Intervenção em grupo com vítimas de violência doméstica: Uma revisão da sua
eficácia
ABSTRACT
After being socially recognized, domestic violence has been having a
significant expression in Portuguese surveys. Moreover, due to the high costs
associated with this problem (e.g., physical and mental health), the
intervention by specialized professionals in this area is now more relevant,
being the woman victim the main target. Within the last years, several
psychotherapeutic modalities addressing women victims were developed, being
group intervention one of those. The aim of the present work is to give a clear
picture of the state of the art concerning research on efficacy of group
intervention with women victim of domestic violence, as well as critically
reflect on its' potential. After reviewing international literature
(e.g., Cox & Stolberg, 1991; McBride, 2001; Rinfret-Raynor & Cantin,
1997; Tutty, Bidgood, & Rothery, 1993), it is possible to recognize group
intervention as one of the most common intervention with victims, often
assessed as being useful and with a positive impact (e.g., Trimpey, 1989, as
cited in McBride, 2001; Tutty et al.,1993). Finally, major challenges on the
development of empirical studies on this intervention are pointed out, as well
as implications for practitioners in order to develop group intervention with
women victim of domestic violence.
Key-words:Domestic violence, Efficacy research, Group intervention, Women
victim.
INTRODUÇÃO
A violência doméstica, durante muitos anos, permaneceu oculta na privacidade
das famílias. No entanto, desde a década de setenta, diversos olhares têm sido
lançados sobre o fenómeno, transformando-o num problema à escala mundial. Desde
então, passou a ser objecto de investigação científica e motivou a definição de
políticas públicas para a combater.
No nosso país, foram vários os factores que concorreram para esse crescente
reconhecimento social do fenómeno e para que este assumisse progressivamente um
lugar de relevo na sociedade em geral. Em 2007, um inquérito à população
revelou uma prevalência de 38.1% de violência contra as mulheres (Lisboa,
2008). Além disso, tal como no inquérito análogo de 1995, os resultados de 2007
revelaram que a violência mais prevalente é a psicológica (53.9%), seguida da
violência física (22.6%) e da violência sexual (19.1%). O local de maior risco
para a ocorrência de violência persiste em ser a própria habitação e o marido
continua a ser maioritariamente o agressor (72.7%) (Lisboa, 2008). Mais
recentemente, em 2010, nas estatísticas nacionais, a violência doméstica
constituiu-se como o terceiro crime mais participado (N=31235), representando
7.3% do total das denúncias às forças de segurança. A violência psicológica
domina as participações (76%), seguida da violência física (74%) (DGAI, 2010).
De modo complementar, no mesmo ano, os indicadores ainda provisórios do
homicídio conjugal informavam que foram mortas 43 mulheres de acordo com a
União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR, 2010).
Vários estudos têm documentado os elevados custos que habitualmente estão
associados a esta problemática (e.g., familiares, sociais), condicionando a
saúde física e psicológica da mulher (e.g., Koss, Ingram, & Pepper, 2001;
Stark, 2001; Stark & Flitcraft, 1996). As mulheres que estão expostas à
violência doméstica reportam altos níveis de utilização dos cuidados de saúde e
estão em risco de desenvolver perturbação psicológica e psiquiátrica (Campbell,
1998). A par disso, apresentam dificuldades comportamentais, emocionais e
relacionais, para além do potencial carácter incapacitante e destrutivo dos
maus-tratos (e.g., homicídio e suicídio).
Assim sendo, a elevada prevalência, o impacto significativo da violência
doméstica a curto e a longo prazo, bem como os custos financeiros que lhe estão
associados vieram reforçar o desenvolvimento de uma intervenção apropriada
dirigida ao agressor e à vítima e também da sua avaliação (Constantino, Kim,
& Crane, 2005).
No que respeita à vítima, e atendendo ao número crescente de pedidos de ajuda,
tornou-se necessário desenvolver modalidades1 de intervenção inovadoras e
eficazes dirigidas à mulher. Ainda que de modo insuficiente, nos últimos anos
têm sido documentadas diferentes modalidades psicoterapêuticas de intervenção
nesta problemática. Internacionalmente, a literatura reporta intervenções de
carácter individual, em grupo e, ainda, a terapia de casal (cf. Lundy &
Grossman, 2001).
