Desenhos de investigação de sujeito único em educação especial
Desenhos de investigação de sujeito único em educação especial
Cecília Aguiar; Ana Rita Moiteiro*; Nadine Correia; Júlia Serpa Pimentel
*UIPCDE, ISPA - Instituto Universitário
Correspondência
ABSTRACT
With a quantitative and experimental nature, single-subject research designs
are a group of rigorous scientific methods, internationally recognized as
sources of data that can be used to establish evidence-based practices in
special education. This study aimed to describe the main characteristics of and
quality criteria for this type of research designs, to discuss their usefulness
in special education and early childhood intervention, and to investigate their
incidence in the research conducted in Portugal in these fields. Based on a
systematic search in national publications in the fields of special education,
education, and psychology, and in scientific and general online search engines,
only five master thesis that used single-subject designs were identified,
suggesting that, despite their potential, these research designs are still
virtually inexistent in the research conducted, in Portugal, in the fields of
special education and early childhood intervention.
Key-words:Early childhood intervention, Portugal, Single-subject research
designs, Special education.
Nos últimos anos, o termo "prática(s) baseada(s) em evidências"
tornou-se prevalente na literatura internacional nos domínios da educação
especial e da intervenção precoce. O princípio que lhe está subjacente postula
que a investigação deve guiar a prática profissional, ou seja, que a
implementação de uma determinada intervenção deve ser fundamentada em
evidências empíricas consistentes. Por outras palavras ainda, os profissionais
de educação especial ou intervenção precoce devem implementar intervenções cuja
eficácia tenha sido estabelecida por um número determinado de estudos de
elevado rigor e qualidade científica.
O rigor dos métodos de investigação utilizados e o número de replicações estão
necessaria
mente associados ao grau com que uma determinada prática tem uma base
científica (Odom & Strain, 2002). Segundo Cook, Tankersley e Landrum
(2009), no domínio da educação especial apenas três desenhos de investigação
devem ser considerados para determinar se uma prática é baseada em evidências
empíricas: desenhos experimentais, desenhos quase-experimentais e desenhos de
investigação de sujeito único1 (cf. Dunst & Trivette, 2009; Thompson,
Diamond, McWilliam, Snyder, & Snyder, 2005). De acordo com Cook et al.
(2009), estes desenhos de investigação são os únicos para os quais foram
definidos padrões neste sentido (ver Gersten et al., 2005; Horner et al., 2005;
Kratochwill et al., 2010).
Este artigo debruça-se exclusivamente sobre os desenhos de investigação de
sujeito único e tem como objectivos (a) descrever as suas principais
características, (b) enumerar critérios de qualidade a considerar na condução
destes estudos e na redacção dos respectivos relatórios científicos, (c)
discutir a sua utilidade nos domínios da educação especial e da intervenção
precoce e (d) determinar a sua incidência no contexto da investigação nacional
nestes domínios.
PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS DESENHOS DE INVESTIGAÇÃO DE SUJEITO ÚNICO
Com origem no domínio da análise comportamental aplicada (ver Kennedy, 2005),
os desenhos de investigação de sujeito único (também designados, em português,
como delineamentos intrassujeitos) têm sido identificados como um conjunto de
métodos científicos rigorosos passíveis de contribuir para a identificação de
práticas baseadas em evidências empíricas em educação e em educação especial
(Gast, 2010; Horner et al., 2005; Kratochwill et al., 2010; Tankersley, Cook,
& Cook, 2008).
Horner et al. (2005) bem como Kratochwill et al. (2010) definem estes métodos
como experimentais, na medida em que o seu objectivo é documentar relações
causais ou funcionais entre as variáveis dependentes e as variáveis
independentes, controlando as principais ameaças à validade interna (e.g.,
passagem do tempo, mudanças nos critérios dos observadores ao longo do estudo)
(ver Kennedy, 2005). Do mesmo modo, Gast (2010) descreve os desenhos de
investigação de sujeito único como uma "abordagem quantitativa
experimental em que os participantes funcionam como o seu próprio
controlo" (pp. 13-14).
