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EuPTHUHu0870-82312009000100009

National varietyEu
Country of publicationPT
SchoolHumanities
Great areaHuman Sciences
ISSN0870-8231
Year2009
Issue0001
Article number00009

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Para um racional bioniano de interpretação dos dados projectivos -"O campo do psicanalista é o que está entre o ponto em que o sujeito recebe impressões sensoriais e o ponto em que exprime a transformação que ele operou sobre elas" (Bion, 1965, p. 57); -a prática psicanalítica consiste na "transformação de uma realização (a experiência psicanalítica real) numa interpretação ou numa série de interpretações" (Bion, 1965, p. 13).

Extrapolando para o domínio das técnicas projectivas, será, pois, no campo da transformação que a análise/interpretação da resposta/história do sujeito deve ser considerada.

Cabe ao clínico "projectivista" determinar o significado e a qualidade das transformações operadas pelo sujeito na situação projectiva. Ao examinador são dados a conhecer a conjunção que emana do material (conteúdos manifesto e latente do material) e a conjunção, a constelação de fenómenos que emanam de O(realidade incognoscível), tendo também em conta que a história do sujeito contém uma dimensão tranferencial (Brelet, 1986).

Uma das tarefas do examinador é, por exemplo, determinar se o relato do sujeito (história-TAT) "se caracteriza sobretudo pela necessidade de dissimular O ou pela necessidade de dar de O uma representação tão directa quanto possível" (Bion, 1965, p. 30), o que muitas vezes é possível saber pelo efeito cumulativo que várias histórias/respostas produzem no examinador.

Os enunciados (respostas-Rorschach ou histórias-TAT) do sujeito são interpretadas sob a forma de um outro ponto de vista (Ta beta) em função do conteúdo latente de cada imagem pois "a verdade é essencial a todo e qualquer valor de (Ta beta)" (Ibid., p. 48). Isto quer dizer que a interpretação do examinador visa repor/descodificar a transformação do sujeito, em direcção a O(realidade incognoscível). A "resposta- história ideal" estará portanto na procura da verdade de si mesmo, ou seja, na capacidade de ser aquilo que se é, "being O", de acordo com K→O (transformação em O).

Em termos da relação continente/conteúdo (♁♂) - e mais evidentemente em relação às provas projectivas temáticas - partimos do princípio que se verifica um encontro entre o conteúdo latente (CL) das imagens e a mente do sujeito: aquele irá evocar emoções e pensamentos que se constituem como conteúdos () que são activados na mente do sujeito, a qual funciona como continente () - pensamentos que pressionam o aparelho para pensar.

Este aspecto crucial está relacionado com outra contribuição muito importante que está contida na relação que Bion estabelece entre a transformação e o campo emocional: o tipo de vínculo e o grau de tolerância às emoções dolorosas.

As transformações do sujeito operadas na situação projectiva estão sempre sob a influência dos vínculos L (amor), H (ódio) e K (conhe-cimento), isto é, as suas produções serão sempre mais ou menos deformadas por L, H ou K.

A transformação, que consiste em tornar Onum pensamento, é possível se houver tolerância à experiência emocional de frustração. É por esta razão que o psicótico "não é capaz de transformar T (o equivalente fenomenal de O) em Tp beta. Na verdade, ele exprime-se como se sentisse incapaz de transformar O em T" (Bion, 1965, p. 51).

No caso extremo das transformações em alucinose, estas processam-se na área psicótica da personalidade onde, por falha da função alfa, as transformações não envolvem a formação de símbolos, mas sim de equações simbólicas. Essa falha deve-se à intolerância à ausência do objecto (não-coisa), à intolerância à dor da privação, às emoções dolorosas.

As transformações na mente do sujeito (Tp) vão depender da qualidade mais ou menos flexível, elástica da função continente (capacidades receptivas dos conteúdos internos do sujeito), da qualidade da função de rêverie(capacidades transformadoras - pensamento onírico de vigília - no sentido da transformação de proto-emoções ou de turbulência emocional em pensamento), assim como do seu grau de tolerância à frustração e às emoções dolorosas - em suma, da sua capacidade continente.