Em Portugal, tem assumido lugar de destaque a intervenção em crise (Matos &
Machado, 1999), a intervenção de inspiração feminista (Neves & Nogueira,
2004) e a psicoterapia narrativa no formato individual (Matos & Gonçalves,
2002, 2005) e de grupo (Machado & Matos, 2001).
No plano científico, os estudos nacionais têm-se dirigido principalmente para a
caracterização do fenómeno, sobretudo a nível da sua prevalência e do impacto
causado às vítimas. Há estudos recentes sobre o processo de mudança da mulher
(Matos, 2006; Santos, 2008) mas continuam ausentes investigações acerca da
eficácia das intervenções preconizadas. Aliás, embora a intervenção nesta área
assuma cada vez mais relevância e expressão, a literatura é consensual quanto à
insuficiência de estudos que reportem a eficácia da maioria das intervenções
disponíveis para as vítimas (Lundy & Grossman, 2001).
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA: INTERVENÇÃO EM GRUPO COM MULHERES VÍTIMAS
Uma parte significativa do que conhecemos sobre a intervenção com mulheres
vitimadas pelos seus parceiros deriva dos poucos estudos publicados sobre a
eficácia das intervenções em grupo. Apesar desta modalidade poder assumir
diferentes filosofias (e.g., grupos de suporte ou de auto
ajuda), neste espaço reflectiremos sobretudo acerca dos grupos terapêuticos.
O surgimento da intervenção em grupo dirigida a mulheres maltratadas deve-se,
em grande parte, aos movimentos feministas dos anos sessenta e setenta (Wilson,
1997). Este tipo de intervenção começou por ser implementado nas casas abrigo,
uma vez que as mulheres viviam em comunidade, surgindo a necessidade de
intervir num formato grupal (Tutty & Rothery, 2002). Refira-se, aliás, que
a experiência de intervenção psicoterapêutica em grupo decorre da intenção,
habitualmente manifestada pela vítima, de partilhar a sua experiência com
outras mulheres com trajectos de vida semelhantes.
Segundo Tutty e colaboradores (1993), no plano internacional, o trabalho em
grupo é a forma de intervenção mais comum junto de mulheres que viveram
experiências de abuso. Uma das principais vantagens desta modalidade de
intervenção reside no facto de quebrar o isolamento a que estas mulheres estão,
muitas vezes, sujeitas. O contexto do grupo permite-lhes ainda validar a sua
experiência, receber informação, dar e receber suporte (e.g., emocional), bem
como perceber que o seu problema não é único e que existem formas alternativas
de lidar com a situação. Assim, o grupo pode ajudar a mulher "a perceber
que não está só e que os seus sentimentos de confusão, medo e desespero são
reais e partilhados por outras mulheres" (Webb, 1992, p. 209). Nalguns
casos, o grupo fornece também o suporte social necessário para a tomada de
decisões.
Muitos autores recomendam que a intervenção em grupo assuma uma perspectiva
feminista, na medida em que esta condena a violência, retira a responsabilidade
da vítima situando-a no agressor, reconhece a forma como a sociedade perpetua
essa violência e foca-se na violência em detrimento das interacções do casal
(Hartman, 1983, citado por Tutty & Rothery, 2002; Pressman, 1984, citado
por Tutty et al., 1993).
Em 1984, Pressman (citado por Tutty et al., 1993) procurou definir as linhas
orientadoras para a intervenção nesta problemática. Estas acabaram por se
assumir como temas comuns aos grupos de intervenção entretanto documentados na
literatura sobre o tema. Nesse contexto, a negação e/ou minimização da
violência necessitam de ser identificadas, reconhecidas e trabalhadas de forma
apoiante, através da educação acerca das dinâmicas violentas. A par disso, a
mulher precisa também de explorar as razões que a levaram a permanecer numa
relação violenta, de forma a reduzir o seu sentimento de culpa. Nesse sentido,
muitos grupos abordam a forma como as crenças relativas aos papéis tradicionais
masculino e feminino legitimam a violência na intimidade. Concomitantemente,
apoiar as mulheres a identificar formas de resistir ao abuso, a protegerem-se a
si e aos seus filhos são outros objectivos. Daí que a segurança da mulher (e
dos filhos) seja prioritária na intervenção e, por isso, é muitas vezes
necessário traçar um plano de segurança desde o início do grupo. Igualmente, é
importante permitir à mulher sentir e expressar raiva por ter sido vitimizada,
bem como proporcionar um espaço para esta lidar a perda da esperança que tinha
na relação e, nalguns casos, ajudá-la a fazer o luto da relação que terminou.
