Um modo de fazer filosofia: A Ontologia Histórica de Ian Hacking
"There are many ways to do philosophy." (Hacking, 2002: 25),
afirmou o filósofo norte-americano Ian MacDougall Hacking (n. 1936, Vancouver,
Canadá)[1]. Talvez tantos, quantas as pessoas que a ela se dedicam, podemos
acrescentar.
Alguns, contudo, afiguram-se mais frequentes. É o caso do analítico, que
pratica sobretudo a clarificação conceptual e a avaliação da qualidade lógica
dos argumentos; do dialético, que procura descobrir verdades mediante uma
disciplina de perguntas e respostas; do fenomenológico, que intenta descrever o
que há de essencial nos conteúdos das experiências conscientes particulares; do
hermenêutico, que busca compreender, mediante o controlo dos preconceitos, as
vivências e pensamentos de outros mediante a interpretação das suas narrativas;
do histórico-crítico, que visa perceber as trajetórias espácio-temporais das
ideias filosóficas, os contextos em que irrompem e mudam e como elas provocam
transformações nesses próprios contextos; do transcendental, enfim, que
pretende revelar os pressupostos ou condições de possibilidade de toda a
experiência, cognição e ação particulares.
Outros, porém, resultam de alguma espécie de combinação entre vários destes
modos acabados de elencar. É o caso da denominada Ontologia Histórica do dito
autor que procura conjungir, em idênticas proporções, aspetos do analítico, do
transcendental e do histórico-crítico.
Hacking declarou, numa entrevista, não gostar de falar do seu peculiar modo de
fazer Filosofia. Mas não se eximiu também aí de apontar que a antologia com
trabalhos seus das décadas de 1970, 1980 e 1990, que publicou em 2002, com o
título Historical Ontology, seria o lugar mais indicado para apreendê-lo, em
especial os primeiros quatro textos que a integram (Álvarez 2002, 56). Foi
neles, por conseguinte, que particularmente me baseei para a elaboração deste
ensaio.
1. Preceitos metodológicas fundamentais.
Formado na tradição analítica anglo-saxónica, mas também muito devedor da
corrente francesa da Epistemologia Histórica, nomeadamente dos trabalhos de
Gaston Bachelard e Georges Canguilhem (Hacking, 2002: 24), reconheceu Hacking
que o autor que mais influência exerceu sobre o seu pensamento, em especial no
que respeita a questões do domínio das ciências sociais e humanas, foi Michel
Foucault (Álvarez, 2002: 53) [2].
Neste último se parece ter inspirado, desde logo, para formular dois preceitos
que predominantemente tem vindo a adoptar na sua inquirição filosófica, a
saber: (a) observar (take a look) os factos[3] e (b) desfazer (undo)
problemas.
1.1. Observar os factos.
O pensador canadiano não é, como assinalou Marc Kirsch ' assistente de Hacking
no Collège de France ', um intelectual de salão, mas um filósofo de campo
(2004-5: 42), alguém que gosta de esquadrinhar com minúcia os problemas que
suscitam o seu interesse reflexivo ou, como expressa o adágio empirista que
adoptou, de observar os factos neles envolvidos e não apenas teorizar sobre
eles. Na entrevista supra referida, o próprio autor afirmou a esse respeito o
seguinte:
"( ) una cosa caracteriza a mi trabajo. Un filósofo al que no
nombraré se quejó una vez: "los filósofos nunca le echan un vistazo'
a lo que discuten. Bueno, no del todo, Ian Hacking le echa un
vistazo". Ésa es una afirmación verdadera al menos en lo que a mí
concierne. No soporto no mirar a la rica complejidad del mundo en que
estoy pensando. ( )" (op. cit, 56).
