Pais responsáveis, filhos satisfeitos: As responsabilidades paternas no
quotidiano das crianças em idade escolar
MÉTODO
Participantes
Participaram no estudo 346 crianças do 3º ano de escolaridade (sexo masculino,
n=175; sexo feminino, n=171) de 23 turmas distribuídas por 10 escolas do 1º
Ciclo do Ensino Básico do Centro da Área Educativa do Porto. A idade dos
participantes varia entre os 8 e os 10 anos (M=8.17, DP=0.47). A variável Sexo
distribui-se equitativamente pelas turmas χ2(22, N=346)=23.55, ns, pelas
escolas, χ2(9, N=346)=9.46, ns,e também pela Idade das crianças, t(344)=1.06,
ns. Os pais e as mães vivem com as crianças participantes no estudo.
Instrumentos
Utilizou-se a Escala de Responsabilidade Parental - ERP (Lima, 2009) para
avaliar a perceção das crianças relativamente à forma como os pais e as mães
assumem responsabilidades parentais. Este instrumento é composto por 27 itens
com escalas de autorrelato de cinco níveis de resposta, rotulados da seguinte
forma: "nunca" (=0), "raramente" (=1), "algumas
vezes" (=2), "muitas vezes" (=3), "sempre" (=4).
A escala é constituída por quatro subescalas relativas às seguintes dimensões:
Cuidados e Interesse (CI), Apoio Emocional e Estimulação (AEE), Escola (Esc.) e
Autoridade e Disciplina (AD).
Sumariamente, CI diz respeito à assunção de responsabilidades implicando o
interesse pelos cuidados, atividades e quotidiano da criança (por exemplo,
"O teu pai mostra interesse pelo teu dia-a-dia?"); AEE considera o
assumir da responsabilidade do pai pelo bem-estar emocional e estimu lação do
filho (por exemplo, "O teu pai conversa contigo quando estás preocupado
ou triste?"); Esc. incide sobre formas que relacionam o envolvimento
paterno nas atividades escolares (por exemplo, "O teu pai vai às reuniões
da tua escola?"); AD relaciona a responsabilidade com aspetos relativos à
autoridade, supervisão e disciplina da criança (por exemplo, "O teu pai
manda lá em casa?").
Os resultados de uma Análise em Componentes Principais (ACP, com rotação
Varimax) mostram que estas subescalas explicam 50.74% da variância (KMO=.93;
teste de esfericidade de Bartlett, χ2(300)=3025.02, p<.001; menor MSA=.83.). As
subescalas CI e AEE apresentam valores elevados de consistência interna (α=.87
e α=.86, respetivamente), sendo mais baixos nas subescalas Esc. e AD
(respetivamente, α=.65 e α=.55). A consistência interna total da escala é de
α=.91.
Foi também utilizada a Escala de Satisfação com o Envolvimento Parental -
ESEP (Lima, 2009). Esta escala é composta por 13 itens e procura avaliar o grau
de satisfação das crianças com tarefas e atividades consideradas
representativas das formas de envolvimento parental. Engloba itens relacionados
com os cuidados, a autoridade, a escola, o apoio emocional e estimulação.
A resposta às questões é dada na seguinte escala de 5 pontos: "Não gosto
nada" (=0), "Gosto pouco" (=1), "Gosto mais ou
menos" (=2), "Gosto bastante" (=3), "Gosto muito"
(=4). Cada uma das questões era colocada relativamente ao pai e à mãe.
A ACP indica que a ESEP se organiza em duas componentes: (1) Social e
Estimulação; (2) Cuidado e Interesse. A variância explicada é de 60.79%;
KMO=.95; teste de esfericidade de Bartlett, χ2(78)=2335.69, p<.001; menor
MSA=.93. As duas subescalas apresentam valores elevados de consistência interna
(ambos os α=.88).
Procedimento
O procedimento utilizado na administração da Escala de Responsabilidade
Parental - ERP, e na administração da Escala de Satisfação com o
Envolvimento Parental - ESEP, foi muito similar pelo que será reportado
em conjunto.
