Limitações na avaliação de perturbação de personalidade: Aspectos conceptuais e
metodológicos
INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, tem havido um aumento acentuado da produção de
instrumentos destinados a avaliar a perturbação de personalidade,
designadamente a nível das dimensões e traços de personalidade não adaptativos,
relevantes para o estudo da patologia da personalidade (Clark & Harrison,
2001). Esta proliferação de instrumentos ficou a dever-se a vários
condicionalismos, com destaque para o reconhecimento oficial pela Associação
Psiquiátrica Americana (APA) da categoria de perturbação de personalidade
que, a partir de 1980, passou a ter uma secção própria no Eixo II do Manual
Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais (DSM-III; APA, 1980). Outro factor
impulsionador foi o facto de, na disciplina de Psicologia, se ter afirmado a
interdependência entre as áreas da personalidade e da psicopatologia, campos
que, até então, tinham permanecido relativamente isolados. Na verdade, o
aumento dos estudos que abarcam estas duas perspectivas encontra-se ligado à
constatação por parte dos investigadores destas áreas que o vasto conhecimento
acumulado na área da personalidade normativa pode ser aplicado duma forma
vantajosa ao estudo da psicopatologia (Clark & Harrison, 2001). Decorrendo
daí que os investigadores da psicologia clínica prestem hoje uma atenção
especial às variações psicopatológicas observadas no funcionamento da
personalidade normativa (Lenzenweger & Clarkin, 1996).
Assiste-se, portanto, a uma proliferação não só de novos modelos, teorias e
técnicas de avaliação da personalidade, mas também a um reconhecimento cada vez
maior do papel de traços de personalidade duradouros no desenvolvimento de
tipos específicos de psicopatologia (Millon & Davis, 1996). Este
reconhecimento da relevância clínica das perturbações da personalidade
originou, como já referido, o desenvolvimento da taxonomia das perturbações da
personalidade, a que se sucederam medidas para avaliar cada um dos critérios do
DSM utilizados para definir este tipo de patologia. Neste âmbito, a introdução
de uma nova distinção entre as síndromes clínicos e perturbações de
personalidade, assim como a descrição explícita destas perturbações no DSM-III
e nas suas revisões subsequentes (DSM-III-Revised, 1987; DSM-IV, 1994), levou
ao reconhecimento unânime das perturbações de personalidade como entidades
diagnósticas distintas (Lenzenweger & Clarkin, 1996). Apesar de tudo, a
unanimidade está longe de ser alcançada no que diz respeito a aspectos
conceptuais e avaliativos no âmbito da investigação sobre este tipo de
patologia. Na verdade, vários autores têm criticado a forma como os critérios
de perturbação de personalidade estão descritos no DSM (e.g., Farmer, 2000;
Perry, 1992; Westen, 1999), como veremos adiante.
PERTURBAÇÃO DE PERSONALIDADE
A importância do estudo da personalidade tem sido reconhecida em diversas
culturas e épocas, tendo as actuais definições de personalidade na sua base uma
longa história. A personalidade é hoje definida como uma combinação complexa de
traços psicológicos enraizados e contendo dimensões não conscientes, que se
manifestam em muitos aspectos da vida do indivíduo. Os traços de personalidade
são vistos como resultando de um conjunto de disposições biológicas e
adquiridas que constituem uma base a partir da qual os indivíduos vão pensar,
sentir, e comportar-se no mundo que os rodeia (Millon & Davis, 1996).
A noção de perturbação de personalidade é, por sua vez, descrita como ... um
padrão duradouro de experiência interna e de comportamento que se desvia
acentuadamente das expectativas de uma dada cultura. Este padrão é considerado
... inflexível e generalizado afectando diversas áreas de funcionamento
pessoal e social, leva a perturbação ou deficit clínico significativos, e é
estável e de longa duração... (DSM-IV, 1994, p. 686). De uma forma semelhante,
Kernberg (1984) define perturbação de personalidade como ... constelações de
traços de carácter anormais ou patológicos de intensidade suficiente para
produzir perturbação significativa na esfera intra-psíquica e/ou interpessoal
(p. 77). Assim, a perturbação de personalidade parece ser caracterizada por um
desvio de longa duração em relação a um dado padrão cultural, desvio este que é
generalizado a vários domínios de funcionamento e leva a dificuldades no
relacionamento consigo mesmo e com os outros. Além disso, é consensualmente
aceite que a perturbação de personalidade constitui uma base a partir da qual
surgem outras perturbações menos duradouras, ou seja, aquela cria um certo grau
de vulnerabilidade a patologias como a depressão e a ansiedade (e.g., Millon
& Davis, 1996).
As perturbações de personalidade têm sido designadas através de vários termos
(perturbações de carácter, perturbações de traços de personalidade) que advêm
de diferentes contextos e orientações teóricas e clínicas. Na verdade, a
personalidade tem sido estudada por diversas perspectivas sendo as mais
salientes a neurobiológica, psicodinâmica, cognitiva e interpessoal. Mesmo
dentro destas abordagens principais, algumas das teorias oferecem um leque
limitado de conceitos e formulações, enquanto outras oferecem modelos
sistemáticos mais completos capazes de gerar sistemas de classificação em
termos da personalidade e das suas perturbações (Millon, Meagner, &
Grossman, 2001).