Este primeiro preceito, de caráter empirista, estabelece, portanto, que para se
determinar o efectivo valor de certas conceções filosóficas, sobretudo das mais
especulativas, é necessário confrontá-las com a realidade, buscando os factos
que as suportam. Num exemplo relativamente simples que apresentou num artigo
publicado em 1981, com o título Was there ever a Radical Mistranslation?, uma
possibilidade implicada, como se sabe, nas doutrinas quineanas da
indeterminação da tradução e inescrutabilidade da referência, Hacking confessou
ter empenhadamente procurado sem êxito na literatura especializada exemplos de
um tal alegado fenómeno de tradução radicalmente mal sucedida, resultado que,
em seu entender, mostra que tal conjetura estimulou uma discussão estéril e
inútil. Em consonância, acrescentou: "( ) Michel Foucault reforçou
completamente a minha obsessão por atentar [nos factos]. ( ) Foucault foi um
apaixonado pelos factos: eu também." (Hacking, 2007a: 38).
1.2. Desfazer problemas.
Mas Hacking privilegia também uma peculiar maneira de exercer a crítica
filosófica. Na suposição de que a filosofia é uma atividade intelectual
sobretudo empenhada na resolução de problemas, entende ser possível lançar luz
sobre os mesmos mediante a realização de inquéritos arqueológicos; "One
had to understand the prehistory of philosophical problems and what made them
possible", disse, "in order to grasp the nature of the
philosophical problems" (idem: 37).
Este preceito revela quiçá ainda mais que o anterior, do qual é complementar, a
influência de Foucault. Com efeito, o maître à penser francês, vale recordar,
descreveu esses inquéritos arqueológicos como estudos de arquivos (archives),
isto é, de estruturas ou formas discursivas profundas que determinam as
condições de possibilidade do conhecimento num período particular e que, por
conseguinte, funcionam como a priori históricos, temporalmente limitados e
factuais (Foucault, 1969: 168, 171) [4].
Ora, como a maior parte dos problemas filosóficos é de natureza conceptual,
desfazê-los passa em larga medida por traçar a sua génese ou, melhor, revelar
as condições que tornaram historicamente possível a sua elaboração, a sua
emergência, num certo momento, no âmbito de uma determinada discursividade.
Mais especificamente, desfazer um problema conceptual significa tornar
manifesto que os enunciados que descrevem e usam um conceito não podem (em
absoluto ou perenemente) ser nem verdadeiros nem falsos, uma vez que a sua
semântica se encontra irremissivelmente dependente da formação discursiva
(episteme, no idiolecto foucaultiano) em que são gerados, a qual ao mesmo tempo
servem para construir. Como o próprio autor resumiu: "There are two ways
in which to criticize a proposal, doctrine, or dogma. One is to argue that it
is false. Another is to argue that it is not even a candidate for truth or
falsehood. Call the former denial,the latter undoing." (2002: 57)[5].
Assim, este singular modo de resolução de problemas conceptuais envolve a
historicização dos mesmos, isto é, a respetiva condução aos seus contextos
epocais de aparecimento e transformação sucessiva; em jeito de slôgane, declara
Hacking: "( ) a concept is nothing other than a word in its sites."
(idem: 17) [6]. Trata-se, claro, de um modo de filosofar que faz amplo uso da
história. Desfazer um problema conceptual é, pois, demonstrar que ele é
resultante de uma construção histórica e, por conseguinte, que é coevo de um
discurso sempre situado e circunscrito.
Dois breves exemplos servir-me-ão de ilustração. O primeiro, dado pelo próprio
autor, é o de que a própria ideia da Filosofia constituir uma actividade
reflexiva organizada em torno de problemas, longe de corresponder a uma prática
intrínseca à mesma, só nos alvores do século XX foi inventada, "( ) "the
problem" as definitive of a mode of philosophizing was canonized in English
around 1910 with titles by G. E. Moore, William James, and Bertrand Russell
( )" (idem: 12; cfr., também, p. 35).
O segundo, apreendi-o em Gorz (1988). Com efeito, nesse clássico da sociologia
laboral contemporânea, o seu autor mostra como o conceito de trabalho, tal
como hoje o entendemos, não é uma categoria antropológica, mas uma invenção da
modernidade ou, mais especificamente, do capitalismo industrial e que perceber
isso, isto é, que se trata de um fenómeno recente, de uma construção histórica,
é uma condição sine qua non não somente para a sua inteligibilidade como também
para superar os paradoxos nele implicados (25 e ss.).
