Relações entre o conhecimento das emoções, as competências académicas, as
competências sociais e a aceitação entre pares
Sendo a prontidão escolar um constructo multi-dimensional que envolve a
família, pares, escola e a comunidade, são sobretudo as competências de auto-
regulação as que estão subjacentes a grande parte dos comportamentos e
atributos associados ao sucesso na adaptação à escola. Segundo Blair (2002),
dados obtidos a partir do Centro Nacional de Estatística para a educação nos
Estados Unidos, indicam que os professores se preocupam predominantemente com
os aspectos auto-regulatórios: comunicar necessidades, desejos e pensamentos
verbalmente, seguir instruções, não ser disruptivo na sala de aula e estar
sensível aos sentimentos dos outros. Crianças com expressividade positiva e
níveis moderados de intensidade emocional são descritas pelos professores como
mais disponíveis para a aprendizagem, obtendo desta forma melhores resultados
(Martin, Drew, Gaddis, & Moseley, 1988; Palinsin, 1986).
Os mecanismos de auto-regulação envolvem competências cognitivas, emocionais e
sociais, sobretudo as que estão envolvidas nas amizades e nas interacções
sociais, tendo estas, um papel central nas capacidades auto-regulatórias
necessárias à transição para a escola básica (Ladd, Birch, & Buhs, 1999;
Pianta, 2006).
Recentemente, a investigação tem sublinhado a importância da competência social
e da regulação emocional na prontidão e adequação escolar (Carlton &
Winsler, 1999; Pianta, Steinberg, & Rollins, 1995). Nomeadamente, que a
competência emocional se relaciona com o sucesso social e académico (Denham,
2007; Izard, Fine, Shultz, Mostow, Ackerman, & Youngstrom, 2001), sendo
central para o desenvolvimento da capacidade da criança interagir e de formar
relações positivas com os outros (Denham, 2007; Parke, 1994; Saarni, 1999).
COMPETÊNCIA EMOCIONAL
Nas crianças em idade pré-escolar são destacadas três componentes da
competência emocional, que se encontram associadas com o ajustamento escolar:
(1) o conhecimento das emoções - identificar, reconhecer e nomear
emoções; diferenciar as próprias emoções; compreender as emoções dos outros com
base nas expressões faciais e, nas características das situações de contexto
emocional; (2) a regulação das emoções - capacidade de modular a
intensidade ou a duração dos estados emocionais; (3) o expressar emoção em
situações sociais (Denham, 2007; Miller, Fine, Gouley, Seifer, Dickstein, &
Shields, 2006).
O conhecimento das emoções implica quatro pressupostos: 1) a avaliação de que a
pessoa está a enviar uma mensagem afectiva; 2) interpretação da mensagem
afectiva; 3) compreensão de acordo com as regras sociais de expressividade; 4)
aplicação dessa compreensão ao contexto específico. As crianças em idade pré-
escolar são capazes de: (1) nomear e reconhecer as expressões faciais da maior
parte das emoções, identificar situações típicas que desencadeiam emoções
(Denham & Couchoud, 1990), (2) conversar sobre causas e consequências das
emoções, (3) ter consciência de emoções desencadeadas por situações
ambivalentes, (4) conciliar conflitos entre as características das situações e
as das expressões faciais, (5) utilizar a informação pessoal acerca das
reacções emocionais (Denham & Couchoud, 1990; Gnepp, 1989), (6) compreender
a regulação emocional, as regras sociais de expressividade e, simultaneamente a
sua ambivalência. Contudo, manifestam, ainda, algumas dificuldades uma vez que
ao interpretarem as emoções, centram a sua atenção nas características das
situações ou, nas expressões faciais (Denham, 2007). As crianças desenvolvem
gradualmente a competência de identificar emoções, de reconhecer o significado
das expressões faciais, e de compreender o modo como as características das
situações podem afectar as emoções dos outros (Denham & Couchoud, 1990;
Gross & Ballif, 1991; Michalson & Lewis, 1985). Estas aquisições são
influenciadas por diversos factores de risco/protecção de natureza ambiental
(e.g. sintomas depressivos da mãe), pelo estabelecimento de uma relação de
vinculação segura (Rosnay & Harris, 2002), pelas competências cognitivas da
criança, em particular as suas competências verbais (Bennett, Bendersky, &
Lewis, 2005; Cutting & Dunn, 1999; Izard, 2001; Rosnay & Harris, 2002)
e, pela inteligência verbal da mãe (Bennett et al., 2005). No entanto, Tronick
(1989) e Izard (2001) sugerem que as competências para compreender sinais
emocionais, os discriminar e, responder de modo adequado sejam, de alguma
forma, independentes do desenvolvimento cognitivo, sendo influenciadas por
factores hereditários.
A capacidade de nomear verbalmente as emoções e de as identificar, não
verbalmente, aumenta dos dois aos quatro anos e meio de idade (Denham &
Couchoud, 1990; Denham, 1998; Denham, 2007). As crianças começam por aprender a
diferenciar entre situações felizes e situações não felizes, e mais tarde a
distinguir entre as situações de tristeza, raiva ou medo (Denham, 1998; Mostow,
Izard, Fine, & Trentacosta, 2002). Entre os três e os quatro anos, na sua
maioria, as crianças já conseguem reconhecer e nomear expressões emocionais,
com base nas emoções básicas, quando lhes são apresentadas fotografias (Hughes
& Dunn, 1998) e, com três anos, reconhecem um mínimo de quatro, de entre
cinco, emoções com base na sua expressão facial (Pons & Harris, 2004). As
expressões de alegria são discriminadas mais cedo e com maior facilidade pelas
crianças, seguidas das de tristeza e, mais tarde, das expressões de raiva e
surpresa (Walden & Field, 1982). Crianças com cinco anos identificam as
emoções (não verbalmente) com maior facilidade do que as nomeiam verbalmente.
Contudo, nomeiam mais facilmente as emoções de alegria e de tristeza,
comparativamente com as de raiva e medo, tendo maior dificuldade na nomeação
das emoções de medo e nojo (Denham, 1998).