ABORDAGENS DIMENSIONAIS VERSUSABORDAGENS CATEGORIAIS
Após ter sido reconhecida a importância clínica das perturbações de
personalidade através da emergência de sistemas de classificação e categorias
diagnósticas, houve, como vimos, também um interesse crescente em desenvolver
métodos de avaliação. Uma das questões mais importantes neste âmbito é a
distinção entre medidas dimensionais e categoriais (e.g., Farmer, 2000; Millon
& Davis, 1996). A diferença fundamental entre as duas perspectivas é que as
abordagens categoriais estabelecem um ponto de corte entre aquilo que
consideram uma personalidade normal versuspatológica, enquanto as abordagens
dimensionais partem do pressuposto de que a perturbação de personalidade é uma
categoria artificial resultando de pontos arbitrários ao longo de um continuum.
Para os que defendem as abordagens dimensionais, as diferenças ao longo deste
continuum representam variações relevantes. Pelo contrário, os defensores da
perspectiva categorial postulam a existência de categorias de perturbação
normal ou patológica. O debate opondo estas duas perspectivas já decorre há
alguns anos e, se por um lado se reconhece que as abordagens dimensionais têm
vantagens, nomeadamente psicométricas, as abordagens categoriais têm sido
vistas como possuindo igualmente características desejáveis. Por exemplo, o
facto de permitirem uma comunicação fácil do diagnóstico, através da utilização
de uma designação única que condensa uma grande quantidade de informação e
torna mais fácil tomar decisões em termos de tratamento (Farmer, 2000). Ao
longo dos últimos anos, vimos assistindo a esforços no sentido de integrar
estas duas dimensões na avaliação da perturbação da personalidade, através do
surgimento de alguns instrumentos baseados no DSM que permitem obter tanto uma
classificação categorial como valores dimensionais (e.g., First, Spitzer,
Gibbon, & Williamns, 1997; Zanarini, Frankenburg, Chauncey, &
Gunderson, 1987). No entanto, permanece, ainda assim, pouco claro como é que
estas duas abordagens podem ser usadas em conjunto de modo a contribuir para
aumentar a validade na avaliação da perturbação de personalidade. Na verdade, a
abordagem dimensional usada até ao momento tem sido bastante simplista,
limitando-se a usar os mesmos instrumentos de auto-relato ou entrevistas semi-
estruturadas, adicionando o número de critérios positivos (número de sintomas
que o indivíduo assinala como existentes) de modo a obter uma pontuação
dimensional para além da designação categorial.
AVALIAÇÃO DA PERTURBAÇÃO DA PERSONALIDADE: CLASSIFICAÇÕES BASEADAS NO DSM
O DSM tem sido a referência principal na avaliação das perturbações da
personalidade. Na última versão do manual ' DSM-IV (APA, 1994) ' as
perturbações da personalidade aparecem descritas em 10 categorias, divididas em
três agrupamentos em função dos sintomas. O primeiro inclui as perturbações
caracterizadas pela excentricidade e peculiaridade do comportamento tal como a
perturbação paranóide, esquizóide e esquizotípica. O segundo agrupamento
engloba a perturbação de personalidade histriónica, narcisista, anti-social e
borderline com base na sua tendência para o comportamento dramático, emotivo e
instável. O último agrupamento inclui as personalidades caracterizadas pela
ansiedade e apreensão, como a perturbação de personalidade evitante,
dependente, compulsiva e passiva-agressiva (Millon & Davis, 1996). O DSM
oferece pois uma perspectiva descritiva focando-se nos fenómenos mais
observáveis e tangíveis ' os sintomas. Com efeito, o grupo de trabalho
envolvido na criação do manual procurou obter um sistema de diagnóstico que
oferecesse critérios explícitos, preferencialmente comportamentais, que
pudessem ser avaliados com fidelidade (Lenzenweger & Clarkin, 1996). Dado
que este sistema foi criado para ser isento de viés teórico, poderia ser usado
como uma base de trabalho independentemente da teoria adoptada. No entanto,
algumas dificuldades na utilização do manual têm questionado o alegado valor da
perspectiva a-teórica adoptada pelos criadores do DSM-III e dos seus
sucessores. Ainda assim, vários autores defendem que a exposição formal de
critérios diagnósticos foi importante na medida em que serviu para enfatizar as
componentes específicas de inclusão e exclusão, importantes para a decisão
diagnóstica. De facto, esta definição de critérios operacionais fez com que o
DSM tenha sido considerado um instrumento potencialmente valioso para a
investigação (Millon & Davis, 1996) tendo suscitado o desenvolvimento de
instrumentos construídos especificamente para avaliar os critérios do Eixo II
explicitados no manual, instrumentos estes que têm sido vistos como
contribuindo de alguma forma para aumentar a fidelidade na avaliação da
perturbação de personalidade (e.g., Zimmerman, 1994). Nessa linha, existe um
vasto leque de instrumentos disponíveis, já revistos de acordo com a quarta
versão do manual. Apesar de a maior parte destes instrumentos ser de auto-
relato (e.g., Questionário do Diagnóstico da Personalidade-4, PDQ-IV, Hyler,
1994; Inventário Multiaxial de Millon-III, Millon, Davis, & Millon, 1997)
também estão disponíveis diversas entrevistas (e.g., Entrevista Diagnóstica
para as Perturbações de Personalidade do DSM-IV, DIPD-IV, Zanarini et al.,
1987; Entrevista Clínica Estruturada para o Eixo II do DSM-IV, SCID-II, First
et al., 1997). Cumpre-nos salientar que, a par do avanço na construção de
entrevistas estruturadas para as perturbações principais do Eixo I (e.g.,
depressão), assiste-se também ao desenvolvimento de entrevistas destinadas a
avaliar as perturbações do Eixo II. Verifica-se no entanto, que alguns autores
defendem que a maioria destas entrevistas são basicamente questionários de
auto-relato administrados no formato de entrevista (e.g., Westen & Shedler,
1999a), isto é, não vão para além de pedir aos doentes que relatem os seus
próprios sintomas.