Efectivamente, cada participante é exposto a (pelo menos) uma condição de
controlo ou linha de base (A) e a (pelo menos) uma condição de intervenção (B),
durante as quais os comportamentos são medidos repetidamente, de uma forma
quantitativa, através de procedimentos de observação directa. Dependendo do
desenho de investigação utilizado, o controlo dos efeitos de explicações
alternativas (controlo experimental) é assegurado através da alternância das
condições A e B ao longo do tempo (e.g., desenho A-B-A-B) ou da introdução
faseada da intervenção em diferentes participantes, comportamentos ou condições
(e.g., desenho de múltiplas linhas de base), sendo necessário assegurar a
estabilidade dos dados antes da introdução de uma nova condição ou retorno a
uma condição anterior (Gast, 2010). Tipicamente, os estudos de sujeito único
envolvem múltiplos participantes (e.g., três a oito), mas podem envolver apenas
um (Horner et al., 2005). Os dados (brutos) individuais de cada participante
são apresentados num gráfico e quer as decisões para manter ou modificar a
actual condição, quer a análise global dos resultados (i.e., a comparação entre
o desempenho dos participantes antes, durante e após a intervenção) são
efectuadas com base em procedimentos sistemáticos de análise visual (Gast,
2010; Horner et al., 2005). Habitualmente, a durabilidade, continuidade e
transferência dos efeitos da intervenção são avaliadas através da manutenção
(i.e., continuação das mudanças no comportamento após o fim da intervenção) e
generalização (i.e., grau com que as mudanças no comportamento ocorrem noutros
cenários ou com outras pessoas ou se reflectem em mudanças noutros tipos de
comportamento) (Odom & Strain, 2002).
Com o objectivo de ilustrar as características deste tipo de delineamentos,
seguem-se representações gráficas de dois tipos de desenhos experimentais de
sujeito único, seleccionados com base na sua elevada frequência e nas suas
diferenças estruturais (ver Gast & Hammond, 2010; Gast & Ledford, 2010;
Kennedy, 2005). A Figura_1 apresenta dados hipotéticos de um desenho de
investigação de reversão, do tipo A-B-A-B, que assegura controlo experimental
através de três demonstrações intrassujeito do efeito da variável independente
(neste caso, a diminuição do número de comportamentos disruptivos). A primeira
demonstração desse efeito verifica-se em B1, com a diminuição da frequência de
comportamentos disruptivos após a introdução da intervenção; a segunda
demonstração do efeito verifica-se em A2, com o aumento da frequência dos
comportamentos-alvo após o regresso à linha de base (i.e., ausência de
intervenção); e, finalmente, a terceira demonstração do efeito da variável
independente sobre a variável dependente verifica-se em B2, com a diminuição da
frequência dos comportamentos disruptivos após a reintrodução da intervenção.
Este tipo de delineamento constitui o método de eleição para avaliar efeitos de
causalidade quando os comportamentos são reversíveis. Segundo Gast e Hammond
(2010), os desenhos A-B-A-B demonstram controlo experimental quando o nível
(i.e., magnitude) e tendência (i.e., inclinação dos dados) do comportamento-
alvo melhoram no decurso da condição de intervenção (B1e B2) e pioram no
decurso da condição de linha de base (A1e A2). Apenas nestes casos se pode
estabelecer uma relação funcional ou causal entre a intervenção e as mudanças
observadas no comportamento-alvo.
Por seu turno, a Figura_2 apresenta dados hipotéticos de um desenho de
investigação de múltiplas linhas de base, com diferentes participantes, que
assegura controlo experimental através de três demonstrações intersujeitos do
efeito da variável independente. Note-se que, apesar de a ideia central dos
desenhos de investigação de sujeito único se basear na obtenção de controlo
experimental com um N=1 (patente na própria designação deste tipo de
delineamentos experimentais) (Kennedy, 2005) e os desenhos de investigação com
múltiplas linhas de base, com diferentes participantes, exigirem um mínimo de
três participantes para assegurarem controlo experimental (não correspondendo
tecnicamente a um desenho com N=1), este tipo de delineamentos obedece à lógica
da linha de base (i.e., a medição repetida do comportamento em, pelo menos,
duas condições adjacentes - a linha de base e a intervenção), o alicerce
primordial dos métodos de investigação de sujeito único (Gast & Hammond,
2010). Os desenhos de investigação de múltiplas linhas de base são
particularmente adequados quando o regresso à linha de base não é possível
devido à irreversibilidade da variável dependente (por exemplo, quando esta
implica aquisição de novos conhecimentos ou competências) ou quando esse
regresso não é desejável por motivos de carácter prático ou ético (Gast &
Ledford, 2010).