Para cada um dos grupos de crianças participantes (na maioria das situações
pertencentes a uma mesma turma) a administração foi coletiva e decorreu numa
sala ou outro espaço considerado adequado e autorizado pela escola. Foram
realizadas duas sessões pelo que a administração da ESEP foi realizada numa
segunda ocasião e após os participantes terem respondido à ERP. Cada uma das
sessões foi orientada por dois entrevistadores. Um destes elementos explicava
aos participantes o objetivo geral do estudo e o formato de resposta dos
instrumentos. Seguidamente, de forma clara e pausada, era lida cada uma das
partes que constituem a Escala de Responsabi lidade Parental. Para além de se
procurar respeitar o ritmo de resposta de cada um dos partici pantes, um dos
entrevistadores, procurava estar particularmente atento para esclarecer
quaisquer dúvidas que fossem colocadas pelas crianças.
RESULTADOS
Para tornar mais clara a apresentação dos resultados e das respetivas análises,
optou-se por estruturar esta secção tendo em conta as questões de investigação
formuladas.
Q1: Como se caracteriza a assunção da responsabilidade paterna para com os
filhos em idade escolar?
Começou-se por analisar o padrão de envolvimento do pai através dos quatro
fatores da Escala de Responsabilidade Paterna. AANOVA de medidas repetidas
revelou diferenças significativas entre as quatro dimensões de responsabilidade
paterna, F(3,1023)=234.37, p<.001, η2=.41. Este efeito mostra que o pai assume
mais responsabilidade em tarefas relativas à dimensão Cuidado e Interesse,
M=3.45, DP=0.78, seguindo-se a dimensão de Apoio Emocional e Estimulação,
M=2.72, DP=0.77, a dimensão Autoridade e Disciplina, M=2.57, DP=0.96, e,
finalmente, a dimensão relativa à Escola, M=2.00, DP=1.15 (menor t341=2.82,
p=.005).
Pode-se ainda constatar que as crianças consideram que os seus pais assumem
responsabilidade mais do que "muitas vezes" (=3) nas tarefas que
dizem respeito à dimensão Cuidado e Interesse (t341=10.67, p<.001), e que nas
que dizem respeito às dimensões de Apoio Emocional e Estimulação e de
Autoridade e Disciplina o seu pai assume responsabilidade mais do que
"algumas vezes" (valor 2, menor t341=6.72, p<.001). Já no que
concerne à sua assunção de responsabilidade em tarefas relacio nadas com a
Escola, as crianças consideram que o pai apenas se envolve "algumas
vezes" (=2), t341<1.
Considerando as variáveis Sexo, Número de Irmãos e Posição na Fratria,
reportam-se duas ANOVAs de medidas repetidas, incluindo, respetivamente, os
fatores inter-sujeitos Sexo e Número de Irmãos e os fatores Sexo e Posição na
Fratria. Assim, a ANOVA de medidas repetidas entrando as quatro dimensões de
Responsabilidade Paterna (AEE, CI, Esc., AD) e Sexo e Número de Irmãos
(categorizados em: filho único vs. com um irmão vs. dois ou mais irmãos) como
fatores inter-sujeitos revelou os seguintes efeitos: Número de Irmãos, F
(2,294)=3.14, p=.05, η2=.02; Responsa bilidade Paterna, F(3,882)=187.24,
p<.001, η2=.39; Responsabilidade Paterna x Sexo, F(3,882)=4.50, p=.004, η2=.02
(maior efeito restante, F6,882=1.19, ns).
O efeito principal de Responsabilidade Paterna foi já acima descrito e
corresponde à ordenação da frequência percebida da assunção de cada uma das
dimensões de responsabilidade por parte do pai: CI, AEE, AD e Esc. Por seu
turno, o efeito principal de Número de Irmãos mostra que, inde pendentemente da
dimensão de Responsabilidade considerada - que se pode assumir como a
responsabilidade como um todo - os participantes que têm dois ou mais
irmãos, M=2.51, DP=0.77, consideram que o seu pai assume menos Responsabilidade
consigo (menor t136=2.03, p=.05) do que aqueles que têm apenas um irmão,
M=2.74, DP=0.67, ou são filhos únicos, M=2.75, DP=0.58. Estes não diferem entre
si, t(136)<1.