Finalmente, o sentimento de isolamento é atenuado se a mulher desenvolver laços
fortes que possam evoluir para redes de suporte informais que sobrevivam ao
grupo (Tutty & Rothery, 2002). McBride (2001) destaca ainda como principal
vantagem da terapia em grupo o empoderamento que esta concede à mulher ao dotá-
la de competências para tomar as suas próprias decisões e fazer escolhas. Em
síntese, espera-se que estas linhas orientadoras potenciem o impacto positivo
do grupo na auto-estima e sentido de eficácia da mulher.
Estão descritos na literatura alguns exemplos que demonstram que a intervenção
em grupo se tem multiplicado. Estão documentadas, por exemplo, experiências
desenvolvidas junto de mulheres com Perturbação de Stress Pós-Traumático (e.g.,
Schlee, Heyman, & O'Leary, 1998) e junto de mulheres idosas abusadas
(e.g., Brandl, Hebbert, Rozwadowski, & Spangler, 2003). Contudo, e como já
afirmámos antes, tem sido conduzida pouca investigação acerca da eficácia das
intervenções com vítimas de violência doméstica (Tutty, Bidgood, & Rothery,
1996). De seguida, reflectimos sobre os estudos existentes nesta área, de modo
a fornecer ao leitor uma visão geral sobre a eficácia da intervenção em grupo.
INTERVENÇÃO EM GRUPO COM MULHERES VÍTIMAS: QUAL A SUA EFICÁCIA?
Em 1991, Holiman e Schilit conduziram uma intervenção em grupo psico-
educacional com mulheres vítimas de violência na intimidade (n=12), cujo
objectivo era ajudar as participantes a aprender a centrar-se em si. Recorreram
sobretudo a técnicas cognitivas, expressivas e de suporte social. A intervenção
envolveu dez sessões de grupo, cada uma com duas horas de duração. A sessão
inicial consistia numa orientação geral às participantes. Da segunda à quinta
sessão incluíram uma parte inicial de cariz psico-educacional, seguida de uma
hora de actividades de grupo. As últimas quatro sessões centravam-se no
trabalho emocional (Abel, 2000). O designutilizado foi quase-experimental, com
pré e pós-teste. No que se refere aos resultados, foram encontradas melhorias
significativas no que se refere à raiva e à satisfação geral. No entanto, este
estudo enfrentou algumas limitações, tais como a amostra reduzida, medidas
insuficientes e a ausência de grupo de controlo (Abel, 2000).
Cox e Stoltenberg publicaram, também em 1991, a avaliação de um programa de
intervenção em grupo dirigido a mulheres vítimas de violência na intimidade.