2. A Ontologia Histórica.
2.1. Para além de Foucault.
A expressão Ontologia Histórica, que Hacking escolheu para designar o seu
peculiar modo de fazer filosofia, tomou-a igualmente do já referido pensador
francês; mais precisamente foi buscá-la ao conhecido artigo Qu`est-ce que les
Lumières?, onde Foucault a cunhou e usou somente duas vezes para referir o
processo de constituição de nós mesmos enquanto indivíduos, a ontologia
histórica de nós mesmos (1984: 8-9), jamais tendo voltado a empregá-la.
Todavia, o filósofo canadiano afirmou que a sua Ontologia Histórica ou, melhor,
a sua versão da mesma, representa uma generalização da do seu antecessor,
porque não se limita a examinar a constituição de nós mesmos como indivíduos,
mas, para além disso, todo o tipo de constituições (2002: 4), isto é, de novos
conceitos, novas práticas e novas instituições que criam novos espaços de
possibilidades para a escolha e a ação humanas. Ele definiu-a da seguinte
maneira:
"Historical ontology is about the ways in which the
possibilities for choice, and for being, arise in history. It is not
to be practiced in terms of grand abstractions, but in terms of the
explicit formations in which we can constitute ourselves, formations
whose trajectories can be plotted as clearly as those of trauma or
child development, or, at one remove, that can be traced more
obscurely by larger organizing concepts such as objectivity or even
facts themselves. Historical ontology is not so much about the
formation of character as about the space of possibilities for
character formation that surround a person, and create the potentials
for individual experience." (idem: 23).
Em termos talvez mais simples: a Ontologia Histórica hackinguiana indaga a
emergência não somente de conceitos e objetos em novos usos dados a palavras e
frases em contextos específicos, mas também de novos padrões ou estilos de
raciocínio inerentes a essas palavras e frases. Exemplos do primeiro caso são
os conceitos de probabilidade, de acaso, de abuso de crianças e de
doença mental transitória, que o filósofo canadiano explorou em The Emergence
of Probability (1975), The Taming of Chance (1990), World-making by Kind-
making: Child Abuse for Example (1992),Mad Travellers. Reflections on the
Reality of Transient Mental Illnesses(1998), respetivamente. Estas quatro
noções entram na categoria do que Hacking chamou conceitos organizadores
(organizing concepts) (Hacking 2002: 18, 22), ou seja, que servem para coligar
e estruturar determinadas ações, juízos e narrativas sobre elas.
Este modo de filosofar encerra dois momentos básicos. O inicial, que exige
trabalho paciente de busca numa ampla variedade de tipos de sítios, das frases
em que as palavras perquiridas são efetivamente (não potencialmente) usadas,
procurando, ao mesmo tempo, no que concerne aos autores das mesmas, determinar
com que autoridade as proferem, em que cenários institucionais, para
influenciarem quem e com que consequências para eles. O seguinte que envolve a
conjunção de raciocínio, imaginação e argumentação para habilmente sobrepujar a
complexidade os factos coligidos e encontrar-lhes uma ordem (Hacking: 2002,
17).
Por outro lado, Hacking asseverou que em muitos aspetos a sua Ontologia
Histórica é bastante mais limitada que a de Foucault, porque lhe "( )
lacks the political ambition and the engagement in struggle that he intended
for his later genealogies." (idem: 5), sendo "( ) more reminiscent
of his earlier archaeological enterprises." supra referidos.
