Redes de apoio social em famílias multiculturais, acompanhadas no âmbito da
intervenção precoce: Um estudo exploratório
A divisão do "apoio social" em componentes e a subdivisão destas em
dimensões veio facilitar a tarefa dos investigadores que pretendiam avaliar
este constructo, permitindo-lhes ir para além da avaliação do apoio social de
forma global e focar aspectos particulares bem como os seus efeitos específicos
em determinados indivíduos (Brandão Coutinho, 1999).
APOIO SOCIAL, PARENTALIDADE E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA
Armstrong, Birnie-Lefcovitch e Ungar (2005) bem como Cochran e Niego (1995),
entre muitos outros autores, sugerem que o apoio social tem efeitos positivos
na função parental e consequentemente, na promoção do desenvolvimento da
criança. Parece actuar de dois modos diferenciados, tendo impacto directo nos
adultos cuidadores da criança, ao modificar as suas crenças, atitudes,
conhecimentos ou comportamentos e indirecto nas crianças ou, podendo actuar
directamente na criança através dos contactos desta com os membros da rede
social dos pais ou cuidadores (Cochran & Niego, 1995).
Armstrong et al. (2005) e Beckman, Robinson, Rosenberg e Filer (1994), entre
outros, referem o apoio social como um mecanismo protector que, apesar de não
eliminar, tem a capacidade de filtrar ou amorter o impacto de factores de risco
afectando assim, positivamente, o bem-estar familiar, a qualidade da função
parental e a resiliência das crianças em diversas conjunturas de vida. Se a
família constitui o principal contexto de desenvolvimento da criança, a
influência do apoio social que ela recebe vai reflectir-se, directa e
indirectamente, na criança (Crnic & Stormshak, 1997), o que é bem explicado
através da teoria do sistema social, conforme o modelo de Dunst et al. (1988),
segundo a qual o apoio social influencia directamente a saúde e o bem-estar dos
pais, o que se repercute no funcionamento familiar, que por sua vez vai
influenciar o estilo de interacções que se estabelecem entre os pais e a
criança. Em síntese, o desenvolvimento e comportamento da criança podem ser
influenciados não só de forma directa, mas também indirectamente pelo apoio
social prestado à família (Dunst & Trivette, 1992). Como refere
Bronfenbrenner (1979) o desenvolvimento da criança é afectado por
acontecimentos em contextos em que ela nem sequer está presente.
Várias investigações vieram comprovar os benefícios que o apoio social e os
recursos extra-familiares podem ter não só na redução do stresse dos familiares
das crianças com deficiência, como estratéga de "coping" (Seligman
& Darling, 2007) mas a muitos outros níveis, como vimos em cima. Num estudo
em que participaram 45 mães, Dunst et al. (1988) salientam a relação entre a
adequação dos recursos e a saúde e o bem-estar da mãe, com a consequente maior
disponibilidade desta para aderir ao programa de intervenção com a criança e a
manifestação de comportamentos e atitudes mais positivas. As mães com um
adequado nivel de apoio social parecem ter maior capacidade para iniciar a
interacção com a criança e para responder às suas solicitações (Dunst &
Trivette 1986, in Crockenberg, 1988). Dunst et al. (1997) referem que quanto
maior é a rede social mais possibilidades haverá de uma adaptação com sucesso,
por parte dos pais, sendo que esta variável é particularmente importante para
as mães, não parecendo ter o mesmo efeito nos pais. Crnic e Stormshak (1997)
apontam um outro estudo de Melson, Ladd e Hsu (1993) que encontrou evidências
positivas dos efeitos, directos e indirectos do apoio da rede social materna,
no funcionamento cognitivo e social da criança, parecendo ser o primeiro
influenciado directamente pela dimensão e qualidade dessa rede de apoio social.
Como salientam Seligman e Darling (2007), os recursos e as redes de apoio
social de que a família de uma criança com deficiência dispõe, são factores
determinantes para a melhoria da qualidade de vida dessas crianças e suas
famílias.
REDES DE APOIO SOCIAL
Cobb (1976), define a rede social pessoal como um conjunto de indivíduos que
providenciam informação e levam o sujeito a sentir-se amado, considerado e a
sentir que alguém se preocupa com ele. São, segundo Cochran e Niego (1995) as
pessoas que fazem a diferença, na vida dum indivíduo. Dunst et al. (1988)
distinguem dois tipos de apoio social ou redes de apoio:
- A rede informal de apoio que inclui os familiares, os amigos,
os vizinhos, os colegas e os grupos sociais (e.g., associações
religiosas, clubes, etc.).
- A rede formal de apoio que engloba os profissionais (e.g.,
médicos, educadores, assistentes sociais, etc.) e instituições
(hospitais, serviços e programas de intervenção precoce, segurança
social, etc.) que estão organizadas formalmente para prestar
assistência a quem dela necessita.
As fontes incluídas nestes dois tipos de redes podem providenciar diversos
tipos de apoio, indo ao encontro das necessidades sentidas pela família da
criança com deficiência. Kazak e Marvin (1984) analisaram a rede de apoio
social de famílias de crianças com spína bífida, segundo três componentes:
dimensão, densidade e fronteiras, concluíndo que as suas redes sociais eram
densas, o que fazia crer que as pessoas que disponibilizavam ajuda, se
conheciam entre elas e interagiam umas com as outras. Consideraram importante
acrescentar duas outras características a observar nas redes sociais:
reciprocidade (grau em que a ajuda é dada e recebida) e
"dimensionalidade" da rede (quantidade de funções em que uma
relação pode ser útil). Relativamente a esta última característica, os mesmos
investigadores sugerem que os elementos da rede social que são capazes de
proporcionar múltiplos tipos de ajuda, são encarados como "fortes
apoiantes" e contribuem para uma adaptação positiva dos pais.
