Tradução e validação da Escala de Resiliência para Estudantes do Ensino
Superior
O termo resiliênciasurge hoje em numerosos textos de psicologia salientando a
vontade dos investigadores compreenderem a possibilidade do desenvolvimento
adaptativo poder ocorrer em ambientes de adversidade. A resiliência, em termos
gerais, refere-se "à adaptação positiva manifes tada em face de
experiências negativas" (Masten & Gewirtz, 2008, p. 22). Pode ser
definida como capacidade de adaptação após (ou nas) adversidades, estando
conotada com a ideia de força interior, competência, flexibilidade, copingbem
sucedido (Wagnild & Collins, 2009). Em sentido inverso, a resiliência
encontra-se associada negativamente com a depressão, percepção de stress e
ansiedade (Wagnild & Collins, 2009). O estudo da resiliência aparece assim
associado à consideração do risco ou vulnerabilidades no desenvolvimento, sendo
precursor do interesse pelo tópico o trabalho de Norman Garmezy ao procurar
compreender a natureza e origem da esquizo frenia, estudando o desenvolvimento
de crianças filhas de pais com doenças mentais (Masten & Powell, 2003). Se
se tornou claro que os distúrbios mentais (intra-familiares) sugeriam a
presença de influências genéticas - criando susceptibilidades que seriam
potenciadas pelas adversidades do seu ambiente - por outro lado,
investigadores desenvolvimentais observaram que alguns dos bebés e crianças
seriam mais sensíveis (ou reactivas) do que outros, às experiências ambientais
negativas (Masten & Gewirstz, 2008). Multiplicaram-se entretanto as
investigações em redor dos factores de risco para o desenvolvimento (e.g.,
prematuridade, pobreza, maus-tratos, modelamento da violência), com as
ressalvas dos modelos desenvolvimentaisa destacar que o efeito dos factores de
risco traduziria uma sinergia, conjugando diversas influências e tendo efeitos
bi-direccionais na criança e contexto (Masten & Gewirstz, 2008; Wright
& Masten, 2006). As variáveis que promovem (ou inibem) a resiliência têm
sido estudadas quer no sujeito, na família, na comunidade, como no grupo
cultural(Gillespie & Allen-Craig, 2009; Naglieri & LeBuffe, 2006),
traduzindo as influências do modelo de Brofenbrenner no desenvolvimento.
Recorde-se que, para o autor, o desenvolvimento ocorre numa interacção mútua
entre a criança e o ambiente próximo, sendo que este último, por seu turno, é
afectado (e afecta) os contextos (progressivamente mais afastados) nos quais a
criança se insere (e.g., Papalia, Olds, & Feldman, 2008).
A definição de resiliência proposta no Dicionário de Psicopatologia da Criança
e Adolescente, sugere que o conceito seja usado "(...) para distinguir e
propor conceptualmente as disposições identificáveis de determinados indivíduos
para atravessar, sem danos sensíveis, acontecimentos da vida com alto
risco" (Houzel, Emmanuelli, & Moggio, 2004, p. 884). Riscoe
resiliênciasão então dois conceitos que tendem a surgir juntos nas análises do
desenvolvimento. É ainda no mesmo Dicionário que se pode ler: "Risco,
vulnerabilidade, resiliência poderiam ser propostos como tripé axial da
prevenção" (Houzel et al., 2004, p. 885).
Autores que têm estudado a resiliência em adultos idosos sugerem que a
resiliência pode aumentar na vida adulta, traduzindo, nesses casos, o efeito
dos sucessos anteriores em lidar com a adversidade (Bauman, Adams & Waldo,
2001; Wagnild & Collins, 2009), ou, no caso dos muito idosos, quando
conseguem identificam factores como autonomia, controlo e suporte social nas
suas vidas (Bauman et al., 2001). As raízes para a resiliência são encontradas
na infância, eventualmente nas primeiras relações, que contribuem (ou não) para
que o indivíduo possa superar os obstáculos (em termos de tarefas ou desafios
desenvolvimentais) com que se vai deparando.
Salienta-se sempre a noção de que a influência dos factores de risco nunca pode
ser entendida como determinista e absolutista, no desenvolvimento, mas apenas
probabilística já que a mani festação de perturbações no sujeito resulta da
interacção entre factores de risco e factores de protecção (Anaut, 2002).