2.2. Para além da Epistemologia Histórica.
O filósofo norte-americano clarificou ainda a relação entre o seu modo próprio
de fazer Filosofia e a chamada Epistemologia Histórica. Gingras (2010)
argumentou vigorosamente que esta expressão originalmente cunhada
Épistémologie Historique "( ) is a label that clearly identifies a
French tradition in epistemology [onde sobressaem Gaston Bachelard e George
Canguilhem] where reflections on the nature of science is done in close
relation with the analysis of historical cases." (3) foi incorretamente
apropriada pelas figuras fundacionais do Max Planck Institut für
Wissenchaftsgeschichte (MPIWG), Lorraine Daston e Jürgen Renn, em meados da
década de 1990, quando escolheram a designação Historical Epistemology para
um novo programa de investigação resumido nas palavras da primeira como
pretendendo levar a cabo "( ) the history of categories that structure
our thought, pattern our arguments and proofs, and certify our standards of
explanation." (Daston, 1994 : 282).
Ora, segundo Hacking, a Epistemologia Histórica, assim definida, lida com
conceitos que usamos para organizar domínios de pesquisa e de saber tais como
conhecimento, crença, objetividade, racionalidade, argumentação,
demonstração, facto e verdade, que, por serem muito gerais, tendemos a
pensar neles "( ) as free-standing objects without history, Plato`s
friends." (Hacking, 2002: 8), mas que, sob estudo aprofundado, se percebe
possuírem memórias e que a sua correcta análise "( ) requires an
account of its previous trajectory and uses." (ibidem).
O que Hacking, no entanto, contesta é que a linha de pesquisa encetada no MPIWG
há mais de década e meia detenha o estatuto de uma epistemologia, seja no
sentido de constituir uma busca dos fundamentos do conhecimento, seja no
sentido de intentar uma análise e uma avaliação de teorias do conhecimento já
formadas. No seu entender, seria mais apropriado considerá-la uma meta-
epistemologia, dado que estuda conceitos que desempenham determinados papéis no
pensamento sobre o conhecimento e a crença, como se se tratassem de objetos
evolutivos e cambiantes, isto é, examinando as suas trajetórias históricas
(idem: 10). Corolariamente, então, afirmou: "Historical meta-
epistemology, thus understood falls under the generalized concept of historical
ontology ( )" (idem: 9).
Enfim, pode dizer-se que a Ontologia Histórica de Hacking, por um lado, assume
da Arqueologia do Conhecimento foucaultiana a paixão pelos factos, a atenção às
formações discursivas e às suas transformações, algo que implica prestar
atenção às descontinuidades epistémicas e que, por outro lado, almejando uma
maior abrangência e radicalidade que a Epistemologia Histórica elaborada no
MPIWG, nomeadamente porque estende a lógica das condições de possibilidade
históricas a conceitos não somente epistemológicos, incluindo os meta-
epistemológicos, ela mesma constantemente se sujeita a reestruturações, o que
significa, noutros termos, que não representa uma instância da clássica
ontologia perene, antes uma ontologia historicizada, onde o que conta como
verdadeiro e real sucessivamente se renova e reconfigura. E pode dizer-se, em
suma, que de modo algum ela visa constituir-se como o modo correto de fazer
Filosofia, mas tão-somente como um modo fecundo de o conseguir, indo à raiz
histórica dos problemas conceptuais de que este saber tipicamente se ocupa.
3. Um exemplo: a teoria dos estilos de raciocínio científico.
Um dos objetos privilegiados da Ontologia Histórica hackinguiana, é constituído
pelos denominados estilos de raciocínio, o estudo da sua formação e
desenvolvimento. Recorrendo às suas próprias palavras,
"Understanding the sufficiently strange is a matter of
recognizing new possibilities for truth-or-falsehood, and of learning
how to conduct other styles of reasoning that bear on those new
possibilities. The achievement of understanding is not exactly a
difficulty of translation, although foreign styles will make
translation difficult. It is certainly not a matter of designing
translations which preserve as much truth as possible, because what
is true-or-false in one way of talking may not make much sense in
another until one has learned how to reason in a new way. One kind of
understanding is learning how to reason." (Hacking, 2002: 171).
