Transição para a idade adulta: Das condições sociais às implicações
psicológicas
INTRODUÇÃO
Na fase do ciclo vital que corresponde à passagem da adolescência para a idade
adulta, ocorrem transições traduzidas no desenvolvimento, realização e
consolidação da identidade pessoal e social do sujeito, que culminarão com a
aquisição do estatuto social de adulto. Este último é sustentado pelo alcance
de uma posição social decorrente do desempenho de papéis profissionais e
familiares, que simultaneamente assinalam o final da juventude e caracterizam a
idade adulta.
Contudo, se classicamente, “ser adulto” era definido pelo exercício de uma
actividade profissional e pela constituição de uma família, as mudanças sociais
actuais dão novos contornos tanto à transição para a idade adulta, como ao
assumir dos papéis de adulto por parte dos jovens. Por um lado, surge o
prolongamento dos estudos e uma marcada instabilidade profissional que
dificulta a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Por outro lado, os
processos de emancipação residencial em relação à família de origem tendem a
ocorrer mais tardiamente em termos etários, o que se repercute na idade para a
constituição de uma família própria. O papel parental parece, assim, também ser
adiado.
De um modo geral, as mudanças sociais colocam novos desafios ao modo como os
jovens vivem a transição para a idade adulta fazendo surgir uma nova figura de
adulto “em transição”, o chamado adulto emergente.
O PROLONGAMENTO DOS ESTUDOS E AS DIFICULDADES DE INSERÇÃO PROFISSIONAL
Um dos aspectos que mais tem sido destacado na literatura sobre as novas
configurações de transição para a vida adulta está relacionado com os
investimentos prolongados dos jovens na formação escolar, originados pelo
desenvolvimento do mercado de trabalho. De um modo geral, pode constatar-se,
através dos indicadores sociológicos, que a melhoria generalizada das condições
de vida e a modificação progressiva dos padrões culturais do país, associados à
integração na União Europeia se, traduziram tanto no incremento dos níveis de
formação escolar, como na ampliação das expectativas de realização profissional
que lhe estão associadas. Os jovens são, assim, incentivados a investir na
educação, a prosseguir os seus projectos vocacionais com vista à aquisição
futura de uma profissão, que lhes possibilitará não só a realização pessoal,
como a obtenção de autonomia económica. Isto implica, por si só, que a entrada
no mercado de trabalho se faça mais tardiamente. Além disso, as modificações no
mercado de trabalho vieram também introduzir alterações no tradicional processo
de continuidade entre estudos e inserção profissional. A outrora previsível
sequência de terminusdos estudos e posterior integração na vida activa vê-se
hoje abalada por desajustamentos e fracturas, consequência sobretudo da
instabilidade laboral. Geram-se, assim, percursos de transição para a vida
activa mais diversificados, que evidenciam as transformações do sistema
educativo e do mundo laboral como, por exemplo, opções de formação que não eram
inicialmente desejadas pelos jovens ou dificuldades de encontrar um emprego
compatível com a formação adquirida (Elejabeitia, 1997). Estas alterações
afectam todos os jovens e, particularmente, os jovens licenciados, para os
quais frequentemente as expectativas associadas ao investimento na formação
académica não têm correspondência no mercado de trabalho, tanto em termos de
estabilidade de emprego, como em termos de estatuto profissional (Elejabeitia,
1997). Apesar destas dificuldades, é cada vez maior o número de jovens de ambos
os sexos que prossegue estudos universitários.
A par desta tendência generalizada, denota-se ainda a existência de algumas
especificidades para os designados países do Sul da Europa, nos quais Portugal
se inscreve. Estes tendem a apresentar percursos escolares extensos, durante os
quais a maioria dos jovens está totalmente afastada do mercado de trabalho,
contribuindo assim para o prolongamento do referido estatuto social de “não
produtivo” (Cavalli, 1997). Para esta realidade, contribuem factores de
natureza sociológica e cultural. Por contraste, no contexto norte-americano, o
número de jovens a trabalhar em tempo parcial enquanto estudam é elevado.
Contudo, os estudos indicam que estes o fazem para ter mais recursos económicos
a fim de usufruir de actividades de lazer. Assim, na maioria dos casos estas
actividades profissionais, não implicam o desenvolvimento de competências que
possam ser transferidas para futuras actividades profissionais (Greenberger,
Steinberg, Vaux, & McAuliffe, 1980). Apesar disto, mais tarde torna-se mais
frequente o jovem procurar actividades que proporcionem experiências pessoais,
como actividades de voluntariado ou actividades mais próximas daquelas que
gostariam de vir a desempenhar no futuro, como, por exemplo, a realização de
estágios.
De acordo com Arnett (2000), às vezes experiências profissionais em jovens
adultos servem também para identificar áreas e actividades para as quais estes
jovens se sentem ou não vocacionados. Reportando-se ao contexto social europeu,
algumas diferenças tendem a surgir. Cavalli (1997) refere que muitas vezes os
estudantes preferem instituições de educação/ /formação perto da residência dos
seus pais, o que lhes permite evitar o confronto com custos de vida elevados,
que os levariam, com maior probabilidade, a ter de se inserir, mesmo que
temporariamente, no mercado de trabalho. Deste modo, estão também mais apoiados
e incentivados para prosseguir a sua formação por períodos cada vez mais
longos. Paralelamente, o estatuto de estudante é socialmente encarado como uma
actividade à qual o jovem se deve dedicar “a tempo inteiro”, contribuindo a
família de origem para que tal seja possível. A par deste processo, a escassez
de oportunidades, em determinados países, para os jovens terem experiências
profissionais como, por exemplo, programas de emprego a tempo parcial que
fomentem o desenvolvimento de competências profissionais, contribui também para
a dificuldade em abandonar este estatuto de estudante “a tempo inteiro”
(Cavalli, 1997).
