Desenvolvimento e dependência na interpretação sociológica de Fernando Henrique
Cardoso
ARTIGO
Desenvolvimento e dependência na interpretação sociológica de Fernando Henrique
Cardoso1
Development and dependence on sociological interpretation of Fernando Henrique
Cardoso
INTRODUÇÃO
O debate na atualidade acerca do sociólogo Fernando Henrique Cardoso não é das
tarefas mais fáceis de fazer. Não que a sua teoria ou reflexões sejam
inalcançáveis, ou os seus textos, livros e artigos de difícil acesso. Talvez a
dificuldade ocorra no campo das paixões. No quanto o autor e o ator se
misturam, se confundem, ou mesmo se complementam.
O facto de Fernando Henrique Cardoso ter sido um académico e de também ter
participado ativamente da política, sendo ministro de Estado e chegando a ser
presidente do Brasil por dois mandatos dificulta sem dúvida a releitura e
reinterpretação do autor, isto porque não faltam leituras apaixonadas e
partindo da política neste processo, seja para o elogiar ou para o criticar.
Há várias maneiras de se investigar um autor e a sua respetiva obra, quando
portador da particularidade de Fernando Henrique Cardoso, qual seja a de ter
apresentado um protagonismo na academia (universidade e demais círculos da
intelectualidade) e na política (ocupando cargos no Estado e, no caso em
questão, sendo presidente da República). Aqui vamos evidenciar três, não
necessariamente excludente entre si.
Poderíamos pensar numa maneira dialética e de totalidade, em que a obra e o
autor são lidos (interpretados) no espaço e no tempo, ainda que com
contradições, como um processo. Citamos aqui nesta possibilidade autores que ao
analisar a obra de Fernando Henrique Cardoso acabam por vincular o dito
(sociologia) e o feito (presidência) num único movimento, assim o teórico da
dependência, ou de um tipo histórico de estratégia para o desenvolvimento seria
também o executor de um tipo historicamente determinado de dependência, ainda
que em outra conjuntura, e sobre influência de outros conceitos (globalização,
neoliberalismo e etc.).
A segunda poderia ser caracterizada pelos estudos de trajetória (intelectual),
em que a posição relativa que a ator/agente possui num determinado campo
(político ou intelectual) está vinculada não somente ao seu estilo de vida, mas
principalmente aos capitais que possui. Estes capitais (culturais, simbólicos
ou políticos) estariam inscritos no habitus do agente, o componente fundamental
para definir a posição relativa que o mesmo ocuparia num determinado campo,
hierarquizando e estabelecendo estratificações de poder e dominação a partir
daí.
Uma terceira possibilidade também se apresenta de forma consistente na revisão
bibliográfica sobre o autor, ainda que fundamentada por diferentes abordagens
teóricas e metodológicas. Qual seja: a investigação a partir de temas
específicos na obra no autor, como por exemplo, a questão do empresário, a
questão do negro, e a questão do capitalismo brasileiro (desenvolvimento e
dependência, por exemplo) ou a questão do autoritarismo (contribuição que
Lahuerta (2001), entende como uma das mais vigorosas produzidas na década de
1970 entre os intelectuais brasileiros2).
Neste tipo de investigação, soma-se à revisão bibliográfica a análise
documental e de acervos sobre a temática em questão. No caso do sociólogo
Fernando Henrique Cardoso, a digitalização da sua obra (livros, artigos,
entrevistas, etc.), formando um imenso acervo virtual no Instituto Fernando
Henrique Cardoso é de extrema importância para a investigação. Uma espécie de
sociologia feita a partir das ideias, da história, das trajetórias, enfim, visa
revisitar o autor pela obra através da pesquisa em diferentes fontes, mas sem
perder de vista o contexto, a posição e instituições de pertença do autor (o
local e a posição de onde fala/escreve é importante).
Evidentemente que há outras maneiras e formas de lidar com o problema do autor/
ator, apenas ilustramos algumas facilmente encontradas nas revisões
bibliográficas analíticas, críticas, ou mesmo empíricas sobre Fernando
Henrique Cardoso.
