De Pandora a Eva: fontes antigas da misoginia ocidental
Introdução
A desvalorização e o vitupério da mulher são uma realidade comum a inúmeras
civilizações de todos os tempos e lugares. No entanto, a origem da sua
retórica situa-se no berço da civilização ocidental. Foi Antípatro de Tarso,
filósofo estóico, que, já na época helenística, introduziu a palavra μισογυνία
para designar o ódio, desagrado, desconfiança pelas mulheres, curiosamente
numa obra em defesa do casamento (c.150 a. C.). O contexto é a referência à
reputação misógina da escrita (τὴν μισογυνίαν ἐν τῷ γράφειν) do tragediógrafo
Eurípides (480-406 a.C.). [2]
Contudo, nem o aparecimento por escrito de considerações misóginas coincidira
com a entrada em cena da literatura grega, nem o seu aparente domínio na época
clássica ' concretizado socialmente no confinamento ao oikos e no silêncio
oficial da mulher ' está isento de ambiguidades e excepções.
A atitude misógina foi também objecto de reflexão, nomeadamente quanto às
causas. Cerca de cem anos depois do grego Antípatro, o romano Cícero defini-la-
á com clareza, nas Tusculanae Disputationes (IV, 25),[3] como odium mulieris
e classificá-la-á como uma aegrotatio animi ' uma doença do espírito ',
equiparável a outras que poderiam parecer mais graves, como a misantropia e a
negação da hospitalidade. Cícero vai mais longe, ao afirmar que, subjacente a
estas doenças do espírito humano, está o medo ' metu' de coisas de que se
foge e odeia: omnes aegrotationes animi ex quodam metu nascuntur earum rerum
quas fugiunt et oderunt.
O grande orador e político romano não seria certamente o primeiro nem o único a
pensar desta forma, que afinal resulta da análise racional da questão. No
entanto, foi na Grécia Antiga que se estabeleceram, com os alicerces da razão e
da incipiente ciência, sob a esplendorosa luz do Mediterrâneo ' que durante
séculos iluminou mais a beleza do efebo que a do beau sexe ', os tópicos
fundamentais de um retrato negativo da mulher que gozará de um porvir
florescente: criatura frágil, irracional, luxuriosa, instável, perversa e
ignorante.
O discurso misógino grego, corroborado e continuado pelos romanos, acabou por
ser fortalecido pela auctoritas de sábios de outras origens culturais e
religiosas, nomeadamente judaico-cristãs. A aparente hostilidade para com o
Paganismo não impediu a nova ideologia dominante de ser profundamente
influenciada pela cultura clássica, por vezes a ponto de as tradições se
confundirem.
De facto, a história da misoginia e do vitupério da mulher é também a história
da herança cultural e, em última instância, da palavra escrita. Domínio
secularmente exclusivo do homem, a palavra foi sendo também um inimigo, por
acção e até supressão, da mulher, votada ao silêncio tanto por imposição, como
por falta de cultura.
Assim, as figuras de Pandora e Eva, além de mitos que simbolizam a misoginia e
o peso do verbo no masculino ' a primeira, no mundo clássico, a segunda no
judaico-cristão ', exemplificam também o peso da herança clássica na vertente
judaico-cristã da cultura ocidental.
As filhas de Pandora
Homero, o primeiro autor grego conhecido, terá cristalizado, pelo século VIII
a. C., e com o olhar do seu tempo, o fascinante ambiente da Grécia Micénica de
quase meio milénio antes. No mundo de Ulisses ' onde se combatia dez anos por
uma mulher e se errava pelo Mediterrâneo outros dez para regressar aos braços
de uma esposa ' a misoginia não transparece. Homem e mulher equiparam-se na
forma como são joguetes dos caprichos dos deuses, num tempo mítico em que
mortais e imortais se misturavam. Ainda assim, a fragilidade e a impotência da
mulher face à brutalidade dos heróis ' recordem-se os kakà érga de Aquiles
(King 1987: 25) ', sedentos de glória e poder e dominados pelas paixões mais
abjectas, eram gritantes: recorde-se a causa da ira de Aquiles (Ilíada, I, 180-
187), tema da Ilíada, e a angústia de Heitor perante o futuro de Andrómaca
(Ilíada, VI 450-465).
Mas Homero usa como ninguém as palavras quer para expor os excessos masculinos
(King 1987: 13-28), quer para transformar as suas personagens femininas em
verdadeiras deusas: imortaliza-as como símbolos encantadores de diversas
virtudes e sentimentos tão profundamente humanos e intemporais que continuam a
emocionar-nos três milénios depois.
Na Odisseia, Penélope simboliza, além da beleza, ciência doméstica e
fidelidade, a sensatez absoluta e uma inteligência que chega à astúcia, como
admite o pérfido Antínoo (II, 115). Na Ilíada, Andrómaca, por exemplo,
protagoniza as primeiras representações do afecto e da dor humana mais
profunda: (VI, 407-413 e 429-430).
Sempre cortês, Homero nunca critica abertamente as mulheres aparentemente
culpadas, como Helena, antes sublinhando a beleza espantosa que a tornava
irresistível (os velhos de Tróia, Ilíada III, 155), e a sua dimensão de vítima
dos caprichos divinos (Ilíada, III, 426).
É de facto na Odisseiaque o poder da mulher se mostra mais ostensivamente:
Ulisses está não tanto à mercê da ira de Poseidon, quanto dos caprichos das
deusas que o tentam reter; é Atena que o guia e protege, chegando a infundir-
lhe beleza para que caia nas boas graças das mulheres; a sua incansável
errância resulta do desejo de voltar para junto de Penélope, cuja mortalidade é
mais fascinante que as ofertas da magnífica Calipso; junto dos Feácios, na sua
última paragem, está à mercê da esplendorosa Nausicaa e da sua poderosa mãe,
Aretê, que é quem realmente manda no reino; enfim, é Penélope que, nos seus
próprios termos, testa e aceita Ulisses, mesmo depois da brutal exibição de
força masculina no massacre dos pretendentes.
