O envolvimento paterno de crianças a frequentar o jardim-de-infância
O ENVOLVIMENTO PATERNO
O interesse pelo envolvimento paterno no desenvolvimento da criança, tal como a
sua influência no contexto familiar, tem aumentado de forma sustentada nas
últimas três décadas (Monteiro, Fernandes, Veríssimo, Pessoa e Costa, Torres,
& Vaughn, 2010). As profundas alterações, entretanto sofridas na economia,
na política, na cultura e no domínio sócio-demográfico acarretaram mudanças na
estrutura tradicional da família e nas expectativas acerca dos papéis a
desempenhar pelas figuras parentais (Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth,
& Lamb, 2000; Lamb, 2004; Parke, 1996; Torres, 2004).
A entrada massiva da mulher no mercado de trabalho é um exemplo disso. De
acordo com o Instituto Nacional de Estatística (2007), em 2006, a taxa de
actividade feminina em Portugal foi de 55.8% face a 69% dos homens. Um
incremento substancial do número de crianças em cuidados não maternos não é
alheio a este aumento. Na educação pré-escolar a frequência subiu de 12,6% no
final da década de 70 para 77% em 2004/05, segundo o Gabinete de Estatística e
Planeamento da Educação (2007).
O progenitor, providenciador de outrora, vai-se diluindo num pai mais presente
e afectuoso, que pode combinar características típica e tradicionalmente
masculinas, como a disciplina e a autoridade com especificidades usualmente
atribuídas ao género feminino, tais como a demonstração de afectos ou a
prestação de cuidados (Cabrera, Tamis-LeMonda, Lamb, & Boller, 1999;
Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth, & Lamb, 2000; Deutsch, 2001).
Não é só a mulher quem cada vez mais tem de se adaptar a múltiplas funções,
também o homem se vê forçado a fazê-lo, aproximando-se de um domínio que à
partida se poderia julgar, lhe seria desconcertantemente estranho, assim como
aconteceu com a mulher relativamente ao domínio profissional, com os resultados
que tão bem conhecemos (Brazelton, 2005). Emerge assim um novo ideal de
“partilha parental”, onde a divisão de tarefas centrada no género se tornou
obsoleta (Cabrera et al., 1999, 2000; Deutsch, 2001).
Neste sentido, Balancho (2004) comparou as representações acerca da paternidade
entre duas diferentes gerações, referentes a pais e avós, constatando que as
representações destes últimos correspondem a uma imagem de um pai mais
tradicional, que se afigura através da autoridade e da disciplina ao mesmo
tempo que se distancia emocionalmente da criança. Pelo contrário, a geração
actual – encarnada pelos pais – realça a capacidade de ser sensível,
compreensivo e dialogante, de se envolver afectivamente com a criança,
partilhando a autoridade, emergindo assim de modo descontraído e lúdico. Neste
sentido, numa amostra de pais portugueses, Gouveia et al. (1991) observaram um
elevado grau de participação nos cuidados prestados aos filhos no 1º ano de
vida.
Porém, nem sempre estas representações correspondem a uma realidade livre de
ideias agrilhoadas a representações mais tradicionalistas, como comprovou Wall
(2005). De acordo com o inquérito internacional “Famílias e papéis de género”,
de 2002, coordenado pela autora, apesar de 93% dos portugueses considerarem que
tanto a mulher como o homem devem contribuir para o rendimento familiar, 78%
acredita que as crianças sofrem quando a mãe trabalha e 43% da população
defende que as mães deveriam ficar em casa até os filhos terem 6 anos de idade,
percepcionando o trabalho materno como tendo um impacte negativo no
estabelecimento das relações afectivas com a criança.
Na perspectiva de mães e pais portugueses, com crianças entre 1 e 6 anos de
idade, Monteiro, Veríssimo, Castro e Oliveira (2006) constataram que é quase
sempre a mãe a responsável pelas actividades relacionadas com as rotinas de
cuidados prestados à criança, assumindo o pai um papel de suporte, quando tal é
necessário.
Na sociedade Ocidental, a mulher continua a assumir maiores responsabilidades
nas áreas dos cuidados, relegando o pai, nesses domínios, para uma posição
subalterna de onde apenas sai quando é necessário (Deutsch, 2001; Rohner &
Veneziano, 2001). Associada a esta imagem paterna surge a representação de
companheiro de brincadeira (Monteiro et al., 2006; Monteiro, Veríssimo, Santos,
& Vaughn, 2008), aproximando o pai de actividades lúdicas, enquanto o
afasta de tarefas do foro dos cuidados (Rohner & Veneziano, 2001).
Como se a crença na existência de uma predisposição materna desequilibrasse a
balança em desfavor do desejado envolvimento paterno (Craig, 2003), no que à
prestação de cuidados concerne, apontando-lhe defeitos e incapacidades
relativamente a uma figura materna que se arvora, de acordo com essa crença, de
modo inato e evidente como mais competente.
Também convirá não reduzir a participação do pai, ou mesmo o cuidar partilhado,
a benefícios constantes para a criança (Lamb, 1987), registando-se estudos onde
não se verificou qualquer associação ou relatou-se mesmo uma interacção
negativa entre as variáveis em causa (e.g., Brown, McBride, Shin, & Bost,
2007; Cox, Owen, Henderson, & Margand., 1992; Easterbrooks & Goldberg,
1984). Há pais que são forçados a assumir a responsabilidade pelos cuidados dos
filhos (e.g., quando o pai perde o emprego e a mãe o mantém), embora tal não
seja reflexo do seu desejo ou do da mãe. Por isso apesar das actividades/
contextos de participação do pai apontarem no sentido da promoção do
desenvolvimento da criança, como o demonstram diversos estudos (Brown, McBride,
Shin, & Bost, 2007; Pleck & Masciadrelli, 2004), mais do que a
quantidade de envolvimento, é a qualidade ou a relação entre quantidade e
qualidade que parece ter maior impacte no desenvolvimento da criança.
