Ajustamento psicossocial, ajustamento diádico e resiliência no contexto de
desemprego
Ajustamento psicossocial, ajustamento diádico e resiliência no contexto de
desemprego
Inês Margarida Dimas*; Marco Daniel Pereira**; Maria Cristina Canavarro***
*Bolseira de Investigação da Universidade do Minho;
**Bolseiro de Pós-Doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia (SFRH/
BPD/44435/2008);
***Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra
Correspondência
ABSTRACT
In the current socio-economic context, the confrontation with conditions of
greater or lesser adversity at work, where we can include unemployment, may
challenge the personal and relational life of individuals. Throughout a cross-
sectional study, we examined the personal (psychopathological symptoms, quality
of life), relational adaptation (dyadic adjustment) and individual resilience
in the context of unemployment. The sample was recruited by a convenience
method and consisted of 15 couples in which one element was unemployed and 22
couples with both partners employed. The evaluation protocol included the
following instruments: Brief Symptom Inventory (BSI), World Health Organization
Quality of Life instrument - WHOQOL-Bref, the Dyadic Adjustment Scale
- Revised (EAD-R), and the Connor-Davidson - Resilience Scale (CD-
RISC). The results suggested that the unemployed attached greater importance to
the relationship than their partners. The resilience of unemployed was
associated with lower psychopathological symptoms, improved quality of life and
better dyadic adjustment. This exploratory study had allowed us to better
understand the relational and individual adaptation to unemployment, especially
because the literature in this area is very scarce, but also leaves indications
for future research.
Key-words:Couple's relationship, Mental health, Quality of life,
Resilience, Unemployment.
INTRODUÇÃO
O desemprego é um fenómeno muito atual, acarretando consequências nos âmbitos
económico e social, bem como na qualidade de vida individual e do casal. Os
dados mais recentes relativos ao quarto trimestre de 2010 indicam-nos que a
taxa total de desemprego em Portugal se situou nos 11.1% (10.1% para os homens
e 12.3% para as mulheres), sendo a faixa etária dos 15 aos 44 anos a mais
atingida (Instituto Nacional de Estatística [INE], 2011). Depreende-se, por
isso, que muitos casais e famílias estejam atualmente a ser afetados por este
contexto potencialmente adverso.
No contexto familiar e, nomeadamente no âmbito de uma relação diádica, cada
elemento influencia e é influenciado pelo outro. Viver em família implica,
pois, uma adaptação progressiva (Vaz Serra, 2007), quer individual quer à
relação. Perante as exigências do trabalho e da vida em geral, parece ser cada
vez mais difícil conciliar o trabalho com a família e encontrar um equilíbrio
que não comprometa estas diferentes adaptações.
O desemprego, entendido como uma situação que envolve uma ausência de carga de
trabalho, normalmente involuntária (Vaz Serra, 2007), constitui-se como uma
condição potencialmente adversa de trabalho, com implicações ao nível pessoal e
relacional da vida dos indivíduos. Neste sentido, exige ao indivíduo
capacidades de adaptação, podendo ser entendido como uma transição, na medida
em que incorpora um certo grau de mudança e, consequentemente, de incerteza
(Francisco, 2004). No entanto, e apesar de constituir um acontecimento de vida
indutor de stresse, o seu impacto psicológico não é igual para todos os
sujeitos e pode afetar distintamente o seu bem-estar individual e relacional.
A maior parte da investigação que tem sido desenvolvida sobre fatores
psicológicos relacionados com o Desemprego tem evidenciado, fundamentalmente, o
impacto do desemprego no plano individual. Por outro lado, é possível confirmar
que a maioria dos estudos têm focado essencialmente os aspetos negativos da
adaptação ao desemprego ao invés dos aspetos positivos. Com efeito, diversos
estudos têm constatado que a situação de desemprego provoca mudanças geralmente
negativas a nível psicológico, podendo conduzir a uma deterioração da saúde
mental e física (e.g., Banks & Jackson, 1982; Dooley & Prause, 1995;
Warr, Jackson, & Banks, 1988). Globalmente, os estudos têm mostrado que o
indivíduo desempregado tende a experienciar níveis elevados de depressão,
ansiedade, somatização, angústia e stresse, apresentando, igualmente, baixa
auto-estima, baixa autoconfiança, inatividade e isolamento social (Kessler,
Turner, & House, 1988; Warr, Jackson, & Banks, 1988).
