Risco psicossocial e psicopatologia em adolescentes com percurso delinquente
INTRODUÇÃO
A crescente sensibilização da opinião pública relativamente aos problemas
sociais e aos direitos das crianças, a par com a necessidade de controlo social
por parte dos Estados, tem conduzido a um aumento na regulamentação
internacional sobre o tratamento das crianças e à criação de regulamentação
específica face à prevenção e ao tratamento da delinquência juvenil. É disso
exemplo a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança que através
do documento "Regras de Beijing" (ONU, 1985), estabelece as Regras
Mínimas para a Administração de Justiça Juvenil, de cujos princípios gerais
salientamos: a necessidade de "(...) promoção do bem-estar do jovem e da
sua família" (ponto 1.1.) e ainda, a atenção correspondente que deverá
ser dada a "(...) medidas positivas que envolvam a mobilização total de
todos os recursos possíveis, incluindo a família, voluntários e outros grupos
comunitários, assim como escolas e outras instituições comunitárias (ponto
1.3.). Neste contexto, as questões de âmbito social devem certamente conduzir
ao incremento da investigação na delinquência juvenil, a qual, por sua vez,
contribua para o delineamento de programas de intervenção que se adeqúem às
características e às necessidades das populações de risco.
De facto, de acordo com Rutter, Giller, e Hagell (1998) e Sá (2002), uma
questão frequentemente ignorada é a de que as tomadas de decisão sobre a
responsabilidade social e legal das crianças não são suficientemente
fundamentadas, quer no conhecimento científico sobre o desenvolvimento
infantil, quer no conhecimento dos seus contextos sociais e culturais. De
notar, por exemplo, a significativa variabilidade entre países relativamente,
quer à idade de responsabilidade criminal, quer às políticas e aos mecanismos
de intervenção junto dos jovens que cometem delitos criminais (Negreiros,
2001).
No nosso país, no ano de 1999, por decisão conjunta do Ministério da Justiça e
do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social, foi aprovada a Reforma do
Direito de Menores (Proposta de Lei Nº 266/VII de 17 de Abril de 1999, lei nº
133/99, de 28 de Agosto), até então Organização Tutelar de Menores (OTM). Desta
forma, procurou-se definir um conjunto de tarefas mais objectivas e precisas
para os técnicos na intervenção junto de menores agentes de actos criminais
(Reforma do Direito de Menores, 1999, p. 300)1.
Importa referir que na literatura os termos delinquência e comportamento anti-
social são frequentemente utilizados como sinónimos, o primeiro sendo aplicado
na investigação clínica e criminológica como se de um diagnóstico clínico se
tratasse. De facto, o termo delinquência é uma designação jurídica, referindo-
se à transgressão das leis, enquanto o termo comportamento anti-social é mais
abrangente, referindo-se a actos transgressivos ou a violações de normas ou de
expectativas sociais que são considerados inapropriados porque danificam outros
e a sociedade (Matos, 2002; Rutter, Giller, & Hagell, 1998; Sá, 2002;
Vermeiren, 2003).
Rutter e colaboradores (1998) definem o conceito de comportamento anti-social
como uma característica dimensional que as pessoas podem manifestar num grau
maior ou menor e que diz respeito a um vasto espectro de comportamentos que
violam as normas sociais e/ou as leis. Nesta ordem de ideias, utilizamos o
termo delinquência especificamente para melhor definirmos comportamentos anti-
sociais cometidos pelos indivíduos que impliquem a infracção da Lei em vigor,
podendo resultar em acusação e/ou condenação pelo Sistema de Justiça.
Nas últimas décadas do século XX, o aumento de estudos sobre os factores
associados à delinquência juvenil gerou um incremento na quantidade e qualidade
de informação, relativamente ao tipo e à incidência de infracções cometidas por
adolescentes. Tais investigações tiveram na base estatísticas oficiais sobre
delinquência juvenil (e.g., Bender & Losel, 1997; Jonson-Reid & Barth,
2000; Loeber et al., 2001; Mulvey, Arthur, & Reppucci, 1993) e estudos
epidemiológicos, quer transversais, quer longitudinais (e.g., Crosnoe,
Erickson, & Dornbusch, 2002; Espiritu, Huizinga, Crawford, & Loeber,
2001; Fergusson, Wanner, Vitaro, Horwood, & Swain-Campbel, 2004; Jessor,
Vandenbos, Vanderryn, Costa, & Turbin, 1995; Peiser & Heaven, 1996)
contribuindo para um aumento substancial no conhecimento das causas e dos
factores que influenciam a perpetuação da delinquência na vida adulta.
Mais recentemente, observou-se também um interesse crescente pelo estudo das
diferenças individuais e dos factores contextuais, enquanto determinantes do
desenvolvimento de comportamento anti-social ao longo do tempo (Caspi, 2000;
Loeber & Farrington, 2001; Rutter et al., 1998; White, Bates, & Buyske,
2001). Os resultados destes estudos, ao destacarem a versatilidade e o
polimorfismo do comportamento delinquente, contribuíram para que as teorias
sobre o desenvolvimento de um percurso de vida delinquente baseadas numa única
dimensão de factores causais tenham vindo a perder consistência2. Nesta linha
de pensamento, de acordo com Mulvey, Arthur, e Reppucci (1993) e Negreiros
(2001), uma tal versatilidade da trajectória delinquencial tem tornado difícil
a identificação clara dos mecanismos subjacentes ao seu desenvolvimento.
Se os resultados dos estudos criminológicos têm, de uma forma bastante
consistente, identificado variáveis individuais que caracterizam no global o
comportamento delinquente, como sejam, a preponderância de jovens do sexo
masculino, comparativamente com o sexo feminino, a tendência para início da
actividade delituosa se situar por volta dos 14 anos e ainda, a propensão para
o pico da actividade delinquente se situar por volta dos 17-18 anos (Caspi,
2000; Loeber, & Farrington, & Waschbusch, 1998; Moffit, 1993; Patterson
& Yoerger, 2002), estas variáveis parecem ser, no entanto, insuficientes
para explicar o comportamento anti-social na infância e adolescência.
