Masculino/ feminino: mitos e utopias em Yara, a virgem da Babilónia
Introdução
Sendo o elemento masculino dominante desde tempos imemoriais ("a
objetivação da cultura masculina", segundo Georges Simmel[1]), o romance
do escritor moçambicano Adelino Timóteo intitulado Yara, a virgem da Babilónia
(2008), revoluciona esse paradigma social de forma sui generis. De facto, ao
colocar como figura proeminente do universo romanesco uma personagem feminina
que se revela empreendedora e subversiva, o escritor revoga o tradicional papel
subserviente e passivo da mulher.[2] No entanto, pese embora o facto de o
universo romanesco ser dominado por uma figura feminina, como indiciado no
título, ele é também partilhado por uma personagem masculina de não somenos
importância. Trata-se de um jornalista de setenta anos, cujo olhar de narrador
autodiegético subverte os tradicionais conceitos de amor e idade. O universo
romanesco problematiza ainda de forma insólita os temas da sexualidade e da
virgindade destruindo mitos e configurando utopias.
A dimensão simbólica da obra se descobre entre a vertente humana de uma mulher
sereia eternamente virgem e o drama existencial de um homem que em fim de vida
ousa desafiar convenções e preconceitos. Oriundas de continentes distantes, com
experiências de vida totalmente distintas (ela da Ásia, fugida da guerra, e ele
de África onde vive na miséria), as duas personagens principais se encontram em
Moçambique (na Beira) onde encetam uma busca utópica do amor augurando a
desilusão que se seguiu às independências africanas e que ainda hoje perdura
face às duras realidades vividas nesses países. De facto, no Grande Hotel onde
vive o jornalista, micro-cosmos da nação moçambicana, imperam a miséria, a
corrupção, a prostituição e a droga, vivendo a população da caridade alheia ao
invés de gozar o progresso e o bem-estar sonhados.
É, então, da interseção destas duas sensibilidades que no texto moçambicano se
cruzam vários mundos: o masculino e o feminino, o africano e o asiático, o do
sonho e o da realidade. Mas, o fracasso das personagens remete, finalmente,
para o fim do mito da nova e próspera nação moçambicana que, após a euforia das
independências, se vê confrontada à pobreza e à inércia.
1. A dimensão mítico-simbólica e humana de Yara
A ação do romance decorre na Beira, cidade onde trabalha o jornalista e a que
chega a personagem feminina depois um périplo bastante acidentado. Casada sete
vezes mas ainda assim virgem, a mulher que o jornalista Francisco aceita
encontrar na mesa do café Scala, tem trinta e oito anos, é bela e sedutora:
"morena, muito bonita, de cabelos pretos e longos, de olhos acastanhados,
( ) sobrancelhas bem arqueadas, cílios longos e densos e lábios rosados, ( )
esbelta, pernas bem torneadas" (p.12). Mas o seu nome introduz desde logo
uma nota enigmática: "Já o seu nome transfigurava a premonição dos deuses
das águas: Yara" (p. 77). De facto, na mitologia brasileira, Yara era uma
jovem tupi muito formosa que vivia no rio Amazonas. Cobiçada pela sua beleza e
pela sua doçura, mas indiferente aos admiradores da sua tribo, numa tarde de
verão, quando estava no banho, foi atacada por um grupo de homens e depois
atirada ao rio. Então, o espírito das águas teria transformado o seu corpo no
de uma sereia, cujo canto atraía os homens para depois os arrastar às
profundezas do mar.[3]
Mas Yara é uma figura insólita também pela sua história.[4] Vivia na Babilónia
