Métodos de observação e análise para identificação das estruturas afiliativas
de grupos de crianças em meio pré-escolar
IDENTIFICAÇÃO DAS ESTRUTURAS AFILIATIVAS DE GRUPOS DE CRIANÇA SEM MEIO PRÉ-
ESCOLAR
A investigação em etologia social, ao debruçar-se sobre quais são os princípios
fundamentais da organização social de um grupo animal ou humano, examina quer
as actividades agressivas como as cooperativas, a partir de uma perspectiva
dinâmica que sublinha os constrangimentos contextuais impostos pela
estruturação das relações interpessoais no interior do grupo estável. Kummer
(1968) e Crook (1970) foram dos primeiros etólogos a propor que as diferenças
na adaptação individual são mediadas ou moduladas pela estrutura social do
grupo estável. Ao distinguir a etologia social da etologia clássica, Crook
(1970) sublinhou que a variação do comportamento individual devia ser
compreendida em termos das relações diádicas e dos papéis sociais no interior
do grupo estável. Segundo esta perspectiva, depender exclusivamente de medidas
globais de actividade individual para indexar diferenças individuais em
comportamentos ou competências sociais, negligencia a importância fundamental
dos ajustamentos transitórios dos indivíduos enquanto se movem de um cenário
interpessoal para outro. O comportamento social em grupos naturais não é
distribuído aleatoriamente entre os parceiros disponíveis, pelo contrário, são
dirigidas acções específicas para membros particulares do grupo, que respondem
usualmente de maneira previsível. Nos grupos naturais a qualidade e quantidade
da actividade social flutua de um contexto interpessoal para o outro, contudo,
e para um dado par de indivíduos, o padrão de trocas diádicas permanece
frequentemente estável durante períodos extensos de tempo.
Na primatologia, o reconhecimento de regularidades na actividade social
espontânea dos membros de grupos estimulou o interesse teórico e empírico na
análise de relações e papéis sociais no interior de unidades sociais estáveis
(Chance, 1967; Chance & Jolly, 1970; Hinde, 1974, 1979; Soczka, 1974).
Apesar da ênfase na dinâmica relacional do grupo, a maior parte dos primeiros
estudos de comportamento social de primatas elegeu apenas o conflito como
tópico central de investigação (Bernstein, 1970; Strayer, 1976). No entanto, as
análises da agressão e conflito sociais nesta classe proporcionaram ilustrações
empíricas de distinções conceptuais necessárias e fundamentais entre estilos de
comportamentos individuais, qualidades de relações (diádicas, triádicas e
poliádicas) e ainda papéis sociais, no interior de grupos estáveis (Bernstein,
1980, 1981; Strayer, 1980c; Strayer & Trudel, 1984). Até cerca da década de
noventa do século passado, o estudo do conflito interpessoal e da dominância
social jogou um papel igualmente central nos estudos etológicos do
comportamento social de crianças em meio pré-escolar (ver Strayer, 1989).
Embora tais estudos tenham fornecido informação irrefutável sobre a existência
e desenvolvimento de propriedades estruturais nas actividades precoces
agressiva e competitiva, apresentaram, contudo, não só menos consensos sobre a
escolha e natureza última dos indicadores comportamentais da dominância social
(Hawley & Little, 1999; Vaughn, 1999; Vaughn & Santos, 2007), mas
sobretudo também consideravelmente menos insightsacerca da génese e
desenvolvimento da organização das relações afiliativas (Santos & Winegar,
1999; Vaughn & Santos, 2008).
Hinde e Stevenson-Hinde (1976), ao elaborarem um quadro metodológico multi-
dimensional para o estudo das relações sociais, ajudaram a identificar algumas
das limitações conceptuais que impediram um primeiro balanço da investigação
sobre a organização social de grupo. Esta reflexão conceptual também estimulou
o interesse renovado na natureza e organização das ditas actividades pró-
sociais da criança (ver Strayer & Noël, 1986). Mais precisamente, um
determinado número de investigadores explorou a relação entre as formas
coesivas do comportamento social e a posição da criança na estrutura de
dominância do grupo. Os primeiros resultados indicaram que a dominância social
estava associada à recepção de atenção social e de comportamentos de imitação
(Abramovitch, 1976; Hold, 1977), a papéis de liderança no grupo (Savin-
Williams, 1976; Strayer, 1981), a padrões de escolhas afiliativas, amistosas e
sociométricas entre pares (Strayer, 1980a, 1980b; Vaughn & Waters, 1980).
Importa sublinhar, que Vaughn e Waters (1981) questionaram prontamente as
assumpções etológicas sobre o papel da dominância, enquanto princípio
organizador central para os grupos de pares pré-escolares, e defenderam a
primazia da competência social individual, preconizando de algum modo o
abandono subsequente nos estudos de psicologia social e de psicologia do
desenvolvimento da concepção estrutural etológica da dominância social (ver
Vaughn, 1999). Mais importante para o tema deste artigo, foi o facto do foco
sobre a agressão e competição na investigação inicial da dominância social em
etologia da criança ter impedido a consideração do papel das relações coesivas,
primeiro, na regulação da adaptação ou actividade social das crianças e
segundo, no desenvolvimento comportamental a longo termo.