O mundo homérico e os seus belos mitos sofrerão numerosas alterações e
interpretações na posteridade. Os poetas seguintes, sobretudo os trágicos,
elaborarão novas versões e interpretações de acordo com o gosto pessoal e as
preocupações do seu tempo; o Helenismo construirá paródias e atomizará as
análises, culminando numa teia complexa e confusa, apenas dominada por
mitógrafos envolvidos em discussões herméticas. Algumas das personagens
homéricas ' como Helena ' serão sujeitas a juízos pouco favoráveis, mas o seu
poder evocativo continua a despertar interpretações novas, provando a
inesgotável riqueza do divino aedo. Não deixa entretanto de ser curioso que o
Ulisses de Eça de Queirós seja muito mais machista que o original
Entre o séc. VIII e o VII a. C., ocorreram na sociedade grega mudanças
profundas que levaram a um afastamento radical do mundo de Ulisses: deixara de
ser possível ir para a guerra por causa de uma mulher. O arauto da mudança,
através do poder lapidar da palavra, foi Hesíodo, um camponês da Beócia que
recusava a sociedade aristocrática e heróica de Homero e as suas encantadoras e
poderosas mulheres.[4] Transparece pela primeira vez o receio masculino face ao
fascínio inexorável que elas exercem sobre a força e a razão. O poeta verbaliza
este medo algo insconscientemente: além de caracterizar as mulheres como
desavergonhadas, manipuladoras, mentirosas, interesseiras e curiosas ' zângãos
predatórios que atormentam o laborioso e sofredor abelha-homem (Teogonia, 590-
595[5]) ', apresenta-as como irresistivelmente sedutoras, pela beleza,
ornamentos e palavra, para o indefeso homem (Teogonia, 585-589). E tem uma
justificação imbatível: tal poder foi-lhes dado pelos deuses.
A mulher é, como Hesíodo não se cansa de repetir, um belo mal ' kalón
kakón',disfarçado de bem (Teogonia, 585; Os trabalhos e os dias, 83); acima de
tudo, uma punição, uma praga contagiosa (Os trabalhos e os dias, 753-755), para
a qual o homem não está preparado. Pior: a segunda parte do castigo de Zeus é
ser igualmente impossível viver sem ela (Teogonia, 602-605).
Mas o impacto das concepções de Hesíodo na posteridade grega e futura será
muito mais fundamental do que um retrato negativo, por mais lapidar que fosse:
o poeta criou um mito sobre a criação da mulher que a diferenciou do homem, ao
denominá-la como outra estirpe e raça (Teogonia, 591); e ainda vai mais longe
ao subverter mitos antigos, de índole matriarcal, sobre a benfazeja deusa
Pandora e atribuir-lhe a responsabilidade pelo sofrimento humano, quer devido à
sua própria existência, quer pela curiosidade insaciável que a leva a soltar
todos os males contidos no vaso que trazia de presente.
O novo mito, que assinala a dimensão mitopoiética na sua realização máxima e
terá repercussões extraordinárias fora do Paganismo, é apresentado em duas
versões com ligeiras variações em Os trabalhos e os dias e na Teogonia. O ponto
de partida de ambas é a vingança de Zeus, furioso por ter sido enganado por
Prometeu, que conseguira arranjar forma de lhe roubar o fogo, de modo a ajudar
os humanos. A índole caprichosa e vingativa dos deuses arcaicos é patente,
chegando o deus supremo a dar a gargalhada que todos estamos habituados a
associar aos vilões de caricatura, quando antecipam o sucesso de um plano
maléfico
Em Os trabalhos e os dias, Zeus prepara uma praga que, paradoxalmente, será
vista pelo homem como uma oferta agradável: dar-lhes-ei um mal com que todos
se vão regozijar em seu coração, ao rodear de amor o mal (57-58). É, portanto,
desde o princípio, um engano. Zeus dá ordens precisas a Hefesto, Atena,
Afrodite e Hermes: Hefesto forma uma jovem com barro; Atena e outras deusas
vestem-na e adornam-na irresistivelmente; Atena dá-lhe instrução em lavores;
Afrodite infunde-lhe sedução que causará dor ao homem ' graça em torno da
cabeça/ e o desejo irresistível e os cuidados que devoram os membros (65-66);
Hermes transmite-lhe uma natureza desavergonhada e manipuladora ' cínica
inteligência e carácter volúvel (67). O poeta insiste repetidamente no poder
da palavra ' mentiras, palavras sedutoras, insuflou-lhe a voz (78-79) ',
mas aqui um verbo perverso, que brota paradoxalmente da divindade. Realça deste
modo a dimensão enganadora da fala, só solucionável pela imposição do silêncio.
No final da construção da nova criatura, é-lhe atribuído o nome de Pandora,
explicado pelo facto de todos os deuses terem contribuído com algo: é um dom de
todos, embora uma ruína para os homens (83). Pandora é oferecida por Hermes
ao pouco perspicaz Epimeteu (o que pensa depois), que esquece a recomendação
do seu previdente irmão Prometeu e aceita, rendido, o belíssimo dom. Com ela
vem um outro presente: um pithos ' jarro fechado ', que não uma caixa,
imprecisão resultante de um erro de tradução de Erasmo com tremendos efeitos na
representação verbal e iconográfica do mito. Pandora abre, acto contínuo, a
tampa, deixando escapar os males a que a humanidade tinha sido poupada antes da
entrada em cena da criatura maléfica e curiosa: fome, doenças, guerra, trabalho
árduo, velhice... Restou a esperança, porque Zeus não a deixou sair, o que se
presta a várias possibilidades interpretativas.