Aproximamo-nos neste artigo do terceiro tipo de investigação. Sendo assim, o
texto tomará a seguinte forma. Num primeiro momento debateremos os fundamentos
teórico-metodológicos priorizados por Cardoso nas suas investigações sobre o
desenvolvimento e a dependência, destacando-se nesta parte a influência da
dialética marxista, ainda que em complemento com outras abordagens essenciais
para a realização da interpretação sociológica do autor.
Num segundo momento debateremos a questão do desenvolvimento e a dependência no
autor, ou seja, a forma como Cardoso identificava as teorias e abordagens
produzidas entre os anos 1950-1960, e quais seriam os seus alcances e limites.
Uma vez identificados os limites, caberia à sociologia a elaboração de uma
análise, a partir da própria periferia ' América Latina ' capaz de explicar/
compreender as especificidades das condições concretas com que os países ditos
subdesenvolvidos se encontravam e, quais as potencialidades de superação do
subdesenvolvimento que estavam historicamente (politicamente) postas.
Em artigo publicado em 28 de maio de 1995 no Caderno Mais! da Folha de São
Paulo, intitulado Desenvolvimento: o mais político dos temas econômicos
Cardoso tece algumas ponderações e atualizações, ainda que em continuidade de
pensamento sobre a importância que a política assume na análise sociológica
sobre o desenvolvimento. Mais precisamente, sobre a relação entre o centro e a
periferia a partir do conceito de desenvolvimento dependente associado. As
opções políticas endógenas aos países, mesmo que pactuando interesses com
classes exógenas, indicavam potencialidades de desenvolvimento económico e
social, mesmo numa relação geral de dependência.
ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA EM PERSPETIVA
Neste trabalho vamos centrar esforços na análise dos textos (artigos e livros)
de Fernando Henrique Cardoso sobre a temática da dependência e do
desenvolvimento. Mais precisamente, vamos refletir sobre a produção
bibliográfica produzida maioritariamente entre as décadas de 1960 e 1970.
Utilizaremos apenas como aporte analítico obras ou textos mais recentes do
autor.
O autor assume textualmente a influência e a opção pelo método centrado na
dialética marxista, por meio da abordagem histórico-estrutural baseada nas
análises de situações concretas, em consonância com a chamada Escola de
Sociologia Paulista, cujo grande mentor na Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas era Florestan Fernandes. A utilização deste método propiciava,
justamente, a utilização de outras abordagens teóricas para a construção de um
conhecimento sociológico.
Cardoso e Faletto (1970), no prefácio do livro Dependência e Desenvolvimento na
América Latina: Ensaios de Interpretação Sociológica, definem assim o objetivo
do mesmo:
[ ] é esclarecer alguns pontos convertidos sobre as condições,
possibilidades e formas do desenvolvimento econômico em países que
mantêm relações de dependência com os polos hegemônicos do sistema
capitalista, mas, ao mesmo tempo, constituíram-se como Nações e
organizaram Estados Nacionais que, como todo Estado, aspiram
soberania falar da América Latina sem especificar dentro dela as
diferenças de estrutura e de história constitui um equívoco teórico
de consequências práticas perigosas [Cardoso e Faletto, 1970, p. 7].
Neste sentido, Cardoso e Faletto visam, nesta obra, elaborar uma interpretação
sociológica centrada na abordagem histórico-estrutural. O conceito de processo
histórico-estrutural parece-nos aqui particularmente interessante por permitir,
no âmbito metodológico, a necessária fusão entre estrutura e históriana análise
social. Isto porque, sob tal perspetiva, as estruturas são concebidas como
produto da luta social e como resultado da imposição social, sendo, deste modo,
analisadas enquanto processos.
[ ]a ideia de que existe uma explicação histórico-estrutural tem a
ver com o processo de formação das estruturas e, simultaneamente, com
a descoberta das leis de transformação dessas estruturas. Trata-se de
conceber as estruturas como relações entre os homens que, se bem são
determinadas, são também ( ) passíveis de mudança, à medida que, na
luta social (política, econômica cultural), novas alternativas vão se
abrindo à prática histórica. Neste sentido, o objeto da análise não
se reifica em atores, mas se dinamiza em conjuntos de relações
sociais. [Cardoso,1995, p. 97].
