Educação, diferença e psicologia
Na actualidade, a perspectiva sociocultural da educação assume cada vez mais um
papel de referência. Esse interesse deve-se a diversos factores, entre eles o
lugar de destaque e a aceitação, cada vez mais generalizada, de uma visão dos
processos escolares de ensino e aprendizagem apoiada nas teorias
socioconstrutivistas. Para estas, a aprendizagem é concebida como um processo
de construção, com um carácter intrinsecamente social, interpessoal e
comunicativo, e o ensino como um processo complexo de estruturação e
orientação, mediante diversos apoios e suportes dessa construção (Coll, 2004;
Pontecorvo, 2003; Pontecorvo, Ajello, & Zucchermaglio, 2005). É portanto,
um processo no qual a diversidade presente em todos os alunos representa um
papel exclusivo e absolutamente necessário como fonte de desenvolvimento
cognitivo e social.
Importa também referir a crescente importância atribuída ao efeito positivo da
utilização de métodos de aprendizagem cooperativa sobre a realização escolar.
Quando se investiga comparativamente os diferentes métodos de aprendizagem
(cooperativo, competitivo e individualista) os resultados revelam
inequivocamente a mesma tendência: uma maior eficácia da aprendizagem
cooperativa no que respeita ao sucesso educativo (e.g., Darnon, Doll, &
Butera, 2007; Johnson & Johnson, 1990, 1994; Johnson, Maruyama, Johnson,
Nelson, & Skon, 1981; Qin, Johnson, & Johnson, 1995; Slavin, 1991,
1996, 1998).
Outros contributos (e.g., Johnson & Johnson 1998; Putnam, 1998) voltam a
corroborar esta posição. Suportam que quanto maior a diversidade entre os
alunos, maior a possibilidade de esta ser mobilizada positivamente, potenciando
processos de cooperação e, consequentemente, índices superiores de
desenvolvimento.
De uma forma geral, o sucesso da aprendizagem cooperativa, frente a outros
modelos de organização da aprendizagem, verifica-se em relação a todos os tipos
de estudantes, independentemente do género, da etnia e da competência
académica, pois existem ganhos para os alunos mais e menos competentes (e.g.,
Mata, 2001; Monteiro, 1996; Slavin, 1991).
Assim, a recorrente preocupação de que a aprendizagem cooperativa pode
prejudicar os alunos mais competentes não se verifica empírica nem
teoricamente, servindo-nos da teoria de Vigotsky para explicitar os benefícios
que ambos retiram na interacção entre sujeitos mais e menos competentes
(Pontecorvo, Ajello, & Zucchermaglio, 2005).
Retomando o pensamento de Vygotsky (1924), todos os méritos das escolas de
ensino especial são comprometidos por um pressuposto evidente:
independentemente do diagnóstico a que estejam sujeitos os alunos, a escola
especial (ou um qualquer diagnóstico médico), tranca os seus alunos especiais
no círculo estreito do seu colectivo. Este sistema cria um pequeno mundo,
separado, delimitado por um horário (escolar), onde tudo é ajustado e adaptado
à incapacidade das crianças.
Neste ambiente tudo fixa a atenção no problema da criança, comprometendo-
a exactamente por essa mesma razão. Aqui, não só não existe desenvolvimento,
como também todas as forças na criança que a teriam ajudado, posteriormente, a
introduzir-se na vida sociocultural ficam sistematicamente fragilizadas (Tudge,
2002).
Como Vygotsky (1924) indica na sua discussão de educação de crianças com
necessidades educativas especiais, as modificações que surgem no contexto da
educação podem ter consequências profundamente negativas no processo de
desenvolvimento pois, uma vez marcada com um estigma, a criança é colocada em
circunstâncias sociais completamente diferentes e o seu trajecto de
desenvolvimento segue uma direcção completamente nova (Tudge, 2002). Não
significa que o autor tenha concebido o processo de desenvolvimento como
unidireccional, onde as crianças com incapacidades são de algum modo mais
limitadas num contínuo de desenvolvimento, mas postulou que o desenvolvimento
pode proceder ao longo de linhas inteiramente separadas. Sustenta que isto
seria especialmente verdadeiro quando as crianças foram etiquetadas e tratadas
de acordo com essa etiqueta (Tudge, 2002).
Em simultâneo, Vigotsky (1938/1988) considera que as crianças com um qualquer
compromisso intelectual que não são expostas ao pensamento abstracto na sua
educação (porque supostamente são apenas capazes de pensamento concreto), são
conduzidas, a longo prazo, à inibição das capacidades de pensamento abstracto
que ainda possam mobilizar. Como exemplo há indícios que o domínio inicial da
linguagem depende fortemente de uma primeira preparação, isto é, somos levados
a pensar que grande parte das brincadeiras das crianças deve ser entendida como
um exercício do aprender, apropriar-se com e do mundo social que a rodeia
(Vygotsky, 1924). Deste ponto de vista, podemos considerar que todos os
mecanismos de apoio que sejam desenvolvidos, tendo por base um pressuposto
médico que substitui o paradigma educacional, direccionam todo o processo de
aprendizagem para a incapacidade da criança e não a acompanham na introdução na
cultura e vida social, no contexto que um dia a irá acolher, inibindo as
capacidades das crianças e mascarando os processos educativos.
Em última análise, uma vez que todos os instrumentos são sociais porque se
encontram fora do organismo, estamos a negar o acesso à cultura e ao
desenvolvimento das funções mentais superiores (Vygotsky, 1924), pois o seu
desenvolvimento é adquirido sob a influência da necessidade “if a child has no
need to think, then he will never think” (p. 166). A aprendizagem humana, tal
como o desenvolvimento, prevê uma natureza social determinada e um processo a
partir do qual as crianças entram na vida intelectual da sociedade (Moll, 2002;
Vigotsky, 1938/1988; Wertsch, 1985, 1993).
