Para um racional bioniano de interpretação dos dados projectivos
-"O campo do psicanalista é o que está entre o ponto em que o
sujeito recebe impressões sensoriais e o ponto em que exprime a transformação
que ele operou sobre elas" (Bion, 1965, p. 57);
-a prática psicanalítica consiste na "transformação de uma
realização (a experiência psicanalítica real) numa interpretação ou numa série
de interpretações" (Bion, 1965, p. 13).
Extrapolando para o domínio das técnicas projectivas, será, pois, no campo da
transformação que a análise/interpretação da resposta/história do sujeito deve
ser considerada.
Cabe ao clínico "projectivista" determinar o significado e a
qualidade das transformações operadas pelo sujeito na situação projectiva. Ao
examinador são dados a conhecer a conjunção que emana do material (conteúdos
manifesto e latente do material) e a conjunção, a constelação de fenómenos que
emanam de O(realidade incognoscível), tendo também em conta que a história do
sujeito contém uma dimensão tranferencial (Brelet, 1986).
Uma das tarefas do examinador é, por exemplo, determinar se o relato do sujeito
(história-TAT) "se caracteriza sobretudo pela necessidade de dissimular O
ou pela necessidade de dar de O uma representação tão directa quanto
possível" (Bion, 1965, p. 30), o que muitas vezes só é possível saber
pelo efeito cumulativo que várias histórias/respostas produzem no examinador.
Os enunciados (respostas-Rorschach ou histórias-TAT) do sujeito são
interpretadas sob a forma de um outro ponto de vista (Ta beta) em função do
conteúdo latente de cada imagem pois "a verdade é essencial a todo e
qualquer valor de (Ta beta)" (Ibid., p. 48). Isto quer dizer que a
interpretação do examinador visa repor/descodificar a transformação do sujeito,
em direcção a O(realidade incognoscível). A "resposta- história
ideal" estará portanto na procura da verdade de si mesmo, ou seja, na
capacidade de ser aquilo que se é, "being O", de acordo com K→O
(transformação em O).
Em termos da relação continente/conteúdo (♁♂) - e mais evidentemente em
relação às provas projectivas temáticas - partimos do princípio que se
verifica um encontro entre o conteúdo latente (CL) das imagens e a mente do
sujeito: aquele irá evocar emoções e pensamentos que se constituem como
conteúdos (♂) que são activados na mente do sujeito, a qual funciona como
continente (♁) - pensamentos que pressionam o aparelho para pensar.
Este aspecto crucial está relacionado com outra contribuição muito importante
que está contida na relação que Bion estabelece entre a transformação e o campo
emocional: o tipo de vínculo e o grau de tolerância às emoções dolorosas.
As transformações do sujeito operadas na situação projectiva estão sempre sob a
influência dos vínculos L (amor), H (ódio) e K (conhe-cimento), isto é, as suas
produções serão sempre mais ou menos deformadas por L, H ou K.
A transformação, que consiste em tornar Onum pensamento, só é possível se
houver tolerância à experiência emocional de frustração. É por esta razão que o
psicótico "não é capaz de transformar T (o equivalente fenomenal de O) em
Tp beta. Na verdade, ele exprime-se como se sentisse incapaz de transformar O
em T" (Bion, 1965, p. 51).
No caso extremo das transformações em alucinose, estas processam-se na área
psicótica da personalidade onde, por falha da função alfa, as transformações
não envolvem a formação de símbolos, mas sim de equações simbólicas. Essa falha
deve-se à intolerância à ausência do objecto (não-coisa), à intolerância à dor
da privação, às emoções dolorosas.
As transformações na mente do sujeito (Tp) vão depender da qualidade mais ou
menos flexível, elástica da função continente (capacidades receptivas dos
conteúdos internos do sujeito), da qualidade da função de rêverie(capacidades
transformadoras - pensamento onírico de vigília - no sentido da
transformação de proto-emoções ou de turbulência emocional em pensamento),
assim como do seu grau de tolerância à frustração e às emoções dolorosas
- em suma, da sua capacidade continente.