Os pais de uma criança com deficiência ou alteração grave no seu
desenvolvimento, podem sentir necessidade de apoio, logo após o diagnóstico
inicial e essa necessidade pode prolongarse ao longo do seu ciclo de vida. O
apoio prestado pelas redes de apoio informal tem sido frequentemente apontado,
pelos pais, como o mais importante para a sua família (Bailey, 1994, cit. in
Almeida, 2000). Neste âmbito, o apoio do cônjuge é apontado em vários estudos
com pais e mães de crianças portadoras de deficiência, como o mais importante
de todos (Fewell, 1986; Kazak & Marvin, 1984). Num estudo recente efectuado
por Suzuki (2010), com pais de crianças de idades baixas e sem pro blemas, o
apoio do cônjuge associou-se positivamente a uma redução do stresse parental e
melhoria do sentimento de autoeficácia parental. No caso das mães solteiras,
Dunst, Trivette e Cross (1986) referem que elas se encontram, habitualmente,
mais isoladas do ponto de vista social, trabalham mais horas, a sua rede social
é menos estável, sentem grande necessidade de apoio da família e da comunidade,
mas recebem menos apoio do que as mães casadas. Relativamente aos irmãos das
crianças com deficiência eles podem tornar-se os principais apoios dos pais,
particularmente se existe uma irmã mais velha, ela pode assumir a
responsabilidade de "tomar conta" do irmão com necessidades
especiais (Fewell, 1986). A mesma autora refere também, que relativamente à
família alargada, qualquer que seja o nível socioeconómico e a cultura, esta
pode assumir um papel importante no apoio à família da criança com deficiência.
Com as alterações que o sistema familiar tem vindo a sofrer, actualmente,
predominam as famílias nucleares e já são menos frequentes as famílias
alargadas que vivem sob o mesmo tecto, porém, ainda que separados
geograficamente, os parentes podem constituir uma rede de apoio activa. Sonnek
(1986) sugere que a rede social dos pais de crianças portadoras de deficiência
é, habitualmente, menor do que a dos pais de crianças sem necessidades
especiais e isso deve-se especialmente à redução da rede familiar dos
primeiros.
Perante uma situação de crise, como o nascimento de uma criança com
deficiência, os pais, voltam-se para os seus próprios pais, esperando apoio
(Sonnek, 1986), sendo os avós, habitualmente, referidos como importante fonte
de apoio para os pais nesta situação, pois podem proporcionar apoio tanto a
nível material como psicológico e emocional. Contudo a forma como os avós
desempenham o seu papel pode ser bastante diversa e nem sempre proporcionam o
apoio que os pais esperam deles. Segundo Sandler (1998), devemos ter em conta
que, os avós de uma criança com deficiência, podem necessitar de ajuda para
perceber o tipo de problema que o seu neto tem e de que forma podem ajudá-lo ou
ser úteis à família nessa situação. Dar conselhos aos pais faz parte do papel
que, tradicionalmente, lhes é atribuído mas, ainad e segundo o mesmo autor,
quando esses conselhos "não são desejados, são incorrectos ou
antiquados" e não são seguidos pelos pais, podem surgir conflitos e os
avós deixam de ser vistos como elementos prestadores de apoio e podem passar a
ser fontes de stresse para a família.
Os amigos parecem ter uma importância única, dando alento quando os pais
precisam, ouvindo-os, proporcionando-lhes uma pausa no seu dia-a-dia ou um
momento de descontracção. Tal como os vizinhos, podem proporcionar apoio
durante espaços de tempo curtos, tomando conta da criança, fornecendo alimentos
em caso de doença ou cuidando da casa quando a família se ausenta (Fewell,
1986). Nas suas permanências frequentes em salas de espera de consultórios,
hospitais ou clínicas, alguns pais de crianças com deficiência encontram novos
amigos noutros pais de crianças com o mesmo tipo de problemas (Seligman &
Darling, 2007). Os pais de outras crianças em situação similar poderão dar o
apoio de que a família necessita: diminuir o isolamento e a solidão, fornecer
informação acerca de recursos ou estratégias a adoptar para enfrentar os
problemas do dia-a-dia. Os "grupos de pais" são outra forma dos
pais encontrarem novos amigos que com eles partilhem interesses, que os
compreendam e apoiem e criam a possibilidade de encontros para catarse, ajuda
mútua e defesa dos seus interesses. Em Portugal, não são ainda muito vulgares
este tipo de grupos para ajuda mútua, contudo, o seu valor é de considerar,
tendo em conta o apoio emocional e instrumental que podem proporcionar aos
elementos da família.
Como vimos, os membros da família, os amigos e as pessoas e grupos da
comunidade, podem ter um papel importante, ajudando os pais de crianças com
necessidades especiais a fazer a sua adaptação e a enfrentar com sucesso a sua
tarefa (Seligman & Darling, 2007), mas, o apoio à família também surge das
relações que se vão estabelecendo com profissionais de diversas instituições e
serviços e que fazem parte da rede de apoio formal (e.g., serviços de saude,
educação e segurança social). O papel desses profissionais pode ser
fundamental, especialmente quando as famílias estão longe dos seus parentes, se
encontram isoladas, ou se deparam com atitudes negativas por parte da família
alargada ou dos elementos da comunidade onde vivem. Quando a família tem poucos
amigos e familiares disponíveis para a apoiar, pode ser crucial o papel dos
elementos da comunidade que fazem parte da rede de apoio formal (Kazak &
Marvin, 1984), podendo ser, para muitas famílias, a única de que dispõem.
Os profissionais podem assumir um papel importante junto das famílias,
providenciando a informação de que necessitam e ajudar as famílias nas fases
iniciais do seu processo de adaptação, prevenindo ou reduzindo potenciais
dificuldades (Dale, 1996). O profissional de intervenção precoce dos nossos
dias, como elemento da rede de apoio formal da família, deverá assumir papéis
diferentes consoante as situações e a sua acção poderá marcar definitivamente o
percurso de vida daquela família e da criança.