Que é, então, um estilo de raciocínio? Hacking indagou particularmente esta
questão no campo particular das ciências. Fê-lo em vários textos publicados na
década de 1980 ' Hacking (1985), que condensa e revê Hacking [(1982) 2002] e
Hacking (1983). Onde se encontra, porém, o tratamento mais maduro ou acabado
que deu ao assunto é, porventura, no artigo intitulado ´Style` for Historians
and Philosophers ([1992] 2002). Continuou a desenvolvê-lo, na última década,
sobretudo nos seminários que deu no Collège de France ' cfr., e.g., 2003 ' e
numa série de conferências que proferiu na Universidade Nacional de Taiwan '
cfr., e.g., 2007.
O conceito de estilo de raciocínio científico, como o próprio autor
reconheceu, resultou por inspiração na noção similar cunhada por Alistair
Cameron Crombie estilo de pensamento científico (style of scientific
thinking) extensamente tratada no seu monumental Styles of Scientific Thinking
in the European Tradition, publicado em 1994. Nesse ensaio, com efeito, o
historiador da ciência inglês identificou seis instâncias dessa ideia
equivalentes aos seis principais estilos de pensamento científico tornados
manifestos até ao século XIX na tradição intelectual europeia, a saber: 1) o
postulacional, estabelecido nas ciências matemáticas (gregas), para efetuar
demonstrações dedutivas a partir de axiomas; 2) o experimental, desenvolvido
para elaborar testes empíricos de controlo ' mediante observação e medição ' de
postulados; 3) o modelacional, concebido para revelar propriedades
desconhecidas de certos fenómenos através da construção de modelos analógicos
com propriedades bem conhecidas; 4) o taxonómico, destinado à ordenação da
variedade por comparação e classificação; 5) o estatístico, consistente na
análise de regularidades em populações e no cálculo de probabilidades; 6) o
genético, concebido para a derivação histórica do desenvolvimento de fenómenos
naturais.
Todavia, vale assinalar que, quase seis décadas antes, Ludwig Fleck reivindicou
em Entstehung und Entwicklung einer wissenschaftlichen Tatsache (1935), onde
submeteu a análise a génese e a evolução do conceito de sífilis, que os
factos científicos somente adquirem significado no âmbito do que chamou um
estilo de pensamento (Denkstil) ou um pensamento coletivo (Denkkollectiv) '
expressões empregues no próprio subtítulo da sua obra ' pelo que, podemos
considerá-lo, em certa medida, um precursor na abordagem de tal ideia. Um pouco
estranhamente, só em Hacking (2001: 3) o autor admitiu a influência da noção
desse epidemologista polaco na formação do seu conceito de estilo de
raciocínio científico.
Há uma forte tendência para relacionar os estilos de raciocínio científico com
os paradigmas kuhnianos. Ela deve ser, no entanto, reprimida, segundo Hacking,
porque os primeiros, não apenas se aplicam a um campo de saberes mais amplo ou
menos localizado que o dos últimos, como também, diferentemente destes, admitem
mudanças cumulativas, no sentido em que o aparecimento de novos estilos de
raciocínio não conduz necessariamente à supressão dos anteriores e, para além
disso, possuem uma vigência temporal muito mais lata que os paradigmas (1985:
148-9). Mas, "Comparing styles of scientific reasoning to other
catchphrases in circulation", acrescentou o autor, "I find it
natural to lean less to Kuhn`s paradigms and more to Michel Foucault`s terms
like episteme and discourse." (idem: 149), na medida em que estas
noções, particularmente a última, à semelhança da que propõe, referem domínios
de conhecimento positivo específicos conformados por uma argumentação
determinante da sua própria constituição.
Segundo Hacking, muito embora cada estilo advenha no decurso de um processo
contingente que envolve "( ) little microsocial interactions and
negotiations." (2002: 188), ainda assim, acaba por autonomizar-se da sua
própria história, convertendo-se em "( ) a rather timeless canon of
objectivity, a standard or model of what it is to be reasonable about this or
that type of subject matter." (ibidem), um estatuto que, a prazo, deixa
de ser problematizado e se torna amplamente reconhecido e confirmado.
Mas, para além desses aspetos atinentes ao modo como os estilos de raciocínio
científico chegam à existência, Hacking atribuiu-lhes três caraterísticas
fundamentais.