e aos 18 anos era de uma beleza mítica.[5] Ela "banhava-se e cantava no
rio Eufrates ( ), as águas do rio pareciam quem a tinha gerado ( ), uma beleza
como ela parecia atributo mítico dos deuses daquelas águas", p.77 (a
imagética da água é constantemente associada a Yara, mulher e água na sua
função genésica - "a Yara tem um misto de cheiro do rio e do mar",
p. 95. Para o narrador, a água tem poder igual ao da mulher - "todos os
homens querem banhar-se no corpo dela", p. 83). Um dia, quando ela se
banhava no rio Eufrates, foi vista pelo homem mais rico da Babilónia, Arkad,
que com ela se casou. Mas, brevemente Yara enviuvaria deste e passaria quinze
anos na torre da Babilónia num quarto destinado às virgens (simbolicamente
"o quarto das virgens é o rio ( ), a cama onde ela dormia era o
barco", p. 82). Teria mais seis maridos, todos eles também mortos sem que
ela tivesse alguma vez deixado de ser virgem. Quando a guerra rebenta na
Babilónia, deixa o seu país natal num barco que navega nas águas do rio
Eufrates e chega à Síria. Em seguida, atravessa o Mediterrâneo e chega ao
Egipto. Percorre, então, o deserto a pé pelo Nilo abaixo guiada pela sua avó, a
maga Isabel. Passa o Sudão e a Somália. Tendo perdido o contacto com a maga, em
Katanga perde-se, sendo, então, conduzida por um garoto, cujos pais haviam
perecido na guerra do Sudão. Este a leva até à Tanzânia. Depois, a maga
ressurge e a conduz à Beira, onde se fixa ("a África atrai-a porque aqui
é possível que tudo aconteça", p.121). É aqui que ela vai ao encontro do
repórter sem que se saiba ao certo as suas intenções.[6] Na mesa do café, onde
se dá o encontro entre os dois, Yara tenta sensibilizar o seu interlocutor para
o facto de ter deixado a Babilónia em busca da concretização de um sonho, sendo
que o mesmo não desperta nele qualquer interesse.[7] Sentindo-se rejeitada,
acaba por aceitar a companhia de um inglês, Westminster, com quem se refugia na
casa de um babilónico. Numa noite em que se lavava, com voz cantante, atrai o
anfitrião que, ao avançar para ela, a vê transformada em sereia (diz Yara que
possivelmente essa capacidade de transformação seria uma herança da sua avó
[8]). Daí vai para um convento.
Todavia, a sua história não tem apenas uma dimensão mítica mas também humana.
Ela se apaixona por um jovem (Dalibo) antes de entrar para a universidade. A
guerra da Babilónia lhe causa dor e a partida uma profunda ferida ("um nó
apertava o seu coração, uma dor inquietante, uma profunda ferida se apoderara
dela quando o navio se afastava do porto fluvial", p. 117). Sofre e se
sente mesmo desesperada no seu percurso pela Ásia e pela África[9], "um
infortúnio vivido a pão e água", p.124. Na Beira, sente solidão
("eu neste hemisfério, só", p. 122), por isso procura o jornalista
pedindo-lhe que seja humano e lhe preste atenção (pp.14-15). A recusa deste em
dela se aproximar suscita-lhe desilusão e lágrimas (p.14). A carta
autobiográfica que escreve a seus pais no final da obra é plena de lirismo e
emoção ("há feridas que ocupam o lugar de margens", p. 122). Custa-
lhe falar de Babilónia por causa da guerra e atrocidades que lá presenciou. É,
finalmente, a terra africana que lhe traz esperança e fé, porque é lá que
"mora o Humanismo", o seu "chão é feito de luz que mesmo
sendo forte, ilumina as suas gentes ao sentir" (p. 122). O seu percurso
é, pois, simbólico: "o sofrimento valeu porque me talhou" (p.125).