Bacon cit. por Bruner (1996, p. 199) refere que “nem a mão nem o intelecto
valem muito por si mesmos, apenas com instrumentos e ajudas é que se
aperfeiçoam (ou completam) as coisas”
Por essa razão, crianças que foram sujeitas a ambientes redutores evidenciam,
muitas vezes, uma debilidade de inteligência que só poderá ser compensada
através de enérgicas medidas de enriquecimento (Bruner, 1999), colocando ênfase
numa avaliação essencialmente educacional.
Vigotsky (1938/1988) afasta-se de todas as teorias que até então tentaram
relacionar desenvolvimento e aprendizagem, sustentando que todo o funcionamento
psicológico do indivíduo tem profundas raízes sociais. Segundo o autor, cada
função aparece a dois níveis no desenvolvimento cultural da criança. Primeiro
ela manifesta-se a nível interpessoal, como categoria interpsicológica e,
apenas posteriormente, a nível da criança como categoria intrapsicológica.
Podemos sintetizar esta ideia referindo que em vez de ajudar as crianças a
contornar potenciais mundos isolados, a nossa escola especial ou os
diagnósticos precipitados e descontextualizados da vida social, normalmente
desenvolvem nos alunos tendências que os dirigem em direcção a um maior
isolamento, não apenas social, mas igualmente individual, desconhecendo e
levando ao esquecimento das suas capacidades (Vygotsky, 1924), pois é na
relação com os outros que nos conhecemos.
Numa perspectiva sociocultural do desenvolvimento, entrar numa cultura
significa não só receber, incorporar essa mesma cultura, mas também o
enriquecimento dos processos de desenvolvimento cognitivo. Todas estas razões
fazem com que a educação das crianças fique paralisada e eleve uma educação
dita especial, com todos os custos inerentes, a quase nada (Vygotsky, 1924).
A educação das crianças tem que ser vista como um problema social. O nosso
trabalho será desenvolver, tanto quanto nos for possível, os instrumentos
intelectuais de relação com o mundo exterior. A questão central é a natureza
dos problemas que as crianças podem encontrar na sua entrada no mundo social e
naturalmente cultural (Vygotsky, 1924).
Vygotsky (1924) postulou que as crianças com qualquer incapacidade mental ou
física devem ver assegurada a sua educação na escola do ensino regular e não
educadas com crianças com a mesma incapacidade. O autor considerou, como já
referimos, que se as crianças com deficiências físicas ou mentais fossem
educadas separadamente das crianças consideradas normais o seu desenvolvimento
procederia de um modo totalmente diferente, e não benéfico, levando à
inevitável criação de pessoas com dificuldades na relação com o mundo e consigo
próprias (Tudge, 2002).
Assim, para determinar a natureza e o caminho do desenvolvimento, torna-se
essencial examinar o ambiente social no qual o desenvolvimento ocorre. Isto é
igualmente verdadeiro para as crianças que não têm à partida nenhum tipo de
restrição na participação social (Tudge, 2002).
O que está em questão não é tanto o diagnóstico, mas sim as formas de aceder ao
meio cultural que nos define enquanto humanos e nos permitem adquirir os
instrumentos socioculturais historicamente desenvolvidos.
A psicologia e a educação são duas áreas de saber onde, desde há vários anos,
se regista um aprofundamento do conhecimento, tendo-se constituído no interior
de cada uma delas várias disciplinas bem diferenciadas o que permite,
naturalmente, uma especificidade cada vez maior das temáticas envolvidas.
Apesar disso, estes dois domínios encontram-se profundamente ligados, existindo
entre eles vários pontos de intersecção (Fonseca, Seabra-Santos, & Gaspar,
2007). Estes pontos de intersecção são facilmente perceptíveis através da
análise histórica do desenvolvimento da psicologia educacional como disciplina,
percebendo-se a sua relação com as funções mais significativas que a psicologia
foi assumindo (COP, 2008).
Alcançado o princípio genérico da escolaridade obrigatória, o desafio que se
coloca à escola é que esta possa responder com qualidade à diversidade dos
alunos (Morgado, 2003a, 2004), surgindo a necessidade de fazer desaparecer a
ideia ingénua da existência de turmas homogéneas (Meirieu, 1997; Niza, 1996).
Deste modo, o desafio que os sistemas educativos de todo o mundo terão de
aceitar é a capacidade de desenvolverem uma educação inclusiva que procura o
sucesso com e para todos os alunos (Ainsow & César, 2006).
Poderíamos ser levados a pensar que este desafio está directamente relacionado
com os países mais pobres, onde milhões de crianças não conseguem aceder a
nenhuma forma de educação formal (Bellamy, 1999). Porém, em países mais
desenvolvidos, incluindo Portugal, o desafio permanece. Assistimos a níveis
elevados de insucesso e abandono, muitos jovens abandonam a escola sem
qualificações, acedendo a percursos paralelos ao ensino regular, ou ainda
crianças que preferem seguir outro percurso porque a escola, na forma como se
revela, em nada parece ser relevante para as suas vidas (César & Oliveira,
2005).
Igualmente Ainscow (1997) considera que, no que respeita à inclusão de todos os
alunos no sistema educativo, muito há a fazer, pois existem muitas crianças que
são excluídas, vendo o seu direito a aprender negado porque a qualidade de
ensino não é satisfatória ou ainda porque a organização das escolas e das salas
de aula não oferece condições de sucesso à aprendizagem e à participação de
todos eles.
Face a estes desafios, o discurso da inclusão tem paulatinamente ganho um lugar
de destaque e discussão por todo o mundo, continuando a ser em muitos países um
debate por vezes bastante confuso, tornando-se difícil perceber o rumo que as
políticas e as práticas educacionais parecem levar (Ainscow & César, 2006;
Lindsay, 2007).
Em alguns países, a educação inclusiva é vista como um mecanismo que permite
assistir crianças sinalizadas como especiais no ensino regular (Ainscow &
César, 2006). Na actualidade, parece assumir um significado mais profundo e
abrangente. A educação inclusiva é uma resposta adequada e considerada como um
direito face à diversidade presente entre os alunos (Unesco, 1997, 2000, 2001).