Emerge, assim, uma imagem da paternidade algo confusa, dada a flutuação entre
uma perspectiva modernista e tradicionalista, sendo que esta última não parece
desvanecer-se mesmo quando ambos os pais trabalham (Bailey, 1994; Craig, 2003;
Peitz, Fthenakis, & Kalicki, 2001). Talvez por isso Arendell (1996)
constate, que embora alguns homens se evidenciem como mais participativos nas
actividades com os filhos, relativamente aos seus próprios pais, no cômputo
geral poucas são as mudanças que se concretizam, afirmando-se, assim, como mais
modestas do que as crenças populares poderiam eventualmente aludir (Lamb &
Tamis-LeMonda, 2004; Parke, 1996; Pleck & Masciadrelli, 2004).
Para Parke (1996) é importante efectuar duas distinções. A primeira, de alguma
forma já abordada, contingente aos contextos e tipos de interacção,
designadamente ao nível do envolvimento nas tarefas de cuidados prestados à
criança e nas actividades de brincadeira/lazer. O que possibilita analisar de
forma mais particular os papéis parentais e a sua relação com o desenvolvimento
da criança. E a segunda, respeitante ao nível de envolvimento absoluto e
relativo, defendendo que as famílias cujo envolvimento relativo das mães é
semelhante ao dos pais, originam ambientes claramente distintos para as
crianças, comparativamente com aquelas em que o nível relativo de envolvimento
é francamente díspar.
Diversas investigações (e.g., Bailey, 1994; Deutsch, 2001; Levy-Shiff &
Israelashvili, 1988; Monteiro et al., 2006; Monteiro, Veríssimo, Santos, &
Vaughn, 2008) identificam a existência de diferentes padrões de
responsabilidade e participação paterna em função do tipo de actividade, dado
que, como referido, as tarefas de organização/cuidados (Práticas) eram
normalmente desempenhadas pelas mães, enquanto as actividades de brincadeira/
lazer (Lúdicas) eram partilhadas de modo igualitário por ambos os pais (e.g.,
Bailey, 1994; Beitel & Parke, 1998; Monteiro, Veríssimo, Santos, &
Vaughn, 2008; Pleck & Masciadrelli, 2004), o que aliás vem ao encontro de
outros trabalhos desenvolvidos com crianças em idade pré-escolar (e.g., Peitz
et al., 2001).
Todavia, de acordo com alguns autores (e.g., Monteiro et al., 2010; Parke,
1996; Tamis-LeMonda, 2004) se dentro dos cuidados prestados à criança,
considerarmos os Cuidados Directos e Indirectos, também poderemos encontrar
diferenças quanto à participação paterna. Nos Cuidados Directos, respeitantes
às interacções quotidianas directas, a autora verificou uma partilha
igualitária, ao contrário do observado em diferentes trabalhos (e.g., Monteiro
et al., 2006; Monteiro, Veríssimo, Santos, & Vaughn, 2008; Tamis-LeMonda,
2004; Torres, 2004), onde o pai se limitava a assumir um papel de suporte ou de
ajuda quando necessário.
No que aos Cuidados Indirectos concerne, relacionados com a organização/
planeamento de actividades respeitantes à criança, mas que podem prescindir da
sua presença ou se demarcam das suas necessidades imediatas, a autora confirmou
uma vez mais uma divisão tradicional, voltando a mãe a assumir-se como
principal responsável.
O envolvimento parental pode relacionar-se com algumas características dos
pais, das próprias crianças, assim como, com variáveis de contexto, que tanto
podem exercer constrangimento de modo isolado como podem agir em conluio
(Arendell, 1996). O grau de envolvimento paterno, em famílias onde o pai e a
mãe estão presentes, depende do facto da mãe estar ou não a trabalhar (Lamb,
Plack, Charnov, & Levine, 1987). Convém sublinhar também, que a maior
discrepância não diz respeito nem à interacção directa com as crianças, nem ao
tempo em que se encontram disponíveis para as mesmas, mas sim na
responsabilidade, frequentemente associada ao domínio materno. No caso da mãe
trabalhar, tal como o pai, a participação deste, relativamente à mãe, nas
actividades das crianças, é significativamente maior, pelo menos se comparada
com famílias onde a mãe está em casa (Bailey, 1994). Assim, o aumento do número
de horas passadas pela mãe no trabalho parece promover a participação paterna,
embora esta também seja condicionada pelo número de horas de trabalho do pai.
No entanto, neste domínio, os resultados não deixam de ser contraditórios, uma
vez que de acordo com Laflamme, Pomerleau e Malciut (2002), o emprego materno
parece ter pouco impacte na percepção que pai e mãe têm sobre a partilha da
responsabilidade parental. Desta forma, embora se registe um aumento do
envolvimento paterno, relativamente à mãe, não se comprovam as suas razões ou
qualidade, podendo tal justificar-se muito simplesmente através de um
decréscimo (quantitativo) do tempo materno dedicado aos filhos (Bailey, 1994;
Cabrera et al., 2000; Lamb, 1987).
Além disso, segundo Lewis e Lamb (2003), no caso de as mães trabalharem tendem
a estimular mais os filhos, se comparadas com as mães que não trabalham, assim
como parecem ser mais activas do que os pais.
O emprego por si só poderá não ser uma justificação suficiente para o tipo de
envolvimento paterno, pois de acordo com Levy-Schiff e Israelashvili (1988) as
atitudes do pai e a percepção que este tem do seu papel são factores
incontornáveis na medida do envolvimento paterno.