Strayer (1980a, 1980b), persistindo na ênfase estrutural etológica e com base
no trabalho seminal de Kummer (1968, 1971) e McGrew (1970, 1972), defendeu que
a organização social de grupos pré-escolares devia ser operacionalizada em
termos de duas classes funcionalmente distintas da actividade social entre
pares. Neste sistema de classificação do comportamento social, as categorias
básicas que promovem a coesão de grupo incluíam actividades afiliativas tais
como orientação, aproximação, sinalização e contacto, e também actividades
centradas em objectos tais como oferecer, dar, tirar e partilhar. Em contraste,
as categorias básicas que promovem a dispersão de grupo e a disrupção da
comunicação incluíam comportamentos agonísticos tais como ataque, ameaça,
competição e submissão.
De forma algo surpreendente, as análises da distribuição diferencial da
disrupção e coesão entre pares acima referidas e seus desenvolvimentos
empíricos em estudos centrais posteriores (i.e. Strayer & Noël, 1986;
Strayer, Tessier, & Gariépy, 1985; Strayer & Trudel, 1984), indicaram
que as relações e hierarquias de dominância eram estruturalmente semelhantes
através dos anos pré-escolares embora as relações afiliativas entre pares
familiarizados se tornassem cada vez mais complexas entre os três e cinco anos
de idade. Contudo, e como já Cairns (1983) tinha sublinhado em relação à
investigação em psicologia do desenvolvimento, devido à lacuna de modelos
adequados para investigar as estruturas coesivas do grupo de pares, as análises
ao nível do comportamento afiliativo foram apenas limitadas à identificação de
preferências individuais e estatutos sociométricos, e portanto, de cariz último
apenas psicométrico. Embora, não tenham considerado mudanças desenvolvimentais
em papéis sociais ou na natureza das estruturas afiliativas dos grupos de pares
estáveis, é importante referir, que foi a partir deste conjunto principal de
estudos, que se originou o cerne da hipótese geral sobre a existência de uma
complexidade crescente nas estruturas afiliativas dos grupos de pares à medida
que as crianças se aproximavam do fim do período pré-escolar.
A introdução de técnicas analíticas multivariadas para a derivação de redes
sociais no estudo do desenvolvimento social e afiliativo dos grupos de pares de
adolescentes (Cairns, Cairns, Neckermann, Gest, & Gariépy, 1988; Cairns,
Perrins, & Cairns, 1985), permitiu finalmente o início do estudo da
estruturação das relações coesivas de forma, senão equiparada, pelo menos muito
aproximada do racional aplicado na representação das estruturas hierárquicas.
Mais do que acentuar a frequência relativa ou absoluta de contactos sociais
positivos, a referida técnica de análise de redes centrou-se na similitude do
padrão de escolha de parceiros afiliativos no interior do grupo. A semelhança
destes perfis de associação diádica no interior do grupo, efectuada com base na
informação percepcionada pelos seus diferentes membros, permitiu a
identificação de subgrupos coesivos, social clusters, que servem no fundo como
grupos de referência primária para os seus membros, para além de referência
social potencial para qualquer outro subgrupo ou indivíduo do grupo (ver
Cairns, Gariépy, & Kinderman, 1989).
Com base no procedimento de nomeação de subgrupos acima indicado (Cairns et
al., 1985), os métodos de análise de redes acima referidos foram adaptados e
aplicados à identificação de estruturas afiliativas de crianças em meio escolar
primário. A título histórico, tais estudos foram realizados pela primeira vez
no Québec (Canadá) e Portugal (e.g., LaFerté & Legault, 1991; Veríssimo,
1992; Veríssimo & Santos, 1991). De um modo geral, estes resultados
descritivos permitiram alargar as análises de redes de pré-adolescentes e
adolescentes a crianças entre os sete e os dez anos de idade. Procedimentos de
análise de redes baseados em observação directa do comportamento, e análogos
aos propostos por Cairns et al.(1985), foram também desenvolvidos e aplicados
com sucesso na investigação das relações afiliativas em meio pré-escolar
(LaFerté, Leclerc, & Gariépy, 1989; Leclerc, 1991; Strayer, Leclerc, &
LaFerté, 1988; Strayer & Santos, 1996).
No estudo de Strayer e Santos (1996), a consistência das estruturas afiliativas
de quinze grupos de pares pré-escolares assim como as respectivas mudanças em
função dos cinco níveis de idade das crianças, testemunharam a robustez dos
procedimentos de análise de redes para avaliar a organização coesiva em grupos
de pares. Embora esta técnica de análise ao estudo dos grupos de pares tenha
sido originalmente introduzida para mapear consensos sobre a percepção social
verbalizada pelas crianças sobre a sua entouragesocial (Cairns et al., 1985),
os procedimentos agora propostos parecem funcionar igualmente bem com registos
directos de ocorrências naturais de comportamentos afiliativos. O padrão
consistente de associações diádicas afiliativas no interior de grupos de pares
estáveis, demonstra clara evidência para a importância dos contextos colectivos
de pares no desenvolvimento social da criança. Mais de 75% das crianças destes
quinze grupos foram identificadas como membros de uma clique.
