A Construção da Ordem Interaccional na Rádio: Contributos para uma análise
linguística do discurso em interacções verbais
RECENSÃO
ALMEIDA, Carla Aurélia de (2012), A Construção da Ordem Interaccional na Rádio:
Contributos para uma análise linguística do discurso em interacções verbais.
Com Prefácio do Professor Doutor José Madureira Pinto
Porto, Afrontamento, Biblioteca das Ciências Sociais/Plural, ISBN 978-972-36-
1324-7.
M. Emília Pereira*
*Universidade do Minho, Braga, Portugal
memilia@ilch.uminho.pt
O campo da análise linguística da fala tem, com Almeida (2012), um contributo
académico seguro e autorizado, de que importa, pois, reter conceitos e fazer
notar aditamentos no âmbito descritivo específico. O objeto de estudo vem
referido como interação, em observância aos estudos de pragmática linguística,
sedimentados na academia francesa desde há cerca de três décadas. Estes ter-se-
ão também feito herdeiros da tradição etnometodológica americana, donde há que
remontar aos anos setenta para identificar publicações de sociologia,
antropologia e sociolinguística, como precursoras, competentemente listadas na
bibliografia final.
Na medida em que as epígrafes do livro A construção da ordem interacional na
rádio: contributos para uma análise linguística do discurso em interações
verbaisde J.Heritage e I. Hutchby fazem ainda escola na atualidade, pois que
encontram eco em manuais e revistas, percebe-se a escolha editorial de forma
breve da tese de doutoramento, defendida em 2005. De igual modo que o título e
subtítulo da presente edição vinculam a autora ao objeto, tal como perspetivado
num determinado tempo que nos é mais ou menos contemporâneo (os dados da
interação na rádio tiveram origem num período de 1997 a 2001) e, o que bastante
mais importa, a vinculam a um espaço-tempo académico, cumpre reproduzir o
subtítulo original, “padrões de organização sequencial, atos e estratégias de
discurso, relações interativas e interlocutivas”. Este mais visivelmente dava
conta de um trabalho académico de descrição linguística com base no discurso,
fala ou interação real pois carreava a terminologia estabelecida no domínio.
Passados uns quantos anos (mas, de um tempo académico que se fez de acelerações
várias), a linguista inscreve o trabalho na Análise de Discurso, o que fica
metodologicamente assente nas páginas iniciais e indiscutível em toda a análise
proposta: nos exemplos analisados com os recursos descritivos discursivos e nas
conclusões, momento explícito de exposição do que a investigadora visa fazer
aceitar aos seus leitores, público especializado, ou informado.
Com o benefício de ter descrito aspetos de natureza fática ou ritual, após o
que atinge o cerne da interação levada a cabo, ou encaminhada pelo moderador
perante a vontade prévia e deliberada de participar de um dado ouvinte, Carla
Almeida identifica estratégias de alinhamentona conversação, o que especifica
em fase, sob o termo desenvolvimento. É aí que radica a ordem interacional,
"o posicionamento dos interactantes em relação a um tópico
específico". Copio um tanto mais, de modo a que a escolha metodológica
pela qual a autora conclui fique disponível para discussão ulterior:
"Assim, o estudo do modo como se constrói o consenso e o
conflito
nas interações exige o enfoque analítico não só nas ações_discursivas das
diferentes intervenções, mas também na gestão das estratégias_discursivas
desenvolvidas em função das trocas específicas, como as que atendem aos aspetos
relacionais/_rituais e que, de um modo geral, dizem respeito ao sistema da
delicadeza que visa efeitos relacionais" (sublinhados meus).
Em sintonia com o transcrito e, ainda, com os dois parágrafos em que as
citações de autoridade nos fazem perceber uma identidade académica partilhada,
pois que a investigadora vem a salientar "a dimensão argumentativo-
retórica da linguagem em acção", devo encontrar um espaço, porventura,
não cabalmente preenchido no livro. A acomodação intersubjetivalança desafios
que carecem ainda de descrição. Esta tenderá a seguir as vias alternativas, no
que apenas ratifica, adicionalmente, aquela aqui explorada. Assim, o que fica
de fluxo, ou dinâmica discursiva, dependerá também do que é discutido e não tão
visivelmente de indícios deixados pelos sujeitos na interação. Por definição,
indícios de natureza interativa ou interacional são marcas de um locutor que se
inscreve no seu discurso. Matérias há em que aqueles devem ficar ausentes.
I.e., não se definirá toda a interação, se não se contemplar também o que,
sendo uma virtualidade, não vem a atualizar-se. Atender, pois, menos ao sujeito
– que no limite, nunca se alheia do seu discurso (homo loquens) – e centrar a
análise interacional no assunto, na configuração de sentido, no que as línguas
naturais especificamente estão orientadas para construir e, adicionalmente, no
que um uso diferenciadofaz reconhecer é percurso a empreender na mesma área de
estudos.
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