Estas figuras espelham a representação gráfica mais simples e mais comum nos
estudos publicados em revistas internacionais, o gráfico de linhas. Os seus
componentes essenciais incluem a abcissa ou eixo x(que tipicamente identifica a
variável tempo e que pode corresponder a dias, semanas, sessões, etc.), a
ordenada ou eixo y(que habitualmente identifica a variável dependente), marcas
de escala para os valores dos eixos xe y, rótulos que descrevem cada condição
experimental, pontos de dados que indicam os valores da variável dependente em
cada momento de recolha de dados (unidos entre si por uma linha sólida dentro
de cada condição), linhas verticais que assinalam os momentos de mudança nas
condições experimentais e o número da figura e respectiva legenda. Como é
possível verificar, este tipo de representação gráfica permite apresentar, de
uma forma detalhada e eficiente, uma quantidade considerável de informação,
nomeadamente no que diz respeito ao desenho experimental, à sequência de
condições experimentais, ao tempo despendido em cada condição e às relações
entre variáveis (Spriggs & Gast, 2010). Note-se que é possível construir
estes gráficos, respeitando todas as recomendações específicas para este tipo
de dados (ver Spriggs & Gast, 2010), recorrendo a programas informáticos
amplamente difundidos e de fácil acesso (ver Barton, Reichow, & Wolery,
2007; Carr & Burkholder, 1998; Dixon et al., 2009; Grehan & Moran,
2005).
CRITÉRIOS DE QUALIDADE DOS DESENHOS DE INVESTIGAÇÃO DE SUJEITO ÚNICO
Horner e colaboradores (2005) propõem sete indicadores que permitem avaliar se
um determinado estudo de sujeito único é de elevada qualidade. Segundo os
autores, um estudo de sujeito único pode ser considerado credível se:
1) Descrever detalhadamente os participantes e o seu processo de
selecção bem como as características essenciais do ambiente físico
(no sentido de permitir a selecção de participantes com
características semelhantes em replicações subsequentes).
2) Descrever de uma forma precisa e objectiva e medir repetidamente
(em todas as condições) cada variável dependente, obtendo e relatando
elevadas percentagens de acordo interobser vadores (para cada
variável e para cada participante, em todas as condições do estudo).
3) Descrever com precisão e manipular de uma forma activa e
sistemática a variável independente (i.e., a intervenção ou prática),
medindo e relatando a fidelidade de implementação (nomeadamente
através da sua medição directa contínua). Todos os materiais e
procedimentos envolvidos na intervenção devem ser descritos de forma
precisa no sentido de permitir a replicação e permitir uma
interpretação válida dos resultados.
4) Descrever a condição de linha de base com uma precisão que permita
a replicação. A medição da variável dependente durante a condição de
linha de base deve ser prolongada até se observar um padrão de
resposta consistente e estável (i.e., previsível), o que implica
obter múltiplos pontos de dados (normalmente cinco ou mais) sem
direcção óbvia ou com uma direcção oposta à que se pretende obter com
a intervenção.
5) Demonstrar controlo experimental ou validade interna, através de
(pelo menos) "três demons trações do efeito experimental, em
três momentos no tempo, quando se trata de um só participante
(replicação intrassujeito), ou em diferentes participantes
(replicação intersujeitos). Um efeito experimental é demonstrado
quando a mudança prevista na variável dependente é concomitante com a
manipulação da variável independente" (p. 168).
