, 2009; Franco &
Apolónio, 2008). Serrano e Boavida (2011) destacam a forma como o PIIP de
Coimbra conseguiu responder aos desafios emergentes, na época, no campo
científico da IPI, estando as suas práticas de 10 anos de trabalho no terreno,
na base do que posteriormente constituiu o primeiro diploma legal nacional
sobre a IPI. Porém, a criação de projetos de IPI semelhantes não se verificou
de igual modo em todo o território nacional, em algumas regiões devido à falta
de envolvimento das autoridades regionais (Boavida, Carvalho, & Espe-
Sherwindt, 2009), tendo-se constatado muitas assimetrias de região para região
(Mendes, 2010). Decorrente destas assimetrias, surgiu a necessidade de uma
política comum em Portugal, que culminou na criação de um Sistema Nacional de
Intervenção Precoce na Infância (SNIPI), legislado pelo Decreto-Lei n.º 281/
2009, de 6 de outubro, que veio revogar o Despacho Conjunto n.º 891/99, de 19
de outubro. Este sistema pretende promover a universalidade do acesso aos
serviços de IPI, cujas práticas deverão ser alicerçadas num denominador comum.
Com a criação do SNIPI, a estrutura da IPI sofreu algumas alterações, e foram
criadas subcomissões regionais e as Equipas Locais de Intervenção (ELI),
responsáveis pela intervenção direta ao nível concelhio, e compostas por
profissionais de vários domínios de intervenção, podendo estas ser constituídas
por psicólogos, educadores de infância, terapeutas, técnicos de serviço social
e enfermeiros (Subcomissão Regional do Alentejo, 2010).
Devido à expansão dos programas de IPI, em Portugal, vários investigadores
nacionais têm realçado a pertinência de avaliar as práticas, considerando que a
investigação não se deve limitar a identificar as perceções de pais e
profissionais, devendo avaliar possíveis discrepâncias entre os objetivos
delineados e o modo como estão a ser desenvolvidos na prática (Dunst &
Bruder, 2002). Segundo Bairrão e Almeida (2003), em Portugal, são raros os
programas de IPI que têm efetuado uma avaliação sistemática das suas práticas
sendo, por isso, fundamental recorrer a instrumentos de avaliação adequados à
nossa realidade e que ilustrem as práticas realizadas.
No âmbito dos estudos realizados em Portugal, a avaliação dos serviços de IPI e
do grau de implementação das práticas centradas na família tem ganho relevo.
Pimentel (2005) investigou as perceções de pais e profissionais que intervêm
com crianças com incapacidades no distrito de Lisboa, demonstrando que, na
opinião dos pais e dos técnicos, o serviço que é prestado à criança não é
centrado na família, e que ambos valorizavam mais os serviços focados na
criança. Este estudo também demonstrou que os serviços não utilizavam as
práticas recomendadas, ou seja, os procedimentos da avaliação eram centrados na
criança, verificando-se uma quase inexistente prática transdisciplinar, e que o
responsável de caso não conseguia estabelecer uma relação eficaz entre a
família e a equipa.
O estudo efetuado por Almeida (2009) revelou que as práticas recomendadas
internacional mente são identificadas pelos profissionais das equipas,
existindo, contudo, dificuldade em implementá-las, particularmente no que diz
respeito à componente de participação da família. Por sua vez, Pereira e
Serrano (2009) apuraram diferenças entre regiões, sendo a Madeira e os
distritos de Viana do Castelo, Coimbra, Portalegre e Beja que utilizam mais
práticas centradas na família. Pereira e Serrano verificaram, ainda, que a
utilização das práticas centradas na família depende da formação de base do
profissional de IPI, existindo diferenças entre as práticas dos educadores (que
obtiveram melhores resultados na frequência das práticas centradas na família)
e as práticas de outros grupos de profissionais (e.g., psicólogos, assistentes
sociais e técnicos de saúde).
Mendes (2010) realizou um estudo com o objetivo de caracterizar a realidade das
práticas implementadas nas equipas do distrito de Portalegre e de Lisboa. Os
resultados indicam que são cumpridas as práticas recomendadas relativamente à
comunidade, à criança e, parcialmente, ao serviço. No entanto, no que diz
respeito à família e ao programa existem ainda lacunas. Segundo Mendes, as
práticas dos profissionais parecem ser mais influenciadas pela formação de base
do que pelo conhecimento derivado das práticas baseadas em evidências.
Gronita, Matos, Pimentel, Bernardo e Marques (2011) relataram uma correlação
significativa entre o tempo de serviço e o uso das práticas ideais, com os
profissionais que desempenham funções há menos de seis anos a avaliarem as suas
práticas como estando mais próximas das práticas ideais. Mendes (2010), perante
resultados semelhantes aos obtidos por Gronita et al., refere que estes
resultados podem advir da formação de base dos profissionais mais jovens, que
frequentaram cursos mais recentes, no qual poderão ter sido abordados os
modelos teóricos que estão subjacentes às práticas recomendadas. No estudo de
Mendes, Pinto e Pimentel (2010), concluiu-se que um dos padrões de qualidade
dos serviços de IPI é a formação dos profissionais, tanto ao nível da formação
de base, como da formação especializada. As autoras consideram essencial a
existência de supervisão, para que o enfoque da intervenção não se afaste das
práticas baseadas na evidência, promovendo uma atualização e reflexão
constantes. Corroborando a mesma ideia, Figueiredo (2008) e Cara-Linda (2007)
salientam a importância do investimento na formação dos profissionais de IPI.