RECONHECIMENTO DE EMOÇÕES, RELAÇÕES ENTRE PARES E COMPETÊNCIA SOCIAL
Alguns estudos demonstram que as crianças com maior capacidade de reconhecer e
nomear emoções são mais aceites pelos pares e têm melhores resultados
académicos, quando se controla a competência verbal (Garner, Jones, &
Miner, 1994; Izard, 1971) e, apresentam melhor adaptação e sucesso escolar
(Walden & Field, 1990). Melhores resultados no reconhecimento e na nomeação
das emoções correlacionam-se positivamente com a competência social quando se
controla índices de inteligência e de temperamento (Izard, 2001). As
capacidades de perceber e nomear emoções relacionam-se com a comunicação da
emoção - a descodificação e a codificação dos sinais emocionais -
e, quando em défice, leva à comunicação inadequada ou insuficiente atrasando a
competência social. São, também, fundamentais à empatia e simpatia. A empatia
está positivamente associada ao comportamento prósocial e negativamente
associada à agressividade e ao comportamento anti-social (Arsénio & Lover,
1997; Denham & Burger, 1991; Eisenberg & Fabes, 1998; Miller &
Olson, 2000).
As crianças em idade pré-escolar demonstram um conhecimento considerável acerca
das causas e consequências das situações emocionais, centrando-se nas
qualidades salientes das situações e, nas expressões emocionas dos indivíduos.
Na ausência de expressão emocional, as crianças tendem a inferir a emoção a
partir da situação (Denham, 1998). No entanto, se as diversas fontes de
informação forem contraditórias, as crianças tendem a orientar-se pelas
expressões emocionais estando, porém, a iniciar uma fase em que já reconciliam
conjuntos ambivalentes de sinais. Crianças de quatro anos tendem a mencionar
apenas factores situacionais, negligenciando ou não explicitando a experiência
mental da pessoa (e.g. está zangado, porque isto é só para as raparigas),
enquanto as crianças mais velhas, de seis anos, mostram um aumento progressivo
de consideração pelo carácter subjectivo das emoções, o que se pode inferir
pelas referências explícitas aos desejos e/ou crenças dos intervenientes das
situações (e.g. está zangado porque não quer isto e quer outra coisa) (Denham,
1998).
Dunn (1988) observou um súbito aumento do interesse das crianças (três anos)
pelas causas das emoções de outras pessoas, uma vez que nestas idades começam a
compreender a ligação directa entre os elementos de uma situação e as emoções,
antecipando por exemplo, a emoção de alegria, quando se recebe algo de
desejável e, a emoção de tristeza, quando se frustra esse desejo (Wellman &
Banerjee, 1991). Compreendem, ainda, que as emoções podem ser consequência da
interpretação de uma situação e não o mero produto mecânico desta por si só.
Tal requer uma teoria da mente que toma como referência não a realidade
objectiva, mas sim as suas representações subjectivas sabendo que são estas que
guiam as emoções e os actos das pessoas. Porém, a maioria das crianças desta
idade, ainda, pensam que as suas ideias acerca do que é desejável e as suas
crenças acerca do verdadeiro estado de coisas se aplicam a toda a gente. Apenas
por volta dos cinco anos, as crianças contemplam o facto de as pessoas terem
desejos e crenças diferentes dos seus (Rieffe, Terwogt, & Cowan, 2005). No
entanto, as crianças poderão não manifestar a sua capacidade de levar em conta
a informação pessoal e os estados mentais de outras pessoas em situações de
maior intensidade emocional (Gnepp, 1983). Quando aumenta a intensidade das
emoções, as crianças tendem a focar-se em factores internos associados aos seus
próprios objectivos (Denham, 1998). Muitas crianças de idade pré-escolar citam
os mesmos temas e as mesmas pessoas como causas para a raiva e para a tristeza,
compreendendo a ambivalência das situações e sabendo que ambas as emoções podem
resultar de situações semelhantes: percebendo a obstrução dos seus objectivos
pelo outro, activa-se a raiva, enquanto a tristeza resulta de uma percepção
mais solitária da incapacidade de atingir o objectivo (Fabes, Eisenberg, &
McCormick, 1988).
Ao longo da vida da criança, as emoções e as cognições começam a formar rápidas
ligações entre si, tendo a linguagem um papel fundamental na sua formação. No
fim da primeira infância, muitas das crianças já possuem um vocabulário
funcional, importante componente da capacidade cognitiva, que prevê várias
facetas do conhecimento das emoções (Izard et al., 2001). Vários autores
salientam a interdependência entre a competência emocional e a competência
social. Waters e Sroufe (1983) sugerem uma aproximação integrada da competência
social, definindo-a como capacidade de gerir o comportamento, o afecto e a
cognição de modo a atingir os seus objectivos sociais, sem (1) constranger as
oportunidades dos seus pares e (2) se envolver numa trajectória de
desenvolvimento que possa inviabilizar oportunidades de objectivos sociais
ainda não passíveis de antecipação. Em crianças do pré-escolar uma das tarefas
fundamentais é a aquisição da capacidade de envolvimento positivo com os pares,
gerindo em simultâneo a sua excitação emocional e indo ao encontro de
expectativas sociais dos adultos significativos. Inclui-se nestas tarefas a
coordenação do jogo e do brincar, resultado de processos sociais de cooperação,
gestão de conflito, criação de um clima de "eu também", fantasia
partilhada, e amizade. As componentes da competência emocional ajudam no
sucesso destas interacções sociais, apoiando capacidades tais como o ouvir, o
cooperar, o pedir ajuda, o entrar num pequeno grupo ou abordar um par, e o
negociar. Interacções independentes e bem sucedidas com os pares prevêem a
saúde mental e o bem-estar desde o início do pré-escolar, passando pelos
primeiros anos de escola quando a reputação social se consolida e, continuando
ao longo da vida (Denham, 2007).
As crianças com maior conhecimento das emoções respondem de forma mais positiva
aos pares e professores, tornam-se mais capazes de verbalizar as suas emoções e
estão mais prontas a mostrar empatia e preocupação com os outros, sugerindo-se
que o conhecimento das emoções facilita as interacções sociais e as relações
interpessoais ao contribuir para a aceitação entre pares. Efectivamente,
crianças mais conhecedoras das emoções dos outros serão mais capazes de
negociar as situações com os seus pares, obtendo, assim, melhores resultados e
um menor número de conflitos (Miller et al., 2006).