Trata-se de uma combinação de factores ou variáveis diversas, podendo ser
encarada como um equilíbrio de forças (Anaut, 2002). Nesta óptica, a
resiliência pode ser vista como resultado do equilíbrio desenvolvimental entre
factores de risco- i.e., variáveis capazes de aumentar a proba bilidade
do sujeito desenvolver perturbações psicológicas ou do comportamento, e que
podem situar-se, como dissemos, no indivíduo, família, meio social (e.g.,
depressão da mãe, doença crónica, pobreza, criminalidade); e factores de
protecção- i.e. factores que medeiam a reacção à situação de risco,
amortecendo o efeito do risco e, correlativamente, as suas consequências
negativas (Anaut, 2002; Jenkins, 2008). Também estes podem ser individuais
(e.g., temperamento, QI), ou contextuais (e.g., suporte familiar e extra-
familiar) (Machado & Fonseca, 2009; Rutter, 1990). Note-se que os estudos
hoje tendem a ser mais precisos contemplando não apenas a presença
versusausência de um eventual factor (e.g., protector) que se esteja a estudar,
mas a sua qualidade(e.g., "a criança sofre com a presença do pai se este
for antisocial, mas beneficia se este não o for", in Rutter, 2003, p.
489).
O risco- enquanto probabilidade elevada de um resultado negativo -
raramente ocorre isolado e, nesta linha de investigação, a identificação do
risco não implica a identificação de um indivíduo, mas de um grupo (Wright
& Masten, 2006). Tomando exemplos menos dramáticos do que os analisados nos
estudos clássicos acerca do conceito, se considerarmos o caso dos estudantes
universitários que saem de casa para estudar - assumindo esta saída,
metaforicamente, como uma nova Situação Estranha(Kenny, 1987) - podemos
identificar determinadas variáveis que potenciam o risco de inadaptações
desenvolvimentais (e.g., elevados níveis de introversão, isolamento, pertencer
a minorias, estar num ambiente estranho e/ou culturalmente muito diverso,
consumo excessivo de álcool, padrões inseguros de vinculação, ausência de
estratégias activas de coping) (Li, 2008; Machado, 2007; Machado &
Oliveira, 2007; Pereira, 2006) - compensadas, ou não, consoante os
recursos internos do sujeito [e.g., um padrão seguro-autónomoe coping activo
(Li, 2008)], ou do ambiente próximo.
Para além do risco,o segundo ponto-chave na análise da resiliência é a
constatação de que o indivíduo "está bem", ou seja, a sua adaptação
tendo em conta as tarefas desenvolvimentais especí ficas (no seuperíodo da
vida) (Bauman et al., 2001; Masten & Powell, 2003; Wright & Masten,
2006). Retomando o exemplo dos universitários, teríamos a ausência de patologia
e adequação nas tarefas de desenvolvimento da sua idade (e.g., sucesso
académico, boas relações interpessoais) (Arnett, 2000, 2001; Masten &
Powell, 2003). McCarthy, Lambert e Moller (2006) analisam o papel mediador de
dois tipos de recursos psicológicos (que podemos considerar características
resilientes) - capacidade geral para lidar com o stresse e capacidade
específica para regular o afecto negativo - na relação entre vinculação
aos pais e adaptação à Universidade, tendo verificado o efeito
"amortecedor" de ambas as capacidades referidas.
Embora dificilmente encontremos uma definição única, existe uma noção central
que liga a resi liência ao copingbem sucedido, ou ao ultrapassar o risco e a
adversidade, ou ao desenvolvimento de competências perante o stresse severo
(Doll & Lyon, 1998; Jenkins, 2008; Rutter, 1979). Ou, em termos mais
restritos, a resiliência é associada à capacidade do indivíduo sobreviver a um
trauma, ou seja, à sua resistência face a condições adversas e a sua capacidade
em desenvolver respostas adaptativas (Anaut, 2002). A resiliência surge assim
como conceito multidimensional e, para diversos autores, deve ser encarada mais
enquanto um "processo fluído do que enquanto um traço fixo" (Bauman
et al., 2001, p. 3) - querendo isto dizer que um indivíduo que manifesta
resiliência numa situação (ou estádio) da vida, pode não o manifestar noutra(o)
(Bauman et al., 2001). Outros preferem considerá-la enquanto característica
naturaldo sujeito (e.g., Kobasa, 1987, cit. in Li, 2008).