APOIO SOCIAL E DIVERSIDADE CULTURAL
O interesse pelas questões culturais que afectam as famílias de crianças com
deficiências é, como refere Harry (2002), assunto relativamente recente mas,
prioritário.Como constatámos, uma rede de apoio social adequada é fundamental
para o bem-estar da família e para a sua integração na comunidade e em
princípio, uma família mais isolada, poderá ter mais dificuldade em lidar com
os seus problemas e com os problemas que a criança com deficiência vai
originar. No entanto deveremos estar atentos à diversidade das famílias também
no que diz respeito a este aspecto pois, enquanto algumas têm uma rede social
pouco extensa e isso lhes basta, outras sentem necessidade de uma rede mais
alargada. A diversidade cultural das famílias também pode reflectir-se ao nível
das suas redes de apoio social. Nos EUA, onde a multiplicidade de culturas e
etnias é conhecida, vários autores que têm desenvolvido investigações com
famílias oriundas de outras culturas (e.g., afro-americanos, latino-americanos,
asiatico-americanos), procurando conhecer a situação das famílias de imigrantes
de diferentes etnias e as variações em vários domínios, entre os quais as suas
necessidades e o apoio social de que beneficiam.
Blanes, Correa e Bailey (1999), analisaram as necessidades e o apoio social de
dois grupos de famílias porto riquenhas com crianças com deficiência, tendo
como variável comparativa o país onde residiam - Porto Rico ou EUA. Os
resultados indicaram diferenças ao nível da disponibilidade das redes de apoio
social dos dois grupos: as mães que residiam em Porto Rico percepcionavam mais
fontes de apoio do que as que residiam nos EUA. Noutro estudo de Cho, Singer e
Brenner (2000), com famílias coreanas de crianças com perturbações de
desenvolvimento que residiam na Coreia e nos EUA, verificou-se que as famílias
imigrantes nos EUA beneficiavam de melhores serviços do que as que permaneciam
na Coreia mas, por outro lado, perdiam a sua rede de apoio informal, da qual
fazia parte a sua família alargada, que não os tinha acompanhado. Segundo os
referidos investigadores, nas famílias de coreanos residentes nos EUA
destacava-se o forte apoio emocional por parte do cônjuge, parecendo verificar-
se um reforço na ligação do casal perante as dificuldades que tinham de
enfrentar juntos. Cho et al. (2000) salientaram ainda, que o próprio processo
de imigração pode provocar alterações significativas na família destas crianças
e no caso de imigrantes recentes, a língua pode constituir um obstáculo
adicional no acesso aos serviços.
Noutros estudos com grupos minoritários (e.g., García-Preto, 1982, Manns, 1981,
Rotunno & McGoldrick, 1982, Williams & Williams, 1979, in Seligman
& Darling, 2007) e em relação a famílias africanas residentes nos EUA,
verificou-se que independentemente do seu nível socioeconómico, estas tinham
habitualmente, uma rede de apoio familiar bastante mais alargada do que as
famílias de origem americana. Os padrões de ajuda mútua eram habitualmente mais
fortes nas famílias de origem africana, contudo, quando existia um filho com
deficiência, a mãe era a principal responsável por cuidar da criança, com ajuda
da sua filha mais velha. Mas, enquanto nalgumas comunidades os parentes vivem
em estreita proximidade e o apoio desses elementos é significativo, noutras, é
normal o isolamento da família nuclear, relativamente aos outros familiares.
Nas famílias asiáticas (japonesas e chinesas), a unidade da família nuclear é
altamente valorizada, encarando os problemas da família como privados,
mostrando-se reticentes em revelar a elementos exteriores a esse núcleo
familiar, as suas dificuldades em lidar com a situação (Cho et al., 2000;
Seligman & Darling, 2007). Em países cada vez mais multiculturais, estudos
deste tipo, podem ser fundamentais para fornecerem aos profissionais um maior
conhecimento acerca das famílias alvo da intervenção precoce e facilitarem a
oportunidade de providenciar de serviços culturalmente adequados às crianças
com deficiência e suas famílias (Blanes et al., 1999).
Em Portugal, país de origem de muitos emigrantes, embora não exista uma
diversidade popula cional tão acentuada como nos EUA, temos vindo a assistir a
um grande fluxo de imigrantes proveni entes não só dos PALOP, como também do
Brasil, de países do Leste Europeu e da China e algumas das crianças apoiadas
no âmbito de programas de IP são oriundas destas famílias. A avaliação adequada
da rede de apoio social da família será um dos passos iniciais do processo de
avaliação permitindo ao profissional focar a sua atenção na mobilização dos
recursos que irão ao encontro das necessidades identificadas pela família
(Dunst & Trivette, 1992). Segundo Crnic e Stormshak (1997) é importante
conhecer a disponibilidade das fontes de apoio e as relações potencialmente
apoiantes, contudo, reconhecem que o conhecimento objectivo da dimensão ou da
densidade da rede social, não é suficiente para perceber o processo de apoio. O
facto de existir determinada fonte de apoio disponível, não significa que essa
seja uma fonte de apoio efectivo (Dunst & Trivette, 1992) pois
disponibilidade, como referem Crnic e Stormshak (1997) não implica função nem
eficácia. Assim afirmam que, por vezes, a indicação pelos membros da família do
seu nível de satisfação com o apoio que recebem de várias fontes, parece ser o
processo que melhor define o apoio social de que a família dispõe. Entrevistas,
observações, conversas informais ou escalas de avaliação podem ser meios de dar
a conhecer ao profissional as opções de apoio da rede social da família.
