Manual de Psicologia Comunitária
Manual de Psicologia Comunitária, José Ornelas, 2008
Fátima Jorge-Monteiro
Mais fortes e melhores comunidades...
O que é a Psicologia Comunitária? Qual é o campo de acção? Quais são os
objectivos? O que a distingue? Estas, são perguntas que muitos (tanto
estudantes como profissionais e académicos) colocam quando estabelecem os
primeiros contactos com este campo teórico ou com muitos programas e projectos
de intervenção que beneficiam desta inspiração orientadora.
O Manual de Psicologia Comunitária de autoria de José Ornelas, um recurso em
língua portuguesa que faltava no nosso país, entre outros méritos, vem
contribuir para esta clareza. Por analogia com outros ramos da psicologia
(eventualmente também redutoramente), a psicologia comunitária é conotada
exclusivamente a determinados contextos, neste caso, o social, o da
solidariedade, por exemplo. Sendo que, devido à preocupação central de
contrariar o mal-estar social junto de determinados grupos populacionais (pouco
beneficiados por mudanças reais por outros domínios), muitas intervenções e
investigações paradigmáticas sobre este assunto, valorizaram esta
característica. Contudo, devendo manter-se este propósito, muitas vezes não
valorizado por outras disciplinas, agir com o enfoque da “comunidade” tem um
significado e uma abrangência que não se reduz às intervenções junto de
populações vulneráveis.
Precisamente, a psicologia comunitária, devido à forte ligação com a acção para
a mudança, tem vindo a desenvolver modelos teórico-práticos potentes e
significativos para muitos dos desafios contemporâneos das comunidades e das
sociedades actuais. Esta resposta às necessidades, tem sido, em parte,
responsável pelo reconhecimento e interesse crescente por parte da comunidade
científica e técnica.
Esta disciplina refere-se ao planeamento, à implementação e à avaliação das
mudanças transformadoras para o bem-estar das pessoas, organizações ou
comunidades. Contudo, as necessidades de transformação e mudança devem
reflectir uma visão de uma sociedade mais justa (Prilletensky, cit. por
Ornelas, 2008) e esta visão advém de um conjunto de princípios e valores que
são basilares na psicologia comunitária.
Deste modo, para além do enquadramento histórico e das origens da psicologia
comunitária, o autor começa por dedicar uma secção completa ao conjunto de sete
valores fundamentais tal como Dalton, Elias e Wandersman sistematizaram em
2001, partindo dos trabalhos seminais de importantes académicos tal como Julian
Rappaport entre outros (Ornelas, 2008). Importa enunciar aqui estes valores que
são o referencial base de toda e qualquer acção ou investigação da psicologia
comunitária: o bem-estar individual, o sentimento de comunidade, a justiça
social, a participação cívica, a colaboração e fortalecimento comunitário, o
valor da diversidade humana e a fundamentação empírica.
Para este manual, José Ornelas seleccionou ainda grandes domínios, como sejam,
o aprofundamento de fundamentos da psicologia comunitária tais como a teoria de
empowerment, o sentimento de comunidade e capital social, a perspectiva
ecológica e a ajuda mútua, bem como a abordagem de domínios como o suporte
social, a prevenção, a investigação e avaliação colaborativa e a intervenção e
mudança social (para a melhor compreensão desta última temática, são
apresentadas três situações concretas de programas nacionais com vista à
mudança tendo por base os construtos da psicologia comunitária).
Sobre a realização da mudança, podemos encontrar a proposta de Marc Zimmerman
organizada de acordo com quatro modelos: o envolvimento comunitário, a mudança
da comunidade, o modelo da influência e o fortalecimento comunitário. Estas
diferentes formas de abordar a mudança diferem quanto ao facto da intervenção
se focar mais nos indivíduos ou mais nas organizações a que pertencem ou na
comunidade ela própria.
Em relação aos fundamentos, a perspectiva ecológica, aqui desenvolvida, permite
compreender e interpretar os problemas e as intervenções sociais de forma
inovadora. Os problemas são vistos contextualmente e como tendo uma
multiplicidade de influências e interacções, isto é, todos eles têm efeitos a
diversos níveis e portanto as intervenções também têm de realizar-se a diversos
níveis de modo a serem eficazes. Assim, são apresentadas as principais teorias
que explicam a interacção entre o comportamento e as características dos
contextos, a analogia e os princípios ecológicos e a sua relação com qualquer
intervenção comunitária, estas últimas perspectivas pensadas e trabalhadas por
James Kelly e Murray Levine. Segundo Ornelas (2008), a teoria ecológica
possibilita o aprofundamento da interacção entre os indivíduos e os contextos
comunitários, em especial, as implicações do valor da diversidade, ao integrar
as diferenças humanas (culturais, sociais, físicas e mentais, religiosas, ...)
nas diversas práticas sociais, organizacionais, políticas, entre outras.
Esta ideia de diversidade aparece, na psicologia comunitária, de uma forma
singular, já que não se refere apenas às preocupações relacionadas com a
visibilidade e reconhecimento do estatuto da diferença dos grupos populacionais
minoritários mas sobretudo com a contribuição fundamental que estes têm para as
comunidades. Ou seja, por exemplo, a inclusão de utentes ou familiares em
comités ou conselhos, reconhece o estatuto mas, o resultado ou impactos da
participação nesses contextos organizativos será substancialmente diferente, a
existência de diversidade nos contextos organizacionais ou comunitários requer
a adaptação a esse mesmos contextos mas estes, por força das múltiplas
interdependências, transformam-se também. Uma alavanca de mudança pode ser, por
exemplo, a introdução de diversidade num contexto.
Esta visão combina-se também com a perspectiva colaborativa e participativa da
psicologia comunitária tanto em termos de investigação como de intervenção (as
parcerias, por exemplo) e pode também ser conhecida num dos capítulos deste
manual. Nesta primeira edição, existe também um capítulo dedicado à intervenção
em saúde mental comunitária, constituindo-se como um contributo de actualidade
significativa para a implementação de novos modelos de organização e
funcionamento tendo em consideração a reestruturação em curso das respostas e
serviços dirigidas aos jovens e adultos com doença mental no nosso país.
Globalmente, o livro, apresenta de forma clara e estruturada uma introdução aos
principais campos da psicologia comunitária, podendo os interessados obter um
conhecimento bastante abrangente sobre este campo de estudo e intervenção.
Tendo iniciado com uma nota auto-biográfica, onde o autor pretende dar a
conhecer as motivações e percursos pessoais que o levaram a aderir a esta
abordagem de pensamento, termina com um capítulo de biografias dos mais
conceituados investigadores, de organizações e revistas científicas e de
programas académicos internacionais que, para além de fornecerem uma
perspectiva da envergadura do campo académico, podem servir de guia orientador
para a pesquisa futura de todos os interessados em conhecer mais sobre a acção
e a investigação em psicologia comunitária.