Outros factores de risco individuais e psicossociais para o desenvolvimento de
comportamento anti-social na adolescência têm sido identificados, nomeadamente,
o uso de drogas, uma história familiar de comportamentos de alto-risco, a
falência da supervisão parental, expectativas parentais negativas em relação ao
adolescente, castigos inconsistentes ou excessivamente severos, conflitos
familiares, violência doméstica, a falta de investimento escolar, o insucesso
escolar, a imaturidade emocional (baixo auto-controlo, agressividade e
impulsividade), os pares anti-sociais e os comportamentos disruptivos com
início na infância (e.g., Bender & Losel, 1997; Born, Chevalier, &
Humblet, 1997; Lane, Beebe-Frankenberger, Lambros, & Pierson, 2001).
Por sua vez, Wasserman e Seracini (2001) referem como factores associados ao
desenvolvimento de comportamento anti-social a criminalidade paterna, o tamanho
da família, os problemas mentais maternos, a criança ter sido sujeita a
colocação numa família de acolhimento temporário, competências parentais pobres
e a violência doméstica, destacando-se como factor de risco elevado a falência
parental (isto é, supervisão ou controlo parental inconsistente ou
inexistente).
Assim, muitos dos estudos realizados tendem a suportar uma conceptualização
socio-ecológica da delinquência juvenil, a qual sugere que esta é
multideterminada pela inter-relação recíproca e dinâmica das características do
indivíduo e dos sistemas sociais chave (a família, o grupo de pares, o contexto
escolar e o contexto comunitário mais vasto) (Agnew, 2003; Bender & Losel,
1997; MacCrystal, Higgins, & Percy, 2006; Tarolla, Wagner, Rabinowtz, &
Tubman, 2002). De entre estes, diversos investigadores têm utilizado abordagens
longitudinais com a finalidade de identificar perfis de delinquentes juvenis
através do recurso a vários critérios como, o número ou a natureza das ofensas,
as características de personalidade (por exemplo, a personalidade anti-social
ou psicopática), um baixo auto-controle e ainda, as suas experiências sociais
(tais como, a desestruturação ou instabilidade familiar, o nível
socioeconómico, os pares delinquentes e ainda o insucesso escolar) (Bender
& Losel, 1997; LeBlanc, 1998; Lipsey & Derzon, 1998; Loeber et al.,
2001; Mullis, Cornille, Mullis, & Hubber, 2004; Poppel & Born, 1994;
White, Bates, & Buyske, 2001). São objectivos primordiais destes estudos,
não só a identificação de factores de risco associados ao envolvimento e
actividade anti-social durante a adolescência, mas também, a identificação de
variáveis que possam contribuir para o estabelecimento de predições sobre a
persistência versusdesistência face a um percurso delinquente.
De acordo com Lipsey e Derzon (1998), as variáveis de risco que identificam
adolescentes entre os 12 e os 14 anos, como apresentando uma probabilidade
acrescida de se tornarem futuramente delinquentes graves e violentos são,
primeiramente, a falta de laços sociais e a presença de pares anti-sociais, em
segundo lugar, o envolvimento em actividade criminal e em terceiro lugar, a
manifestação de comportamento agressivo, pobre desempenho escolar, apresentar
um diagnóstico psicopatológico, relações pais-filhos pobres e ainda, ser vítima
continuada de violência física. Também Barnowski (2004) referiu que o abuso e a
negligência são preditores significativos de actividade delinquente
persistente. De referir que os estudos efectuados sobre a relação entre os
factores familiares e a criminalidade reforçam a ideia de que a criminalidade
parental prediz significativamente a delinquência na geração seguinte
(Farrington & West, 1989; Farrington, Morley, Leger, & West, 1988;
Smith & Farrington, 2004). Segundo estes autores, quase todos estes
comportamentos anti-sociais em adolescentes são passíveis de modificação ou
remetem para problemáticas emocionais que podem ser sujeitas a programas de
intervenção específicos se forem identificados no início da adolescência.
Se concebemos o desenvolvimento e a manifestação de comportamento anti-social
na adolescência como consequência da presença elevada de factores de risco ou
adversidade psicossocial continuada e também de baixa frequência de factores
protectores, a prevenção do comportamento anti-social e especificamente, da
delinquência juvenil, deverá merecer igualmente o estudo dos recursos
individuais e contextuais destes jovens. Por factores ou recursos protectores
entendemos, de acordo com Olsson, Bonda, Burnsb, Vella-Brodrickc, e Sawyerd
(2003), as características ou qualidades resilientes do indivíduo (temperamento
positivo, competências comunicacionais, atitudes pro-sociais, etc.), ou do seu
ambiente (o afecto, a supervisão e o encorajamento parentais, a coesão
familiar, etc.) agem de forma a atenuar uma resposta desadaptativa do indivíduo
na presença de adversidade (isto é, que agem de forma a torná-lo mais
resiliente).
A intervenção, quer primária quer secundária, na delinquência juvenil baseia-se
na premissa de que para que se possa remover os factores de risco para o
comportamento anti-social ou incrementar a resistência a estes através de
factores protectores, é necessária a adequada identificação dos indivíduos e
dos contextos de risco. A prevenção de comportamento anti-social em crianças e
jovens e especificamente, de envolvimento num percurso delinquencial, está
assim dependente do processo de identificação de factores de risco e da opção
de quando e como intervir (Mulvey et al., 1993). Como referiu Yaqub (2002), as
decisões sobre quando e como intervir são prioritárias, uma vez que o período
de desenvolvimento em que a criança se encontra e o tipo de suporte
psicossocial de que a família necessita, determinam a forma como possam
beneficiar atempadamente dos recursos a incrementar.