No Quadro_1 apresentam-se os resultados da análise relativa à interação
Responsabilidade Paterna x Sexo. Esta indica que no que concerne à dimensão
Apoio Emocional e Estimulação e à dimensão Escola, não há diferenças entre
rapazes e raparigas quanto à perceção da responsabi lidade paterna a esse
respeito (maior efeito F1,340=2.10, ns).
Porém, e como se pode observar na Figura_1, as raparigas percecionam maior
Responsabilidade do pai na assunção de tarefas relacionadas com a dimensão
Cuidado e Interesse, F(1,340)=4.69, p=.03, verificando-se o inverso no que se
refere à dimensão Autoridade e Disciplina, F(1,340)=4.48, p=.04. Nesta, são os
rapazes que percecionam uma maior participação do pai.
A ANOVA sobre as quatro dimensões de Responsabilidade Paterna entrando os
factores Sexo e Posição na Fratria revelou os seguintes efeitos:
Responsabilidade Paterna, F(3,876)=187.42, p<.001, η2=.39; Responsabilidade
Paterna x Sexo, F(3,876)=3.69, p=.01, η2=.01 (maior efeito restante, F9,
876=1.43, ns). Estes efeitos foram já descritos acima.
Q2: Em que medida a assunção de responsabilidades por parte do pai varia em
função da assunç ão da responsabilidade materna?
A ANOVA de medidas repetidas revelou efeitos de Responsabilidade Parental (AEE,
CI, Esc., AD), F(3,897)=254.88, p<.001, η2=.46; Pais, F(1,299)=149.17, p<.001,
η2=.33; Responsabilidade Parental x Pais, F(3,897)=59.48, p<.001, η2=.17. O
efeito principal de Responsabilidade Parental mostra que as crianças consideram
que os pais, conjuntamente, assumem mais Responsabilidade no que diz respeito a
Cuidado e Interesse, M=3.62, DP=0.46, segue-se o Apoio Emocional e Estimula
ção, M=2.89, DP=0.57, a Autoridade e Disciplina, M=2.72, DP=0.75, e,
finalmente, consideram que os pais assumem menos Responsabilidade no que toca a
Escola, M=2.58, DP=0.68 (menor diferença, F1,299=8.61, p=.004). Por seu turno,
o efeito de Pais indica que as crianças consideram que, no geral, a mãe,
M=3.16, DP=0.47, assume mais Responsabilidade do que o pai, M=2.74, DP=0.60.
A interação entre os dois fatores, como podemos verificar no Quadro_2, indica
um padrão diferente de assunção de Responsabilidade por parte do pai e da mãe
através das quatro dimensões consideradas.
As crianças consideram que a mãe assume mais Responsabilidade no Cuidado e
Interesse, seguidamente no Apoio Emocional e Estimulação e na Escola, e
finalmente, que assume menor Responsabilidade na dimensão Autoridade e
Disciplina. Já relativamente ao pai, elas consideram igualmente que este assume
mais Responsabilidade no Cuidado e Interesse do que nas restantes dimensões,
seguindo-se, respetivamente, o Apoio Emocional e Estimulação, a Autoridade e
Disciplina e a Escola. Merece destaque o facto de as crianças considerarem que
o pai assume muito menos Responsabilidade na Escola do que a mãe, sendo a única
dimensão em que estas fazem uma apreciação que não ultrapassa o ponto médio da
escala (entre 0 a 4; t299=1.38, ns).
Para analisar em que medida a assunção de Responsabilidade por parte da mãe tem
efeito na Responsabilidade assumida pelo pai, procedeu-se à categorização do
nível de responsabilidade materna partindo do valor da Mediana nesta variável,
Md=3.19. O grupo que se convencionou designar por nível de responsabilidade
"baixo" é composto por 151 mães, M=2.79, DP=0.32, e o grupo com
nível de responsabilidade "alto" é composto por 149 mães, M=3.54,
DP=0.21, t(298)=24.33, p<.001.