Segundo Boavida et al. (2009), Portugal tem como prioridades criar formas para
que haja um melhor envolvimento das famílias, promover formação dos
profissionais que vá ao encontro dos resultados desejados e garantir serviços
de qualidade. Neste sentido, a investigação deve incidir na avaliação da
qualidade dos serviços (Hebbeler et al., 2007) e nas práticas ideais de IPI,
com o objetivo de consolidar as boas práticas, para que a avaliação a nível
nacional revele cada vez mais práticas baseadas na evidência (Pinto et al.,
2009).
Num estudo destinado a avaliar o impacto da IPI no Alentejo, ao nível das
crianças e famílias apoiadas, bem como o funcionamento dos serviços de saúde e
de educação, Franco e Apolónio (2008) concluíram que a rede de IPI nesta região
tem tido um grande impacto na criança, na família e na comunidade. De acordo
com os resultados obtidos num questionário, 80% das famílias abrangidas no
estudo avaliaram o apoio prestado pela IPI como tendo ajudado muito ou
muitíssimo com as dificuldades de desenvolvimento da criança ou da própria
família. No entanto, existem alguns aspetos em que é necessário melhorar para
se conseguirem melhores resultados. Por exemplo, a inclusão na comunidade
apresenta-se como a dimensão em que a IPI menos apoio tem fornecido às
famílias, embora sejam destacadas práticas que vão no sentido de uma
intervenção contextualizada na comunidade. Ao nível da comunidade, os dados
obtidos apontam para um forte impacto da rede de IPI na atividade dos sistemas,
serviços e profissionais, tendo-se verificado mudanças nas práticas que vão ao
encontro do modelo concetual subjacente à IPI (e.g., maior ênfase na família
como alvo de intervenção). Neste nível, os autores salientam apenas a
necessidade de melhorar, nos serviços e nos profissionais, as práticas
relacionadas com a elegibilidade, a identificação das problemáticas e a
natureza das intervenções, dimensões cuja resolução permitirá melhorar os
efeitos do funcionamento da rede.
A presente investigação tem como objetivo geral compreender as perceções que os
profissionais das ELI do Alentejo têm em relação à sua prática. Especificamente
pretende-se: (1) identificar as perceções dos profissionais em relação às suas
práticas típicas e às práticas ideais em IPI; (2) verificar se existem
diferenças entre práticas típicas e as consideradas ideais e (3) identificar
variáveis sociodemográficas que podem estar associadas às perceções acerca das
práticas típicas e das práticas ideais.
De acordo com os objetivos anteriormente apresentados e considerando a
informação coligida na literatura, formularam-se três hipóteses de
investigação. No que diz respeito à primeira hipótese, esperavam-se diferenças
entre as perceções que os profissionais de IPI têm em relação às práticas
típicas nas ELI do Alentejo e às práticas consideradas ideais, com pontuações
mais elevadas a serem atribuídas aos itens relativos às práticas ideais. De
acordo com a segunda hipótese, esperavam-se diferenças entre as perceções dos
profissionais das ELI do Alentejo em relação às práticas típicas e às práticas
consideradas ideais, quando consideradas as variáveis idade, tempo de
experiência profissional em IPI, formação de base e formação complementar.
Finalmente, de acordo com a terceira hipótese, esperavam-se diferenças entre as
perceções dos profissionais das ELI do Alentejo em relação às práticas típicas
e às práticas consideradas ideais, quando considerado o tipo de funcionamento
de equipa. Especificamente, esperava-se que os profissionais que percecionavam
o modo de funcionamento da sua equipa como mais próximo do modelo
transdisciplinar apresentassem pontuações mais elevadas tanto nas práticas
típicas, como nas práticas ideais.
MÉTODO
Participantes
Os participantes deste estudo foram os profissionais das ELI do Alentejo, sendo
a amostra constituída por 167 profissionais de 25 equipas dos distritos de
Portalegre (n=3), Évora (n=13) e Beja (n=5) e da região do Alentejo Litoral
(n=4). Inicialmente, pretendia-se recrutar a totalidade dos técnicos de todas
as ELI do Alentejo, num total de 256 profissionais de 31 ELI, sendo que todas
as equipas e profissionais foram convidados a participar. A taxa de
participação foi assim de 65.23% para os profissionais e de 80.65% para as ELI.