Além disso, vive em permanente conflito existencial: como ser mulher e
continuar virgem? Como ser mulher sem ser mãe? Sabida a importância da
virgindade e da fecundidade como elementos definidores da identidade feminina
[10], será possível ser mulher sem procriar? Como diz Swain (2007), estudiosa
do feminismo, "procriar, reproduzir a espécie passou a significar
socialmente o feminino ( ) deixando de ser mulheres a imensa legião daquelas
que não podem ou não querem ter filhos, perdem a sua inteligibilidade social e
alinham-se na fileira dos excluídos"[11]. Na sociedade africana a
esterilidade é mesmo vista como uma maldição e a mulher estéril marginalizada e
vista como nula. Esta conceção advém essencialmente do facto de se considerar,
tal como postula Mircea Eliade, o dar à luz como "uma variante, em escala
humana, da fertilidade telúrica"[12], isto é, a maternidade será uma
manifestação das forças cósmicas e do sagrado[13]. A reprodução se afigura,
pois, para a mulher africana não só como um dever social mas também como uma
necessidade moral que lhe é intrínseca. Mas gerar significa obrigatoriamente
entregar o corpo ao homem que valoriza a virgindade feminina como um bem
precioso[14]. Então, como pôr fim ao mito de que "a virgindade não é algo
que se perde", segundo Yara (p.47)? Como viver o amor sem entregar o
corpo a um homem? Como ser bela e desejada sem ser possuída? Como ser ela
própria sem ser de ninguém? Assim, a sua virgindade se torna símbolo ou
protótipo de uma crise de identidade que afetará o ser-mulher cujo corpo parece
pertencer ao homem por convenção social mas sobre o qual ainda é possível tomar
posição: "para que é que os homens querem uma virgem? Para alimentar os
seus caprichos" (p. 124). De facto, debatendo-se entre convenção e
subversão, entre a posse da sua virgindade pelo marido que a reclama e a recusa
consciente e sofrida dessa possessão, ela recusa o corpo sucessivamente aos
seus sete maridos. Como redefinir por conseguinte a sua identidade de mulher
face ao domínio masculino sendo o marido o intruso no seu corpo, a maternidade
o único meio de dar continuidade à geração, a mulher definida pela maternidade,
a mulher objeto possuído? É então que Yara chega à utopia sexual: amar e casar
[15] mantendo-se virgem, subvertendo assim o conceito de virgindade -
"uma pessoa pode ser virgem, mas impura. Sou apologista das virgens de
alma", afirma (p. 124). Além disso, subverte também o próprio conceito do
amor, pois sendo incapaz de se entregar aos seus sucessivos maridos se oferece
de forma atípica a um desconhecido, a quem pede ambiguamente que seja humano
(p.49). Terá ela recusado abdicar da sua virgindade por falta de humanidade dos
seus pretendentes? Ou poderá o amor realizar-se fora do corpo, excluindo a
sexualidade, baseado apenas num humanismo platónico? Tal parece ser a utopia de
Yara de que o seu desaparecimento físico da diegese após o primeiro capítulo é
prenúncio.
Após a desatenção do jornalista deixar-se-á ainda acompanhar por um inglês com
quem também não consuma o ato sexual para que a eternização da sua virgindade
se torne símbolo do corpo ostentado como signo identitário, isto é, a mulher
não definida pela maternidade, a recusa de uma possessão outra. Para Yara, o
ato sexual será então a violação do seu corpo e com ele da sua alma porque
mesmo podendo a entrega física e/ou espiritual ser mútua, o homem é o intruso,
o dono que Yara repele. Essa recusa de entrega se traduz no seu desaparecimento
físico da diegese após o encontro inicial com o jornalista no café. Apenas
volta de forma surreal nos escritos que deixa.
A afirmação da sua identidade de mulher insubmissa passa, pois, pela
preservação do corpo como algo de exclusivamente seu mas também pela afirmação
de uma personalidade fora do comum: "deixei que os meus pés tocassem onde
o coração quisesse" (p. 125), afirma na sua carta autobiográfica. O seu
percurso de Ásia a África, sendo invulgar e pejado de sofrimento, lhe dá fé e
esperança no sonho: "desistir de um sonho não é mais do que iniciar o
novo. E o meu caminho está coberto de mistérios de um novo sonho". O
sonho do amor fora do corpo ou da sexualidade, seja ele utópico, é ainda o seu
direito de mulher. Após ler a carta de Yara, o jornalista conclui, finalmente,
que ela é uma mulher plena de ideias. A sua dimensão humana, ultrapassando pois
a mítica, remete para a da mulher africana que, entre mitos e utopias, vai
tentando redefinir a sua identidade.
