A avaliação das práticas como contributo para a promoção da qualidade dos
programas de intervenção precoce
A avaliação das práticas como contributo para a promoção da qualidade dos
programas de intervenção precoce1
Júlia Serpa Pimentel*; Nélia Rodrigues Correia**; Susana Marcelino***
*Psicóloga, Professora Auxiliar no ISPA - Instituto Universitário;
**Psicóloga, Unidade de Desenvolvimento do Hospital de Santa Maria -
CHLN, EPE;
***Psicóloga, Escola Secundária de Santa Maria
Correspondência
ABSTRACT
Recommended practices in Early Intervention are family-centered and based on
the learning opportunities that occur within natural settings and family
routines. In this paper we present two case-studies with data collected from
observation, interviews and documental analysis. In the first, home-based, the
early intervention professional implemented family-centered and routine-based
practices. As a result, mother considered that she could have a better
interaction with her child and that family life was improved. In the second,
centered-based, services were child-focused and the family was not involved.
During the first year all services were provided outside the natural learning
environment. During the second year, the integrated support may have
contributed to a greater involvement of the child in interactive situations
both with peers and classroom teacher. Data on professionals' perceptions
show that they agree with family-centered early intervention philosophy but
these case-studies, with data from observation, show that family centered and
routine based practices are still an issue in early intervention.
Key-words:Case studies, Contexts in early intervention, Observation.
INTRODUÇÃO
De acordo com os modelos Bioecológico (Bronffenbrenner & Morris, 1998) e
Transaccional (Sameroff & Fiese, 2000), que fundamentam as actuais práticas
de Intervenção Precoce na Infância (IPI), as variáveis contextuais e as
interacções entre os adultos e as crianças assumem particular importância no
seu desenvolvimento, pelo que qualquer intervenção que tenha como objectivo a
sua promoção deverá ter em conta essas variáveis e interacções. Shonkoff (2010)
apresenta-nos um modelo biodesenvolvimental que, segundo o autor, permite uma
nova e integrada abordagem na compreensão das diferenças nos domínios do
desenvolvimento, aprendizagem, comportamento e saúde e que tem implicações
relevantes para a intervenção precoce. Refere, especificamente, que é urgente
incorporar as evidências da investigação no campo das neurociências no
delineamento de programas de intervenção para que estes se tornem,
efectivamente, responsivos às diferenças quer biológicas quer contextuais das
crianças e famílias.
Os princípios conceptuais do Modelo Centrado na Família estão amplamente
documentados nos trabalhos de Dunst (2005). Para este autor, o apoio com vista
à capacitação e fortalecimento dos pais deverá constituir-se como o principal
objectivo da intervenção precoce, sendo também realçado o papel que as
experiências e oportunidades de aprendizagem informais, ocorrendo nos contextos
naturais, têm no desenvolvimento da criança e na capacitação da família.
Parece actualmente evidente que foi acumulado um conhecimento científico sobre
a incapa cidade e suas repercussões na família que é urgente reflectir nas
práticas de intervenção precoce. Decorrentes do modelo desenvolvimental de
sistemas para a Intervenção Precoce proposto por Guralnick (2005), Guralnick e
Colon (2007) enunciam dez princípios que devem estar presentes nos programas de
qualidade: (1) abordagem desenvolvimental e centrada nas famílias; (2)
integração e coordenação em todos os níveis do sistema; (3) inclusão e
participação das crianças e famílias; (4) identificação e sinalização precoces;
(5) monitorização dos resultados; (6) indivi dua lização em todas as etapas;
(7) avaliação sistemática; (8) parceria famílias/profissionais; (9)
recomendações e práticas baseadas na evidência e (10) manutenção de uma
perspectiva sistémica.
A prestação de serviços em contextos naturais e integrados nas rotinas da vida
diária da criança e da família é, actualmente, considerada a prática que melhor
assegura que as crianças tenham a máxima intervenção: esta ocorrerá ao longo de
todo o dia em todos os contextos e actividades da criança e da família (Dunst,
Bruder, Trivette, Raab, & McLean, 2001). Para que seja efectivamente
implementada, envolve obrigatoriamente os elementos da família e dos contextos
em que a criança participa.
De acordo com Turnbull et al. (2007), a investigação relacionada com os
objectivos de intervenção precoce centrada na família, tem-se focado,
sobretudo, em estudar como(how) devem os profissionais e famílias interagir
(processo de prestação de serviços) e não tem havido investigação suficiente
para conhecer o que(what) é oferecido à família em termos de apoio e quais os
benefícios que daí advêm. Assim, e considerando que: (1) a legislação sobre IP
assume que a participação da família lhe traz benefícios; (2) os benefícios
para a criança e para a família estão intimamente interligados; (3) ajudar as
famílias tem implicações directas nos benefícios que as crianças obtêm; (4) a
existência de uma criança com incapacidades tem implicações em toda a família,
Bailey et al. (2006) consideram essencial que sejam objectivamente avaliados os
benefíciosque a família tem como resultadodos serviços recebidos.
Numa perspectiva de intervenção baseada nos contextos naturais de aprendizagem,
mais importante do que o local onde a intervenção precoce ocorre é a forma como
esta é implementada. Assim, Childress (2004) dá particular ênfase ao papel de
consultor que o profissional de intervenção precoce deverá ter junto da
família, nos programas domiciliários e junto dos educadores, nos programas em
contexto educativo.