As idades dos profissionais variaram entre os 23 e os 56 anos (M=35.70,
DP=7.73), com apenas 6 profissionais do sexo masculino. No que diz respeito à
profissão, agruparam-se em seis categorias profissionais: técnicos de ação
social (13.5%), terapeutas (31.3%), psicólogos (14.1%), educadores de infância
(27.6%), professores (11%) e enfermeiros (1.8%). Os anos de escolaridade
variaram entre os 15 e os 23 anos (M=17.23, DP=1.33). Existiam 77 profissionais
com especializações (47.2%), num total de 41 especializações diferentes, das
quais a pós-graduação em "Educação Especial: domínio cognitivo e
motor" era a mais frequente (16%), sendo que apenas 5 (3%) profissionais
tinham especialização em "Intervenção precoce". No que diz respeito
aos profissionais sem especialização, existiam 85 (52,1%). Os anos de
experiência em IPI variavam entre 0.17 e os 26 anos (M=5.21, DP=4.07).
Foi efetuado, também, o levantamento de alguns dados de caracterização das
equipas, verificando-se que o tempo médio de existência era de 9.70 anos
(DP=3.82). As equipas eram compostas, em média, por 8.22 profissionais
(DP=1.53) e atendiam, em média, 53.26 crianças (DP=18.02). Em média, 1.91
profissionais trabalhavam com cada família (DP=0.53). No que diz respeito ao
perfil das crianças apoiadas, existiam, em média, 35 crianças por equipa com
alterações nas funções e estruturas do corpo (DP=18.08) e, em média, 16.50
crianças com risco grave de atraso de desenvolvimento (DP=9.49). Cerca de 56.5%
das ELI tinham equipa de primeiro contacto e 78.3% realizavam reuniões
semanais, 17.4% realizavam reuniões quinzenais e 4.3% reuniam mensalmente.
Instrumentos
Questionário aos Profissionais de IPI.Este questionário era composto por 19
questões de resposta fechada e tinha como objetivo recolher informação
sociodemográfica que permitisse caracterizar cada profissional quanto ao seu
género, idade, formação de base, habilitações académicas, especializações, anos
de experiência em IPI, número de horas de trabalho semanal em IPI, número total
de casos, número de crianças em que era responsável de caso e acumulação de
funções de coordenação. O questionário incluía, ainda, uma questão referente ao
tipo de funcionamento da equipa, recorrendo a uma escala composta por 7 itens
com 4 descritores (nos itens ímpares), que se referiam, respetivamente, ao modo
de funcionamento monodisciplinar (1), multidisciplinar (3), interdisciplinar
(5) e transdisciplinar (7). Incluía, ainda, questões de caracterização da
equipa, as quais só eram preenchidas pelo coordenador da mesma2 (i.e., zona
geográfica da equipa, categoria de casos acompanhados pela equipa, número de
técnicos que intervinham com cada família, periodicidade de reuniões de equipa,
periodicidade das intervenções e local das intervenções).
Escala de Avaliação de Serviços: Famílias em Contextos Naturais.Esta escala
corresponde à tradução portuguesa da Families in Natural Environments Scale of
Service Evaluation(FINESSE; McWilliam, 2000/2008) e tem como objetivo avaliar
as perceções dos profissionais acerca das suas práticas de intervenção, mais
especificamente as suas práticas típicas e as práticas que consideram ideais. A
FINESSE foi desenvolvida com o objetivo de criar uma ferramenta que avaliasse
todas as dimensões referidas no modelo dos cinco componentes. Trata-se de uma
escala de autoavaliação e apresenta quatro componentes de avaliação: primeiro
contacto, planeamento da intervenção, funcionalidade e prestação de serviços
(McWilliam et al., 2007).
A FINESSE é composta por 17 itens, avaliados numa escala de 1 a 7, com
descritores nos números ímpares. Os itens que compõem a escala referem-se a
aspetos como a (1) apresentação escrita do programa, (2) contatos iniciais de
referenciação, (3) primeiros contatos, (4) avaliação para o planea mento da
intervenção, (5) identificação das necessidades da família, (6) reuniões de
planeamento da intervenção, (7) seleção dos resultados/objetivos, (8) objetivos
da família, (9) finalidade do objetivo, (10) enquadramento da intervenção, (11)
equipamento, (12) necessidade do comportamento alvo, (13) filosofia da
intervenção, (14) foco de intervenção, (15) consultoria em contextos formais,
(16) modelo de prestação de serviços de visitas domiciliárias e (17) papel do
responsável de caso.
É solicitado ao profissional que, para todos os itens, assinale qual a prática
que se aproxima mais da que utiliza diariamente (típica) e qual a que se
aproxima da que considera ideal. A descrição associada à pontuação 7
corresponde à prática recomendada, sendo que quanto mais se aproxima do 1, mais
se afasta do recomendado. Por exemplo, no item 9 são apresentadas quatro
práticas distintas, (1) a finalidade de cada objetivo não é clara, (3) a
finalidade de cada objetivo é simplesmente a promoção geral do desenvolvimento
global ou de uma área de competência da criança (e.g., fala), (5) a finalidade
de cada objetivo é implicitamente indicada (podemos supor porque é que o
estamos a trabalhar) e (7) a finalidade de cada objetivo é apresentada
explicitamente (sabemos exatamente porque é que estamos a trabalhar).