À medida que a criança cresce e passa mais tempo na escola, o efeito do
conhecimento das emoções sobre um comportamento socialmente adaptado torna-se
cada vez mais importante nas interacções com os seus pares, sendo a aceitação
entre pares um dos melhores índices do funcionamento social das crianças, em
idades do pré-escolar. Crianças que, aos cinco anos de idade, não conseguem,
ainda, diferenciar a alegria da tristeza, ou que se confundem nas tarefas de
reconhecimento das expressões faciais e de inferências a partir de situações de
contexto emocional, estão em risco de serem menos escolhidas (Denham, 1993). As
crianças mais aptas na compreensão das situações emocionais e as que exibem
comportamentos mais pró-sociais são as que apresentam uma maior probabilidade
de virem a ser as mais aceites pelos seus pares (Denham et al., 1990). Dados
que apresentam maior relevância se considerarmos que as crianças mais aceites
pelos pares tendem a manifestar melhor adaptação escolar, mais qualidade nas
suas relações e a interagir em ambientes sociais mais ricos (Ladd,
Kochenderfer, & Coleman, 1997). As crianças mais escolhidas tendem a ser
mais amigas, mais conversadoras, mais cooperativas, mais prestáveis, mais
sociáveis e mais capazes de iniciarem e manterem interacções sociais e discurso
coerente (Coie, Dodge, & Kupersmidt, 1990; Denham & Holt, 1993; Kemple,
Speranza, & Hazen, 1992; Parke et al., 1997), são mais capazes de se
envolverem e organizarem actividades em grupo e de reconhecerem e regularem a
expressão afectiva e emocional (Denham & Grout, 1993; Vaughn & Waters,
1981; Bost, Vaughn, Washington, Cielinsky, Caya, & Bradbard, 1998).
Crianças mais escolhidas pelos pares tendem a ter mais oportunidades para se
envolverem em interacções socialmente ricas, aprendendo e praticando
comportamentos socialmente adequados. Assim, verifica-se que os efeitos entre a
competência social e a aceitação entre pares são bi-direccionais,
acrescentando-se que o conhecimento das emoções prevê a aceitação entre pares
(Denahm et al., 1990; Garner, Jones, & Miner, 1994; Walden & Field,
1990). O processamento da informação social inclui competências que requerem o
conhecimento das emoções, e este contribui igualmente para as competências
sociais (Mostow et al., 2002). Deste modo, o conhecimento das emoções pode
eventualmente representar o processo através do qual as competências sociais
afectam a preferência social.
RECONHECIMENTO DE EMOÇÕES, SUCESSO ACADÉMICO E ACEITAÇÃO ENTRE PARES
Crianças que apresentam uma capacidade verbal mais elevada são mais capazes de
aprender os sinais emocionais e comunicar verbalmente a informação emocional,
facilitando as interacções sociais positivas (Mostow et al., 2002). O
conhecimento das emoções está relacionado com a competência verbal (Smith &
Walden, 1998), é considerado como capacidade sócio-cognitiva (Mostow et al.,
2002), tendo ficado demonstrada uma associação directa entre o conhecimento das
emoções e a competência académica (Trentacosta & Izard, 2007). A
investigação tem consistentemente estabelecido associações positivas entre o
conhecimento das emoções, sucesso escolar e competências sociais (McClelland,
Morrison, & Holmes, 2000; Mostow et al., 2002). Ao contrário, a ausência de
conhecimento das emoções reduz a riqueza das interacções com os pares,
afectando a disposição emocional, a concentração e a motivação para a
realização das tarefas escolares (Izard et al., 2001). Por sua vez, as crianças
que são adeptas da resolução de problemas sociais tendem a ser mais aceites
pelos seus pares (Rubin & Daniels-Beirness, 1983; Rubin, Daniels-Beirness,
& Hayvren, 1982). A capacidade verbal e a resolução de problemas sociais
estão correlacionadas (Coy, Speltz, DeKleyn, & Jones, 2001) e, estão ambas
ligadas aos processos emocionais e ao comportamento socialmente adaptado, tendo
sido também estabelecidas anteriormente, pela investigação, correlações entre
os factores cognitivos e a aceitação entre pares (Estell, Farmer, Cairns, &
Cairns, 2002; Izard et al., 2001, Denham, 2007). A utilização das palavras
apropriadas possibilita a interpretação e a comunicação da emoção e dos sinais
sociais, enquanto que a implementação de estratégias de processamento de
informação social adequadas facilita as interacções sociais positivas (Mostow
et al., 2002). Crianças inteligentes e academicamente competentes tendem a ter
um estatuto sociométrico mais elevado, do que as menos inteligentes (Field
& Walden, 1982).
Também em crianças mais velhas, a investigação tem concluído que a aceitação
entre pares se relaciona com a motivação para o sucesso académico (Wentzel,
1991) e que as crianças de estatuto social rejeitado têm menos interesse pela
escola (Wentzel & Asher, 1995) com resultados escolares mais negativos
(Coie, Dodge, & Kupersmidt, 1990; Parker & Asher, 1987). Ambas as
associações e o desejo de manter o estatuto podem reforçar o seu comportamento
e aumentar a sua motivação ao longo do tempo (Estell et al., 2002). Estes
resultados poderão ser explicados pelo facto de (1) a aceitação dos pares
tender para a promoção e adopção das normas institucionais, enquanto a rejeição
pode levar à negação de tais normas (Wentzel & Asher, 1995); algumas das
características individuais comuns entre as crianças de elevado estatuto social
que promovem a aceitação entre pares, podem levar também ao sucesso académico
(Wentzell, 1991), como, por exemplo, o controlo de impulsos e a auto-confiança.
Por ser eventualmente capaz de representar os processos através dos quais as
capacidades académicas prevêem a aceitação entre pares, o conhecimento das
emoções foi examinado como mediador da relação entre as competências académicas
e a aceitação entre pares.
OBJECTIVO
O presente trabalho analisa as relações entre os factores psicológicos,
nomeadamente, o conhecimento das emoções, as competências sociais e as
competências académicas e, os factores proximais, mais concretamente a
aceitação entre pares. É assumido que estas são condições favoráveis aos
mecanismos de auto-regulação subjacentes ao sucesso na prontidão e adaptação
escolar.