Outro aspecto documentado por Cavalli (1997) diz respeito ao facto de grande
parte dos jovens ingressarem no mercado de trabalho após um período
relativamente longo de emprego precário ou de desemprego. A estabilidade no
mercado de trabalho só é alcançada progressivamente e tardiamente em termos
etários (Cavalli, 1997; Arnett, 2001). A esta realidade acresce ainda a
necessidade de realização pessoal através do trabalho. De acordo com Arnett e
Tanner (2006) o trabalho é hoje visto pelos jovens não apenas como uma tarefa
que lhes deve permitir a autonomia económica, mas também como um lugar de
realização pessoal. Esta visão do trabalho pode também, de algum modo, exigir
um período mais longo de “ajustamento” ao mercado de trabalho, ou seja, pode
ser necessário mudar algumas vezes de trabalho, ou mesmo de profissão, até se
encontrar uma actividade considerada gratificante (Arnett & Tanner, 2006).
Em resumo, existe algum consenso nos estudos, tanto no contexto norte-americano
como no contexto europeu, quanto à individualização dos percursos de transição
entre o sistema de ensino e o mercado de trabalho para os jovens, que envolvem
muitas incertezas (Arnett & Tanner 2006; Cavalli, 1997; Elejabeitia, 1997).
Para esta realidade contribuem, por certo, factores de natureza cultural, onde
o incentivo para o prosseguimento de estudos e a manutenção do estatuto de
estudante “a tempo inteiro”, suportado pela família de origem, mantêm os jovens
afastados do mercado de trabalho por períodos cada vez mais longos.
Paralelamente, as dificuldades do mercado de emprego também contribuem para a
necessidade de investimento em formação cada vez mais extensa, prévia ao
ingresso no mercado de trabalho. No seu conjunto, estes factores contribuem
para percursos de inserção profissional tardios, onde as alterações nos
projectos profissionais e de carreira, assim como a alternância entre períodos
de emprego e desemprego, também tendem a surgir. Para esta realidade, contribui
ainda a valorização do trabalho enquanto fonte de realização pessoal. Deste
modo, os jovens estão mais disponíveis para procurarem empregos não só que se
aproximem da sua formação, como aqueles que lhes proporcionarem realização
pessoal. Esta busca contribui, de forma activa, para a existência de percursos
de ajustamento ao mercado de trabalho, mais extensos e irregulares, em termos
do exercício permanente de uma profissão.
DEPENDÊNCIAS EM RELAÇÃO À FAMÍLIA: ECONÓMICA, RESIDENCIAL E EMOCIONAL
As transformações estruturais dos sistemas de ensino e de formação e do mundo
do trabalho induzem também a períodos mais longos de coabitação entre pais e
filhos adultos (Cordon, 1997; Rossi, 1997), facilitados por mudanças culturais,
que permitem, hoje em dia, aos jovens optar pela “coabitação entre gerações”
(Rossi, 1997). Apesar desta ser uma realidade socialmente variável, vimos que,
para os países do Sul da Europa, o prolongamento da educação não levou os
jovens a sair de casa para frequentar o ensino superior. Pelo contrário, a
descentralização e o alastramento das instituições de formação permitiu a
permanência dos jovens em casa dos pais, enquanto realizam a sua formação
(Rossi, 1997). Quando o jovem se desloca para prosseguir os seus estudos noutra
cidade ou região, a situação não se modifica substancialmente, na medida em que
o afastamento da habitação parental é temporário.
Nesta linha, Tang (1997) efectuou um estudo que versou a temática da saída de
casa dos pais como factor de aquisição da independência social face à família
de origem. O autor utilizou o critério etário, para comparar jovens que saíram
de casa cedo (antes dos 17 anos), “na altura certa” (“on-time” no original), ou
seja, entre os 18 e os 24 anos, e tardiamente, entre os 25 e os 30 anos.
Verificou que, no que se refere aos jovens que saíram cedo de casa, as
principais determinantes para essa saída estiveram associados a composições
familiares que envolviam situações de recasamento ou de adopção, parecendo que
tais situações promovem a saída de casa dos jovens ou a redução do apoio socio-
económico que lhes é concedido (Tang, 1997).
Quanto aos jovens que saem na “altura certa”, o cumprimento do serviço militar,
a constituição de sua própria família e a ruptura no casamento dos progenitores
parecem ser os factores com maior influência. Já para os jovens que saíram de
casa mais tarde, a idade apresenta-se como o principal desencadeador da saída.
Neste estudo, destaca-se que factores externos à dinâmica familiar, como o
prosseguimento de estudos ou a inserção no mercado laboral, numa área
geográfica diferente da de residência da família de origem, nunca surgem como
factores decisivos para a saída de casa dos pais. Importante é ainda o facto de
que, para o grupo dos jovens que saem tarde, o factor idade ser o mais
referenciado, e não qualquer outro como, por exemplo, o desejo de ser
independente ou de constituir uma família. De facto, este último grupo
personifica o fenómeno de permanência prolongada em casa dos pais, que parece
definir uma nova categoria social de jovens adultos (Cordon, 1997; Rossi, 1997;
Tang, 1997).
Esta situação de coabitação, encarada como fruto de circunstâncias sociais, não
é alvo de “penalização social”, para o jovem adulto, sobretudo para as culturas
da Europa do Sul. Num estudo efectuado sobre as diferenças culturais entre
estes países e os chamados países da Europa do Norte, verificou-se que, apesar
do desemprego ou do emprego precário, os jovens nos países da Europa do Norte
mantêm a independência residencial, enquanto que o oposto se verifica nos
países do Sul da Europa, onde a família partilha a sua residência com os
filhos.
Mesmo assim, as dificuldades de emprego constituem um outro factor importante
para o prolongamento da coabitação. Nos países europeus que partilham problemas
de desemprego ou emprego precário, observa-se um aumento da dependência
residencial dos jovens, relativa à família de origem (Cordon, 1997). Apesar
deste estudo não ter incluído dados relativos a Portugal, pensamos que, no
nosso país, a situação é muito semelhante à dos outros países da Europa do Sul.