A ANOVA de medidas repetidas sobre a assunção de responsabilidade pelo pai
através das quatro dimensões da escala (Responsabilidade Paterna), entrando
Nível de Responsabilidade Materna como fator inter-sujeitos, revelou os
seguintes efeitos: Responsabilidade Paterna, F(3,894)=202.47, p<.001, η2=.41;
Nível de Responsabilidade Materna, F(1,298)=25.09, p<.001, η2=.08;
Responsabilidade Paterna x Nível de Responsabilidade Materna, F(3,894)=5.75,
p=.001, η2=.02. O efeito principal de Responsabilidade Paterna foi descrito
acima, e corresponde ao padrão de assunção de Responsabilidade pelo pai através
das quatro dimensões.
Por seu turno, o efeito de Nível de Responsabilidade Materna mostra que a
criança considera que o pai assume maior Responsabilidade, independentemente da
dimensão, quando a mãe assume nível "alto" de responsabilidade,
M=2.91, DP=0.60, do que quando esta tem nível "baixo", M=2.57,
DP=0.55. Contudo, a interação qualifica estes dois efeitos e corresponde ao
facto de o pai assumir mais Responsabilidade com a criança, nas várias
dimensões, quando a mãe tem um nível de responsabilidade "alto".
Como podemos observar na Figura_2, a única exceção refere-se à dimensão Escola,
na qual, o pai assume Responsabilidade equivalente, quer a mãe tenha nível
"alto" ou "baixo" de responsabilidade (F1,299=1.03,
ns).
Q3: Como se caracteriza a satisfação da criança com o envolvimento paterno?
Comparando o nível de satisfação das crianças verifica-se que estão mais
satisfeitas com o envolvimento do pai na componente Social e Estimulação,
M=3.42, DP=0.72, do que na compo nente Cuidado e Interesse, M=3.07, DP=0.85, t
(295)=11.26, p<.001. De todo o modo, as crianças manifestam-se satisfeitas com
o grau de envolvimento paterno em ambas as dimensões (escala entre 0=nada
satisfeito, 4=muito satisfeito), como revela a sua comparação com o ponto médio
da escala (menor t295=21.66, p<.001)
Ao comparar o nível da satisfação da criança com o envolvimento de cada um dos
pais, nas duas dimensões de ESEP verifica-se que a ANOVA de medidas repetidas
revelou o efeito de Satisfação com o Envolvimento (SE vs.CI), F(1,295)=88.33,
p<.001, η2=.23, e de Pais (Pai vs.Mãe), F(1,295)=50.59, p<.001, η2=.15,
qualificados pela interação dos dois factores intra-sujeitos, F(1,295)=67.50,
p<.001, η2=.19. Esta interação indica que, apesar das crianças reportarem
estarem sempre mais satisfeitas com o envolvimento da mãe, a magnitude da
diferença entre os dois pais é maior na dimensão Cuidado e Interesse, F
(1,295)=80.74, p<.001, do que em Social e Estimula ção, F(1,295)=13.24, p<.001.
Os valores médios são os seguintes: (1) Cuidado e Interesse - Pai,
M=3.07, DP=0.85; Mãe, M=3.45, DP=0.57; (2) Social e Estimulação - Pai,
M=3.42, DP=0.72; Mãe, M=3.55, DP=0.48.
Efetuando uma análise através dos 13 itens, comparando a satisfação com o
envolvimento do pai e com o envolvimento da mãe, constata-se que apenas no item
relativo a "brincar ou jogar" não se verifica uma média de
satisfação mais elevada com o envolvimento da mãe, t(298)=1.24, ns(restantes
diferenças, t298>2.33, p=.02).
Finalmente, verifica-se também que a satisfação das crianças com o envolvimento
do pai está positivamente correlacionada com a satisfação relativa ao
envolvimento da mãe, qualquer que seja a dimensão considerada, SE ou CI (menor
r=.55, p<.001).