A escala inclui, ainda, uma pergunta aberta sobre os fatores que contribuíram
para as discrepâncias entre as práticas típicas e as práticas consideradas
ideais. No presente estudo, não foram efetuadas análises recorrendo aos quatro
componentes referidos por McWilliam et al. (2007). Do mesmo modo, as respostas
dos participantes à pergunta aberta não foram consideradas.
A revisão da literatura permitiu identificar três investigações empíricas em
que a FINESSE foi utilizada (Dionísio, 2009; McWilliam et al., 2007; Rantala,
Uotinem, & McWilliam, 2009). No que diz respeito às propriedades
psicométricas dos dados obtidos com base na FINESSE, no estudo realizado por
McWilliam et al. (2007) foi relatado um coeficiente alfa de Cronbach de .87
para o resultado total da escala. Os outros estudos não relataram os valores da
consistência interna.
No presente estudo, foram criadas duas subescalas distintas: uma subescala
correspondente à média dos 17 itens relativos às práticas típicas e uma
subescala correspondente à média das pontuações obtidas nos 17 itens
relativamente às práticas típicas e uma subescala correspondente à média das
pontuações obtidas nos 17 itens relativamente às práticas ideais. Os valores
relativos à consistência interna de cada uma destas subescalas foram calculados
com base no coeficiente alfa de Cronbach (α=.84 e α=.85, respectivamente).
Procedimento
Para a realização da presente investigação, foram submetidos pedidos de
autorização junto da Comissão de Coordenação Nacional do SNIPI e da Subcomissão
Regional do Alentejo, que aprovaram a realização do estudo. O contacto com a
segunda entidade serviu ainda para determinar o número efetivo de profissionais
e de equipas existentes nos distritos de Beja, Évora e Portalegre, bem como na
região do Alentejo Litoral.
O procedimento de recolha de dados decorreu entre outubro de 2011 e janeiro de
2012 e foi efetuado em três etapas. Em primeiro lugar, foi estabelecido
contacto telefónico com os coordenadores de cada ELI, para explicar os
objetivos da investigação e o procedimento a utilizar. Alguns destes infor
maram que seria necessário efetuar um pedido por escrito à Direção da Entidade
Promotora da ELI, o que foi realizado pela investigadora responsável. Em
segundo lugar, foram remetidos, via correio regular, ao cuidado do coordenador
de cada ELI, os instrumentos da presente investigação (incluindo um exemplar
para cada profissional que exerce funções na ELI, assim como uma carta a
informar sobre a natureza, objectivos e procedimento do estudo e ainda um
envelope selado somente com a morada da investigadora, não permitindo a
identificação das equipas). Em terceiro lugar, os coordenadores de cada ELI
devolveram à investigadora responsável os questionários dos profissionais da
sua ELI que decidiram participar. Foi pedido a cada coordenador, tanto
telefonicamente, como por carta, que os instrumentos fossem preenchidos
individualmente por cada profissional, no decurso de uma reunião de equipa,
devendo o coordenador entregar os questionários ao mesmo tempo a todos os
elementos.
Análise de dados
Para testar as hipóteses de investigação realizaram-se vários procedimentos de
análise de dados. Para confirmar a Hipótese 1, começamos por analisar as
características psicométricas dos dados, incluindo a consistência interna e a
normalidade das distribuições. Em seguida, procedeu-se à análise descritiva dos
itens da FINESSE e à comparação das médias das subescalas de práticas típicas e
de práticas ideais, recorrendo-se ao teste não paramétrico de Wilcoxon,devido à
violação de pressuposto de normalidade das distribuições dos dados obtidos nas
duas subescalas.
Para testar a Hipótese 2, foram utilizados testes não paramétricos, uma vez que
nenhuma das variáveis tinha distribuição normal. Para averiguar se as perceções
relativamente às práticas típicas e às práticas ideais variavam em função da
idade, anos de experiência em IPI e formação complementar (especialização), foi
utilizado o teste de Mann-Whitney. Para verificar se as perceções acerca das
práticas típicas e as práticas ideais variavam em função da categoria
profissional, aplicou-se o teste de Kruskal Wallis.
Para testar a Hipótese 3, e uma vez que as variáveis em estudo não apresentavam
distribuição normal, utilizou-se o teste não paramétrico de Mann-Whitneypara
verificar se as perceções acerca das práticas típicas e das práticas ideais
variavam em função das perceções dos profissionais em relação ao tipo de
funcionamento da equipa. Com base nesta variável, foram criados dois grupos,
sendo que um incluía apenas os profissionais que assinalaram o ponto 7,
correspondente ao funcionamento transdisciplinar, e o outro incluía todos os
outros profissionais, que assinalaram valores entre 1 e 6. Esta análise foi
complementada com o cálculo do coeficiente de correlação de Spearman (devido à
violação do pressuposto de normalidade), no sentido de analisar as associações
entre as perceções dos profissionais acerca das práticas típicas e práticas
ideais e as suas perceções acerca do modo de funcionamento das equipas.