Desde logo que criem novidades ou possibilidades inéditas, nomeadamente, novos
tipos de objetos, de proposições (ou modos de ser um candidato para a verdade
ou falsidade), de leis, de classificações, de explicações (idem: 189).
Cingindo-nos aos dois primeiros elementos da lista ' os mais elementares, no
sentido em que os restantes, de algum modo, deles dependem ', temos, pois, que
cada estilo de raciocínio científico funciona como condição de possibilidade
para o ocasionar histórico de certos tipos de objetos e certos tipos de
proposições. Porém, que quer isso exatamente dizer?
Quer dizer, por um lado, que, ilustrativamente, o estilo postulacional provocou
o aparecimento de objetos abstratos, como sejam números fraccionários e
polinómios, o estatístico de propriedades de populações, como média, mediana e
moda, o taxonómico de unidades classificatórias como género e espécie.
E significa, por outro lado, que tais estilos segregam um discurso sem
precedentes, composto por tipos de proposições indizíveis e inaudíveis até à
sua gestação, precisamente porque os modos a eles acoplados de determinar a sua
verdade-ou-falsidade, conditio sine qua non da sua entrada em existência, são
incubados na/com a génese dos próprios estilos. Não pretendeu, assim, Hacking
trivialmente sustentar que certas classes de enunciados apenas principiam a ser
formulados formuladas numa determinada época ou a partir dela, mas, mais
radicalmente que elas adquirem um estatuto proposicional somente quando
outorgado por um estilo de raciocínio ou, o que dá no mesmo, apenas após a sua
formação histórica e em consequência dela. Exemplos seus seriam os seguintes:
a soma de quaisquer dois lados de um triângulo é maior que a do terceiro lado
' proposição 20 do primeiro livro dos Elementos de Euclides (cfr. Kline, 1992:
95) ' que não poderia ter sido enunciada antes do século sexto a.C., altura em
que o estilo postulacional surgiu; as evidências actuais de expansão do
universo sugerem que no futuro ele se contrairá até atingir um ponto singular
' formulação da conjetura do padre-astrónomo belga Georges Lemaître, apelidada
de hipótese do átomo primitivo, mais tarde rebatizada e popularizada como
hipótese do Big Bang, base da cosmologia contemporânea, insuscetível de
articulação até ao século XIX, período de formação do estilo genético (cfr.
Singh, 2004: 156 e ss.).
Tal, como parecerá óbvio, implica que a maior parte das proposições no domínio
das ciências se encontre subordinada a um estilo de raciocínio particular e,
por isso, que o seu valor semântico não possa ser determinado nos termos de uma
teoria da verdade como correspondência independente de e transversal a todo e
qualquer estilo de raciocínio. Mas não implica, em contrapartida, que o efetivo
valor de verdade ou falsidade dessas proposições seja estabelecido pelo estilo
do qual dimanam, uma vez que ele se limita a definir quais dentre elas possuem
positividade, ou seja, são dotadas da possibilidade de serem verdadeiras-ou-
falsas, mas, antes, por intermédio da sua contrastação com o próprio mundo.
Uma segunda caraterística dos estilos de raciocínio científico, corolária, em
parte, da anterior, respeita ao seu processo de fundamentação que, segundo
Hacking, se processa em regime de auto-autenticação (self-authentication), ou
seja, com cada estilo a decretar os seus próprios critérios de legitimidade e
objetividade; nas suas palavras:
"The truth of a sentence (of a kind introduced by a style of
reasoning) is what we find out by reasoning using that style. Styles
become standards of objectivity because they get at the truth. But a
sentence of that kind is a candidate for truth or falsehood only in
the context of the style. Thus styles are in a certain sense self-
authenticating. Sentences of the relevant kinds are candidates for
truth or for falsehood only when a style of reasoning makes them
so." (2002: 191).