Mais útil do que considerar estas questões em termos de o indivíduo
"apresentar" ou "não apresentar" características
resilientes, é a questão de sabermos (com precisão) o tipo de exigências que
têm maior probabilidade de "pôr à prova" a prossecução das tarefas
desenvolvimentais de cada período da vida (ou seja, que põem à prova a
resiliência)- e já o sabemos em larga medida (cf. e.g., Bauman, et al.,
2001; Masten & Powell, 2003).
Uma das dificuldades no estudo da resiliência refere-se ao facto de, em rigor,
a sua consideração (i.e., da sua presença/efeito) ser inferencial: "(...)
a avaliação da resiliência é inferencial, a partir do exame do risco e dos
factores de adaptação positiva (Naglieri & LeBuffe, 2006, p. 109). A mesma
ideia surge em Jenkins (2008), quando refere que os juízos que fazemos (leia-se
acerca da presença de resiliência) incidem sobre a análise da exposição dos
sujeitos a factores que têm o potencialde induzir perturbações no
desenvolvimento normativo - numa minoria de sujeitos, esse potencial não
é concretizado. Encontramos assim muito mais informações acerca das
características da resiliência do que avaliaçõessobre resiliência (Wagnild
& Collins, 2009). Esta dificuldade não tem entravado todavia a tentativa
dos investigadores criarem instrumentos que permitam apreender o
"potencial" dos sujeitos reagirem positivamente aos obstáculos que
eventualmente surjam na sua trajectória desenvolvimental - por exemplo,
obstáculos à adequada concretização de tarefas desenvolvimentais (Masten &
Powell, 2003). Esses factores de protecção (potenciais) são encontrados na
literatura sobre a resiliência. A percepção de si-mesmo como resiliente tem
sido vista como promovendo a própria resiliência (Gillespie & Allen-Craig,
2009; Rew, Taylor-Seehafer, Thomas, & Yockey, 2001) - o que tem sido
usado na elaboração de programas de intervenção, por exemplo, com adolescentes
em risco (Gillespie & Allen-Craig, 2009).
Em termos globais, têm sido considerados como sistemas de protecção (básicos)
do desenvolvi mento humano, o sistema de vinculação, sistema de auto-eficácia,
ou seja, a motivação para a mestria, auto-regulação (i.e., regulação emocional
e do comportamento, controlo dos impulsos), desenvol vimento cognitivo e
aprendizagem (Masten & Powell, 2003). Nesta linha de ideias, Wagnild e
Young (1993) propuseram um instrumento para avaliar a percepção que o sujeito
tem de si próprio enquanto capaz (ou não) de enfrentar eventuais situações
difíceis e/ou imprevistas, ser perseverante, autónomo e ter uma percepção
positiva de si mesmo; trata-se da Resilience Scale,cuja tradução e análises
preliminares de adaptação, numa amostra de estudantes do ensino superior, aqui
apresentamos.
A Escala de Resiliência(Wagnild & Young, 1993) - definindo a
resiliência enquanto crenças acerca da sua própria competência e aceitação de
si mesmo e da vida de modo a promover a adaptação individual - é um
instrumento de auto-relato, composto por 25 itens, organizados segundo uma
escala tipo Lickert de 7 pontos (sendo o valor 1 correspondente a
"discordo total mente", o valor 4 corres pondente a "não
concordo nem discordo", e o valor 7 significando que o sujeito
"concorda totalmente" com a afirmação), podendo variar entre 25 e
175, indicando os resultados mais elevados maior resiliência (Rew et al., 2001;
Wagnild & Collins, 2009; Wagnild & Young, 1993). Um resultado abaixo
dos 121 é considerado pelos autores originais indicativo de "reduzida
resiliência"; um resultado entre 121 e 145 é considerado como
"resiliência moderada", e acima dos 145 é considerado de
"moderada elevada" a "resiliência elevada". Admite-se
ainda que cada item possa ser usado - em contexto clínico - como
"pretexto" para discussão com o sujeito (Wagnild & Collins,
2009). O sujeito responde consoante concorda ou não - aplicando a si
próprio - com a descrição que é feita em cada um dos itens (e.g.,
"Sou uma pessoa determinada", "Estou bem comigo
próprio"), ou relativamente à forma como se comporta em situações que
envolvam algum stresse (e.g., "Quando me encontro numa situação difícil,
costumo sair dela", "Sou capaz de me adaptar facilmente a situações
imprevistas").