Para McBride e colaboradores (2005), os pais com mais idade tendem a envolver-
se menos nos cuidados prestados à criança, o que talvez se possa ficar a dever
ao aspecto geracional e a uma perspectiva mais tradicional do seu papel,
relegando para a mulher a responsabilidade da gestão da vida familiar
(Balancho, 2004). Pelo contrário, Lima (2005) verificou que eram os pais mais
velhos os que assumiam maiores responsabilidades. Enquanto noutras amostras
portuguesas (e.g., Monteiro et al., 2006) não se descortinaram quaisquer
associações entre o envolvimento paterno nestas tarefas e a idade do pai.
Paquette (2004), associou a partilha de responsabilidade parental às classes
média e média alta. Por seu lado Gouveia et al. (1991) observaram, numa amostra
portuguesa, uma menor participação paterna nas classes sociais mais extremadas,
ou seja, nas mais baixas e nas mais altas. Grossman, Pollack e Golding (1988)
salientam que o constructo de classe social é complexo e por vezes vago,
aglutinando diferenças relevantes em dimensões económicas e psicológicas.
O acesso a informação também poderá intervir no envolvimento parental, uma vez
que é possível encontrar diferenças significativas entre os níveis de
escolaridade dos pais (aspecto preponderante na definição do estatuto sócio-
económico), ao nível das Actividades Práticas e Lúdicas. O facto dos pais com
habilitações superiores associarem as actividades de brincadeira a uma
estimulação às aprendizagens cognitivas e sociais dos filhos pode ajudar a
compreender o seu maior envolvimento nesta área (Monteiro et al., 2006).
Neste sentido, a estes pais, que podem aceder com maior facilidade à informação
existente, também poderão corresponder representações dos papéis dos géneros
mais flexíveis, que permitem uma postura mais participativa nas Actividades
Práticas (Levy-Shiff & Israelashvilli, 1988).
Por outro lado, às habilitações literárias superiores poderão associar-se mais
frequentemente profissões mais liberais, que poderão caracterizar-se por uma
maior flexibilidade de horários, o que poderá contribuir para uma mais fácil
conciliação entre o trabalho e as actividades familiares (Monteiro et al.,
2006). Para além disso, as mulheres com habilitações literárias superiores
tendem a investir mais nas suas carreiras profissionais, permitindo e desejando
que os pais se envolvam mais na organização e prestação de cuidados (Monteiro
et al., 2006).
De acordo com Pleck (1982) não só as atitudes dos pais face ao envolvimento
paterno sofreram alterações, também as mães, embora lentamente, parecem
caminhar nesse sentido, ostentando, cada vez mais, um agrado crescente com a
extensão e o tipo de actividades em que o pai se encontra implicado. Estas
alterações poderão relacionar-se com as crenças, atitudes e expectativas das
mães face à maternidade e ao papel e competências dos pais. Alguns autores
(e.g., Allen & Hawkins, 1999; Fagan & Barnett, 2003; McBride, Brown,
Bost, Shin, Vaughn, & Korth, 2005; Schoppe-Sullivan, Brown, Cannon,
Mangelsdorf, & Sokolowski, 2008) referem o conceito de gatekeepers,
insinuando que as mães através da sua acção podem definir e restringir os
papéis e responsabilidades desempenhados pelos pais no contexto familiar.
Outro elemento a ter em consideração no tipo de envolvimento paterno será
naturalmente a criança, as suas características também afectam a forma como o
pai interage, o que poderá auxiliar a compreender a variabilidade desse
envolvimento no contexto familiar. Levy-Shiff e Israelashvili (1988)
constataram um tratamento diferencial mais acentuado por parte dos pais nas
Actividades Lúdicas, do que nas de prestação de Cuidados. No entanto, Bailey
(1994) não observou qualquer tratamento diferencial dos pais durante o período
pré-escolar, o que se encontra em sintonia com Pleck e Masciadrelli (2004), que
vincam uma menor influência do género sobre o envolvimento paterno
relativamente a décadas anteriores.
No que respeita à idade e de acordo com Lamb (1987), os pais, tal como as mães,
despendem mais tempo nas tarefas de Cuidados com as crianças mais novas. Pelo
contrário, Bailey (1994) apurou um aumento do envolvimento paterno na área da
prestação de Cuidados entre o primeiro e o quinto aniversário das crianças. Por
sua vez, o envolvimento do pai nas actividades de brincadeira e no exterior de
casa mantém-se estável entre os 9 e os 15 meses (Laflamme, Pomerleau, &
Malciut, 2002).
De acordo com Monteiro et al. (2006) não parece haver qualquer relação entre a
idade de entrada na creche/jardim-de-infância e a partilha parental nos dois
tipos de actividades, não acontecendo o mesmo relativamente ao número de horas
que a criança passa na instituição. Quanto maior é o número de horas passadas
no estabelecimento de ensino, maior é a partilha parental nas Actividades
Práticas (na perspectiva de ambos os pais) e Lúdicas (embora aqui apenas na
perspectiva do pai).
Tendo em conta os diferentes estudos tratados, assim como as respectivas
contradições, responsáveis por alguma ausência de consenso em relação à forma
como as características dos pais, das crianças e do próprio contexto social
podem estar associadas a partilha de responsabilidade parental é pertinente
voltar a averiguar se no quadro dos diferentes tipos de actividades ponderadas
(cuidados e socialização) a existência de uma participação tradicional ou
igualitária (Monteiro et al., 2010). Um outro objectivo é analisar os
diferentes factores associados ao envolvimento parental: variáveis dos pais
(idade e habilitações literárias) da criança (idade, género, se é primogénito,
existência de irmãos) e do contexto/suporte social (número de horas que os pais
passam no emprego, número de horas que as crianças passam no Jardim de Infância
e idade em que a criança começou a frequentar o estabelecimento de ensino).
Tendo em conta a literatura existente que coincide na divergência face à
concepção unidimensional e do papel do pai (Lamb, 1987, 2004; Parke, 1996)
pretendemos, ainda, identificar e descrever possíveis modelos/tipos de
envolvimento parental, assim como compreender a relação de concordância entre
esses diferentes grupos paternos e maternos.