Na Teogonia o relato é bem mais breve e concentra a construção do instrumento
de vingança de Zeus em Hefesto e Atena ' a deusa dos olhos brilhantes que,
apesar de mulher, saiu diretamente da cabeça do pai, sem qualquer intervenção
feminina ', o que não deixa de ser simbólico. Sem nomear a bela criatura, nem
relatar o modo como ela chega aos homens, Hesíodo passa para a definição da
mulher nos seus traços mais terríveis, e apresenta o segundo castigo com que
Zeus puniu o homem: se tentarem fugir à desgraça do casamento, morrerão
abandonados e os parentes, antes indisponíveis, ficarão com os bens. Assim, a
mulher é um duplo castigo, porque se sofre com ela e sem ela.
A influência de Hesíodo na Grécia Clássica foi avassaladora devido ao seu
prestígio, e condicionou quer a imagem e direitos da mulher, quer os costumes
do casamento.
Foi amplamente aceite a ideia da necessidade de controlar totalmente a mulher,
impondo-lhe o recolhimento e o silêncio, para não poder exercer os seus dotes
de sedutora quer pela aparência, quer pela palavra; e tirando-lhe qualquer
direito civil, para que não tivesse capacidade económica e de intervenção
pública: era controlada por um tutor, o kyrios. Todavia, continua a ser ela a
transmitir a linhagem dos cidadãos.
Na senda do kalón kakón de Hesíodo, começam a surgir escritos lapidares que vão
constituir o repertório misógino que a posteridade glosará até à caricatura,
como é norma numa cultura centrada na palavra escrita. O primeiro é o obscuro
Semónides de Amorgos, poeta jâmbico que viveu entre Hesíodo e o dealbar da
época clássica. Dos fragmentos da sua obra destaca-se o famoso Jambo das
Mulheres. Enquadrada pelo ambiente popular e jocoso típico da poesia jâmbica, a
obra é uma lista de tipos ' e portanto defeitos ' femininos associados a um
animal ou elemento específico. São eles: porca, raposa, cadela, terra, mar,
burra, gata, égua, macaca, abelha. Veja-se o primeiro:
Diferente o deus fez o carácter da mulher,
no início. Uma fê-la da porca de longa cerdas;
em sua casa tudo está repleto de imundice,
em desordem ou a rolar pelo chão.
Ela própria, suja, com roupas não lavadas, 5
sentada no meio do esterco, engorda. (Brasete 2005, vv.1-5)
Apesar de tudo, aparece um animal bom ' a abelha, símbolo masculino para
Hesíodo ', correspondendo a um tipo de mulher positivo.
Nos finais do Período Arcaico, inicia-se uma transformação na cultura grega com
efeitos extraordinários: o pensamento mítico é substituído pelo domínio da
Razão; e a primazia de Homero como fonte de todo o conhecimento foi ocupada
pela Filosofia, enorme guarda-chuva que abrangia todas as áreas do saber,
incluindo a balbuciante ciência. O homem é o centro das preocupações
intelectuais e morais; a mulher é penalizada pela sua diferença em relação à
nova medida de todas as coisas. Mais ainda: foi também afastada da posição
central que ocupara como símbolo de beleza e causa de paixão. O amor grego
tornara-se a suprema forma de afecto. A concepção da filosofia do séc. V
segundo a qual a contemplação da beleza masculina levava a emoções sublimes
subalternizou ainda mais a mulher.
A extraordinária grandeza dos filósofos gregos teve efeitos profundos, e as
suas ideias sobre a mulher, agora fundadas numa alegada análise científica,
ficarão gravadas por milénios. É o caso das famosas afirmações de Aristóteles
sobre a inferioridade da mulher em obras como o De Generatione Animalium ou
Historia Animalium ' títulos latinos que dizem tudo quanto ao impacto futuro.
No âmbito literário, a preocupação pelo homem e suas circunstâncias afirmou a
Tragédia como a expressão artística fundamental. Embora as mulheres estivessem
proibidas de representar, muitas das personagens principais eram femininas '
precisamente as encantadoras e infelizes heroínas homéricas, agora analisadas
noutros pontos de vista. Na realidade, a tragédia expõe as perspectivas morais
sobre a mulher, nomeadamente mostrando os excessos que poderiam ocorrer se não
houvesse um forte controlo legal e social sobre ela.
Na Grécia Clássica, e sobretudo em Atenas, [6] a mulher era definida por
oposição ao homem, sobretudo em três dicotomias: escravidão vs. liberdade;
incontinência vs. autocontrolo; apetites e emoções corporais vs. racionalidade.
Consequentemente, ele era livre e cidadão, enquanto ela era escrava das paixões
e não usufruía de quaisquer direitos políticos, sendo os direitos legais e
económicos reduzidos.
Na tragédia clássica, segundo Roger Just, os perigos femininos são enquadrados
em dois apartados fundamentais: o Inimigo Interno ' the enemy within ',
manifesto na ferocidade vingativa que resulta da insegurança e da impotência
(Eurípides, Íon); passando pela excessiva expressão da dor e da fraqueza que
ameaçam a cidade (Ésquilo, Sete contra Tebas); até à obediência a leis divinas
que leva à desobediência às leis humanas e à desgraça (Sófocles, Antígona). E a
Selvagem Externa ' the savage without': das figuras míticas monstruosas,
normalmente femininas, às potnia theron (bruxas da Odisseia) de matriz
mediterrânica; passando pela loucura bárbara (Eurípides, Medeia), ébria
(Eurípedes, Bacantes, Ésquilo, Ménades) e amorosa (Eurípides, Hipólito,
Ésquilo, Agamémnon).