Considerando a diferença de paradigmas compreende-se a inevitabilidade do
debate sobre educação inclusiva entre todos os profissionais ligados à
educação, e por conseguinte nos psicólogos educacionais.
O psicólogo educacional tem sido muitas vezes caracterizado como o responsável
por preservar um sistema de categorização baseado numa forma de racional
pseudo-científico, permitindo e dando suporte a uma forma paralela de educação
designada por especial (Hick, 2000). Tal poderá ser uma herança das
transformações fundamentais que surgiram no campo da psicologia tal como na
própria definição do papel do psicólogo educacional. Contudo, estes
profissionais podem desempenhar uma função fundamental na actualização dos
modos de trabalhar e no suporte a práticas verdadeiramente inclusivas, como
adiante procuraremos estabelecer.
O desenvolvimento da educação especial envolveu uma série de estádios nos quais
os sistemas educativos exploraram diferentes formas de responder às
necessidades educativas dos alunos (Ainscow & César, 2006).
Todavia, o estudo do trabalho dos investigadores que se dedicam ao tema da
educação especial leva a considerar que até chegarmos ao conceito de educação
inclusiva percorremos um longo percurso, considerando o movimento integrativo
como a “raiz” do movimento inclusivo (Almeida & Rodrigues, 2006).
Uma análise histórica da educação especial revela que, inicialmente, esta
tomava a forma de escolas separadas de ensino especial que frequentemente
levavam a um sistema de ensino paralelo aqueles alunos que precisavam de uma
resposta educativa diferenciada (Correia & Cabral, 1999). Ainda hoje a
educação especial é muitas vezes tida como um suplemento do ensino regular,
noutros casos é deveras um sistema paralelo (Ainscow & César, 2006).
Em termos evolutivos, importa considerar o esforço inicial para integrar os
alunos especiais nas escolas de ensino regular, por exemplo, transplantando
turmas inteiras de alunos caracterizados como tendo necessidades educativas
especiaispara o ensino regular. Esta tentativa de articulação foi acompanhada
de profundas mudanças na organização da escola, no currículo, na formação dos
professores e nos modos e estratégias de ensinar, o que resultou,
inevitavelmente, na formação de mais barreiras na implementação de práticas
inclusivas (Freire & César, 2003). É hoje clara a necessidade de profundas
alterações no contexto da escola para que a filosofia da inclusão seja
efectivamente posta em prática (Hick, 2000).
A avaliação das necessidades dos alunos era sustentada por um modelo clínico e
psicométrico, ou seja, um paradigma médico-pedagógico (Felgueiras, 1994), em
que as necessidades das crianças eram percebidas como défices individuais e a
intervenção assumia uma natureza essencialmente remediativa (Dyson &
Millward, 1997).
As dificuldades na aprendizagem eram considerados como exclusivamente centrados
nas crianças, em consequência, o psicólogo trabalha com elas de forma
individual, num ambiente separado, aplicando testes e usando o resultado destes
para prever a probabilidade de sucesso. Desta forma, os testes têm um valor
absoluto, inquestionável, sendo o processo de aprendizagem concebido como uma
tarefa individual, onde a comunidade educativa (e.g., escola, família, pares)
tem baixo grau de influência (Farrel, 2006).
De acordo com Niza (1996), apenas com o relatório Warnock em 1978, do qual se
destaca o conceito de Necessidades Educativas Especiais, teve início a passagem
de um modelo clínico para um modelo educacional, onde o desenvolvimento desta
abordagem tem como principal consequência a definição da escola regular como
estrutura responsável por todos os alunos (Morgado, 2003a).
Contudo, apesar das grandes evoluções, a insatisfação com a evolução dos
processos de integração exigiram mudanças de base nas políticas de educação
(Booth & Ainscow, 1998).
Uma das principais preocupações é a forma como os alunos passam a ser rotulados
como tendo necessidades educativas especiais, pois o modelo médico continua a
ser o modelo veiculado, explicando as dificuldades educacionais apenas em
termos de défices das crianças (Ainscow & César, 2006; Booth & Ainscow,
2002), fazendo-nos muitas vezes esquecer a questão essencial: por que razão a
escola falha em ensinar com sucesso todas as crianças?
Nos últimos anos a educação especial, na forma de ensino paralelo, tem sido
questionada tanto do ponto de vista da sua eficácia, como na perspectiva dos
direitos humanos (Ainscow, Farrel, & Tweddle, 2000; Ainscow, Booth, Dyson,
Farrel, Frankham, Gallannaugh, Howes, & Smith, 2006; Kluth, 2005; Lindsay,
2007).
Morgado (2003a), numa revisão de literatura sobre os potenciais benefícios da
educação inclusiva para os alunos com dificuldades, para os seus pares e para
os professores e técnicos que com eles trabalham, sublinha que educação
inclusiva remete necessariamente para uma reorganização profunda da escola e do
currículo, das estratégias e modos de ensino, da formação dos profissionais
(docentes e não docentes), entre outros.
Desta forma, criar condições de evolução pedagógica e política a nível da
educação, é sinónimo de abandonar um modelo educativo assente na integração
escolar de um grupo entendido como especial. É procurar reestruturar as escolas
e o modo como respondem às necessidades individuais de cada criança (Clark,
Dyson, & Millward, 1997).
Perante estes desafios a comunidade internacional tem elevado a discussão sobre
educação inclusiva a uma plataforma de destaque, revelando um crescente
interesse (Ainscow & César, 2006).
EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Uma análise recente da pesquisa internacional (Ainscow et al., 2006) mostra-nos
que ainda existem cinco perspectivas diferentes de abordar a educação
inclusiva, o que naturalmente reflecte a evolução da educação especial e a
forma como os sistemas educativos têm respondido à diferença.
1) Inclusão enquanto educação dos alunos com deficiência e/ou necessidades
educativas especiaisnas escolas do ensino regular;
2) Inclusão enquanto reposta para alunos com problemas de comportamento;
3) Inclusão enquanto educação de todos os grupos de alunos que possam
eventualmente correr o risco de exclusão;
4) Inclusão enquanto promoção de uma escola para todos (o que muitas vezes é
entendido como integração, assimilação da diferença, normalização);
5) Inclusão enquanto educação para todos.