A este respeito, Mossakowski (2009) estudou a influência do desemprego anterior
na duração dos sintomas de depressão, e os resultados mostraram que o
desemprego de longa duração predizia níveis elevados de sintomas depressivos
nos sujeitos entre os 29 e 37 anos, não tendo registado diferenças
estatisticamente significativas em termos de género. Contudo, num estudo de
Axelsson, Andersson, Edén e Ejlertsson (2007) sobre a qualidade de vida (QdV)
dos jovens desempregados, os resultados revelaram que o desemprego entre os
jovens nem sempre é vivenciado como uma experiência negativa, uma vez que a
maioria considerou ter uma boa QdV (51%). A partir dos estudos revistos, foi
possível constatar que a resposta psicológica individual ao desemprego é
caracterizada pela heterogeneidade, embora os aspectos negativos pareçam ser
mais frequentes.
No plano familiar, os estudos empíricos desenvolvidos revelam que o desemprego
é um fator importante por detrás da instabilidade conjugal, podendo conduzir a
uma situação de separação/divórcio, ainda que apenas o desemprego do homem
pareça ter esse efeito (Jensen & Smith, 1990; Wilhelm & Ridley, 1988).
Não obstante a relevância da temática em causa, verifica
se ainda a existência de poucos estudos, sendo que, pela pesquisa bibliográfica
realizada, grande parte dos disponíveis são referentes aos anos 80/90 do século
XX.
Recentemente, Kinnunen e Felt (2004) estudaram de que forma o stresse económico
se refletia no ajustamento diádico de 608 casais finlandeses. Este estudo
avaliou variáveis como: as circunstâncias económicas e tensão económica, o
distresspsicológico e o ajustamento conjugal. Os resultados mostraram que
circunstâncias de pobreza se associavam a tensão económica, aumentando o
distresspsicológico e que estas duas variáveis se refletiam negativamente no
ajustamento conjugal. A tensão económica relacionada com as dificuldades em
responder às necessidades básicas e pagar as contas, pareceu ter um impacto
negativo nos casais, nomeadamente ao nível do bem-estar individual. Por sua
vez, os indivíduos psicologicamente perturbados tendiam a ser menos positivos
na interação conjugal, o que se refletia na perceção que os elementos do casal
tinham acerca da qualidade da sua relação e este aspeto verificou-se tanto
entre as mulheres como entre os homens.
À semelhança da tensão financeira, também o endividamento parece afetar a saúde
psicológica e física dos indivíduos e dos casais de duas formas, como um tema
que propicia o conflito diádico e aumenta o nível de stresse individual. Num
estudo de Dew (2007, 2008), o aumento do endividamento mostrou-se associado a
uma diminuição na satisfação com a relação de casal e a uma diminuição do tempo
que o casal passa junto.
Apesar do impacto negativo que temos vindo a referir, o desemprego nem sempre
tem efeitos nefastos no bem-estar subjetivo dos indivíduos que o vivenciam.
Isto pode acontecer, por exemplo, se o emprego anterior era insatisfatório ou
fonte de angústia ou stresse (Graetz, 1993). Com efeito, as consequências do
desemprego parecem variar consoante o tipo de desemprego, sendo que os estudos
sugerem que quando este é involuntário, implica maior sofrimento psicológico do
que quando é voluntário e que, no início do desemprego, a angústia é maior do
que quando já passou algum tempo (Francisco, 2004).
É possível, assim, perante uma situação de desemprego, conceptualizada como uma
adversidade, ser resiliente e conseguir uma adaptação bem-sucedida. Mais
recentemente, Moorthouse e Caltabiano (2007) verificaram que os sujeitos
desempregados com qualidades resilientes tinham menores níveis de depressão.
Com efeito, determinados fatores poderão proteger o indivíduo e atenuar os
efeitos negativos do desemprego, entre os quais a intrepidez, as estratégias de
copinge o apoio social (incluindo do companheiro). Por outro lado, a fraca
capacidade de procura de emprego, períodos prolongados de desemprego,
dificuldades financeiras e pouca disponibilidade de trabalho, poderão
constituir-se como fatores de risco na adaptação ao desemprego. Embora a
experiência para a maioria das pessoas em situação de desemprego possa ser
resumida em termos de desespero, renúncia ou passividade, é evidente que alguns
indivíduos são capazes de neutralizar muitos dos efeitos psicológicos e físicos
do desemprego, envolvendose em atividades diversas como passatempos, educação e
trabalho voluntário (Brenner & Bartel, 1983; Starrin & Larsson, 1987).
Face ao exposto, os desempregados com qualidades resilientes (isto é,
autoconfiança, independência, determinação, engenho e perseverança) e atitudes
positivas, parecem ter maior probabilidade de adotar um comportamento assertivo
na procura de emprego, o que pode ser um aspeto facilitador no processo de
adaptação (Moorthouse & Caltabiano, 2007). Porém, e apesar da pertinência
desta temática, por exemplo, na prevenção de comportamentos disfuncionais, são
ainda escassos os estudos sobre a adaptação bem-sucedida ao desemprego,
particularmente no âmbito relacional.