Fora dos dramas extremos e catárticos da skene, que aconselhavam o controlo
absoluto, na vida diária, a mulher acabava por assumir um papel e um poder algo
consideráveis, patentes em figuras como Aspásia e no relato de Iscómaco a
Sócrates no Oikonómicos de Xenofonte.[7] Porém, mesmo neste caso, mantém-se a
perspectiva paternalista: Iscómaco, na linha do uso de inspiração hesiódica,
casara, aos trinta anos, com uma jovem de cerca de quinze, saída directamente
do gineceu materno; depois, instruíra-a durante alguns anos até a deixar
capaz de, na prática, tomar conta da administração da res familiaris, de modo a
que ele se dedicasse completamente à vida política. Será com este mesmo
paternalismo que, quinhentos anos mais tarde, os contemporâneos de Trajano
apreciarão o seu casamento com a muito mais jovem Plotina.[8]
Iscómaco descaíra-se, vítima da técnica socrática, pois a opinião oficial dos
homens do seu tempo está patente nas duras recomendações de Péricles ' o mesmo
que nunca saía de casa sem abraçar Aspásia (Plutarque, Vie de Périclès, 24, 2-
12.) ' às viúvas da Guerra do Peloponeso, pelo menos na versão do aristocrático
e conservador Tucídides (2, 45, 2).
Contudo, há estudiosos que afirmam a existência, precisamente à volta e na
senda de Sócrates,[9] de um movimento se não feminista, pelo menos defensor de
uma certa igualdade de capacidades entre os sexos. Esta perspectiva terá sido
sobretudo defendida por discípulos menos célebres de Sócrates, como Antístenes,
fundador da escola Cínica, e Ésquines de Sfetos,[10] grandes admiradores de
Aspásia. O par filosófico modelo é constituído por Crates de Tebas e Hipárquia,
pregadores itinerantes da escola (Flacelière 1971: 700-701).
Mesmo Aristóteles, alguns anos mais tarde, acabará por valorizar o casamento
como philia, encetando um processo que só no tempo de Plutarco atingirá o seu
termo, equiparando-se ao eros. Nas artes plásticas, com Praxíteles (395 ' 330),
a beleza do corpo feminino recomeça a ombrear com o masculino, num processo que
só no tempo de Plutarco atingirá o seu termo.
No âmbito da tragédia, as palavras de Medeia e do coro das Coríntias na Medeia
de Eurípides também assinalam algo ' quanto mais não seja, e à semelhança das
famosas obras aristofânicas (Lisístrata e Assembleia das Mulheres), que a
condição feminina era um tema relevante. Medeia, se bem que de credibilidade
diminuída por ser bárbara e bruxa e estar fora de si como uma leoa[11] ' uma
selvagem externa ', ousou fazer um retrato objectivo da condição da mulher:
De tudo o que tem vida e pensamento, somos nós, mulheres, as
criaturas mais miseráveis. Em primeiro lugar necessitamos, gastando
mais dinheiro do que ele merece, comprar um marido e conceder um dono
ao nosso corpo ' mal ainda mais forte do que o outro. [ ] Quando a
vida doméstica se torna pesada a um marido, ele vai procurar lá fora
alívio para o seu coração e volta-se para um amigo ou camarada da sua
idade. Nós, porém, não podemos ter olhos senão para um único ser.
Dizem que vivemos uma existência sem perigos, dentro de casa, ao
passo que eles combatem com a lança. Pobre raciocínio! Antes queria
lutar três vezes debaixo do broquel que dar à luz uma única vez.
(Eurípides s/d: p. 23)
Embora um pouco mais à frente assuma que as mulheres eram por natureza
incapazes de praticar o bem,[12] as Coríntias imediatamente lhe apontam uma luz
ao fundo do túnel da condição feminina:
Os homens têm agora desígnios pérfidos, já não é duradoira a fé
jurada aos deuses. O nosso comportamento terá bom renome por um
desvio de opinião. Virá um dia em que será honrado o sexo feminino:
sobre as mulheres já não pesará uma fama injuriosa. (Eurípides s/d:
Estrofe I, p. 30)
O progresso na condição feminina que atravessa o Helenismo e atinge o auge no
séc. II da nossa era, é patente nos Moralia de Plutarco, nomeadamente nas
Condutas meritórias das mulheres, um repertório de heroínas enquadráveis num
continuum encetado por Homero (Plutarque 2002: pp. 10 e passim).
Pelo tema, esta antologia tem traços de elogio fúnebre e de tratado filosófico.
De facto, a obra é justificada como uma consolação de uma amiga, Clea, pela
morte de outra, Leontis: se consoler à l'aide de la philosophie [ ] et surtout
louer les qualités de la défunte, inspirando-se nas inscrições masculinas
gregas, de acordo com o costume romano da laudatio funebris. A conversa de
Plutarco e Clea, partindo do elogio das qualidades da falecida, desemboca na
idée que le sexe féminin, du point de vue de l’άρετή, n'a rien à envier aux
hommes. De facto, numa civilização imbuée de la supériorité masculine, que
melhor forma de louer une femme que de l'égaler aux hommes? (Plutarque 2002:
pp. 10 e passim).
Plutarco voltará (nas Histórias e em outras obras, como o Amatorius) ao tema da
igualdade dos sexos no que diz respeito aos méritos. A άρετή é uma designação
genérica que inclui uma série de virtudes: σύνεσις ' inteligência ao serviço do
bem; φρόνημα ' nobreza de sentimentos; άνδρεϊος ' coragem e valentia; φρόνησις
' prudência; δίκαιος ' sentido da justiça; φίλανδρος ' fidelidade no amor;
μεγαλόφρων ' grandeza de ânimo; φιλάνθροπος ' piedade/bondade.