6) Fornecer evidências acerca da validade externa dos resultados,
através da sua replicação em diferentes participantes, cenários,
materiais, condições e/ou com diferentes medidas da variável
dependente.
7) Fornecer evidências relativamente (a) à validade social da
intervenção, incluindo dados acerca da sua eficiência (relação custo-
benefício) e da sua utilização fidedigna por profissionais de
educação, em contextos naturais e por períodos alargados de tempo, e
(b) à validade social dos resultados obtidos, incluindo dados acerca
da relevância social da magnitude da mudança resultante da
intervenção.
Estes indicadores de qualidade começaram já a ser alvo de pilotagem e
desenvolvimento. Por exemplo, Tankersley et al. (2008) aplicaram estes
indicadores a dois artigos baseados em experiências de sujeito único,
discutindo a necessidade de maior especificação e objectividade (no sentido de
permitir uma avaliação fidedigna da qualidade ou credibilidade de cada estudo
por avaliadores independentes). Por seu turno, Lane, Wolery, Reichow e Rogers
(2007) debruçaram-se especificamente sobre o indicador número 4, efectuando um
conjunto de sugestões sobre a informação necessária para descrever de forma
replicável a condição de controlo.
Muito recentemente, também a What Works Clearinghouse2 estabeleceu um conjunto
de padrões que permitem avaliar a validade interna dos desenhos de sujeito
único (Kratochwill et al., 2010). Com base nestes padrões, cada estudo é
classificado como "Cumpre os padrões" (com ou sem reservas) ou
"Não cumpre os padrões" e apenas os estudos que cumprem os padrões
de qualidade são incluídos em revisões destinadas a avaliar a eficácia de uma
determinada intervenção. Assim, adoptando algumas convenções propostas por
Horner et al. (2005), Kratochwill e colaboradores (2010) consideram que um
estudo de sujeito único deverá exibir as seguintes características:
1) Manipulação activa e sistemática da variável independente por
parte do investigador (i.e., deve ser o investigador a decidir quando
e como implementar a intervenção para que seja possível estabelecer
relações inequívocas entre a manipulação da variável independente e a
mudança na variável dependente).
2) Medição sistemática de cada variável dependente ao longo do tempo,
por mais de um observador, com verificações do acordo
interobservadores em, pelo menos, 20% dos dados de cada condição, e
bons níveis de acordo interobservadores (i.e., percentagens de acordo
interobservadores acima de 80% e coeficientes kappa acima de .60).
3) Pelo menos, três tentativas para demonstrar um efeito experimental
(em três momentos do tempo diferentes, no caso de replicações
intersujeitos, ou com três repetições de condições ou fases, no caso
de replicações intrassujeitos).
4) Pelo menos, três pontos de dados em cada condição ou fase,
considerando que quaisquer fases com menos de três pontos de dados
não podem ser usadas para demonstrar a existência ou ausência de um
efeito. Por exemplo, para cumprir os padrões sem reservas, cada
estudo A-B-A-B deve incluir, pelo menos, quatro condições por caso/
sujeito, com pelo menos cinco pontos de dados por condição; para
cumprir os padrões com reservas, um estudo A-B-A-B deve incluir um
mínimo de quatro condições por caso, com, pelo menos, três pontos de
dados em cada condição. Paralelamente, para cumprir os padrões sem
reservas, um estudo de múltiplas linhas de base deve incluir pelo
menos seis condições, com pelo menos cinco pontos de dados por
condição; para cumprir os padrões com reservas, um estudo de
múltiplas linhas de base deve incluir pelo menos seis condições, com
pelo menos três pontos de dados por condição.
Assegurada a qualidade do desenho de investigação, através do cumprimento
destes padrões, é possível documentar em que medida cada estudo de sujeito
único fornece evidências fortes ou moderadas ou não fornece qualquer evidência
de uma relação causal entre uma variável independente e uma variável
dependente. Segundo Kratochwill et al. (2010), um estudo fornece evidências
fortes de uma relação causal quando relata três demonstrações de um efeito da
intervenção, sem nenhuma demonstração de ausência de efeitos, e fornece
evidências moderadas quando documenta três demonstrações de um efeito e uma
demonstração de ausência de efeito.