A produção do sujeito (o que conta, como conta e porque conta) vai ter em conta
os seus estados mentais: a maior ou menor tolerabilidade à dispersão (PS), a
maior ou menor capacidade integrativa (D), o grau de tolerância aos pensamentos
e às emoções dolorosas.
As funções da personalidade do sujeito que, no âmbito do pensamento de Bion,
achamos necessárias para operar as transformações da realização em
representação, são a tolerância à dúvida, a tolerância à incerteza, a
tolerância à dor mental, o amor à verdade e o sentido estético.
A QUESTÃO DA INTOLERÂNCIA VERSUSINTOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO
Acabámos de ver como esta é uma problemática fundamental quer na capacidade do
paciente para realizar modificações mentais suficientemente úteis na sua mente
e na sua vida, quer na capacidade do sujeito para realizar produções, que não
são mais que o produto de transformações psíquicas que lhe permitem responder à
situação projectiva.
O ponto de vista de Bion sobre aquela problemática assenta no artigo Uma Teoria
do Pensar(1962) em que ele expõe um modelo teórico onde articula a frustração
("realização negativa") com os desenvolvimentos básicos que estão
subjacentes ao pensamento: o desenvolvimento dos pensamentos e o
desenvolvimento do aparelho para pensar os pensamentos e das duas condições
mentais: a capacidade de tolerância ou incapacidade de tolerância à frustração.
Neste modelo de Bion, a problemática da tolerância/intolerância à frustração
tem reflexos indissociáveis na problemática do pensamento e, perante a
experiência de frustração (realização negativa), dois desenvolvimentos cruciais
podem acontecer: a modificação da frustração em pensamento (e em produção
projectiva) ou a fuga e a criação de não-pensamento (recusa, produção meramente
perceptiva ou produção delirante).
Aplicando a contribuição de Bion para as técnicas projectivas, poderíamos
sintetizar esquematicamente do seguinte modo:
- quer a 'fuga' quer a 'modificação'
têm como objectivo a remoção da dor;
-a 'modificação' é possível graças ao uso da
relação x K y, isto é, o sujeito x quer conhecer algo sobre uma parte
de si próprio y (confrontando-se com um material projectivo dotado de
um conteúdo latente muitas vezes doloroso para ser pensado), ou seja,
pela via do conhecimento, sendo que a relação x K y é ainda assim uma
experiência emocional dolorosa;
- a fuga é conseguida graças à modificação do sentido da
relação x K y, que em vez de x conhecer algo sobre y, se reverte para
o sujeito x como já conhecendo a sua parte y.
A QUESTÃO DA RELAÇÃO ENTREPERCEPÇÃO E PENSAMENTO
Como é óbvio, esta questão é de primeiríssima importância quer para a clínica
quer para os próprios fundamentos das técnicas projectivas. Talvez até fosse
mais correcto designá-las técnicas ou provas de percepção e pensamento, na
medida estas são provas constituídas por estímulos perceptivos aos quais o
sujeito é convidado a produzir pensamentos mais ou menos articulados entre si.
Se, para Freud (1925, 1925a), pensar é um processo constituído por uma
permanente interacção entre percepção e pensamentos, para Bion (1962) pensar é
um processo constituído por uma articulação, uma teia entre os elementos beta
propriamente ditos, isto é, os elementos da percepção e os elementos alfa que
os traduzem psiquicamente.
Amaral Dias traduz este processo interactivo desta forma exemplar:
"pensar é produzir um maior número de elementos beta possíveis, para
produzir o maior número de elementos alfa possíveis" (2004, p. 27).
O problema que se põe é assim o da permanente interacção de elementos
perceptivos que bombardeiam a mente e a necessidade de esta traduzir esses
elementos através de uma função pensante, a função alfa, em elementos alfa.
Existe, deste modo, uma correlação entre a capacidade do aparelho psíquico
tolerar um número elevado de elementos beta e a capacidade que esse mesmo
aparelho psíquico tem de utilizar a função alfa para produzir um maior número
de elementos alfa.