Todavia, este feminismo do moralista de Queroneia continua muito fiel à
concepção tradicional dos gregos sobre o que deveria ser uma mulher honesta: a
reserva, a fidelidade e a bondade continuam a ser as suas virtudes cardeais. A
mulher pode apresentar virtudes masculinas como o sangue-frio, a inteligência
(política, inclusive), mas só em circunstâncias excepcionais, pois são apanágio
do homem. A atitude ideal da mulher, a mais conveniente à sua natureza é
sobretudo mostrar modéstia e apagamento.
As atitudes misóginas persistiram ao longo da época helenística, glosando
alguns dos tópicos dos poetas arcaicos. Pense-se na famosa citação de Menandro
que coloca a mulher, o mar e o fogo no mesmo nível como três males: "ΘΆΛΑΣΣΑ
ΚΑΙ ΠΫΡ ΚΑΙ ΓΥΝΉ ΤΡΊΤΟΝ ΚΑΚΌΝ" (Fragmenta Comicorum Graecorum, t. iv, p. 340).
Mas a manifestação máxima, pela quase abjecção da personagem e sobretudo pelo
enorme impacto na Idade Média e no Renascimento, ocorrerá no tempo de Plutarco:
são os Oxímoros escritos pelo filósofo silencioso (Taciturnus) Secundus. Vejam-
se algumas definições de mulher: uma depravação que controla o corpo; uma
leoa na vossa cama; uma víbora vestida; um castigo quotidiano; um entrave
à tranquilidade; o saque da nossa vida; uma guerra muito dispendiosa; uma
besta maldosa; um instrumento para a procriação; um mal necessário
(Philonenko 1991: 377-378). Acima de todas as frases do Taciturnus reinará na
posteridade o notório πασα γυνή πόρνη (Philonenko 1991: 374), que Jean de
Meung fará ecoar na Idade Média Ocidental.[13]
Pandora Matrona
A forma como os romanos dos primeiros tempos definiam e enquadravam a mulher na
sociedade assemelhava-se em muito à dos atenienses. Os maiores ' antepassados '
consideravam que, em paralelo com a fragilidade física, a mulher sofria de
infirmitas consili ' fragilidade de espírito ', pelo que precisava de se
submeter a um tutor(Cícero, Pro Murena XII, 27). Catão, o Censor, representante
máximo das tendências conservadoras do mos maiorum ' costumes dos antepassados
', expressou-se com uma clareza brutal no seu discurso no âmbito do processo de
revogação da Lex Oppia (195 a. C.),[14] reproduzido e, naturalmente, retocado,
por Tito Lívio: a mulher é indomitum animal, impotens natura' animal
indomável, natureza descontrolada[15] 'que era capaz de tudo, pelo que tinha de
ser dominado ' frenari (Ab Vrbe condita, XXXIV, 2, 12).
O imperium viri' poder do varão ', quer do pai, quer sobretudo do marido,
permitiu, pelo menos até ao século I a. C., um controlo de vida e morte sobre a
mulher. Como em Atenas, era a cidadã que transmitia o direito de cidadão, mas
gozava de uma posição mais elevada graças ao estatuto de matrona, que conferia
sanctitas. Por outro lado, a romana não estava confinada ao lar e, mesmo com a
imposição de um tutor, os seus direitos económicos eram bem mais amplos que em
Atenas.
Sendo a civilização romana eminentemente moral, e apesar de a beleza ser muito
importante, instituiu-se um sistema de virtudes correspondentes ao ideal
feminino da mulher de estatuto mais elevado, a matrona: grauitas (compostura e
autoridade) e comitas(afabilidade), industria (donde o lanam fecit ' fiou lã
' repetido nos epitáfios), parsimonia, sobrietas são acompanhadas pela
hierática sanctitas(inviolabilidade), mas as mais relevantes eram as pudicitia/
castitas (modéstia/castidade) (Ratti 1996: pp. 119-124), como não se cansam de
assinalar autores como Juvenal e Séneca.
Apesar das numerosas demonstrações de empenho pelo bem comum, narradas em tom
solene por Tito Lívio, e exemplificadas pela dádiva das jóias para ajudar na
luta contra Aníbal ' como recordou um dos tribunos proponentes da revogação de
Lex Oppia ', a marca negativa persistia, reflectindo-se nas palavras. Desde
logo, as que designam a mulher são também imbuídas de um tom pejorativo: mulier
(além do correspondente adjectivo muliebrise do advérbio muliebriter) e femina
são vistas como sinónimos de fraqueza física, emotividade excessiva e ligeireza
nas opiniões. Mais marcante ainda foi o facto de os autores mais conceituados
da cultura latina reflectirem este parecer em personagens, retratos e sobretudo
frases que se tornaram antológicas, como Mulier es, audacter iuras(Plauto,
Amphytruo, II, 2, 206), varium et mutabile semper femina (Virgílio, Aeneis,
IV, 569-570), e o adynaton aplicado por Juvenal à mulher perfeita, destinado a
ser repetido na posteridade: rara auis in terris nigroque simillima cycno '
uma ave rara na terra, muito semelhante a um cisne negro (que os antigos
pensavam não existir) (Sátira VI, 165).
A revogação da Lex Oppia foi um momento fundamental na progressiva libertação
da mulher romana em relação aos costumes dos maiores: demonstrou não apenas a
surpreendente capacidade de mobilização cívica das matronas, como o quanto uma
parte da elite romana se preocupava com a condição delas. Por outro lado,
acontece no início da crise de crescimento provocada pela transformação de Roma
numa potência mundial, que terá o seu auge no século I a. C. Com a derrota dos
Cartagineses, último rival na hegemonia do Mediterrâneo, desapareceu, por
bastante tempo, uma das principais causas da vigência das virtudes
tradicionais: a guerra ad portas ' proximus urbi / Hannibal et stantes Collina
turre mariti (Aníbal às portas de Roma e os maridos de pé na torre Colina),
dirá Juvenal três séculos depois. A outra grande causa prende-se com as
riquezas imensas e as ideias novas ' como o Epicurismo ' que as conquistas da
Grécia e do Oriente helenizado trouxeram: luxuria incubuit uictumque
ulciscitur orbem (a luxúria assaltou-nos e vingou o mundo vencido), concluirá
o moralista (Sátira VI, vv.287-293).