São testadas as seguintes hipóteses: (1) o conhecimento das emoções é um factor
de mediação na associação entre as competências académicas e a aceitação entre
pares; (2) o conhecimento das emoções é um factor de mediação na associação
entre as competências sociais e a aceitação entre pares.
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 40 crianças, com idades compreendidas entre os 61 e
os 88 meses, (M=72.47; DP=6.56), sendo 22 do género masculino e 18 do género
feminino, que frequentam três salas de duas instituições da rede particular de
ensino no Concelho de Oeiras e Cascais. As idades de entrada na Creche/ Jardim-
de-Infância variam entre os 4 e os 30 meses (M=8.63, DP= 6.22), passando entre
3 a 10 horas/ dia (M=7.47, DP=1.50) neste contexto. Todas as mães e pais
trabalham a tempo inteiro. As famílias pertencem a um nível socio-económico
médio/médio alto, tendo sido recrutadas para o projecto através das Creches/
Jardins-de-infância de ensino particular que as crianças frequentam. Estas
famílias participam num projecto longitudinal mais vasto que analisa o
desenvolvimento social e afectivo de crianças entre os dois anos e meio e os
seis anos.
Instrumentos
Análise do Conhecimento das Emoções
O conhecimento das emoções foi avaliado individualmente, utilizando a adaptação
portuguesa do Teste de Conhecimento de Emoções de Denham et al.(1990),
realizada por Machado, Veríssimo, Monteiro, Peceguina, Torres e Santos (2008).
O instrumento utiliza fantoches com faces amovíveis que poderão expressar uma
de quatro possíveis emoções (alegria, tristeza, raiva e medo). As tarefas
organizam-se em dois conjuntos distintos: 1) reconhecimento verbal e
identificação não verbal da expressão emocional; 2) conhecimento das emoções
desencadeadas em situações típicas e atípicas.
O reconhecimento verbal é composto por quatro tarefas, uma por cada emoção,
avaliando a capacidade da criança atribuir um nome à emoção expressa nas faces
amovíveis dos fantoches. A identificação não verbal é igualmente composta por
quatro tarefas, uma por cada emoção que avaliam a capacidade da criança em
identificar a expressão facial nas faces amovíveis, através da indicação do seu
nome fornecida pelo administrador. Assim, estas tarefas incluíram tanto a
produção do vocabulário das emoções, como a compreensão não verbal do seu
significado.
O conhecimento das situações emocionais foi avaliado através de determinadas
situações de contexto emocional, descritas em vinte vinhetas, cujos
protagonistas foram os fantoches (os irmãos João e Inês mais a respectiva mãe),
sendo o fantoche João ou Inês (consoante o género da criança em presença)
personalizado através da mímica gestual, facial e vocal do administrador,
pretendendo-se avaliar a capacidade da criança em conhecer as causas das
emoções quando associadas a determinadas situações. A cada situação a criança
escolhe uma face amovível do João ou da Inês que seja representativa da emoção
adequada a esta. As situações dividem-se entre típicas e atípicas. As primeiras
oito consistem em situações desencadeantes de reacções emocionais típicas, tais
como a alegria em comer um gelado ou o medo de um pesadelo (Denham, 1986).
Todas as restantes situações, as atípicas, podem suscitar uma de duas emoções
em alternativa, consoante as crenças e os desejos subjectivos do fantoche, tal
como ficar alegre ou com medo de ir nadar para a piscina (Denham, 1986),
avaliando-se assim a capacidade em conhecer as emoções que outras pessoas
possam sentir, mesmo que normalmente as crianças sintam de modo diferente do
protagonista. Relativamente a estas últimas, as situações decompõem-se ainda
entre as que exploram a possibilidade de activação de emoções com diferentes
valências, positivas ou negativas, e as que exploram situações susceptíveis de
activar uma de entre duas emoções negativas.
Todas as tarefas foram cotadas da seguinte forma: "3" pontos para a
escolha correcta, "2" pontos sempre que a valência afectiva
positiva/negativa foi correctamente atribuída (e.g. "triste" em vez
de "raiva"), e "1" para uma escolha totalmente
incorrecta. Para a presente amostra o valor de Alfa de Cronbach para o total de
todos os itens é de α=.62.
Escala de Competência Interpessoal
A Escala de Competência Interpessoal (Cairns, Leung, Gest, & Cairns, 1995;
Santos & Veríssimo, 2000) avalia um conjunto de características
relacionadas com a competência social e a competência académica. Os dezoito
itens, que compõem a escala, estão organizados em seis sub-escalas;
agressividade; competência académica (ACA - composta por "bom
conhecimento em números" e "bom conhecimentos em letras e
palavras"); popularidade; afabilidade; dominância; introversão. Neste
estudo utilizou-se apenas a sub-escala ACA, de competências académicas. Dado o
valor de correlação obtido entre a média dos itens da perspectiva da mãe e a
média dos itens da perspectiva do pai (r=.55, p<.01), optou-se pela realização
do compósito (média) dos itens do pai e da mãe. O Alfa de Cronbach para esta
sub-escala é de (α=0.80), após a eliminação do item ("bom conhecimento em
letras e palavras").
Escala de Avaliação do Comportamento e Competência Social
Foi utilizada a versão reduzida da Escala de Avaliação do Comportamento e
Competência Social (LaFreniere & Dumas, 1996; Santos & Veríssimo,
2008). As dimensões desta escala são a competência social (CS); a agressividade
(A) e o isolamento (I) contendo cada uma destas sub-escalas dez itens.
Considerou-se, neste estudo, apenas a dimensão de competência social que inclui
os itens 13, 15, 17, 19, 20, 22, 24, 26, 27 e 30 desta escala, tendo sido
cotados com os valores entre "1" e "6". Dado o valor de
correlação obtido pela associação entre a média dos itens da perspectiva da mãe
e a média dos itens da perspectiva do pai (r=.61, p<.01), foi considerada a
média dos vinte itens do pai e da mãe, para os quais se obteve o valor de Alfa
de Cronbach de (α=.74).