Q4: Em que medida a satisfação da criança com o envolvimento paterno varia em
função da assunção de responsabilidades por parte do pai?
Numa abordagem correlacional entre a satisfação manifesta pela criança com o
envolvimento do pai e a responsabilidade paterna verifica-se que existe uma
forte relação direta entre a satisfação da criança e a assunção de
responsabilidade por parte do pai, tanto na dimensão Social e Estimula ção como
na dimensão Cuidado e Interesse (ambos r=.54). Portanto, quanto mais o pai
assume responsabilidade, maior a satisfação da criança com o seu envolvimento.
Para se analisar em que medida a assunção de responsabilidades pelo pai afeta a
satisfação manifesta pela criança com o envolvimento do pai, categorizou-se
aquela variável em dois níveis - baixo vs.alto - partindo dos
valores da medianas (Md=2.79).
A ANOVA relativa ao Nível de Responsabilidade Paterna revelou efeitos de
Satisfação com o Envolvimento Paterno (SE vs.CI), F(1,293)=131.02, p<.001,
η2=.31, e de Nível de Responsa bilidade Paterna (baixo vs. alto), F
(1,293)=60.74, p<.001, η2=.17. Estes efeitos são qualificados pela interação de
1ª ordem, F(1,293)=9.94, p=.002, η2=.03.
Como se pode verificar pelo padrão de médias apresentado no Quadro_3, esta
interação indica que, quer o nível de responsabilidade assumida pelo pai seja
baixo ou seja alto, as crianças estão mais satisfeitas com o envolvimento do
pai na dimensão Social e Estimulação do que na dimensão Cuidado e Interesse.
Contudo, verifica-se que esta é mais acentuada no grupo de crianças que
consideram mais baixa a assunção de responsabilidades por parte do pai. Noutros
termos, entre estas crianças, é menor o grau de satisfação com o Cuidado e
Interesse manifesto pelo pai (M=2.71).
DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Em conformidade com a literatura neste domínio, a mãe continua a assumir mais
responsabi lidades do que o pai nas atividades e tarefas desenvolvimentais
quotidianas das crianças (e.g., Craig, 2006; Lamb & Lewis, 2004; Yeung,
Sandberg, Davis-Kean, & Hofferth, 2001). Contudo, a exceção reporta-se
precisamente ao tipo de interação Jogo, no qual os pais não se diferenciam.
Nesse mesmo sentido, quando se compara a satisfação da criança com o
envolvimento do pai e com o envolvimento da mãe, constata-se que apenas no item
relativo a "brincar ou jogar" não se verifica uma média de
satisfação mais elevada com o envolvimento da mãe. De resto, o jogo e o brincar
com a criança parece continuar a ser uma marcado envolvimento paterno (cf.
Paquette, 2004; Pleck & Masciadrelli, 2004).
Reconhece-se alguma mudança e uma progressiva maior assunção de
responsabilidades paternas em dimensões relativas aos cuidados, ao apoio
emocional e à estimulação das crianças (nas quais o pai tradicionalmente não se
envolvia). Com efeito, os resultados indicam que é na dimensão Cuidado e
Interesse (a qual, relaciona a responsabilidade do pai pelos cuidados básicos,
atividades e dia-a-dia do filho) que a criança considera que o pai assume mais
responsabilidade.
Apesar disto, o pai também continua a desempenhar um papel relevante na
dimensão autoridade e disciplina, em particular para com os filhos. Encontramos
aqui mais uma especificidade na forma de envolvimento com um filho, que de
resto é encontrada na literatura (cf. Pleck & Pleck, 1997), acentuando que
os pais procuram ser um modelo de Autoridade e Disciplina em especial quando de
trata de um rapaz. De facto, é de mencionar a relevância e atualidade de muitos
dos aspetos que caracterizam um papel mais tradicional do envolvimento paterno,
como sejam a proteção, a disciplina ou a orientação ética e moral (e.g.,
Andrews, Luckey, Bolden, Whiting-Fickling, & Lind, 2004). Curiosamente as
crianças consideram que é precisamente nesta dimensão que as mães assumem menor
responsabilidade, o que indiciará uma complementaridade de papéis parentais, já
percecionada e distinguida pelas próprias crianças (cf. Lamb, 2005), concebendo
que esta dimensão de Autoridade e Disciplina na família fica sob maior
responsabilidade do pai.