Considerando a escassez de estudos nacionais sobre esta temática, pretende-se
com o presente estudo, conhecer as opiniões de mães com crianças portadoras de
deficiência ou em risco de atraso grave de desenvolvimento, em idade pré-
escolar, apoiadas no âmbito da Intervenção Precoce e oriundas de famílias
multiculturais, sobre a disponibilidade das suas redes de apoio social (formais
e informais) bem como a percepção do nível de utilidade das mesmas. Do
objectivo geral que acabamos de referir, decorrem objectivos especificos que
passamos a enunciar:
- Caracterizar os participantes quanto aos tipos de apoio
social de que usufruem, número de fontes disponíveis e utilidade das
mesmas.
- Relacionar a quantidade de fontes disponíveis com a utilidade
das mesmas.
- Relacionar a disponibilidade e utilidade das redes de apoio
com variáveis relacionadas com a criança (idade, problemática,
situação educativa, frequência de creche ou Jardim de Infância), com
a mãe (idade, nível de instrução, situação profissional, se vive
sozinha ou com compa nheiro, número de filhos, nacionalidade) e a
família (anos de residência no local e classe social).
- Verificar se há diferenças significativas nas percepções
relativas ao apoio social e sua utilidade entre mães com origens
culturais diversas.
MÉTODO
Participantes
Neste estudo foram incluídas, 42 mães residentes no Concelho de Loures, com
filhos entre os 12 meses e os 6 anos de idade, portadores de algum tipo de
deficiência ou em risco de atraso grave do seu desenvolvimento.Trata-se duma
amostra de conveniência, pois todas famílias eram apoiadas pelo Programa de
Intervenção Precoce de Loures e de Sacavém. Destas 42 mães, 28 (66.7%) são de
nacionalidade portuguesa e 14 (33.3%) são originárias de países africanos de
língua oficial portuguesa (PALOP). Têm filhos com problemas de desenvolvimento,
sendo 26 rapazes (61.9%) e 16 raparigas (38.1%), com idades compreendidas entre
1 e 6 anos (M=3.76; SD=1.7). Relativamente às patologias, 31% tem problemas
cognitivos, 7.1% sensoriais, 33.3% motores, 4.8% perturbações do espectro do
autismo, 14.3% atraso global de desenvolvimento e 9.5% multideficiência. Estas
crianças encontram-se, maioritariamente, 40.5% em IPSS, 33.3% em Jardins de
Infância públicos, 7.1% em privados e 19% no domicílio. As idades das mães
variam entre os 20 e os 46 anos, embora a maior parte delas se situe no escalão
etário entre os 31 e os 40 anos (52.4%), 38.1% entre os 20 e os 30 anos, 31%
entre os 31 e os 35 anos e 9.5% de mães com idades compreendidas entre os 41 e
os 46 anos. Relativamente á escolaridade, o nível mais elevado de educação
formal atingido pela maior parte das mães situa-se entre o 4º ano e o 9º ano de
escolaridade (45.2%). Uma percentagem grande das mães (23.8%) não tem nem 4
anos de escolaridade, 28,6% têm entre 9 a 12 anos e apenas 2.4%, possuem
bacharelatos ou cursos superiores. Quase metade das mães (45.2%) trabalha fora
de casa, em empregos fixos (26.2%) ou a contrato (19%), exercendo profissões
não especializadas. Cerca de 40.5% destas mães encontra-se desempregada ou é
doméstica (9.5%) e duas encontram-se em "licença para atendimento a
crianças com doenças crónicas ou deficiência" (4.8%).
O número de filhos por agregado familiar varia entre 1 e 5, mas a situação mais
frequente é a de filho único (40%), sendo a média de 2.07 e o SD=1.15. A maior
parte das crianças (81%) frequenta creches ou Jardins de Infância (IPSS, rede
pública ou particulares) e uma minoria (19%) não frequenta qualquer
estabelecimento educativo, permanecendo durante o dia no domicílio, ao cuidado
da mãe, avó ou ama. Predomina a família nuclear tradicional que inclui mãe, pai
e criança(s) (66.7%), embora existam famílias monoparentais (7.1%) e algumas em
que coabitam outros familiares maternos (19%). Nos restantes 7.1%, verifica-se
a existência dum modelo familiar mais alargado que inclui para além da mãe e do
pai e filhos, outros familiares.
O pai da criança apresenta níveis de instrução ligeiramente superiores aos das
suas companheiras, revelando menor taxa de analfabetismo (16.7%), sendo que
52.4% tem formação até ao 9º ano de escolaridade. Os restantes 26. 2%, são pais
com o 12º ano e 4,8% com formação superior. Também no que respeita à situação
de emprego as condições são mais favoráveis com apenas 11.9% dos pais
desempregados, 49.5% com contrato fixo e 19% com contrato a termo. Os restantes
28.6% referem-se a outras situações não esclarecidas. Quanto à classe social
das famílias contactadas e de acordo com a classificação internacional de
Graffar, 45.2% situam-se na classe média-baixa, 38.1% na classe média, 9.5%, na
classe baixa incluem-se e 7.1% na classe média-alta.
Estas famílias residem em diversas freguesias do Concelho de Loures, na sua
grande maioria em zonas urbanas. O tempo de residência na zona é variável,
sendo que 45.2% residem há mais de 10 anos na freguesia onde as contactámos,
16.7% entre 5 e 9 anos e 38.1% há menos de 5 anos.
