Influência da paridade na adaptação da transição para a maternidade em grávidas
infectadas pelo VIH e grávidas sem condição médica associada
Influência da paridade na adaptação da transição para a maternidade em grávidas
infectadas pelo VIH e grávidas sem condição médica associada
Marco Pereira*e Maria Cristina Canavarro**
*Bolseiro de Pós-Doutoramento da FCT (SFRH/BPD/44435/2008), Unidade de
Intervenção Psicológica do Departamento de Medicina de Materno-Fetal dos
Hospitais da Universidade de Coimbra, Instituto de Psicologia Cognitiva,
Desenvolvimento Vocacional e Social da Universidade de Coimbra;
**Unidade de Intervenção Psicológica do Departamento de Medicina de Materno-
Fetal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Instituto de Psicologia
Cognitiva, Desenvolvimento Vocacional e Social da Universidade de Coimbra,
FPCE, Universidade de Coimbra
Correspondência
RESUMO
No presente estudo empírico procuramos explorar a influência da paridade na
adaptação na transição para a maternidade de grávidas seropositivas para o VIH
e grávidas sem condição médica de risco associada. Noventa e oito mulheres (47
grávidas seropositivas para o VIH e 51 grávidas sem patologia médica associada)
foram avaliadas durante o segundo trimestre de gravidez e dois a quatro dias
após o parto. O protocolo de avaliação era composto por uma ficha de dados
sociodemográficos e grelhas clínicas e obstétricas, e por instrumentos de auto-
resposta, destinados a avaliar a sintomatologia psicopatológica (Brief Symptom
Inventory), a reactividade emocional (Emotional Assessment Scale) e a qualidade
de vida (WHOQOL-Bref). Os resultados obtidos mostram que, para ambos os grupos,
a multiparidade se encontra associada a maiores dificuldades de adaptação na
transição para a maternidade, de forma mais acentuada entre as mulheres
infectadas pelo VIH. O maior poder discriminativo, em função da paridade,
registou-se nos domínios Relações sociais e Ambiente, na faceta geral de
qualidade de vida e na dimensão Ansiedade. Ao longo do tempo, a maior
estabilidade individual registou-se entre as multíparas dos dois grupos e a
menor estabilidade entre as primíparas infectadas pelo VIH. Os resultados do
nosso estudo apoiam a existência de diferentes padrões e trajectórias de
adaptação das grávidas primíparas e multíparas e, essencialmente, a importância
de considerar intervenções diferenciadas para cada um dos grupos.
Palavras-chave:Adaptação, Maternidade, Paridade, VIH.
ABSTRACT
In the present empirical study, we intend to determine the influence of parity
in the adaptation in transition to motherhood among HIV-positive pregnant women
and pregnant women without associated medical risk. Ninety-eight women (47 HIV-
positive and pregnant women and 51 pregnant women without medical risk) were
assessed during the second trimester of pregnancy and 2 to 4 days postpartum.
The assessment protocol consisted of social-demographic, clinical and obstetric
grids; and self-report questionnaires designed to assess psychological symptom
patterns (Brief Symptom Inventory), emotional reactivity (Emotional Assessment
Scale), and quality of life (WHOQOL-Bref). Our results showed that multiparity
is associated with worse adaptation in the transition to motherhood, more
prominently among HIV-infected women. The highest discriminative power,
regarding parity, was observed in the Social Relationships and Environment
domains, in the general facet of quality of life as well as in the dimension
Anxiety. Throughout time, the highest individual stability was reported among
multiparous women and the lowest stability was observed in HIV-infected
primiparous women. Our findings supported the existence of different patterns
and trajectories of adaptation for primiparous and multiparous women and,
essentially, suggested the importance of differential interventions concerning
each group.
Key-words:Adaptation, HIV, Motherhood, Parity.
INTRODUÇÃO
O nascimento de um filho constitui uma das principais transições interpessoais
durante o início da vida adulta. Tal como outras transições, ser pai/mãe é um
ponto de viragem durante o qual o curso de vida de um indivíduo toma uma nova
direcção, requerendo adaptação ou mudança no estilo de vida e identidades
pessoais (Salmela-Aro, Nurmi, Saisto, & Halmesmåki, 2000). Neste sentido,
assume-se que a forma de lidar com uma transição particular do ciclo de vida é
sempre influenciada pelas experiências prévias com transições semelhantes
(Oliveira, 2006).