Neste sentido, o jogo, o sustento económico da família, a autoridade e a
disciplina, surgem como dimensões reveladoras da ideiade paternidade.
Outro elemento que merece destaque diz respeito ao facto das crianças
considerarem que o pai assume muito menos responsabilidade na dimensão Escola
do que a mãe, assumindo apenas "algumas vezes" responsabilidades a
respeito das atividades relacionadas com este microssistema. Na realidade,
diversas investigações no campo da Psicologia da Educação têm evidenciado que a
participação do pai nas atividades escolares (nem que seja a mera presença nas
reuniões da escola) é manifestamente pouco frequente. Como se sabe, muitas
crianças passam mais de 8h por dia em contexto escolar e só uma apropriada
articulação mesossistémica pode potenciar a qualidade de cenários
desenvolvimentalmente adequados. É fundamental que a escola implemente
estratégias facilitadoras do estabelecimento de canais de comunicação com a
família, e que os pais se consciencializem da sua importância nesta dimensão
educativa.
Verifica-se ainda que a assunção da responsabilidade por parte da mãe
relaciona-se significativamente com o nível de responsabilidade assumida pelo
pai. Este resultado remete para a importância de considerarmos o sistema
familiar na compreensão do processo de envolvimento paterno e, em particular, a
natureza da relação conjugal. Com efeito, o pai necessita frequente mente de um
ambientefavorável à sua participação, dependendo de fatores extrínsecos para se
envolver, nomeadamente o apoio da companheira e de outros significativos (cf.
Bouchard & Lee, 2000; Formoso, Gonzales, Barrera, & Dumka, 2007). Tal
como mostra a literatura (e.g., Fagan & Barnett, 2003), a mãe desempenha um
papel reguladordo envolvimento do pai, fomentando, permitindo ou inibindo esse
mesmo envolvimento. Aliás, também a satisfação das crianças com o envolvimento
do pai está positivamente correlacionada com a satisfação relativa ao
envolvimento da mãe, qualquer que seja a dimensão considerada.
Finalmente, quando se atende à satisfação da criança com o envolvimento paterno
verifica-se que quanto mais o pai assume responsabilidades, maior é a
satisfação da criança com aquele envol vimento. Esta evidência chama à atenção
de que o envolvimento do pai no processo desenvolvi mental dos filhos é, em si
mesmo, muitas vezes causae consequênciadesse mesmo envolvimento. Por exemplo, à
medida que vai interagindo com os filhos, o pai revela mais auto-estima,
competência parental e satisfação com esse mesmo envolvimento (cf. Almeida,
Wethington, & McDonald, 2001). Naturalmente não será difícil dar conta que
este processo transacional se autoalimenta e reforça, isto é, pais mais
envolvidos e crianças mais satisfeitas, vão reforçando o comportamento do
parceiro de interação o que, por sua vez, fortalecerá um vínculo (desejavel
mente) seguro entre a criança e o pai, e consequentemente mais bem-estar
biopsicossocial para o pai, para a criança e para a família como um todo.
Por último realça-se a evidência empírica decorrente dos resultados deste
estudo, que suporta a matriz bioecológica da assunção de responsabilidades por
parte do pai relativamente às tarefas desenvolvimentais dos filhos. Na
realidade, consideram-se fundamentais os contributos do pai e da mãe para o
desenvolvimento da criança. Como diria Bronfenbrenner (1995, p. 119)
"para entrar na dança do desenvolvimento são precisas três
pessoas". Esse contributo plural de pai e de mãe remete para a
significância de um envolvimento singular e próximo entre o pai e a criança. É
nessa dissemelhança, diversidade e riqueza de processos proximais que se
alicerça o desenvolvimento humano e os pais não podem (pelo menos não devem)
abdicar desse envolvimento.