Instrumentos
Para darmos resposta às questões definidas, utilizámos dois instrumentos: ficha
para de Caracte rização das Famílias construída com base na Escala de Graffar,
adaptada por Amaro (1990, in Costa, Leitão, Santos, & Fino, 1996), à qual
acrescentámos mais algumas questões que consideramos pertinentes. Assim, esta
ficha era constituída por vários itens agrupados em quatro partes: I -
Criança - idade, género, tipo de problemática, frequência de creche/
Jardim Infância; II - Pais - idade, nível de instrução, profissão,
situação de emprego, nacionalidade; III - Agregado familiar -
elementos do agregado familiar, número de filhos, número de pessoas que
coabitam, fonte principal de rendimento; IV - Zona onde habita a família
tipo de habitação, anos de residência no local. Para caracterizar a quantidade
e qualidade do apoio social percepcionado pelas famílias, seleccionamos a
Escala de Avaliação do Apoio Social à Família, no original "Family
Support Scale" - FSS (Dunst, Jenkins, & Trivette, 1984), na
versão portuguesa traduzida e adaptada por Brandão e Xavier (1997, in Brandão
Coutinho, 1999). Este instrumento é bastante frequente na literatura, de fácil
utilização e apresenta boas qualidades psicométricas (Dunst et al., 1984,
1997). Permite avaliar algumas das componentes do apoio social que Dunst et al.
(1988) identificaram, nomeadamente a componente relacional (quantidade das
relações sociais existentes) e a componente funcional do apoio (disponibilidade
e utilidade das mesmas). De um modo operacional, esta escala permite avaliar
quais as fontes de apoio social disponíveis bem como a percepção do seu grau de
utilidade, para quem cuida de crianças em idade pré-escolar, com deficiência ou
em risco de desenvolvimento.
A "Family Support Scale" (FSS), considerada uma escala de auto-
resposta, é constituída por 19 itens e nas fontes de apoio referidas inclui não
só indivíduos (esposa/o, parentes, amigos, médicos, etc.) como grupos (igreja e
associações a ela ligadas, grupos de pais, etc.) posicionados em diferentes
níveis ecológicos. Pediu-se às mães que indicassem se cada fonte estava ou não
disponível e até que ponto cada uma delas era considerada útil para elas e para
a sua família, assinalando, à frente de cada uma das afirmações o seu nível de
concordância com a escala de pontuação ("Likert"), de 0 a 5: 0 =
não disponível; 1=não ajuda; 2=por vezes, ajuda; 3=geralmente ajuda; 4=ajuda
muito; 5=ajuda imenso. A expressão "não disponível" era escolhida
quando a fonte de apoio em causa não existia ou quando se verificava outra
situação que levava a não poder considerar essa fonte como potencialmente
disponível (e.g., Afastamento devido a motivos de ordem geográfica). A
pontuação obtida na totalidade dos itens da FSS fornece informações sobre a
percepção das mães acerca do grau de utilidade das suas redes de apoio social.
A quantidade dos itens apontados como não disponíveis (pontuados com 0),
permitiu-nos obter informações sobre o número de potenciais fontes de apoio não
disponíveis e a soma dos restantes itens (não pontuados com 0) deu-nos o número
de fontes de apoio disponíveis. O somatório das cotações das respostas aos
diferentes itens permite obter diferentes subescalas tais como:
- Grau de utilidade das redes informais familiares (somatório
dos itens 1, 2, 3,4, 5, e 8)
- Grau de utilidade das redes informais de amigos (somatório
dos itens 6, 7, 9, 10 e 11)
- Grau de utilidade das redes informais grupos sociais
(somatório dos itens 12, 13 e 14)
- Grau de utilidade das redes formais de profissionais
(somatório dos itens 15 e 18)
- Grau de utilidade das redes formais de serviços (somatório
dos itens 16, 17 e 19)
- Grau de utilidade das redes informais - valor total
(somatório das subescalas A, B e C)
- Grau de utilidade das redes formais - valor total
(somatório das subescalas D e E)
- Grau de utilidade das redes sociais - valor total
(somatório das subescalas F e G)
Procedimentos
Tendo em vista a selecção dos participantes, contactámos os responsáveis pelos
Projectos de Intervenção Precoce de Loures e de Sacavém e a partir da consulta
das listas de crianças sinalizadas por ambos os projectos e a beneficiar de
intervenção, tendo sido seleccionadas as crianças em situação de risco
estabelecido ou com atraso no seu desenvolvimento psicomotor, com idades
compreendidas entre os 0 e os 6 anos. Após a recolha desses dados, foram
contactadas, pessoalmente, as educadoras de apoio dessas crianças a quem foi
apresentada a proposta de estudo e solicitada colaboração. Das vinte e duas
docentes que prestavam apoio no âmbito dos dois projectos de inter venção
precoce do concelho de Loures, colaboraram, quinze educadoras que entraram em
contacto com as mães das crianças que lhes foram referenciadas por nós. A
aplicação dos instrumentos foi presencial, como forma de reduzir possíveis
erros resultantes de dificuldades de interpretação. As educadoras marcaram com
cada uma das mães um local, dia e hora consoante a disponibilidade das mesmas
e, na data agendada, foi efectuada, pelas educadoras, a aplicação dos
instrumentos, em situação individualizada com a presença da mãe. Nos casos de
iliteracia, os instrumentos foram lidos às mães e a educadora registou as
respostas. Todos os dados foram recolhidos até Dezembro de 2002.
RESULTADOS
Os resultados da aplicação da FSS revelaram uma grande diversidade de
situações, tanto no que diz respeito à quantidade de fontes de apoio
potencialmente disponíveis (disponibilidade), como ao nível de utilidade dessas
fontes.
Relativamente à disponibilidade das redese conforme se pode observar no Quadro
1 (observando a coluna - Não disponível), as fontes consideradas como
mais disponíveis, pelas mães participantes neste estudo, correspondem aos
profissionais e serviços, apenas 1 e 2 mães respectivamente as consideram como
não disponíveis.