Rossi (1997) indica que os jovens preferem optar pelo estatuto e pelo bem-estar
que a residência familiar lhes proporciona, em detrimento da autonomia, uma vez
que, na maioria dos casos, o seu nível de vida fora de casa dos pais tenderia a
ser consideravelmente inferior. De facto, tanto os pais como os filhos adultos
sentem-se confortáveis num processo onde aqueles concordam em apoiar
residencialmente os filhos, até que estes consigam atingir a independência
económica que lhes permita uma vida autónoma. Deste modo, também a própria
família de origem não assume um papel de incentivo para o abandono do lar
familiar e para a aquisição da autonomia económica.
Um dos aspectos menos positivos da dependência residencial é, de acordo com
Arnett (2000), o facto desta proporcionar aos estudantes universitários
percursos educacionais muitas vezes demasiado extensos e instáveis, mudando de
curso com alguma frequência ou deixando de estudar e retomando os estudos mais
tarde. Esta situação pode, na opinião do autor, implicar um processo de
exploração demasiado livre e mesmo “interminável”, dado que não apresenta
qualquer custo para o jovem, retardando assim a definição do seu percurso
académico, profissional e mesmo pessoal (Arnett, 2000).
No contexto nacional pensamos que existem, contudo, algumas diferenças. Apesar
da independência residencial ser muito pouco frequente durante o ensino
universitário, porque a maioria dos estudantes não exerce nenhuma actividade
profissional que o permita, também as interrupções dos estudos não são muito
frequentes. Mesmo que essa independência se verifique quando os jovens estudam
em localidades distantes da residência dos pais, não se pode esquecer que ela
serve apenas essa finalidade e que os jovens regressam a casa dos pais durante
as férias escolares ou quando terminam os seus estudos superiores.
Neste quadro, Cavalli (1997) considera que a dependência residencial dos jovens
reflecte uma escolha racional por parte destes e recorda que a melhoria
generalizada das condições económicas, particularmente da classe média,
consequência da modernização, repercute-se ao nível das condições
habitacionais. Nesta classe social, os jovens têm frequentemente, no lar dos
seus progenitores, um espaço próprio, muitas vezes personalizado ao seu gosto,
onde a vinda de colegas e amigos se efectua sem criar tensões. Assim, podem
beneficiar de uma “semi-autonomia” residencial, na medida em que têm um espaço
que é considerado como seu, mas que não necessitam de suportar do ponto de
vista económico.
Apesar de, no contexto norte-americano, a idade mais frequente de deixar a casa
dos pais seja os 18/19 anos, a independência residencial é também muitas vezes
efectuada de acordo com este estatuto de “semi-autonomia”, na medida em que tem
um carácter temporário, ou seja, ocorre durante os estudos ou para viver uma
relação afectiva. Mesmo no contexto norteamericano, os jovens que ingressam no
ensino superior tendem a depender de bolsas de estudos e das suas actividades
profissionais em tempo parcial, e também mantêm, na maioria dos casos, o apoio
económico dos seus pais (Furstenberg, Kennedy, McCloyd, Rumbaut, &
Settersten, 2003). No entanto, uma vez terminados os estudos ou após
experiências mal sucedidas ao nível afectivo, tendem a regressar a casa dos
pais. Este regresso pode ainda ser provocado por experiências de desemprego,
emprego precário ou sub-emprego que impedem a manutenção da residência (Arnett,
2000). Estas flutuações ao nível da independência/dependência residencial
reflectem também instabilidades decorrentes da exploração e experimentação ao
nível educacional e até profissional. Uma vez concluídos os estudos, face às
dificuldades do mercado de trabalho e à escassez de apoios sociais, os jovens
acabam por perpetuar a sua dependência económica face aos pais, uma vez que a
sua actividade profissional não lhes permite ter uma vida economicamente
independente. Assim, a sua dependência é acima de tudo justificada por factores
económicos.
Todavia, também existem jovens que, mesmo exercendo uma profissão que lhes
poderia permitir viver de forma independente optam por continuar a ser apoiados
pelos pais. Nestes casos, estes jovens vêem as principais despesas relativas à
habitação, aos estudos e à alimentação, entre outras, ser garantidas pelos
pais, o que lhes permite continuar a usufruir dos recursos económicos de que a
família dispõe (e muitas vezes ainda lhes oferece sob a forma de mesada). Os
seus recursos económicos próprios podem, assim, ser canalizados para
actividades de lazer ou para bens mais diferenciados (férias, despesas
pessoais, etc...), permitindo-lhes ter uma qualidade de vida muito superior à
que teriam, se vivessem de forma economicamente independente, pois não há
dúvida de que o estabelecimento e a manutenção de um lar independente implica,
na maioria dos casos, um decréscimo significativo no nível de vida. É nesta
sequência que se situa o paradoxo da dependência versusindependência, que leva
Cavalli (1997) a considerar que, nestes casos, os jovens tomam uma decisão
racional, dado o valor que atribuem ao seu próprio bem-estar, em detrimento da
autonomia: a decisão de serem apoiados economicamente pelos pais é
perfeitamente racional e baseada numa perspectiva utilitária de vida.
É ainda importante salientar que o convívio residencial não implica
necessariamente proximidade psicológica entre pais e filhos. Estudos efectuados
no contexto norte-americano evidenciaram que os adultos que apresentavam uma
proximidade física elevada com os pais, ou seja, que residiam em casa dos pais
ou próximo da mesma, apresentavam indicadores muito fracos de ajustamento
psicológico e de proximidade com os pais (Dubas & Pertersen, 1996). Já os
dados relativos a estudos europeus indicam que os jovens que permanecem em casa
dos pais, não só estão satisfeitos com a sua situação, como continuam a
considerar os pais como uma fonte de apoio económico e emocional, embora
manifestem elevados níveis de autonomia na sua vivência em família (Chisholm
& Hurrelman, 1995).