Actualmente, tais demonstrações são estabelecidas essencialmente através de
procedimentos sistemáticos de análise visual (Gast & Spriggs, 2010), que
permitem obter interpretações consistentes dos dados por parte de diferentes
observadores (Kahng et al., 2010). Assim, no decorrer da análise visual, é
necessário considerar (a) os padrões obtidos em cada condição, nomeadamente no
que diz respeito ao nível, tendência e variabilidade dos dados e (b) os padrões
de dados obtidos em diferentes condições ou fases, nomeadamente a imediação do
efeito, a proporção de dados sobrepostos (i.e., proporção de dados de uma
condição que coincidem com dados da condição anterior) e a consistência dos
dados em condições similares (Kennedy, 2005; Kratochwill et al., 2010). A
inexistência de um padrão de resposta na condição de linha de base (que permita
fazer previsões relativamente ao comportamento do sujeito), elevada
variabilidade dentro de uma determinada condição, latência prolongada entre a
introdução da intervenção e a mudança na variável dependente, sobreposição
entre padrões observados e esperados da variável dependente nas condições de
linha de base e de intervenção, e padrões inconsistentes em condições similares
são alguns indicadores que sugerem a inexistência de um efeito (Kratochwill et
al., 2010).
Note-se que não existe ainda consenso alargado acerca das análises estatísticas
e estimativas quantitativas da magnitude dos efeitos adequadas a este tipo de
dados (Kratochwill et al., 2010; Wolery, Busick, Reichow, & Barton, 2010).
No entanto, estamos perante um campo claramente em expansão, com novas
propostas de estimativas a emergir frequentemente (e.g., Parker & Vannest,
2009; Parker, Hagan-Burke, & Vannest, 2007; Parker, Vannest, & Brown,
2009).
Validação de práticas com base em estudos de sujeito único
Após determinar o rigor metodológico de um dado estudo e documentar o tipo de
evidências por ele fornecidas, é ainda possível avaliar se uma determinada
prática está suficientemente fundamentada em estudos de sujeito único, isto é,
se pode ser considerada baseada em evidências empíricas, com base em resultados
de um conjunto de estudos de sujeito único. Para tal, Horner et al. (2005)
sugerem os seguintes padrões:
1) A prática (i.e., a intervenção) está definida de uma forma precisa
e objectiva, permitindo a sua replicação fiel por outros
investigadores.
2) O contexto e efeitos estão definidos de uma forma clara,
detalhando (a) as condições em que a prática deve ser utilizada, (b)
quem pode/deve implementar a prática, (c) a população a que a prática
se destina e em que parece ser eficaz, e (d) os comportamentos
afectados pela prática.
3) A prática é implementada com fidelidade.
4) Os resultados dos estudos de sujeito único disponíveis estabelecem
uma relação causal ou funcional entre o uso da prática e a mudança em
comportamentos-alvo socialmente relevantes.
5) Os efeitos experimentais são replicados por um número suficiente
de estudos, investigadores e participantes. Mais especificamente, são
necessários, pelo menos, cinco estudos de sujeito único (de uma
qualidade metodológica aceitável e que tenham sido publicados em
revistas com procedimentos de revisão por pares), conduzidos por,
pelo menos, três investigadores diferentes, em três localizações
geográficas distintas, e que, cumulativamente, incluam um total de,
pelo menos, 20 participantes.
Estes padrões, em articulação com os indicadores de qualidade, estão já a ser
utilizados para avaliar a qualidade das evidências empíricas que sustentam as
intervenções propostas em educação especial (e.g., Baker, Chard, Ketterlin-
Geller, Apichatabutra, & Doabler, 2009; Chard, Ketterlin-Geller, Baker,
Doabler, & Apichatabutra, 2009; Montagne & Dietz, 2009).