Recorrendo a uma amostra maior (n=21) e a uma metodologia experimental. Os
autores desenharam uma investigação com os seguintes objectivos: (a) avaliar as
condições necessárias para aumentar as oportunidades das mulheres saírem da
relação abusiva; e (b) identificar intervenções que possam ajudar as mulheres a
lidar com problemáticas como o desenvolvimento pessoal, o ajustamento social e
a orientação vocacional (Abel, 2000). A intervenção levada a cabo assumiu um
cariz psico-educacional, decorria três vezes por semana, num total de doze
horas e era conduzida por duas facilitadoras. A intervenção continha cinco
módulos integrando várias técnicas: (1) terapia cognitiva, orientada para
melhorar o auto-conceito da mulher, as suas competências relacionais e a sua
preparação para o mundo do trabalho; (2) assertividade e competências de
comunicação, com o objectivo de conhecer os seus direitos e praticar
competências orientadas para a sua defesa. Uma vez que aumentar a assertividade
da vítima encerra o risco de agressão, este módulo poderia incluir também
competências de segurança (e.g., identificar pistas do abuso, desenvolver
planos de fuga, treinar o auto-controlo emocional); (3) resolução de problemas,
envolvendo questões como a definição do problema, a geração de alternativas de
resposta, a tomada de decisões e a verificação da adequação destas; (4)
aconselhamento vocacional, incluindo o despiste de áreas de interesse e
competência, a identificação de recursos de formação profissional e o treino de
procura de emprego e, finalmente, (5) a tomada de consciência de si e do seu
corpo, momento em que se encorajava a mulher a discutir aspectos relacionados
com a auto-imagem, nomeadamente em termos corporais. Na implementação deste
programa foi utilizada uma multiplicidade de estratégias, incluindo discussões
de grupo, estratégias mais didácticas e técnicas de disputa cognitiva. No que
toca aos resultados, os autores concluíram que não havia diferenças
significativas entre o grupo terapêutico e o grupo de controlo e que em ambos
houve uma melhoria na auto-estima. Apesar de tudo, num dos dois grupos
terapêuticos registou-se adicionalmente melhorias ao nível da ansiedade e
depressão. O reduzido grupo de participantes (menos de dez participantes em
cada grupo), bem como a ausência de avaliação de follow-upsão as principais
limitações apontadas a este estudo.
Por sua vez, Tutty, Bidgood e Rothery (1993) levaram a cabo doze grupos de
suporte, cujo objectivo era colocar um fim à violência, através da (1) educação
das participantes acerca do papel feminino e masculino, (2) (re)construção da
sua auto-estima e (3) ajuda no desenvolvimento de planos concretos. As sessões
de grupo estendiam-se ao longo de dez a doze semanas. Cada sessão de grupo
durava de duas a três horas. As facilitadoras eram mulheres provenientes das
várias áreas do trabalho social (Abel, 2000). O estudo de eficácia revelou, com
uma amostra total de 76 participantes, com designquase-experimental e com pré e
pós-teste, ganhos substanciais, nomeadamente ao nível do aumento do sentimento
de inclusão/suporte emocional, da auto-estima, do locusde controlo interno e da
diminuição do stresspercebido, bem como das atitudes tradicionais em relação ao
casamento e à família. Verificaram-se, ainda, alterações ao nível do
funcionamento marital (e.g., maior expressão de afecto, menos comportamentos de
controlo) e uma diminuição (embora não cessação) dos comportamentos abusivos.
Os autores não deixam, contudo, de fazer referência a um conjunto variáveis de
processo que podem condicionar os resultados num formato de intervenção em
grupo: o tamanho do grupo, os níveis de participação, a circunstância da mulher
completar ou não todo o processo, a influência dos facilitadores (e.g., tipo de
orientação e de formação - psicólogos, assistentes sociais), a
experiência de participação da mulher em grupos anteriores, a idade da mulher,
o facto de coabitar ou não com o parceiro. Em geral, estas condições não tinham
um efeito significativo nos resultados, mas existiam algumas diferenças no
follow-upapós seis meses.
Um outro estudo quase-experimental foi desenvolvido por Rinfret-Raynor e Cantin
(1997) com o objectivo de comparar o efeito de diferentes filosofias de
intervenção, entre três grupos, envolvendo um total de sessenta mulheres
vitimadas pelos parceiros. Um grupo foi conduzido de acordo com a orientação
feminista, o segundo baseou-se na teoria feminista individual e o terceiro
grupo recebeu uma intervenção standard(aquela que normalmente as instituições
estatais fornecem). Embora inicialmente com o intuito de utilizar um design
experimental, os autores tiveram muitas dificuldades no recrutamento das
participantes. Os dados foram recolhidos através de entrevistas em quatro
momentos diferentes: um primeiro momento no pré-teste; um segundo momento no
pós-teste um mês depois da intervenção; no follow-upapós 6 meses e, finalmente,
no follow-upapós um ano. As variáveis estudadas foram o tipo de terapia, o tipo
de violência, a auto-estima, as estratégias de coping, a assertividade, o
ajustamento social, o ajustamento do casamento e o ajustamento da díade. Este
estudo demonstrou a eficácia das abordagens estudadas no trabalho com mulheres
vítimas de violência na intimidade. Curiosamente, os autores não encontraram
diferenças entre as diferentes orientações: as mulheres mudaram, por norma, nos
três tipos de intervenção. Estes resultados são encorajadores, na medida em que
se percebeu que, dando ajuda adequada às vítimas, estas são capazes de
descobrir recursos pessoais e sociais, de forma a eliminar ou diminuir a
violência que experienciam. Igualmente, são capazes de reconstruir a sua vida
pessoal e social, à medida que experienciam melhores condições sócio-
económicas, aumentam a sua auto-estima, melhoram a assertividade e o
ajustamento social e promovem a sua condição geral de saúde (Rinfret-Raynor
& Cantin, 1997). De referir que as mudanças que ocorreram nas participantes
foram significativas, principalmente em duas áreas: na diminuição da violência
e nas variáveis psicológicas afectadas pela violência (Rinfret-Raynor &
Cantin, 1997).