Com o objectivo de avaliar a validade concorrente da Escala de Resiliência,
analisou-se a sua relação com o grau de ansiedade(enquanto traço) - dado
ser sugerido que a resiliência se correlaciona negativamente com a ansiedade,
bem como com uma elevada percepção de stresse e depressão (Wagnild &
Collins, 2009).
O traço de ansiedadeconstitui uma dimensão relativamente estável do indivíduo,
que se vai formando desde cedo, sendo influenciado pelas experiências precoces;
pode ser agudizado pelas relações que o indivíduo vai estabelecendo ao longo da
vida com outras figuras significativas (e.g., amigos, professores), as quais
podem, por sua vez, contribuir para uma valorização negativa do sujeito ou
retracção do amor (Spielberger, Pollans, & Worden, 1984). Refere-se à
tendência que as pessoas terão para perceber determinadas situações como
perigosas, ou ameaçadoras, respondendo-lhes com um aumento de ansiedade. A
avaliação do traço de ansiedade é relativa à frequência com que o indivíduo
manifestou ansiedade-estadono passado e a probabilidade de a manifestar no
futuro; sendo que a ansiedade-estadotem um cariz transitório, enquanto a
ansiedade-traçotem um carácter mais permanente.
Tem sido referido que os indivíduos com um traço de ansiedade elevado
experienciam, muitas vezes, sentimentos de incerteza quanto ao futuro,
dificuldades na resolução de tarefas e crenças (frequentemente infundadas) de
que algo de mal lhes irá acontecer; estudos com estudantes do ensino superior
revelam correlações positivas entre este traço e uma percepção negativa de si
próprio e dos outros (Dilmaç, Hamarta, & Arslan, 2009). Um dos instrumentos
usuais na avaliação da ansiedade é o State-Trait Anxiety Inventory-Y(STAI-Y, de
Spielberger, 1983, com adaptação portuguesa de Santos & Silva, 1997)
- instrumento de auto-relato constituído por 10 itens aos quais o sujeito
deve responder em que medida é que o que está descrito no item (e.g.,
"Sinto-me nervoso(a) e inquieto(a)"; "Tenho pensamentos que
me perturbam") corresponde à forma como se sente, de uma forma geral (0
- "Nada"; 1 - "Um pouco"; 2 -
"Moderadamente"; 3 - "Muito"). O score mais
elevado do sujeito nesta escala revela um traço de ansiedade mais acentuado. O
STAI já foi adaptado em mais de 30 línguas para investigação transcultural e
prática clínica, tendo revelado de uma forma consistente boas qualidades
psicométricas; na sua adaptação portuguesa (Santos & Silva, 1997), o
Inventário de Traço de Ansiedade revelou boa consistência interna (alfa de
Cronbach de 0.86) e correlações item-total entre .30 e .59, pelo que este
instrumento foi também usado no presente estudo.
MÉTODO
Participantes
O estudo foi realizado com alunos do Ensino Superior, da Escola Superior de
Tecnologia da Saúde de Coimbra, onde se recolheu uma amostra representativa dos
4 anos e dos 7 cursos ministrados na Instituição. Foi utilizada uma técnica de
amostragem por conveniência já que o investigador avaliou os alunos a que tinha
acesso mais facilmente.
A amostra é constituída por 451 sujeitos (dos 800 alunos que frequentavam a
instituição no ano lectivo 2008-2009). O critério de inclusão na amostra foi a
frequência em qualquer um dos cursos, sendo o critério de exclusão a idade
igual ou superior a 27 anos (estes alunos mais velhos são, habitualmente,
sujeitos com características diferentes da maioria - e.g., estudantes
trabalha dores, licenciados noutras áreas, ingresso por concurso especial).