O contexto domiciliário parece ser, por excelência, o que permite uma
intervenção mais individualizada e responsiva às necessidades da criança e da
família. Rydley e O'Kelley (2008) e Keilty (2008) consideram crucial,
para o sucesso da intervenção precoce que, no apoio domiciliário, se promova: o
envolvimento e participação da criança nas rotinas; o envolvimento da família e
a sua aprendizagem de estratégias específicas de intervenção; a competência da
família na mobilização dos recursos necessários para a promoção do
desenvolvimento da criança e sua participação plena na vida da comunidade.
Considerando a escassez de dados sobre o que se passa no decorrer das visitas
domiciliárias (VD), McBride e Peterson (1997) realizaram um estudo em que foram
observadas as VD de quinze profissionais de Intervenção Precoce a vinte e oito
famílias/crianças, com o objectivo de analisar os parceiros e conteúdos de
interacção e o papel do visitador domiciliário. Os dados da observação mostram
que cerca de 50% das interacções se passam entre a criança e o profissional em
actividades de ensino, num modelo claramente centrado na criança e oposto ao
que se concluía pela análise de conteúdo das entrevistas dos profissionais que
se auto-avaliavam como desempenhando um papel de modelos para a família.
Conclusões em tudo semelhantes foram encontradas em estudos recentes (Campbell
& Sawyer, 2007; Peterson, Luze, Eshbaugh, Jeon & Kantz, 2007) em que
dados de observação permitiram verificar que as intervenções directas do
profissional com a criança ocupavam a maior parte do tempo das visitas
domiciliárias e que os profissionais raramente assumiam uma função de modelo
para a família que, frequentemente, se mantinha numa atitude de observadora
passiva. As conclusões do National Early Intervention Longitudinal Study
(Bailey et al., 2006; Hebbeler et al., 2007) apontam no mesmo sentido: as
famílias estão mais satisfeitas com os serviços centrados na criança do que com
os apoios e serviços que têm para si próprias e cerca de um terço considera não
ter informação suficiente para apoiar a aprendizagem ou lidar com os problemas
de comportamento dos seus filhos. Dados do National Early Childhood Technical
Assistance Center a partir da análise de Planos Individualizados de Apoio à
Família, referidos por Turnbull et al. (2007), mostram também que, mesmo em
contexto domiciliário, os serviços prestados são, frequentemente, focados nas
crianças.
Analisando as interacções verbais entre profissionais e famílias, Brady,
Peters, Gamel-McCormick e Venuto (2004) concluíram que comportamentos verbais
mostrando que o profissional aceitava as ideias e sentimentos, questionava e
encorajava a família estavam correlacionados com maior participação da família,
e que comportamentos verbais em que o profissional dá informação, dirige ou
critica a família não se correlacionam com o envolvimento desta. No entanto não
foram encontrados dados que permitissem concluir quais os tipos de interacção
que evidenciam uma intervenção centrada na família.
As creches e os jardins-de-infância são um outro contexto de atendimento em que
estão frequentemente inseridas crianças com incapacidades até aos seis anos. No
entanto, para que a inclusão seja bem sucedida, tem de ser assegurada a
colaboração entre todos os profissionais, de tal forma que a intervenção seja
baseada não só nas forças e competências da criança e família mas também na dos
técnicos e na destes contextos. De acordo com Craig (1997), muitos
profissionais de apoio mantêm uma intervenção directa com a criança e não usam
uma abordagem de consultoria por medo de perder o seu poder ou por pensarem que
os prestadores diários de cuidados não têm as competências necessárias. Também
Gottwald e Pardy (1997) e McWilliam (1996) referem que, quando as crianças
estão incluídas no jardim-de-infância, se torna crucial o trabalho de
cooperação entre os vários profissionais sempre com o envolvimento da família.
Qualquer que seja o contexto da intervenção, é hoje uma evidência que as
crianças aprendem ao longo do(s) dia(s), através das interacções repetidas e
das oportunidades de aprendizagem que partilham com a sua família ou
prestadores diários de cuidados (entreas intervenções) e não em momentos/apoios
concentrados (duranteas intervenções pontuais do técnico especializado).
McWilliam (1996) refere um conjunto de investigações que comprovam que o apoio
inserido no contexto é eficaz e promove um maior envolvimento e participação da
criança com os seus pares. Assim, e sendo a família e os educadores quem mais
influencia o desenvolvimento da criança, as intervenções mais eficazes serão,
em contexto domiciliário, as que promovem a competência, auto-confiança e
autonomia da família e a ajudam a proporcionar melhores oportunidades de apren
di zagem nas rotinas familiares; em contexto educativo, as que, através de
estratégias de consultoria ao educador da sala (apoio indirecto à criança),
promovem a intervenção específica e especializada, sempre integrada nas rotinas
da sala (McWilliam, 2010). De facto, segundo o mesmo autor, a criança com
incapacidades precisa da máxima intervenção (a que ocorre durante todo o dia no
seu contexto de vida e rotinas) mas não de muitos serviços e apoios
(descontextualizados e pontuais).