2. Os contornos físicos e psicológicos da paixão no narrador
O ponto de vista do narrador autodiegético que domina a narrativa apresenta-nos
como personagem principal um jornalista de setenta anos que tivera vários casos
amorosos na vida. Vivera uma longa relação conjugal com Maria Cambaco, mulher
"de pele negra, fosforescente, língua afiada, dentes como serrote detrás
de uns lábios carnudos" (p. 20). No entanto, não partilha com esta o
desejo de um casamento, pois ela "queria um casamento que consistisse em
responsabilidades comuns", enquanto ele se diz "devotado defensor
de liberdades absolutas".[16] É, então, que ela rompe com uma vida
conjugal que a martiriza e procura a felicidade reconstruindo a sua vida:
"Eu vou viver a minha vida e conseguir o meu objetivo, ser feliz"
(p. 58).
O narrador tem também uma relação com a meretriz, Jezebela, que pinta os cílios
dos olhos, cobre as maçãs do rosto com pó vermelho e a contra-face com
castanho.[17] Esta personagem paradoxal, porque a todos se entrega considerando
que o seu corpo nunca pertenceu a ninguém senão a si própria[18], opõe-se a
Yara, confessando ao seu amante que está a perder a virgindade pela milésima
vez.[19] No entanto, ele se distingue por ser o "único homem que lhe
disse grandes verdades" e surpreendentemente o pede em casamento. Mais
uma vez ele recusa este enlace porque o vê como uma prisão ("tenho pavor
ao casamento", p. 32). Esta relação é sobretudo intensamente física e de
caráter temporário.
Penélope surge, então, para ele como uma referência única no universo feminino:
estrangeira, muito bela, loira, de olhos azuis, tinha o mundo a seus pés
desfrutando do seu tempo com homens negros ("na sua lista de amantes
incluíam-se figuras principais do Estado e do Governo", p. 33). Confessa
ao narrador quando a vai entrevistar que, após perder a sua virgindade, se
tornou numa "viciada do amor" odiando, também paradoxalmente, os
homens porque estes são tão "prostitutas como as mulheres" e pensam
que estas "foram feitas para ser a sua presa fácil de ter" (p. 40).
Face ao "poder do seu corpo" e à "ditadura da sua
beleza", ele "cai no domínio do seu encanto, do seu instinto
vulcânico" (p. 41), mas o prazer também aqui é puramente sensual e
temporário. Continuando a viver com Maria Cambaco e a envolver-se com outras
mulheres chega ao caso com Mercedes, uma brasileira professante de catolicismo,
uma "quase-quase" virgem, pois tendo começado cedo as suas
aventuras nas roças, cortiços e favelas, mais tarde se torna uma eremita quase
louca. Mas também este encontro é fortuito.
Yara chega como qualquer outra mulher na sua vida quando ele já está avançado
na idade. Após um breve encontro na mesa do café sem grande interesse, ela
revela-lhe que é virgem e que tivera sete maridos. Inicialmente indiferente a
esta sedutora, crê mesmo piamente que o único e "mais puro desejo"
(p. 50) dessa mulher seria apenas usá-lo para perder a sua virgindade e que ela
teria mesmo vergonha de ser virgem. Seus sete maridos teriam sido
inclusivamente apenas uma forma de esconder essa vergonha. Vendo, então, a sua
desfloração como uma posse carregada de consequências (significaria
"suportá-la para o resto da vida" (p. 50), resiste de imediato a
essa sedução física. Mas o corpo desta mulher, que os maridos não conseguiram
possuir, e que ele inicialmente recusa, acaba finalmente por lhe suscitar um
forte desejo físico.