Nesta linha de pensamento, o presente estudo tem como primeiro objectivo a
caracterização de uma amostra de adolescentes em contacto oficial com o sistema
de Justiça por cometimento de actos considerados crime à luz da Lei no que diz
respeito a indicadores de risco psicossocial actual, a tipologia do
comportamento delinquente e a história de risco psicossocial ou adversidade na
infância.
Para a definição dos critérios de risco psicossocial, baseámo-nos no trabalho
de Born, Chevalier, e Humblet (1997), tendo sido considerados os seguintes: (1)
o indivíduo viveu no contexto de uma família instável (divórcio, separação dos
pais, morte de um ou ambos os pais); (2) o adolescente é oriundo de um meio
socio-económico baixo; (3) história de maus-tratos (negligência e/ou abusos
parentais); (4) o jovem viveu num ambiente que favoreceu a delinquência e o
comportamento desviante (isto é, meio urbano ou condições habitacionais nas
quais a intimidade não é frequente, ou ainda, contexto em que existe propensão
para comportamento violento ou delinquente); (5) história criminal de pais ou
irmãos e/ou comportamento desviante dos pais - alcoolismo,
toxicodependência ou prostituição.
No que se refere à tipologia do percurso delinquente, e de acordo com a
perspectiva de Moffit (1993), foi considerada relevante informação
relativamente a: (a) idade de início (precocidade) do comportamento
delinquente; (b) persistência e circunstâncias dos actos delinquentes e (c)
tipo e diversidade dos delitos.
Para procurarmos responder ao primeiro objectivo, foram formulados os seguintes
objectivos específicos: (a) caracterizar os adolescentes no que se diz respeito
a indicadores sobre o contexto familiar actual (envolvimento das figuras
parentais e disciplina parental na educação do adolescente, história de
psicopatologia e/ou comportamento desviante familiar); (b) perceber se existe
envolvimento social e escolar/profissional do adolescente; (c) estabelecer a
tipologia do comportamento delinquente - precocidade, tipo, persistência
e circunstâncias do delito (individual, em grupo de pares, em associação com
adultos) e (d) identificar e comparar os sujeitos relativamente a uma eventual
história de maus-tratos familiares na infância, em função da presença de
sintomatologia.
Num segundo momento foi nossa intenção avaliar a existência (ou não) de
diferenças entre os grupos em função do relato de sintomas psicopatológicos
(medido através do IGS), a tipologia de comportamento delinquente nos jovens e
ainda factores de risco psicossocial.
MÉTODO
Participantes
A amostra deste estudo integra um total de 63 adolescentes abrangidos pela Lei
Tutelar Educativa (LTE)
3
, em processo de avaliação ou seguimento em Equipa Tutelar Educativa (isto é,
cumprimento de medidas diversas de acompanhamento educativo), ou em cumprimento
de medida de internamento.
No que diz respeito à caracterização da amostra final, considerámos as
variáveis sexo, idade, nível de escolaridade, nível socioeconómico (NSE), zona
e distrito de residência, nacionalidade e etnia.
No total, a amostra seleccionada é constituída por 50 adolescentes do sexo
masculino (79.4%) e 13 adolescentes do sexo feminino (20.6%). No que diz
respeito à variável idade, os participantes apresentavam uma média etária de
15.70 (DP=1.08), situando-se entre os 13 e os 18 anos. A generalidade dos
inquiridos frequentava o ensino básico (98.4%) e apenas um sujeito se
encontrava no ensino secundário (1.6%). Relativamente ao nível socioeconómico
(NSE), optámos pelo agrupamento clássico em três níveis (baixo, médio e
elevado). No total, 54 adolescentes (85.7%) pertenciam a famílias com um NSE
baixo, seis (9.5%) a famílias com NSE médio e apenas dois (3.2%) a famílias de
NSE elevado. Quanto à zona de residência, categorizada em urbana e rural, os
adolescentes inquiridos pertenciam maioritariamente a zonas urbanas (87.3%),
sendo que oito viviam em zonas rurais (12.7%). A maioria dos adolescentes da
amostra possuía nacionalidade portuguesa (85.7%) e 14.2% eram estrangeiros
(europeus, Cabo-verdianos e Angolanos).
Dos 63 sujeitos que integraram a nossa amostra, 20 residiam no distrito de
Faro, 18 no distrito de Lisboa, distribuindo-se os restantes respectivamente
pelo distrito de Setúbal, Portalegre, Beja e Évora. A maioria dos jovens era de
etnia caucasiana (71.4%), e os restantes de etnia africana (19%) e cigana
(9.4%).
Instrumentos
Questionário de caracterização
Este instrumento foi construído com base na revisão da literatura sobre os
indicadores de risco psicossocial para comportamento anti-social na
adolescência, destacando-se a tipologia de risco psicossocial estabelecida por
Born, Chevalier, e Humblet (1997) e a tipologia do percurso delinquente de
Moffit (1993), já referenciados neste artigo.
O questionário é constituído por 11 grupos de questões de resposta fechada e um
de resposta aberta, agrupadas em função das seguintes dimensões:
Contexto Familiar:tamanho da família, tipo de estrutura familiar, nível
socioeconómico dos pais, nível educacional e situação profissional dos pais;
separações significativas das figuras parentais na infância; conflitos entre os
pais; relações familiares; ausência de figura paterna; história de
comportamento desviante na família; e maus-tratos ao adolescente.
Contexto escolar:nível de escolaridade, progresso escolar, motivação face à
escola, rendimento escolar, interesses vocacionais ou inserção profissional.
Problemas de comportamento:vadiagem, fugas à escola, fugas de casa, consumo de
substâncias, história de problemas de comportamento na infância.
Comportamento delinquente do adolescente:número e tipo de actos delinquentes
(diversidade de delitos), persistência, gravidade, precocidade e circunstâncias
do delito (cometido individualmente, em grupo de pares ou com adultos).