RESULTADOS
Perceções dos profissionais em relação às práticas típicas e às práticas ideais
O Quadro_1 expõe os dados descritivos obtidos para os itens e subescalas da
FINESSE, permitindo identificar os itens com resultados médios superiores e
inferiores e com maiores e menores discrepâncias entre as práticas típicas e as
práticas ideais. O item Finalidade do objetivo é o que revela resultados médios
superiores, nas práticas típicas e nas práticas ideais. Em contraste, o item
Consultoria em contextos formais é o que apresenta resultados médios inferiores
nas práticas típicas e nas práticas ideais.
Uma vez que os valores médios da discrepância entre as práticas típicas e as
práticas ideais foram calculados com base na subtração dos valores das práticas
típicas aos valores registados nas práticas ideais, valores mais próximos de
zero indicam que as práticas típicas estão mais próximas das práticas ideais e,
paralelamente, valores médios de discrepância mais distanciados de zero indicam
que as práticas típicas estão mais afastadas das práticas ideais. As maiores
discrepâncias entre as práticas típicas e as ideais foram encontradas nos itens
Apresentação escrita do programa (brochuras, panfletos, etc.), Reuniões de
planeamento de intervenção, Seleção dos resultados/ /objetivos e Consultoria em
contextos formais (apoio em creche/jardim de infância). As práticas típicas e
ideais com menor discrepância são Primeiros contatos - admissão,
Equipamento, Filosofia da intervenção e Papel do responsável de caso.
Os resultados do teste de Wilcoxonrelativos à comparação dos valores médios
obtidos na subescala de práticas típicas e na subescala de práticas ideais
indicam que as diferenças são estatisticamente significativas e de elevada
magnitude (Z=-10.56, p<.001, d=1.35).
Comparação das médias obtidas nas subescalas de práticas típicas e de práticas
ideais em função de variáveis sociodemográficas
No Quadro_2 observam-se as médias obtidas na subescala de práticas típicas em
função da idade, do tempo de experiência em IPI e da formação complementar
(especialização). Os resul tados do teste de Mann-Whitneyindicaram que não
existem diferenças estatisticamente significa tivas entre as médias obtidas
para as práticas típicas em função da idade (p=.575), do tempo de experiência
em IPI (p=.072) e da formação complementar (especialização) (p=.794).
O Quadro_3 apresenta as médias obtidas nas práticas ideais em função da idade,
do tempo de experiência em IPI e da formação complementar (especialização).
Utilizando o teste de Mann-Whitney,verificou-se que não existem diferenças
estatisticamente significativas entre as médias obtidas para as práticas ideais
em função da idade (p=.996), do tempo de experiência em IPI (p=.420) e da
formação complementar (especialização) (p=.441).
Os resultados do teste de Kruskal Wallisindicaram que não existe uma diferença
estatistica mente significativa entre as práticas típicas e as práticas ideais
em função da categoria profissional dos profissionais, χ2(4, n=157)=1.02,
p=.906 e χ2(4, n=155)=2.85, p=.584, respetivamente.
Comparação das médias obtidas nas subescalas de práticas típicas e de práticas
ideais em função do modelo de funcionamento da equipa
No Quadro_4 estão descritos os resultados médios das subescalas relativas às
práticas típicas e às práticas ideais em função do modelo de funcionamento da
equipa. Utilizando o teste de Mann-Whitney,verificou-se que os profissionais
que consideram fazer parte de uma equipa transdisci plinar obtêm médias mais
elevadas na subescala de práticas típicas do que os profissionais que relatam
outro tipo de funcionamento da sua equipa. Não se verificaram diferenças
estatisticamente significativas nas práticas ideais em função do tipo de
funcionamento da equipa (p=.433).
Associações entre as perceções relativas às práticas típicas e às práticas
ideais e as perceções acerca do tipo de funcionamento da equipa
No sentido de verificar a existência de associações entre as perceções
relativas às práticas típicas e às práticas ideais e as perceções acerca do
modo de funcionamento da equipa, foi calculado o coeficiente de correlação de
Spearman.As análises efetuadas permitiram verificar a existência de uma
correlação positiva moderada entre as perceções relativas às práticas típicas e
as perceções acerca do tipo de funcionamento da equipa (rs=.44, n=159, p<.001).
Não se verificou uma associação entre as perceções acerca das práticas ideais e
as perceções acerca do tipo de funcionamento da equipa (rs=.09, n=157, p=.121).