Técnicas Sociométricas
Foram utilizadas três medidas sociométricas:
1. Nomeação(McCandless & Marshall, 1957), medida standard, consiste na
designação de escolhas positivas e negativas. Especificamente, pediu-se a cada
criança que escolhesse (a partir das fotografias dos colegas), as três crianças
como quem mais gostasse de brincar (três primeiras escolhas positivas); as três
crianças com quem menos gostasse de brincar (três escolhas negativas) e, por
fim, que seleccionasse as restantes, uma a uma, pelo critério "gosta mais
de brincar", até serem esgotadas todas as possibilidades. A classificação
das crianças, após a escolha das primeiras três nomeações positivas e três
negativas, permite obter mais informações sobre cada criança. As classificações
de aceitação basearam-se nas três escolhas de topo. A proporção de escolhas
positivas foi calculada obtendo a quantidade de escolhas positivas e dividindo-
a pelo total das crianças da sala, ao qual se subtraiu a própria criança. O
mesmo foi efectuado para a proporção de escolhas negativas. A proporção total
das nomeações de cada criança foi obtida pela diferença entre a proporção das
escolhas positivas e a proporção das escolhas negativas.
2. Classificação de Escala- pediu-se a cada criança que classificasse os
colegas numa escala que variava entre "1" (não gosta muito de
brincar) e "3" (gosta muito de brincar). Para facilitar a
compreensão da classificação intermédia (i.e., "2" - gosta
mais ou menos de brincar), utilizaram-se peças de plástico simulando comida em
vez de cartões (chocolate - gosta muito de brincar; Pão - não gosta
muito de brincar; e Tomate - gosta mais ou menos de brincar). O total de
aceitação baseou-se na posição relativa de cada criança no grupo. Para cada
criança foi calculada uma média, somando as cotações atribuídas pelos seus
pares e dividindo pelo total dos pares da sala, ao qual se subtraiu a própria
criança. Foi calculada a proporção da sua média relativamente ao máximo, ou
seja ao valor "3".
3. Comparações de Pares- a cada criança pediu-se que escolhesse um
colega, pelo critério gosta mais de brincar, em cada uma das díades possíveis
no grupo (i.e., N. (N-1)/2). O total de aceitação para esta medida baseou-se no
número médio de escolhas em função total de díades possíveis proporção de
escolhas foi calculada, obtendo-se o total atribuído pelos seus pares,
dividindo este pela quantidade das crianças da sala ao qual se retirou a
própria criança multiplicando-se o resultado por 100.
A média das medidas sociométricas foi calculada tendo em conta a s três
proporções calculadas para cada criança. O valor de Alfa de Cronbach encontrado
para o agrupamento destes itens, foi de α=.79 (para os três itens).
Procedimento
Testes de Conhecimento das Emoções
Nas tarefas relativas ao reconhecimento verbal da expressão emocional, o
administrador baralhou as quatro faces amovíveis do fantoche João ou Inês
(consoante o género da criança em presença), após o que as colocou em linha
diante da criança, questionando-as uma a uma: "O que sente esta
cara?". As crianças indicaram os nomes de cada uma das emoções.
Findo este tipo de tarefa e, imediatamente antes das tarefas de identificação
não verbal, o administrador baralhou de novo as faces, colocou-as de igual
forma em linha à frente da criança, passando agora a perguntar para cada uma
das faces: "Qual a cara que está a sentir (alegria/tristeza/raiva/
medo)?". As crianças apontaram para a face desenhada com a expressão de
cada uma das emoções.
Antes da utilização dos fantoches para a representação das situações típicas e
atípicas, forneceu-se à criança uma breve explicação de cada uma das emoções,
nomeando-as verbalmente ao usar mímicas gestuais, faciais, vocais e corporais
do modo standard de expressar essas emoções.
Nas tarefas de conhecimento das emoções desencadeadas em situações típicas e
atípicas, cada vinheta foi apresentada pelo administrador que usou as mesmas
mímicas figurativas do modo standard de expressar cada uma das emoções
(simulando o fantoche João ou Inês). Após solicitar à criança para observar com
atenção a situação em curso, foi-lhe pedido para fixar ao fantoche a face com a
emoção adequada à situação. A questão colocada foi: "Como se sente o
(João ou Inês - representado pelo fantoche - conforme o género da
criança em presença)". De seguida, pediu-se a identificação verbal da
emoção, embora esta última indicação não interferisse na cotação atribuída.
Especificamente para as situações atípicas, foi pedido aos pais o preenchimento
prévio de um questionário, no qual indicaram qual seria a experiência emocional
típica do seu filho em cada uma das situações que configuraram as doze vinhetas
das referidas situações a expressão emocional do fantoche não correspondeu à
emoção que os pais reportaram como provavelmente experimentada pelo seu filho
(a), naquelas circunstâncias, providenciando assim as condições de avaliar a
descentração afectiva.
Todas as entrevistas foram gravadas, as respostas foram cotadas por dois
observadores não familiarizados com outras medidas.
Sociometrias
Os dados foram recolhidos por dois observadores. Cada criança foi entrevistada
individualmente, correspondendo cada tarefa a um momento de observação. As
instruções dadas às crianças foram idênticas, bem como a ordem de apresentação
das tarefas (i.e., 1. Nomeação; 2. Classificação de Escala; 3. Comparação de
Pares). Para a tarefa de nomeação, apresentou-se à criança o conjunto de
fotografias dos pares da sua sala, pedindo para esta nomear cada uma das
crianças fotografadas. Após a verificação de que a criança reconhecia todos os
seus pares através das respectivas fotografias, pediu-se para ela identificar o
par "de quem gostasse particularmente mais" (repetindo a pergunta
mais duas vezes para duas novas crianças), seguindo-se o pedido para
identificar um par "de quem não gostasse particularmente"
(repetindo a pergunta mais duas vezes para duas novas crianças). Na tarefa da
Escala de Classificação as crianças foram ensinadas a usar uma escala indicando
o grau com que apreciavam um determinado alimento (e.g. chocolate, pão e
tomate). Todas as crianças demonstraram compreender a escala de classificação
usando este tipo de procedimento. Pediu-se então às crianças para classificarem
os pares da sua sala, c olocando a sua fotografia num dos suportes contendo o
alimento correspondente: 1) crianças com quem gostassem muito de brincar
(relacionado com o alimento mais apreciado); 2) crianças com quem gostassem
mais ou menos de brincar (relacionado com o alimento mais ou menos apreciado);
ou 3) com quem não gostassem de brincar (relacionado com o alimento menos
apreciado) - com a cotação 3, 2 e 1 respectivamente. A terceira técnica
sociométrica consistiu numa tarefa de comparação dos colegas dois a dois,
perfazendo o número total de comparações num grupo de dimensão n, o valor de n
(n-1) / 2. Apresentaram-se os pares de colegas, um a um, pedindo-se à criança
para escolher de entre aqueles dois meninos, aquele de que gostasse mais. Os
pares foram organizados de forma que nenhuma das crianças da sala fosse vista
duas vezes antes que todas elas tivessem sido vistas pelo menos uma vez.