Em Portugal, para além do número temático da revista Psicologia sobre
Investigação e Intervenção Precoce, organizada por Joaquim Bairrão em 2003,
foram publicados, na última década, diversos trabalhos de investigação nesta
área (Almeida, 2009; Bairrão & Almeida, 2002; Pereiro, 2000; Pimentel,
2005; Serrano, 2007). Focam-se nas percepções de profissionais e de pais e não
no que se passa, efectivamente, no decorrer dos programas. Assim, e embora não
tenham sido publicados, merecem-nos referência alguns estudos de caso
realizados com esse objectivo. No estudo realizado por Marques (2003)
verificou-se que, apesar do profissional de apoio considerar que implementava
uma intervenção centrada na família, no decorrer das 11 sessões observadas, 61%
do tempo total de interacção foi com a criança, em actividades de ensino
estruturadas. No seu trabalho, Cordeiro (2004), analisou o apoio a cinco
crianças ao longo de doze sessões de apoio educativo, implementado em contexto
pré-escolar, desenvolvido em modalidade de apoio integrado (na sala). Verificou
que as educadoras de apoio tentam integrar os objectivos a atingir para cada
criança nas actividades e rotinas do dia-a-dia do jardim-de-infância, adequando
algumas estratégias mais estruturadas de treino e ensino de competências
específicas. Verificou, também, que o tempo de apoio é repartido entre as
actividades de grande grupo e actividades mais individualizadas, em apoio
directo com a educadora de apoio. Constatou, ainda, que não era adequadamente
promovida a participação e interacção da criança com os seus pares e que havia
pouco envolvimento da família.
A componente de observação de práticas do estudo de Mendes (2010) incidiu sobre
um vasto conjunto de programas de Intervenção Precoce de todo o distrito de
Portalegre. Dá-nos uma visão do que ocorreu em 92 sessões observadas referentes
a 62 casos, em vários contextos de intervenção implementada por profissionais
de diferentes áreas de especialização com crianças/famílias em diferentes
situações de risco. No entanto, pelas opções da autora no que se refere à
recolha de dados, não permite que se aprofunde o que se passa efectivamente nas
sessões observadas.
Os estudos de caso que são apresentados neste trabalho representam, assim, uma
pequena contribuição para avaliar o que ocorre, na realidade, em dois contextos
diferentes de Intervenção Precoce. Formulámos a seguinte questão de
investigação: Será que o trabalho de intervenção precoce, em contextos
diferentes, se rege pelos mesmos princípios de intervenção centrada na família,
nos contextos naturais de aprendizagem e na cooperação pais-profissionais e
entre profissionais?
Os objectivos de ambos os estudos são semelhantes: avaliar (1) se as práticas
implementadas pelas educadoras de apoio são centradas na família; (2) se o
Plano Individualizado de Apoio à Família (PIAF), o Plano Educativo
Individualizado (PEI) ou Plano Individual de Intervenção Precoce (PIIP) têm em
conta a avaliação realizada e as necessidades da criança/família; (3) se existe
uma efectiva cooperação entre os profissionais e a família e (4) se o programa
corresponde às recomendações internacionais no que se refere à Intervenção
Precoce.
O primeiro estudo irá analisar e descrever o acompanhamento que é feito num
programa domiciliário de intervenção precoce, a uma criança com atraso global
de desenvolvimento e sua família.
O segundo estudo irá analisar e descrever o acompanhamento que é feito num
programa de intervenção precoce em contexto de jardim-de-infância com uma
criança com síndroma de Down.
MÉTODO
Em consonância com os nossos objectivos, optámos, em ambos os estudos, por uma
abordagem qualitativa de estudo de caso, por ser aquela que permite uma
exploração aprofundada quer do "objecto de estudo" quer das
condições contextuais que são relevantes para a sua compreensão,
particularmente no caso da intervenção precoce (Sandall, Smith, McLean, &
Ramsey, 2002).
Apesar de ser habitual fazer uma clara distinção entre métodos quantitativos e
qualitativos, concordamos com Stake (2009) quando refere que, apesar de uma
ênfase diferente, ambos os métodos são uma mistura de abordagens. Nas
investigações qualitativas, o contexto natural é a fonte directa dos dados e
toda a investigação se baseia na compreensão do fenómeno, a partir dos pontos
de vista daqueles que nele actuam. Utilizam-se métodos de observação
naturalista, próxima dos sujeitos e dos dados, assumindo-se que quer os
processos quer os produtos finais são igualmente importantes. Na maioria das
investigações qualitativas, não existe uma hipótese inicial e os investigadores
usam métodos indutivos para chegarem a conclusões.
O rigor científico de um estudo qualitativo estará garantido sempre que
satisfaça critérios de: credibilidade (assegurando a conformidade dos dados com
a realidade estudada), confirmação (assegurado por corroborações directas e
regulares do que o investigador escuta, vê ou experimenta), confiabilidade
(assegurando a estabilidade dos dados). Embora o objectivo da investigação
qualitativa não seja produzir generalizações, mas sim compreender, em
profundidade, fenómenos particulares, deverá ainda ser assegurada a
possibilidade de transferência a outro contexto (Lincoln & Guba 1985, cit.
Baxter & Jack, 2008).
Stake (2009) considera que, nas investigações de estudo de caso, existem sempre
múltiplas perspectivas de abordagem, nem sempre sendo possível determinar qual
a mais correcta. Assim, caberá ao investigador seleccionar as que poderão ser
mais relevantes para o caso específico em estudo (e.g., análise documental,
análise de vídeos, entrevistas, observação directa ou participante, etc.). A
fim de assegurar o rigor das suas conclusões, e numa perspectiva de
triangulação, deve o investigador procurar recolher dados a partir de
diferentes fontes, recorrer à sua análise por diferentes observadores ou usar
diferentes métodos para analisar o mesmo fenómeno. Num estudo de caso, tão
relevante como a fonte e confirmação dos dados é a interpretação do seu
significado. É nesse sentido que Stake (2009) fala de "conhecimento
construído" e não de "conhecimento descoberto".