Contudo, ocasional e especialmente nos grupos mais novos, crianças
identificadas como membros de subgrupos afiliativos não tinham preferência
significativa para com nenhum membro do seu subgrupo. Este resultado indicava
que similitudes na escolha de parceiros de jogo podia inicialmente ocorrer sem
uma forte atracção interpessoal. Ou seja, duas crianças podem associar-se com
os mesmos membros do grupo de pares, mas não se associarem frequentemente entre
si. Em tais casos, que expressam preferências diádicas semelhantes sem
selectividade entre si, a associação repetida futura pode proporcionar um
contexto de socialização para a coordenação de actividades conjuntas e
facilitar a emergência de novos laços afiliativos. Por outro lado, dado o alto
grau de preferências afiliativas endo-clique entre crianças com cinco anos de
idade, parece prevalecer um modo diferente de funcionamento social no fim do
período pré-escolar. Entre estas crianças mais velhas, mais do que 80% das
escolhas afiliativas significativas foram dirigidas aos seus co-membros de
cliques; enquanto as restantes 20% incluíram segundas e terceiras escolhas
dirigidas a pares do mesmo sexo noutro subgrupo afiliativo.
No geral, as preferências diádicas endo-clique foram sobretudo evidentes nos
subgrupos afiliativos das crianças mais velhas e também mais consolidados.
Estas tendências em função da idade sugerem que as semelhanças nas escolhas de
parceiros de jogo estão associadas em termos de desenvolvimento com uma maior
probabilidade de amizade mútua. Quer seja a emergência de amizades mais íntimas
que promova a construção conjunta de um consenso local sobre o valor relativo
de outros parceiros potenciais (Youniss, 1980), ou seja o interesse comum em
membros específicos do grupo de pares que conduz ao crescimento de laços
interpessoais mais íntimos (Hallinan, 1981), trata-se de uma questão central
para as teorias contemporâneas sobre o desenvolvimento social da criança. No
futuro, a investigação empírica deve traçar as mudanças desenvolvimentais nas
preferências interpessoais e pertença a cliques para ajudar a distinguir a
influência relativa destes dois aspectos da adaptação social da criança.
Intuitivamente, esperamos que ambos os fenómenos possam ocorrer. Por vezes as
crianças mudam de cenário social porque mudam de amigos, enquanto outros
desenvolvem novas amizades porque são aceites por um subgrupo social
particular.
Embora estes resultados apresentassem estruturas afiliativas relativamente
complexas mesmo em grupos de crianças muito novas, o esforço subsequente para
aumentar o alcance desses mesmos resultados descritivos levantou um certo
número de questões técnicas sobre a medida e análise de estruturas de rede em
grupos estáveis. As teorias da aprendizagem social e da ecologia social
proclamavam que a pertença a subgrupos ou cliques afiliativas particulares
molda ou constrange o comportamento social futuro do indivíduo (Cairns et al.,
1985, 1988; Strayer, 1989; Strayer et al., 1988). Contudo, o uso exclusivo de
comportamentos afiliativos como índice d e base para a identificação de redes
sociais impunha limites lógicos na análise de como é que a inserção na
estrutura afiliativa do grupo de pares influencia o padrão de comportamento
social da criança. Por outras palavras, se as redes sociais são definidas em
termos de actividade afiliativa observada torna-se circular perguntar como é
que a posição da criança na rede influencia o seu comportamento afiliativo. A
estrutura coesiva das relações entre pares era claramente uma componente
importante na investigação sobre a socialização da criança, mas para evitar a
circularidade no uso da informação descritiva e explanatória, era também
importante desenvolver e testar índices de associação alternativos para
representar as estruturas afiliativas.
Estas considerações chamaram portanto a atenção para a escolha de medidas
apropriadas para a análise sócio-estrutural de redes afiliativas. Neste sentido
Santos (1990, 1993), em vez de indexar a estrutura afiliativa em termos de
actos sociais dirigidos, utilizou mapas de registo da ocorrência de subgrupos
naturais a partir da proximidade social e espacial como dados primários de
associação de grupos pré-escolares de crianças com cinco anos de idade. Os seus
resultados estruturais eram consistentes com os obtidos através da observação
de acções afiliativas dirigidas e também indicavam que a maior parte das
crianças estavam integradas em cliques sociais no final do ano pré-escolar. De
uma forma geral, esta linha de trabalho sugeria a generalização dos
procedimentos de proximidade para a avaliação das estruturas afiliativas
precoces.
Erguia-se entretanto um último obstáculo em torno da questão básica de as redes
afiliativas obtidas não oferecerem mais do que um mero sumário das estruturas
já impostas pelos procedimentos de recolha de dados. De facto, quer o
procedimento de nomeação verbal de subgrupos (Cairns et al., 1985) como o de
observação directa de subgrupos por proxémia (Santos, 1990, 1993) requerem a
extracção de informação com base na percepção social de subgrupos. O primeiro
método emprega as percepções e cognições sociais das crianças sobre os
subgrupos afiliativos específicos do seu grupo de pares, enquanto o segundo
reflecte a percepção da ocorrência espontânea de subgrupos por parte de
observadores treinados. Em ambos os métodos, o algoritmo de preenchimento
utilizado para transformar listas de subgrupos numa matriz de co-ocorrência
diádica pode inflacionar artificialmente as medidas de similitude de perfis de
associação. As múltiplas entradas na matriz de co-ocorrência podem também
distorcer os índices de densidade de associação entre pares. Portanto, as
unidades sociais - cliques, agregados e periféricos- que emergem
nas análises sócio-estruturais podem apenas reflectir produtos acessórios
estatísticos da agregação de dados gerados por informadores sociais
seleccionados.