DISCUSSÃO
Este estudo pretendia caracterizar as perceções dos profissionais das ELI do
Alentejo em relação às suas práticas típicas e às práticas ideais em IPI,
identificando variáveis sociodemográficas que estão associadas a estas
perceções. Os resultados descritivos obtidos permitem identificar os itens com
resultados médios superiores e inferiores e com maiores e menores discrepâncias
entre as práticas típicas e as práticas ideais. Especificamente, verificou-se
que o item Finalidade do objetivo é o que revela resultados médios
superiores,nas práticas típicas e nas práticas ideais, indicando que a
finalidade de cada objetivo de intervenção é explícita, sabendo o profissional
com exatidão por exemplo, porque é que cada competência que a criança deve
aprender é necessária. Este resultado vai ao encontro dos resultados relatados
por Dionísio (2009). Este é o item em que os profissionais de IPI se manifestam
mais em concordância com as práticas recomendadas, relacionadas com a
formulação de objetivos funcionais e significativos, necessários para o
funcionamento das crianças nas rotinas diárias, em contextos naturais (Bruder,
2000). Note-se, contudo, que estudos que analisaram diretamente a qualidade dos
objetivos, incluídos em PIAF ou PEI de crianças Portuguesas, encontraram
objetivos de qualidade moderada (Campelo & Nunes, 2008) ou pobre (Boavida,
Aguiar, McWilliam, & Pimentel, 2010). Noutra investigação, efetuada por
Salisbury, Woods e Copeland (2010), foi demonstrado que a maior parte dos
objetivos definidos no PIAF tinham características que não iriam aumentar a
interação das crianças com os adultos ou com os objetos.
Em contraste, o item Consultoria em contextos formais, que se refere ao apoio
dado pelos profissionais em contexto de creche/jardim de infância, é o que
apresenta resultados médios inferiores tanto nas práticas típicas, como nas
práticas ideais. No que diz respeito às práticas típicas, os profissionais
consideram que a intervenção é efetuada, primordialmente, na sala de creche e/
ou jardim de infância, recorrendo a atividades de grupo. No que diz respeito às
práticas ideais, os profissionais consideram que se deveria recorrer a
atividades individualizadas, dentro das rotinas.
Este resultado parece indicar que os profissionais estão a implementar
intervenções que não vão totalmente ao encontro das práticas recomendadas,
segundo as quais a intervenção direta deve ser efetuada pelo educador da sala,
sem que os profissionais retirem a criança da sala para prestar apoio
individualizado ou em pequenos grupos (McWilliam, 2010a). Contudo, apesar do
item Consultoria revelar os resultados médios mais baixos de toda a escala, nas
práticas típicas e nas práticas ideais, os resultados médios destas últimas
apresentam-se próximos do valor máximo da escala, o que revela que os
profissionais reconhecem as práticas recomendadas. É de realçar que o item
Consultoria em contextos formais é o que apresenta uma menor discrepância entre
as práticas típicas e ideais no estudo de Dionísio (2009); contudo, no presente
estudo, é o que apresenta uma maior discrepância. Pode-se supor que esta
diferença, entre o presente estudo e o estudo de Dionísio, pode ser explicada
pelo facto de as equipas que participaram no estudo de Dionísio pertencerem ao
Distrito de Coimbra, no qual a IPI existe desde 1989, e de os nossos
participantes trabalharem numa região que só ficou totalmente abrangida pelos
serviços de IPI no final de 2008 (Franco & Apolónio, 2008). Integrados em
equipas recentes, é possível que os profissionais desta região possam estar a
recorrer, ainda, a modelos de intervenção provenientes da educação especial,
cujas práticas são centradas na criança. O resultado também pode ser explicado
pelo facto da IPI em Coimbra, na altura da realização do estudo de Dionísio,
abranger apenas a população dos 0 aos 3 anos, parcialmente integrada em creche
e não integrada em jardim de infância.
As maiores discrepâncias entre as práticas típicas e as práticas ideais foram
encontradas no item anteriormente referido e também nos itens Apresentação
escrita do programa, Reuniões de planeamento de intervenção e Seleção dos
resultados/objetivos. Estes resultados são corroborados pelo estudo de Dionísio
(2009), nomeadamente no que diz respeito aos itens Apresentação escrita do
programa e Seleção dos resultados/objetivos. Paralelamente, as práticas típicas
e ideais com menor discrepância no nosso estudo são Primeiros contatos -
admissão, Equipamento, Filosofia da intervenção e Papel do responsável de caso.
No estudo de Dionísio, verifica-se uma tendência de menor discrepância entre as
práticas típicas e ideais nos itens Consultoria em contextos formais, Filosofia
de intervenção, Finalidade do objetivo e Identificação das necessidades da
família.
Estes resultados permitem traçar um perfil das práticas adotadas, assim como
daquelas que os profissionais gostariam de utilizar, recorrendo aos descritores
mais próximos dos valores médios obtidos em cada item da FINESSE, nas práticas
típicas e nas práticas ideais. Os valores médios obtidos, nas práticas típicas,
indicam que as práticas se aproximam, em todos os itens, do descritor 5, exceto
no item 9, Finalidade do objetivo, que apresenta um valor médio mais próximo do
descritor 7. Os valores médios obtidos, nas práticas ideais, indicam que as
práticas se aproximam em todos os itens do descritor 7. O Quadro_5 sistematiza
esta informação de forma descritiva.