Os dois estudos que iremos apresentar foram realizados numa perspectiva
exploratória e descritiva (Baxter & Jack, 2008). Em ambos os casos os dados
foram recolhidos através de observação, entrevistas semi-estruturadas a pais e
profissionais e análise documental. Dado que as idades das crianças e os
contextos de apoio eram diferentes, as grelhas de registo dos dados da
observação e os documentos analisados são também diferentes, pelo que serão
apresentados separadamente.
ESTUDO 1 - PROGRAMA DE INTERVENÇÃO PRECOCE EM CONTEXTO DOMICILIÁRIO
Participantes
Este programa de Intervenção Precoce (Correia, 2004), em contexto domiciliário,
foi implementado por uma educadora de infância especializada, pertencente a uma
equipa multidisciplinar de intervenção precoce de um centro de saúde do
Distrito de Lisboa, que trabalhava em intervenção precoce há 16 anos. O bebé,
de sexo masculino, nascido de termo e parto eutócico, em 1-11-02, fora
sinalizado à equipa por um atraso em todas as áreas do desenvolvimento
psicomotor, aos 12 meses, tendo iniciado o programa de intervenção precoce
(PIP) um mês depois. A mãe de 22 anos, de nacionalidade brasileira, tinha o 10º
ano de escolaridade, era empregada de balcão e esteve presente em todas as
sessões.
Medidas e procedimentos
Observação
As sessões do programa de intervenção precoce avaliadas decorreram ao longo de
6 meses. A educadora deslocava-se semanalmente a casa dos pais e cada sessão
durava entre 60 a 90 minutos. A investigadora manteve-se como observadora,
participando apenas quando para tal era solicitada.
Antes de se iniciar o registo e cotação das observações, foi feito o registo
escrito completo das duas primeiras sessões, o registo em vídeo nas duas
sessões seguintes e ainda outro registo escrito na sessão posterior. A grelha
de observação foi testada durante duas sessões e validada com o visionamento,
por 2 investigadores independentes, de um dos vídeos filmados na intervenção,
durante 20 minutos, utilizando a mesma técnica de observação e registo. Os
acordos interobservadores, calculados para todos os comportamentos cotados,
foram de 76%. Utilizou-se um método de registo por intervalos de tempo: 30
segundos de observação, seguido de um período de registo dos comportamentos
ocorrido nesse período (não contabilizado), voltando depois a observar-se
durante 30 segundos, e assim sucessivamente até ao final da sessão.
Os dados obtidos, referentes a 11 sessões de observação, foram sintetizados
numa grelha de observação dividida em quatro categorias e diferentes
subcategorias que abrangem todos os comportamentos observados.
A grelha de observação foi utilizada semanalmente para registo das frequências
de comporta mentos em cada sessão. Dos comportamentos registados na grelha de
observação foi realizada uma análise quantitativa de frequências.
Entrevistas
Foram realizadas 4 entrevistas semi-estruturadas, duas à mãe e duas à
educadora, no início e no fim do programa. A entrevista inicial à mãe tinha
como objectivo analisar o conhecimento e expectativas relativamente ao programa
de intervenção precoce e a forma como se adequava à sua vida familiar; a
entrevista final pretendia analisar os resultados que a mãe sentia ter obtido
com o programa e a sua satisfação global. As entrevistas realizadas à educadora
seguiram um guião paralelo ao das entrevistas da mãe: a inicial tinha como
objectivo compreender os objectivos e implementação daquele programa específico
e a final analisar a implementação do programa e os resultados que a educadora
considerava terem sido alcançados.
As entrevistas foram gravadas em áudio e ulteriormente transcritas. Após essa
transcrição foram analisadas qualitativamente, tendo sido construídas
categorias e sub-categorias, com base em incidentes idênticos. Paralelamente,
foram escritos memorandos para explicar e exemplificar a ideia referida na
categoria criada.
Análise documental
O Plano Individualizado de Apoio à Família (PIAF) foi elaborado em conjunto
pela educadora e a mãe no decorrer das sessões. Depois de completo e analisado
pelos pais e pela educadora, o PIAF foi também objecto de uma análise
qualitativa.
Resultados
Dados da observação
Em 57% do tempo no total das 11 sessões, a educadora e a mãe interagiram
verbalmente, falando sobre diversos assuntos. Ao longo das 11 sessões foram
sendo abordadas, cada vez mais frequentemente, preocupações da mãe relacionadas
com a família alargada, o atendimento da criança na ama, o regresso ao Brasil,
o trabalho e/ou opções de actividades de organização diária, trabalho do marido
e interacção entre o casal, tópicos que preencheram um total de 82% do tempo
das sessões, relacionando-se directamente com a situação da criança apenas em
18% desse tempo. Quando a iniciativa verbal partiu da mãe, os assuntos mais
frequentemente abordados foram as informações (78%) relativamente a consultas,
características da criança e novas aquisições, sendo as informações sobre
actividades recomendadas pela educadora e sobre o desenvolvimento da criança
dadas com menor frequência. A mãe também "pede opiniões/ajuda/
informações" à educadora em menor percentagem (22%). Quando a iniciativa
de interacção verbal partiu da educadora houve, em maior percentagem de tempo,
prestação de informações à mãe (54%), sendo o comportamento "dá
sugestões" e "pede informações" muito similar (20% e 21%). A
educadora também "pede colaboração e opinião da mãe", mas em muito
menor frequência (4% e 2%, respectivamente).