Na investigação etológica, as matrizes de co-ocorrência diádica são usualmente
construídas a partir de medidas não-enviesadas de proporções ou probabilidades
de interacção social (Lehner, 1979; Strayer et al., 1988). Utilizando
amostragens repetidas, mas independentes, de proximidade espacial para cada
membro do grupo de pares, Santos (1993) conseguiu identificar e descrever as
mesmas unidades sociais e assim ultrapassar as potenciais limitações
metodológicas da observação directa de subgrupos. As observações focais
derivadas da técnica de observação e registo do vizinho-mais-próximo (que
providencia medidas não relacionadas com o tamanho da entourage social imediata
do sujeito) permitiram uma avaliação independente dos padrões individuais e
colectivos de associação social (Santos, Vaughn, & Bonnet, 2000; Santos,
Vaughn, & Bost, 2007). O uso de tais medidas não-enviesadas proporcionou a
necessária evidência confirmatória da adequação da análise sócio-estrutural
para o estudo da organização afiliativa dos grupos de crianças em infantário.
O presente artigo pretende em primeiro lugar realizar uma revisão dos
principais aspectos metodológicos e descritivos da identificação de estruturas
afiliativas a partir da observação de padrões de proximidade. Pretende-se
também discernir não só as vantagens como as respectivas limitações deste tipo
de índices de associação para o desenvolvimento da análise de redes afiliativas
em geral. Para alcançar tais objectivos, são revisitados e discutidos os dois
primeiros estudos empíricos e paradigmáticos da abordagem com base na proxémia,
o primeiro baseado em observação de padrões de proximidade social e espacial
para identificação de subgrupos, o segundo tendo por base a pura proximidade
espacial através da técnica clássica do vizinho-mais-próximo.
A análise de redes da organização afiliativa em grupos estáveis providencia o
necessário complemento à investigação descritiva do passado sobre a dominância
social e as preferências afiliativas. Esta análise estrutural dos padrões de
associação proporciona uma ferramenta empírica para identificar mudanças em
função da idade na estrutura afiliativa dos grupos de pares da criança ao longo
do período pré-escolar. A representação da organização afiliativa através da
análise de redes oferece uma perspectiva alternativa para o estudo da
actividade afiliativa entre crianças em meio pré-escolar. Mais do que acentuar
noções intuitivas sobre preferências pessoais e características individuais, o
estudo da organização afiliativa através da análise de redes tenta identificar
sub-estruturas sociais específicas, que constituem os contextos interpessoais
recorrentes em que os processos de referência e consenso social têm a
possibilidade de impor constrangimentos específicos e diferenciais, sobre a
acção dos seus membros. Compreenda-se que cada criança não é assim e de modo
algum apenas um agente passivo nestes processos. Pelo contrário, co-constrói
mútua e activamente o seu campo pessoal e interpessoal, quiçá mesmo os
primórdios das várias facetas da sua identidade futura, através de um processo
fundamental de partilha e pertença, em que o conceito de si mesmo (vulgo self),
parafraseando Sarbin (2004), é sempre resultado, em última instância, de um
processo de co-autoria, e logo de modo algum auto-dirigido ou estimado.
PRIMEIRO ESTUDO
MÉTODO
Participantes
A amostra consistiu em 64 (25 raparigas e 39 rapazes) crianças portuguesas com
cinco anos de idade que frequentavam dois infantários da Santa Casa da
Misericórdia de Cascais. A idade das crianças variava entre 54 a 65 meses (M=60
meses). As crianças eram oriundas de bairros de classe média e
predominantemente caucasianas. A participação efectuou-se numa base voluntária
e requereu a aceitação de directoras, educadoras, pais e crianças. As crianças
pertenciam a três grupos diferentes: Grupo A (13 raparigas e 10 rapazes); Grupo
B (5 raparigas e 16 rapazes) e Grupo C (7 raparigas e 13 rapazes). Todos os
grupos foram observados durante a Primavera. Os Grupos A e C foram observados
no mesmo infantário.
Procedimentos
Este estudo examinou padrões de proximidade e envolvimento colectivo como
índices de associação das crianças sem utilizar uma taxonomia específica
(Oliveira & Pires, 1989). A ocorrência natural de subgrupos foi definida em
termos de proximidade íntima (ao alcance do braço estendido) e partilha de
interesse em actividades comuns (e.g. manipulação de brinquedos ou materiais,
jogo colectivo). A informação sobre os subgrupos sociais foi recolhida por dois
observadores que realizaram observações directas nas salas e registaram
manualmente a localização dos subgrupos identificados em mapas previamente
preparados. Os mapas representavam a planta da sala de cada um dos grupos,
incluindo a mobília e as zonas particulares de actividades das crianças (e.g.
colchões e carpetes, cavaletes para pintura, mesas, casa das bonecas,
mercearia). As observações foram conduzidas durante períodos de actividade
livre. A observação sistemática foi iniciada depois de um período de treino que
coincidiu com a familiarização das crianças com os observadores.