As experiências de primiparidade têm sido amplamente exploradas, quer na
adaptação à transição para a maternidade/parentalidade (Cronin, 2003; Delle
Fave, & Massimini, 2004; Delmore-Ko, Pancer, Hunsberger, & Pratt, 2000;
Fleming, Ruble, Flett, & Shaul, 1988; Gameiro, Moura Ramos, &
Canavarro, 2009; Harwood, McLean, & Durkin, 2007; Porter & Hsu, 2003;
Tarka, Paunonen, & Laipalla, 2000a,b) quer na satisfação com a relação
conjugal (Hackle & Ruble, 1992; Shapiro, Gottman, & Carrère, 2000).
Centrando-nos de forma mais particular na vivência da mãe, esta experiência
pode ser, pelas mais variadas razões, um acontecimento difícil para a mulher,
representando um conjunto de novos desafios, designadamente porque implica o
assumir de um novo papel enquanto prestadora de cuidados, bem como o tomar de
decisões importantes respeitantes a si própria, às suas relações com os outros
e com o contexto social em geral e, em especial, porque obriga a "um
comprometimento da mulher com novas tarefas para as quais pode não estar
totalmente preparada" (Kendell, 1978, p. 77).
Não é de espantar, portanto, que o nascimento de um primeiro filho constitua um
período de stresse acrescido e necessidade de algum reajustamento. Wilkinson
(1999), procurando avaliar as variações de humor de mulheres primíparas e
multíparas, avaliadas entre o segundo trimestre de gravidez e o primeiro
trimestre após o nascimento do bebé, verificou que as mulheres primíparas
apresentaram em todos os momentos de avaliação níveis mais elevados de afecto
positivo e mais baixos de afecto negativo. A única excepção verificou-se no
período subsequente ao parto (10 dias depois), durante o qual as primíparas
apresentaram maior humor negativo que as multíparas. Nesta linha, numa revisão
sobre factores de risco de perturbações psicológicas no puerpério, Figueiredo
(2000) verificou que as mulheres primíparas têm menor risco de desenvolver
perturbações psicológicas durante a gravidez, mas no pós-parto têm duas vezes
mais probabilidade de ficarem mentalmente doentes do que as mulheres
multíparas.
Pelo que foi exposto, tal não implica que o nascimento de um filho que não o
primeiro não tenha impacto na vida da mulher (casal). Neste sentido, afigura-
se-nos como central a ideia expressa por Goldberg e Michaels (1988), e
defendida também por Stewart (1990), de que esta segunda transição, podendo ser
menos dramática, é certamente mais complexa. Do ponto de vista empírico, esta
posição tem sido largamente documentada. Por exemplo, no pós-parto, Skari,
Skrenden, Malt, Dalholt, Ostensen, Egeland e Emblem (2004) verificaram que a
multiparidade era um preditor de perturbação psicológica materna. No mesmo
sentido, Wilkinson (1995) verificou que os indivíduos com mais de um filho,
avaliados três meses após o parto, reportavam maiores níveis de perturbação e
menores níveis de bem-estar, quando comparados com sujeitos que tiveram o
primeiro filho. Evidência marginal de que a multiparidade era factor de risco
para depressão pós-natal foi igualmente encontrada por Johnstone, Boyce,
Hickey, Morris-Yates e Harris (2001).
No contexto nacional, Carvalho, Loureiro e Simões (2007) não encontraram
diferenças estatisticamente significativas na depressão (avaliada pelo Beck
Depression Inventory) nem na psicossintomatologia entre primíparas e multíparas
avaliadas durante a gravidez. Já Gameiro et al. (2008), num estudo com
avaliações realizadas nos primeiros dias pós-parto e após oito meses,
verificaram que as mães primíparas denotam maiores dificuldades de adaptação,
avaliada através de medidas como stresse, psicopatologia e reactividade
emocional, imediatamente após o parto. Porém, as mães multíparas apresentam uma
evolução menos favorável que as primíparas nos meses subsequentes ao parto,
reflectida, essencialmente, em níveis aumentados de reactividade emocional
negativa.
No âmbito da infecção por VIH, são escassos os estudos que se debruçaram sobre
as experiências prévias de gravidez/maternidade na adaptação à transição para a
maternidade. Neste contexto, esta variável tem sido sobretudo usada na
caracterização da história reprodutiva e na identificação de perfis de gravidas
seropositivas para o VIH (e.g., Romanelli, Kakehasi, Tavares, Melo, Goulart,
Aguiar, & Pinto, 2006). Num estudo nacional, Pereira e Canavarro (2007)
analisaram a variável paridade, mas não encontraram diferenças com significação
estatística na adaptação à gravidez.