A interacção foi, ao longo dos meses, essencialmente entre a mãe e a educadora.
Durante as 11 sessões, a mãe e a educadora interagiram em 92% do tempo, tendo a
interacção entre a educadora e a criança ou entre a mãe e a criança ocorrido
apenas em 8% do tempo das sessões. Analisando apenas o tempo em que houve
interacção directa com a criança, esta foi protagonizada essencialmente pela
educadora (56% deste tempo). A mãe e a educadora interagiram, ambas, com a
criança em 34% deste tempo e apenas em 10% do tempo de interacção directa com a
criança esta interacção foi protagonizada pela mãe. No tempo em que houve
interacção directa com a criança, os comportamentos mais frequentemente
observados foram situações de ensino e brincadeira livre.
No início e no final do PIP, observámos, também, a avaliação do desenvolvimento
da criança, feita pela educadora, com a escala de avaliação das competências no
desenvolvimento infantil, "Schedule of Growing Skills", o que nos
permitiu comprovar a evolução do seu desenvolvimento nas várias áreas.
Dados das entrevistas
A análise e comparação dos dados das entrevistas realizadas à mãe permitiu
verificar que, entre a primeira e a segunda entrevista, houve alterações no
discurso da mãe, sendo possível perceber a sua evolução, adaptação e satisfação
com o programa de intervenção precoce. Assim, e para melhor se entender esta
evolução, no Quadro_2 salientam-se os principais temas das duas entrevistas com
algumas frases da mãe que ilustram as suas ideias.
A análise da primeira e segunda entrevista realizada à educadora permitiu-nos
perceber e descrever o funcionamento e a evolução deste programa de intervenção
precoce. No Quadro_3, salientam-se os principais temas das duas entrevistas,
também ilustradas por frases da educadora.
Dados da análise documental
Análise do Plano Individualizado de Apoio à Família
O PIAF foi elaborado pela educadora com a participação activa da mãe e
contempla as necessidades de desenvolvimento da criança e as necessidades da
família. Em relação à criança, menciona os objectivos já atingidos e a atingir,
nomeadamente, aspectos do desenvolvimento motor (pois este era um aspecto muito
importante para esta mãe) e da relação mãe-bebé. Em relação à família, mais
precisamente à mãe, o PIAF refere as necessidades mais importantes no momento
da elaboração do plano. A educadora disponibilizou-se para apoiar a mãe em
vários aspectos da sua vida, nomeadamente os seus direitos no emprego
(justificação de faltas) e legalização em Portugal e consequente acesso a
subsídios da Segurança Social. Com base nestas informações, os pais poderiam
decidir qual a melhor solução para a família: ficar mais tempo em Portugal ou
regressar ao Brasil.
ESTUDO 2 - PROGRAMA DE INTERVENÇÃO PRECOCE EM CONTEXTO DE JARDIM-DE-
INFÂNCIA
Este estudo (Marcelino, 2008) apresenta dados recolhidos no decorrer de dois
anos lectivos, 2006/2007 e 2007/2008, já que, a pedido da investigadora, e por
razões relacionadas com o trabalho académico que estava a realizar, o apoio
especializado foi prestado de forma diferenciada (fora e dentro do contexto da
sala de JI, respectivamente).
Participantes
A criança em Intervenção Precoce nasceu em Dezembro de 2001 e tinha trissomia
21. Vivia com a mãe e o companheiro desta. À data da primeira recolha de dados,
a mãe tinha 36 anos, e o seu companheiro 39 anos. A mãe era empregada de
limpeza e o companheiro estava desempregado.
No Quadro_4 podemos ver a caracterização dos profissionais envolvidos nos dois
anos em que decorreu o estudo bem como o contexto de atendimento e apoio.
Medidas e procedimentos
Observação
No ano lectivo 2006/2007 foram observadas 17 sessões (10 nas sessões de apoio,
3 na terapia da fala e 4 no jardim-de-infância sem a educadora de apoio) e no
ano lectivo 2007/2008 14 sessões (6 em contexto de JI com a educadora de apoio
presente, 8 em contexto de JI sem a educadora de apoio). Utilizou-se um método
de registo por intervalos de tempo: 30 segundos de observação, seguido de um
período de registo dos comportamentos ocorrido nesse período (não
contabilizado), voltando depois a observar-se durante 30 segundos, e assim
sucessivamente até ao final da sessão. Num primeiro momento foi feita a
selecção, codificação e classificação dos dados, que foram posteriormente
agrupados por categorias e subcategorias de análise, o que permitiu uma
interpretação quantitativa, com base na frequência dos indicadores.
Antes de se iniciar a cotação das observações, foram sempre observadas três
sessões nos contextos onde decorreria a observação (jardim-de-infância, com e
sem a presença da educadora de apoio, apoio especializado e terapia da fala) a
fim de ser construída uma grelha de registo contemplando aspectos como: (1) a
participação da criança nas actividades da sala e no contexto do apoio
individual; (2) as estratégias de mediação usadas pelas profissionais
envolvidas; (3) a relação entre os objectivos do Plano Educativo Individual
(PEI) ou Plano Individualizado de Intervenção Precoce (PIIP) e o trabalho
desenvolvido e (4) a relação entre os vários técnicos intervenientes e entre
estes e a família. Posteriormente, procedeu-se a uma descrição qualitativa das
várias ocorrências e ao registo quantitativo das frequências.