Esta gradação transparece as posições de quem defende a inclusão como sendo uma
forma de resposta para grupos de alunos mais vulneráveis e aqueles que entendem
inclusão como uma abordagem mais transformadora da escola (Ainscow & César,
2006; Ainscow, Farrel, & Tweddle, 2000).
Baseando-se numa concepção transformadora, educação inclusiva diz assim
respeito à educação de todas as crianças nas escolas de ensino regular (Udvari-
Solner & Thousend, 1995).
O movimento de educação para todos (na essência, escola inclusiva) teve um
grande impulso a partir da conferência mundial sobre a edução para todos,
realizada em Jomtien, na Tailândia, em 1990, e mais tarde na conferência
mundial sobre necessidades educativas especiais, em Salamanca, em 1994.
O desígnio estruturante resultante das conferências remete para as escolas do
ensino regular a responsabilidade de responder às necessidades individuais de
todo e qualquer aluno. Assume-se indubitavelmente que o princípio de
desenvolvimento de escolas inclusivas consiste em “que todos os alunos devem
aprender juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das
diferenças que apresentam. As escolas inclusivas devem reconhecer e satisfazer
as necessidades diversas dos seus alunos, adaptando-se aos vários estilos e
ritmos de aprendizagem, de modo a garantir um bom nível de educação para todos,
através de currículos adequados, de uma boa organização escolar, de estratégias
pedagógicas, de utilização de recursos e de uma cooperação com toda a
comunidade” (UNESCO, 1994, p. 7).
De acordo com o definido na declaração de Salamanca (1994), “as escolas
inclusivas são os meios mais capazes para combater as atitudes
discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias, constituindo uma
sociedade inclusiva a atingindo a educação para todos” (p. 9). Questiona-se
definitivamente a educação inclusiva como uma resposta específica do ensino
regular para os alunos categorizados com necessidades educativas especiais,
para os alunos com mau comportamento ou, especificamente, para qualquer outro
grupo de alunos potencialmente em risco.
A educação inclusiva passa a ter um significado mais amplo, pois esta engloba
qualquer espécie de marginalização (que possa ser experimentada por qualquer
criança), independentemente da sua categorização ou não com as siglas NEE
(Ainscow, Farrel, & Tweddle, 2000; Ainscow, Howes, Farrel, & Frankham,
2003; Ballard, 1997; Booth & Ainscow, 1998, 2002; Messiou, 2006). Trata-se
de uma educação que se considera justa, apropriada e com práticas e modos de
trabalho que visem responder com qualidade às necessidades de todos os alunos
(Correia, 2001; Hegarty, 1994; Kugelmass, 2006; Morgado, 2003b).
Adoptando esta visão mais abrangente, a escola não fica apenas preocupada com a
categorização dos alunos, pois também lhe é possível, e desejável, identificar
e intervir em outros factores que possam estar a bloquear a participação de
qualquer aluno, recorrendo a vários recursos presentes na comunidade (Ainscow
& Angelides 2000), nomeadamente as próprias características individuais dos
alunos, que são encaradas como oportunidades para enriquecer as aprendizagens
(Ainscow, Howes, Farrel, & Frankham, 2003; César, 2003; Kluth, 2005;
Sheehy, Rix, Nind, & Simmons, 2004). Assim, o movimento para uma escola
inclusiva está verdadeiramente preocupado com a transformação da escola para
que esta possa ir ao encontro das necessidades de todos os alunos.
Apesar da importância que cada vez mais assume a ideia de educação inclusiva,
existem ainda diferentes leituras do que é e do que preconiza. É necessário
reflectir e não assumir que existe uma aceitação total da filosofia da educação
inclusiva (Freire & César, 2005; Lindsay, 2007).
Do ponto de vista dos direitos a inclusão é inquestionável contudo, surgem
dúvidas em relação à sua eficácia. Lindsay (2007), da análise que faz de um
conjunto de estudos sobre a eficácia da inclusão, revela que os trabalhos são
inconclusivos no que diz respeito às suas vantagens. Contudo, no que diz
respeito aos estudos do processo, também analisados, realça que a prática dos
professores está no coração do ensino eficaz, e que uma prática diferenciada e
de qualidade leva à eficácia de resultados. Tal parece evidenciar um paradoxo.
Ou a avaliação da eficácia é realizada independentemente de todas as outras
variáveis, nomeadamente, o contexto e as adequações no contexto onde elas
ocorrem.
Por outro lado, existem muitos professores do ensino regular resistentes à
ideia de inclusão, como também existem instituições de ensino especial que
defendem um sistema paralelo, provavelmente num impulso de auto-justificação e
sobrevivência. Existem ainda aqueles que acreditam que pequenas unidades
especializadas nas escolas regulares podem apoiar os professores com materiais,
equipamentos, estratégias, etc., para que sejam sempre estes os principais
responsáveis pelos seus alunos (Ainscow & César, 2006).
Deste modo, com todo o desenvolvimento que temos vindo a assistir, torna-se
fundamental repensar a função do conceito necessidades educativas especiaisna
nossa escola. Se reconhecermos que as dificuldades experienciadas pelos alunos
resultam da interacção entre a forma como as escolas estão hoje organizadas, os
métodos de ensino dos professores e os próprios alunos, facilmente iremos
conseguir progredir no sentido de melhorar a qualidade da escola e responder
positivamente à diversidade (Ainscow & Angelides, 2000; Ainscow, Howes,
Farrel, & Frankham, 2003; César, 2003).
A inclusão parte de um conjunto de valores que vê o acesso ao ensino regular
como um direito. Foca-se no desafio de tentar promover a participação na vida
da escola, como uma comunidade, de todos os alunos. Desta forma, deixa de fazer
sentido o conceito de necessidades educativas especiais, pois qualquer aluno em
algum momento pode correr o risco de ser excluído, necessitando de uma atenção
diferenciada (Ainscow, Farrel, & Tweddle, 2000; Hick, 2000), sem que para
isso seja necessário um procedimento burocrático. Neste processo o professor é
responsabilizado para que com autonomia promova o sucesso para todos os seus
alunos.