Já o estudo desenvolvido por McBride (2001) teve como objectivo determinar os
resultados de um programa de intervenção psico-educacional de duas fases que
tinha sido oferecido, ao longo de muitos anos, a mulheres que estavam a ser ou
tinham sido abusadas pelo parceiro. Cada grupo era altamente estruturado e
baseava-se em técnicas feministas e cognitivo-comportamentais. A primeira fase
era desenhada para introduzir as dinâmicas do abuso, bem como para avaliar o
seu impacto nas participantes. A segunda fase, mais centrada em problemáticas
consequentes ao abuso, abordava a culpa, a vergonha, as dinâmicas da família de
origem e a comunicação não saudável. A autora utilizou um designquase-
experimental, com pré e pós-teste e avaliou três grupos, com uma amostra total
de 189 participantes. As variáveis estudadas foram: a auto-estima, a depressão,
o impacto do abuso em termos de sintomas intrusivos relacionados com essa
experiência abusiva (tais como sentimentos, ideias ou pesadelos) e o impacto do
abuso quanto a evitar pensamentos, sentimentos ou situações associadas ao
evento traumático. Foram encontradas melhorias estatisticamente significativas
em todas as variáveis estudadas. Neste sentido, na primeira fase verificou-se
uma redução de sintomas intrusivos, enquanto na segunda fase foi encontrada uma
maior redução nos sintomas depressivos. As mulheres que obtiveram resultados
mais baixos tinham em comum o facto de não ter emprego, não ter escolaridade,
ter história psiquiátrica, já ter tido acompanhamento psicológico e não ter
suporte social. Relativamente às limitações deste estudo, salienta-se a
ausência de grupo de controlo e a selecção não aleatória das participantes, bem
como a utilização de medidas de auto-relato e ainda a discrepante ecologia dos
grupos (e.g., diferentes facilitadores em diferentes fases; diferentes estilos
dos facilitadores; ruído da sala onde se realizavam os grupos; assiduidade dos
membros do grupo; disponibilização ou não de comida e água às participantes;
compreensibilidade dos materiais distribuídos). Os autores também não estudaram
a importância do suporte social, admitindo no entanto que o deveriam ter feito.
Em 2004, foi desenhada por Schwartz, Magee, Griffin e Dupuis uma intervenção em
grupo para prevenir os factores de risco e aumentar os factores protectores
associados à violência no namoro e à violência doméstica. O grupo recorreu a
uma intervenção psico-educacional manualizada para abordar as questões de
género, papéis sociais e conflitos, bem como atitudes saudáveis (e não
saudáveis), competências de comunicação e gestão de raiva, ou seja, factores
habitualmente relacionados com o envolvimento em relações violentas na
intimidade. A amostra era constituída por vinte e oito participantes (seis
grupos) que participaram em quatro sessões de grupo, cada uma de hora e meia. O
grupo experimental (n=30) foi comparado com o grupo de controlo (n=30) que
recebeu intervenção standard. Os resultados obtidos suportam a eficácia da
intervenção preconizada já que permitiu modificar os factores que facilitam o
envolvimento neste tipo de relações não saudáveis. Nesse sentido, o grupo
experimental, quando comparados os resultados do pré e do pós-teste, registou
uma diminuição na aceitação dos estereótipos tradicionais dos papéis de género
e, ainda, no uso de estratégias de redução de escalada do conflito e de
atribuições negativas acerca do alvo da raiva. Além disso, o grupo experimental
também demonstrou um aumento significativo na capacidade de expressão
emocional, de gestão da raiva e na adopção de atitudes saudáveis. No que se
refere a limitações, destacam-se: o tamanho reduzido da amostra; a utilização
de instrumentos de auto-relato; a variação das características do facilitador e
da composição do grupo; a especificidade da população (i.e., estudantes de uma
universidade) e a ausência de follow-up.