MÉTODO
Participantes
Neste estudo participaram 338 famílias biparentais, casados ou em união de
facto. As crianças tinham idades compreendidas entre 31 e 78 meses (M=56.21,
DP=10.32), sendo 169 do sexo feminino e 160 do sexo masculino. 210 eram filhos
primogénitos e 123 tinham pelo menos um irmão. O início de frequência da creche
oscilou entre os 3 e os 63 meses (M=22.76, DP=14.29) e as crianças passavam
entre 3 e 12 horas por dia (M=8.36, DP=1.29) em contexto escolar. As mães
tinham idades compreendidas entre os 23 e 48 anos (M=34.66, DP=4.43) e os pais
entre os 23 e os 62 (M=36.99, DP=5.88). As habilitações literárias das mães
variavam entre os 4 e os 22 anos de escolaridade (M=13.31, DP=3.76) e a dos
pais entre 4 e 19 anos de escolaridade (M=12.34, DP=3.81). Em média, as mães
passavam 7.89 horas diárias no local de trabalho, enquanto os pais despendiam
diariamente 8.64 horas. As crianças frequentavam Jardins-de-Infância do
Distrito de Lisboa, tendo as famílias sido recrutadas para o estudo através dos
mesmos.
Escala de envolvimento parental: Actividades de cuidados e de socialização
(Monteiro, Veríssimo, & Pessoa e Costa, 2008)
A Escala de Envolvimento Parental: Actividades de Cuidados e de Socialização
(Monteiro, Veríssimo, & Pessoa e Costa, 2008) é uma reformulação do
questionário de Monteiro, Veríssimo, Santos e Vaughn (2008), Crouter, Perry-
Jenkins, Huston e McHale (1987), Hawng e Lamb (1997), na qual se procurou
avaliar a participação de pais e mães em diferentes tarefas relacionadas com a
criança, quer no domínio dos cuidados, quer da socialização.
O questionário é composto por 26 itens, que remetem, essencialmente, para cinco
dimensões: cuidados directos– itens 1, 2, 3, 4 e 6 (e.g., “quem dá banho ao seu
filho” e “quem vai deitar o seu filho”); cuidados indirectos– itens 5, 7, 8,
23, 24, 25 e 26 (e.g., “quem é responsável pela ida ao médico do seu filho” e
“quem leva e traz o seu filho à escola”); ensino e disciplina– itens 15, 16,
17, 18 e 19 (e.g., “quem ensina ao seu filho novas competências” e “quem faz
cumprir as regras”); brincadeira– itens 11, 12, 13, 14 e 22 (e.g., “quem brinca
com o seu filho” e “quem lê histórias ao seu filho”); actividades de lazer no
exterior– itens 9, 10, 20 e 21 (e.g., “quem leva o seu filho às festas de anos”
e “quem leva o seu filho ao parque infantil”). As respostas deveriam ser dadas
numa escala de cinco pontos – (1) sempre a mãe, (2) mais frequentemente a mãe,
(3) tanto a mãe como o pai, (4) mais frequentemente o pai, (5) sempre o pai – e
avaliadas numa perspectiva relativa, ou seja, a participação é analisada por
comparação com a outra figura parental.
RESULTADOS
Os Alfas de Cronbach para as cinco dimensões apresentam valores aceitáveis de
fiabilidade para ambos os pais como ilustra a Tabela 1. Como se pode observar
na mesma tabela, as Médias das dimensões relativas aos Cuidados Directos e
Indirectos são mais frequentemente responsabilidade da mãe. Enquanto se
verifica uma partilha das actividades expostas nas restantes dimensões: Ensino/
Disciplina, Brincadeira e Actividades de Lazer no Exterior.
TABELA 1
Média, desvio-padrão e alfa de Cronbach das respostas maternas e paternas
quanto ao envolvimento parental
Variáveis sócio-demográficas
Através do Coeficiente de Correlação de Pearsonverificou-se que não existem
correlações significativas entre a idade da mãe e as diferentes dimensões do
envolvimento, o mesmo se verificando em relação ao pai. Não existem correlações
significativas entre as habilitações literárias da mãe e do pai e as dimensões
do envolvimento. Finalmente, encontramos uma correlação significativa e
positiva entre o número de horas de trabalho da mãe e o envolvimento parental
(na opinião da mãe) para os cuidados indirectos (r=0.23; p<0.01), para o
ensino/disciplina (r=0.16; p<0.05) e para o Lazer (r=0.18; p<0.05). Estes
resultados indicam que quanto mais horas a mãe despende no trabalho mais o pai
colabora nos diferentes cuidados à criança. Analisando a perspectiva do pai,
encontramos uma correlação positiva e significativa entre a idade da criança e
o envolvimento do pai, nas actividades relativas à Brincadeira (r=0.12,
p<0.05).
Concordância entre as representações parentais
Utilizando o Coeficiente de Correlação de Pearson, obtiveram-se os seguintes
valores de concordância entre as respostas maternas e paternas para as cinco
dimensões do questionário: Cuidados Directos (r=0.78, p<0.0.001), Cuidados
Indirectos (r=0.73 p<0.0.001), Disciplina (r=0.59 p<0.0.001), Brincadeira
(r=0.68 p<0.0.001) e Actividades de Lazer no Exterior (r=0.73 p<0.001).
Regista-se assim concordância entre as respostas de ambos os pais, embora com
valores mais discretos na área da Disciplina.