Entrevistas
Estas entrevistas foram realizadas em momentos diferentes, a fim de analisar a
opinião dos participantes relativamente a todo o processo de avaliação,
planificação e intervenção: duas entrevistas à família (Fevereiro de 2006 e
Junho de 2007); duas entrevistas à primeira educadora de apoio (Fevereiro de
2006 e Julho de 2006); uma entrevista à terapeuta da fala e uma à educadora do
ensino regular (Março de 2006); uma entrevista à nova educadora de apoio
(Fevereiro de 2007).
Análise documental
Foram analisados o PEI referente a 2006/07, elaborado em Julho de 2007, e o
PIIP referente a 2007/08, elaborado em Janeiro de 2008. O objectivo desta
análise foi verificar a qualidade da formulação dos objectivos, nomeadamente no
que diz respeito à sua relação com os dados da avaliação inicial e com a
avaliação efectivamente implementada. A análise documental foi realizada ao
longo dos dois anos lectivos.
Resultados
Dados da observação
No ano lectivo 2006/2007, as observações realizadas mostram que as práticas de
apoio especializado e de terapia da fala se basearam exclusivamente em
estratégias desenvolvimentais/ /instrucionais e foram muito semelhantes. Com
estas duas técnicas observámos a implementação de actividades estruturadas e a
utilização de estratégias de mediação semelhantes. A mais frequentemente
utilizada é o questionamento que reenvia para respostas de identificação,
evocando a memorização da criança para o vocabulário apresentado nos materiais
(24,5% no apoio educativo e 23,7% na terapia da fala). A intervenção foi sempre
implementada individualmente e num ambiente artificial (fora da sala do grupo),
tendo pouco em conta as motivações, os interesses e as capacidades funcionais
da criança, com repetição sistemática de perguntas, ocorrendo frequentemente
comportamentos de desinteresse/afastamento da criança, sobretudo na terapia da
fala (33,3%). Alguns dos materiais utilizados em jogos de identificação e
associação foram usados por ambos os técnicos, parecendo assim haver uma
duplicação de apoios, sem nenhuma diferenciação.
Nunca presenciámos qualquer reunião de equipa com partilha de objectivos e
estratégias, nomeadamente com a educadora de ensino regular e/ou com a família,
nem qualquer sessão para realizar uma avaliação formal do desenvolvimento da
criança.
As sessões de apoio que observámos em 2007/2008 apresentam características
diferentes, quer no que se refere ao contexto em que foram desenvolvidas quer
nas estratégias utilizadas e papel das técnicas em relação à criança. Como já
referimos, a educadora de apoio passou a intervir no contexto das rotinas do
jardim-de-infância e, neste segundo ano, essas foram as sessões de apoio que
observámos. Sabemos no entanto que, no mesmo período de tempo, houve outras
sessões em que a educadora de apoio retirou a criança da sala e lhe prestou
apoio individual.
Analisando os dados da observação de 2007/08 verificámos que houve apoio nas
seguintes actividades: marcação diária das presenças e reunião entre as
crianças e a educadora do ensino regular, onde combinam o que vão fazer;
actividade livre em pequeno grupo - casinha; actividade estruturada em
pequeno grupo - pintura; reforço alimentar a meio da manhã e almoço. A
educadora de apoio procurou promover as interacções entre as crianças,
organizando os ambientes de forma que estes fossem apropriados e permitissem
interacções sociais positivas.
Como podemos verificar no Quadro_5, no ano lectivo 2007/2008, a interacção
entre a criança e os seus pares passou a ser mais igualitária, com uma
percentagem idêntica de iniciativas da criança e dos colegas (37,5%). Não
observámos iniciativas de interacção da criança sem resposta por parte dos
colegas, como ocorrera no ano anterior. Este "sucesso" nas
interacções levou a criança a permanecer mais tempo nas actividades em que se
envolveu.
Durante os dois anos lectivos, as interacções entre a criança e a educadora
regular ocorreram de forma natural e semelhante ao que aconteceu com as
restantes crianças. As interacções foram normalmente iniciadas pela educadora,
no entanto, em 2007/2008 registou-se um aumento das interacções iniciadas pela
criança (de 27,6% para 38,9%) e uma diminuição das interacções iniciadas pela
educadora (de 65,5% para 44,4%).
Dados das entrevistas
Através da análise dos dados das entrevistas pudemos verificar que ambas as
educadoras de apoio partilham a mesma opinião relativamente à importância do
envolvimento da família e da educadora do ensino regular em todo o processo e
que esta coincide com as práticas recomendadas. No entanto, nenhuma as põe em
prática, apresentando como justificação que não têm tempo suficiente devido ao
elevado número de crianças que apoiam.
Através da análise das entrevistas à família, verificou-se também que esta
desconhece totalmente quer os dados da avaliação quer o tipo de intervenção
planeada e implementada.