Foi utilizada uma técnica de amostragem instantânea por varrimento (scan
sampling). Durante cada hora de observação, e a intervalos de um minuto, foram
registados dois tipos de informação: a localização de cada criança no grupo e o
sub-conjunto corrente de parceiros de brincadeira. As iniciais de cada criança
foram registadas no local apropriado dos mapas espaciais e foram desenhados
círculos para englobar os membros dos subgrupos observados. Ao completar os
mapas espaciais foram feitos esforços para ter em conta a proximidade espacial
e a actividade social em curso. Por exemplo, se num dado varrimento, a criança
A, B, e C estivessem a jogar às cartas e outra criança D se aproximasse e
interagisse com C, então (A, B, C) seriam incluídos num círculo e (C, D)
noutro. A situação podia ainda ser mais complexa, se por exemplo, a criança (D)
estivesse envolvida num jogo de construção de blocos com as crianças (E) e (F),
enquanto interagia brevemente com (C). Neste caso, um terceiro círculo
incluindo as crianças (D, E, F) seria também desenhado. Cada minuto de
observação proporcionou um mapa. Cada sessão durava cinquenta minutos. Um
número total de doze sessões de observação foram calendarizadas durante o
período de três meses. Estes procedimentos forneceram seiscentos mapas
espaciais para cada um dos três grupos.
RESULTADOS
Identificação das Redes Afiliativas
O tratamento estatístico dos dados foi iniciado pela construção de uma matriz
de co-ocorrência diádica, a partir do registo dos diversos subgrupos existentes
em cada minuto de observação. A apresentação de um exemplo hipotético, permite
uma melhor compreensão da aplicação global desta técnica. Por exemplo, num
determinado minuto do primeiro dia de observação, foram registados os subgrupos
(A, B, C), (C, D), (D, E, F). A contabilização deste registo na matriz de co-
ocorrência diádica decorre da seguinte forma: o subgrupo (A, B, C) produz uma
observação para a díade (A e B), uma outra para a díade (B e C) e uma última
para a díade (A e C); ao subgrupo (C, D), corresponde uma observação da díade
(C, D); por sua vez o grupo (D, E, F) produz três observações diádicas, (D, E),
(D, F) (F, D). Este processo foi repetido para todos os mapas de cada um dos
três grupos observados de forma a obter três matrizes que englobam o total das
observações.
As matrizes simétricas de co-ocorrência diádica foram posteriormente
transformadas em matrizes de semelhança dos perfis de associação diádica,
através do cálculo da correlação de Pearson. As matrizes de similitude foram
subsequentemente analisadas segundo procedimentos de agrupamento hierárquico de
ligação completa. A Figura_1, proporciona uma representação visual dos
resultados. As crianças foram identificadas individualmente como membros de um
subgrupo social quando os índices de similitude entre si excedem
significativamente o acaso (p<.05). O ponto de corte dos dendrogramas para este
nível de similitude separou as crianças não-agrupadas das incluídas nos
subgrupos afiliativos.
De forma a verificar se as crianças incluídas num mesmo agrupamento também se
associavam selectivamente com os co-membros da sua unidade social, foram
realizadas análises de qui-quadrado para examinar a densidade relativa de
associação entre os membros de subgrupos. Os testes foram efectuados de forma a
determinar se a frequência de associação ultrapassava o valor esperado. O uso
conjunto destes dois critérios estatísticos distinguiu três unidades sociais
qualitativamente diferentes nas redes afiliativas dos grupos (ver Figura_1):
Figura_1
Dendrograma de um grupo de crianças (cinco anos)
-Cliques Sociais: subgrupos de crianças cujos perfis de associação eram
semelhantes e cujo nível de associação mútua era significativamente superior ao
esperado pelo acaso (Chi Square (1) > 10.51, p<.001);
-Agregados Sociais: subgrupos de crianças cujos membros possuíam perfis de
associação semelhantes, mas não mostravam uma proporção significativa de
associação mútua (Chi2 (1) < 10.51, p>.001);
-Periféricos: crianças cujos perfis de associação não eram significativamente
semelhantes a nenhuma outra criança do grupo.
Estes diferentes tipos affiliativos são idênticos àqueles já identificados em
investigação prévia das redes sociais de crianças em meio escolar primário
(e.g., La Ferté & Legault, 1991; Veríssimo, 1992; Veríssimo & Santos,
1991).
Composição das Unidades Sociais
A vasta maioria das crianças (76%) estava integrada em cliques sociais. Os
agregados sociais eram evidentes apenas num dos três grupos; e portanto este
tipo de agrupamento social emergiu como um tipo relativamente raro (8% da
amostra total). Finalmente, uma pequena percentagem de crianças (16%) foi
identificada como periféricos. Não existiu evidência de diferenças de género em
termos dos três tipos afiliativos (Chi2 (2) = 3.50, p>.17). A Tabela_1
apresenta um sumário da distribuição dos tipos afiliativos no interior dos três
grupos de pares.