Inventário de Sintomas Psicopatológicos - BSI
O Inventário de Sintomas Psicopatológicos (Brief Symptom Inventory, adiante
designado BSI) é uma versão abreviada do SCL-90 de Derogatis (1977), construído
pelo autor em 1982. O BSI foi originalmente validado para aplicação a sujeitos
adultos, embora possa ser utilizado com sujeitos adolescentes, desde que
respeitado o requisito da presença de um técnico durante a sua administração
(Canavarro, 1999; Lemos, 2007).
O BSI
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pretende avaliar sintomas psicopatológicos em termos de nove dimensões de
sintomatologia e três índices globais. Estes últimos consistem em avaliações
sumárias de perturbação emocional e representam aspectos diferentes da
psicopatologia. As nove dimensões primárias são a Somatização, as Obsessões-
Compulsões, a Sensibilidade Interpessoal, a Depressão, a Ansiedade, a
Hostilidade, a Ansiedade Fóbica, a Ideação Paranóide e o Psicoticismo (Lemos,
2007).
Para a realização da investigação que agora apresentamos, efectuámos o estudo
prévio das características psicométricas do BSI junto da população adolescente,
numa amostra de 656 adolescentes escolarizados (M=298; F=358), com idades
compreendidas entre os 12 e os 19 anos (M=14.97; DP=2.05), tendo sido obtidos
níveis satisfatórios de consistência interna (coeficiente Alfa de Cronbach
entre .70 e .84) (Lemos, 2007).
No que diz respeito à validade de constructo, a análise factorial exploratória
das dimensões que integram o instrumento confirmou a sua validade enquanto
indicador global de avaliação de psicopatologia. A solução encontrada revelou
que se trata de um instrumento unifactorial, que explica cerca de 67% da
variância total das dimensões do BSI indicando, por isso, uma solução
unidimensional. Em termos de resultados, obtivemos saturações bastante elevadas
nas diversas escalas, variando entre .74 e .88.
Neste estudo, optámos pela utilização da medida de avaliação sumária de
perturbação emocional - Índice Geral de Sintomas (IGS), que combina o
número de sintomas psicopatológicos e a sua intensidade. Esta opção encontra
justificação no facto de se tratar de um índice sumário que permite avaliar de
forma geral os sintomas apresentados pelos sujeitos, sendo composto pelo
conjunto de itens do BSI que apresentam saturações elevadas nas dimensões em
avaliação. O IGS é calculado através da soma das pontuações de todos os
índices, divididos pelo número total de respostas (isto é, 53, se não existirem
respostas em branco) (Canavarro, 1999).
Procedimento de recolha de dados
Incluímos no nosso estudo todos os adolescentes que na altura da recolha de
dados estavam em contacto com o Sistema de Justiça por cometimento de delitos
criminais (indiciados ou provados judicialmente). Entre os delitos,
considerámos os seguintes: (a) contra as pessoas, (b) contra o património, (c)
contra a sociedade, (d) delitos relacionados com o Código de Estrada e, ainda,
(e) por tráfico e consumo de drogas.
Para a caracterização socio-demográfica dos adolescentes, optámos pela recolha
de informação junto dos Técnicos do Instituto de Reinserção Social responsáveis
pela avaliação ou acompanhamento educativo dos menores.
No que se refere às variáveis psicopatológicas em estudo, os dados foram
recolhidos junto do menor pelo técnico responsável pela medida de
acompanhamento, bem como pela investigadora. Todos os dados foram recolhidos
entre Março de 2005 e Junho de 2006, tendo sido incluídos adolescentes em todas
as situações jurídicas oficiais (fase pré-sentencial, jurisdicional e fase de
cumprimento de medida) e em cumprimento de medida de internamento em Centro
Educativo do Ministério da Justiça.
No total, foram entregues 100 questionários e recolhidos 76, tendo sido
excluídos 12 por apresentarem um elevado número de itens por responder, ou por
invalidade das respostas. A amostra final ficou composta por 42 adolescentes
acompanhados nas Equipas de Família e Menores (FM) do IRS-Sul e 21 residentes
em Centros Educativos.
RESULTADOS
Apresentamos, de seguida, os resultados em função dos indicadores de risco
psicossocial, da tipologia do comportamento delinquente e da sintomatologia
psicopatológica.
Segue-se a análise das pontuações reportadas no IGS de acordo com as variáveis
que designámos por indicadores de risco psicossocial.Note-se que estas
variáveis foram operacionalizadas em função das informações anamnésicas obtidas
junto dos técnicos do IRS sobre a existência de problemas de comportamento na
infância, consumo de álcool e drogas e dos seguintes acontecimentos negativos
na infância: conflitos entre os pais, relações pais-filho, separações
significativas face aos pais durante a infância, maus-tratos e
institucionalizações na infância e ainda, ausência de uma figura paterna no
agregado familiar.
Risco psicossocial actual, a tipologia do comportamento delinquente e a
história de risco psicossocial ou adversidade na infância
Neste primeiro conjunto de resultados, foi nossa intenção, tal como referimos
quando da formulação dos objectivos do estudo, caracterizar os adolescentes no
que diz respeito a indicadores sobre o contexto familiar actual, em particular
quanto ao envolvimento das figuras parentais e disciplina parental na educação
do adolescente, história de psicopatologia e/ou comportamento desviante
familiar.
Relativamente às variáveis familiares em estudo, 38% dos adolescentes são
oriundos de uma família biparental intacta, enquanto 31.7% provêm de uma
família com uma estrutura monoparental, 13% vive numa família de recasamento,
11% da amostra vive com avós ou tios e os restantes 6.3% vivem numa instituição
de acolhimento.
Quanto à dimensão da família dos participantes, 52.4% é oriundo de uma família
de dimensões médias (quatro a cinco elementos), 38% dos sujeitos provém de uma
família numerosa (≥6 elementos) e apenas quatro sujeitos (6.3%) estão inseridos
numa família com menos de quatro elementos. Relativamente ao número de irmãos,
quatro sujeitos são filhos únicos, 33 sujeitos (52.4%) têm um a dois irmãos e
24 sujeitos (38.1%) têm três ou mais irmãos.