Finalmente, no que se prende com a adaptação relacional, e considerando a
satisfação com a relação conjugal, a qualidade da relação da grávida com o
companheiro depende de um conjunto alargado de factores, entre os quais se
inclui também a paridade, tendo diversos estudos demonstrado a existência de
maior satisfação conjugal entre as grávidas ou puérperas primíparas (Belsky,
Spanier, & Rovine, 1993; Gameiro et al., 2009; Windridge & Berryman,
1996). Ainda no plano relacional, o mesmo não acontece em relação à competência
parental, já que tem sido assinalada maior percepção de competência entre as
mães multíparas (Gameiro et al., 2009).
Em síntese, e partindo da evidência de que a paridade tem sido pouco estudada
enquanto determinante na adaptação na transição para a maternidade em mulheres
infectadas pelo VIH, no presente estudo estabelecemos como hipótese que as
mulheres que se encontram grávidas do primeiro filho tenderão a manifestar
menores dificuldades de adaptação pessoal durante a gravidez e maiores
dificuldades de adaptação pessoal no pós-parto. No plano relacional, e à
semelhança da literatura revista, esperamos encontrar maior satisfação com a
relação conjugal entre as mulheres primíparas e maior percepção de competência
parental entre as multíparas.
O presente estudo teve como avaliar a influência da paridade na adaptação
pessoal (avaliada em termos de sintomatologia psicopatológica, reactividade
emocional e qualidade de vida - QdV) e relacional (satisfação com a
relação conjugal, satisfação com a relação com o bebé, percepção de competência
na prestação de cuidados ao bebé e percepção de realização materna) na
transição para a maternidade em grávidas infectadas pelo VIH e grávidas sem
patologia médica associada.
MÉTODO
Participantes
O presente estudo empírico baseia-se nas respostas de dois grupos. O grupo
clínico (GC-VIH) foi composto por 47 mulheres grávidas infectadas pelo VIH, com
uma média (M) de idade de 28.74 anos e desvio-padrão (DP) de 6.01 anos (Mínimo:
18; Máximo: 39). O grupo de controlo (GC) - grávidas sem condição médica
de risco associada - foi constituído por 51 mulheres com uma idade média
de 29.53 anos e DPde 4.06 anos (Mínimo: 18; Máximo: 37). No Quadro_1,
apresentam-se as características sociodemográficas dos dois grupos.
Em relação ao planeamento da gravidez, e considerando planeamento e
conhecimento do estado serológico, esta foi planeada por 17.8% das grávidas
seropositivas (sem conhecimento); oito mulheres (12.9%) planearam a gravidez
conhecendo o seu estado serológico de positividade; 28.9% não planeou a
gravidez e não conhecia a existência de infecção; e 35.6% das mulheres não
planeou a gravidez, mas conhecia o seu estado serológico. Em termos globais, a
gravidez foi planeada por 38.6% das mulheres seropositivas. No GC, a gravidez
foi planeada por 84.3% das mulheres. Entre os dois grupos, esta diferença foi
estatisticamente significativa, χ2(1)=21.180; p=.001. Em relação à experiência
prévia de gravidez/maternidade, no GC-VIH verificou-se que 25 mulheres (53.2%)
se encontravam grávidas do primeiro filho. No GC a percentagem de primíparas é
de 58.8%. Esta diferença não se revelou estatisticamente significativa, χ2
(1)=0.315; p=.575.
No que se prende com as características associadas à infecção por VIH,
verificou-se que a principal circunstância conducente à realização do
diagnóstico de infecção por VIH foi a gravidez. Vinte e duas (46.8%) mulheres
tiveram conhecimento da sua infecção durante as rotinas da actual gravidez,
4.3% das mulheres tiveram conhecimento do seu estado serológico numa gravidez
anterior, 31.9% das mulheres conheceram a sua seropositividade por rotina
médica, 10.6% realizou o teste por iniciativa própria e 6.4% das mulheres
referiram outra causa.
No que se reporta às vias de transmissão, as relações heterossexuais foram a
principal causa de infecção para a maioria das mulheres (63.8%). Oito (17%)
mulheres contraíram a infecção devido a comportamentos associados à
toxicodependência, uma (2.1%) refere contágio por transfusão e oito (17%)
referem desconhecer a origem da infecção. Parece importante sublinhar a
percentagem de casos que refere desconhecer a proveniência da infecção pelo
VIH/SIDA, que foi de 17%.