Mais recentemente, o estudo piloto de Constantino, Kim e Crane (2005) testou a
eficácia de uma intervenção em grupo, a nível do suporte social, com vítimas de
violência na intimidade que residiam numa casa abrigo (n=24). A intervenção foi
desenhada em oito sessões semanais, sendo cada sessão de noventa minutos. O
principal objectivo era fornecer recursos e informação acerca dos recursos
disponíveis na comunidade. No que se refere ao design, recorreu-se a
instrumentos para avaliar a saúde geral, que foram examinados no pré e pós
teste, utilizando-se ainda um grupo de controlo. Os autores concluíram que as
intervenções no suporte social, com mulheres vítimas de violência na intimidade
que se encontrem em casas abrigo, são eficazes no que respeita a melhorar a sua
saúde geral e resultam numa menor utilização dos serviços de saúde (Constantino
et al., 2005). As participantes melhoraram quanto aos sintomas de stress,
quanto à percepção de suporte social e reportaram ainda uma menor utilização
dos serviços de saúde.
Na Tabela_1 sistematizamos um conjunto de dimensões que caracterizam, de modo
mais amplo, os estudos de eficácia descritos.
Em síntese, a partir da Tabela_1, constata-se que a maioria dos estudos
internacionais docu mentam o sucesso da modalidade de intervenção em grupo,
anunciando-a como útil para este tipo de população, nomeadamente ajudando a
recuperar o controlo sobre a sua vida e a diminuir a violência que experienciam
(e.g., Rinfret-Raynor & Cantin, 1997). Muitos dos estudos publicados (cf.
Cox & Stoltenberg, 1991; Holiman & Schilt, 1991; Rinfret-Raynor &
Cantin, 1997; Tutty et al., 1993) encontraram ainda melhorias estatisticamente
significativas noutras áreas, como por exemplo aumento da auto-estima, das
competências pessoais e sociais, diminuição da raiva e da depressão, alterações
positivas de atitudes face ao casamento e à família, diminuição da tolerância
ao abuso a que estão expostas. Alguns autores (e.g., Machado & Matos, 2001)
afirmam, em complementaridade, que a terapia de grupo revela um grande
pragmatismo na abordagem dos problemas trazidos por este tipo de clientes e uma
significativa eficácia na consolidação dos resultados construídos a nível
individual.
De acordo com Rinfret-Raynor e Cantin (1997) há factores comuns a estas
intervenções que explicam o seu sucesso, tais como: (1) uma perspectiva
feminista sobre o problema; (2) o trabalho centrado na mulher, em detrimento do
casal ou da família; (3) a ênfase em (re)contruir a auto-estima, o
desenvolvimento pessoal e a autonomia e, por fim, (4) o trabalho emocional.
No que se refere aos objectivos de intervenção, ainda que se encontrem algumas
diferenças entre os estudos, percebe-se que estes vão de encontro às metas
habitualmente traçadas no trabalho técnico com esta população. Estes incluem,
entre outros, a redução do isolamento, o aumento da auto-estima e do auto-
conceito, a planificação da segurança pessoal, a educação acerca do ciclo da
violência, a promoção da tomada de decisão, a resolução de problemas, a
consciencialização acerca do papel feminino e masculino na sociedade, o treino
da assertividade e o empoderamento.