No que se refere às relações familiares dos adolescentes, verificámos que 34.9%
dos adolescentes mantêm contacto regular apenas com a mãe e que somente 22.2%
mantêm contacto com ambos os pais biológicos. É de realçar as informações
relativas à ausência de envolvimento de qualquer dos pais incide sobre 15.9%
dos sujeitos da amostra em estudo. As informações recolhidas junto dos técnicos
indicam ainda que uma elevada percentagem dos adolescentes carece de disciplina
parental (46.0%).
Os resultados apresentados na Tabela 1 permitem-nos observar que os pais de
22.2% dos sujeitos da amostra parecem ter conflitos conjugais manifestos (do
conhecimento dos técnicos de reinserção social) e que 14.3% dos adolescentes
têm uma relação com a mãe pautada por conflito, observando-se, de igual modo,
em 25.4% dos casos, conflitos na relação com o pai.
TABELA 1
Indicadores de risco psicossocial:Relações familiares
Baseando-nos em diversos estudos que indicam que o comportamento desviante
familiarestá significativamente associado ao comportamento anti-social na
adolescência (e.g., Farrington, Jolliffe, Loeber, Stouthamer-Loeber, &
Kalb, 2001; Wasserman & Seracini, 2001), foi nossa intenção avaliar a
incidência deste factor de risco nos adolescentes em estudo. Ao contrário do
que esperávamos, a ocorrência das diversas variáveis que utilizámos para
descrever o comportamento desviante familiar é baixa, conforme podemos observar
na Tabela 2.
TABELA 2
Indicadores de risco psicossocial: Comportamento desviante familiar
Tentámos ainda perceber se existe envolvimento social e escolar/profissional do
adolescente, tendo sido considerados como indicadores de risco para
comportamento delinquente, o número de retenções escolares, a existência de
dificuldades de aprendizagem, a abstenção escolar e o abandono escolar. Como
factores protectores de comportamento delinquente atendemos à existência de
motivação para a escola. No que diz respeito aos indicadores do desempenho
académico, os resultados obtidos apontam para problemas académicos numa
percentagem relevante de sujeitos: 55.9% reprovou entre três a seis vezes e
54.0% não se encontrava motivado para a escola. Do mesmo modo, a abstenção
escolar era elevada (63.7%), 52.9% dos adolescentes tinham abandonado os
estudos e apenas uma percentagem relativamente baixa de adolescentes (23.5%) se
encontrava a frequentar cursos de formação profissional (Tabela 3).
TABELA 3
Indicadores de risco psicossocial:Factores académicos
Apresentamos de seguida os resultados relativamente à tipologia do
comportamento delinquente(precocidade, tipo, persistência e circunstâncias do
delito (individual, em grupo de pares, em associação com adultos).
No que se refere à situação jurídica dos menores, observámos que 27.0% dos
sujeitos se encontravam sem aplicação de medida (fase de inquérito) e que 68.3%
dos adolescentes se encontravam em fase de cumprimento de Medida Tutelar
Educativa. No que diz respeito à distribuição dos sujeitos de acordo com o tipo
de Medida Tutelar Educativa aplicada, 28.6% encontravam-se sob medida de
acompanhamento educativo, 33.3% cumpriam medida de internamento em centro
educativo, cumprindo, os restantes, outro tipo de medidas comunitárias ou
formativas. Encontrámos ainda registo processual de processos tutelares
anteriores em 36.5% dos adolescentes inquiridos, alguns dos quais se referiam a
processos de tutela parental ou a situações de risco do menor por negligência
ou maus-tratos parentais.
Quanto à persistência e início de comportamento delinquente, verificámos que
46.0% dos adolescentes já tinham sido anteriormente sinalizados por
comportamentos delinquentes, tendo estado em contacto com a Equipa de Menores e
Família da sua área de residência, o que contribuiu para caracterizar os
sujeitos relativamente a persistência do comportamento delinquente. A
persistência e/ou o aumento de gravidade no cometimento de delitos pelo menor,
tendencialmente, dão origem a novos processos jurídicos.
No que se refere ao tipo, diversidade e aumento da gravidade de delitos, é de
assinalar que a maioria dos adolescentes cometeu o primeiro delito por volta
dos 14 anos (38.1%), embora encontremos uma grande amplitude de idades (entre
os 5 e os 16 anos). Relativamente a outras informações recolhidas junto dos
técnicos do IRS, observámos que se verificou um aumento da gravidade dos
delitos praticados em 30% dos adolescentes, o que, associado à persistência do
comportamento delinquente (46%), sugere que estes adolescentes podem estar em
maior risco para delinquência crónica e grave.
No que diz respeito ao tipo de delitos praticados, verificamos que a maioria
está qualificada como infracções contra o património ou contra a sociedade
(60%) e que 33.3% dos delitos representam agressões contra pessoas. Observámos
ainda que a maioria dos adolescentes da amostra foi notificado pela prática de
único tipo de delito (67.6%), 23.5% indica ter praticado dois a três tipos de
delitos e apenas 1.5% cometeu mais do que três tipos diferentes de infracções à
lei. Por último, apurámos que a maior parte dos comportamentos delinquentes
ocorreu em contexto de grupo de pares (79.4%).
De acordo com as informações recolhidas, somente uma percentagem muito baixa
dos sujeitos tem história anterior de consumo de substâncias (menos de 8%). As
informações sobre maus-tratos sofridos e institucionalizações na infância
recaem, respectivamente, sobre 22% e 16% da amostra.
Ainda de referir que os resultados do coeficiente de correlação de Spearman
sugerem a existência de uma associação baixa mas estatisticamente significativa
entre a idade do primeiro delito e os valores obtidos no IGS (p=.255, p=.049),
podendo sugerir que o relato de sintomas psicopatológicos tende a ser mais
intenso, quanto mais elevada for a idade em que foi cometido o primeiro delito.