A este nível, Cavalli (1997) argumenta que, apesar dos padrões de apoio
económico e social terem sido mais marcantes para as chamadas famílias de
classe média e alta, este modelo depressa se popularizou nas outras classes,
pelo que se apresenta na actualidade como dominante. Na verdade, muitas vezes o
facto dos jovens de famílias modestas terem um nível mais elevado de
escolaridade do que os seus pais, leva-os a invocarem as suas responsabilidades
escolares e profissionais para legitimar a necessidade de apoio por parte
daqueles. De igual modo, quando negoceiam com eles as condições de coabitação
demarcam o seu direito à “liberdade”, ou seja, à sua independência no seio da
vida familiar. Esta situação gera, na opinião do autor, um aparente paradoxo,
que se traduz no facto de que, quanto mais autonomia os jovens sentem em
relação à sua família, mais dependentes da mesma aceitam tornar-se. Na
realidade, as próprias alterações nos contextos familiares e nos processos de
socialização, nomeadamente na relação pais-filhos, tem reduzido os conflitos
entre gerações, limitando assim a necessidade de saída da família para procurar
a autonomia (Cavalli, 1997).
Os valores culturais associados às famílias do Sul da Europa, que tendiam a
exigir comportamentos semelhantes dos seus membros, através do exercício do
poder paternal, está hoje a ser alterado, dando lugar a uma progressiva redução
da autoridade parental e das clivagens associadas ao género e à idade. Esta
transformação efectua-se sem que a família ponha em causa a sua função
primordial de apoio emocional e económico aos jovens. Para além disso, as
famílias podem constituir-se como recursos para os jovens em dois sentidos: por
um lado, podem, quando dispõem de recursos económicos para tal, apoiar a
escolha vocacional dos filhos, independentemente do curso ser leccionado numa
instituição pública ou privada, nacional ou estrangeira. Por outro lado, no
caso de pais com formação académica superior, podem não só disponibilizar aos
filhos um leque mais alargado de informações relativas ao mercado de trabalho,
mas ajuda-os a ponderar os benefícios e custos potenciais das suas escolhas
vocacionais. Isto não significa que estes jovens vejam o apoio familiar como
isento de “obrigações”. Não só respeitam os conselhos dados pelos pais, como
tentam integrá-los nas suas decisões e opções educacionais, profissionais e
mesmo pessoais. No nosso país, um estudo efectuado por Pappámikail (2004),
revelou que, do ponto de vista dos jovens, a família funciona como uma rede de
apoio, até que consigam posicionar-se no mercado de trabalho. Este apoio é não
só de natureza instrumental, com forte incidência no apoio económico, mas
também de natureza emocional, que apesar de ser de grande importância, não
intervêm, de forma restritiva nas suas escolhas pessoais, educacionais e
profissionais (Pappámikail, 2004).
Assim, o processo de transição para o estatuto de adulto parece hoje menos
previsível e mais complexo (Pais, 1998; Pais, Caims, & Pappámikail, 2005).
A condição de adulto parece passar essencialmente pelo desenvolvimento de
competências pessoais que caracterizam a autonomia psicológica e a maturidade,
sendo menos dependente de marcadores sociais, como
o exercício de um papel profissional ou familiar. Os pais contribuem também
para este processo, já que preferem manter o apoio, de modo a garantir que os
filhos invistam na aquisição de competências de natureza escolar, profissional
e relacional, que lhes permitam “estar preparados para a vida de adulto”
actuando enquanto rede de apoio instrumental e emocional dos filhos
(Pappámikail, 2004).
O QUE SIGNIFICA “SER ADULTO?” CARACTERÍSTICAS E REPRESENTAÇÕES DA IDADE ADULTA
Apesar de no contexto das sociedades ocidentais a autonomia e a liberdade
associadas ao período de transição para a idade adulta poderem influenciar o
modo como os jovens representam e antecipam o que é ser adulto, a literatura
sugere que as representações do papel de adulto adquirem hoje uma configuração
própria, não isenta de aspectos negativos. Alguns autores que analisaram as
representações dos jovens sobre o que significa “ser adulto” indicam que estas
aparecem identificadas com aspectos menos agradáveis da vida adulta, nos quais
se destacam as obrigações familiares e profissionais e a monotonia daí
decorrente (Andrade, 2006; Nilsen, 1998). Como aspectos mais positivos do papel
de adulto, os jovens do mesmo estudo referiram, acima de tudo, actividades que
são essencialmente características da fase de transição para a idade adulta,
como, por exemplo, conhecer novas pessoas, viajar, encontrar ocupações, com a
condição de poder abandoná-las logo que se “tornem aborrecidas” ou quando
aparece algo mais interessante, prosseguir os estudos em domínios interessantes
e desafiantes, mesmo que não conduzam a um trabalho bem remunerado, ter um
emprego onde se aprendam coisas novas e se enfrentem novas situações, seguindo
sempre, em qualquer dos casos, os próprios desejos e aspirações. Para além
destes aspectos, estes jovens destacaram ainda que a noção de “assentar na
vida” é frequentemente associada à constituição de família com filhos, o que
implica um emprego permanente para assegurar um rendimento fixo e, portanto,
garantir a independência económica da família. Embora nenhum dos jovens
desejasse o mesmo estilo de vida da geração anterior, ou seja, da geração dos
seus pais, muitos pensam que, de algum modo, podem vir a acabar numa situação
algo semelhante (Andrade, 2006; Nilsen, 1998).