Quanto à filosofia de intervenção, conclui-se que predominam as intervenções de
cariz psico-educacional (Cox & Stoltenberg, 1991; Holiman & Schilit,
1991; McBride, 2001; Schwartz et al.,2004), com orientação cognitivo-
comportamental e feminista (Cox & Stoltenberg, 1991; Holiman & Schilit,
1991; McBride, 2001; Rinfret-Raynor & Cantin, 1997).
Em termos de formato, em média, os grupos decorrem ao longo de oito a dez
sessões (Constantino et al., 2005; Holiman & Schilit, 1991; McBride, 2001;
Tutty et al., 1993), tal como recomendado pela literatura sobre a intervenção
em grupo (e.g., Yalom, 1995). Relativamente à estrutura dos programas de
intervenção e às técnicas utilizadas, assistimos a alguma homogenidade entre as
propostas. Assim, tal como Fleming (1979, citado por Margolin, Sibner, &
Gleberman, 1988) recomenda, assiste-se ao uso simultâneo de técnicas didácticas
(e.g., exposição de temas, biblioterapia), treino de competências (e.g., role-
playing, relaxamento, gestão da raiva) e, ainda, a modalidades de intervenção
menos estruturadas, tais como as discussões de grupo.
Contudo, apesar das múltiplas recomendações à intervenção em grupo, esta
modalidade não está imune a críticas. Desde logo, um dos problemas
identificados é a escassez dos estudos publicados até ao momento acerca da
eficácia destas intervenções. Além disso, como se constata através da Tabela_1,
os estudos disponíveis sobre os resultados da terapia de grupo com mulheres
vítimas conhecem um conjunto de limitações, nomeadamente metodológicas. As
amostras envolvidas nos estudos são normalmente pequenas, como se pode
verificar nos estudos de Cox e Stoltenberg (1991, n=21), e de Holiman e
Schilits's (1991, n=12), a título de exemplo. Outro constrangimento
importante tem sido o facto de raramente serem contemplados grupos de controlo
- apenas três dos estudos incluídos nesta revisão tinham grupo de
controlo - nem avaliações de follow-up -relatados apenas em duas
investigações. Os problemas relacionados com a confidencialidade, a
centralização das sessões em determinados temas e o facto deste formato nem
sempre responder às necessidades individuais dos seus membros são outras
críticas frequentemente apontadas (Hamby, 1998).
Contudo, e não obstante essas lacunas, os resultados encontrados até ao momento
podem ser interpretados como fornecendo evidência inicial da eficácia da
intervenção em grupo com mulheres vítimas de violência na intimidade (Tutty
& Rothery, 2002), a qual carece ser mais comprovada. Nesse contexto,
persistem muitos desafios para a investigaçãoda intervenção em grupo nesta
problemática, nomeadamente:
1) Selecção aleatória das participantes: A violência na intimidade
traça um percurso que nem a própria vítima consegue controlar
(Davies, Lyon, & Monti-Cantania, 1998, citado por Zink &
Putman, 2005). A vítima quebra o segredo acerca desta problemática
selectivamente e escolhe onde quer pedir ajuda e que tipo de ajuda
precisa, fazendo estas escolhas com base na sua capacidade para lidar
com o abuso e para procurar apoio (Zink, Elder, & Jacobson, 2004,
citado por Zink & Putman, 2005). Dessa forma, uma selecção
aleatória de participantes torna-se uma tarefa complexa.
Adicionalmente, pode ser difícil seleccionar as vítimas para os
diferentes tipos de intervenção (grupo, individual). O mais
importante é ir de encontro às necessidades individuais da vítima e
aos seus desejos que dependem, muitas vezes, da forma como elas estão
a lidar com a violência.
2) Utilização de grupo de controlo:Constituir uma amostra de controlo
(nomeadamente aleatório) é um dos maiores desafios. A utilização da
lista de espera nesta problemática, enquanto grupo de controlo,
coloca também questões éticas importantes, como a de não providenciar
apoio numa situação em que pode estar em causa a vida de uma vítima.
3) Avaliação de seguimento (follow-up):Monitorizar os resultados de
uma intervenção ao longo do tempo é um outro dos grandes desafios
devido à mobilidade das vítimas por motivos de segurança. Como
consequência, os estudos longitudinais, além de muito dispendiosos,
implicam um grande esforço e um trabalho muito exigente por parte dos
investigadores.