O objetivo do presente estudo consistiu em avaliar a adaptação pessoal (em
termos de sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida) e relacional
(relação conjugal e ajustamento diádico) no contexto de desemprego, avaliar a
associação entre resiliência individual e adaptação pessoal e relacional, bem
como a influência de variáveis associadas ao emprego/desemprego nesta
adaptação. Face à revisão de literatura, estabelecemos as seguintes hipóteses
de investigação: (1) os sujeitos desempregados apresentarão maiores
dificuldades de adaptação pessoal; (2) os sujeitos desempregados apresentarão
menor satisfação com a relação conjugal e menor ajustamento diádico; (3) uma
melhor adaptação do parceiro estará associada positivamente a melhor adaptação
do desempregado; (4) a resiliência individual encontrar-se-á positivamente
associada a melhor adaptação individual e relacional; (5) maiores dificuldades
de adaptação estarão associadas a maior tempo de desemprego e à perceção de
maiores dificuldades financeiras.
MÉTODO
Participantes
A amostra do presente estudo foi constituída por conveniência e incluiu 15
casais (n=30) em que um dos elementos estava desempregado (Grupo Desemprego
- GD) e 22 casais (n=44), com ambos os elementos empregados (Grupo
Emprego - GE). As principais características sociodemográficas dos
participantes são apresentadas no Quadro_1. De forma geral, a maior parte da
amostra é constituída por sujeitos casados (73%), com filhos (83.8%),
residentes em meios urbanos (75.7%), com uma média de idade de 39.23 anos, uma
escolaridade média de 12.28 anos e uma duração média da relação de 13.85 anos.
A análise comparativa dos dois grupos permitiu constatar a sua homogeneidade na
maior parte das variáveis sociodemográficas consideradas, com exceção das
variáveis religião [χ2(1)=6.31; p<.05; Vde Cramer=.29] e estado civil [χ2
(1)=27.81; p<.001; Vde Cramer=.61]. Especificamente, verificou-se uma proporção
mais elevada de sujeitos de religião católica no GE e uma proporção de união de
facto mais elevada no GD.
Procedimentos
O presente estudo foi constituído por dois grupos, sendo que para cada grupo
foram definidos critérios de inclusão. Com efeito, no grupo
"Emprego", foi definido que ambos os elementos do casal teriam de
estar empregados. O grupo "Desemprego", foi constituído por casais
em que um elemento tinha trabalho, enquanto o outro se encontrava desempregado,
isto é, embora tendo tido um emprego, no período de referência não se
encontrava a trabalhar.
Todos os participantes após serem informados sobre os objetivos do estudo, das
condições para participar e dos critérios de inclusão, assinaram o
consentimento informado. Os protocolos foram agrupados em dois e colocados em
envelopes selados pelos casais, de modo a garantir a total confidencialidade
dos dados, sendo que cada elemento foi instruído a responder separadamente ao
protocolo de avaliação. No consentimento informado, os objetivos do estudo eram
explicados aos participantes e salvaguardados o anonimato e a confidencialidade
das respostas aos questionários. Foi ainda explicado o papel dos
investigadores, bem como o carácter voluntário da participação no estudo.
Instrumentos
O protocolo de avaliação foi composto por uma ficha de dados sociodemográficos,
uma ficha de dados relativa à situação profissional devidamente adaptada para
cada grupo e quatro questionários de auto-resposta.
A ficha de caracterização sociodemográfica foi comum a todos os grupos de
participantes. Aqui pretendíamos avaliar as seguintes variáveis: idade, género,
estado civil, duração da relação conjugal, habilitações literárias, situação
profissional, profissão, religião, e diferentes características da relação
conjugal atual, incluindo a importância, felicidade e satisfação global com a
relação conjugal. Estas três últimas variáveis foram avaliadas, respetivamente,
através das perguntas "Até que ponto é importante a sua relação
conjugal?", "Até que ponto é feliz a sua relação conjugal?" e
"Como classifica a sua relação conjugal atual?", respondidas numa
escala de 10 pontos.
A ficha de dados relativa à situação profissional diferia segundo o grupo a que
se destinava. Para a situação de desemprego, analisaram-se as seguintes
variáveis: motivo do desemprego, a sua duração, se tem procurado trabalho, a
dificuldade em pagar as despesas, o impacto do desemprego (considerando
perguntas relativas à reação ao desemprego, impacto global do desemprego e
interferência nas esferas social, familiar e financeira) e a relação conjugal
anterior à perda de emprego. Nestas duas últimas variáveis, foi considerada uma
escala de resposta de 10 pontos. Relativamente à situação de emprego, prendia-
se estudar a modalidade de trabalho (i.e., se tem horário fixo, e caso não
tenha, que tipo de turnos tem), se trabalha aos fins-de-semana, as horas que
trabalha por dia/semana e a dificuldade em pagar as despesas.