Como consequência indirecta destas representações, destaca-se a coexistência de
expectativas elevadas e de representações negativas, em relação ao papel de
adulto. Todavia, se as representações da vida adulta continuam associadas a um
emprego estável e a um aumento crescente do nível de vida, na actualidade, este
critério não é considerado determinante para se “ser adulto” (Arnett, 1998). Já
a parentalidade é considerada como um factor decisivo para se ser considerado
adulto. Alguns autores indicam que os jovens, independentemente da idade e do
género, assumem que ser pai ou mãe implica ter uma responsabilidade sobre outra
pessoa e sobre si próprio, o que é característica da idade adulta (Andrade,
2006; Arnett, 1998; Greene & Wheatley, 1992). Também num estudo
retrospectivo sobre as representações do papel de adulto, efectuado junto de
jovens mães, Aronson, Kimberly, e Schaler (2001) confirmam que é determinante
para se “ser adulto”, o facto de ter sido mãe, a par da independência
económica. Estas jovens mulheres, aliás, não consideram nem o emprego, nem o
casamento como marcos importantes para se verem a si mesmas como adultas. Outro
estudo sobre o significado da vida adulta indicou que os jovens adultos
distinguem categorias fundamentais para se analisar o significado de ser
adulto: ao nível das relações familiares e com os amigos; do trabalho através
do envolvimento na formação ou profissão; do bem-estar pessoal, associado a uma
orientação individualista, com a procura hedónica do prazer e a manutenção da
saúde (física e/ou mental); e da auto-realização, através da concretização de
objectivos e do consequente desenvolvimento das competências psicológicas
(Reitzle, 2006).
Apesar disto, na actualidade, as menores exigências de responsabilidade
associada à assumpção destes papéis dominam a vida de muitos jovens, pelo que
estes se encontram numa situação de “semi-adultos”, onde se perspectiva uma
entrada na idade adulta progressiva, sem a pressão do compromisso com os
tradicionais papéis de adulto nos domínios do trabalho e da família (Reitzle,
2006).
Com efeito, e de um modo consensual, os estudos mais recentes têm identificado
características pessoais como sendo prioritárias para se ser considerado
adulto, das quais se destacam ser responsável, ser capaz de tomar decisões e
ser capaz de sustentar-se a si próprio financeiramente (Andrade, 2006; Arnett,
1998; Facio & Micocci, 2003; Greene & Wheatley, 1992). De facto, tais
estudos apontam para a importância da percepção de “auto-suficiência”, do ponto
de vista psicológico e instrumental, como característica fundamental da idade
adulta (Arnett, 1998; Greene & Wheatley, 1992). Também o estudo comparativo
efectuado por Gordon, Holland, Lahelma, e Thompson (2005) sobre representações
da idade adulta, que inclui jovens mulheres inglesas e finlandesas, refere a
independência do ponto de vista psicológico e social como a principal
característica do “ser adulto”. A importância desta auto-suficiência foi também
observada em outras culturas. Jovens universitários argentinos consideram que
ser capaz de formar e sustentar uma família é o critério mais importante para
que se seja considerado adulto, havendo diferenças de género, já que as
raparigas valorizam mais este aspecto do que os rapazes (Facio & Micocci,
2003). Do mesmo modo, Mayseless e Scharf (2003), a partir de um estudo
conduzido em Israel, consideraram que a responsabilidade sobre os seus próprios
actos, a capacidade de decidir sobre as suas próprias crenças, o
estabelecimento de uma relação igualitária com os pais são critérios mais
importantes para se ser considerado adulto. Neste caso, verifica-se que o ser
capaz de renegociar e reconstruir um relacionamento entre pais e filhos é um
indicador de maturidade psicológica, que se reporta à conquista da autonomia.
É de salientar, no entanto que o “ser adulto” é algo de dinâmico que não
corresponde a um estatuto estável (Reitzle, 2006). Mesmo os jovens que se
consideram adultos continuam a achar que ainda não o são na sua plenitude, e
que isto nem sempre depende de uma escolha pessoal, mas pode ser fruto de
constrangimentos sociais. A posição dos jovens é marcada pela ambiguidade e
pela ambivalência. Por um lado, os jovens assumem, facilmente, uma imagem
idealizada da vida adulta, que passa por representações positivas da mesma.
Arnett (2001) constatou, com base num inquérito nacional para o Estados Unidos,
que 96% dos jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos afirmam
que a vida adulta lhes iria proporcionar a possibilidade de “virem a obter
aquilo que sonharam para as suas vidas”. Por outro lado, não parecem querer
entrar rapidamente e totalmente na idade adulta, se as circunstâncias o
permitirem e não se vêem a si próprios para já como adultos. Nesta linha, o
estudo de Reitzle (2006), por exemplo, revelou que muitos jovens não se
percepcionam a si mesmos nem, como adolescentes tardios, nem como jovens
adultos, mas sim como estando numa fase situada entre estas duas categorias. A
autora concluiu que a percepção subjectiva de ser adulto só estava associada
aos papéis normativos de adulto para os jovens de classe baixa e pouco
escolarizados. Para os restantes, as restrições no acesso ao emprego e a uma
vida independente, bem como a instabilidade das relações afectivas fazem com
que vivam o presente numa perspectiva de “hedonismo dos tempos modernos”, onde
os papéis de adulto não têm um significado muito importante.
Para o contexto nacional, e no que se refere especificamente às transições para
os papéis de adulto, de acordo com Guerreiro e Abrantes (2004) estas efectuam-
se em dois tempos: um primeiro período, caracterizado pela liberdade, pelas
experiências e pela ausência de compromissos; um segundo período, caracterizado
pela responsabilidade, estabilidade e compromissos. A vivência de uma transição
para a idade adulta “livre” contrasta com as atitudes relativas à vida adulta
considerada rotineira, aborrecida e desinteressante (Guerreiro & Abrantes,
2004). Este estudo revelou ainda que, quando os jovens portugueses falam dos
seus planos a longo prazo, revelam, de forma mais ou menos unânime, a intenção
de aderir num primeiro momento, a esse modelo de vida hedonista, como “trajecto
natural da vida”, onde os 30 anos parecem ser a fronteira para “assentar e
assumir compromissos”.