Do ponto de vista dos princípios teórico-metodológicos, o autor declara
textualmente a sua proximidade à dialética marxista. Cardoso faz referência a
esta escolha de fonte metodológica não somente para tratar do fenómeno da
dependência e do desenvolvimento, mas também para tratar dos estudos sobre o
capitalismo e a escravidão no Brasil, na medida em que entende este
procedimento metodológico como o mais adequado para uma análise sociológica a
partir de situações concretas.
As análises concretas seriam então um produto simultaneamente da prática e da
reflexão teórica. Por isto, quando Cardoso (1993) enfatiza que as análises
sobre a dependência devem partir de situações concretas e ser referenciadas
numa análise concreta, o procedimento inscrito nesta construção é o contido
na Contribuição à Crítica da Economia Política de Karl Marx, cuja parte que
melhor expressa este procedimento é: o concreto é concreto porque é a síntese
de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso. Por isto o concreto
aparece no pensamento como processo da síntese, como resultado, não como ponto
de partida (Marx, 1991, p. 16).
Para Cardoso (1993), esse esforço metodológico reflete a busca da elevação do
particular para o geral, onde as relações parciais acabam por se determinar de
modo a gerar sínteses que expressam o todo, a totalidade: em síntese as
análises concretas supõe a elaboração dos conceitos que permitem organizar a
unidade do diverso esta unidade não apaga as diferenças, não dissolve as
particularidades na abstração representada por ideias gerais (Cardoso, 1993,
p. 92).
Percebe-se que na produção académica e bibliográfica do autor, a preocupação
com os procedimentos metodológicos não é meramente formal. Cardoso encara o
método como um garante de cientificidade para o conhecimento a ser produzido,
sendo o método dialético (dialética marxista) aquele que melhor garante a
inteligibilidade da realidade social, independentemente do tema ou foco da
análise.
Citamos a famosa Introdução do livro Capitalismo e Escravidão no Brasil
Meridional: o Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul (1962), que
resultou posteriormente na elaboração do Prefácio da 2.a edição (1977), 15
anos depois do lançamento do livro. Tanto na Introdução como no referido
Prefácio, Cardoso acaba por sustentar que o método dialético sustenta-se
como alternativa de conhecimento (Cardoso, 2003, p. 16).
No Prefácio da 2.a edição, ao debater sobre as reflexões realizadas no grupo
de que fazia parte com Florestan Fernandes na USP, Cardoso (2003) afirma que
havia uma constante necessidade de produzir uma sociologia que não fosse uma
mera constatação positiva. A dialética, tal como o método funcionalista e o
weberiano era encarada como um dos três métodos científicos fundamentais para o
conhecimento sociológico.3 Sendo a aceitação do método dialético mais
abrangente, subordinava a ele os outros métodos. Ciência, história, pesquisa e
reflexão eram exercícios intelectuais complementares e simultâneos neste
processo.
Na análise dialética, a explicação das relações estruturais e da
dinâmica de sua transformação implica um esforço metodológico para
estabelecer a hierarquia de vínculos entre cada situação particular e
o conjunto do sistema social (a noção de totalidade) [Cardoso, 2003,
p. 20].
O olhar sobre a totalidade dos fenómenos sociais, ou a totalidade vista a
partir do fenómeno em particular, além de ser um dos aspetos centrais
desenvolvidos na introdução do livro Capitalismo e Escravidão no Brasil
Meridional: o Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul também foi
problematizado no artigo O método dialético na análise sociológica, publicado
na Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. II (1) de março de 1962. Esta
revista era uma publicação da Faculdade de Ciências Económicas da Universidade
Federal de Minas Gerais. Mais uma vez, o autor argumenta que a explicação
sociológica necessita de duas condições, a saber, ser científica e,
consequentemente, ter alcance interpretativo sobre situações concretas.