Os sintomas psicopatológicos foram avaliados através do Inventário de Sintomas
Psicopatológicos (BSI)(Derogatis, 2000; Versão Portuguesa [VP]: Canavarro,
2007), que é composto por 53 itens. Este instrumento avalia nove dimensões
básicas de sintomatologia psicopatológica (Somatização, Obsessões-compulsões,
Sensibilidade interpessoal, Depressão, Ansiedade, Hostilidade, Ansiedade
fóbica, Ideação paranóidee Psicoticismo) e três índices globais: o Índice Geral
de Sintomas(IGS), o Total de Sintomas Positivos(TSP) e o Índice de Sintomas
Positivos(ISP). No presente estudo, considerámos apenas três dimensões do BSI,
nomeadamente as dimensões somatização, depressão e ansiedade. Em relação às
características psicométricas do inventário no nosso estudo, os valores de α de
Cronbach (nas três dimensões consideradas) variaram entre .82 e .92.
A qualidade de vida foi avaliada através da Versão abreviada do instrumento de
avaliação da Qualidade de Vida da OMS - WHOQOL-Bref(WHOQOL Group, 1998;
VP: Canavarro et al., 2007). Este instrumento é constituído por 26 itens, e por
sete escalas de resposta diferentes, todas com cinco possibilidades de resposta
(1-5). Os itens encontram-se organizados em quatro domínios (Físico,
Psicológico, Relações sociais e Ambiente) e uma faceta geral de qualidade de
vida. Cada um dos quatro domínios é composto por facetas específicas da QdV que
sumariam o domínio particular de QdV em que se inserem. Este instrumento
revelou boas qualidades psicométricas no presente estudo (todos os domínios
>.70), com exceção do domínio Ambienteno GD, cujo α de Cronbach apresentou um
valor inaceitável (.56), razão pela qual tivemos um maior cuidado na
interpretação dos resultados deste domínio neste grupo.
Utilizámos a Escala de Ajustamento Diádico - Revista (EAD-R)(Busby,
Christensen, Crane, & Larson, 1995) para avaliar o ajustamento diádico. A
versão revista da EAD, desenvolvida por Busby et al. (1995), e utilizada no
nosso estudo, é composta por 14 itens, e por quatro escalas de resposta. A EAD-
R é constituída por três subescalas (Consenso, Satisfação, Coesão) que avaliam
o ajustamento diádico. O consensoé composto por três dimensões: tomada de
decisões, valores e afeto; a satisfaçãoé constituída por duas dimensões:
estabilidade e conflito; e, por fim, a coesãoengloba duas dimensões: atividades
e discussão. Esta escala contempla ainda um resultado total. No nosso estudo a
EADS apresentou boas qualidades psicométricas (valores de α entre .74 e .89),
com exceção da subescala coesãono GD, cujo α de Cronbach foi de .61.
Por fim, a Resiliência foi avaliada através da Connor-Davidson Resilience Scale
(CD-RISC) (Connor & Davidson, 2003). Este instrumento de avaliação permite
quantificar a resiliência, sendo constituído por 25 itens com uma escala de
resposta de cinco pontos (desde "Não verdadeira" a "Quase
sempre verdadeira"). Nos estudos originais, Connor e Davidson (2003)
identificaram cinco fatores: Fator 1: Competência pessoal, elevados padrões e
tenacidade; Fator 2: Confiança no seu instinto, tolerância ao afeto negativo e
efeito da resistência ao stresse; Fator 3: Aceitação positiva de mudança e
relações seguras; Fator 4: Controlo; e, por fim, Fator 5: Influências
espirituais. No presente estudo, a escala revelou boas propriedades
psicométricas. Os valores de consistência interna medida através do α de
Cronbach oscilaram entre .70 e .86.
RESULTADOS
Caracterização do contexto profissional
Os desempregados são maioritariamente do sexo feminino (73.3%) e que o motivo
mais comum do desemprego é o "despedimento" (53.3%), seguida do fim
de contrato (20%). A duração média do desemprego foi de 11.33 meses (DP=9.65
meses), sendo que para a maioria foi a primeira vez que se encontraram nesta
situação (73.3%). A maioria dos sujeitos (80%) referiu estar, no momento da
participação no estudo, à procura de emprego.
Tendo em conta os dados descritos no Quadro_2, e considerando que a escala de
resposta varia entre 1 e 10, verificou-se que os sujeitos desempregados referem
um impacto particularmente negativo do desemprego e uma interferência mais
negativa na vida social, familiar e na situação financeira (o impacto do
desemprego apenas se situou acima do ponto médio da escala [5] em relação à
interferência na vida social). De assinalar, que a reação da pessoa
desempregada, bem como a perceção que o sujeito tem da reação do seu
companheiro foi igualmente negativa.