TABELA_1
Composição dos Grupos por Tipo Afiliativo
Tipo Afiliativo Grupo A Grupo B Grupo C Total
Raparigas N=13 N=5 N=7 N=25
Membros de Cliques 85% 80% 86% 84%
Membros de Agregados 0% 0% 0% 0%
Periféricos 15% 20% 14% 16%
Rapazes N=10 N=16 N=13 N=39
Membros de Cliques 90% 56% 77% 62%
Membros de Agregados 0% 31% 0% 13%
Periféricos 10% 13% 23% 15%
Total N=23 N=21 N=20 N=64
Membros de Cliques 87% 62% 80% 76%
Membros de Agregados 0% 24% 0% 8%
Periféricos 13% 14% 20% 16%
Os resultados da análise de redes para os três grupos comportou um total de 16
subgrupos (14 cliques e 2 agregados) e 10 periféricospara um total de 26
unidades sociais. A Tabela_2 resume a informação sobre a composição dos
subgrupos para cada um dos grupos pré-escolares. Globalmente, as estruturas
afiliativas dos três grupos eram similares quer em termos do número total de
subgrupos como do número de periféricos. A tendência para a homogeneidade de
género nas cliques sociais foi evidente nos três grupos. De facto, apenas duas
das cliques sociais eram de composição mista em relação ao sexo, uma no Grupo A
e a outra no Grupo C. As cliques sociais eram compostas por uma média de 3,5
sujeitos (desvio-padrão de 1,2). Um teste t de Student não revelou diferenças
significativas no tamanho médio entre as cliques de raparigas e as de rapazes
(t (10) = -0.04, 2-tails, p>.97). Os dois agregados sociais identificados no
Grupo B eram compostos respectivamente por dois e três rapazes. Globalmente, a
inspecção dos resultados indicou que o número de periféricos era proporcional
ao número de subgrupos em ambos os sexos.
TABELA_2
Composição dos Grupos por Unidades Sociais
____________________________________________________________________________
|Unidades | Grupo A (N=23) | Grupo B(N=21) | Grupo C(N=20) | Total |
|Sociais_______|________________|_______________|_______________|____________|
|Raparigas_____| ______________| _____________| _____________| __________|
|Cliques_______|_______3________|_______1_______|_______1_______|_____5______|
|Agregados_____|_______0________|_______0_______|_______0_______|_____0______|
|Periféricos__|_______2________|_______1_______|_______1_______|_____4______|
|Rapazes_______|________________|_______________|_______________|____________|
|Cliques_______|_______1________|_______3_______|_______3_______|_____7______|
|Agregados_____|_______0________|_______2_______|_______0_______|_____2______|
|Periféricos__|_______1________|_______2_______|_______3_______|_____6______|
|Cliques_Mistas|_______1________|_______0_______|_______1_______|_____2______|
|Total de | | | | |
|Unidades | 8 | 9 | 9 | 26 |
|Sociais_______|________________|_______________|_______________|____________|
DISCUSSÃO
No geral, os resultados empíricos forneceram suporte consistente ao nosso
objectivo principal. A análise revelou uma marcada semelhança nas estruturas
afiliativas dos três grupos de pares com a larga maioria das crianças
integradas em cliques sociais coesivas. Os resultados obtidos suportam a
diversidade de tipos afiliativos assim como a consolidação progressiva dos
laços afiliativos verificada nos resultados anteriores baseados na observação
directa dos padrões de comportamento afiliativo de crianças do primeiro ao
terceiro ano de idade (Leclerc, 1991). Os resultados alargam também os
procedimentos multivariados baseados na percepção social de subgrupos para
identificação de tipos afiliativos em grupos escolares (Laferté, 1992) à
observação directa de subgrupos afiliativos em grupos pré-escolares. A análise
de redes afiliativas a partir da proximidade espacial e interesse partilhado em
actividades conjuntas pode ainda complementar os resultados obtidos a partir do
procedimento de nomeação verbal de subgrupos com crianças mais velhas. É mais
provável que as diferenças em função da idade das crianças na capacidade de
representar com acuidade a estrutura coesiva do seu grupo, traduzam mudanças
cognitivas do que mudanças na organização afiliativa de grupos de pares
estáveis.
SEGUNDO ESTUDO
MÉTODO
Participantes
A amostra é constituída por um grupo de crianças americanas, predominantemente
caucasianas, que frequentavam um infantário no Institute of Child Developmentem
Minneapolis, Minnesota. As crianças foram observadas durante três sessões do
ano escolar (Outono, Inverno e Primavera). No princípio do Outono, o grupo era
composto por 22 crianças (8 raparigas e 14 rapazes; com idades variando entre
48 e 58.8 meses). Duas raparigas deixaram o grupo depois da sessão de Outono,
uma voltou a entrar no início da sessão da Primavera. Vinte crianças
participaram regularmente ao longo de todo o ano escolar. Mais de metade das
crianças eram provenientes de famílias de trabalhadores com profissão liberal,
enquanto o resto pertencia a famílias de vários estatutos socio-económicos.