Tipos de envolvimento materno
De seguida realizámos uma análise de cluster (método de Ward) para classificar
as mães de acordo com as dimensões contempladas no questionário de
envolvimento. A análise hierárquica de clusters permitiu, assim, dividir a
amostra em grupos, fornecendo uma análise detalhada dos mesmos nas dimensões
reflectidas nos itens do questionário. O dendograma permitiu identificar 3
grupos distintos. Uma análise de variância distinguiu os 3 grupos ao nível dos
cuidados directos [F(3,325)=53.18, p<0.01], cuidados indirectos [F
(2,326)=44.96, p<0.01], Disciplina [F(2,326)=10.91, p<0.01], Brincadeira [F
(2,326)=24.71, p<0.01], e Actividades de Lazer no Exterior [F(2,326)= 51.71,
p<0.01]. Análises posthocutilizando o teste de Scheffé demonstraram diferenças
significativas entre todos os grupos para todas as dimensões.
No primeiro grupo (intermédio) constituído por 219 sujeitos, e segundo a
opinião das mães, estas parecem assumir de modo inequívoco maior participação
nas tarefas relacionadas com os Cuidados directos e indirectos, não se
verificando o mesmo com a Disciplina, onde esse predomínio se esbate
claramente, e nos dois domínios restantes (Brincadeira e Lazer), onde se
regista uma partilha das tarefas entre ambos os pais.
No segundo grupo (activo) constituído por 89 sujeitos, sob o ponto de vista das
mães, os pais assumem um papel mais activo, adoptando mesmo maior
responsabilidade nas tarefas relativas ao domínio da Brincadeira, registando-se
uma partilha das actividades realizadas no âmbito dos Cuidados Directos, do
Lazer, e embora de modo mais discreto no domínio da Disciplina, onde as mães
assumem maior responsabilidade, que se acentua claramente no domínio dos
Cuidados Indirectos.
No terceiro grupo (Tradicional) constituído por 21 sujeitos, e de acordo com as
mães, estas assumem um papel francamente mais presente face aos pais, algo
claramente avocado nas tarefas desenvolvidas no âmbito dos Cuidados, onde a
presença paterna é praticamente residual. Esta maior responsabilidade materna
tem continuidade nas três restantes áreas, embora de forma atenuada,
especialmente no domínio da Brincadeira, área onde os pais mais parecem
colaborar do ponto de vista materno.
FIGURA 1
Classificação dos grupos de mães em função das dimensões consideradas no
questionário de envolvimento
Tipos de envolvimento materno e variáveis sócio-demográficas
Uma análise de variância demonstrou a existência de diferenças significativas
entre os três tipos de envolvimento na perspectiva da mãe e as habilitações
literárias da mãe [F(2,335)=3.47, p<0.05] e o número de horas que passam no
emprego [F(2,335)=3.56, p<0.05]. No entanto, uma análise Posthoccom o teste de
Scheffé, demonstrou a inexistência de diferenças entre o grupo Activoe o grupo
Intermédio. As mães do grupo Tradicionalapresentam menos habilitações
literárias e passam menos horas no trabalho do que as mães dos outros dois
grupos.
Tipos de envolvimento paterno
Realizou-se o mesmo procedimento relativamente aos pais. Uma análise de
variância permitiu distinguir os 3 grupos ao nível dos Cuidados Directos [F
(3,325)=117.01, p<0.01], Cuidados Indirectos [F(2,326)=75.15, p<0.01],
Disciplina [F(2,326)=19.51, p<0.01], Brincadeira [F(2,326)=66.02, p<0.01] e
Actividades de Lazer no Exterior [F(2,326)=103.25, p<0.01]. Análises
posthocutilizando o teste de Scheffé demonstraram diferenças significativas
entre todos os grupos, excepto para as dimensões cuidados indirectos e Lazer
entre os grupos Intermédio e Activo.
No Grupo Intermédio, o primeiro, constituído por 239 sujeitos, tendo em conta a
perspectiva dos pais, estes parecem assumir menor responsabilidade ao nível dos
Cuidados, quer Directos, quer Indirectos. Em relação aos restantes domínios, o
equilíbrio parece ser dominante, registando-se um envolvimento de ambos os
pais.
No Grupo Activo, o segundo, composto por 26 sujeitos, os pais parecem estar
mais presentes, assumindo maior envolvimento nos domínios da Brincadeira e dos
Cuidados Directos. Assinalando-se uma partilha das tarefas entre ambos os pais
nas áreas da Disciplina e do Lazer, do ponto de vista paterno. Porém, no que
diz respeito aos Cuidados Indirectos o menor envolvimento paterno parece ser a
nota dominante.
No Grupo Tradicional, o terceiro, constituído por 64 sujeitos, o menor
envolvimento paterno parece caracterizar transversalmente as áreas
consideradas. Todavia, esse domínio torna-se mais discreto, do ponto de vista
paterno, na área do Lazer e em ambas as áreas dos Cuidados, onde se parece
agravar. Neste grupo, o menor envolvimento paterno, de acordo com os pais,
atenua-se apenas nos domínios da Disciplina e da Brincadeira, onde se aproxima
da partilha de tarefas.
FIGURA 2
Classificação dos grupos de pais em função das dimensões consideradas no
questionário de envolvimento
Tipos de envolvimento paterno e variáveis sócio-demográficas
Uma análise de variância demonstrou que, contrariamente aos dados maternos não
existem diferenças significativas entre os três tipos de envolvimento na
perspectiva do pai e as habilitações literárias paternas [F(2,335)=2.17,
p<0.05], o número de horas que passam no emprego [F(2,335)=1.6, p<0.05] e a
idade do pai [F(2,335)=1,97, p<0.05].
defendem uma partilha onde o pai parece estar menos presente. Porém, em cinco
dos casos onde a mãe adopta uma postura coerente com as características do
Grupo Tradicional, o pai discorda, julgando-se mais envolvido (Grupo
Intermédio). Não se verifica nenhum caso de discórdia mais extremado, onde a
mãe defenderia um menor envolvimento do pai (Grupo Tradicional), enquanto
segundo a opinião paterna, o pai estivesse francamente mais presente (Grupo
Activo).