No que se refere à história de risco psicossocial ou adversidade na infância,
observámos que uma
percentagem relativa dos sujeitos que compõem a amostra apresenta uma história
de problemas de comportamento durante a infância (38%). A este propósito, foram
assinalados pelos técnicos os seguintes problemas de comportamento: agressões a
pares, fugas de casa, comportamento de oposição face a adultos,
hiperactividade, furtos, associação a pares anti-sociais, fugas à escola e
problemas de integração escolar. Note-se que estes resultados são consistentes
com os estudos de diversos autores sobre a presença destes problemas de
comportamento concomitantemente ao percurso delinquente (e.g., Born et al.,
1997; Carr & Vandiver, 2001; Tarolla et al., 2002).
Para analisarmos eventuais diferenças entre os grupos em função da existência
de acontecimentos negativos na infância, utilizámos o teste de Mann-Whitney.
Foram considerados como indicadores de acontecimentos negativos na infância:
separações das figuras parentais, história de maus-tratos,
institucionalizações, conflitos entre os pais e ausência de figura paterna no
agregado familiar (Tabela 4).
TABELA 4
Médias, desvios-padrão do IGS e teste Mann-Whitney em função dos acontecimentos
negativos na infância (n=63)
Na análise das diferenças nas pontuações do IGS de acordo com as variáveis
denominadas acontecimentos negativos na infância, podemos afirmar que não foram
encontrados valores com significância estatística para as variáveis separações
significativas, institucionalizações e maus-tratos na infância. No entanto, os
adolescentes cujos pais têm uma relação conflituosa parecem apresentar um
índice de sintomas psicopatológicos significativamente superior ao dos
adolescentes cujos pais não apresentam conflitos aparentes. Comparámos os
adolescentes relativamente aos valores médios das pontuações obtidas no IGS,
segundo a presença versusa ausência de uma figura paterna no agregado familiar.
Embora se observe uma tendência para os indivíduos do grupo com ausência de
figura paterna apresentarem, em média, valores superiores no IGS, as diferenças
não se revelaram estatisticamente significativas. De referir ainda que
relativamente à variável problemas de comportamento na infância, constatámos
que os resultados obtidos não sugerem diferenças com relevância estatística
entre grupos nas pontuações médias do IGS (M-W=396.00, Z=-.701, p=.483).
Diferenças entre os grupos em função do relato de sintomas psicopatológicos e a
tipologia de comportamento delinquente nos jovens
De seguida, apresentamos os resultados das análises efectuadas com vista a
estudar a existência de diferenças nos resultados obtidos no IGS entre grupos,
em função da tipologia do comportamento delinquente (operacionalizado em termos
de precocidade, diversidade, gravidade e persistência de delitos).
De referir que foram considerados dois grupos de adolescentes, de acordo com a
sua situação tutelar - institucionalizado em Centro Educativo do
Ministério da Justiça ou em acompanhamento por uma Equipa de Família e Menores
do Instituto de Reinserção Social. Os resultados do teste de Mann-Whitney
sugerem a não existência de diferenças significativas na resposta ao IGS em
função destas duas situações (M-W=354.00, Z=-1.269, p=.205).
Relativamente à tipologia do comportamento delinquente, não encontrámos
diferenças significativas nas pontuações no IGS com o teste não paramétrico de
Kruskal-Wallis, segundo as variáveis tipo de delito cometido (K-W=.011, g.l.=2,
p=.995) e diversidade de delitos (K-W=.246, g.l.=2, p=.884).
Não foram igualmente encontrados valores estatisticamente significativos de
acordo com as circunstâncias em que os delitos foram cometidos -
indivíduos que praticaram os actos solitariamente, em grupo de pares ou com
adultos (K-W=.686, g.l.=2, p=.710), o uso ou não de violência no acto delituoso
(M-W=345.50, Z=-.962, p=.336) e ainda, relativamente à persistência, ou não, do
comportamento delinquente (M-W=433.50, Z=-.821, p=.412).
DISCUSSÃO
A investigação realizada permitiu-nos encontrar alguns resultados que
consideramos pertinentes. Não obstante, observámos outros inconclusivos face
aos objectivos que nos propusemos atingir neste estudo.
Retomemos o primeiro objectivo, relativo à caracterização de uma amostra de
adolescentes em contacto oficial com o sistema de Justiça por cometimento de
actos considerados crime à luz da Lei, relativo a indicadores de risco
psicossocial actual, à tipologia do comportamento delinquente e ainda, à
história de risco psicossocial ou adversidade na infância.
No que diz respeito às relações familiares, tem sido referido invariavelmente
que, quer a falta de envolvimento parental (isto é, participação das figuras
parentais em questões que dizem respeito à educação do adolescente), quer a
falência da supervisão e disciplina parental (especificamente do comportamento
e actividades quotidianas dos filhos), assim como relações pais-filhos pautadas
por conflitos, estão entre os factores de risco que, de forma cumulativa,
actuam no desenvolvimento de comportamento anti-social nos adolescentes (e.g.,
Farrington & West, 1989; Farrington et al., 1988; Loeber et al., 2001;
Rutter et al., 1998; Wolf, 1995). Na nossa amostra, um subgrupo de adolescentes
parece não beneficiar quer de envolvimento parental, quer de supervisão e
disciplina parental, factores estes que, como anteriormente referimos, se
preconizam como sendo protectores face a envolvimento em comportamento anti-
social e a reincidência num percurso desviante. No sentido do que preconizam
Knutsonn, DeCarmo, e Reid (2004) a vulnerabilidade familiar tende a comprometer
a qualidade da parentalidade. Por sua vez, um comportamento parental pautado
por negligência, uma pobre supervisão parental, ou a falta de envolvimento
parental são factores a tomar em consideração na etiologia do comportamento
anti-social nas crianças e adolescentes.