Globalmente, os estudos apresentados parecem indicar que a representação
partilhada pelos jovens sobre o que significa ser adulto está impregnada de
alguma ambiguidade, dado que nela são integrados simultaneamente aspectos
característicos da juventude e da idade adulta. Contudo, parecem assumir
consensualmente que ser adulto implica entrar numa fase diferente daquela em
que se encontram.
O ADULTO EMERGENTE: CONCEITO E IMPLICAÇÕES PSICOLÓGICAS
Numa tentativa de especificação desta etapa do ciclo vital, que se situa entre
o final da adolescência e o início da idade adulta, surge, com alguma
frequência na literatura psicológica, a designação de adolescência tardia.
Falar em adolescência implica reportarmo-nos a um período desenvolvimental onde
ocorrem mudanças tanto ao nível físico, como ao nível psicológico. Do ponto de
vista do estatuto social, os adolescentes, na maioria dos casos, encontram-se a
frequentar o sistema de ensino secundário e residem com os seus pais, de quem
são dependentes do ponto de vista instrumental (dependência económica e social)
e afectivo (mantêm relações de grande proximidade afectiva com os
progenitores). Aliando os aspectos de natureza desenvolvimental aos aspectos de
natureza social será, na opinião de Arnett (2000), pouco adequado chamar
adolescentes tardios aos jovens universitários, ou mesmos àqueles que já
exercem uma actividade profissional, por exemplo, na medida em que estes se
encontram numa fase claramente distinta da adolescência. Se nos reportarmos ao
desenvolvimento físico, as diferenças são notórias entre os adolescentes e
estes jovens, na medida em que estes últimos se encontram numa fase de
maturidade física ainda não alcançada pelos primeiros. Ao nível psicológico, a
tarefa da construção da identidade faz-se agora com recurso à exploração, e
muito menos numa óptica de reprodução de modelos ou de indecisão, que
caracteriza a adolescência (Arnett, 2000; Arnett & Tanner, 2006). Por outro
lado, na maioria dos casos, estes jovens são responsáveis pelas suas opções e
decisões, tanto no domínio das relações afectivas como no domínio da educação e
das escolhas profissionais. Ainda do ponto de vista da autonomia, e dado que
são estudos que se referem ao contexto norte-americano, muitos destes jovens já
não residem com a família de origem (por exemplo, porque estão a estudar ou
trabalhar longe de casa dos pais) ou, quando o fazem, mantêm um estilo de vida
independente. Por último, do ponto de vista social existem diferenças marcantes
entre os adolescentes e estes jovens, como, por exemplo, a possibilidade de
tirar a carta de condução ou mesmo de votar, para referir algumas que são
tarefas socialmente construídas como indicadores do estatuto adulto. Com base
nestes argumentos, parece inadequado tratar estes jovens como adolescentes
tardios, visto que estão, em termos do desenvolvimento psicológico e do
estatuto social, numa etapa claramente distinta da adolescência (Arnett, 2000).
Também comum na literatura psicológica é designar esta fase como transição para
a idade adulta. Na perspectiva de Arnett (2000), é necessário especificar o que
se entende por transição para a idade adulta, dado que esta designação assume
que estes jovens estão ainda a transitar para a idade adulta, e não são adultos
de facto, até alcançarem alguma das etapas que de modo mais ou menos normativo,
são marcadores da entrada nessa fase de vida. Apesar da aceitação comum desta
designação, tanto por parte dos estudos sociológicos como dos psicológicos,
fica na opinião de Arnett (2000), por perceber, de facto, quais são as
alterações e como se caracteriza o processo de desenvolvimento, que culmina com
a aquisição do estatuto social de adulto. Na verdade, está-se a assumir-se que
é uma etapa de passagem e não uma etapa da vida com características próprias.
Do mesmo modo, a designação “juventude” para categorizar esta etapa do ciclo de
vida encerra, numa mesma categoria, uma pluralidade demasiado abrangente de
indivíduos com características muito diversificadas, tanto ao nível etário como
ao nível do seu desenvolvimento psicológico e do seu estatuto social e
consequentemente, difícil de analisar (Arnett, 2000, 2001). Essa designação
reporta-se a um período da História em que eclodiram os movimentos juvenis,
mais ou menos institucionalizados, pelo que, na opinião de Arnett (2000), será
mais apropriada do ponto de vista sociológico, uma vez que permite estabelecer
uma fronteira entre a infância e a idade adulta, mas inadequada do ponto de
vista psicológico.
Mais recentemente, nos anos 90, este período foi popularizado como “Geração X”,
designação inspirada na obra de David Coupland, de 1991, que tinha precisamente
este título. Contudo, não parece corresponder a um fenómeno temporário. Esta
etapa veio para ficar na vida dos jovens, sobretudo em determinadas culturas, e
na opinião de Arnett (2001), mercê de uma designação própria, dado que
apresenta também características específicas.
Para caracterizar este período de desenvolvimento, Arnett (2000) propôs a
designação “adultez emergente”. A adultez emergente é a designação proposta
para os jovens que se situam entre os 18 e os 24 anos (embora este critério
etário possa ser variável, o que corresponderia a um período desenvolvimental
com características próprias do ponto de vista psicossocial) (Arnett, 2000).
Deste modo, a designação incorpora aspectos de natureza social, que se
repercutem directamente ao nível do desenvolvimento psicológico.