Ao analisarmos o quadro anterior e, considerando o número de mães que
assinalaram as diferentes fontes de apoio, como não disponíveis, podemos
inferir que as fontes de apoio mais apontadas como disponíveis são, por ordem
decrescente: os profissionais, os serviços, o programa de intervenção precoce,
o médico, os vizinhos e a crechejJardim de infância. Constatamos que, à
excepção de uma (os vizinhos), as fontes referidas como mais disponíveis
incluem-se na rede formal de apoio social.
Relativamente às fontes de apoio da rede informal e logo a seguir aos vizinhos,
aparecem como mais disponíveis, o cônjuge e os amigos maternos. Quanto às
fontes de apoio menos disponíveis, verificamos que eram os grupos de pais,
seguidas dos grupos sociais e dos filhos.
A análise destes dados leva-nos a considerar que, para estas mães e famílias,
as fontes de apoio formal (os serviços e os profissionais) parecem estar mais
disponíveis do que as fontes de apoio informal (familiares, amigos ou grupos
sociais). Verificaremos a seguir, se tal tendência é confirmada pela análise
dos resultados por tipo de rede (formal e informal).
Como já referimos atrás, quando apresentámos a FSS, esta escala pode fornecer
diferentes tipos de informações sobre a disponibilidade e utilidade das fontes
de apoio social consideradas individualmente ou, como anteriormente referimos,
englobadas em constructos mais amplos definidos como redes de apoio social
informal e formal, resultantes da aglutinação de determinados tipos de fontes.
Com esse objectivo, agrupámos os itens da escala original em diferentes
subescalas ou redes, consoante o tipo de apoio. Assim, e para além do constucto
mais genérico - Rede de apoio social global, que engloba a totalidade dos
itens, obtivemos duas escalas, que correspondem aos dois principais tipos de
redes (formal e informal) que foram posteriormente divididas ainda em cinco
subescalas, das quais duas incluídas na rede formal (profissionais e serviços)
e três incluídas na rede informal (familiares, não familiares e grupos
sociais). Assim, no Quadro_2, apresentamos as diferentes redes que correspondem
a escalas e respectivas subescalas, fazendolhes corresponder os valores mínimos
e máximos, a média, o desvio padrão, bem como um valor ajustado, relativamente
à disponibilidade de cada uma das redes de apoio social destas famílias.
Dado que o número de fontes de apoio incluídas em cada rede não é idêntico, não
poderíamos efectuar uma comparação entre as médias obtidas nas diferentes redes
de apoio. Assim, para podermos comparar (intra-grupo) os resultados
apresentados relativamente à disponibilidade por tipo de rede (subescala),
calculámos um valor médio ajustado, tendo em conta o valor máximo de fontes
dispo níveis em cada subescala (disponibilidade de todos os itens incluídos
nessa subescala) e calculando a percentagem correspondente ao valor da média
encontrada em cada subescala, por exemplo:
Rede de apoio informal- máximo de itens potencialmente disponíveis=14
Média de itens disponíveis=8.64
Conforme podemos observar no Quadro_2, os resultados apontam para uma maior
disponibilidade das redes de apoio formal nestas famílias.
Relativamente à rede de apoio informal, aquela onde se verifica maior
variabilidade, neste grupo (SD=3.54), as fontes de apoio mais disponíveis
correspondem a indivíduos não familiares (vizinhos e amigos maternos) vma=67.6,
seguidos dos familiares (cônjuge e pais maternos) com vma=63.2 e finalmente dos
grupos sociais (grupos sociais, associações relacionadas com a igreja, grupos
de pais) com vma=48.3. Os grupos de pais para além de serem dos menos
disponíveis são também apontados como os menos úteis. Quanto ao valor global da
rede social destas famílias, observamos que os valores mínimos e máximos
encontrados (3 e 19), tal como o desvio padrão (SD=13.92) se distribuem de modo
bastante diversificado, espelhando a variedade de situações em que estas
famílias se encontram.
Quanto à utilidadedas fontes e conforme podemos observar os valores no Quadro_1
e ilustrado visualmente no Gráfico_1, a partir da análise do nível médio de
utilidade por fonte de apoio, verificamos:
- A creche/jardim de infância apresenta o nível mais elevado em
termos de utilidade, seguida dos profissionais, dos filhos, do
programa de intervenção precoce, dos serviços e do cônjuge.
- Os pais maternos situam-se a seguir ao cônjuge e antes do
médico de família ou pediatra, que é a menos pontuada das fontes de
apoio formal, em termos de nível de utilidade média, mas que
apresenta um valor de utilidade superior ao da maior parte das fontes
de apoio informais.
- As fontes de apoio informais relacionadas com a mãe da
criança - pais, outros familiares e amigos maternos apresentam um
nível de utilidade bastante superior ao das fontes de apoio
relacionadas com o pai da criança - pais, outros familiares e
amigos paternos.
- Os vizinhos e a igreja não parecem ser das fontes sentidas
como mais úteis, contudo, apresentam um valor médio de utilidade
superior ao dos colegas e outros pais e também ao dos pais e
familiares do cônjuge e amigos deste.
- Os valores mais baixos referem-se à utilidade do apoio de
grupos sociais e grupos de pai. Porém, será de realçar que cinco das
mães contactadas afirmaram receber ajuda de grupos de pais, o que
poderemos associar ao facto de se terem realizado alguns encontros de
pais de crianças com Trissomia 21, promovidos pelos projectos de
Intervenção Precoce do concelho de Loures.
Considerando o grau de utilidade das redes de apoio social, não por fontes mas
por tipo de rede, apresentamos a seguir os valores máximos e mínimos obtidos, a
média, o desvio padrão e o valor médio ajustado. Uma vez mais (como no caso da
disponibilidade) para ser possível proceder a uma comparação entre os valores
obtidos nas diferentes redes, optámos, por calcular um valor médio ajustado, ou
seja a percentagem correspondente à média encontrada em cada subescala, tendo
em conta o valor máximo que se podia obter, se todos os itens incluídos
estivessem pontuados com o grau de utilidade máximo (5="ajuda
imenso").