Existe pois, assim como o afirma Amaral Dias, uma relação ou correspondência
recíproca directa entre o pensamento e o não-pensamento. "Assim é
possível afirmar que pensar é permanentemente livrarmo-nos de uma parte
incompatível que é constituída por aqueles elementos da percepção que, não
sendo transformados em pensamento, são revertidos à percepção sob a forma de
elementos alfa revertidos, ou seja, que são incompatíveis com o ego"
(Amaral Dias, 2004, p. 27).
O PROCESSO-TAT SEGUNDO A TEORIA BIONIANA DA IDENTIFICAÇÃO PROJECTIVA NA RELAÇÃO
CONTINENTE-CONTEÚDO
Tendo em conta as três problemáticas tratadas neste trabalho, a saber:
transformações psíquicas, tolerância/versusintolerância à frustração e a
relação entre percepção e pensamento, pensamos estar capacitados para procurar
entender, utilizando um aparelho conceptual bioniano, o processo-TAT, isto é, o
processo de elaboração das histórias TAT, ou seja, o conjunto dos mecanismos
mentais mobilizados na "situação-TAT", isto é, nessa situação
particular em que um examinador pede ao sujeito para imaginar uma história a
partir de cada imagem (cartão TAT), isto é, forjar uma fantasia a partir da
realidade.
O modelo teórico que subjaz ao processo-TAT é o de Bion (1962, 1963) e deriva
do modelo de desenvolvimento infantil, reportando-se à relação precoce com o
objecto materno e às mais primitivas interacções mãe-bébé.
O conteúdo latente das imagens-TAT desencadeia pensamentos e emoções que irão
pressionar a mente no sentido de serem pensados. O sujeito deve ser capaz de
aceitar, tolerar e transformar esses conteúdos - produzidos pela
identificação projectiva interna - de modo a que se tornem aceitáveis,
toleráveis para a sua mente; deve portanto possuir a suficiente capacidade
continente interna de modo a esses pensamentos poderem ser tolerados e
simbolizados.
O contacto com o complexo de representações/afectos activado pelo conteúdo
latente da imagem, assim como a necessidade de os pensar, implica a emergência
de sofrimento psíquico.
Só com uma capacidade satisfatória de tolerância ao sofrimento/frustração
psíquica o sujeito poderá elaborar uma história-TAT. A intolerância ao
sofrimento/frustração é concomitante com a mobilização de defesas mais ou menos
poderosas visando anular, paralisar ou distorcer o pensamento e outras funções
do ego.
Os processos de contenção-transformação-devolução interna estão assim não só na
dependência da maior ou menor tolerância à frustração/sofrimento, da qualidade
da função continente e da função alfa, mas também do tipo de vínculo emocional
predominante (L, H ou K) que o sujeito tem consigo próprio (e com o
examinador).
Perante a experiência de frustração, a realização negativa pode dar lugar à sua
simbolização ou não, em função da capacidade de tolerância a essa frustração, e
a experiência pode ser nomeada ou não através da palavra (narrativa).
Deste modo, numa situação de tolerância à frustração, pode dar-se uma
realização negativa ("não-coisa"), uma transformação. Caso
contrário, dá-se uma não-transformação: a fuga, o evitamento, a defesa pelo
perceptivo, ou pelo projectivo "evacuativo", etc., tudo o que possa
afastar o sujeito da confrontação com a sua verdade interna.
Concluindo, o processo-TAT tem necessariamente de ter em conta a capacidade do
sujeito em tolerar a dor mental e a frustração para que possa levar a cabo as
transformações necessárias às experiências de frustração, inevitavelmente
impostas pelo contacto com aspectos dolorosos da realidade interna, activadas
pelas características do conteúdo latente das imagens.
O sujeito irá assim testar o seu modo dominante de funcionamento psico-
emocional: fugir/evitar ou tolerar/transformar a frustração geradora de
angústia, pensando/criando algo.