A primeira característica da adultez emergente diz respeito ao facto de ser uma
fase de exploração ao nível da identidade, onde se ensaiam opções, nomeadamente
em relação aos domínios familiar e profissional. Para o domínio profissional,
as crescentes exigências do mundo laboral implicam não só uma maior necessidade
de investimento ao nível da formação, como são acompanhadas por períodos de
trabalho em tempo parcial (trabalho e estudo), habitualmente em áreas
diversificadas. Se bem que estes aspectos possam apresentar diferentes
configurações, consoante o país/cultura a que cada um se refere, Arnett (2000)
destaca o carácter exploratório destas actividades laborais, servindo sobretudo
para a identificação de áreas e actividades em que os jovens sentem que a sua
vocação não se iria concretizar. Estas experiências no domínio profissional são
caracterizadas tanto por fracassos e frustração, embora orientadas pela
ausência de pressão social, para que seja alcançada a estabilidade que
caracteriza a idade adulta. Assim, este período de vida foi designado por
Arnett (2000) de “idade da instabilidade”, pois as explorações na adultez
emergente fazem com que este período seja dedicado à construção de um projecto
de vida adulta. De facto, se este projecto acaba por se definir, na maioria dos
casos, ainda está sujeito a múltiplas revisões, que se traduzem em alterações
nas áreas de estudo ou no abandono temporário dos estudos, bem como no ingresso
no mercado de trabalho, com alterações de actividade profissional, ou mesmo no
retorno ao sistema educativo. Também no campo das relações afectivas podem
surgir compromissos mais ou menos duradouros, com períodos de emancipação
residencial relativa à família de origem, que nem sempre se estabilizam,
podendo haver um regresso a casa dos pais ou o início de um novo período de
coabitação com outro parceiro. Em qualquer dos casos anteriormente
apresentados, estamos perante uma etapa clara de exploração, relativa aos
papéis conjugais, familiares e profissionais e como salienta Arnett (2000),
exploração e instabilidade são dois aspectos que estão intimamente associados.
A adultez emergente é também classificada como uma idade de “auto-centração”.
Se bem que tanto a infância como a adolescência também apresentem esta
característica, a verdade é que nestes períodos existe sempre o espectro da
vigilância parental, familiar ou mesmo institucional, por parte da escola, por
exemplo. Na adultez emergente, este controlo dissipa-se, sendo as opções mais
dependentes de uma decisão individual e com consequências para o próprio, como,
por exemplo, será “devo estudar e trabalhar?” ou “deveria deixar a casa dos
meus pais e ir viver com colegas?” ou “vou trabalhar para fazer umas férias?”.
Estas e outras questões, que se colocam na adultez emergente, fazem com que o
jovem se torne mais centrado em si próprio. Esta auto-centração não deve ser
entendida só como um período de insegurança e incerteza, na medida em que,
embora isto possa acontecer em alguns casos, na maioria das vezes implica que o
jovem efectue reflexões aprofundadas sobre as diferentes opções e as siga de
modo autónomo (Arnett, 1999). Esta reflexão é mesmo um pressuposto para o
desenvolvimento da autonomia que caracteriza a idade adulta.
Destaca-se ainda, na adultez emergente, o sentimento de estar parcialmente na
adolescência e parcialmente na idade adulta, expresso por cerca de 60% dos
adultos emergentes no estudo de Arnett (2000), que indicam, como principais
critérios para se considerarem adultos, serem responsáveis pelos seus actos,
serem capazes de tomar decisões de forma autónoma e serem economicamente
independentes. Dentro destes critérios, o último é aquele que é assinalado como
o principal responsável por não se sentirem completamente adultos.
Arnett (2000) faz alusão a um inquérito nacional para o contexto norte-
americano, onde 96% dos jovens entre os 18 e os 24 anos afirmavam que esperavam
um dia “vir a obter aquilo que sonharam para as suas vidas”. Como é notório,
trata-se de um período onde as expectativas em relação à vida adulta são
elevadas e positivas. Isto compreende-se pelo facto de estes jovens ainda não
se terem confrontado, na maioria dos casos, com dificuldades ou
responsabilidades que implicassem restrições dos possíveis desejos e uma visão
menos optimista do futuro. É uma idade que se caracteriza por uma imagem
idealizada do futuro e onde se acredita que várias possibilidades de sucesso
estão em aberto. Contudo, de acordo com Tanner (2006), podem ser identificados
estádios desenvolvimentais dentro da adultez emergente. Assim, existe um
estádio em que os adultos emergentes estão a investir na sua formação académica
onde existem explorações frequentes no domínio afectivo e profissional. Nesta
etapa, eles questionam-se se devem tomar decisões, de acordo com as directivas
dos seus pais, dado que, nesta fase, o seu apoio financeiro e residencial é
necessário, o que poderá fomentar a tendência para respeitarem as directrizes
parentais. Nesta etapa, as escolhas e os compromissos que efectuam têm dois
tipos de efeitos: estão a dar-se os primeiros passos para futuros compromissos
mais duradouros, que caracterizam a idade adulta e, por outro lado, estão a
estabelecer-se fronteiras mais claras e definitivas em relação aos pais. Na
etapa seguinte, a aproximação ao estatuto de adulto torna-se mais clara: surgem
os compromissos, nomeadamente no domínio profissional. Os efeitos da entrada
num dos papéis de adulto fazem-se sentir ao nível de uma identidade construída,
que vai progressivamente substituir a identidade de moratória da etapa anterior
da adultez emergente. Progressivamente, o envolvimento com as escolhas e os
compromissos vai sendo crescente, dando lugar ao exercício dos papéis de
adulto, assim como à criação da independência emocional e residencial em
relação aos pais.
Contudo, como defendem alguns autores, este período de vivência sem grandes
compromissos é visto pelos jovens de ambos os géneros como um período
transitório, que é seguido por uma certa estabilização nos padrões de vida mais
convencionais (Brannen & Smitson, 1998).