Escala de Competência Interpessoal e Escala de Avaliação do Comportamento e
Competência Social
A Escala de Competência Interpessoal (SCBE - LaFreniere & Dumas,
1996), e a de Avaliação do Comportamento e Competência Social (ICS-T -
Cairns, Leung, Gest, & Cairns, 1995), foram preenchidas s eparadamente
pelos pais e entregues às educadoras das salas de aula frequentadas pelas
crianças.
RESULTADOS
Conhecimento de emoções: Médias e Percentagens de Respostas Correctas para cada
Dimensão/ Emoção
No sentido de analisar as diferenças em termos de dificuldade nos diversos
tipos de tarefas/emoções procedeu-se, inicialmente, ao estudo da normalidade de
todas as variáveis. Assim, recorreu-se ao teste de normalidade de Shapiro-Wilk
que permitiu inferir que as variáveis não seguiam, a distribuição normal, pelo
que se utilizou o teste não-paramétrico de Wilcoxon na comparação entre as
diversas variáveis, duas a duas. A Tabela_1 mostra os dados descritivos para
todas as medidas.
TABELA_1
Dados Descritivos do Conhecimento de emoções
Medidas M DP
Conhecimento das emoções 2.78 .14
Expressividade 2.24 .42
Identificação 2.88 .29
Expressividade/Identificaçã2.56 .27
Alegria 2.65 .43
Tristeza 2.59 .42
Raiva 2.71 .45
Medo 2.14 .47
Situações Típicas 2.94 .14
Alegria 2.98 .16
Tristeza 2.96 .13
Raiva 2.94 .20
Medo 2.90 .34
Situações Atípicas 2.83 .17
Positivas vsnegativas 2.75 .32
Negativas vsnegativas 2.59 .51
Relativamente às medidas do conhecimento das emoções, verifica-se que as
tarefas de identificação não verbal (M=2.88) foram mais bem sucedidas do que as
de reconhecimento verbal das emoções (M=2.24), T=10, z=-5.18, p<0.05. De facto,
as tarefas de reconhecimento verbal também apresentam diferenças significativas
com as tarefas de situações típicas (M=2.94), T=0, z=-5.39, p<0.05 e com as
tarefas de situações atípicas (M=2.83), T=18, z=-5.27, p<0.05. Reconhecer e
identificar as expressões de raiva (M=2.71) obteve uma média superior ao
reconhecimento e identificação das expressões de alegria (M=2.65), bem como das
de tristeza (M=2.59) e das de medo (M=2.14). Nas tarefas das situações típicas,
as situações de alegria (M=2.98) obtiveram uma média superior às de tristeza
(M=2.96), ambas mais fáceis de reconhecer do que as de raiva (M=2.94) e as de
medo (M=2.90). A resolução das tarefas das situações típicas (M=2.94) foi mais
fácil do que a das tarefas atípicas (M=2.83). Para as tarefas de situações
atípicas não se encontraram diferenças significativas.
Relações entre o Conhecimento das Emoções, as Competências Académicas, as
Competências Sociais e a Aceitação entre Pares
A análise dos dados apresentados na Tabela_2 permite-nos constatar que o
conhecimento das situações típicas correlaciona-se positivamente com as
competências académicas (r=.45, p<.01), com a aceitação entre pares (r=.49,
p<.01) e, negativamente, com as escolhas negativas (r=-.65, p<.01). O
reconhecimento verbal d as emoções correlaciona-se com a aceitação entre pares
(r=.32, p<.05) enquanto o conhecimento das situações atípicas se correlaciona
negativamente com as escolhas negativas (r=-.32, p<.05). O compósito total do
conhecimento das emoções correlaciona-se positivamente com as competências
académicas (r=.33, p<.05), com a aceitação entre pares (r=.45, p<.01) e, de
modo negativo, com as escolhas negativas (r=-.51, p<.01). De igual modo, as
escolhas negativas correlacionam-se negativamente com o conhecimento das
situações atípicas das emoções (r=-.32, p<.05). Os resultados do estudo não
indicam correlações significativas do conhecimento das emoções com as
competências sociais.
TABELA_2
Correlações entre Conhecimento de Emoções, Competências Académicas,
Competências Sociais e Aceitação entre Pares
____________________________________________________________________________
| _____________|__1__|__2___|__3___|___4___|___5___|___6___|_7__|__8___|_9__|
|1._R._Verbal___|__-__| ____|______|_______|_______|_______| __| ____|____|
|2. | .14 | - | | | | | | | |
|Identificação|_____|______|______|_______|_______|_______|____|______|____|
|3._S._Típicas_|.34*_|_.14__|__-___|_______|_______|_______| __| ____|____|
|4._S._Atípicas|_.24_|_-.10_|_.30__|___-___|_______|_______| __| ____|____|
|5._T._Emoções|.71**|_.36*_|.64**_|_.64**_|___-___|_______| __| ____|____|
|6. C. | .23 | .05 |.45** | .17 | .33* | - | | | |
|Académicas____|_____|______|______|_______|_______|_______|____|______|____|
|7._C._Sociais__|_.16_|_-.13_|_.27__|_-.08__|__.06__|_.33*__|-___| ____|____|
|8._A._Pares____|.32*_|_.25__|.49**_|__.18__|_.45**_|_.35*-_|.33*|-_____|____|
|9. Escolhas |-.28 | -.13 |-.65**| -.32* | -.51* | -.27 |-.28|-.79**| - |
|Negativas______|_____|______|______|_______|_______|_______|____|______|____|
Legenda: ** A correlação é significativa ao nível 0,01
Para além da associação com o conhecimento das emoções, as competências
académicas correlacionam-se positivamente com as competências sociais (r=.33,
p<.05) e com a aceitação entre pares (r=.35, p<.05). Igualmente, as
competências sociais correlacionam-se positivamente com a aceitação entre pares
(r=.33, p<.05).