Hacking reconhece que esta ideia se encontra exposta à acusação de
circularidade: só tomamos conhecimento de que determinados enunciados possuem
um estatuto proposicional, são verdadeiros-ou-falsos, em razão da via, do
estilo, que seguimos para o descobrirmos e sabemos que tal via, tal estilo,
goza de correção, apenas porque nos conduz à descoberta da verdade-ou-falsidade
dessas mesmas proposições. Todavia, o sofisma é mais aparente do que real,
segundo ele, esvaecendo se deixarmos de pressupor a necessidade, por um lado,
da existência de verdades originais, no seio do mundo, anteriores a e
independentes de quaisquer estilos de raciocínio e, por outro lado, do
surgimento destes se apresentar subordinado ao preciso propósito de trazer à
enunciação, por assim dizer, tais verdades ônticas, passando alternativamente a
admitir uma espécie de colusão justificativa radicada na simultânea origem e
mútuo ajuste entre cada estilo de raciocínio como determinante das condições de
verdade-ou-falsidade de certos enunciados e da fixação do efetivo valor
semântico destes como confirmação da autenticidade daqueles. Por isso,
concluiu:
"The apparent circularity in the self-authenticating styles is
to be welcomed. It helps explain why, although styles may evolve or
be abandoned, they are curiously immune to anything akin to
refutation. There is no higher standard to which they directly
answer." (idem: 192).
A terceira caraterística dos estilos de raciocínio científico digna de reparo,
estreitamente conectada à anterior, é a que concerne ao facto deles
metabolizarem as suas próprias técnicas de auto-estabilização. São elas, aliás,
de acordo com Hacking, que melhor os definem, porquanto afirmou: "Each
style persists, in its peculiar and individual way, because it has harnessed
its own techniques of self-stabilization. That is what constitutes something as
a style of reasoning." (idem: 194). Tais técnicas correspondem a
procedimentos teórico-práticos destinados a assegurar a constância e a permitir
a acumulação do conhecimento sobre os objetos próprios de um estilo. Elas
afiguram-se, em princípio, bastante mais duradouras e muito menos atreitas a
sofrerem alterações do que os respetivos conteúdos ' o acervo de proposições
positivas ' a que se aplicam, mas, dado o seu frequente elevado grau de
ajustamento recíproco, a tendência manifesta parece ser para ambos conservarem
excecional invariância e estabilidade. E, por conseguinte, a inventariação e o
escrutínio das técnicas idiossincrásicas de cada estilo, assim como o exame dos
específicos modos como providenciam conhecimento estável e se tornam estalões
de objetividade, constituiria a substância, segundo o autor, de uma disciplina
que poderia justamente ser batizada de Tecnologia Filosófica (philosophical
technology) (idem: 198).
Depreende-se do que foi dito que os estilos de raciocínio científico ou,
melhor, a sua coexistência, consagra uma forma de relativismo. Sendo isto certo
e assumido por Hacking, procurou ele, contudo, mostrar que se trata de um
relativismo com peculiares caraterísticas, um Anarco-Racionalismo (Anarcho-
Rationalism) como pretendeu designá-lo. Para o apreciarmos claramente, todavia,
temos de contrastá-lo com a sua antítese, o denominado Arqui-Racionalismo
(Arch-Rationalism).
Este último posicionamento epistemológico, de acordo com o autor, sustenta, em
essência, e algo paradoxalmente, que muito embora os distintos tipos de
raciocínio conhecidos se tenham vindo a revelar no devir histórico em
diferentes momentos, esta sua marcha não conduziu ao seu relativismo, mas antes
ao respetivo progresso convergente (idem: 150-1).
Numa estratégia argumentativa ousada, Hacking tentou demonstrar, em
contrapartida, que as sementes de relativismo epistémico foram cultivadas no
seio da tradição filosófica positivista, em aparência a mais proeminente
expressão de Arqui-Racionalismo.
Retomando a convicção de Auguste Comte de que "( ) a branch of knowledge
acquires a positivity by the development of a new, positive, style of
reasoning associated with it." (idem: 152), Hacking alvitrou que essa
proposta fosse interpretada como sinónima de posse de um conjunto de
proposições positivas, ou seja, "( ) propositions that are up for grabs
as true-or-false." (ibidem). Dito de outro modo, entendeu que no conceito
comtiano de positividade se encontra antecipada uma caraterística fundamental
de um estilo de raciocínio científico, nomeadamente a de ele estabelecer um
novo tipo de proposições cujo valor de verdade/falsidade apenas pode ser
decidido no seu âmbito.