LIMITAÇÕES NA AVALIAÇÃO DE PERTURBAÇÃO DE PERSONALIDADE
Apesar de as perturbações de personalidade descritas na última versão do DSM
representarem um enorme avanço em relação a classificações anteriores, parecem
ainda longe de constituir uma forma ideal de descrever os aspectos clínicos
centrais da perturbação de personalidade (Tyrer, 1995). Como consequência, há
uma preocupação crescente em relação à utilidade e validade da conceptualização
de perturbação de personalidade no DSM (Farmer, 2000). Constata-se, pois, que a
emergência de problemas de validade começa a ser interpretada como um sinal de
que esta conceptualização pode ser problemática a diversos níveis (Farmer,
2000), havendo a esse respeito, pelo menos dois aspectos que têm sido
consistentemente descritos na literatura. O primeiro está relacionado com as
elevadas taxas de co-morbilidade associadas ao diagnóstico de perturbação de
personalidade, e o segundo diz respeito à falta de concordância que tem sido
encontrada entre instrumentos.
ELEVADAS TAXAS DE CO-MORBILIDADE
Recentemente, tem sido prestada cada vez mais atenção às taxas elevadas de co-
morbilidade nas perturbações da personalidade considerando-se que há problemas
de validade visto existirem elevadas taxas de co-morbilidade, sem que estas
sejam intencionais, isto é, as perturbações são consideradas teoricamente
distintas em termos da sua etiologia ou dos factores que as mantêm. Esses
problemas advêm portanto (i) da conceptualização ou definição dos construtos
co-mórbidos, (ii) dos critérios do sistema de classificação que não representam
adequadamente os contrutos que pretendem definir ou descrever e/ou (iii) da
utilização de instrumentos que não são capazes de medir apropriadamente os
construtos definidos pelo sistema de classificação. Os elevados níveis de co-
morbilidade sugerem, por conseguinte, falta de validade discriminante dos
construtos, dos instrumentos ou de ambos (Farmer, 2000).
Por regra, quando as perturbações da personalidade são diagnosticadas de acordo
com os critérios do DSM, obtêm-se múltiplos diagnósticos de perturbação de
personalidade, apesar de haver, em geral, uma preferência por parte dos
clínicos em atribuir a um dado paciente apenas um diagnóstico de perturbação de
personalidade (Westen, 1997). Além disso, não existe um modo satisfatório de
classificar os pacientes que apresentam sintomas provenientes de mais do que
uma categoria diagnóstica de perturbação de personalidade. Exemplos típicos são
as perturbações mistas relativamente às quais é difícil determinar se se
referem a entidades que podem ser avaliadas separadamente. A perturbação de
personalidade borderline, especificamente, é disso exemplo, sendo não só raro
encontrá-la isoladamente, como também se revela difícil distingui-la de outras
perturbações do mesmo agrupamento, como as histriónicas e as narcisistas (e.g.,
Barasch et al., 1983, cit. in Tyrer, 1995).
FALTA DE CONCORDÂNCIA ENTRE OS INSTRUMENTOS
Têm sido verificadas apenas associações marginais entre diagnósticos
estabelecidos de acordo com diversos instrumentos utilizados para avaliar
perturbações de personalidade, o que suscita problemas de validade. Estes
problemas parecem ser particularmente graves na utilização de medidas de auto-
relato (Shedler & Westen, 2007; Westen & Shedler, 1999a), pois a
avaliação de perturbação de personalidade recorrendo ao uso desses instrumentos
é caracterizada por um nível baixo de concordância com as entrevistas semi-
estruturadas (e.g., Perry, 1992; Zimmerman, 1994). Perry (1992), por exemplo,
dedicou-se à avaliação da concordância diagnóstica entre questionários de auto-
relato e entrevistas estruturadas em oito estudos publicados, tendo verificado
existir, em geral, uma baixa concordância entre pares de instrumentos, com uma
fidelidade média bastante baixa (K=0,25) do diagnóstico de perturbação de
personalidade. A concordância observada revelou-se mais baixa entre
questionários de auto-relato e entrevistas, do que entre dois métodos de
entrevista diferentes, sendo que estes obtiveram níveis mais elevados de
concordância. No entanto essa concordância foi considerada, no máximo, apenas
razoável (K=0,61, Perry, 1992). Assim, a elevada variabilidade nos resultados
obtidos com instrumentos diferentes mostra que uma elevada percentagem da
variância no diagnóstico de perturbação de personalidade representa variância
que não pode ser atribuída ao paciente, o que implica grandes dificuldades na
comparação de resultados obtidos entre estudos utilizando diferentes
metodologias (Perry, 1992). Além disso, como denotam Shedler e Westen (2007) há
ainda dificuldades de concordância utilizando o mesmo instrumento em dois
momentos distintos (falta de fidelidade teste-reteste) o que é visto por estes
autores como bastante problemático, dado que a perturbação de personalidade é,
por definição, uma perturbação contínua e duradoura.