Procedimentos
A proximidade espacial foi identificada utilizando a técnica do vizinho-mais-
próximo (Lehner, 1979; Kummer, 1968). A amostragem focal s equencial das
crianças foi conduzida na sala durante períodos de jogo livre nas três sessões
do ano escolar. Cada criança foi observada durante trinta segundos e o nome do
seu vizinho-mais-próximo foi registado. Foram realizadas no mínimo quarenta
observações por criança durante a sessão de Outono e no mínimo cem durante as
sessões de Inverno e Primavera. Os dois observadores responsáveis pela recolha
de dados mantiveram uma percentagem de concordância acima dos 80%.
RESULTADOS
Identificação das Redes Afiliativas
O primeiro passo da análise de redes envolveu a tabulação das observações do
vizinho-mais-próximo para cada criança. Foram designadas linhas da matriz
diádica às crianças e as frequências observadas de proximidade espacial com
cada um dos pares foram introduzidas em colunas. Esta operação foi realizada
separadamente para cada sessão. Como resultado foram obtidas três matrizes
diádicas assimétricas. Num segundo passo, cada matriz sofreu uma r otação pela
diagonal e somada a si própria. Após esta transformação, foram obtidas três
matrizes diádicas simétricas. As matrizes de co-ocorrência diádica foram
utilizadas para examinar a similitude dos perfis de associação. Os coeficientes
de correlação de Pearson proporcionaram medidas de similitude da associação
independentes da frequência da mesma. Os coeficientes de similitude dos perfis
de associação foram obtidos para cada sessão.
As matrizes de similitude foram analisadas com procedimentos de agrupamento
hierárquico com ligação completa. O ponto de corte dos dendrogramas (p<.05)
separou as crianças com perfil único para este nível de significância das
incluídas em subgrupos sociais. As análise de qui-quadrado permitiram
distinguir agregados sociais (Chi2 (1) < 10.51, p>.001) das cliques coesivas
(Chi Square (1) > 10.51, p<.001) em termos da associação selectiva entre co-
membros. A Figura_2 resume a identificação das redes afiliativas para cada uma
das três sessões. Os tipos afiliativos evidentes em cada uma das três
estruturas incluíram mais uma vez, membros de cliques, agregados e periféricos.
Figura_2
Estrutura afiliativa por sessão
Legenda: (C) Clique; (A) Agregado; (P) Periférico; (X) Ausente.
A Tabela_3 mostra a informação sobre a composição dos tipos afiliativos no
grupo ao longo das três sessões. Estes resultados descritivos revelam
informação estrutural consistente nos dois conjuntos de dados qualitativamente
diferentes (proximidade social versusvizinho mais próximo) e de diferentes
contextos sócio-culturais (Portugal versusEUA). A maioria das crianças esteve
claramente integrada em cliques sociais na primeira sessão escolar (68%).
Embora durante a sessão de Inverno apenas metade das crianças foi identificada
como membros de cliques, na Primavera esta proporção aumentou para 76%. Não se
verificaram diferenças de género em termos da adopção de tipos afiliativos
particulares em nenhuma das três sessões (Chi2 (2) = 3.90, p>.14). As
frequências relativas dos diferentes tipos afiliativos na sessão da Primavera
são francamente semelhantes às obtidas nos três grupos portugueses.
TABELA_3
Composição do Grupo por Tipo Afiliativo e Sessão
_________________________________________________________________________
|Tipo_Afiliativo_____|_______Outono________|___Inverno____|___Primavera___|
|Total_______________|________N=22_________|_____N=20_____|_____N=21______|
|Membros_de_Cliques__|_________68%_________|_____50%______|______76%______|
|Membros_de_Agregados|_________18%_________|_____35%______|______10%______|
|Periféricos________|_________14%_________|_____15%______|______14%______|
|Rapazes_____________|________N=14_________|_____N=14_____|_____N=14______|
|Membros_de_Cliques__|_________64%_________|_____50%______|______79%______|
|Membros_de_Agregados|_________29%_________|_____43%______|______7%_______|
|Periféricos________|_________7%__________|______7%______|______14%______|
|Raparigas___________|_________N=8_________|_____N=6______|______N=7______|
|Membros_de_Cliques__|_________75%_________|_____50%______|______72%______|
|Membros_de_Agregados|_________0%__________|_____17%______|______14%______|
|Periféricos________|_________25%_________|_____33%______|______14%______|
Composição das Unidades Sociais
Cliques, agregados e periféricos, caracterizaram a natureza e diversidade de
contextos afiliativos ao longo do ano. A Tabela_4 resume a informação sobre a
composição de unidades sociais para cada uma das três sessões. Globalmente, as
três estruturas são bastante semelhantes. O número de periféricos manteve-se
relativamente constante indicando que a ligeira redução no número total de
unidades sociais se deveu ao aumento do tamanho dos subgrupos. Este aumento foi
acompanhado da redução do número de agregados sociais; as crianças nestes
subgrupos tendiam a tornar-se membros de cliques na sessão da Primavera.