Sintomatologia psicopatológica e qualidade de vida
Para comparação de médias nos indicadores de adaptação pessoal, recorreu-se à
análise multivariada da variância (MANOVA) com o grupo (Emprego, Desemprego) e
género (Masculino, Feminino) como variáveis independentes (respetivamente,
between-subjectse whithin-subjects- dado que os participantes estavam
naturalmente emparelhados em casais) e os diferentes indicadores de adaptação
pessoal e relacional como variáveis dependentes. Assim, em relação à
sintomatologia psicopatológica, a MANOVA revelou um efeito multivariado
estatisticamente significativo [Lambda de Wilks=.77; F(3,33)=3.36; p=.030;
ηp2=.23]. Contudo, os testes univariados subsequentes não revelaram nenhum
efeito univariado significativo, ainda que os resultados médios tenham mostrado
maior Depressãoentre o GD (cf. Quadro_2), tendo sido a diferença marginalmente
significativa, F(1,35)=3.02, p=.091, ηp2=.08. Não se registaram efeitos
multivariados significativos relativamente ao género [Lambda de Wilks=.92; F
(3,33)=0.97; p=.419; ηp2=.08] ou de interação entre grupo e género [Lambda de
Wilks=.95; F(3,33)=0.53; p=.668; ηp2=.05].
Já em relação à QdV, não se verificaram diferenças significativas na comparação
entre estes dois grupos [Lambda de Wilks=.76; F(5,31)=2.02; p=.104; ηp2=.25].
Os testes univariados revelaram, no entanto, uma diferença no domínio Ambiente.
Especificamente, apresentam pior QdV neste domínio os sujeitos desempregados.
Não se verificou um efeito significativo relativamente ao género [Lambda de
Wilks=.91; F(5,21)=0.61; p=.696; ηp2=.09], mas verificou-se um efeito de
interação entre as variáveis grupo e género [Lambda de Wilks=.65; F(5,31)=3.28;
p=.017; ηp2=.35]. As análises subsequentes mostraram a existência de um efeito
de interação relativamente à Faceta geral de QdV, F(1,35)=6.47, p=.016,
ηp2=.16. Concretamente, apresentaram pior perceção de QdV os parceiros do GD.
À semelhança da análise anterior procurámos, ainda, comparar os resultados nos
indicadores de adaptação individual dos sujeitos desempregados em relação aos
dos seus companheiros (cf. Quadro_4). Controlando o efeito do género, não foi
encontrado um efeito multivariado para a sintomatologia psicopatológica [Lambda
de Wilks=.93; F(3,25)=0.65; p=.590; ηp2=.07]. Para as dimensões da QdV o efeito
multivariado também não se revelou estatisticamente significativo [Lambda de
Wilks=.87; F(5,23)=0.67; p=.652; ηp2=.13].
Satisfação com a relação conjugal e ajustamento diádico
Relativamente aos indicadores de relação conjugal entre os desempregados e seus
companheiros, o efeito multivariado não foi significativo [Lambda de Wilks=.88;
F(3,25)=1.10; p=.368; ηp2=.12]. De assinalar, no entanto, que em todos os
indicadores, os valores médios foram bastante elevados e próximos do máximo da
escala de resposta (cf. Quadro_5).
No que concerne às dimensões do ajustamento diádico, também não se registou um
efeito multivariado estatisticamente significativo [Lambda de Wilks=.79; F
(3,25)=2.25; p=.107; ηp2=.21]. De igual modo, não se mostrou significativa a
diferença relativamente ao total de ajustamento diádico.
Associação entre adaptação conjugal do companheiro e adaptação pessoal do
desempregado
Para avaliar a associação entre a adaptação conjugal (satisfação com a relação
conjugal e ajustamento diádico) do companheiro e a adaptação pessoal (QdV e
sintomatologia psicopatoló gica) do desempregado, recorreu-se ao coeficiente de
correlação de Spearman.
Em relação aos sujeitos desempregados e seus companheiros, as correlações
significativas foram baixas a moderadas. Registou-se uma correlação negativa
significativa entre a Coesãodo parceiro e a Ansiedadedo desempregado (r=-.37,
p<.05) e encontraram-se correlações positivas entre o Consenso(r=.37, p<.05),
Satisfação(r=.38, p<.05) e Total da escala de ajustamento diádico(r=.37, p<.05)
do parceiro e o domínio Psicológicoda QdV no desempregado. A variável
Importância da relação conjugaldo parceiro mostrou-se negativamente
correlacionada com as três dimen sões de sintomatologia psicopatológica
[Somatização(r=-.60, p<.05); Depressão(r=-.68, p<.01); e Ansiedade(r=-.56,
p<.05)] e positivamente com o domínio Psicológicode QdV (r=.62, p<.05).