Procedimentos
Os dois grupos de grávidas foram recrutados nos serviços de Obstetrícia da
Maternidade Dr. Daniel de Matos (MDM) - Área de Gestão Integrada de Saúde
Materno-Fetal dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC) e na Maternidade
Dr. Alfredo da Costa (MAC; Lisboa), entre Abril de 2003 e Maio de 2008. O
estudo é prospectivo e longitudinal, contemplando dois momentos de avaliação:
segundo trimestre de gravidez e dois a quatro dias após o parto. A amostragem
foi efectuada por conveniência nas duas instituições mencionadas.
Para a recolha de dados, foi feito previamente um pedido de colaboração
voluntária no estudo, explicada a natureza e os objectivos do mesmo, garantida
a confidencialidade e o anonimato das respostas aos questionários, e assinado o
consentimento informado, previamente aprovado pela Comissão de Ética do
Conselho de Administração dos HUC e pela Comissão de Ética da MAC.
Instrumentos
Ficha de dados sociodemográficos e grelhas clínicas
Do protocolo de avaliação faziam parte uma ficha de dados sociodemográficos e
duas grelhas de informação clínica: uma de natureza obstétrica, incidindo sobre
os antecedentes obstétricos e a actual gravidez; e uma segunda relativa à
história médica da infecção por VIH, compreendendo dados sobre a infecção [em
concreto: duração da infecção; tempo de conhecimento da infecção; contexto de
realização do teste VIH; categoria de transmissão; condição serológica do
companheiro; e, no caso de ter filhos anteriores à actual gravidez, dados sobre
o conhecimento da infecção no momento em que engravidou e a situação médica
actual do(s) filho(s)].
Brief Symptom Inventory (BSI)
O BSI [Derogatis, 1993; Versão portuguesa (VP): Canavarro, 2007] é constituído
por 53 itens, sendo que o indivíduo deverá classificar o grau em que cada
problema o afectou durante a última semana, numa escala de tipo Likert, de
cinco pontos, cotado de 0 (Nunca) a 4 (Muitíssimas Vezes). O BSI avalia
sintomatologia psicopatológica em termos de nove dimensões básicas de psicopato
logia: somatização; obsessões-compulsões; sensibilidade interpessoal;
depressão; Ansiedade; Hostilidade; Ansiedade Fóbica; Ideação Paranóide e
Psicoticismo - e três índices globais: Índice Geral de Sintomas (IGS);
Total de Sintomas Positivos (TSP) e Índice de Sintomas Positivos (ISP). Os
valores das características psicométricas da versão nacional do BSI atestaram a
sua consistência interna (Canavarro, 2007). O α de Cronbach (quer dos diversos
itens do inventário, quer os valores globais das escalas) encontraram-se entre
.70 e .80, à excepção dos valores encontrados para as escalas de Ansiedade
Fóbica(.624) e de Psicoticismo(.621). Os valores das correlações split-halfe os
coeficientes de Spearman-Brown surgiram também como dados indicativos da boa
consistência interna da escala. No presente estudo, o α de Cronbach foi de .96
para o total da escala e, para as dimensões, variou entre .60 (Ansiedade
Fóbica) e .86 (Depressão).
Emotional Assessment Scale (EAS)
A EAS (Carlson, Collins, Stewart, Porzelius, Nitz, & Lind, 1989; VP: Moura
Ramos, 2006) tem como objectivo medir a reactividade emocional. Trata-se de uma
escala constituída por 24 itens, que correspondem a descrições de emoções
consideradas fundamentais (Medo, Felicidade, Ansiedade, Culpa, Cólera, Surpresa
e Tristeza), sendo especialmente útil na medida de níveis momentâneos e de
mudança de emoções. Para cada uma das emoções descritas o indivíduo deverá
posicionar-se no local que lhe parecer mais adequado para representar o modo
como se sente no momento actual. A forma de medição utilizada para avaliar o
grau de cada emoção consiste numa escala visual analógica, com valor mínimo
igual a 0 (zero), localizado no extremo esquerdo da escala e com a indicação
"o menos possível", e valor máximo igual a 100 (cem), situado no
extremo direito e com a indicação "o mais possível", na qual o
sujeito deverá colocar a sua resposta. Esta escala apresenta boas
características psicométricas demonstrando ser adequada ao estudo da
reactividade emocional dos indivíduos perante uma determinada situação. No
estudo original o a de Cronbach variou entre .70 e .91 (Carlson et al., 1989)
demonstrando ser adequada ao estudo da reactividade emocional dos indivíduos
perante uma determinada situação. Na versão portuguesa (Moura Ramos, 2006) os
valores do α de Cronbach atestaram também a boa consistência interna da escala
[variando entre .73 (Cólera) e .88 (Felicidade)]. Na presente amostra, o α de
Cronbach variou entre .68 (Surpresa) e .81 (Felicidade).