Neste contexto, a Escola de Inclusão é a que garante o direito de acesso à
equidade para o sucesso de todos os alunos (Niza, 1996).
PSICOLOGIA EDUCACIONAL E EDUCAÇÃO INCLUSIVA
Na sequência da análise de um conjunto de trabalhos, teóricos e de
investigação, que pretendem enquadrar o paradigma da educação inclusiva (e.g.,
Ainscow, 2000; Ainscow & Angelides, 2000; Ainscow, Howes, Farrel, &
Frankham, 2003; César, 2003; Morgado, 2003a; Putnam, 1998; Sheehy, Rix, Nind,
& Simmons, 2004; Villa & Thousand, 2003), consideraremos o papel do
psicólogo educacional neste universo.
Os psicólogos educacionais têm agora o desafio de poder contribuir para a
conceptualização, adequação e eficácia da educação para todas as crianças
(Lindsay, 2007), podendo operacionalizar um conjunto de variáveis que veremos
mais à frente. Se os psicólogos educacionais não quiserem aceitar o desafio e
mostrarem de que forma podem contribuir para o desenvolvimento de práticas
inclusivas, correm seriamente o risco de se tornarem uma figura irrelevante
para as crianças do próximo século (Hick, 2000).
Hardman (1998) sustenta que, de uma forma geral, os psicólogos educacionais
defendem modelos de intervenção inclusivos ligando-os predominantemente à
teoria sócioconstructivista da aprendizagem. Num estudo que a autora realizou
sobre as atitudes dos psicólogos educacionais, concluiu que genericamente são
mais a favor de modos intervenção inclusivos do que podemos inferir através das
suas decisões e formas de trabalhar.
De acordo com Hardman (1998), essa conclusão parece sugerir que as decisões de
categorizar os alunos com necessidades educativas especiaise recomendá-los para
um sistema paralelo de ensino não dependem fortemente das atitudes e crenças
individuais dos psicólogos, mas sim das estruturas existentes e das suas
solicitações, nomeadamente as escolas de ensino especial.
Simultaneamente, num estudo mais recente sobre as práticas dos psicólogos
educacionais realizado em 10 países diferentes, onde Portugal não figura, os
resultados demonstram que a sua principal função é trabalhar com crianças com
necessidades educativas especiaise recomendá-las para o ensino especial. Esta é
a tarefa que os psicólogos mais realizam em 8 dos 10 países que participaram no
estudo (Jimerson, Graydon, Farrel, Kikas, Hatzichristou, Boce, & Bashi,
2004).
Parecem ainda constituir-se como constrangimentos à acção dos psicólogos as
percepções que professores e os próprios órgãos administrativos, têm
relativamente ao seu papel e modelo preferencial de intervenção. Um estudo
realizado em 8 países, não envolvendo Portugal, sobre a percepção que os
professores têm sobre o papel do psicólogo educacional, revelou que os
professores esperam que o psicólogo desenvolva preferencialmente trabalho com
os alunos com necessidades educativas especiais, identificando-os e sugerindo
que continuem os seus estudos numa escola a que chamam especial (Farrel,
Jimerson, Kalambouka, & Benoit, 2005).
Também Gilman e Gabriel (2004), nos Estados Unidos, num trabalho da mesma
natureza, mas realizado com os órgãos administrativos das escolas, verificaram
que as suas percepções vão no mesmo sentido que o estudo anterior, porém com
representações ainda mais fortes.
Assim, em relação ao trabalho com crianças com necessidades educativas
especiaise o seu encaminhamento para escolas de ensino especial, as práticas
dos psicólogos parecem ajudar a manter e a perpetuar um sistema de ensino
paralelo.
Todos estes resultados parecem ir de encontro à afirmação que César e Santos
(2006) realizam, ou seja, parece ser relativamente fácil articularmos com os
ideais associados à educação inclusiva, contudo, é muito mais difícil
transformá-los em práticas.
Farrel (2006) diz-nos que este modelo de intervenção dos psicólogos
educacionais é uma herança da própria constituição da psicologia enquanto
ciência, em que os psicólogos tinham como função principal medir o Q.I., o que
legitimava o encaminhamento de alunos para escolas de ensino especial.
O autor refere ainda que é oportuno analisar o percurso de formação dos
psicólogos e o que aprendem. Faz notar que na sua maioria, os textos
introdutórios de psicologia sugerem que aprendemos mais sobre o comportamento
humano se nos focarmos numa perspectiva individual. Corremos o risco de
adoptarmos uma perspectiva médica/psicométrica do desenvolvimento humano, onde
todos os sucessos e fracassos são unicamente atribuídos ao ser psicológico
individual. Neste contexto, Lucas, Blazek, Raley, e Washington (2005) realçam
que, através da análise realizada de textos de introdução à psicologia, existe
uma falta de representação da psicologia educacional na sua dimensão
sociocultural.
Farrel (2006) salienta que esta perspectiva poderá influenciar fortemente a
exploração das diferenças individuais e, na sequência dos trabalhos de Alfred
Binet em 1905, encontrar em medidas individuais (nomeadamente o Q.I.)
explicações para possíveis dificuldades de aprendizagem e comportamento.
Na actualidade, comprovada a ineficácia de um sistema paralelo, naturalmente
segregado de educação (Dyson & Millward, 1997; Farrel & Ainscow, 2002;
Kluth, 2005) e, apesar dos testes psicométricos terem sido úteis para o rápido
desenvolvimento da profissão (e.g., Reschly, 2000), dispomos de outros recursos
que se tornam fundamentais envolver no processo de ensino-aprendizagem. Por
exemplo, a própria escola, o diversificado grupo de alunos, as famílias e a
comunidade envolvente, de forma a potenciar todos os agente educativos
(Morgado, 2001).