Também no estudo de McWilliam et al. (2007), sobre a avaliação dos serviços
prestados pela IPI às famílias, em ambientes naturais, os resultados revelam
que existe uma discrepância entre as práticas típicas dos profissionais e as
consideradas ideais. Um outro estudo, realizado na Finlândia, em 2009, revela
que existem grandes diferenças entre as práticas típicas e as práticas ideais
(Rantala et al., 2009). Este estudo tinha como objetivo avaliar o estado das
práticas em intervenção precoce na Finlândia e comparar os resultados com os
dados americanos. Os resultados americanos revelam uma pontuação mais elevada
nas práticas típicas relativamente às apresentações escritas do programa, ao
enquadramento da intervenção e ao equipamento, comparativamente à Finlândia. No
entanto, algumas práticas ideais obtiveram uma pontuação superior na Finlândia,
nomeadamente no que diz respeito ao foco da intervenção, ao modelo de prestação
de serviços de visita domiciliária e ao papel do responsável de caso. Os
resultados obtidos no nosso trabalho não vão ao encontro dos resultados
encontrados nestes dois estudos, sugerindo que a realidade da IPI nos EUA e na
Finlândia é diferente da realidade da IPI em Portugal.
A primeira hipótese formulada neste estudo referia-se à existência de
diferenças entre as perceções que os profissionais de IPI têm em relação às
práticas típicas nas ELI do Alentejo e às práticas consideradas ideais, sendo
que os resultados mostraram que as práticas ideais têm médias superiores às
práticas típicas, tal como era esperado. Os estudos realizados por Bailey
(1994), Dionísio (2009), McWilliam et al. (2007) e Rantala et al. (2009)
corroboram a existência de discrepâncias entre as práticas típicas e as
práticas ideais, aparecendo estas últimas com cotações mais elevadas do que as
primeiras. Este resultado vai ao encontro de muitos estudos que indicam que as
práticas recomendadas (baseadas em evidências empíricas) não são ainda
plenamente utilizadas pelos profissionais (Dunst et al., 2008).
As investigações revelam que um fator que pode explicar alguns padrões de
respostas dos profissionais prende-se com a questão da desejabilidade social,
isto é, os profissionais sabem de antemão que, nos instrumentos de avaliação
com formatos idênticos ao da FINESSE, os itens com cotações mais elevadas
correspondem às práticas recomendadas, podendo tal formato conduzir a um fácil
reconhecimento da prática ideal e, consequentemente, a discrepâncias entre as
práticas típicas e as práticas ideais (McWilliam et al., 2007; Rantala et al.,
2009). Salienta-se, contudo, que a discrepância entre as práticas típicas e as
práticas ideais poderá remeter para o facto de os profissionais não estarem a
colocar em prática o que reconhecem ser o mais adequado. Assim, parece fulcral
tentar perceber o porquê das dificuldades dos profissionais em implementarem as
práticas recomendadas.
No que diz respeito à segunda hipótese da investigação, eram esperadas
diferenças entre as perceções que os profissionais das ELI do Alentejo têm em
relação às suas práticas típicas e às práticas consideradas ideais, quando
consideradas as variáveis idade, tempo de experiência profissional em IPI,
formação de base e formação complementar. Estas diferenças não foram
confirmadas pelos resultados obtidos. Estes resultados não estão em
concordância com os resultados relatados por Gronita et al. (2011), segundo os
quais menos tempo de experiência em IPI está associado à obtenção de resultados
mais elevados nas práticas ideais. Já no que concerne as práticas típicas, os
estudos não são conclusivos quanto à influência desta variável (Gronita et al.,
2011; McWilliam et al., 2000; Pereira & Serrano, 2009). Do mesmo modo, os
resultados deste estudo não confirmam a associação entre a formação de base do
profissional de IPI e os valores obtidos nas práticas típicas, relatada por
Pereira e Serrano. Contudo, os resultados obtidos vão ao encontro dos
resultados relatados por Dionísio (2009), segundo os quais as variáveis idade,
tempo de experiência do profissional em IPI, formação de base e formação
complementar, assim como a frequência de ações de formação, não estavam
associadas à perceção dos profissionais relativamente às práticas típicas e às
práticas ideais.
No que concerne à terceira hipótese de investigação, esperava-se encontrar
diferenças entre as perceções que os profissionais das ELI do Alentejo têm em
relação às práticas típicas e às práticas consideradas ideais em função do
modelo de funcionamento da equipa. Os resultados mostraram pontuações mais
elevadas nas práticas típicas, quando os profissionais percecionam o modo de
funcionamento da sua equipa como transdisciplinar. É possível que a supervisão
proporcionada pela equipa, a reflexão sobre a intervenção e os novos
conhecimentos daí adquiridos, bem como a própria dinâmica de funcionamento
decorrente da transdisciplinaridade, permitam ao profissional de IPI ter
práticas típicas mais próximas das práticas ideais. Ou seja, apesar de todos os
profissionais apresentarem ideias semelhantes em relação às práticas que
deveriam estar a implementar (práticas ideais), os profissionais que consideram
estar integrados em equipas com funcionamento transdisciplinar relatam
intervenções mais próximas das práticas recomendadas. No estudo realizado por
Pimentel (2005), verificou-se uma quase inexistente prática transdis ciplinar.
No nosso estudo, cerca de um quarto da amostra considera que a sua equipa
apresenta um funcionamento transdisciplinar. Esta diferença de resultados
poderá dever-se ao facto de o nosso estudo e o de Pimentel terem uma diferença
cronológica de sete anos, o que poderá mostrar uma evolução. Contudo, é
importante realçar que o nosso estudo utiliza um instrumento diferente do
utilizado por Pimentel, o que também poderá ter implicações nos resultados
obtidos.