POSSÍVEIS CAUSAS DESTASDIFICULDADES DE AVALIAÇÃO
A perturbação da personalidade é difícil de avaliar e, como vimos, os
principais instrumentos baseados nas categorias e critérios do DSM-IV
apresentam problemas psicométricos que podem limitar a sua utilização (e.g.,
Westen & Shedler, 1999a). Algumas sugestões têm sido apresentadas pelos
autores, numa tentativa de identificar as possíveis origens destes problemas de
avaliação presentes no diagnóstico de perturbação da personalidade.
PROBLEMAS INERENTES AO AUTO-RELATO
A maior parte das medidas (questionários e entrevistas) baseiam-se fortemente
na utilização de perguntas directas derivadas dos critérios do Eixo II, método
este importado dos instrumentos utilizados na avaliação das perturbações do
Eixo I. Este método, pode, no entanto, não ser o mais adequado na avaliação de
perturbações de personalidade (Shedler & Westen, 2007). Com efeito,
diversos autores têm defendido que os pacientes com perturbação de
personalidade podem não ser capazes de relatar os seus sintomas de uma forma
adequada (e.g., Tyrer, 1988; Westen, 1997). Este aspecto é sobretudo evidente
quando se está perante perturbações que incluem sintomas como uso patológico da
mentira, grandiosidade, pensamento distorcido ou delírio, perturbações da
identidade, estilo exagerado de resposta etc. (Farmer, 2000). Por exemplo, um
indivíduo paranóico deverá constituir à partida uma fonte de informação não
fidedigna na avaliação dos seus próprios comportamentos, como os de suspeição
exagerada e sentimentos de perseguição não justificados. Parece, pois,
problemático pedir a estes doentes para relatarem características da sua
personalidade, especialmente quando a falta de auto-conhecimento e auto-
compreensão são características presentes em muitas perturbações da
personalidade (Westen & Shedler, 1999a).
Há ainda outros problemas relacionados com o uso de medidas de auto-relato na
avaliação destas perturbações. Um destes problemas é a existência de material
implícito (não acessível ao consciente) em termos de cognições, memória,
processos afectivos e motivacionais, os quais o paciente não consegue relatar
mas que apenas podem ser observados através de uma avaliação mais cuidadosa.
Além disso, muitos estudos chamam a atenção para as distorções que são
introduzidas por mecanismos de defesa psicológica aquando do auto-relato,
sobretudo quando se colocam questões que têm implicações a nível da auto-estima
do sujeito. Assim, avaliar perturbação de personalidade através de perguntas
directas parece não constituir uma estratégia adequada para avaliar esta
patologia, especialmente em casos em que o diagnóstico inclui falta de auto-
conhecimento e tomada de perspectiva (Westen & Shedler, 1999a), e em
situações em que operações defensivas podem comprometer a validade dos relatos.
DIVERGÊNCIA EM RELAÇÃO À PRÁTICA CLÍNICA
Diversos autores (e.g., Westen, 1997; Westen & Shedler, 1999a) têm posto em
questão a validade da avaliação de perturbação da personalidade baseada no DSM
dizendo que estes métodos divergem demasiado dos procedimentos que os clínicos
utilizam para diagnosticar perturbações de personalidade.
Em primeiro lugar, tem sido demonstrado que os profissionais não diagnosticam
de acordo com o número absoluto de critérios requeridos para o diagnóstico de
perturbação de personalidade (sendo que no DSM é dado um peso igual a cada um
dos critérios de diagnóstico). Em vez disso, existe na prática clínica uma
propensão para diagnosticar os sujeitos com base no grau de gravidade dos
sintomas. Assim sendo, um dado paciente pode apenas manifestar alguns sintomas
determinantes e mesmo assim receber um diagnóstico de perturbação de
personalidade. Por outro lado, um paciente que manifeste vários sintomas pouco
graves poderá não receber tal diagnóstico (Shedler & Westen, 2007; Westen
& Shedler, 1999a).
Em segundo lugar, os critérios do DSM não tomam em conta aspectos positivos da
personalidade, que podem contribuir para a decisão de não atribuir um
diagnóstico de perturbação de personalidade em certos casos. Há, portanto, uma
negligência dos aspectos mais saudáveis do funcionamento (Shedler & Westen,
2007; Westen & Shedler, 1999a).