World Health Organization Quality of Life (WHOQOL-Bref)
O WHOQOL-Bref (WHOQOL Group, 1998; VP: Vaz Serra et al., 2006) destina-se a
avaliar a qualidade de vida. Este instrumento é composto por 26 itens e está
organizado em quatro domínios: Físico, Psicológico, Relações Sociais e
Ambiente, e 24 facetas específicas. Cada faceta é avaliada através de uma
pergunta, correspondente a um item, à excepção da faceta sobre QdV em geral,
que é avaliada através de dois itens, um correspondente à QdV em geral e outro
à percepção geral da saúde. Este instrumento apresentou, de acordo com os
estudos originais (WHOQOL Group, 1998), valores aceitáveis de consistência
interna, considerando o α de Cronbach de cada um dos quatro domínios, que
oscilou entre .66 (Relações Sociais) e .84 (Físico). No estudo de validação da
versão de Portugal (Vaz Serra et al., 2006), o WHOQOL-Bref demonstrou ter
também boas propriedades psicométricas. O α de Cronbach apresentou níveis
aceitáveis, quer se considerem os 26 itens (.92); ou os 4 domínios: Físico
(.87), Psicológico(.84), Relações Sociais(.64) e Ambiente(.78). No presente
estudo, o α de Cronbach foi de .90 para o total dos itens e oscilou,
relativamente aos domínios, entre .72 (Psicológico) e .80 (Físico).
Escalas de adjectivos: Avaliação dos domínios conjugal e parental
Neste estudo, utilizámos igualmente escalas de adjectivos para avaliar as
dimensões relativas aos domínios conjugal e parental, nomeadamente: satisfação
com a relação conjugal; satisfação com a relação com o bebé; percepção de
competência materna; e percepção de realização materna. Estas escalas têm esta
designação na medida em que apresentam um contínuo de adjectivos ou julgamentos
referentes a uma determinada situação. São elaboradas de forma semelhante às
escalas visuais analógicas, distinguindo-se pela introdução de descritores
adicionais intermédios (Streiner & Norman, 1995).
Análises estatísticas
Na análise estatística dos dados foi utilizado o programa estatístico SPSS
(Statistical Package for the Social Sciences) (versão 15.0). Numa primeira
fase, para a caracterização sociodemográfica da amostra e dos diferentes grupos
que a compõem recorremos à estatística descritiva (frequências relativas,
médias e desvios-padrão). Com o objectivo de averiguar a existência de
diferenças entre os dois grupos de estudo relativamente aos indicadores de
adaptação mencionados, recorremos à estatística inferencial. Concretamente,
recorremos ao procedimento de análise univariada da variância (ANOVA),
concretamente à 2x2 ANOVA, em que as variáveis independentes (VIs) foram o
grupo (GC-VIH versusGC) e a paridade (primípara versusmultípara). Para análise
da estabilidade ao longo do tempo nos diferentes indicadores de adaptação
recorremos ao teste nãoparamétrico para amostras emparelhadas (Teste de
Wilcoxon) e às correlações de Spearman. Os testes estatísticos com
probabilidades inferiores a .05 foram considerados estatisticamente
significativos.
RESULTADOS
Adaptação pessoal
Na apresentação dos resultados que se seguem, e dado o elevado número de
indicadores de adaptação em estudo, são referidos apenas os indicadores que
revelaram um efeito principal de uma das VIs ou efeitos de interacção com
significação estatística. As médias marginais estimadas, relativamente aos
resultados do primeiro momento de avaliação, constam do Quadro_2.
No Quadro_3 encontram-se os resultados da ANOVA 2x2, relativamente aos
indicadores de adaptação que registaram efeitos estatisticamente
significativos. Foi possível verificar que o efeito principal da existência de
infecção por VIH é estatisticamente significativo em relação à generalidade das
dimensões. Com efeito, a comparação das médias marginais (cf. coluna da direita
do Quadro_2) indica que as grávidas do GC-VIH apresentam resultados superiores
aos das grávidas do GC nas dimensões de psicopatologia e reactividade emocional
e inferiores nos indicadores de qualidade de vida.