A alta sociedade da Roma do século I a. C. é povoada de mulheres que garantiram
a sua imortalidade graças à literatura latina e nos dias de hoje nos entram em
casa através da televisão. Os seus retratos, feitos muitas vezes por rivais
políticos ou amantes despeitados, transmitem uma imagem algo libertina:
escandalosas como Clódia, musa de Catulo; individualistas como Terência, mulher
de Cícero; conspiradoras como Semprónia; aventureiras enfurecidas como Fúlvia,
inimiga implacável do grande orador; enfim, obrigadas a parecer honestas como a
segunda mulher de César, e sistematicamente caluniadas como a sua amante
estrangeira Cleópatra. Parecia que, ao mesmo tempo que o imperium viri, as
virtudes traçadas pelo mos maiorum estavam em grande parte perdidas. No
entanto, encontram-se também, e precisamente na família de Augusto ' que seria
assombrada pela estrepitosa queda da sua única filha, Júlia, que arrastou ao
exílio Ovídio, o doctor amoris ', matronas ricas e influentes mas tradicionais
nos costumes: Aurélia, mãe de César; a imperatriz Lívia Drusila; Antónia, filha
do notório Marco António; Octávia, mulher deste e irmã de Augusto. As virtudes
da matrona, associadas cada vez mais ao pensamento estóico e depois ao
Cristianismo, persistirão ao longo dos últimos séculos do Império do Ocidente.
Algo paradoxalmente, a evolução no sentido do aumento dos direitos cívicos da
mulher, que atingirá o auge no século II, vai resultar do esforço de
restauração das virtudes tradicionais da família romana, ameaçada quer pela
liberdade de costumes, quer pela baixa natalidade. É disso exemplo o direito
das mães de três filhos a deixarem de ter tutor (sui iuris), instituído por
Augusto. Na época áurea do império, durante a dinastia dos Antoninos, as
romanas livres gozavam de direitos civis mais amplos que as gregas. Apesar de
nunca terem obtido prerrogativas políticas,[16] o direito de possuírem e
controlarem bens avultados, depois de legalmente contornada a posição do tutor,
permitiu a numerosas mulheres, sobretudo das franjas mais elevadas da
sociedade, uma condição privilegiada ' situação nada pacífica para alguns, como
Juvenal atesta (Sátira VI, v. 457), e que acarretou perseguições.
Mas também ocorreu uma evolução num nível mais relacional: como destaca Paul
Veyne, a partir do século II, nos círculos mais elevados do Paganismo,
espicaçados pelas críticas cristãs à suposta depravação típica do Paganismo,
verifica-se a criação do conceito de casal, com uma posição de igualdade
partilhada por ambos os membros (Veyne 1978: pp. 37-38). Essa nova dimensão do
casamento é visível numa inscrição em verso, datada de 384, dedicada por
Vettius Agorius Praetextatus a Aconia Fabia Paulina, sua esposa durante
quarenta anos, expressa: Paulina, companheira do meu coração, fonte de
modéstia, o laço de castidade e amor puro e confiança nascido no céu, a quem
confiei os segredos escondidos no minha mente; presente dos deuses, que unem o
leito marital com laços de amizade e pudor (CIL, vol. VI, nº. 1,779).[17]
Ainda assim, os estereótipos misóginos persistem. É de facto nos primeiros
séculos do Império Romano que encontramos as vozes mais impactantes
transmitidas à Idade Média, que as estimou e adaptou com quase devoção à sua
forma mentis, e redescobertas pelo Renascimento. Destacam-se, pela sua
influência na posteridade, Ovídio, Séneca, o Estóico, e Juvenal.
Ovídio, que nos seus tratados sobre o amor frivoliza a mulher e a apresenta
como falsa e enganadora, sublinha, de algum modo na senda que depois Secundus
Taciturnus seguirá, que todas estão disponíveis para serem seduzidas, bastando
encontrar a estratégia adequada. Paralelamente, estabelece o direito do homem a
seduzir impunemente, sem quaisquer entraves morais:
Prima tuae menti ueniat fiducia, cunctas
Posse capi; capies, tu modo tende plagas (Ars amandi, 1,269-271)
( )Ludite, si sapitis, solas impune puellas:
Hac minus est una fraude tuenda fides.
Fallite fallentes: ex magna parte profanum (Ars amandi,1, 643-646)
Sunt genus: in laqueos quos posuere, cadant.[18]
A Consolatio ad Heluiam Matrem de Séneca sintetiza as extraordinárias
qualidades de Hélvia, amiga pessoal a quem o filósofo queria consolar, com
frases como: non potest muliebris excusatio contingere ei a qua omnia muliebra
uitia afuerunt ' a desculpa de ser mulher não pode atingir uma pessoa de quem
todas as falhas femininas estão ausentes (16, 2); e Non te maximum saeculi
malum, inpudicitia, in numerum plurium adduxit ' O impudor, o maior mal do
nosso tempo, não te pôde incluir na classe mais numerosa das mulheres (16,3)
(tradução minha).
Mas o texto mais marcante, quer pela misoginia tão reaccionária como
inexorável, quer pela influência dos seus versos lapidares,[19] situa-se
paradoxalmente no tempo do imperador Adriano: é a já citada Sátira VI de
Juvenal.