Finalmente, a avaliação dos clínicos baseia-se no comportamento e nas atitudes
que os indivíduos demonstram durante as sessões (Zimmerman, 1994). Este
julgamento baseia-se fundamentalmente em inferências sobre as narrativas que os
pacientes fornecem acerca das suas vidas e relacionamentos e no comportamento
que estes exibem relativamente ao clínico (Westen, 1997). Assim, apesar de
alguns dos sintomas de perturbação de personalidade (e.g., auto-mutilação no
doente borderline) podem e devem ser investigados directamente com o paciente,
outros sintomas devem ser avaliados de um modo mais adequado através de uma
análise funcional da personalidade (Westen & Arkowitz-Westen, 1998). Esta
análise é semelhante à utilizada no contexto da avaliação geral onde, por
exemplo, a inteligência de uma pessoa é avaliada não através de questões
directas sobre o grau de inteligência que o sujeito pensa possuir, mas através
de tarefas que lhe permitem evidenciar as suas capacidades (e.g., tarefas
verbais ou numéricas). Do mesmo modo, a falta de empatia por exemplo, deveria
ser avaliada no contacto pessoal com o paciente, em vez de lhe ser colocada uma
questão directa sobre se é ou não uma pessoa empática (Shedler & Westen,
2007; Westen & Shedler, 1999a).
Existe pois uma oposição entre o diagnóstico baseado no número absoluto de
sintomas apresentados e o diagnóstico baseado no funcionamento interpessoal,
observado aquando da decisão do diagnóstico. Apesar do DSM considerar o grau de
perturbação psicossocial decorrente da presença de sintomatologia, a ênfase é
colocada no número de sintomas positivos (e.g., impulsividade), e são estes que
são decisivos na distinção entre a personalidade normal e patológica. Alguns
autores, tais como Drake e Vaillant (1985) defendem que o funcionamento
psicossocial e os sintomas de perturbação de personalidade estão intimamente
ligados e que esta patologia se traduz directamente no contacto interpessoal.
Este aspecto é bastante relevante uma vez que quer do ponto de vista clínico,
quer do ponto de vista da investigação, o conjunto dos sintomas ou critérios de
comportamento patológicos descritos num sistema de classificação deve
corresponder à experiência clínica documentada ao nível do funcionamento
interpessoal destes doentes (Kernberg, 1984). Parece, pois, que ainda não se
alcançou este objectivo no que diz respeito à investigação em perturbação de
personalidade, sendo que a maior parte dos instrumentos parece ter,
inadvertidamente, divergido da prática clínica.
LIMITAÇÕES RELACIONADAS COM A ÊNFASE NO COMPORTAMENTO OBSERVÁVEL
Uma outra limitação importante nas questões de avaliação em perturbação de
personalidade, é a falta de compreensão aprofundada destas perturbações, isto
é, do modo como as diversas características comportamentais de cada uma das
perturbações da personalidade se relacionam umas com as outras e com os
factores específicos que estiveram na sua origem ou que aumentaram a
predisposição a esta patologia (Kernberg, 1996). De facto, estes factores
subjacentes aos sintomas que são responsáveis pelo agrupamento dos vários
traços de personalidade sob uma mesma categoria diagnóstica estão basicamente
ausentes na descrição de perturbação de personalidade presente no DSM (Farmer,
2000). Aliás, tem sido observada uma tendência acentuada para conduzir estudos
empíricos muito centrados nos sintomas observáveis, sintomas estes que
constituem os aspectos mais temporários e episódicos do fenómeno de perturbação
de personalidade. Além disso, os mesmos sintomas podem servir funções
diferentes consoante as estruturas de personalidade subjacentes (e.g., a
timidez pode contribuir para o diagnóstico de perturbação esquizóide ou
evitante) (Masterson, 1989).
Esta ênfase no comportamento observável pode ser vista como decorrente da
adopção de uma abordagem supostamente a-teórica no DSM, como vimos
anteriormente (embora exista alguma controvérsia relativamente ao facto do DSM
ser de facto isento de implicações teóricas, ver Faust & Miner, 1986). Esta
abordagem centrada na sintomatologia pretende precisamente permanecer tão fiel
aos dados observáveis quanto possível, de modo a minimizar a inferência e
evitar a teorização prematura (APA, 1994). No entanto, existem dúvidas em
relação à desejabilidade desta característica do sistema de classificação.
Morey (1991), por exemplo, defende que o DSM está demasiado limitado à
descrição de conceitos e sintomas associados e que a mera descrição não permite
explicações ou previsões. Como alternativa, é sugerido que a adopção de uma
dada perspectiva teórica na conceptualização da perturbação de personalidade
poderá ser mais frutífera: as teorias ajudam a relacionar os conceitos num
dado domínio e a estruturar os atributos que são inerentes a esses conceitos
(Murphy & Medin, 1985, p. 289). A medição rigorosa e a descrição precisa
não conseguem produzir por si sós o conhecimento base necessário a um sistema
de diagnóstico satisfatório, mas são apenas benefícios secundários que poderão
surgir naturalmente quando, e se, este sistema satisfatório for alcançado
(Farmer, 2000).