UTILIDADE DOS DESENHOS DE INVESTIGAÇÃO DE SUJEITO ÚNICO
A adequação e utilidade dos estudos ou experiências de sujeito único para o
campo da educação especial decorrem das seguintes características: (a) a
unidade de análise é o indivíduo; (b) permitem descrever detalhadamente as
características dos indivíduos que beneficiam da intervenção e dos indivíduos
cujo comportamento permanece inalterado ou evolui negativamente; (c) permitem
testar, de uma forma prática, e em condições e contextos educativos típicos, a
eficácia de intervenções educativas e comportamentais; (d) permitem testar uma
teoria; e (e) constituem uma abordagem eficiente (i.e., com uma relação custo-
benefício adequada) para identificar práticas com potencial suficiente para
justificar o investimento em estudos experimentais ou quase-experimentais
(Horner et al., 2005).
Efectivamente, existe uma boa correspondência entre as possibilidades
oferecidas por este tipo de métodos e as necessidades de investigação em
educação especial e em intervenção precoce. A baixa incidência de muitas
incapacidades, a heterogeneidade da população servida (Horner et al., 2005) e a
natureza aplicada e individualizada da educação especial proporcionam
frequentemente a emergência de questões centradas (a) nos efeitos de
intervenções específicas em crianças com perfis de desenvolvimento,
comportamento e/ou desempenho escolar particulares e (b) na eficácia de
estratégias de intervenção destinadas a produzir mudanças nos comportamentos
dos diferentes profissionais que lidam com as crianças nos contextos de
educação naturais (educadores, professores, terapeutas, etc.). A título de
exemplo, vejamos algumas questões que têm sido alvo de investigação empírica no
contexto de estudos de sujeito único, publicados em revistas internacionais:
1) A utilização de ensino incidental (i.e., interacção que ocorre
naturalmente no decurso de uma situação não estruturada e que é
utilizada pelo adulto para transmitir informação ou proporcionar
oportunidades para desenvolver uma competência) por parte de
educadores inseridos em programas de educação pré-escolar destinados
a crianças em situação de pobreza, poderá ser potenciada pela sua
participação numa sessão de treino, acompanhada por feedbackescrito
(diário) e verbal (intermitente)? (Mudd & Wolery, 1987).
2) A implementação de uma intervenção baseada no ensino de
estratégias de interacção responsivas poderá facilitar as interacções
entre as crianças com desenvolvimento típico e os seus irmãos mais
novos com Síndrome de Down? (Trent, Kaiser, & Wolery, 2005).
3) A modificação do ambiente de jogo, tornando-o mais restrito em
termos de materiais, espaço e número de pares disponíveis, poderá
aumentar a frequência e duração das conversas (interacções verbais)
entre crianças com e sem incapacidades? A modificação do ambiente de
jogo, aliada a estratégias adoptadas pelos educadores com o objectivo
de sugerir e direccionar o comportamento das crianças de forma
progressivamente mais intensiva, poderá aumentar a frequência e
duração das conversas entre crianças com e sem incapacidades? (Filla,
Wolery, & Anthony, 1999).
4) O fornecimento de feedbackquantitativo a educadores responsáveis
por salas de ensino pré-escolar, sob a forma de gráfico e tendo por
base o comportamento previamente adoptado pelos mesmos, poderá
aumentar a sua utilização de estratégias de ensino incidental)?
(Casey & McWilliam, 2008).
Trata-se de questões de investigação claramente orientadas para a resolução de
problemas em contextos naturais, cujo estudo através de desenhos de
investigação tradicionais (i.e., de grupo) exigiria um grande número de
participantes e de recursos.