Conhecida como a "virgem de peitos e nádegas escaldantes", a
influência que terá sobre o jornalista vai, no entanto, além do puro desejo
físico uma vez que ele vê nela qualidades humanas extraordinárias que lhe tocam
no mais profundo da alma. De facto, após certas questões iniciais que o deixam
perplexo e sem respostas para as dúvidas[20], começa a sentir uma atração sem
limites pela desconhecida, começando a procurá-la incessantemente. Rapidamente,
esta se vai transformar no ícone da sua paixão, das suas aspirações mais
íntimas, como a materialização de um ideal que ele persegue desde sempre
("eis o que eu nunca tinha feito na vida: buscar um amor para ser
feliz", p. 57). Os dias subsequentes de busca infrutífera só lhe deixam
tristeza e amargura ("a tristeza passara a ser a minha companheira
constante", p. 59). Um dia, ao saber que Yara teria sido vista na
companhia de um inglês, vê-se consumido de ciúmes que o levam a intensificar a
procura. No entanto, é a carta que ela escreve a seus pais, cuja cópia o
barbeiro Sitole lhe mostra, que o vai emocionar sobremaneira mostrando-lhe sem
sombra de dúvida que ela era, de facto, um ser excecional.
Finalmente, a hipnose que a misteriosa figura feminina lhe provoca leva-o a
seguir o penoso caminho de um convento agarrado ao sonho de lá a encontrar e de
constituir família com aquela que finalmente se lhe afigura como o modelo de
mulher que toda a vida desejara (p. 156). A perspetiva do reencontro dá-lhe
alento para chegar ao fim da caminhada, mas ao saber que Yara fora transferida
para destino desconhecido, fica destroçado. Caminha, então, à deriva à beira-
mar, só com a natureza como cúmplice do seu intenso sofrimento, até sentir que
sai do seu corpo: as ondas do mar o acariciam, as árvores escutam seus
desabafos, os pássaros o tentam consolar e a lua se torna sua aliada[21]. É,
então, uma pedra que agarra com toda a sua força que o faz reviver dando-lhe a
ilusão de ter em seus braços essa mulher avidamente procurada. Naquele lugar
adormece sonhando com ela, mas ao acordar surge o vazio: a mulher terá
realmente existido ou foi um sonho? Seja como for, sem fronteira definida entre
sonho e realidade, "numa vida algo limite", ele subverte o mito da
velhice como o fim da vida, imprópria à paixão, fazendo de um amor hors norme a
sua razão de viver.
Conclusão
A guerra na Babilónia trouxe morte, sofrimento, orfandade e estropício -
"meninos que ficaram órfãos, ( ) velhos abandonados na solidão dos
lugares destroçados. ( ) uma mulher grávida a quem os soldados
estupraram" (p. 123). Yara parte sob as bombas atiradas contra o seu
povo. A guerra na Babilónia, figura da África, traz a perda da identidade e
representa, sem dúvida, o fim de certos mitos: "o mundo não é o que me
parecia anteriormente. Ele é feito de salpicos de refugiados e apátridas. Tal
como na Babilónia, na África, há gente que perdeu a noção da sua história e
origem por causa do sofrimento" (afirma Yara, p. 123). Tal como o povo
africano, ela nutre um sonho: o de acabar com o mito da mulher sereia. De
facto, depois de ter enviuvado sete vezes, de ter escapado à guerra na
Babilónia, e de um percurso acidentado pelo deserto, deseja casar-se e ter uma
família. Mas a sua busca utópica de felicidade, forjada na dor e no sofrimento,
representará o malogro do sonho africano após as almejadas lutas pela
independência que desembocaram em guerra e pobreza. A experiência gorada da
figura feminina ("de Yara o mito é algo que lhe fugia", p. 154)
surge, pois, como prefiguração das frustrações de um povo que sonhou ser livre
mas se viu aprisionado na miséria e devastado por conflitos - África dilacerada
pela ambição dos poderosos, é "um chão que geme, que grita, que sofre ( )
porque em todo o lugar os homens são caçadores furtivos que a si próprios se
azagaiam na floresta das suas incontroladas ambições".[22]
Embora virgem depois de ter casado sete vezes, ela ousa ainda amar o jornalista
acreditando que mais importante ainda que a virgindade do corpo seria a pureza
de sua alma. A tentativa de reconquista de uma identidade perdida após a guerra
na Babilónia, a busca da felicidade amorosa com o jornalista para além dos
obstáculos, representam, pois, a crença na reanimação e no progresso do
continente africano após o mito independentista que não trouxe nem o progresso
nem o desenvolvimento esperados. A dimensão humana de Yara remete para o
sofrimento das gentes africanas maceradas pela guerra mas que ainda assim
perseguem a busca de ideais e de sonhos iminentemente humanos - "pelos
lugares por onde passei há gente que nada tem ( .) mas as pessoas são talhadas
ao humanismo no meio do sofrimento porque passam" (p.125).