TABELA 2
Concordância entre os grupos Intermédio, Activo e Tradicional de ambos os pais
Num total de 329 casais, 219 mães fazem parte do Grupo Intermédio, verificando-
se que 185 destas mães estão de acordo com o pai quanto ao envolvimento de
ambos. No entanto, em 34 dos casos considerados os pais não se encontram de
acordo, pois enquanto as mães assumem uma partilha cujas características se
enquadram no Grupo Intermédio, 23 pais julgam-se claramente mais envolvidos
(Grupo Activo), enquanto 11 parecem adoptar uma atitude mais tradicional.
Das 89 mães conotadas com uma partilha onde o pai está mais presente (Grupo
Activo), apenas 3 encontram eco na opinião dos pais, Nos restantes casos, os
pais assumem uma posição de evidente discórdia, uma vez que de acordo com 49
pais, a partilha não se afirma de modo tão evidente, estando assim integrados
no Grupo Intermédio, desfasagem que é potenciada nos 37 pais, cuja opinião os
inclui no Grupo Tradicional, correspondente a um menor envolvimento paterno.
As opiniões dos pais voltam a convergir no terceiro grupo, o Tradicional, onde
16 casais
DISCUSSÃO
As diversas transformações ocorridas, especialmente na segunda metade do último
século, não puderam deixar de interferir na ecologia familiar, alertando para
uma aproximação dos papéis paterno e materno, face à prestação dos cuidados
diários e ao estabelecimento de interacções sociais com os filhos.
Procurando responder ao primeiro objectivo gizado, aquilatar a existência de
uma participação igualitária ou tradicional nos diferentes tipos de
actividades, ao mesmo tempo que se pretende compreender como essas
transformações se concretizaram no contexto familiar, verificou-se que o
envolvimento dos pais oscila consoante as actividades ponderadas.
Das cinco dimensões consideradas, e de acordo com a opinião geral dos casais
estudados, as mães assumem mais frequentemente responsabilidades nas áreas dos
Cuidados Directos e Indirectos. Algo que não se verifica nos restantes três
domínios, designadamente na Disciplina, na Brincadeira e no Lazer no Exterior,
onde os pais assumem um envolvimento mais activo, partilhando com a mãe as
respectivas responsabilidades.
Estes resultados corroboram as conclusões de Monteiro et al. (2006), que
identificam a existência de diferentes padrões de participação paterna em
função do tipo de actividade, dado que, como referido, as tarefas de
organização/ cuidados (Práticas) eram normalmente desempenhadas pelas mães,
enquanto as actividades de brincadeira/lazer (Lúdicas) eram partilhadas de modo
igualitário por ambos os pais, o que aliás vem ao encontro de outros trabalhos
desenvolvidos com crianças em idade pré-escolar (e.g., Bailey, 1994; Peitz et
al., 2001).
A imagem cultural da mulher como primeira prestadora de cuidados e o pai como
figura substituta, que intervém apenas quando necessário, ou apenas como
companheiro de brincadeira, é ainda uma convicção enraizada na sociedade
Ocidental (Deutsch, 2001; Rohner & Veneziano, 2001). Não há muito tempo
(uma década) parecia mais fácil tolerar a colagem do pai a actividades lúdicas
(Monteiro et al., 2006; Monteiro, Veríssimo, Santos, & Vaughn, 2008) que a
actividades relacionadas com a prestação de cuidados, consideradas pouco
masculinas (Rohner & Veneziano, 2001). Aspecto ao qual não será alheia a
crença de que as crianças mantêm com as mães um laço afectivo especial, o que
poderá levar alguns pais a acreditar que não podem cuidar delas do mesmo modo
(Beitel & Parke, 1998; Russel, 1983).
Outro aspecto relevante poderá ser as pressões sociais exercidas, que oscilam
consoante o alvo é o pai ou a mãe, pois parece haver uma tendência social para
aliviar o homem em relação às exigências referentes aos cuidados prestados aos
filhos, esperando-se deste um maior investimento ao nível profissional,
enquanto, para a mulher as expectativas de desempenho profissional são menores,
dado que, socialmente, é aceite ser ela a responsável directa pela família
(Torres, 2004).
Também é certo que às actividades lúdicas surgem mais frequentemente associados
horários (mais) flexíveis, que por isso se moldam mais facilmente à
disponibilidade dos pais, para além de poderem ser intervaladas com outras
actividades, ao contrário do que acontece com os cuidados, orientados pelas
necessidades imediatas da criança. Assim sendo, são as mães quem tem de gerir a
sua disponibilidade, vendo-se frequentemente forçadas a realizar tarefas em
simultâneo, procurando desta forma, não penalizar o tempo dispendido em
actividades mais valorizadas, como conversar, brincar ou ler. Por seu lado os
pais gastam mais tempo a realizar estas actividades em exclusivo (Craig, 2003,
2006).
Bem entendido, estes resultados parecem apontar para uma alternância entre uma
participação tradicional ao nível dos cuidados e uma participação partilhada
nas actividades de socialização, isto é, na prática, e apesar das crenças de
que os papéis parentais devem ser partilhados, as alterações afiguram-se mais
morosas, persistindo ainda um padrão específico, assente no género (Lamb &
Tamis-LeMonda, 2004; Monteiro, Veríssimo, Santos, & Vaughn, 2008; Pleck
& Masciadrelli, 2004).
Porém estes primeiros resultados, não convergem apenas no sentido de uma imagem
paterna mais tradicionalista, que até poderia sair reforçada caso nos
debruçássemos sobre o domínio da Disciplina, cuja partilha e consequente maior
envolvimento paterno poderiam facilmente associar-se a uma representação do pai
que se impunha através da autoridade e da disciplina ao mesmo tempo que se
distanciava emocionalmente da criança (Balancho, 2004).