QUADRO 3
Indicadores de adaptação em função dos grupos em estudo e da paridade:Análises
univariadas da variância
Grupo ?aridade Interacção
Depressão 4.33* 1.83 0.46
Ansiedade 2.97 6.45* 1.54
Hostilidade 0.80 4.30* 1.42
Psicoticismo 4.84* 4.84* 2.50
ISP 7.64** 2.44 1.35
Ansiedade 9.07** 2.85 0.10
Medo 18.24*** 2.24 0.06
Culpa 8.21** 2.13 0.26
Cólera 6.58* 1.65 0.99
Surpresa 9.53** 0.06 0.91
Tristeza 9.91** 0.24 0.14
Relações sociais 9.66** 6.28* 0.00
Ambiente 2.06 10.40** 0.05
Faceta geral de QdV 34.51*** 6.61* 2.17
Nota.*p<.05; **p<.01; ***p<.001.
Já no que respeita à paridade (cf. médias marginais do terço inferior do Quadro
2), os resultados permitem-nos verificar que, nas dimensões referidas, as
mulheres multíparas apresentam resultados superiores de psico-sintomatologia,
maior reactividade emocional negativa e menor QdV. No total, foram encontrados
efeitos principais da paridade em três dimensões do BSI, nos domínios Relações
Sociaise Ambientee na Faceta Geral de QdV(cf. Quadro_3). Pela leitura do mesmo
quadro, podemos também verificar que nenhum efeito de interacção se mostrou
estatisticamente significativo.
No segundo momento de avaliação, e procedendo ao mesmo conjunto de análises,
verificaram-se efeitos principais da variável grupo nas emoções Ansiedade, F
(1,71)=4.46, p=.038, e Culpa, F(1,71)=7.49, p=.008, bem como no domínio
Relações Sociais, F(1,65)=7.04, p=.010 e na Faceta Geral de QdV, F(1,65)=19.55,
p<.001. Relativamente à experiência prévia de gravidez (paridade) não se
registaram efeitos significativos.
Adaptação relacional
Considerando a adaptação relacional, relativamente à paridade, os dados obtidos
apontam igualmente para a inexistência de diferenças em três dos quatros
indicadores. Na percepção de competência parentalregistou-se um efeito
significativo da variável paridade, F(1,62)=4.46, p=.035, com as mulheres
multíparas a apresentar valores mais elevados (Primípara - M=5.58
versusMultípara - M=6.12). Na satisfação com a relação conjugal(Primípara
- M=5.43 versusMultípara - M=4.85; p=.050) a diferença aproximou-se
do limiar de significação estatística.
Estabilidade da adaptação ao longo do tempo
Para além da análise da adaptação nos dois momentos de avaliação considerados,
entendemos também ser importante analisar a forma como a adaptação evolui ao
longo do tempo, ou seja, se a evolução é diferencial para as primíparas e para
as multíparas. Na presente análise, esta variável foi considerada,
simultaneamente, no contexto de (in)existência da infecção por VIH.
Em termos de estabilidade absoluta (avaliada através do Teste de Wilcoxon),
globalmente, verificou-se uma diminuição da psicossintomatologia entre os dois
momentos de avaliação, sem que as diferenças tenham sido estatisticamente
significativas. As excepções registaram-se entre as mulheres multíparas
seropositivas para o VIH, grupo em que se verificaram diferenças significativas
entre as duas avaliações na dimensão Ansiedade(z=-2.30; p=.022) e no ISP(z=-
1.99; p=.046).
No que diz respeito à reactividade emocional, a tendência geral foi de
diminuição, ao longo do tempo, da reactividade emocional negativa e de aumento
na Felicidade. Esta emoção aumentou de forma estatisticamente significativa
entre as mulheres multíparas, quer do grupo clínico (z=-2.48; p=.013) quer do
grupo de controlo (z=-2.72; p=.006). De igual forma, nestes mesmos grupos,
verificou-se uma diminuição significativa na emoção Ansiedade, nomeadamente:
GC-VIH (z=-2.87; p=.004) e GC (z=-2.30; p=.022). No grupo de primíparas do GC
observou-se igualmente uma mudança (aumento) significativa na emoção Surpresa
(z=-3.12; p=.002).