Dados da análise documental
Pela análise da documentação existente verificámos que a avaliação, no ano
2006/07, não envolve a família, é feita apenas no contexto do JI, pela
educadora de apoio educativo, e não dá origem a um registo formal das áreas de
competências e dificuldades da criança nem das preocupações e necessidades da
família. Apenas no final do ano lectivo (Julho de 2007) foi feito o PEI, nele
constando, exclusivamente, objectivos para a criança. No ano lectivo 2007/08,
houve envolvimento da educadora de ensino regular na avaliação inicial,
entrevista à família e preenchimento da lista de verificação de comportamentos
baseada na Classificação Internacional da Funcionalidade (CIF). O PIIP foi
elaborado em Janeiro de 2008, com definição de objectivos e estratégias
maioritariamente centrados na criança, embora também tenham sido definidos
alguns objectivos para a família (e.g., "ajudar a família na escolha de
escola para o próximo ano lectivo e dar a conhecer as diversas realidades
existentes). Até ao final do ano foram ainda elaborados dois relatórios: o
primeiro, em Maio, baseado na CIF e, em Julho, um relatório de reavaliação,
descritivo, com base na evolução da criança e na análise dos objectivos
alcançados.
Constatou-se ainda que, nos dois anos lectivos, a avaliação das competências e
necessidades da criança/família foi feita informalmente e registada em termos
vagos e gerais (e.g., "desinibida em termos de actividade motora global
da sua idade"), com objectivos formulados em termos pouco claros e não
operacionalizados (e.g., "manter a actividade própria da idade da
criança"), sendo as estratégias/actividades pouco objectivas (e.g.,
"actividades próprias da sua idade").
Os objectivos propostos são definidos, maioritariamente, de forma global e não
quantificável (e.g., "melhorar os movimentos finos",
"aumentar o interesse por situações mais complexas" e "maior
dinâmica, melhor produção verbal, mais vocabulário"). A própria
formulação dos objectivos, utilizando verbos como "melhorar,
aumentar" e expressões como "maior e mais", inviabiliza uma
avaliação rigorosa.
Nos dois anos lectivos, os objectivos precisos (e.g., "nomear círculo,
quadrado, triângulo", "nomear cores principais" e
"distinguir pesado e leve") são em número bastante inferior (18,76%
em 2006/07 e 5,26% em 2007/08), comparativamente com a totalidade dos
objectivos definidos.
DISCUSSÃO
Os dados da observação do Programa de Intervenção Precoce em contexto
domiciliário (primeiro caso), das entrevistas da mãe e da educadora e do
processo de delineamento e implementação da Intervenção tal como constam no
PIAF, mostram a existência de uma relação de cooperação e parceria entre a
educadora e a mãe e permitem concluir que a educadora participante neste estudo
adoptou as práticas recomendadas: em vez de focar a sua intervenção na
estimulação da criança, partilhou com a mãe as suas experiências e práticas
profissionais e providenciou informação e modelos necessários apresentando à
mãe um modelo de intervir com o filho. Os objectivos definidos para a mãe
parecem ter sido alcançados já que esta refere que o apoio alterou a sua
atitude com o filho e com o marido, considerando que a educadora especializada
contribuiu para aumentar o seu conforto e segurança. No final da intervenção, a
mãe decidiu voltar para o Brasil, de modo a encontrar o suporte informal no
âmbito da sua família alargada. Informou ainda a educadora que, quando chegasse
ao seu país, iria procurar um programa de apoio desta natureza, já tendo feito
uma busca na Internet sobre vários sítios de apoio na sua área de residência no
Brasil. Por estes dados podemos constatar os bons resultados do programa de
intervenção precoce, em relação à autonomia e capacitação da mãe. Parece assim
poder concluir-se que esta intervenção domiciliária foi, efectivamente,
centrada na família, que promoveu as competências e deu à mãe o poder para
tomar as decisões mais adequadas para o bem-estar da família e o aumento da
qualidade de vida familiar.
Estes resultados divergem dos que são reportados nos estudos internacionais que
referimos (Brady et al., 2004; Campbell & Sawyer, 2007; Keilty, 2008;
McBride & Peterson, 1997; Peterson et al., 2007; Rydley &
O'Kelley, 2008; Turnbull et al., 2007), que revelam ser a maioria das
interacções entre os profissionais e as crianças, mantendo-se as famílias,
frequentemente, não envolvidas. Divergem, também dos dados reportados por
Marques (2003) num estudo com método e medidas semelhantes, que mostram uma
intervenção muito centrada no bebé, não promovendo a autonomia da família.
Ao contrário do que sucedeu no programa domiciliário, podemos afirmar que, no
segundo estudo de caso, nos dois anos lectivos, foi desenvolvido um programa de
intervenção precoce centrado na criança e não na família. O trabalho realizado
no ano lectivo 2006/2007 caracterizouse por um conjunto de acções educativas
descontextualizadas, que incidiam directamente na criança, centrado na
educadora, estruturado e directivo. Esta intervenção enfatizava a planificação
das actividades e dos objectivos para a criança, no sentido de estimular os
processos de aprendizagem no âmbito sensorial, motor e da linguagem, sem
qualquer envolvimento da família ou dos prestadores de cuidados diários. Estes
dados são semelhantes aos reportados por Craig (1997) sobre o trabalho de
muitos profissionais de apoio. A intervenção directa com a família surge apenas
no apoio de ordem social e no acompanhamento a consultas de especialidade mas
não tem como objectivo a sua capacitação e autonomia. Pode concluir-se que,
neste segundo caso, a intervenção implementada se afasta das práticas
orientadoras da intervenção precoce. De facto, e tal como Gottwald e Pardy
(1997) sugerem, as práticas recomendadas postulam a implementação de programas
de inclusão e a utilização de estratégias que possam ser utilizadas nos
contextos naturais de aprendizagem das crianças, com o envolvimento dos
prestadores diários de cuidados.