Porém, há que considerar que esta interpretação revelar-se-ia algo redutora,
dado o vincado envolvimento paterno nas áreas da Brincadeira e do Lazer no
Exterior, que com certeza não corresponderão a um distanciamento emocional face
à criança. Esta maior actividade paterna não terá forçosamente de colidir com a
constatada menor partilha da parte do pai no que às áreas dos Cuidados
concerne, uma vez que de um modo geral esta também não será inexistente, embora
se manifeste de modo francamente mais discreto.
Outra possível explicação para o assimétrico envolvimento paterno, em função
das diferentes actividades, passará pelo peso histórico-cultural que cada uma
carrega, travando ou acelerando dinâmicas ou alterações, que também por esse
motivo poderão ocorrer a velocidades distintas, refreando, sem estancar, o
movimento de aproximação do pai aos domínios dos Cuidados, e impelindo-o mais
vigorosamente para qualquer uma das restantes áreas (e.g., Rohner &
Veneziano, 2001; Torres, 2004).
As diferentes velocidades com que os pais vão aderindo aos domínios
considerados poderão ajudar a justificar porque grande parte da amostra
encaixou nas características do Grupo Intermédio, não cabendo nem no Grupo
Tradicional, onde o pai se demite inequivocamente das tarefas relacionadas com
as áreas dos Cuidados, nem no Grupo Activo, onde este se revela mais
participativo. Talvez esta caracterização possa traduzir um movimento, pouco ou
nada complacente face a designações mais estáticas ou justificações mais
simplistas e que por isso se poderia aproximar de uma representação mais
confusa da paternidade, que oscilaria entre duas perspectivas antagónicas, uma
mais tradicionalista e outra mais moderna (e.g., Bailey, 1994; Craig, 2003).
A ênfase na morosidade e timidez ou, pelo contrário, no movimento ou dinamismo
com que os pais se parecem aproximar dos domínios dos cuidados poderá ser
objecto de estudo em trabalhos futuros.
Tendo em conta o segundo objectivo delineado, respeitante à relação entre as
variáveis sócio-demográficas ponderadas e o envolvimento parental, do ponto de
vista da mãe os pais parecem mais envolvidos quando estas despendem um maior
número de horas no emprego, no que diz respeito às actividades relacionadas com
os cuidados indirectos, ensino/disciplina e lazer. Segundo Peitz et al. (2001),
as horas de trabalho da mãe relacionam-se com a proporção de envolvimento
paterno, pois é bem provável que o maior número de horas de trabalho da mãe se
associe a uma crescente necessidade de participação do pai. Porém, também
poderá ser possível que tal correlação se possa justificar pela redução do
tempo absoluto que as mães passam com os filhos (Bailey, 1994; Cabrera et al.,
2000; Lamb, 1987), potenciando a participação paterna, uma vez que os dados são
considerados em comparação com a outra figura parental, assumindo a escala uma
perspectiva relativa.
Seria por isso interessante aquilatar no futuro se esta correlação positiva se
fica de facto a dever a um aumento qualitativo da participação paterna, ou se
pura e simplesmente se reduz a um crescimento meramente quantitativo.
De acordo com os pais, também se observa uma correlação positiva, neste caso
entre a idade das crianças e a participação paterna, uma vez que esta parece
aumentar à medida que as crianças crescem, designadamente no domínio da
brincadeira. A etapa de desenvolvimento das crianças é um aspecto terminante,
dado que no período pré-escolar as crianças adquirem novas competências
linguísticas, cognitivas e de socialização, assumindo um papel progressivamente
mais activo na regulação das interacções. Nestas idades, a brincadeira e o
lúdico além de preponderantes, são actividades cada vez mais complexas, que
colocam novos desafios aos pais (Monteiro et al., 2010).
O desenvolvimento entretanto ocorrido talvez possa aproximar os pais, cuja
percepção dos filhos deixa de ser tão frágil, permitindo-lhes outra confiança
na relação, que é mais difícil de estabelecer de inicio, onde social e
culturalmente a mãe é frequentemente percepcionada como mais capaz de cuidar e
de estabelecer laços afectivos com o bebé (Beitel & Parke, 1998; Russel,
1983).
A referida ausência uma concepção unidimensional e do papel do pai (Lamb, 1987,
2004; Parke, 1996) é de certa forma reforçado se atendermos aos três grupos
formados: Activo, Intermédio e Tradicional. Estes diferentes grupos, aos quais
correspondem características individuais e formas de participar distintas, sob
o ponto de vista materno e paterno, apresentam diferenças significativas entre
si, com excepção da perspectiva paterna, nas áreas dos cuidados indirectos e do
lazer entre os grupos Intermédio e Activo.
O grupo Tradicional materno é caracterizado por mães que passam menos horas no
local de trabalho e que possuem menos habilitações literárias, características
que surgem relacionadas com a percepção materna de um menor envolvimento do
pai. Como já tivemos oportunidade de referir, as horas de trabalho da mãe
relacionam-se com a proporção de envolvimento paterno (Peitz et al., 2001),
neste caso o facto das mães poderem estar mais disponíveis pode aliviar a
necessidade de participação do pai, explicando o menor envolvimento paterno e
reforçando a ideia de que o pai avança essencialmente quando a mãe não pode
fazê-lo, emergindo assim como uma figura de recurso (e.g., Deutsch, 2001;
Rohner & Veneziano, 2001).
Quanto às habilitações literárias, a percepção de um menor envolvimento paterno
pode ficar a dever-se a inúmeros aspectos. Os pais com habilitações superiores
envolvem-se mais nas actividades de brincadeira, o que se pode dever ao facto
destes as percepcionarem como um meio, não só de interacção, mas também de
estimulação às aprendizagens cognitivas e sociais dos filhos (Monteiro et al.,
2006). Estes pais também poderão construir concepções menos rígidas acerca dos
papéis dos géneros, o que os leva a não ponderarem as Actividades Práticas
(cuidados) como pouco masculinas, mostrando-se mesmo mais abertos e flexíveis
face a novas experiências (Levy-Shiff & Israelashvilli, 1988). O nível de
participação nas Actividades Indirectas também tende a aumentar com o grau de
escolaridade dos pais (Monteiro et al., 2006; Torres, 2004).