Já outros jovens caracterizam-se por um longo período pós-adolescente,
destinado a viver a vida de forma descontraída, emocionante e sem grandes
preocupações. A sua prioridade é conhecer novos locais e países, conviver com
os amigos, sair à noite, procurar novas experiências, aprender e divertir-se,
antes de assentar e assumir responsabilidades e compromissos duradouros. Estes
jovens podem apresentar trajectos escolares longos, que incluem a frequência de
cursos e de formação pós-graduada, com inserções precárias e/ou temporárias no
mercado de trabalho. Estas transições estão marcadas pelo carácter lúdico e
hedonista da vida.
Surgem ainda outros jovens incluídos num período que os autores designam por
“transições experimentais” (Guerreiro & Abrantes, 2004). Estas
caracterizam-se por uma sucessão de configurações de vida temporárias e
imprevisíveis, como opção de vida ou como período de experimentação, antes de
“assentar”, casar e ter filhos. Tal como acontece, de forma notória, em alguns
países, viver sozinho, em coabitação ou com um grupo de amigos tornam-se
modelos culturalmente valorizados, pelo menos até à parentalidade, sendo esta
opção muito característica dos jovens mais escolarizados (Guerreiro &
Abrantes, 2004; Nurmi & Poole, 1994). Todavia, de acordo com Guerreiro e
Abrantes (2004), em Portugal, não só existe alguma resistência de natureza
cultural, por parte da sociedade em geral e dos próprios jovens, como a
insuficiência de apoio público e o desenvolvimento dos modelos de apoio
familiar tornam esta opção minoritária.
Apesar destas características poderem ser encontradas em qualquer jovem que se
situe no contexto de transição para a idade adulta, o conceito de “adultez
emergente” reporta-se, na maioria dos casos, a uma “classe” de jovens urbanos,
de classe média e a frequentar ou que frequentaram o ensino superior (Arnett,
2000). Para além disso, esta concepção deve ser analisada do ponto de vista da
especificidade de cada cultura; sendo culturalmente construída não é, portanto,
universal. Na opinião do autor, esta etapa, com as características que lhe
foram apontadas, é mais visível nos países industrializados, nomeadamente na
América do Norte, Europa, Austrália e nalguns países asiáticos, como o Japão e
a Coreia do Sul e em contextos familiares de classe média e urbana (Arnett,
1998, 2000).
Em suma, a vantagem da introdução do conceito de adultez emergente prende-se
com o facto de ser um período de exploração de opções, tanto no domínio
afectivo como ocupacional, vivido longe do “controlo” das normas sociais
relativas à vida adulta. Este período de transição, conforme vimos, implica
sentimentos de insegurança e auto-centração que se manifestam em cenários de
oportunidades e de desafios face ao futuro. São aquilo que Arnett (2000)
designa por “anos voláteis”, no sentido em que são vividos com alguma
instabilidade. Contudo, aspectos de natureza cultural têm influência no limitar
ou prolongar da adultez emergente, ou de algumas das suas características, para
a etapa seguinte. Mesmo já tendo alcançado alguma das tarefas desenvolvimentais
que demarcam o início da idade adulta, vimos que factores de natureza cultural
fazem com que muitos dos jovens adultos permaneçam ainda numa situação que não
configura, na sua plenitude, o estatuto de adulto. De facto, como questiona
Cavalli (1997), porquê antecipar a passagem para a vida adulta, com o esforço
que esta requer, se é algo que pode ser adiado a favor de um bem-estar diário?
Esta perspectiva é corroborada por mensagens do tipo “goza a juventude enquanto
puderes”, que são muito frequentes na nossa cultura e traduzem um reforço
evidente de que a vida adulta não irá ser tão satisfatória como a vida na
juventude, perspectiva que traduz uma valorização extrema da etapa do ciclo de
vida da adultez emergente. Isto é ainda reforçado por mensagens que indicam
claramente aos jovens que os pais estão dispostos a efectuar sacrifícios pelos
seus filhos e, por isso, irão certamente tentar corresponder às expectativas
dos mesmos, enquanto estes permanecerem no seu domicílio. Deste modo, a adultez
emergente constitui-se como uma etapa de exploração e expectativas em relação
aos papéis de adulto e uma oportunidade de desenvolvimento psicológico e
social.
CONCLUSÃO
Como destacam diversos autores, a “estrada para a idade adulta” é cada vez mais
longa e a tarefa de “ser adulto”, do ponto de vista psicológico e social,
aparece como sendo mais exigente na actualidade, passando muitas vezes por ser,
ou adiada em termos temporais e a ser completada mais tardiamente, em termos
etários (Arnett, 2001; Arnett & Tanner, 2006; Rossi, 1997). É assim que as
chamadas mudanças “normativas” para a aquisição do estatuto de adulto, nas
quais se inscrevem o desempenho do papel profissional e familiar, perdem
progressivamente este seu carácter normativo, na medida em que o seu adiamento
surge cada vez com uma maior frequência. Entre o final da adolescência e o
início da idade adulta, são exploradas uma série de possibilidades, tanto ao
nível das relações afectivas como ao nível das preferências profissionais, que
apenas gradualmente se irão transformar em opções. Esta liberdade de exploração
e de escolha faz com que esta etapa se caracterize por alguns paradoxos. Se,
por um lado, é uma etapa de vida constituída por sonhos e desejos em relação à
idade adulta, é também um tempo de incerteza e ansiedade, sendo assim
simultaneamente um tempo de novas liberdades e novos receios (Arnett, 2001).
Parece claro que as tomadas de decisão relativas ao desempenho dos papéis de
adulto se inscrevem num processo mais amplo de desenvolvimento ao longo do
ciclo vital, onde, seguramente, o desenvolvimento psicológico interage com as
condições sociais e ambos propiciam diferentes opções de vida, que vão originar
o desempenho dos papéis de adulto. É precisamente nesta articulação, entre o
desenvolvimento psicológico e social dos jovens e alguns dos novos contextos em
que os jovens se movem, que radica a problemática central deste artigo.