Na amostra total temos 82 sujeitos do sexo masculino (18.2%) e 369 do sexo
feminino (81.8%), o que representa a realidade da instituição (frequentada
maioritariamente por raparigas). As idades encontram-se compreendidas entre os
18 e os 26 anos, sendo a idade média de 20,3 anos. A distribuição por ano
escolar (Quadro_1) e curso (Quadro_2) está representada nos quadros que se
seguem, verificando-se que a amostra se distribui de forma predominantemente
uniforme pelos 7 cursos da instituição e pelos 4 anos lectivos de cada curso.
Procedimentos
O processo de tradução da Resilence Scale(Wagnild & Young, 1993) seguiu os
procedimentos aconselhados (i.e., tradução da escala original por 3 peritos na
área, sendo cada uma dessas traduções sujeita a retroversão por outros 3
peritos com conhecimento de língua inglesa); finalmente, foram comparadas cada
uma destas três versões com a versão original, seleccionandose, por análise de
conteúdo, os itens com maior grau de semelhança à escala original, e estes
foram então traduzidos para língua portuguesa. A versão final da escala com os
25 itens seleccionados manteve as 7 opções de resposta (tal como a original).
A recolha de dados ocorreu na ESTeS - Coimbra, em sala de aula. Antes de
fornecer os instrumentos impressos em papel, o investigador informou os
sujeitos sobre os objectivos gerais da investigação, bem como sobre o anonimato
e a confidencialidade dos dados que iriam fornecer, tendo estes, dado o seu
consentimento prévio, relativo à participação na investigação em causa.
O primeiro instrumento entregue foi o Inventário de Traço de Ansiedade
(Spielberger, 1983), tendo sido dadas algumas instruções de preenchimento,
nomeadamente que estes deveriam responder pensando na forma como habitualmente
se "costumavam sentir". De seguida, foi entregue a Escala de
Resiliência(Wagnild & Young, 1983), e igualmente explicado que assina
lassem o grau em que consideravam que os itens melhor os descreveriam.
Os dados foram processados e analisados estatisticamente com o intuito de
avaliar as proprie dades psicométricas da versão portuguesa da Escala de
Resiliência.
RESULTADOS
Distribuição da amostra pelas variáveis em estudo
No que diz respeito ao comportamento da amostra em relação aos resultados
obtidos nos instru mentos de avaliação, apresentamos de seguida as médias,
desvios-padrão, valores mínimos e máximos para cada instrumento (Quadro_3), e
separadamente para rapazes e raparigas (Quadro_4).
Verifica-se, pela leitura do Quadro_4, que existem diferenças estatisticamente
significativas entre as médias obtidas por raparigas e rapazes nas escalas de
ansiedade-traço e de resiliência, sendo que as raparigas se percepcionam, em
média, como sendo mais ansiosas que os rapazes, e menos resilientes.
Consistência interna e correlação entre os itens e escala total
Com o objectivo de averiguar a fidelidade da Escala de Resiliênciaprocedeu-se à
análise da consistência interna através do cálculo do Alfa de Cronbach e dos
valores das correlações dos itens com a escala total (corrigidos). O Alfa de
Cronbach obtido para a amostra actual foi de 0.89, sendo este valor indicativo
de uma boa consistência interna (superior a 0.80) (cit. in Silva & Campos,
1998). Relativamente às correlações item-total, estas oscilaram entre 0.20 e
0.59, havendo apenas um item que apresentou uma correlação de 0.14 com a escala
total; estes valores respeitam os critérios defendidos por alguns autores,
respeitantes aos valores mínimos e máximos das correlações - que se
deverão situar entre os 0.20 / 0.30 e 0.70 / 0.80 (cit. in Silva & Campos,
1998).
Análise factorial
Avaliou-se, de seguida, a validade factorial da Escala de Resiliência. No
estudo original de Wagnild e Young (1993) foram encontrados dois factores
principais que os autores designaram por competência pessoale aceitação de si
próprio e da vida.No presente estudo, a análise factorial rea lizada com o
objectivo de confirmar a existência destes dois factores revelou apenas 37.8%
da variância total explicada, pelo que procedemos, numa segunda fase, a uma
análise factorial explo ratória, tendo obtido uma distribuição dos itens por
cinco factores que explicavam 52.5% da variância total.