Por outro lado, quanto menor o nível de escolaridade das mães (possível
indicador de trabalho menos bem renumerado), menor a participação dos pais nas
Actividades Indirectas. O facto de, profissionalmente, muitas mulheres ocuparem
lugares de menor prestígio e menos bem remunerados do que os homens (Torres,
2004), poderá levá-las a preferir manter o equilíbrio tradicional familiar,
mesmo tal significando maior exaustão física e mental (Lamb & Tamis-
LeMonda, 2004). Ao contrário do que se verifica nas mães com habilitações
literárias superiores, que talvez por apostarem mais ao nível profissional, não
só facilitam como desejam um maior envolvimento paterno nas áreas relativas aos
cuidados (Monteiro et al., 2006). Tal ponderação poderá ser um indicador da
representação da mãe como gatekeeper(e.g., Allen & Hawkins, 1999; Fagan
& Barnett, 2003; McBride, Brown, Bost, Shin, Vaughn, & Korth, 2005;
Schoppe-Sullivan, Brown, Cannon, Mangelsdorf, & Sokolowski, 2008).
Ao contrário do que se verificou nas mães, não se observaram diferenças
significativas entre os três tipos de envolvimento paterno e as variáveis
sócio-demográficas, o que poderá alertar para outras razões que justifiquem as
diferenças entre os três grupos, pois são vários os factores que podem
condicionar o envolvimento parental, podendo actuar de modo isolado ou
correlacionado (Arendell, 1996; Pleck & Masciadrelli, 2004), dado que a
variabilidade da participação paterna nas rotinas familiares e consequentemente
no dia-a-dia dos filhos é produto de um sistema complexo de influências
(Belsky, 1984; Lamb, 2004; Parke, 1996). Referimo-nos, por exemplo, às
características das mães, cujo impacte já tratámos, assim como às
características das próprias crianças, como a idade e o género, ou às variáveis
de contexto, ilustradas, por exemplo, pelo número de horas que as crianças
passam na Creche/Jardim de Infância, e o próprio temperamento, cuja influência
já foi confirmada noutros estudos (e.g., Manlove & Vernon-Feagans, 2002).
Regista-se ainda uma concordância entre as perspectivas de partilha de ambos os
pais nos grupos Intermédios e Tradicionais, o que significa que, nestes casos,
a opinião das mães parece coincidir maioritariamente com a opinião dos pais.
Mesmo quando estes não se encontram em sintonia, o que foi mais invulgar, as
opiniões nunca atingem um ponto de ruptura máximo, onde a perspectiva do casal
se repartisse entre o ponto de vista tradicional e o activo. Ao contrário do
que se regista no grupo Activo, tendo em conta a perspectiva de ambos os pais.
Neste caso, a oposição é mesmo o ponto dominante, uma vez que o número de
casais onde as opiniões convergiram é residual. Deste modo, num casal podem
coincidir opiniões totalmente divergentes, convivendo, assim, perspectivas
tipicamente tradicionais (grupo Tradicional paterno) e perspectivas tipicamente
modernas (grupo Activo materno). Registe-se que o inverso não acontece, isto é,
não se observou nenhum casal onde a mãe perspectivasse o envolvimento paterno
de modo tradicional, enquanto a opinião do pai assumisse características do
grupo Activo. Porém, na maior parte dos casos a discórdia não traduz uma
distância de opiniões tão acentuada, uma vez que nestes casos, onde a mãe tende
a perspectivar o envolvimento paterno de modo activo, a opinião do pai
enquadra-se no grupo Intermédio.
A questão da concordância é pertinente, uma vez que a distância entre os pais
pode dificultar a relação que estes estabelecem com a criança, assim como pode
dificultar a interiorização desta face a um modelo que lhe sirva de referência
durante o seu desenvolvimento. A própria imagem dos pais pode sofrer algum
desgaste, caso a divergência se acentue, traduzindo formas de estar
incompatíveis, que evoluem no sentido da desvalorização do papel do outro. De
acordo com Hetherington (1988) falta referência, quando a relação dos pais
sofre uma clivagem, o desenvolvimento dos filhos pode ser afectado, registando-
se, por exemplo, maior ocorrência de conflitos entre irmãos. Algo mais difícil
de acontecer, num contexto de convergência, onde o papel dos progenitores tende
a sair reforçado face aos olhos da criança.
Podemos assim pressupor que em casais onde se regista uma divergência
significativa na percepção que têm da forma como o seu dia-a-dia é gerido,
nomeadamente, em relação às crianças, isso acarrete tensões e conflitos entre
os pais, que poderão ter consequências no funcionamento do sistema familiar,
assim como no desenvolvimento sócio-emocional da criança. Para mais facilmente
compreender o conceito de partilha parental é importante assumir uma
perspectiva ecológica da família, considerando-o como um processo complexo e
dinâmico. Não só devemos ponderar a percepção materna sobre o valor e
importância do envolvimento paterno e atender as bases motivacionais do pai
(e.g., Cabrera et al., 2000; Levy-Shiff & Israelashvili, 1988; McHale &
Huston, 1984), como também os possíveis constrangimentos sociais e
institucionais (e.g., Lamb, 1987). Também não poderemos negligenciar o estudo
do modo como a partilha parental é constantemente mantida e negociada pelos
pais (Arendell, 1996; Deutsch, 2001; Tamis-Lemonda LeMonda, 2004), através de
decisões quotidianas sobre a família e o trabalho.