FALTA DE ÊNFASE DESENVOLVIMENTAL
Ao contrário dos sintomas presentes nas perturbações de Eixo I, os critérios de
perturbação de personalidade devem ser baseados numa perspectiva longitudinal
do modo como os indivíduos agem em diferentes situações e de como percebem e
interagem com um ambiente em constante mudança. Na realidade, apenas uma
minoria dos critérios de perturbação de personalidade corresponde a
comportamentos específicos (Zimmerman, 1994), e pontuais. Apesar de difícil de
avaliar através de medidas baseadas no DSM, o carácter persistente e duradouro
dos traços de personalidade patológicos é um aspecto importante que tem sido
negligenciado ao utilizar-se um sistema que se concentra, indevidamente, apenas
no funcionamento da personalidade actual. Este procedimento leva a um aumento
da fidelidade, mas a validade acaba por ser sacrificada (Tyrer, 1995). Denota-
se, pois, que os métodos de avaliação actuais não colocam ênfase suficiente na
ideia de que a perturbação da personalidade se refere a um funcionamento
patológico a longo prazo, não privilegiando uma perspectiva desenvolvimental
que contemple o modo como os indivíduos agem em diferentes situações (Westen
& Shedler, 1999a). Consequentemente, instrumentos de avaliação da
perturbação da personalidade devem incluir uma avaliação do grau de disfunção
observado em diversas áreas de funcionamento, tendo em conta não apenas os
sintomas mas também a sua gravidade, o tipo de relacionamentos em que se
manifestam, a sua ocorrência generalizada ou não a todos os domínios de
funcionamento interpessoal, e persistência ao longo do tempo (e.g., Hill,
Harrington, Fudge, & Pickles, 1989).
FALTA DE VALIDADE DE CONSTRUTO
Reconhecendo a dificuldade em distinguir problemas decorrentes da falta de
validade geral dos problemas envolvendo falta de validade de construto, alguns
autores têm sugerido que a falta de concordância entre os diferentes métodos de
diagnóstico pode não se dever ao formato dos instrumentos ou ao modo como estes
são concebidos, mas sim aos próprios construtos que são medidos (e.g., Westen
& Shedler, 1999a). Diz-se, portanto, que a validade de construto é ainda
uma questão problemática para vários tipos de perturbação de personalidade,
podendo trazer limitações a qualquer tentativa de testar a validade de um dado
instrumento (Perry, 1992). Isto é, os instrumentos destinados a avaliar
perturbação de personalidade podem não estar a funcionar adequadamente porque o
próprio DSM não classifica estas perturbações de um modo apropriado ' nenhum
instrumento pode na verdade apreender e medir com eficácia categorias que não
existem na realidade. Assim sendo, o uso de critérios do DSM, como a norma dos
estudos de validade dos instrumentos (Farmer, 2000), é problemático visto
podermos estar a tentar aperfeiçoar e ajustar instrumentos e grupos de itens a
categorias que apenas existem por convenção (Westen & Shedler, 1999a).
CONCLUSÕES E OBSERVAÇÕES FINAIS
Como vimos até então, o sistema de classificação utilizado no DSM tem sido
criticado por diversos autores que apontam alguns problemas relacionados com
uma classificação baseada na abordagem descritiva de sintomas de perturbação de
personalidade (e.g., Tyrer, 1995). As limitações apresentadas resumem-se a: (i)
utilização do formato de auto-relato, que negligencia aspectos não conscientes
e material afectivo que o paciente é incapaz de apreender; alguns autores dizem
mesmo que as entrevistas adaptadas ao DSM são apenas questionários de auto-
relato administrados por um entrevistador (e.g., Westen & Shedler, 1999b);
(ii) existência de taxas elevadas de co-morbilidade entre as diversas
perturbações de personalidade, sugerindo uma falta de validade discriminante
dos construtos, dos instrumentos, ou de ambos (Famer, 2000; Westen, 1997);
(iii) ausência de concordância entre os diversos instrumentos, especialmente
entre os questionários de auto-relato e as entrevistas, o que parece sugerir,
mais uma vez, uma falta de validade de construto (e.g., Perry, 1992); (iv)
inexistência de ênfase desenvolvimental, resultante num foco exclusivo no
funcionamento da personalidade actual (Zimmerman, 1994); (v) divergência em
relação à prática clínica, enfatizando-se somente os sintomas observáveis
(e.g., Kernberg, 1984, 1996).
Parece, pois, que um dos maiores entraves a avanços na área da avaliação das
perturbações da personalidade é o facto de a investigação que se debruça sobre
o aperfeiçoamento das categorias descritas no Eixo II, se ter centrado quase
exclusivamente na taxonomia estabelecida pelo DSM, sem se dedicar quer a alguns
dos problemas fundamentais, conceptuais e psicométricos inerentes àquele
sistema, quer à exploração de sistemas alternativos de classificação (Westen
& Shedler, 1999a).
É necessário, por conseguinte, conduzir estudos sobre a validade de construto
das categorias de perturbação de personalidade e estimular a concepção de
instrumentos que possam vir a obter uma aceitação mais generalizada, não só por
investigadores mas também por clínicos. Para alcançar tal objectivo, é
desejável que surjam perspectivas sobre a perturbação da personalidade que
tomem uma posição teórica definida em relação à natureza básica destas
perturbações, devendo para isso ser ultrapassada uma visão que oferece somente
descrições específicas, abstendo-se de explicações teóricas. As vantagens de
tal perspectiva para o domínio científico residem no poder alcançado através da
formulação de modelos testáveis que enfatizem a etiologia, os processos
subjacentes e uma perspectiva desenvolvimental da patologia da personalidade
(Lenzenweger & Clarkin, 1996).
Uma vez que a presente discussão diz principalmente respeito ao debate sobre as
limitações na avaliação em perturbação da personalidade, está para além dos
objectivos do artigo discutir as possíveis implicações que surgiriam da
aplicação de diversas perspectivas teóricas à avaliação desta patologia.