Por seu lado, o narrador procura com sofrimento esta mulher que apenas viu uma
vez e lhe desapareceu de vista. Enquanto a mulher sonha utopicamente acabar com
o mito da mulher sereia eternamente virgem, ele, já avançado em idade, ao
invés, se lança na conquista de um mito: a realização amorosa plena, depois de
tantos fracassos e já idoso, com uma virgem sereia enigmática e fugidia que
matara os seus sete maridos. Desmistificando preconceitos e interditos, a
construção da sua utopia assenta também na eterna possibilidade do sonho. Mas,
a impossibilidade do reencontro de Yara, o malogro da sua busca, representará
também a falência do mito que alimentou as gerações africanas na luta pelas
independências: o novo dia que raiou sobre o continente veio infelizmente
carregado de incertezas e dor. O fim do sonho parece realmente absurdo: a
virgem desapareceu do convento porque a sua mulher, Maria Cambaco, que o tinha
deixado e reconstruído sua felicidade com outro, chegou antes dele ao lugar
dizendo que ele procurava Yara para a matar. É então assim que um homem e uma
mulher ávidos de felicidade, procurando-se mutuamente sem saberem, e não se
reencontrando por razões absurdas, nos revelam um mundo às avessas onde o vazio
existencial que assola as personagens se torna semelhante ao que as
independências criaram nas populações africanas face à ocidentalização das
culturas autóctones. Estas se sentem à deriva e sofrem na pele as incoerências
e os desajustamentos de uma nova e estranha ordem. Tal como o narrador caminha
à deriva pela beira-mar, as novas nações africanas em permanente ebulição
parecem, por vezes, em desnorte. Atingindo o seu auge na praia, o sofrimento do
jornalista[23] representa o reavivar das dores do continente, não já sob a
ordem esclavagista ou colonial, mas sob uma neo-colonialidade impregnada de
dificuldades e desigualdades. Contudo, a pedra que encontra e que transporta
consigo, objeto inanimado que paradoxalmente lhe dá a sensação de transportar
uma mulher amada, lhe permite converter o insucesso da busca na miragem de um
futuro brilhante: "quedo-me e adormeço com a pedra entre os braços. Neste
dia sonho que me casara com Yara" (p. 161). Urge preservar ideais não
obstante os fracassos! Assim, destruindo o mito de que o fim de vida exclui o
sonho, a pedra parece dizer-lhe que sob os destroços das lutas independentistas
ainda há esperança para a terra africana: há que renascer!
Por conseguinte, não obstante a busca utópica das personagens se afigurar como
uma peregrinação fracassada em direção a um ideal, ela é, antes de tudo, o
trilhar de um caminho espiritual, a descoberta de que nunca é tarde para se
encontrar uma nova razão para a vida: "o meu caminho está coberto de
mistérios de um novo sonho" (p. 125), afirma o protagonista. O percurso
iniciático das duas personagens parece, portanto, remeter para a reanimação do
continente africano após o fim do mito que alimentou as primeiras lutas
independentistas. De facto, depois do sofrimento da guerra e do deserto, Yara
tenta recomeçar uma vida normal com o jornalista e este, por seu lado, acredita
no amor e na felicidade ao lado dela depois de tantos fracassos amorosos.[24] O
reiniciar do sonho e a esperança na felicidade abrem, pois, simbolicamente uma
estrada de otimismo ao homem africano.