4) Selecção criteriosa dos instrumentos utilizados:Os estudos nesta
área são habitualmente criticados porque os resultados são obtidos
através de medidas de auto-relato (Wathen & McInerney, 2003,
citado por Zink & Putman, 2005). Para além disso, a análise dos
instrumentos utilizados demonstrou a ausência de consenso acerca
deste aspecto já que raramente o mesmo instrumento é utilizado nos
vários estudos (cf. Tabela_1). A acrescentar, medidas para avaliar a
qualidade de vida e o estado de saúde normalmente não são utilizadas
(Ramsay et al., 2002, citado por Zink & Putman, 2005) e são
poucos os instrumentos disponíveis criados especificamente para esta
população maltratada.
Ainda assim, com base nos estudos disponíveis, é possível reunir um conjunto de
implicações práticas, que poderão aumentar a qualidade das intervenções em
grupo implementadas para que estas sejam efectivamente facilitadoras de
mudanças qualitativas na vida das participantes. Assim, inicialmente, importa
fazer uma avaliação eficaz para determinar se as participantes possuem
recursos, estratégias de copinge resistência emocional para ingressar num
grupo. Outras variáveis que, igualmente, se recomendam avaliar são: (1)
perceber se a mulher possui os recursos básicos de vida, tais como condições
habitacionais, alimentação, acesso a transportes; (2) avaliar os
constrangimentos externos que possam facilitar a desistência do grupo (e.g.,
não ter com quem deixar os filhos; viver numa situação de alto risco de
violência, na qual o parceiro restringe os movimentos da mulher); (3) avaliar
se stressoresactuais presentes na vida das participantes estão a diminuir as
suas capacidades de copingou os recursos de que dispõe; e iv) determinar se a
mulher está emocionalmente pronta para uma experiência em grupo (McBride,
2001). Todas estas sugestões2 visam assegurar que as participantes estão
prontas para integrar a intervenção em grupo e para garantir/aumentar a
permanência destas no grupo. Para além disso, essa informação permitirá adequar
os procedimentos a adoptar às respectivas participantes.
Além disso, com vista ao desenvolvimento de estratégias de intervenção
empiricamente validadas, seria igualmente importante estudar as variáveis que
contribuem para uma intervenção em grupo com sucesso (McBride, 2001). Tutty e
colaboradores deram o mote nesse campo ao analisar vários grupos e dinâmicas
situacionais utilizadas no seu estudo de 1993, como por exemplo o tamanho do
grupo e a sua assiduidade, o número de facilitadores do grupo, bem como as
características individuais das participantes (e.g., idade, situação actual da
relação).
Por outro lado, torna-se relevante conduzir investigações no sentido de
comparar/contrastar estudos nas diferentes modalidades disponíveis de
intervenções em grupo para ajudar a identificar quais permitem uma melhoria
significativa do bem-estar da vítima. Por exemplo, está por documentar se
existem diferenças nas intervenções em grupo que (1) são abertas ou fechadas;
(2) são compostas por mulheres que estão na relação ou que saíram da relação;
(3) são psico-educacionais ou não estruturadas.
Tornou-se também claro, ao longo desta análise, a indispensabilidade da
avaliação dos resultados terapêuticos da intervenção em grupo. Além de perceber
"quanto" mudou com a intervenção, através do estudo da mudança do
ponto de vista estatístico, seria ainda imperativo conduzir estudos acerca dos
processos psicoterapêuticos. Assim, teríamos acesso ao "como" as
mulheres empreenderam mudanças realmente significativas na sua vida. Para este
efeito seriam necessários designsde análise do processo terapêutico, com
recurso a metodologias qualitativas. Paralelamente, outra área de interesse
seria dar voz às mulheres acerca das intervenções em grupo em que participaram,
através de entrevistas que captassem a sua narrativa após o término do grupo.
Estas orientações para o estudo da intervenção em grupo com mulheres vítimas de
violência na intimidade têm como objectivo último promover o conhecimento sobre
a mudança das mesmas, de modo a informar os psicólogos que actuam nesta área
acerca da(s) forma(s) mais adequada(s) de intervir nestas situações.