TABELA_4
Composição do Grupo por Unidades Sociais e Sessão
____________________________________________________________________________
|Unidades | Outono (N=22) |Inverno (N=20)|Primavera (N=21)| Total |
|Sociais________|_______________|______________|________________|____________|
|Raparigas______| _____________| ____________| ______________| __________|
|Cliques________|_______2_______|______1_______|_______1________|_____4______|
|Agregados______|_______0_______|______0_______|_______0________|_____0______|
|Social_Outliers|_______2_______|______2_______|_______1________|_____5______|
|Rapazes________|_______________|______________|________________|____________|
|Cliques________|_______3_______|______3_______|_______4________|_____10_____|
|Agregados______|_______2_______|______2_______|_______0________|_____4______|
|Social_Outliers|_______1_______|______1_______|_______2________|_____4______|
|Cliques_Mistas_|_______1_______|______________|________________|_____1______|
|Agregados | | 1 | 1 | 2 |
|Mistos_________|_______________|______________|________________|____________|
|Total__________|______11_______|______10______|_______9________|_____30_____|
Verificou-se uma forte tendência para a homogeneidade de género no interior das
cliques sociais em cada sessão. Uma única clique mista, composta de duas
crianças, foi identificada no Outono. Ainda nesta sessão foi identificado um
agregado misto, composto por duas crianças. Finalmente, um segundo agregado
misto também composto por duas crianças, foi identificado durante a sessão de
Inverno. As cliques sociais eram compostas por uma média de 2.7 crianças
(DP=0.88). Um teste t de Studentnão revelou diferenças significativas de
tamanho médio entre as cliques de raparigas e as de rapazes (t (12) = -1.258,
bi-caudal, p>.23). Testes semelhantes não revelaram diferenças significativas
no tamanho das cliques entre as sessões (Outono: M=2.5, DP=.55; Inverno: M=2.5,
DP=.58; Primavera: M=3.2, DP=1.30).
DISCUSSÃO
Os resultados descritivos deste estudo alargam os procedimentos multivariados
de análise de redes à observação não-enviesada de pura proximidade espacial, e
providenciam uma técnica inovadora e complementar para a investigação em
etologia social. Quer para comparações intra como inter-espécies, a aplicação
de procedimentos de agrupamento multivariados pode ser realizada com uma
diversidade de grupos e populações sociais estáveis. Em estudos
desenvolvimentais e comparativos, a identificação de redes coesivas com base na
identificação do vizinho-mais-próximo oferece uma técnica adequada para
observação a distâncias relativamente grandes, em contextos mais ou menos
diversos e entre diferentes classes de idade e sexo.
DISCUSSÃO GERAL
A aplicação de procedimentos de análise de redes no estudo da actividade
afiliativa, fornece o complemento necessário aos estudos etológicos
tradicionais do conflito e dominância social entre pares. Ainda que há quase
duas décadas, vários autores tenham repetidamente sublinhado que as actividades
pro-sociais ocupam a vasta maioria das trocas sociais em grupos de pares pré-
escolares, muita pouca atenção tem sido dada para traçar as mudanças
desenvolvimentais na estruturação das relações sociais coesivas. A similitude
de associações diádicas oferece uma representação da organização afiliativa que
difere radicalmente dos procedimentos mais clássicos que constroem sociogramas
a partir das preferências diádicas individuais. No geral, a organização das
relações afiliativas no interior do grupo de pares deve ser vista como uma
instância de co-adaptação dinâmica. As trocas sociais endo-clique podem
promover interesses comuns e sentimentos de solidariedade crescente entre pares
particulares. Por outro lado, a interacção social entre co-membros de cliques
pode também influenciar sentimentos de oposição interpessoal. A competição
individual pela liderança ou papéis de controlo pode fazer decrescer os
interesses comuns e em última instância levar ao colapso da unidade social. Em
ambos os casos, a experiência partilhada no subgrupo social pode contribuir
para o desenvolvimento de estratégias mais complexas de participação social.
A análise de similitude da associação diádica fornece um modelo gráfico do
sistema de grupo de pares como uma estrutura colectiva compartimentalizada numa
série de unidades sociais discretas. É claro que, a descrição da natureza das
dinâmicas sociais intra e inter-subgrupos sociais distintos representa um dos
maiores desafios em estudos futuros sobre como é que a ecologia social de grupo
constrange diferencialmente a adaptação e o desenvolvimento individuais. O uso
complementar de procedimentos psicométricos e estruturais em sociometria, para
além da validação recíproca, permitirá contextualizar muita da informação
dinâmica subjacente aos modelos contemporâneos de aceitação e rejeição entre
pares, assim como interpretações correntes sobre a natureza e função do
estatuto sociométrico no interior do grupo de pares.
Questões futuras sobre como é que as escolhas afiliativas - avaliadas
quer em termos de observação de comportamento como de entrevista sociométrica
- se relacionam com o estatuto sociométrico e a inserção da criança na
rede afiliativa do grupo, possibilitarão uma interface importante entre duas
metodologias de investigação, até agora sobretudo independentes, do estudo
contemporâneo das relações entre pares. De um modo geral, estudos mais
sistemáticos da aceitação-rejeição da criança no grupo de pares e respectiva
relação com potenciais mudanças s ituacionais de pertença a subgrupos
afiliativos, prometem novos insightsem relação processos de grupo dinâmicas do
desenvolvimento comportamental precoce.