Os resultados obtidos parecem demonstrar que quer as perceções em relação às
práticas típicas dos profissionais, quer as perceções em relação às práticas
que consideram ideais, não correspondem totalmente às práticas recomendadas. As
discrepâncias, entre as práticas típicas e as ideais, parecem evidenciar que os
profissionais ainda não estão a conseguir aplicar as práticas que consideram
ideais. Esta discrepância poder-se-á dever ao facto de, na nossa amostra,
apenas 3% dos profissionais terem especialização em IPI. No estudo de Mendes et
al. (2010), concluiuse que a formação dos profissionais, tanto ao nível da
formação base, como da formação especializada constitui um fator que determina
a qualidade do serviço prestado em IPI. Outro fator relevante é a existência de
supervisão, pois esta permite que o foco da intervenção permaneça nas práticas
baseadas na evidência, ao promover nos profissionais uma reflexão acerca do
trabalho efetuado e uma atualização constante. Mendes (2010) refere que, para
que se realizem mudanças nas práticas de IPI existentes, é necessário que os
profissionais promovam o seu crescimento profissional, revelando-se, então,
necessário um maior investimento na formação dos profissionais em práticas
recomendadas. Desta forma, revela-se importante que os programas de IPI
proporcionem essa formação, de preferência, após a realização de autoavaliações
em relação às práticas, para promover a sua melhoria (Aytch et al., 2004).
Após terem sido discutidos os resultados obtidos é importante ter em conta um
conjunto de limitações que estão inerentes às opções metodológicas que serviram
de guia para o presente trabalho de investigação. As limitações identificadas
exigem prudência na interpretação dos resultados obtidos e permitem sugerir
recomendações para futuras investigações a realizar neste domínio.
No que diz respeito às limitações de caráter metodológico, deve-se referir que
as análises realizadas não tiveram em consideração a estrutura hierárquica da
amostra, isto é, não consideram o facto de vários profissionais pertencerem à
mesma equipa, o que tem implicações em termos de independência dos dados.
Recomenda-se que futuras investigações considerem o facto de as perceções dos
profissionais relativamente às práticas da sua equipa serem, muito
provavelmente, mais semelhantes entre si do que a perceção de profissionais que
integram equipas diferentes, recorrendo a análises multinível. É importante
referir, ainda, que o instrumento utilizado no presente estudo permite recolher
dados acerca das perceções dos profissionais sobre as práticas e não acerca da
qualidade das práticas propriamente ditas. Assim, ponderamos a importância de,
no futuro, se avaliar a prática dos profissionais, com base na observação
participada, com o objetivo de retratar, de facto, as práticas utilizadas pelos
profissionais. Futuras linhas de investigação poderão, ainda, incidir sobre um
conhecimento mais aprofundado do instrumento utilizado, ao incluir, por
exemplo, a realização de uma análise de componentes principais para conhecer
melhor a estrutura da escala, e a forma como se organizam os itens, verificando
em que medida os componentes identificados por McWilliam et al. (2007) se
verificam na nossa amostra.
Apesar das limitações que foram referidas, pensamos que esta investigação é o
primeiro estudo efetuado em que se teve em conta a perceção dos profissionais
da IPI no Alentejo em relação às suas práticas típicas e às práticas que
consideram ideais. Os resultados obtidos neste estudo, apesar de não deverem,
nem poderem, ser extrapolados para a população portuguesa, podem ser
generalizados para o Alentejo.
Do conjunto de resultados analisados e discutidos emergem algumas implicações
práticas, tendo em vista a promoção das práticas dos profissionais das ELI do
Alentejo, realçando a necessidade de: (a) transmitir aos profissionais de IPI
informações sobre as práticas recomendadas, através de ações de formação; (b)
considerar os resultados da presente investigação para o planeamento de futuras
formações; (c) utilizar os itens da FINESSE como guia das práticas
recomendadas, dado que as práticas consideradas ideais pelos profissionais de
IPI do Alentejo se aproximam dos valores máximos da escala. Com vista a uma
promoção das práticas recomendadas, seria importante dar continuidade à
presente investigação, de modo a compreender os motivos subjacentes às
discrepâncias entre as práticas típicas e as práticas ideais. Esta compreensão
poderá ajudar a fundamentar mudanças no funcionamento do SNIPI, nomeadamente no
que diz respeito aos recursos a proporcionar aos profissionais, para que estes
utilizem práticas baseadas em evidências.
Concluindo, é fundamental compreender o modo como os profissionais, que
diariamente desenvolvem a sua prática junto de crianças e famílias apoiadas em
IPI, avaliam a sua própria intervenção, investigando as suas perceções acerca
das práticas ideais, tendo em conta o seu conhecimento e a sua experiência.
Assim, parece de extrema importância que se dê continuidade a esta linha de
investigação, com o fim de conhecer a realidade dos profissionais do restante
território nacional.