Juvenal ataca furiosamente todos os tipos de mulher casada, mais ou menos
livres, do seu tempo, tipificadas através dos defeitos que o poeta considera
relevantes: a luxúria, que permite às mulheres cometerem imensos crimes, e leva
à entronização dos gladiadores como ídolos supremos; a mania dos tribunais; a
crueldade histérica e gratuita; o culto absoluto da beleza, que conduz tanto ao
luxo excessivo como a práticas anticoncepcionais; o pedantismo das cultas e o
uso obsessivo do grego; o exercício das armas, sobretudo por trazer vergonha ao
marido, etc. Acima de todos os defeitos ' com a excepção da conspiração para
matar o marido ', está a riqueza, pois graças a ela nil non permittit mulier
sibi, turpe putat nil ' não há nada que ela não se permita, nada que
considere torpe (VI, 457) (tradução minha).
Se este desabafo é compreensível por revelar a irritação de um Catão, o Censor,
do século II perante o processo que levou muitas mulheres a libertarem-se do
controlo dos tutores e a usufruir da riqueza e do poder que esta confere, não
deixa de ser surpreendente que, como já foi acima referido, o poeta também
critique as mulheres que não têm nenhum dos defeitos mencionados ao longo da
sátira: as Cornélias[20], mulheres belas, cultas, férteis e nobres, mas por
isso mesmo altivas, que inferiorizam o marido; e as absolutamente perfeitas, as
tais aves rarae, insuportáveis pela sua superioridade ' quis feret uxorem cui
constant omnia? (VI, 166). Juvenal afigura-se, portanto, como um exemplo
canónico da definição dada por Cícero da aegrotatio animi da misoginia: vê a
mulher como uma ameaça, a quem odeia e de quem foge.
As filhas de Eva e Pandora
Falar da mulher no Cristianismo é falar de Eva e da exegese minuciosa das
poucas linhas dos capítulos 2 e 3 do Génesis em que a mãe da humanidade
aparece. É a Virgem Maria que de algum modo redime e compensa o alegado crime
de Eva. Todavia, tal não foi suficiente para perdoar e esquecer.
A palavra escolhida e a sua interpretação constituem o centro de tudo no
Génesis, e os comentários, nem sempre concordantes, de exegetas judeus
helenizados como Fílon de Alexandria, e dos grandes teólogos dos primeiros
séculos do Cristianismo ' Santo Agostinho, Stº Ambrósio e São Paulo, mas também
Tertuliano e São Jerónimo, entre muitos ' influenciarão toda a Idade Média, e
muito além.
Narrativa hebraica de origens profundas na região mesopotâmica, o
Genesisapresentava duas versões da criação. A versão iavista foi a preferida
pelos primeiros exegetas e apresenta uma visão muito hierarquizada que, em
conformidade com a sociedade do tempo, destaca o homem. Adão é criado primeiro
e tem igualmente a primazia no uso da palavra: é ele, o nomoteta, que nomeia
todos os seres criados por Deus, e que nomeará a primeira mulher. A prioridade
cronológica de Adão torna desde logo a mulher secundária; além disso, ele é que
foi criado à imagem ' imago ' de Deus, sendo por isso a substância, de natureza
essencial. Vários exegetas atribuem à mulher apenas a semelhança ' similitudo '
por ter sido retirada da costela de Adão; ela é uma derivação da substância, um
acidente, associada à divisão, à diferença, à degradação. Adão é o espírito,
Eva a matéria, a carne, a aparência sedutora e enganadora dos sentidos ' em
linha com Platão mas também com a Pandora de Hesíodo. As diferenças na criação
de homem e mulher levam, por exemplo, Fílon de Alexandria a considerá-la '
talvez com influência do mesmo mito ' uma outra raça. Todavia, contrariamente a
Pandora, Eva é uma necessidade de Adão, a ajudante ' mais um traço
subalternizante ' que ele e Deus consideravam imprescindível.
Se o contexto da criação já tornava Eva inferior a Adão, o seu papel na
tentação da serpente torná-la-á responsável pelo pecado ' uma novidade que vai
muito além do horizonte pagão de Pandora ' que expulsou a humanidade do Éden e
a submeteu a todas as desgraças (o que, para Stº Ambrósio, nem foi tão negativo
assim ). A serpente escolheu-a por interlocutora ' o que a tornou instrumentum
diaboli ' por saber que era o elo mais fraco.
A tradição exegética fez até há não muito transparecer a ideia de que Adão não
estava presente e fora vítima inocente da sedução de Eva. Na realidade ele
assistiu, passivamente, ao diálogo em que Eva menciona à serpente a interdição
enunciada por Deus ao consumo dos frutos da árvore e, satisfeita a razão com a
resposta e recebendo dos seus sentidos a certeza da bela aparência e
comestibilidade do fruto, colheu, comeu e deu a Adão. Aliás, a descoberta da
nudez ocorre em simultâneo, e é em conjunto que tentam remediar a situação.
O ridículo da atitude de Adão ' qual segundo Epimeteu, que depois,
pateticamente, se auto-vitimiza ' não escapou, por exemplo, a Stº Agostinho.
Também São Paulo, ressalvando que fora a mulher a tomar a iniciativa,
responsabiliza o casal pelo pecado.[21] A tradição interpretativa, de forma
simplificadora, coloca sobre Eva o peso da culpa: a sua curiosidade soberba
causou a perdição da humanidade. Como no mito de Pandora, o castigo vem em
forma de dor, mas sobretudo pela sujeição da mulher ao homem.