Associação entre resiliência individual e adaptação pessoal e relacional
Relativamente aos sujeitos desempregados, foi possível observar a existência de
correlações significativas entre a resiliência individual e adaptação pessoal e
conjugal. Especificamente, verificou-se a existência de uma correlação negativa
entre as dimensões de resiliência Competência pessoal, Elevados padrões e
tenacidadee Aceitação positiva de mudança e relações segurase a dimensão
psicopatológica Depressão(respetivamente, r=-.63, p<.05 e r=-.58, p<.05). Por
outro lado, a subescala Aceitação positiva de mudanças e relações
segurasapresentou uma correlação positiva significativa com os domínios Físico
(r=.59, p<.05) e Psicológicode QdV (r=.55, p<.05). De salientar nesta análise,
os resultados significativos encontrados para as três subescalas de resiliência
e os domínios de QdV Ambiente(rentre .56, p<.05 e .67, p<.001) e Faceta geral
de QdV(rentre .52, p<.05 e .55, p<.05), sendo que apenas não se verificou uma
associação significativa entre o fator Confiança no instinto, tolerância ao
afeto negativo e efeito de resistência ao stressee o domínio Faceta Geral. De
forma geral, uma maior resiliência do desempregado mostrou-se correlacionada
com uma melhor perceção da QdV. Por fim, apenas a dimensão Competência pessoal,
elevados padrões e tenacidadeapresentou correlações significativas com a
subescala Coesão(r=.62, p<.05) e com o Total do ajustamento diádico(r=.63,
p<.05).
Influência de variáveis associadas à situação de desemprego
Para verificar a associação existente entre a duração do desemprego e a
sintomatologia psicopatológica, qualidade de vida e ajustamento diádico,
recorreu-se também ao coeficiente de correlação de Spearman. A duração do
desemprego mostrou-se positivamente correlacionada com a sintomatologia
psicopatológica e negativamente correlacionada com a QdV (com exceção do
domínio Ambiente) e às dimensões de ajustamento diádico (com exceção da
subescala Coesão). Nenhuma das correlações se mostrou, no entanto,
estatisticamente significativa.
Para a totalidade da amostra, foi realizada também uma MANOVA para comparar a
adaptação pessoal e relacional considerando a perceção da dificuldade em pagar
as despesas. Os resultados mostraram a existência de diferenças
estatisticamente significativas nas três dimensões da sintomatologia
psicopatológica [Lambda de Wilks=.83; F(3,70)=4.81; p=.004; ηp2=.17], assim
como nos domínios de QdV [Lambda de Wilks=.70; F(5,68)=5.87; p<.001; ηp2=.30].
Globalmente, os dados mostraram que os sujeitos que referiam dificuldades em
pagar as despesas apresentavam maior sintomatologia psicopatológica, sendo que
todos os efeitos univariados foram estatisticamente significativos. Já em
relação à QdV, verificou-se um padrão semelhante, registando-se uma menor QdV
em todos os domínios, com exceção do domínio das Relaçõessociais, F(1,72)=3.59,
p=.062; ηp2=.05. Ao nível do ajustamento diádico, não se registaram diferenças
significativas em nenhuma das subescalas consideradas [Lambda de Wilks=.99; F
(3,70)=0.30; p=.828; ηp2=.01].
DISCUSSÃO
Na Sociedade em que vivemos, somos confrontados, diariamente, com notícias
sobre a conjuntura política e social em que nos encontramos e as dificuldades
que lhe estão inerentes. Com efeito, a precariedade do trabalho e a
inflexibilidade dos horários suscita interesse e preocupação. Deste modo, é
importante identificar os fatores que poderão estar associados a uma melhor
adaptação psicossocial a estas situações, não só no plano individual como,
também no que respeita à relação de casal. Foi neste contexto que nos
propusemos investigar a relação de casal num cenário de desemprego.
O primeiro conjunto de resultados que importa analisar relaciona-se com a
avaliação da sintomatologia psicopatológica e QdV no contexto de desemprego.