Apresenta-se no Quadro_5 a distribuição dos itens da Escala de Resiliência
pelos 5 factores resultantes da análise factorial exploratória com rotação
varimax.
Observando o Quadro_5, nota-se que grande parte dos itens saturam no 1º Factor
e 2º Factor, enquanto os restantes se distribuem de forma uniforme pelos outros
factores. O 1º e o 2º factor explicam grande parte da variância total, sendo
que os restantes 3 factores explicam cerca de 5% cada um. Fazendo uma análise
de conteúdo, encontramos uma dimensão comum a todos os itens pertencentes a um
mesmo factor. O Factor 1corresponde à crença que o sujeito terá em si próprio
enquanto percepção positiva; o Factor 2tem a ver com a percepção de auto-
disciplina, referindo-se à análise que o sujeito fará da sua capacidade de se
auto-organizar na resolução de tarefas; o Factor 3avalia uma dimensão mais
autónoma do indivíduo, traduzida na capacidade para resolver as coisas,
sozinho; o Factor 4avalia a capacidade de resolução de problemas, focando a
forma como o sujeito enfrentará as situações; o Factor 5relaciona-se com a
avaliação de uma percepção mais positiva da vida, sem excesso de preocupações.
Foi, então, proposta a seguinte designação para cada um dos factores: Factor
1- Competência pessoal; Factor 2- Auto-disciplina; Factor 3-
Autonomia; Factor 4- Resolução de problemas; Factor 5- Optimismo.
Designações que constituem, para o presente estudo, os nomes das 5 sub-escalas
da versão portuguesa da Escala de Resiliência.
Após isto verificámos a consistência interna destas 5 sub-escalas, obtendo os
valores de alfa de Cronbach exibidos no Quadro_6.
Verificamos, assim, que os valores de alfa de Cronbach para as sub-escalas
"Competência Pessoal" e "Auto-disciplina" são
indicativos de uma boa consistência interna, enquanto para as sub-escalas de
"Autonomia", "Resolução de Problemas" e
"Optimismo" os valores estão um pouco abaixo do desejável
(provavelmente pelo número reduzido de itens que compõem estas sub-escalas).
Procedemos, a seguir, à análise dos coeficientes de correlação entre cada item
e respectiva sub-escala, bem como a contribuição particular do item para a
fidelidade das sub-escalas a que pertence através dos coeficientes de alfa de
Cronbach excluindo o item (Quadro_7).
Verificamos, pela leitura do quadro, que os valores de correlação dos itens com
a sub-escala a que pertencem se situam dentro dos valores aceitáveis (.29
- .67) e que a remoção de qualquer item não fará aumentar o valor de alfa
de Cronbach da sub-escala a que pertence.
Validade de conteúdo e concorrente
Com o objectivo de avaliar a validade de conteúdo desta estrutura de 5
factores, correlacionámos as sub-escalas entre si e com a escala total, tendo
obtido os resultados expressos no Quadro_8.
Verificamos que, à excepção da correlação entre as sub-escalas resolução de
problemase optimismo,todas as sub-escalas se relacionam entre si e com a escala
total de forma muito significativa (p<.01), sendo mais elevados os valores das
correlações entre a escala total e respectivas subescalas; os mais baixos
valores referem-se às correlações entre a sub-escala de optimismoe as de auto-
disciplinae autonomia.
Para avaliar a validade concorrente da Escala de Resiliência,comparámos estes
resultados com os resultados obtidos no traço de ansiedade - Inventário
de Traço de Ansiedade(Santos & Silva, 1997; Spielberger, 1983) - que
se julga variar de forma proporcionalmente inversa à resiliência. Os resultados
das correlações obtidas encontram-se no Quadro_9.
Observando o quadro seguinte, verifica-se que a resiliência se correlaciona de
forma negativa com o traço de ansiedade, sendo o valor desta correlação
altamente significativo. Verifica-se ainda que a correlação entre resiliência e
ansiedade-traço é mais forte nas raparigas - sugerindo que os sujeitos
(particularmente as raparigas) que se percepcionam como mais resilientes,
consideram-se, também, menos ansiosas.
Efectuaram-se ainda correlações entre as 5 sub-escalas de resiliência,
encontradas na presente versão, e o traço de ansiedade (Quadro_10).