Finalmente, e no que se prende com a QdV, entre as mulheres multíparas
registou-se um aumento em todos os domínios e na faceta geral. Em termos
grupais, a única diferença verificou-se no domínio Físico: GC-VIH (z=-2.10;
p=.035) e GC (z=-3.00; p=.003). Neste domínio, observou-se igualmente um
aumento significativo no grupo das primíparas do GC-VIH (z=-3.06; p=.002). Já
entre as mulheres primíparas registou-se uma diminuição nos domínios das
Relações Sociaisem ambos os grupos (clínico e controlo) e no domínio Ambiente,
apenas no grupo de primíparas do GC-VIH. Nas primíparas do GC foram encontradas
diferenças entre os dois momentos nos domínios Psicológico(z=-2.21; p=.027),
onde se registou um aumento do primeiro para o segundo momento de avaliação, e
Relações Sociais(z=-2.44; p=.015). Em relação à Faceta Geral de QdV, a única
diferença com significação estatística verificou-se entre as multíparas do GC-
VIH (z=-2.26; p=.024), que apresentam um resultado mais elevado no segundo
momento de avaliação.
Globalmente, os resultados permitem atestar a continuidade grupal na adaptação.
A fim de avaliar a estabilidade e/ou mudança individual, recorremos à análise
das correlações de Spearman entre os indicadores avaliados na gravidez e no
pós-parto. Os resultados obtidos encontram-se expressos no Quadro_4.
A partir da leitura do Quadro_4, verificamos que, de forma geral, as mulheres
multíparas apresentam maior estabilidade temporal e continuidade individual na
adaptação à gravidez e ao nascimento de um filho (observada através das
correlações significativas entre os dois momentos de avaliação), sendo tal
estabilidade especialmente evidente no que se refere à psicossintoma tologia.
Considerando a existência de infecção por VIH, a análise dos resultados
permite-nos constatar que a estabilidade individual é superior entre as
mulheres do GC. Considerando apenas as primíparas, as mulheres seropositivas
para o apresentam notória descontinuidade individual, ainda que os dados
relativos à estabilidade absoluta apontem para a estabilidade grupal.
DISCUSSÃO
A literatura científica tem sublinhado o impacto que o nascimento de um filho
tem na vida dos pais, não sendo, todavia, muito clara sobre as particularidades
inerentes ao facto de ser ou não o primeiro. No contexto da infecção por VIH,
que seja do nosso conhecimento, este aspecto não tem sido empiricamente
estudado. No presente estudo procurámos, então, compreender melhor essas
diferenças, no que respeita à adaptação à gravidez e aos primeiros dias
subsequentes ao parto.
Na revisão de literatura, relatámos que o nascimento de um filho, em particular
o primeiro, está associado a uma adaptação complexa, implicando uma maior
perturbação que o nascimento de um outro filho. Partimos, neste sentido, do
pressuposto de que a primiparidade pode constituir um importante factor de
vulnerabilidade na adaptação materna, sobretudo no pós-parto. De acordo com o
hipotetizado, e consistente com o estudo de Wilkinson (1999) e com a revisão de
Figueiredo (2000), durante a gravidez, as mulheres primíparas apresentaram
resultados inferiores de psicossin tomatologia, menor reactividade emocional
negativa e melhor QdV. No total, foram encontrados efeitos principais da
experiência prévia de gravidez/maternidade em três dimensões de psicopato logia
e nos domínios Relações Sociaise Ambientee na Faceta Geral de QdV. No segundo
momento de avaliação não se registaram quaisquer diferenças relativamente à
paridade, ainda que os dados apontem para maiores níveis de
psicossintomatologia, maior reactividade emocional negativa e menor QdV entre
as mães multíparas.
Stewart (1990) alerta para as reorganizações exigidas ao sistema parental
preexistente e diversos autores (e.g., Goldberg & Michaels, 1988;
Hakulinen, Paunonen, White, & Wilson, 1997) defendem inclusive que esta
segunda transição, podendo ser menos dramática, é certamente mais complexa
(e.g., pela antecipação dos novos papéis no núcleo familiar). Face ao exposto,
não será surpreendente que as mulheres multíparas reportem níveis mais elevados
nos indicadores de adaptação de valência negativa.