Analisando conjuntamente os dados relativos à disponibilidade e utilidade
podemos dizer que, as fontes da rede informal mais disponíveis fazem parte da
rede dos não familiares (vizinhos e amigos maternos) e não coincidem com as
fontes da rede informal sentidas como mais úteis, que se incluem na rede de
familiares (filhos, cônjuge e pais maternos). No que diz respeito aos filhos,
verifica-se o fenómeno contrário, pois, eles são das fontes de apoio menos
disponíveis, nestas famílias (com um número de filhos pouco elevado, por
agregado familiar), mas, quando estão disponíveis, são considerados como muito
úteis. Quanto aos familiares e amigos da família, apesar de apresentarem níveis
de disponibilidade idênticos, os familiares e amigos maternos são referidos
como significativamente mais úteis do que os familiares e amigos paternos.
Seguidamente e com o objectivo de verificarmos se existia algum tipo de
associação entre a disponibilidade e a utilidade das redes, utilizamos o rde
Pearson, para proceder a cruzamentos todos os tipos de redes e verificamos que,
conforme podemos observar no Quadro_4, existe uma correlação positiva entre a
disponibilidade e a utilidade das redes de apoio, para todas elas. Se
analisarmos estas componentes por tipo de rede, constatamos que também existe
uma correlação positiva e significativa entre a disponibilidade e o nível de
utilidade tanto da rede formal (r=0.67; p≤.01) como da rede informal (r=0.77;
p≤.01), mais forte nesta última. Ou seja, quanto maior é a rede de apoio, mais
elevada é a percepção da sua utilidade.
Como observamos no Quadro_4, encontrámos uma correlação positiva entre os
valores da disponibilidade e da utilidade das redes de apoio, em todas as
subescalas consideradas. Contudo, o valor mais elevado entre disponibilidade e
utilidade verifica-se na rede informal constituída pelos familiares (r=0.81;
p≤.01), o que significa que quando o número de fontes de apoio familiares
disponíveis é maior, esta rede de apoio é percepcionada também como mais útil.
Quisemos, ainda, analisar a relação entre determinadas variáveis demográficas e
o nível de utilidade da rede de apoio social destas famílias e verificámos uma
correlação positiva e significativa (p<.01) entre o número de anos de
residência da família no mesmo local e o nível de utilidade da rede de apoio
informal familiares (rs=0.33; p≤.01). Ao contrário, verificamos, uma correlação
negativa entre a classe social e a utilidade da rede informal (rs=-0.36;
p≤.01), o que parece indicar que quanto mais baixa é o enquadramento social,
mais o apoio que parecem sentir, por parte dos seus familiares e amigos. A
análise das relações entre o nível de apoio percepcionado e as variáveis: idade
da criança e da mãe, estado civil e situação de emprego da mãe, não revelou
resultados significativos.
Quisemos, por fim, proceder à comparação entre as mães de nacionalidade
portuguesa e PALOP no que se referia à percepção da utilidade das redes, para o
qual utilizamos o teste tde Student e um nível de significância de p≤.05.
Assim e como podemos observar no Quadro_5, observaram-se diferenças
significativas entre ambos os grupos, relativamente ao apoio sentido por parte
das mães, relativamente às redes de apoio informal total e em ambas as suas
subdivisões, sendo claro que as mães de origem portuguesa sentem
significativamente mais apoio (M=20.71) do que as mães nascidas dos PALOP
(M=14.79).
DISCUSSÃO
Os resultados revelaram uma grande diversidade de situações, tanto no que diz
respeito à quantidade de fontes de apoio potencialmente disponíveis, como ao
nível de utilidade dessas fontes. Contudo, constatámos que, de forma global,
existe uma relação positiva entre a dimensão da rede de apoio e a satisfação
com a mesma (sensação de utilidade).
Considerando os dois tipos de rede de apoio social: informal (familiares, não
familiares e grupos sociais) e formal (profissionais e serviços), verificamos
uma maior disponibilidade e utilidade das redes de apoio formal destas
famílias, o que é concordante com outros estudos que evidenciam que em grupos
de mães mais desfavorecidos socialmente, como é o caso destas mães, os serviços
e os profis sionais são percepcionados como aqueles que prestam mais ajuda,
quando comparados com a rede informal. Brandão Coutinho (1999), embora com um
grupo de mães socioeconomicamente mais favorecido, também se verificou que as
redes de apoio formal eram também percepcionadas como mais úteis, pelas
famílias. Relativamente à rede de apoio informal, que é aquela naqual se
verifica maior variação, as fontes de apoio mais disponíveis para estas mães,
correspondem a indivíduos não familiares (vizinhos e amigos maternos), seguidos
dos familiares (cônjuge e pais maternos) e dos grupos sociais (associações
relacionadas com a igreja, grupos de pais) que são também apontados como os
menos úteis, o que também é concordante com Brandão Coutinho (1999). A
percepção de reduzida utilidade dos grupos sociais deve-se, possivelmente, ao
facto deste tipo de grupos não ser ainda habitual em Portugal, contrariamente
ao que acontece nos EUA (Fewell, 1986). Entre nós, embora se denote um
crescendo no movimento associativo de pais, à data da recolha destes dados,
ests eram ainda pouco perceptíveis e úteis para as famílias que integraram o
estudo.
Curiosamente, as fontes da rede informal mais disponíveis, que como vimos fazem
parte da rede dos não familiares (vizinhos e amigos maternos), não coincidem
com as fontes da rede informal consideradas como mais úteis e que se incluem na
rede de familiares (filhos, cônjuge e pais maternos). Esta situação vem
confirmar como referem Crnic e Stormshak (1997) que o facto de alguém estar
disponível não significa que seja efectivamente útil. No que diz respeito aos
filhos, verifica-se o fenómeno contrário, pois, eles são das fontes de apoio
menos disponíveis nestas famílias (o filho único é a situação mais comum neste
grupo), mas quando estão disponíveis, são consideradas como muito úteis o que
também é coincidente com Fewell (1986) que refere que os irmãos mais velhos,
especialmente do sexo feminino, podem ser os principais apoios dos pais junto
da criança com necessidades especiais.