No ano lectivo 2007/2008, embora não na totalidade das sessões, o apoio
educativo foi implementado no contexto natural do jardim-de-infância, numa
intervenção que se caracterizou pelo desenvolvimento de estratégias funcionais,
inseridas nas rotinas e actividades do dia-a-dia da criança, tendo em conta as
suas motivações e interesses, tal como tinha sido constatado no trabalho de
Cordeiro (2004).
A existência de algumas alterações no comportamento interactivo da criança, da
(s) educadora(s) e dos seus pares poderão ter sido influenciadas por essas
práticas de apoio. Neste segundo ano, a intervenção foi mais próxima daquilo
que é, actualmente, recomendado (McWilliam, 2010). No entanto, o facto de a
educadora ter mantido sessões de apoio descontextualizado mostra que não terá
compreendido os benefícios da intervenção baseada nos contextos naturais de
aprendizagem e nas rotinas da criança.
No que se refere ao envolvimento da família, no 2º ano, para além do apoio
social e acompanhamento a consultas de especialidade, a educadora de apoio
refere ter sugerido à mãe estratégias relacionadas com a preparação da entrada
para o 1º ciclo. No entanto, nunca observámos interacções entre a educadora
especializada e os pais e não há qualquer registo da forma como o fez nem dos
efeitos que essa intervenção teve. Apesar das percepções de todos os
profissionais envolvidos neste caso serem de práticas centradas na família, os
dados da observação não confirmam a implementação deste modelo de intervenção.
Entre o primeiro e o segundo ano de apoio todos os profissionais mudaram.
Assim, não é possível, através dos dados das entrevistas, avaliar as percepções
relativas ao impacto que a estratégia de apoio integrado no contexto do JI que
foi implementada no ano 2007/08 terá tido no comportamento da criança e seus
pares.
A dificuldade em estabelecermos uma relação entre os objectivos definidos e as
estratégias/actividades verificou-se nas diferentes áreas do desenvolvimento da
criança e na avaliação da família, em ambos os anos lectivos. Como já
referimos, os elementos da avaliação são insuficientes e muito genéricos,
tornando-se difícil relacioná-los com a intervenção efectivamente implementada.
O estudo de caso em contexto domiciliário mostra práticas de qualidade com uma
intervenção centrada na família e nos contextos naturais de aprendizagem que
deveriam ser difundidas. Pelo contrário, o estudo realizado em contexto de
jardim-de-infância mostrou, sobretudo no primeiro ano, os apoios especializados
fora do contexto e sem qualquer envolvimento dos prestadores diários de
cuidados ou da família.
A formação das educadoras de apoio dos dois casos era diferente: a do primeiro
estudo, para além da licenciatura em educação de infância e especialização em
educação especial, tinha um mestrado em educação especial com tese em
Intervenção Precoce; no segundo estudo, apenas a educadora do 1º ano tinha
formação em educação especial e a do 2ºano, embora trabalhando há longos anos
em intervenção precoce, não era especializada (tinha licenciatura em psicologia
educacional). Será que, embora todas tivessem vasta experiência em equipas
interdisciplinares de IPI, as suas diferentes formações estão na base das
diferentes práticas implementadas? Será que a prestação de apoio em dois
contextos diferentes influenciou as práticas, nomeadamente no envolvimento da
família? Numa perspectiva de estudo de caso, em que este trabalho foi feito,
não poderíamos ter dados suficientes para o comprovar. Considerando a
importância destas questões e a escassez de dados sobre as práticas
efectivamente implementadas em Portugal, considera-se que esta é uma área de
investigação prioritária.
Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos da América, onde há uma distinção
entre Programas de Intervenção Precoce (0-2 anos, com programas
maioritariamente domiciliários) e Programas de Educação Infantil Especializada
(>3 anos, maioritariamente em contextos educativos), em Portugal, quer o
Despacho-conjunto 891/99, em vigor à data da recolha de dados nos dois estudos
e entretanto revogado, quer o Decreto-Lei 281/2009, regulamentam a intervenção
precoce para as crianças dos 0 aos 6 anos, qualquer que seja o contexto em que
estejam a ser cuidadas ou atendidas (domicílio/creche ou jardim-de-infância).
Este facto poderá explicar, em parte, alguma confusão nos modelos de referência
seguidos pelas educadoras já que, para além do envolvimento da família, quando
as crianças estão incluídas em contextos educativos, o envolvimento e
participação dos educadores das salas é também essencial.
Ainda assim, é difícil explicar as profundas divergências entre as percepções
das educadoras do programa em contexto de jardim-de-infância sobre o apoio que
prestam (coincidentes com as recomendações internacionais de intervenção
centrada na família) e as práticas que efectivamente implementam.
A grande limitação de ambos os estudos reside no facto de não ter havido
codificação das observações por mais do que um observador. Considera-se, no
entanto, que a divulgação destes dados poderá contribuir para uma reflexão
sobre as práticas reais de IPI no contexto nacional que se nos afigura
essencial para a promoção da qualidade na prestação de serviços de intervenção
precoce.