Consciente de que é mais fácil apontar as falhas de um sistema vigente do que
oferecer sugestões para a possível resolução desses problemas, gostaria ainda
assim de terminar, fazendo uma breve exposição de algumas das principais
contribuições oferecidas até ao momento no âmbito das teorias de inspiração
psicanalítica. Destacamos nomeadamente as oriundas de modelos das Relações de
Objecto e da Teoria da Vinculação, que têm contribuído para a resolução de
alguns dos problemas de avaliação descritos.
As teorias psicanalíticas têm de facto oferecido uma importante contribuição na
área das perturbações de personalidade fornecendo uma série de conceitos que
estão praticamente ausentes noutras abordagens utilizadas na avaliação da
personalidade (e.g., interpretação do significado dos sintomas; processes
defensivos; análise do presente à luz de eventos passados; Westen, 1999). Além
disso, estas teorias consideram uma série de relações relevantes como as
verificadas entre (i) diferentes traços patológicos de personalidade, (ii)
comportamento observável e estrutura psíquica subjacente, (iii) diferentes
constelações comportamentais à medida que estas mudam no tempo, e (iv) a
motivação dos comportamentos e a estrutura psíquica (Kernberg, 1996).
Dentro desta tradição, têm sido desenvolvidas tentativas inovadoras de avaliar
a perturbação de personalidade. Por exemplo, o trabalho de Westen e
colaboradores, representa um dos esforços mais relevantes no sentido de
desenvolver instrumentos alternativos para avaliar este tipo de patologia e
dimensões associadas. Estes autores desenvolveram um método de avaliação da
perturbação da personalidade baseado numa perspectiva clínica (SWAP, Shedler-
Westen Assessment Procedure, Shedler & Westen, 2007; Westen & Shedler,
1999) o qual inclui aspectos complexos, tais como mecanismos de defesa,
motivação, conflito entre motivos, estratégias de regulação afectiva, entre
outros (Shedler & Westen, 2004a,b; Westen & Shedler, 1999a). Os autores
do SWAP acreditam que este procedimento é uma forma de reduzir a divergência
entre uma abordagem psicométrica da perturbação da personalidade (que considera
muitas vezes a avaliação clínica meramente especulativa) e a prática clínica
(que considera certos critérios psicométricos como irrelevantes e ingénuos)
(Shedler & Westen, 2007). Este instrumento surge, portanto, como uma
alternativa ao DSM-IV, constituindo um método empírico com excelentes
qualidades psicométricas, mas que ao mesmo tempo incorpora avaliação clínica,
sendo pois considerado clinicamente relevante e, simultaneamente, empiricamente
rigoroso (ver Shedler & Westen, 2007). O instrumento inclui dezenas de
frases que podem caracterizar melhor ou pior um dado paciente. É, por
conseguinte, pedido ao profissional que esteja a conduzir a avaliação, para
classificar o seu doente de acordo com aquelas frases descritivas. Estas foram
criadas ao longo de vários anos com base em múltiplas fontes (e.g., literatura
clínica, experiência clínica, DSM, investigação sobre mecanismos de coping e de
defesa, estudos sobre traços de personalidade etc.). O profissional de saúde
mental descreve então o paciente ordenando as frases e distribuindo-as em oito
categorias desde as mais descritivas (7) às menos descritivas (0). Os
resultados permitem obter pontuações dimensionais que reflectem a semelhança
entre o paciente a ser avaliado e um protótipo representando cada síndrome de
personalidade na sua forma ideal ou típica (protótipo). Dentro do paradigma das
teorias das Relações de Objecto, e baseando-se mais uma vez na observação
clínica, Westen (1991) desenvolveu também uma série de medidas de dimensões de
relações de objecto e cognição social relevantes para o diagnóstico de
perturbação de personalidade, incluindo aspectos como dificuldades em
representar as pessoas de um modo complexo, e incapacidade de investir
emocionalmente em relacionamentos interpessoais.
Por outro lado, a Teoria da Vinculação tem também oferecido uma importante
contribuição no que diz respeito à conceptualização e avaliação da estrutura da
personalidade. Esta teoria postula que as diferenças individuais no modo como
os indivíduos se percepcionam a si mesmos e aos outros se deve a representações
internas ou modelos operacionais das pessoas significativas, construídas
gradualmente ao longo da vida. Estas representações internas estão subjacentes
a variadas dificuldades comportamentais experienciadas durante o
desenvolvimento da personalidade. De facto, praticamente todas as perturbações
da personalidade são caracterizadas por dificuldades persistentes nos
relacionamentos interpessoais, os quais são muitas vezes o aspecto central
destas perturbações (Widiger & Frances, 1985). Assim, as perturbações de
personalidade podem ser, de certo modo, consideradas perturbações da
vinculação. Também Rutter (1987) sugeriu que, pelo facto da característica que
define todas as perturbações da personalidade ser uma dificuldade persistente
em manter relacionamentos sociais (p. 453), a classificação deveria incluir
uma categoria geral definida em termos de desvios no relacionamento
interpessoal (p. 454).