Conceber a aprendizagem como um fenómeno estático e meramente individual, é
desprezar a sua natureza intrinsecamente (Vigotsky, 1938/1988, /1934/2007).
Este paradigma é suportado por variadíssima literatura (e.g., Ainscow, Howes,
Farrel, & Frankham, 2003; César, 2003; César & Oliveira, 2005; Gilly,
1995; Kutnick & Kington, 2005; Monteiro, 2003; Peixoto & Monteiro,
1999a,b; Perret-Clermont, Pontecorvo, Resnick, Zittoun, & Burge, 2004;
Salonen, Vauras, & Efklides 2005).
Face à multiplicidade de interpretações devidas ao rápido desenvolvimento da
profissão, Pontecorvo (2003) esclarece todos os equívocos e centra a temática
fundamental da psicologia da educação na dinâmica que se gera entre o ensino e
a aprendizagem.
Desta forma, como poderá o psicólogo educacional desenvolver o seu trabalho de
modo verdadeiramente inclusivo?
Apesar de, no seu desenvolvimento histórico, a psicologia educacional surgir
intimamente ligada às crianças com necessidades educativas especiais, em livros
recentes, tendo como temática a psicologia da educação, os tópicos abordados
incluem gestão de sala de aula, desenvolvimento social, estratégias de
aprendizagem, relação professor-aluno, motivação para aprender, aprendizagem
cooperativa, aprender a ler, desenvolvimento da linguagem escrita, entre outros
(e.g., Fonseca, Seabra-Santos, & Gaspar, 2007; Miranda & Bahia, 2005;
Pontecorvo, 2003).
Deste modo, parece existir uma redefinição do papel do psicólogo da educação,
tendo agora como principal objectivo a reflexão e intervenção sobre o
comportamento humano, em situações educativas e de formação, de desenvolvimento
pessoal e colectivo, desenvolvendo respectivamente as capacidades das pessoas
individualmente, em grupos e instituições (COP, 2008).
O trabalho individual com as crianças poderá ser necessário contudo, o
psicólogo educacional, deve trabalhar com grupos de alunos e/ou professores,
com professores de apoio ou até mesmo ao nível da escola, apoiando projectos,
ajudando a desenvolver competências e conhecimento nos profissionais que
trabalham com as crianças e entre as próprias crianças, promovendo uma educação
inclusiva (Cameron & Monsen, 2005) e estimulando a constituição de
comunidades de aprendizagem (Ainscow, Howes, Farrel, & Frankham, 2003). O
psicólogo educacional actua ainda em colaboração com outros profissionais em
diferentes níveis, formais e não formais, em todos os aspectos psicológicos que
podem interferir na aprendizagem independentemente da origem pessoal, social,
etc. (COP, 2008).
Podemos então considerar que a área de acção do psicólogo parece assumir
contornos cada vez mais abrangentes, tentando evitar os erros cometidos no
passado, e conseguindo criar condições para que, se necessário, todas as
crianças tenham oportunidade para recuperar as aprendizagens sem que a
mobilização de procedimentos adicionais estejam aprisionados em formas
burocráticas de identificação de necessidades especiais e, em consequência
disso, discriminação e exclusão (Baxter & Frederikson, 2005).
De acordo com Baxter e Frederikson (2005), existe assim uma área mais
abrangente para o campo da psicologia educacional, pois esta deixa de estar
ligada directamente aos alunos com necessidades educativas especiais, mas passa
a integrar todos os alunos que possam, em algum momento do seu percurso
escolar, precisar de uma resposta diferente das rotinas impostas pela escola.
Isto leva o psicólogo a estar implicado em todas as problemáticas inerentes à
instituição escolar, por exemplo, abandono escolar, insucesso, iliteracia,
exclusão social, desemprego, gravidez adolescente, etc.
Desta forma, os autores postulam que esta realidade só será possível se os
psicólogos actualizarem modelos de trabalho para modelos de natureza mais
inclusiva, centrando esses modelos nos alunos, identificando e envolvendo toda
a comunidade educativa (pais, professores, auxiliares, comunidade envolvente,
etc.) no progresso e bem-estar dos alunos.
Paige (1998) propõe uma revisão do que pode ser o trabalho do psicólogo em
contexto escolar e centra essa revisão em quatro pilares essenciais:
1) Actualizar os modos de ensino e adaptações curriculares
O psicólogo pode articular com os professores um conjunto de estratégias que
vão ao encontro das necessidades dos alunos, contextualizando essas
aprendizagens e adoptando uma perspectiva sócioconstructivista, usufruindo das
vantagens da aprendizagem cooperativa. Esta articulação permite ir ao encontro
das necessidades dos alunos, por outras palavras, ajudar a desenvolver
estratégias para apoiar a aprendizagem dos alunos que estão a experimentar
dificuldades, adequando as formas de ensinar à sua singularidade, isto é,
promovendo diferenciação pedagógica (e.g., Amado & Freire, 2005; Marchesi
& Martin, 1998; Mastropieri & Scruggs, 2000; Moretto, 2002; Perrenoud,
1997; Tomlinson, 2001), ou ainda, como nos dizem Correia e Rodrigues (1999),
contextualizar as aprendizagens ao nível da escola, ao nível da turma e ao
nível do aluno.
2) Desenvolver de planos de acção centrados nos alunos
O psicólogo, juntamente com os professores, o aluno, a família e outros agentes
educativos, deve desenvolver planos de intervenção fundamentados numa avaliação
exaustiva das necessidades de cada aluno, utilizando uma caracterização
genérica dos seus interesses e motivações para melhor acomodar as suas
necessidades, sendo o aluno o maior recurso nesse sentido (e.g., Correia &
Rodrigues, 1999; David & Capraro, 2001; Gregory & Chapman, 2002;
Morgado, 2001; Niza, 1998; Salend, 2001; Tomlinson & Allan, 2002).