Com base neste quadro, as 5 sub-escalas de resiliência correlacionam-se, de
forma significativa, com a Escala de Ansiedade-Traço, sendo que a sub-escala de
competência pessoalapresenta o valor da correlação mais elevado. Sendo este
valor negativo, podemos inferir que quanto "mais competente" o
sujeito se percepciona, menos ansioso será. As sub-escalas de auto-disciplina,
autonomia, resolução de problemase optimismorelacionam-se, também, de forma
significativa e negativa, com a Escala de Ansiedade-Traço.
DISCUSSÃO
O objectivo inicial deste trabalho consistia em encontrar uma escala de
resiliência que pudesse ser traduzida e adaptada à população portuguesa -
a Resilience Scalede Wagnild e Young (1993) pareceu-nos uma boa opção. Com
efeito, tem demonstrado boas qualidades psicométricas e tem sido utilizada em
diversas investigações, com amostras variadas (e.g.,adolescentes, jovens
adultos e idosos) (Bauman et al., 2001; Gillespie & Allen-Craig, 2009;
Wagnild & Collins, 2009).
Os resultados obtidos no presente trabalho permitem-nos concluir sobre as boas
propriedades psicométricas do instrumento. De facto, a sua consistência interna
revelada pelo valor de 0.89 no Alfa de Cronbach, e os valores das correlações
de cada item com a escala total entre 0.20 e 0.59 mostram que o instrumento tem
uma boa fidelidade. A distribuição obtida (em 5 factores) que explica 52.5% da
variância total, com pesos factoriais dos itens a variar entre .47 e .77,
sugerem que o instrumento tem validade factorial. No entanto, os valores de
alfa de Cronbach para as subescalas de autonomia, resolução de problemase
optimismoencontram-se um pouco abaixo do desejável, sendo também nestas três
sub-escalas que os valores de correlação item-total são inferiores (entre .29 e
.48) e o valor da correlação entre optimismoe resolução de problemasnão se
revelou significativo (tendo as correlações entre optimismoe auto-disciplinae
optimismoe autonomiasido as mais baixas, respectivamente de r=.18** e r=.22**).
A Escala de Resiliência mostrou ainda boa validade concorrente, ao
correlacionar-se de forma negativa e significativa (r=-.55**) com a Ansiedade-
traço, sugerindo, em consonância com a teoria, que os indivíduos que se
percepcionam como mais resilientes se sentem geralmente menos ansiosos.
Na nossa amostra, os rapazes percepcionaram-se como mais resilientes do que as
raparigas, sendo a correlação entre a resiliência e a ansiedade-traço mais
forte para as raparigas. Estas diferenças entre os sexos mereceriam maior
aprofundamento e controlo - traduzirão "reais" diferenças de
resiliência, ou diferentes níveis de "exigência" na avaliação
pessoal? Uma amostra mais equitativa entre rapazes e raparigas (ou, noutros
períodos do ciclo de vida) poderia, eventualmente, conduzir a resultados
diversos. A organização em cinco factores - aqui encontrada -
merecerá ser novamente testada, uma vez que difere da organização original (há
que ter em conta especificidades culturais usualmente encontradas em
prevalência de locus-controlo internoou externo- nomeadamente em sujeitos
destas idades - e que podem influenciar esta distribuição). Futuros
estudos poderão ajudar a confirmar a estrutura de 5 factores sugerida no
presente estudo ou, pelo contrário, confirmar a estrutura bifactorial dos
autores originais.
A Escala de Resiliênciade Wagnild e Young tem sido também utilizada como
"pretexto" para discussão sobre a percepção do sujeito na vida, em
contexto clínico, nomeadamente quando acompanhada de questões abertas sobre
(entre outros) o "sentido da vida", "perseverança",
"equanimidade" (Wagnild & Collins, 2009) e também em contexto
terapêutico (Gillespie & Allen-Craig, 2009; Rew et al., 2001). Admitimos,
como Wagnild e Collins (2009), que os indivíduos "são resilientesaté um
certo ponto"; por vezes, pelos mais diversos motivos (e.g., acumulação de
factores de risco, doença física, morte de um familiar, solidão, divórcio,
receio do futuro) a resiliência enfraquece - pelo que a (re)avaliação faz
todo o sentido em diferentes fases do ciclo de vida.