Já no que respeita à adaptação relacional, embora não tenhamos encontrado
diferenças com significação estatística, os resultados apontam para melhores
valores de satisfação conjugal entre as mulheres primíparas, o que tem sido
demonstrado em estudos internacionais (Belsky, Spanier, & Rovine,1993;
Windridge & Berryman, 1996) e nacionais (Gameiro et al., 2009), bem como
para melhor percepção de competência materna entre as mulheres multíparas,
também semelhante ao demonstrado em estudos nacionais conduzidos em amostras de
grávidas sem risco médico associado (Gameiro et al., 2009; Oliveira, 2006).
Entre a gravidez e o pós-parto, os resultados da estabilidade absoluta e
relativa apontam para padrões e trajectórias de adaptação diferentes.
Globalmente, verificou-se uma melhoria na adap tação dos quatro grupos
considerados, porém, registaram-se trajectórias individuais diferenciadas, com
as mulheres primíparas seropositivas para o VIH a evidenciar menor estabilidade
individual. Estes resultados alertam para a importância de considerar, no
âmbito da gravidez, intervenções diferenciadas.
Este aspecto chama a atenção, contudo, para uma importante limitação do
presente estudo, que considerou apenas avaliações durante a gravidez e pós-
parto. Neste sentido, pensamos que a opção por um desenho longitudinal mais
longo, que avaliasse a adaptação até aos seis meses após o nascimento do bebé,
poderia ajudar a melhor compreender as trajectórias destes grupos. Este ponto
revela-se de extrema relevância dado que, entre as grávidas seropositivas, aos
primeiros seis meses está associada uma grande incerteza e dificuldade de
gestão emocional, que se prende com a confirmação (positiva ou negativa) do
diagnóstico de infecção do bebé. Por outro lado, e dado o consenso de que a
transição para a maternidade é um fenómeno eminentemente complexo e
multideterminado (Belsky & Jaffee, 2006) reconhecemos a importância de
estudar a influência da paridade em conjunto com outros determinantes
(sociodemográficos; reprodutivos) da adaptação.
Os objectivos centrais da presente investigação situam-se num plano
relativamente próximo da intervenção psicológica, pelo que não podemos deixar
de responder à inevitável questão sobre as implicações práticas (clínicas) das
posições defendidas e dos resultados obtidos. No mesmo sentido, parece-nos
imprescindível alertar para a premência que as rotinas de planeamento familiar
podem assumir neste contexto.
A identificação das mulheres que apresentem factores de risco de desenvolver
estados emocionais negativos durante a gravidez é indispensável. A paridade
assume, na nossa óptica, e tendo em conta a experiência clínica que temos vindo
a desenvolver numa Maternidade, uma importância central. Esta variável
entendemo-la, também, indissociável da variável planeamento da gravidez. Esta
dupla consideração pode constituir uma importante pista futura de investigação.
Adicionalmente, e considerando que o grupo clínico do nosso estudo pertence, na
larga maioria, ao nível socioeconómico baixo, ter atenção a este factor é um
aspecto importante para as mulheres (casais) carenciadas(os), uma vez que
contribui para prevenir a existência de um elevado número de filhos, muito além
das suas possibilidades e recursos financeiros.
Do ponto de vista psicológico defendemos, à semelhança de outros autores
(Gameiro et al., 2009) que a intervenção (aconselhamento) deverá passar por uma
componente educativa sobre aspectos práticos de cuidados diários e, ao mesmo
tempo, permitir ventilar emoções e discutir preocupações relativas à
antecipação do (novo) papel de cuidadora. Este aspecto, no contexto da infecção
VIH, tem especial importância, na medida em que, nas primeiras seis semanas
após o nascimento do bebé, cabe às mães (geralmente) a responsabilidade de
administrar o xarope de AZT. Adicionalmente, assume-se como central um
aconselhamento psicológico no pós-parto, dada a existência de evidência
empírica de que, com frequência, as mulheres negligenciam as suas necessidades
(em termos de saúde pessoal) em detrimento das necessidades e cuidados dos
filhos e outros significativos (Aranda-Naranjo & Davis, 2001; Herbert &
Bachanas, 2002), que poderão igualmente estar infectados (Armistead &
Forehand, 1995).
Não obstante as inúmeras especificidades desta infecção, e independentemente de
esta temática discorrer entre concepções da maternidade como proibida ou
aceitável, reconhecemos, como Sherr (2005), que as mulheres infectadas
enfrentam os mesmos desafios parentais que todas as mulheres, porém, são as
especificidades da infecção VIH, os diferentes contextos individuais, bem como
as diferentes trajectórias e padrões de adaptação que devem, em contexto
clínico, orientar a nossa posição enquanto psicólogos de uma Maternidade.