Relativamente aos indicadores de risco psicossocial e, em particular, no que se
refere ao desempenho académico, os resultados apontam para problemas académicos
numa percentagem significativa de sujeitos. Por exemplo, constatámos que 55.9%
reprovou entre três a seis vezes e que 54.0% não se encontrava motivado para a
escola. Do mesmo modo, a abstenção escolar é elevada e apenas 23.5% dos
sujeitos da amostra se encontrava a frequentar um curso de formação
profissional. Com base na revisão da literatura, sabemos que o envolvimento na
formação académica ou profissionalizante surgem entre as variáveis protectoras
de um percurso delinquente (Carr & Vandiver, 2001; McCluskey, Bynum, &
Patchin, 2004; Moffit, 1993, Moffit, Caspi, Belsky, & Silva, 1996). Assim
sendo, estes adolescentes parecem estar desprotegidos ao nível da inserção
escolar/profissional quando entram em contacto com o sistema de justiça.
As informações oficiais recolhidas junto dos técnicos de reinserção social face
a comportamentos delinquenciais dos jovens quando do primeiro contacto com a
Equipa de Família e Menores, permitiram caracterizar os sujeitos relativamente
às variáveis persistência de comportamentodelinquente (46%) e ao aumento da
gravidade dos delitos praticados (30%), o que nos parece apontar para risco de
envolvimento em comportamento criminal futuro, persistente ou crónico, antes da
intervenção pelo Sistema de Justiça. Observámos ainda uma baixa diversidade de
delitos cometidos e a incidência do cometimento do primeiro delito na idade de
14 anos, embora a amplitude de idades diste entre os 5 e os 16 anos. Ainda de
acordo com as informações oficiais, a ocorrência de comportamento anti-social,
ocorreu maioritariamente, em contexto de grupo de pares. De acordo com a
literatura, estes resultados sugerem um maior risco para reincidência num
percurso delinquente no subgrupo de adolescentes com comportamento anti-social
persistente, com início precoce e com aumento de gravidade dos delitos, se não
houver intervenção de cariz psicossocial (Barnoski, 2004; LeBlanc, 1998; Lipsey
& Derzon, 1998; Tarolla et al., 2002). Especificamente, defendemos que uma
tal intervenção será mais eficaz ao nível na prevenção de reincidência quanto
mais domínios incluir (familiar, escolar, pares, e comunitário mais vasto).
Esta questão remete-nos para a relevância do estudo de variáveis psicossociais,
a qual retomaremos adiante.
Um outro resultado sobre o qual nos parece importante reflectir, embora não
forçosamente associado a comportamento anti-social, diz respeito ao consumo de
substâncias. As informações recolhidas junto das fontes oficiais sugerem que
somente uma pequena percentagem dos adolescentes parece apresentar, associado
ao comportamento delinquente, um comportamento de abuso de substâncias. Vimos
na revisão da literatura que os estudos criminológicos apontam para uma
associação entre o consumo de substâncias e a delinquência juvenil (Office of
Juvenile Justice and Delinquency Prevention, 1995). Esta associação não é,
contudo, linear, sendo possível que as informações sobre o abuso de substâncias
nestes adolescentes não façam necessariamente parte dos dados oficiais, a não
ser que o adolescente, de forma evidente, apresente uma perturbação de
dependência de drogas.
Relativamente à análise retrospectiva da tipologia do comportamento
delinquente, pensamos que a sua persistência (em 46% dos sujeitos), o aumento
da gravidade (em cerca de 30% dos indivíduos), a diversidade dos delitos
relativamente baixa (25.0% dos sujeitos praticaram mais do que um tipo de
delitos), a idade em que prevalece a informação oficial sobre o primeiro delito
cometido (13 e 14 anos) e, ainda, as circunstâncias dos delitos (79.4% em grupo
de pares) são resultados que carecem de análises posteriores, de forma a
perceber se, na população portuguesa, estes podem contribuir para predizer, no
sentido em que atestam diversos autores (e.g., Moffit, 1993; Moffit et al.,
1996; Tarolla et al., 2002), a persistência futura ou recorrência de
delinquência. A investigação sobre as variáveis eventualmente preditivas de um
percurso delinquente continuado exigirá o desenvolvimento de um estudo com um
desenho longitudinal prospectivo.
No global, a descrição da amostra de acordo com as variáveis de risco
psicossocialseleccionadas permitiu-nos observar a presença de um conjunto de
indicadores de risco individuais e familiares para a continuidade de um
percurso delinquente.
No que se refere à presença de conflito conjugal e de relações pais-
filhosconflituosas, não sabemos se estes riscos são directamente
psicopatogénicos, mas podemos afirmar, de acordo com Balbernie (2002), que
representam no mínimo uma probabilidade de se tornarem patogénicos, conduzindo
a um resultado desenvolvimental desfavorável.
Num segundo momento, analisámos possíveis diferenças nos resultados obtidos na
escala de avaliação de psicopatologia (IGS) em função das características do
comportamento delinquente e, ainda, das variáveis contextuais ou sócio-
familiares (nível socioeconómico, estrutura e a escolaridade dos pais,
estrutura e dimensão do agregado familiar). Analisámos também o relato de
problemas psicopatológicos pelos adolescentes abrangidos pela LTE em função dos
diversos indicadores de risco psicossocial (institucionalizações, separações
significativas de figura parental, motivos atribuídos para as separações,
problemas de comportamento na infância e desempenho académico).
Os resultados comparativos por grupos na maioria destas variáveis não
demonstraram diferenças significativas ao nível dos indicadores de perturbações
psicopatológicas expressos pelo Índice Geral de Sintomas, com excepção das
variáveis definidas com base nos registos oficiais: a idade do primeiro delito
- sugerindo que o relato de sintomas psicopatológicos pode ser mais
elevado com o aumento da idade em que é cometido o primeiro delito; e, ainda,
os conflitos conjugais manifestos.