A produção do sujeito (o que conta, como conta e porque conta) vai ter em conta os seus estados mentais: a maior ou menor tolerabilidade à dispersão (PS), a maior ou menor capacidade integrativa (D), o grau de tolerância aos pensamentos e às emoções dolorosas.

As funções da personalidade do sujeito que, no âmbito do pensamento de Bion, achamos necessárias para operar as transformações da realização em representação, são a tolerância à dúvida, a tolerância à incerteza, a tolerância à dor mental, o amor à verdade e o sentido estético.

A QUESTÃO DA INTOLERÂNCIA VERSUSINTOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO Acabámos de ver como esta é uma problemática fundamental quer na capacidade do paciente para realizar modificações mentais suficientemente úteis na sua mente e na sua vida, quer na capacidade do sujeito para realizar produções, que não são mais que o produto de transformações psíquicas que lhe permitem responder à situação projectiva.

O ponto de vista de Bion sobre aquela problemática assenta no artigo Uma Teoria do Pensar(1962) em que ele expõe um modelo teórico onde articula a frustração ("realização negativa") com os desenvolvimentos básicos que estão subjacentes ao pensamento: o desenvolvimento dos pensamentos e o desenvolvimento do aparelho para pensar os pensamentos e das duas condições mentais: a capacidade de tolerância ou incapacidade de tolerância à frustração.

Neste modelo de Bion, a problemática da tolerância/intolerância à frustração tem reflexos indissociáveis na problemática do pensamento e, perante a experiência de frustração (realização negativa), dois desenvolvimentos cruciais podem acontecer: a modificação da frustração em pensamento (e em produção projectiva) ou a fuga e a criação de não-pensamento (recusa, produção meramente perceptiva ou produção delirante).

Aplicando a contribuição de Bion para as técnicas projectivas, poderíamos sintetizar esquematicamente do seguinte modo:

- quer a 'fuga' quer a 'modificação' têm como objectivo a remoção da dor; -a 'modificação' é possível graças ao uso da relação x K y, isto é, o sujeito x quer conhecer algo sobre uma parte de si próprio y (confrontando-se com um material projectivo dotado de um conteúdo latente muitas vezes doloroso para ser pensado), ou seja, pela via do conhecimento, sendo que a relação x K y é ainda assim uma experiência emocional dolorosa; - a fuga é conseguida graças à modificação do sentido da relação x K y, que em vez de x conhecer algo sobre y, se reverte para o sujeito x como conhecendo a sua parte y.

A QUESTÃO DA RELAÇÃO ENTREPERCEPÇÃO E PENSAMENTO Como é óbvio, esta questão é de primeiríssima importância quer para a clínica quer para os próprios fundamentos das técnicas projectivas. Talvez até fosse mais correcto designá-las técnicas ou provas de percepção e pensamento, na medida estas são provas constituídas por estímulos perceptivos aos quais o sujeito é convidado a produzir pensamentos mais ou menos articulados entre si.

Se, para Freud (1925, 1925a), pensar é um processo constituído por uma permanente interacção entre percepção e pensamentos, para Bion (1962) pensar é um processo constituído por uma articulação, uma teia entre os elementos beta propriamente ditos, isto é, os elementos da percepção e os elementos alfa que os traduzem psiquicamente.

Amaral Dias traduz este processo interactivo desta forma exemplar: "pensar é produzir um maior número de elementos beta possíveis, para produzir o maior número de elementos alfa possíveis" (2004, p. 27).

O problema que se põe é assim o da permanente interacção de elementos perceptivos que bombardeiam a mente e a necessidade de esta traduzir esses elementos através de uma função pensante, a função alfa, em elementos alfa.