Apesar de já se terem notado nesta breve exposição diferenças claras, as
semelhanças com o mito de Pandora são irresistíveis: o peso do prestígio dos
moralistas pagãos e das suas palavras lapidares também o eram. Com efeito, o
Helenismo, que com Alexandre Magno levou a cultura grega ao Egito e à Ásia,
permeou a cultura judaica na diáspora tal como depois a cristã, e a misoginia
helénica acentuou o pendor tradicional judaico, tendo o mito de Pandora
encarnado e catalisado a ideia da mulher como armadilha sedutora e mortal
(Ecclesiastes 7:26).[22] A misoginia hebraica, ainda hoje visível nos grupos
fundamentalistas e no passado exemplificada pelos Essénios, tem a sua base em
vários livros da Bíblia, nomeadamente os influentes Sapienciais, como
Provérbios e Eclesiastes, que por sua vez parecem revelar o influxo helénico
(Phipps 1988: 39).
No lado cristão, a influência do mito de Pandora é tão profunda que autores
como Dora e Erwin Panofsky defendem que "The Fathers of the church are more
important for the transmission ' and transformation ' of the myth of Pandora
than the secular writers; in an attempt to corroborate the doctrine of original
sin by a classical parallel, yet to oppose Christian truth to pagan fable, they
likened her to Eve." (Phipps 1988: 42).
Caso exemplar é Tertuliano, que chega a apontar no De corona Militis (7, 3),
que a grande diferença entre Pandora e Eva ' para além de a primeira ser um
mito ' residia no local onde eram postos os ramos: na cabeça em Pandora, a
tapar as pudenda em Eva.
Se realmente houve um Pandora, a quem Hesíodo menciona como a
primeira das mulheres, a cabeça dela foi a primeira a ser coroada
pelas Graças, quando recebeu presentes de todos os deuses, donde o
nome de Pandora. Mas Moisés, um profeta, não um poeta-pastor,
descreve-nos Eva, a primeira mulher, como tendo as suas vergonhas
mais naturalmente cingidas com folhas do que as têmporas com flores.
Pandora, portanto, não existiu. (De Corona Militis 7, 3).[23]
A fúria misógina de Tertuliano atinge o seu clímax em textos como o De cultu
feminarum, que pretende regular o comportamento e aparência das filhas de Eva e
de que se reproduz infra um excerto em latim, para melhor se apreciar o efeito
trovejante das repetições e aliterações:
Et Euam te esse nescis? (2) Viuit sententia Dei super sexum istum in
hoc saeculo: uiuat et reatus necesse est. Tu es diaboli ianua; tu es
arboris illius resignatrix; tu es diuinae legis prima desertrix; tu
es quae eum suasisti, quem diabolus aggredi non ualuit; tu imaginem
Dei, hominem, tam facile elisisti; propter tuum meritum, id est
mortem, etiam filius Dei mori habuit. (Tertullien, De l'ornement des
femmes, livre I, 1-2)[24]
Tertuliano não admite a remissão da alegada culpa de Eva e afirma a inocência
do homem, cuja força de carácter levou o Diabo a optar por abordar o elo mais
fraco. Ela seduziu o indefeso homem, traindo-o e actuando como instrumentum
diaboli. Além de acusar Eva ' e todas as mulheres ' de terem cometido o
primeiro pecado, desertando da lei divina ' e a deserção era crime capital ',
Tertuliano vai muito mais longe: acusa a mulher de ser a causa da morte de
Jesus Cristo.
Apesar de ser um texto mais voltado para o cristianismo, Tertuliano glosa de
algum modo o mito forjado por Hesíodo: as metáforas iniciais, com a porta e o
selo, apresentam semelhanças claras com a abertura da tampa do recipiente
(pithos) de Pandora. Mas o que impressiona mais nesta diatribe é a violência do
ataque à mulher, cujos ecos soarão ao longo dos tempos, ajudando a fixar
palavras e linhas de pensamento.
Conclusão
O Cristianismo dos finais do Império Romano do Ocidente tornou-se o ponto de
convergência de tradições que partilham o pensamento misógino, potenciando-se
mutuamente graças ao peso da herança clássica na experiência dos apologetas e
Doutores da Igreja, quase todos retores de formação. A fortuna de que gozaram
durante séculos autores como Ovídio, Virgílio, Juvenal e Séneca ' para não
falar dos gregos, dependentes da transmissão latino-cristã devido à ignorância
generalizada da língua ', foi ajudada pelos próprios Doutores, que os citavam
nos seus escritos, buscando assim apoio na sua auctoritas de milénios, mas
reciprocamente credibilizando e eternizando o seu verbo lapidar.
É assim que vemos São Jerónimo, um crítico feroz da mulher, a quem chama mais
amarga que a morte, armadilha em que se deixa prender o pecador, o
princípio de todos os males através do qual a morte entrou neste mundo,
captora das almas preciosas dos homens, citar o famoso varium et mutabile
semper femina virgiliano lado-a-lado com os livros sapienciais da Bíblia
(D'Alverny 1977: 110).
A palavra escrita e a sua exegese foram marcantes na continuidade de ideias e
fórmulas negativas sobre a mulher, a que a herança cultural deu maior
fundamento. Mas a sua pervivência é indissociável da influência do contexto dos
tempos e das sociedades humanas, onde a desvalorização e o vitupério da mulher
têm sido dominantes e por vezes atingem a dimensão da misoginia ' que a mesma
herança clássica apontou como aegrotatio animi. Do mesmo modo, a herança do
Cristianismo nascente apresenta avanços na condição da mulher, reconhecendo
pelo menos a sua igualdade espiritual (D'Alverny 1977:108). O âmbito individual
é de facto de grande relevância: opinion makers como Juvenal e Tertuliano ' que
na parte final da vida se tornou herético ', afectados de misoginia profunda,
acabaram por ter um peso muito superior que pensadores como Plutarco devido ao
que agora se chama soundbyte, entrando com muita facilidade na cultura
popular da Idade Média.