3) Facilitar a construção de uma rede social e de amizades para todos os
alunos
Assente no desenvolvimento de competências pessoais e socais, no papel dos
pares e no trabalho cooperativo, a construção de uma rede social representa uma
dimensão determinante para a aprendizagem e implementação de práticas
inclusivas (David & Capraro, 2001; Johnson & Johnson, 1998; Kutnick
& Kington, 2005; Pontecorvo, 2003; Powell, 1999; Salend, 1999, 2001;
Sprinthall & Sprinthall, 1993). Estudos recentes parecem revelar que um
baixo envolvimento social na escola e os baixos níveis de colaboração entre os
profissionais que nela trabalham (nomeadamente os professores), são fortes
contributos para o abandono escolar (Nicoulaidou & Ainscow, 2005; Raley,
2007).
4) Envolver toda a escola e profissionais facilitando mudanças institucionais
próinclusão
O psicólogo educacional, tomando partido da sua área abrangente de intervenção,
poderá envolver e tentar comprometer os profissionais das escolas em políticas
e práticas inclusivas.
A inclusão tem que necessariamente assumir um papel de destaque nas políticas
educativas, onde o papel dos órgãos administrativos tem uma importância extrema
na implementação de práticas inclusivas (Ainscow, Farrel, & Tweddle, 2000).
Tentando sintetizar as rápidas modificações que o papel do psicólogo tem vindo
a sofrer, o Colégio Oficial dos Psicólogos de Espanha (COP, 2008) avança com
uma proposta actualizada e bastante clara. O psicólogo educacional pode estar
assim envolvido em três grandes funções: avaliação, prevenção e intervenção.
Apesar das três grandes funções serem interdependentes, tentaremos esclarecer
cada uma delas.
A avaliação poderá ser realizada em distintas áreas do funcionamento
psicológico, atendendo à problemática e às necessidades, dando sempre
prioridade à funcionalidade, analisando detalhadamente todas as variáveis
psicológicas que se conjugam nos contextos de educação e formação e,
naturalmente, a avaliação dos próprios contextos. Esta avaliação inclui a
identificação e a descrição de cada problemática, bem como a elaboração de
hipóteses e estratégias para a sua resolução. Só através de uma avaliação
exaustiva do que os alunos sabem é que se poderá planificar o que precisam de
aprender e desenvolver (e.g., Pereira, 2005).
No que diz respeito à prevenção, a psicologia educacional procura promover
condições para um melhor desenvolvimento das capacidades de todos os
intervenientes, adequando as respostas dos sistemas educativo e social às
necessidades individuais, com o intuito último de minimizar o surgimento de
dificuldades. A prevenção pode ainda dizer respeito ao apoio de diferentes
agentes educativos (pais, professores, auxiliares, outros elementos da
comunidade), na procura de respostas a problemas concretos (e.g., prevenção da
toxicodependência) ou projectos mais transversais (educação para a cidadania)
(Baxter & Frederickson, 2005).
Ainda de acordo com Baxter e Frederickson (2005), apesar de existirem
diferentes níveis de prevenção, primária, secundária e terciária, os custos
sociais do abandono escolar são altíssimos. Assim, as iniciativas dos
psicólogos educacionais têm sempre impacto na prevenção, pois o objectivo
último é promover o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças, minimizando
os problemas futuros.
Os autores fazem ainda notar que é extremamente difícil aos psicólogos
educacionais realizarem prevenção primária e secundária com todas as crianças.
Todavia, são dos profissionais mais qualificados para desenvolver acções de
investigação, treino e supervisão de outros agentes educativos com um papel
fundamental na prevenção.
Retomando o Colégio Oficial dos Psicólogos de Espanha (2008), no que concerne à
intervenção, podemos considerar diferentes dimensões, tendo sempre presente as
variáveis psicológicas que intervêm nos processos educativos, bem como os
diferentes intervenientes. Como principais âmbitos de intervenção surgem:
1) Intervenção nas necessidades educativas dos alunos
A psicologia educacional está presente desde as primeiras etapas do ciclo de
vida, prevenindo e detectando atrasos de desenvolvimento, desadaptações
funcionais, psíquicas e sociais. Realiza uma avaliação/intervenção psico-
educativa com o objectivo de adequar os recursos sociais e institucionais aos
recursos individuais, incidindo a sua intervenção na promoção da qualidade do
acto educativo, nas próprias competências dos alunos ou outras dificuldades
percebidas na avaliação.
2) Orientação escolar e profissional
O desenvolvimento escolar e vocacional é, antes de mais, um processo de
intervenção, onde o psicólogo pretende ajudar as pessoas a reunir um conjunto
de informações e gerir um processo de decisão. Constitui-se como uma dimensão
integradora do desenvolvimento psicológico global, aprofundando o conhecimento
individual e facilitando a tomada de decisões. Os testes vocacionais são uma
forma complementar de recolha de informação sobre o conhecimento de si. O
objectivo geral é o desenvolvimento de competências de modo a promover
autonomia na gestão da formação pessoal, tomando as suas próprias decisões.
3) Contexto educativo
O psicólogo pode ajudar os professores a melhorar a qualidade dos processos
educativos, adequando a forma de ensinar à diversidade dos alunos. Morgado
(2003a) desenvolve um modelo que assenta a gestão diferenciada da sala de aula
em seis grandes dimensões, que pretendem contribuir para a inclusão de todos os
alunos e, consequentemente, para a qualidade da escola (Planeamento;
Organização do Trabalho dos Aluno; Clima Social; Avaliação; Actividades;
Materiais).
Lindsay (2007) refere, no estudo que realiza sobre a investigação dos processos
desenvolvidos em sala de aula, que a acção actualizada do professor (que poderá
ser assente nas seis dimensões vistas anteriormente) é a que permite aos alunos
alcançarem bons resultados num contexto de educação inclusiva.
4) Formação e apoio familiar
A psicologia educacional pode estar ao serviço do contexto familiar,
dinamizando acções de informação e formação, realizando intervenção na melhoria
das relações sociais e familiares, promovendo programas e projectos que
promovam o envolvimento e a participação da família na escola e nas
aprendizagens dos alunos.