Considera-se que a primeira hipótese de estudo não foi suportada, dada a
inexistência de diferenças significativas na comparação entre os grupos de
emprego e desemprego. No mesmo sentido, os grupos não diferiram
significativamente em relação à QdV. De uma forma geral, a não existência de
diferenças na sintomatologia psicopatológica e na QdV poderá ser compreensível
se tivermos em conta a heterogeneidade que caracteriza a resposta individual ao
desemprego. Embora seja uma condição potencialmente adversa, comportando
mudanças inevitáveis, estas poderão não ser totalmente negativas, dependendo
das circunstâncias nas quais o desemprego ocorre. Por exemplo, se o indivíduo
foi despedido (Francisco, 2004), se estava satisfeito com o emprego anterior
(Graetz, 1993) e se tem um desemprego de longa duração (Mossakowski, 2009), o
impacto na saúde mental e física parece ser mais negativo. Por outro lado, o
desempregado tem muitas vezes associado à situação profissional em que se
encontra, mais tempo livre, podendo dedicá-lo à família e a outras atividades,
o que pode facilitar a sua adaptação. Na nossa amostra, embora para 53.3% o
despedimento tenha sido a causa do desemprego atual, para a maioria dos
sujeitos é a primeira vez que estão desempregados (73.3%) e a maioria tem
procurado emprego (80%). Assim, embora identifiquemos um possível fator de
risco, o comportamento proactivo adotado revela não só o desejo como a intenção
de quererem reverter a situação em que se encontram. Este comportamento
proactivo poderá contribuir para o indivíduo se adaptar e atenuar os efeitos
negativos associados à ausência de emprego.
Embora sem significância estatística, é importante salientar que os
companheiros dos desempregados apresentaram, globalmente, valores médios mais
elevados sintomatologia psicopatológica e menor QdV do que os desempregados.
Existe evidência de que o desemprego ultrapassa o plano individual, na medida
em que exige da família e, sobretudo do cônjuge empregado, recursos diversos
(incluindo emocionais) para responder às dificuldades vivenciadas diretamente
pelo indivíduo desempregado, com todas as consequências que isso possa implicar
para a família e vida familiar. O fato do companheiro ser a principal fonte de
apoio de que o desempregado dispõe, e ao mesmo tempo estar a viver as
dificuldades inerentes a este tipo de adversidade, pode implicar uma maior
sobrecarga e uma maior exigência emocional, o que se pode traduzir num bem-
estar geral similar ao do companheiro em situação de desemprego. Por outras
palavras, num contexto de desemprego, poderá haver maior dificuldade na
conjugação dos diversos papéis familiares e profissionais (com exigências e
responsabilidades específicas) que, por sua vez, podem afetar a saúde mental e
a QdV dos parceiros dos desempregados.
Ao analisarmos a relação conjugal e ajustamento diádico dos desempregados,
verificou-se que, contrariamente ao esperado, estes sujeitos atribuem maior
importância à relação conjugal do que os seus companheiros, parecendo haver uma
tendência para se sentirem mais felizes e satisfeitos com a relação
comparativamente aos seus parceiros. Este resultado poder-se-á dever ao facto
de os desempregados, estando mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, mais
disponíveis, poderem dedicar-se mais à família e disporem de companheiros
compreensivos e apoiantes o suficiente para atenuar as consequências negativas
associadas ao desemprego. Por outro lado, ao nível do ajustamento diádico,
apesar de não termos observado resultados significativos, os desempregados
apresentaram, globalmente, resultados médios mais elevados nas subescalas desta
variável, o que é coerente com os dados anteriores.
Os resultados revelam que um menor sentido de Coesãodo companheiro se associou
a maiores níveis de Ansiedadedo desempregado. De uma forma geral, nos
desempregados e nos seus companheiros, os dados também confirmam a associação
entre a adaptação conjugal e a saúde mental e QdV. O domínio Psicológicoda QdV
foi aquele que apresentou um maior número de associações significativas,
sugerindo que a adaptação conjugal do parceiro se associa ao bemestar
psicológico do desempregado. Com efeito, o desemprego implica consequências
para o casal, sendo que a postura mais ou menos proactiva do desempregado
tenderá a influenciar o seu parceiro e a própria relação ou também que uma
postura mais compreensiva do parceiro poderá ter efeitos positivos no bem-estar
do desempregado.
De acordo com os objetivos enunciados, avaliou-se ainda a associação entre a
resiliência individual e a sintomatologia psicopatológica, QdV e ajustamento
diádico. Os resultados encontrados permitem confirmar a hipótese estabelecida,
na medida em que, nestes sujeitos, se verificou uma associação significativa
entre resiliência e sintomatologia psicopatológica e QdV e ajustamento diádico,
e no sentido esperado. Tal como Moorthouse e Caltabiano (2007) constataram, os
sujeitos desempregados com qualidades resilientes apresentam menores níveis de
depressão, tendo menos probabilidade de ficar deprimidos mesmo face à
dificuldade em encontrar um novo emprego. No mesmo sentido vão os nossos
resultados, sugerindo que a resiliência ajuda o indivíduo a lidar com a
adversidade que constitui o desemprego.