Conhecimento de Emoções como factor de mediação entre as Competências
Académicas e a Aceitação entre Pares
Segundo Baron e Kenny (1986), uma variável que actua como mediador explica como
e porquê são verificados determinados efeitos, ao reflectir a extensão pela
qual contribui na associação entre uma variável independente e uma variável
dependente. Para testar a hipótese da mediação, deve-se verificar os efeitos de
três equações de regressão linear: Primeira equação - análise da
regressão simples entre a variável independente e o mediador; Segunda equação
- análise de regressão simples entre a variável independente e a variável
dependente; Terceira equação - análise de regressão múltipla entre a
variável independente e o mediador (ambas como variáveis independentes) e a
variável dependente. Para se confirmar o efeito de mediação é necessário que se
verifiquem as seguintes condições:(1) que na primeira equação a variável
independente afecte significativamente o mediador; (2) que na segunda equação a
variável independente afecte significativamente a variável dependente; (3) que
na terceira equação o mediador afecte significativamente a variável dependente.
Verificadas as primeiras três condições, é também necessário confirmar que o
efeito da variável independente sobre a variável dependente na terceira equação
seja inferior ao efeito demonstrado pela segunda equação, sabendo-se que a
mediação perfeita se verifica quando o efeito bi-variado entre a variável
independente e a variável dependente obtido na segunda equação se perde
totalmente ao controlar o mediador na equação de regressão múltipla (terceira
equação).
Analisando a primeira hipótese do nosso estudo, com o fim de verificar em que
extensão o conhecimento das emoções actua como mediador explicando a associação
entre as competências académicas e a aceitação entre pares, procedemos aos
testes estatísticos de regressão linear que obedeceram aos critérios de Baron e
Kenny (1986). Foram executadas as três equações de regressão linear que se
apresentam na Figura_1 e na Tabela_3.
FIGURA_1
Modelo de equações de regressão linear de mediação das Situações Típicas
(conhecimento das emoções) entre a associação das Competências Académicas e a
Aceitação entre Pares
TABELA_3
Equações de regressão linear na análise da mediação entre Competências
Académicas e Aceitação entre Pares, pelo Conhecimento das Emoções
___________________________________________________________________________
| |Conhecimento Emoções|Aceitação Pares|Aceitação Pares (3.|?
|____________|____(1.ª_equação)__|__(2.ª_equação|______equação)_____|
| __________|__β__|_______T_______|__β__|____T_____|____β____|____T_____|
|Conhecimento| - | - | - | - | .39 | 2.55** |
|Emoções___|______|_______________|______|__________|__________|__________|
|Competência| .33 | 2.12* | .35 | 2.24* | .22 | 1.43 |
|Académicas_|______|_______________|______|__________|__________|__________|
Legenda: ** p<.01; * p<.05
Obtiveram-se os seguintes resultados: (1) na primeira equação, verifica-se o
efeito estatisticamente significativo das competências académicas sobre o
conhecimento das emoções (R2=.11; β=.33; p<.04); (2) na segunda equação,
verifica-se o efeito estatisticamente significativo das competências académicas
sobre a aceitação entre pares (R2=.12; β=.35; p<.03); (3) na terceira equação,
verifica-se o efeito estatisticamente significativo do conhecimento das emoções
sobre a aceitação entre pares (R2=.15; β=.39; p<.02) e, que o efeito
significativo reflectido entre as competências académicas e a aceitação entre
pares na segunda equação, ficou reduzido a um nível não significativo de
(R2=.05; β=.22; p>.16) na terceira equação, sendo R2=.07, o valor da variância
comum da associação entre as competências académicas e a aceitação entre pares,
que é explicada pelo conhecimento das emoções.
Estes resultados confirmam a primeira hipótese do nosso estudo, dado que a
variância comum bivariada estatisticamente significativa entre as competências
académicas e a aceitação entre pares que era 12% (R2=.12 na segunda equação), é
na sua maioria explicada pelo conhecimento das emoções (situações típicas), ou
seja, reduz-se para um valor não significativo de 5% quando se controla para a
variável mediadora num modelo de regressão múltipla (R2=.05 na terceira
equação).
Este efeito de mediação aumenta quando se considera apenas a sub-dimensão de
situações típicas, ou seja, o conhecimento das causas das emoções, como se
poderá verificar se considerarmos que conhecimento das causas das emoções actua
como mediador explicando a associação entre as competências académicas e a
aceitação entre pares e executando as três equações de regressão linear que se
apresentam na Figura_2 e na Tabela_4. Resumem-se os resultados do seguinte
modo: (1) na primeira equação, verifica-se o efeito estatisticamente
significativo das competências académicas sobre as situações típicas
(conhecimento das causas das emoções) (R2=.21; β=.45; p<.004); (2) na segunda
equação, verifica-se o efeito estatisticamente significativo das competências
académicas sobre a aceitação entre pares (R2=.12; β=.35; p<.03); (3) na
terceira equação, verifica-se o efeito estatisticamente significativo das
situações típicas (conhecimento das causas das emoções) sobre a aceitação entre
pares (R2=.17; β=.41; p<.02) e que o efeito estatisticamente significativo,
obtido pela segunda equação entre as competências académicas e a aceitação
entre pares, ficou reduzido a um nível não significativo (R2=.03; β=.16; p>.33)
na terceira equação, sendo R2=.09 o valor da variância comum da associação
entre as competências académicas e a aceitação entre pares, explicado pelas
situações típicas (conhecimento das causas das emoções).