Nesta linha, Fonagy e colaboradores (e.g., Fonagy, 2000; Fonagy & Target,
1997; Fonagy, Leigh, Kennedy, Mattoon, & Target, 1995; Fonagy et al., 1996)
criaram um modelo onde a perturbação de personalidade aparece inter-relacionada
com a teoria da vinculação, na medida em que a incapacidade de oferecer uma
base segura à criança leva a problemas de metalização, definida como a
capacidade de pensar sobre os estados mentais de si mesmo e dos outros (Fonagy
& Target, 2005). Esta é uma perspectiva desenvolvimental da perturbação da
personalidade que vê esta patologia como resultante da figura parental ser
incapaz de pensar em termos de estados mentais. Por outro lado, quando a figura
parental demonstra que é capaz de reflectir sobre os seus estados mentais e
sobre os estados mentais da criança, criam-se condições para o desenvolvimento
da função reflexiva na mesma. Este processo é visto como mediado por uma
vinculação segura que oferece à criança a oportunidade de conhecer a mente da
figura parental e assim poder aprender sobre mentes em geral. Contribui para
reforçar este modelo, o facto de diversos estudos (e.g., Fonagy et al., 1996)
terem encontrado níveis muito baixos de função reflexiva nas narrativas sobre
vinculação produzidas por doentes com perturbação de personalidade grave.
Colocou-se a hipótese de que os esquemas mentais negativos que estes doentes
têm sobre as suas relações significativas são o resultado de uma constante
perturbação defensiva na sua capacidade de reflectir sobre os seus estados
mentais e os estados mentais de outras pessoas. Por exemplo, no caso de abuso
ou negligência na infância, acaba por ser vantajoso para a criança evitar
pensar sobre a mente da figura parental, embora esse evitamento leve a custos
posteriores em termos do funcionamento interpessoal na idade adulta devido a
dificuldades na interpretação da mente do outro. De facto, algumas
características destes pacientes, tais como identidade instável na perturbação
borderline, são vistos como resultando deste processo desenvolvimental que não
permitiu o desenvolvimento da capacidade de pensar em termos de estados mentais
(Fonagy, 2000).
Desta confluência entre teorias das Relações de Objecto (designadamente da
Teoria da Vinculação), com as teorias da perturbação da personalidade, surgem
novos esforços para desenvolver uma série de dimensões relevantes para avaliar
perturbação de personalidade através de narrativas de vinculação. Um novo
sistema de cotação para o protocolo da Entrevista de Vinculação (AAI, Adult
Attachment Interview, George, Kaplan, & Main, 1984) encontra-se em
desenvolvimento (e.g., Ribeiro, Target, Chiesa, Bateman, Stein, & Fonagy,
2010). Este sistema é fortemente inspirado pelo trabalho de Westen e
colaboradores e inclui a avaliação de aspectos associados ao funcionamento
patológico da personalidade como dificuldades na regulação afectiva, distorção
na representação do outro, e falhas cognitivas na descrição de relações
interpessoais significativas. Esperamos que este trabalho possa de futuro
contribuir também para resolver alguns dos problemas aqui enfatizados, assim
como oferecer uma descrição mais detalhada dos processos subjacentes aos
sintomas de perturbação de personalidade.
Finalmente cabe-nos fazer uma breve referência às alterações que estão de
momento a ser propostas ao sistema de classificação das perturbações de
personalidade incluídas na nova versão do DSM (DSM-V), cuja publicação está
prevista para 2013. Um dos aspectos que têm sido salientados, e que vem no
seguimento de sugestões oferecidas por Westen e colaboradores, é precisamente a
adopção de uma perspectiva dimensional na avaliação de perturbação de
personalidade. Um dos estudos importantes neste domínio, conduzido por Rotman,
Ahn, Sanislow e Kim (2009), demonstrou que o uso de protótipos, representando
cada síndrome de personalidade na sua forma ideal ou típica, parece ser mais
vantajoso do que basear o diagnóstico num sistema de identificação de
determinados traços de personalidade. Por outras palavras, traços de
personalidade isolados, na ausência de um contexto clínico, parecem ser
demasiado ambíguos. A proposta para o novo DSM inclui, portanto, um sistema de
classificação que procura retirar vantagens do sistema dimensional, incluindo,
além de uma classificação global de perturbação de personalidade e da descrição
dos sintomas, também descrições de um protótipo de cada uma das principais
perturbações de personalidade. Outras falhas que o grupo de trabalho tem
pretendido colmatar, na nova versão do DSM, dizem respeito a outras questões
aqui abordadas tais como a co-morbilidade de diagnósticos (através da redução
do número de perturbações de personalidade descritas no novo manual), a
existência de traços de personalidade de primeira ordem (principais) e de
segunda ordem (secundários), aspectos estes que podem ser considerados como
melhoramentos consideráveis em relação à ultima versão. No entanto, acreditamos
que outros problemas aqui apontados tais como a avaliação de perturbação de
personalidade num formato de auto-relato, que como vimos negligencia material
não consciente e mecanismos de defesa psicológica, permanecerão como aspectos
problemáticos, bem como no nosso entender a falta de ênfase teórica no que diz
respeito ao reconhecimento do papel fundamental das relações primordiais com as
figuras de vinculação que estão na base da teorias desenvolvimentais da
perturbação da personalidade. Em particular o papel das representações internas
ou modelos operacionais das pessoas significativas, construídas gradualmente
ao longo da vida, subjacentes a variados problemas comportamentais
experienciados durante o desenvolvimento da personalidade.