Relativamente à duração do desemprego, as associações analisadas não revelaram
significância estatística. Estes resultados não estão de acordo com os
reportados recentemente por Mossakowski (2009) e Paul e Moser (2009), que
sugeriram os efeitos negativos do desemprego, nomeadamente ao nível da saúde
mental, nos desempregados de longa duração. No nosso estudo, a direção das
correlações foi no sentido esperado, isto é, uma maior duração do desemprego
mostrou-se correlacionada com maiores dificuldades de ajustamento individual e
relacional). A ausência de correlações significativas, particularmente nos
indicadores de ajustamento individual, poderá dever-se ao tamanho da amostra de
desempregados, a características próprias do contexto de desemprego (e.g.,
estar pela primeira vez nesta situação ou estar proactivamente à procura de
emprego), mas também a um possível efeito mediador das variáveis relacionais
(e.g., perceção de apoio social, relação conjugal). Estudos futuros com
amostras de maior dimensão poderão contribuir para clarificar melhor estes
resultados.
Por fim, e no âmbito dos contextos de influência associados ao emprego/
desemprego, foram avaliadas as consequências da dificuldade em pagar as
despesas nas mesmas variáveis dependentes referidas. Concluímos que os sujeitos
que sentem dificuldade em pagar as despesas apresentam maior sintomatologia
psicopatológica e pior QdV, principalmente nos domínios Físico, Ambientee
Faceta geral. Já no que diz respeito ao ajustamento diádico, não encontrámos
diferenças significativas nos dois grupos, ainda que a coesãoe o total da EAD
tenham sido superiores nos sujeitos que referem sentir estas dificuldades
(dados não apresentados) o que, de certo modo, reforça a importância da relação
conjugal neste contexto de constrangimento económico, o que é consistente com
as conclusões retiradas por alguns estudos que confirmam o impacto que a tensão
económica tem no bem-estar individual e relacional (e.g., Dew, 2007, 2008;
Kinnunen & Felt, 2004; Vaz Serra, 2007).
A pesquisa bibliográfica efetuada permite constatar que são poucos os estudos
teóricos e empíricos nesta área, sobretudo que avaliem os aspetos positivos
(e.g., qualidade de vida, resiliência), para além dos negativos mais clássicos
(e.g., depressão, ansiedade, somatização), na adaptação ao desemprego.
Consideramos que esta singularidade deste estudo contribuiu, ainda que de uma
forma exploratória, para clarificar a relação trabalho-casal-família, uma vez
que, contrariamente à maior parte das investigações que privilegia apenas a
adaptação individual, aqui foram contemplados os dois elementos do casal.
Não obstante as implicações supracitadas, não podemos deixar de apontar algumas
limitações deste estudo. Em primeiro lugar, a sua natureza transversal, ao
impedir o estabelecimento de relações de causalidade, constitui uma primeira
limitação. Podemos apontar, também, como possível desvantagem a utilização de
um método de amostragem não probabilístico - amostragem por conveniência
- que acarreta, em si mesmo, a impossibilidade de extrapolar, com
confiança, as conclusões obtidas para a população, neste caso, para a
generalidade dos trabalhadores por turnos e dos desempregados. Por outro lado,
o grupo de desemprego com apenas 30 sujeitos (i.e., 15 casais), número
substancialmente inferior ao grupo de controlo, coloca constrangimentos à
generalização mas também à interpretação dos resultados.
Em futuras investigações, seria importante replicar o estudo com uma amostra
maior, de modo a facilitar a generalização das interpretações e conclusões.
Também consideramos importante incluir outras variáveis suscetíveis de
determinar melhor a adaptação a condições adversas de trabalho e especificar o
papel de algumas já abordadas neste estudo, nomeadamente da resiliência. Uma
segunda recomendação consiste na realização de estudos longitudinais com os
casais e analisá-los quanto ao ajustamento diádico, intimidade e outras
variáveis da vida conjugal como o investimento e o nível de compromisso. Outra
sugestão consiste na realização de um estudo comparativo entre casais com um
elemento desempregado e casais com ambos desempregados, de modo a perceber se
estes casais diferem significativamente na adaptação a esta condição.
Para finalizar, parece-nos pertinente realçar a necessidade não só de trabalhar
ao nível da prevenção de possíveis dificuldades que surjam no decorrer do
desemprego mas, principalmente, de desenvolver os recursos individuais e do
casal para lidar com as mesmas. Apesar de a presente temática ser atual e
abranger muitos indivíduos e famílias, ainda são escassos os estudos nacionais
e internacionais que se debruçam sobre as implicações do desemprego sobretudo
ao nível relacional. Este estudo, de cariz essencialmente exploratório,
pretendeu também colmatar essa lacuna, acentuando a relevância, contributos
científicos e para a sociedade em geral, que esta área de investigação
proporciona.