No que diz respeito à relação entre variáveis demográficas e o nível de
utilidade da rede de apoio social destas famílias, verificámos que o tempo de
residência na zona e a classe social são de considerar. Por um lado, quando as
famílias residem há mais tempo no local, as mães referem mais apoio por parte
da sua rede informal e por outro lado, as mães de classe social mais baixa,
apontam maior utilidade das suas fontes de apoio informal. Compreende-se que
uma família residente no local há mais tempo, numa zona onde possivelmente
coabitam elementos da sua família alargada e onde já conseguiu organizar uma
rede de apoio informal, está numa situação diferente de outra que deixou a sua
zona de origem e está afastada dos seus familiares.
Existem diferenças entre os grupos se considerarmos a variável nacionalidade,
que distingue as famílias nascidas em Portugal das famílias imigrantes dos
PALOP, pois verificamos que para as mães imigrantes dos PALOP, mais do que para
as mães portuguesas, as redes de apoio informais são consideravelmente menos
úteis. Bailey, Nelson, Hebbeler e Spiker (2007) num estudo recente com uma
amostra americana representativa (N=2100 pais) sobre as relações entre o apoio
social formal e informal em famílias de crianças com deficiências, realçam o
modo diverso de actuação dos dois tipos de redes e reafirmam a importância da
rede informal, no processo de adaptação da família. No caso destas famílias
imigrantes de origem africana, com crianças portadoras de deficiências, a vinda
para Portugal está, frequentemente, relacionada com a procura de um diagnóstico
ou de uma intervenção que seja mais adequada à situação da criança e a que não
têm acesso no seu país de origem. As famílias que vêm por estas razões, têm
filhos com problemas graves e enfrentam grandes dificuldades ao chegarem a um
país que não conhecem e onde a língua, apesar de oficialmente ser a mesma, pode
constituir apenas uma das barreiras com que se deparam. A rede de apoio
informal é sentida como menos útil, o que constitui um forte indicador de
isolamento social, o que reforça as investigações que sugerem que a imigração
tem um impacto importante no sistema familiar e altera, entre outros aspectos,
a sua rede de apoio social (Blanes et al., 1999). As famílias imigrantes,
sofrem o afastamento da sua família alargada e a consequente ausência do apoio
proveniente das suas relações pessoais e podem necessitar de mais apoio das
redes formais (profissionais, serviços) e de encontrar outras fontes de apoio
informais no seu novo país. Considerando a importância destas no processo de
adaptação da família aos problemas de desenvolvimento da criança, será
fundamental ajudar as famílias a aceder e construir redes de apoio informal
(Bailey et al., 2007).
Em síntese, a maior disponibilidade e utilidade da rede formal de apoio social
destas famílias e menor disponibilidade da sua rede informal, pode, em parte,
ser explicada pelas características deste grupo, nomeadamente o baixo nível de
literacia e a precariedade socioeconómica evidentes. Além do mais,
aproximadamente dois terços destas famílias são originárias de fora do
concelho, onde residem actualmente, e parte delas são de uma cultura diferente
da maioria das famílias da zona. Para estas famílias, que se vêem afastadas da
sua zona de origem, onde deixaram familiares e amigos, o apoio da rede formal
vai assumir um papel fundamental e pode ser percepcionado pelos pais, como mais
útil do que o proporcionado pela rede de apoio informal. Quando a família tem
menos amigos e poucos familiares disponíveis para a apoiar ou os que existem
não ajudam muito, pode ser crucial o papel dos elementos da comunidade que
fazem parte da rede de apoio formal (Kazak & Marvin, 1984). Por outro lado,
o facto de as mães contactadas residirem no concelho de Loures, dos seus filhos
serem alvo do apoio dos projectos de Intervenção Precoce locais, poderão
explicar também a percepção de maior disponibilidade e utilidade da rede formal
de apoio (profissionais, serviços, programas de intervenção precoce). À data da
realização deste estudo, existiam no concelho de Loures, dois projectos de
Intervenção Precoce (Sacavém e Loures) fruto da articulação entre serviços de
Educação e Saúde locais, que proporcionavam para além de uma consulta de
desenvolvimento, o apoio domiciliário, ou apoio em estabelecimento educativo, a
crianças em situação de risco bem como às respectivas famílias.
Por fim, de acordo com a literatura, as redes de apoio social formal e informal
de que a família de uma criança com deficiência, ou em risco de atraso grave de
desenvolvimento dispõe, são factores determinantes para a melhoria da qualidade
de vida dessas crianças e famílias e para que elas consigam atingir a
normalização do seu estilo de vida (Seligman & Darling, 2007). Nestas
famílias, especialmente nas imigrantes, a rede de apoio informal é mais
reduzida e sentida como menos útil e a rede de apoio formal tende a assumir
maior importância. Conforme referem Blanes et al. (1999) a intervenção precoce
pode desempenhar um papel crucial no apoio a famílias imigrantes com crianças
com necessidades especiais, reestruturando e desenvolvendo a sua rede de apoio
no novo contexto sociocultural, no sentido do seu bem-estar e do da sua criança
com necessidades especiais, pelo que a mobilização de fontes de apoio informal
existentes na comunidade deverá ser uma prioridade para a qual os profissionais
de IP, através duma adequada formação deverão estar preparados, possuindo as
competências necessárias para implementarem práticas verdadeiramente centradas
na família e culturalmente sensíveis.