Em continuação, repescou a conhecida máxima de Moritz Schlick, um dos
consabidos pais fundadores do Positivismo Lógico, de que o significado de um
enunciado reside no seu método de verificação, para mostrar que, da sua
articulação com o conceito de positividade do pensador francês oitocentista
pode resultar a ideia de que o caráter proposicional de um enunciado é
determinado pelo estilo de raciocínio que delimita a sua verificabilidade
(ibidem).
Por último, recuperou a conclusão de Michael Dummet de que não existe qualquer
modo efetivo de apurar se um enunciado é proposicional, ou seja, verdadeiro-ou-
falso, uma vez que o estabelecimento da sua bivalência só pode ocorrer por
intermédio do seu significado e este é fixado no interior de um estilo de
raciocínio (idem: 153).
Assim, sintetizou Hacking, isso significa que sendo a positividade consequência
de um estilo de raciocínio, é este mesmo que cria a gama de possíveis
enunciados candidatos a serem verdadeiros ou falsos; ou, de outro modo, que,
embora o efetivo apuramento de quais proposições são verdadeiras e quais são
falsas dependa de dados, ainda assim o facto de elas possuírem essa natureza
resulta de um gesto histórico. Mas quer dizer, também, que, inversamente, a
suposta racionalidade de um estilo de raciocínio, o poder que detém, por assim
dizer, de decretar a verdade/falsidade de uma classe de proposições, parece
insubsumível a uma crítica independente, simplesmente porque ela é
completamente interna a ele mesmo (idem: 155).
Este relativismo, ao qual, todavia, a concepção hackinguiana dos estilos de
raciocínio científico não pode nem pretende subtrair-se é, como disse, original
e segundo o autor, sinónimo do que apelidou ' não ocultando a sua ressonância
feyerabendiana ' um Anarco-Racionalismo, recapitulável nas seguintes cinco
asseverações:
"1. There are different styles of reasoning. Many of these are
discernable in our own history. They emerge at definite points and
have distinct trajectories of maturation. Some die out, others are
still going strong.
2. Propositions of the sort that necessarily requires reasoning to be
substantiated have a positivity, a being true-or-false, only in
consequence of the styles of reasoning in which they occur.
3. Hence many categories of possibility, of what may be true or
false, are contingent upon historical events, namely the development
of certain styles of reasoning.
4. It may then be inferred that there are other categories of
possibility other than have emerged in our own tradition.
5. We cannot reason as to whether alternative systems of reasoning
are better or worse than ours, because the propositions to which we
reason get their sense only from the method of reasoning employed.
The propositions have no existence independent of the ways of
reasoning toward them." (idem: 162).
Sobressaem, assim, neste enfoque, duas coisas: (a) uma redefinição do
significado da objetividade científica ' das condições exigíveis para a
construção de proposições objetivamente verdadeiras/falsas respeitantes a um
domínio de coisas estabelecido ' proposto, doravante, não como determinável
independentemente dessa espécie de molduras macro-epistémicas que constituem os
estilos de raciocínio, mas, antes, como inapelavelmente gerado no e
circunscrito ao seu âmbito; (b) um desfazer da visão da racionalidade
científica como una e singular, abstrata e imutável, universal e absoluta,
prontamente contrabalançada pela sua reconstrução como diversa e plural,
contingente e evolutiva, particular e relativa, ou seja, como composta por um
número cambiante de estilos de raciocínio, singrando historicamente cada qual,
por auto-justificação e todos eles, sem uma instância externa de justificação
ou de meta-justificação, apenas orientado, tal entendimento alternativo da
racionalidade científica, por um princípio não normativo que somente estipula
"( ) tolerance for other people combined with the discipline of one`s own
standards of truth and reason." (idem: 164).