No que diz respeito ao primeiro destes resultados (e não deixando de considerar
a baixa magnitude da significância encontrada), estes podem sugerir, ao
contrário do que descreve a literatura (e.g., Vermeiren, 2003; White et al.,
2001), que um envolvimento precoce em comportamento anti-social não estaria, de
algum modo, associado a mais sintomas psicopatológicos. No entanto, diferentes
limitações nos impõem cautela: não sabemos se este resultado se devem a uma
falta de sensibilidade do IGS como indicador de sintomatologia nestes
adolescentes, ou se, na verdade, não existe qualquer associação entre a
tipologia do comportamento delinquente e a presença de psicopatologia. Importa
investigar esta questão futuramente, através de medidas mais exaustivas de
avaliação de psicopatologia.
Ainda relativamente sãos resultados obtidos no Índice Geral de Sintomas,
podemos sugerir que os adolescentes cujos pais têm uma relação conflituosa
expressa parecem apresentar um índice de sintomas psicopatológicos
significativamente superior ao dos adolescentes cujos pais não apresentam
conflitos aparentes. Ainda no que diz respeito às relações familiares, os pais
de 22.2% dos participantes manifestam conflitos conjugais e 14.3% dos
adolescentes têm uma relação com a mãe pautada por conflito, observando-se, de
igual modo, em 25.4% dos casos, conflitos na relação com o pai.
Relativamente aos resultados inconclusivos obtidos no indicador de
psicopatologia, em nosso entender somente o estudo mais exaustivo das
propriedades psicométricas do Brief Symptom Inventorynos permitirá afirmar se
estes se devem a uma falta de sensibilidade da escala na triagem de
sintomatologia nestes adolescentes, ou se, na verdade, não existe qualquer
associação entre o tipo, a persistência e as circunstâncias do delito e a
presença de problemas psicopatológicos. Devemos realçar que, devido à dimensão
dos grupos, e tendo em consideração as limitações do instrumento na triagem de
problemas emocionais (pelo facto de ser pouco exaustivo), no futuro, devemos
prosseguir a confirmação destas análises com um instrumento de avaliação de
psicopatologia mais abrangente, de forma a percebermos se estes resultados
reflectem dificuldades inerentes à avaliação de indicadores de psicopatologia e
se, de facto, a presença destes factores, considerados de risco na literatura
(e.g., Barnoski, 2004), está associada à manifestação de psicopatologia nestes
adolescentes.
Em relação ao estudo do comportamento desviante ao nível do contexto familiar,
ficamos por saber se esta característica da amostra reflecte, de algum modo a
"realidade" destas famílias, o que, se assim for, contraria os
resultados dos estudos que apontaram para uma elevada incidência de
comportamento desviante familiar na problemática da delinquência juvenil (e.g.,
Farrington, 2004; Farrington et al., 2001; Lipsey & Derzon, 1998), ou se
uma falta de informações sobre as circunstâncias familiares, por parte dos
técnicos, poderá ter influenciado os resultados obtidos, o que, a ter
acontecido, se alega como uma limitação ao estudo.
Investigações futuras deverão centrar-se na avaliação do impacto dos diferentes
tipos de intervenção previstos pela Lei Tutelar Educativa sobre a integração
social dos jovens. Na nossa opinião, esta questão merece ser aprofundada
através de um estudo longitudinal que compreenda o seguimento dos sujeitos da
adolescência até à adultez, de forma a avaliar a eficácia das intervenções em
termos da sua reinserção sócio-profissional. Parece-nos ainda relevante estudar
as características psicopatológicas dos adolescentes institucionalizados,
comparativamente com os adolescentes seguidos em ambulatório pelas equipas de
reinserção social. Sabemos que os jovens delinquentes em regime de
institucionalização tendem a experienciar mais problemas de saúde mental
comparativamente aos não institucionalizados (Robertson, Dill, & Husain,
2004; Vermeiren, 2003).
Importa ainda referir que a presente investigação apresenta limitações, quer ao
nível do seu desenho transversal, quer relativas à dimensão da amostra. Um
outro aspecto que nos parece relevante diz respeito à necessidade de leituras
cuidadas de alguns resultados, considerando eventuais problemas de validade e
fidelidade dos instrumentos utilizados. Não obstante, os resultados obtidos
permitem-nos sugerir alguns factores como protectores face a persistência de
comportamento anti-social. Em particular, referimo-nos ao envolvimento escolar
dos adolescentes (ou uma alternativa profissionalizante).
Por sua vez, os resultados da comparação dos grupos em função da existência de
conflitos entre os pais sugerem que os adolescentes cujos pais apresentam uma
relação conflituosa, tendem a reportar níveis significativamente mais elevados
de sintomatologia psicopatológica. Assim, reportando-nos ao trabalho de Rutter
e Smith (1995), se o conflito no seio da família é um factor de risco para o
desenvolvimento de perturbações psicopatológicas e de problemas de adaptação
psicossocial na criança e no adolescente, a sua ausência (ou baixa prevalência)
deveria, a par com outros factores protectores (e.g., atitudes parentais
pautadas por afecto e por supervisão ou controlo parental), estar associada a
um melhor ajustamento psicossocial (Fleming, 1997). Também neste sentido,
Lerner, Lerner, Almerigi, e Theokas (2005) preconizam que os conflitos
conjugais se encontram entre os factores de vulnerabilidade familiar, pela
probabilidade acrescida de interferirem nas competências parentais.
No nosso entender, os conflitos conjugais podem influir na disponibilidade
emocional dos pais, reduzindo a sua capacidade de resposta às necessidades
emocionais do adolescente. Fica no entanto por responder a questão levantada
por Balbernie (2002) e por Strand (2000) de percebermos se os conflitos
parentais terão um impacto imediato na criança, ou se este factor será de risco
por afectar a qualidade da parentalidade. Resta-nos adiantar que embora não
saibamos o seu peso relativo, provavelmente, os dois factores são relevantes
para o bem-estar dos adolescentes.