Existe, deste modo, uma correlação entre a capacidade do aparelho psíquico tolerar um número elevado de elementos beta e a capacidade que esse mesmo aparelho psíquico tem de utilizar a função alfa para produzir um maior número de elementos alfa.

Existe pois, assim como o afirma Amaral Dias, uma relação ou correspondência recíproca directa entre o pensamento e o não-pensamento. "Assim é possível afirmar que pensar é permanentemente livrarmo-nos de uma parte incompatível que é constituída por aqueles elementos da percepção que, não sendo transformados em pensamento, são revertidos à percepção sob a forma de elementos alfa revertidos, ou seja, que são incompatíveis com o ego" (Amaral Dias, 2004, p. 27).

O PROCESSO-TAT SEGUNDO A TEORIA BIONIANA DA IDENTIFICAÇÃO PROJECTIVA NA RELAÇÃO CONTINENTE-CONTEÚDO Tendo em conta as três problemáticas tratadas neste trabalho, a saber: transformações psíquicas, tolerância/versusintolerância à frustração e a relação entre percepção e pensamento, pensamos estar capacitados para procurar entender, utilizando um aparelho conceptual bioniano, o processo-TAT, isto é, o processo de elaboração das histórias TAT, ou seja, o conjunto dos mecanismos mentais mobilizados na "situação-TAT", isto é, nessa situação particular em que um examinador pede ao sujeito para imaginar uma história a partir de cada imagem (cartão TAT), isto é, forjar uma fantasia a partir da realidade.

O modelo teórico que subjaz ao processo-TAT é o de Bion (1962, 1963) e deriva do modelo de desenvolvimento infantil, reportando-se à relação precoce com o objecto materno e às mais primitivas interacções mãe-bébé.

O conteúdo latente das imagens-TAT desencadeia pensamentos e emoções que irão pressionar a mente no sentido de serem pensados. O sujeito deve ser capaz de aceitar, tolerar e transformar esses conteúdos - produzidos pela identificação projectiva interna - de modo a que se tornem aceitáveis, toleráveis para a sua mente; deve portanto possuir a suficiente capacidade continente interna de modo a esses pensamentos poderem ser tolerados e simbolizados.

O contacto com o complexo de representações/afectos activado pelo conteúdo latente da imagem, assim como a necessidade de os pensar, implica a emergência de sofrimento psíquico.

com uma capacidade satisfatória de tolerância ao sofrimento/frustração psíquica o sujeito poderá elaborar uma história-TAT. A intolerância ao sofrimento/frustração é concomitante com a mobilização de defesas mais ou menos poderosas visando anular, paralisar ou distorcer o pensamento e outras funções do ego.

Os processos de contenção-transformação-devolução interna estão assim não na dependência da maior ou menor tolerância à frustração/sofrimento, da qualidade da função continente e da função alfa, mas também do tipo de vínculo emocional predominante (L, H ou K) que o sujeito tem consigo próprio (e com o examinador).

Perante a experiência de frustração, a realização negativa pode dar lugar à sua simbolização ou não, em função da capacidade de tolerância a essa frustração, e a experiência pode ser nomeada ou não através da palavra (narrativa).

Deste modo, numa situação de tolerância à frustração, pode dar-se uma realização negativa ("não-coisa"), uma transformação. Caso contrário, dá-se uma não-transformação: a fuga, o evitamento, a defesa pelo perceptivo, ou pelo projectivo "evacuativo", etc., tudo o que possa afastar o sujeito da confrontação com a sua verdade interna.

Concluindo, o processo-TAT tem necessariamente de ter em conta a capacidade do sujeito em tolerar a dor mental e a frustração para que possa levar a cabo as transformações necessárias às experiências de frustração, inevitavelmente impostas pelo contacto com aspectos dolorosos da realidade interna, activadas pelas características do conteúdo latente das imagens.

O sujeito irá assim testar o seu modo dominante de funcionamento psico- emocional: fugir/evitar ou tolerar/transformar a frustração geradora de angústia, pensando/criando algo.


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