5) Intervenção socioeducativa
O psicólogo intervém nas relações existentes entre as actividades educativas e
a comunidade onde ocorrem, assim como em factores culturais e sociais que
condicionem as capacidades educativas. Pode também ajudar a dinamizar projectos
mais transversais, como por exemplo, no domínio da intervenção comunitária.
Hick (2000) define como o grande desafio para os psicólogos educacionais,
apesar de existir já alguma resistência neste processo (Gonzalez, Nelson, &
Gutkin, 2004), o desenvolvimento de práticas de educação inclusiva através de
modelos de “consultation”, que podemos definir como consultoria e orientação.
Farrel (2006), da análise internacional que realiza sobre o significado do
termo “consultation”, encontra múltiplos significados. Contudo refere que, na
essência, independentemente da palavra que utilizamos para nos referir a este
processo, ele diz respeito antes de mais, à capacidade que o psicólogo tem para
maximizar o impacto da sua acção no desenvolvimento e na aprendizagem das
crianças. Para isso é necessário que tenha um conhecimento exaustivo e
pormenorizado da própria criança e do contexto onde ela se move (escola,
família e comunidade – “sistema”), para conseguir desenvolver relações de
suporte com todas as pessoas que trabalham dentro e com o sistema, incluindo as
próprias crianças, adoptando uma postura de resolução de problemas. A tarefa do
psicólogo é contribuir para organizar os diferentes papéis e responsabilidades
dentro do “sistema” de forma a rentabilizar recursos para alcançar os mesmos
objectivos – o sucesso escolar e educativo.
Segundo o autor esta abordagem promove uma forma flexível de trabalhar,
focando-se na capacidade que a escola tem para se tornar inclusiva, ou seja, de
qualidade, apoiando todas as crianças com uma panóplia diversificada de
necessidades.
A exclusão escolar (quer na forma de insucesso ou de abandono) tem sido
fortemente atribuída à pressão competitiva que professores e alunos têm sido
sujeitos.
Lindsay (1997), numa realidade que poderia ser a nossa, afirma que o valor
veiculado pelos governos tem sido o da competição em detrimento da cooperação.
As escolas mais populares estão em posição de escolherem os seus alunos e o
respectivo financiamento que se lhe segue, em vez de os pais e os próprios
alunos exercerem o seu direito de escolha de uma escola, preferencialmente a da
sua área de residência. A exclusão ascende a níveis inaceitáveis e as escolas
facilmente rejeitam alunos.
Neste contexto, apenas desenvolvendo de uma forma pró-activa, práticas mais
inclusivas, os psicólogos educacionais vão conseguir desenraizar a sua acção de
modos de funcionamento individuais, definindo um estatuto e um papel
actualizados para a profissão (Hick, 2005).
CONCLUSÃO
Este trabalho pretendeu discutir alguns dos problemas que os psicólogos
educacionais têm que enfrentar para desenvolver o seu trabalho com qualidade.
Sugere que a própria história do desenvolvimento da profissão, onde modos de
trabalho individuais ainda são assumidos como a única forma trabalhar, se
constitui como uma barreira ao seu desenvolvimento. A consequência directa é
que a comunidade educativa espera isso mesmo do psicólogo, a adopção de um
paradigma de trabalho essencialmente individual.
A figura clássica do psicólogo educacional, que existe algures num sítio
inacessível a quem a ele precisa de recorrer, ou que surge com mágicas
propostas de resolução de problemas, muitas vezes desadequadas, tem
necessariamente que desaparecer. É imprescindível que articule o seu trabalho
com toda a comunidade educativa, conseguindo adequar o seu conhecimento ao
conhecimento já existente nos contextos onde trabalha. O psicólogo pode servir
como um agente securizante para ajudar os professores a progressivamente
modificar/melhorar/manter, ou apenas a reflectirem a adequação das suas
práticas, tendo por base as teorias da aprendizagem e modelos de ensino eficaz.
É no confronto diário com a vida na escola que a psicologia educacional melhor
pode promover uma educação de qualidade. Vivendo com os professores “lado-a-
lado” as problemáticas emergentes na instituição escolar, desenvolvendo
mecanismos que promovam a aprendizagem para todos os alunos, não permitindo que
progressivamente mais alunos virem as costas ao seu próprio futuro.
A psicologia educacional define-se, como um trabalho em comunidade, articulado
com diferentes agentes e em que o desenvolvimento institucional e o trabalho
por projectos são fortemente encorajados.
Assente no desenvolvimento da sociedade, a psicologia educacional assume-se
como uma profissão em desenvolvimento e com toda a pertinência social.
Em Portugal, apesar de uma história relativamente curta, o desenvolvimento da
profissão, com a criação de oportunidades de trabalho, é inevitável.
Internacionalmente realiza-se esse percurso, os países verdadeiramente
desenvolvidos fazem crescer a literatura relativa à importância do papel do
psicólogo educacional, criticando os modelos de intervenção tradicionais.
Inequivocamente, os psicólogos educacionais podem fazer a diferença no suporte
a práticas inclusivas, ou seja, melhorar a qualidade da nossa escola, a
qualidade das aprendizagens, a qualidade do ensino, a qualidade de vida e,
claro, colocar o país na rota do tão esperado desenvolvimento económico.
O respeito pela diversidade é a única forma de garantir uma sociedade mais
justa no futuro onde, naturalmente, ao elegermos o modelo da escola inclusiva
como um modelo preferencial, estamos a adoptar um desafio profissional.
Para terminar, e ao mesmo tempo prolongar a reflexão, gostaríamos de deixar
dois pensamentos de Jerome Bruner (1999):
Aquilo que pode tornar o psicólogo uma força poderosa é, digamos, o seu vivo
sentido do que é possível. Ele pode e deve fornecer o leque total de
alternativas para desafiar a sociedade a escolher(p. 43).
(...) Mas uma teoria da educação, que tem de se encontrar no âmago da
psicologia educativa, está principalmente relacionada com o modo de preparar
ambientes para optimizar a aprendizagem segundo diversos critérios (...) É a
psicologia, mais do que qualquer outra disciplina, que possui as ferramentas
para explorar os limites da perfectibilidade humana(p. 58).