INCIDÊNCIA DOS DESENHOS DE INVESTIGAÇÃO DE SUJEITO ÚNICO NA INVESTIGAÇÃO
NACIONAL
Com o objectivo de determinar a incidência dos desenhos de investigação de
sujeito único, no contexto da investigação nacional, nos domínios da educação
especial e da intervenção precoce, procurou-se consultar todas as publicações
efectuadas por investigadores nacionais nestes domínios, nos últimos 10 anos
(incluindo artigos em revistas nacionais e internacionais, teses de mestrado e
de doutoramento, publicações em actas de encontros científicos, etc.). Este
processo foi conduzido de forma a permitir uma pesquisa tão exaustiva quanto
possível das publicações nacionais. Foram assim consultadas e analisadas:
1) Todas as publicações apresentadas por motores de busca onlinede
carácter científico, em resposta a um conjunto de palavras-chave
seleccionadas pela sua relevância, considerando o objectivo da
pesquisa (i.e., caso, delineamento, estudo, intrassujeitos,
investigação, pesquisa, Portugal, sujeito, único), bem como a
diferentes combinações entre as mesmas, na língua portuguesa e na
língua inglesa. Os motores de busca seleccionados encontravam-se
disponíveis em espaços Webnacionais, designadamente (a) dos
repositórios de instituições nacionais de ensino universitário do
país (Universidade do Porto, Universidade do Minho, Universidade de
Lisboa, Universidade Técnica de Lisboa, Universidade de Coimbra e
ISPA - Instituto Universitário), (b) do Repositório Científico
de Acesso Aberto de Portugal e (c) da Biblioteca Nacional de
Portugal, bem como em espaços Webinternacionais, designadamente da
EBSCO e da SciELO.
2) Todas as publicações apresentadas pelo motor de busca onlinede
carácter generalista da Google, em resposta às palavras-chave
previamente referidas e respectivas combinações.
3) Todos os números das principais revistas científicas nacionais nos
domínios da educação especial, educação e psicologia (A
Psicomotricidade, Análise Psicológica, Cadernos de Educação de
Infância, Educação Especial e Reabilitação, Inclusão, Infância e
Educação: Investigação e Práticas, Inovação, Psicologia, Psicologia:
Teoria, Investigação e Prática, Psychologica, Revista de Educaçãoe
Revista Portuguesa de Educação) disponíveis nos respectivos espaços
Webe/ou nas bibliotecas do ISPA - Instituto Universitário e da
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa.
4) Todas as publicações disponíveis em espaços Webde organismos
centrais seleccionados pela sua relevância nos domínios em questão
(e.g., Instituto Nacional de Reabilitação).
5) Todas as publicações enviadas por investigadores nacionais no
domínio da educação especial e da intervenção precoce em resposta a
um pedido de informação submetido através de correio electrónico.
Utilizando como critérios de elegibilidade o recurso a participantes com
incapacidades ou dificuldades de aprendizagem e a utilização de desenhos de
investigação de sujeito único, a pesquisa efectuada permitiu identificar apenas
cinco estudos. O Quadro_1 sistematiza a informação relativa às principais
características destes trabalhos de investigação, correspondentes a cinco teses
de mestrado defendidas na Universidade do Minho e na Universidade do Porto.
O reduzido número de estudos que recorrem a este tipo de métodos bem como o
tipo de trabalhos identificados (i.e., trabalhos de carácter académico) sugerem
um aparente desinteresse e, eventualmente, algum desconhecimento por parte dos
investigadores nacionais em educação especial e em intervenção precoce em
relação aos métodos de sujeito único. A baixa incidência destes métodos
experimentais em educação especial não é surpreendente, tendo em conta outros
relatos das orientações metodológicas em ciências sociais. A título informativo
e no sentido de contextualizar estes dados, salienta-se os resultados relatados
por Alferes, Bidarra, Lopes e Mónico (2009), de acordo com os quais as
investigações experimentais e quase-experimentais publicadas em oito revistas
nacionais na área da psicologia, entre 1967 e 2000, correspondem apenas a 5,9 %
do material publicado, apesar da elevada proporção de estudos subordinados a
problemáticas de aplicação (45,6%).
O presente trabalho identifica uma abordagem metodológica, amplamente
reconhecida por especialistas internacionais, que não tem ainda expressão no
contexto nacional e que pode constituir uma mais-valia para a investigação e
para os investigadores nacionais. Efectivamente, o seu potencial para a
documentação sistemática e eficiente dos efeitos de intervenções educativas bem
como o seu potencial de aceitação junto das principais revistas internacionais
configuram os desenhos de investigação de sujeito único como métodos de eleição
em educação especial e em intervenção precoce.