FIGURA_2
Modelo de equações de regressão linear de mediação das Situações Típicas
(conhecimento das causas das emoções) entre a associação das Competências
Académicas e a Aceitação entre Pares
TABELA_4
Equações de regressão linear na análise da mediação entre Competências
Académicas e Aceitação entre Pares, pelas Situações Típicas (Conhecimento das
causas das emoções)
__________________________________________________________________________
| | Situações Típicas|Aceitação Pares|Aceitação Pares (3.|?
|____________|____(1.ª_equação)_|__(2.ª_equação|______equação)_____|
| __________|__β__|______T_______|__β__|____T_____|____β____|____T_____|
|Situações | - | - | - | - | .41 | 2.54** |
|Típicas____|______|______________|______|__________|__________|__________|
|Competência| .45 | 3.10** | .35 | 2.24* | .16 | .99 |
|Académicas_|______|______________|______|__________|__________|__________|
Legenda: ** p<.01; * p<.05
Assim, a variância comum bivariada estatisticamente significativa entre as
competências académicas e a aceitação entre pares que era de 12% (R2=.12 na
segunda equação), é na sua maioria explicada pelas situações típicas
(conhecimento das causas das emoções), isto é, reduz-se para um valor não
significativo de 3% quando se controla para a variável mediadora num modelo de
regressão múltipla (R2=.03 na terceira equação).
Conhecimento de emoções como factor de mediação entre as competências sociais e
a aceitação entre pares
A análise das correlações entre competências sociais e o conhecimento das
emoções leva-nos a concluir que a segunda hipótese, a de que o conhecimento das
emoções actuaria como mediador explicando a associação entre as competências
sociais e a aceitação entre pares, não se verifica.
DISCUSSÃO
Os resultados obtidos confirmam a hipótese de que o conhecimento das emoções em
crianças de cinco e seis anos é um factor de mediação nas associações entre as
competências académicas e a aceitação entre pares. Porém, não se obtiveram
resultados significativos desta mediação para a associação entre as
competências sociais e a aceitação entre pares pelo que se infere a segunda
hipótese. Verificou-se, ainda, que foi essencialmente a sub-dimensão do
conhecimento das causas das emoções que contribuiu para a confirmação da nossa
primeira hipótese.
O reconhecimento verbal foi a única competência do conhecimento das emoções que
mobilizou competências verbais na execução do teste, já que as restantes foram
cotadas no seu valor máximo através da indicação dada pela criança, seja
através do gesto ou pela colocação da face adequada no fantoche. No entanto, em
futuras investigações sugere-se o controlo da competência verbal.
O reconhecimento verbal correlacionou-se com o conhecimento das causas das
emoções e com a aceitação entre pares, embora não se tivesse encontrado
resultados significativos na associação entre esta capacidade e as competências
sociais e académicas. O valor da média das cotações para esta sub-dimensão do
conhecimento das emoções foi inferior às das restantes sub-dimensões,
coincidindo com a notória dificuldade revelada pelas crianças da nossa amostra
ao procurarem a palavra correcta para determinada expressão facial nas faces
dos fantoches que constituíram o material deste teste. Muito frequentemente
foram usadas expressões relacionadas com o comportamento, tais como
"rir", "chorar", "gritar", etc. reduzindo a
cotação das respostas. A correlação encontrada entre o reconhecimento verbal da
expressão emocional e o conhecimento das causas das emoções, medido pela sub-
dimensão de situações típicas, está de acordo com a perspectiva de que são
estas as dimensões mais dependentes do desenvolvimento cognitivo, nomeadamente
do vocabulário das emoções e da utilização da linguagem. Sendo assim, podemos
sugerir que as acções de apoio ao desenvolvimento da linguagem e do vocabulário
d as emoções possam promover o desenvolvimento das competências emocionais,
sobretudo do conhecimento das causas das emoções, assim como da capacidade de
ser aceite pelos pares.
As crianças do nosso estudo obtiveram uma maior cotação nas tarefas de
reconhecimento e de identificação da raiva do que nas suas correspondentes
relativas à alegria, o que contraria a literatura onde se afirma a evidência
empírica de que as expressões de alegria são discriminadas e nomeadas mais cedo
e com maior facilidade do que as restantes (Denham, 1998; Walden, & &
Field, 1982).
Verificou-se que o medo foi a emoção mais difícil para todas as tarefas do
conhecimento das emoções bem como o facto da percentagem de respostas correctas
decrescer a partir das tarefas de situações típicas desencadeantes da expressão
da alegria, seguidas das de tristeza, de raiva e de medo - o que confirma
os dados da literatura, nomeadamente os resultados obtidos por Susnne Denham
(Denham, 1998). No entanto, a emoção raiva obteve uma percentagem mais elevada
nas dimensões de reconhecimento verbal, identificação não verbal e tarefas da
sub-dimensão de situações atípicas, levando a sugerir que tal emoção possa,
eventualmente, atrair muito a atenção destas crianças que, na presente fase do
seu desenvolvimento, enfrentam novos desafios tanto ao nível da resistência à
frustração como na resolução de conflitos, quer nas suas actividades inter-
pares quer na sala de aula.
Se entre os dois e os quatro anos e meio de idade, as crianças adquirem as
competências de reconhecer e nomear as emoções básicas, apenas aos três anos a
criança dá inicio à aquisição da teoria da mente, passando a compreender, a
partir dos cinco anos, que as crenças e desejos dos outros são diferentes dos
seus, apenas manifestando aos seis anos o levar em linha de conta o carácter
subjectivo das emoções (Denham et al., 1990; Dunn, 1988). De facto, a
competência de descentração afectiva, medida através da sub-dimensão de
situações atípicas do conhecimento das emoções, obteve um resultado inferior ao
conhecimento das causas das emoções, mas correlacionou-se negativamente com as
escolhas negativas obtidas através da técnica sociométrica de nomeação. Desta
forma, ficou demonstrada a importância da teoria da mente e da descentração
afectiva (situações atípicas) sobre o estatuto de rejeição. No entanto, esta
competência não se correlacionou nem com as competências sociais, nem com as
competências académicas, nem com a aceitação entre pares, o que nos leva a
concluir que, para estas idades, a descentração afectiva poderá não ser um
factor tão fundamental na aquisição destas competências, quanto o demonstrado
pelo conhecimento das causas das emoções. Este nosso estudo quer sublinhar a
importância do desenvolvimento emocional na promoção do sucesso social e
académico, bem como a sua centralidade para o desenvolvimento da capacidade da
criança interagir e formar relações positivas com os outros.