Em função disto, deve partir da dialética marxista como forma de garantia de
alcance explicativo das situações concretas, e da forma como a totalidade se
expressa no particular, se soma às análises dos movimentos estratégicos dos
atores centrados num padrão de racionalidade por finalidade, nas práticas
empresariais e no meio como articulam os seus interesses com os atores
(empresários) estrangeiros. Ou seja, é através da junção entre a dialética
marxista e a teoria da ação racional weberiana que Cardoso produz as suas
interpretações sociológicas sobre a América Latina, e sobre o Brasil em
particular.
É evidente nos textos do autor a constante afirmação de que o conhecimento
produzido se faz a partir de uma interpretação sociológica legitimamente
fundada como científica. A título ilustrativo, podemos citar entre outros
exemplos, o título do primeiro capítulo do seu livro de 1969 Mudanças Sociais
na América Latina: Desenvolvimento e dependência: perspectivas teóricas na
análise sociológica.
A ideia de totalidade é um aspeto central que acompanha o autor ao definir
sucintamente o objetivo do livro Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional:
o Negro na Sociedade Escravocrata do Rio Grande do Sul, no qual escreve: o
livro visa analisar a totalidade social concreta que resultou da integração
entre senhores e escravos na sociedade gaúcha (Cardoso, 2003). Ainda a este
respeito Cardoso escreveu:
O conceito de totalidade não se refere, ou pelo menos não se resume,
na dialética, à reprodução de todas as condições, fatores, mecanismos
e efeitos sociais que interferem na produção de um fenômeno, processo
ou situação social. Na explicação dialética o conceito de totalidade
é utilizado como um recurso interpretativo pelo qual se visa
compreender, como explicitamente escreveu Marx, no post-fácio da
Contribuição à Crítica da Economia Política, não a identidade, o
padrão de invariância, mas as diferenças em uma unidade, tal como são
engendradas em uma totalidade determinada [Cardoso, 1962, p. 86].
Cardoso continua:
Na interpretação dialética as relações que se procura determinar nas
totalidades também estão referidas de maneira imediata aos processos
sociais reais, e também existe o escopo de reproduzir o real como
concreto. Mas, neste caso, o concreto aparece como o resultado de um
processo de conhecimento marcado por um movimento da razão que
implica numa elaboração muito mais complexa do que a abstração dos
padrões gerais, ainda que essenciais, que regulam a interação nas
condições empíricas de sua manifestação [Cardoso,1962, p. 90].
Por fim, Cardoso (1962) reforça a necessidade da utilização do método dialético
na sociologia a partir da problematização inserida por Sartre no livro Questão
de Método: Crítica da Razão Dialética, no qual as totalidades sociais deveriam
ser tratadas como totalidades singulares.4 Dá-se ao método dialético uma
condição heurística, uma vez que o real não é dado a priori, mas constitui
esforço analítico de investigação (Cardoso,1962, p.105). Neste aspeto,
Cardoso aproxima Marx de Weber, ao considerar que em ambos o método não é
empírico, e que a interpretação se vincula, ao invés, a um momento analítico
que acaba por condicionar as possibilidades de generalização.
A explicação dos processos, das situações concretas não seria justificada pela
história (ainda que esta componente seja necessária à análise), mas sim do
ponto de vista da história como realização da atividade humana coletiva
(Cardoso, 1962, p. 106).
No livro As Ideias e seu Lugar: Ensaios sobre as Teorias do Desenvolvimento, no
capítulo A dependência revisitada, o autor também dedica esforços analíticos
às questões teórico-metodológicas. Mais uma vez reforça a necessidade do
empreendimento científico a partir de uma interpretação baseada na dialética
marxista, em que a compreensão da totalidade e a necessidade de reflexões por
meio de análises concretas, ou seja, a utilização da abordagem histórico-
estrutural nesta perspetiva seria uma forma científica e relevante para tratar
do fenómeno da dependência e do desenvolvimento.
[ ] se especificam as formas históricas de dependência a partir do
modo pelo qual classes, estados e produção se inserem na ordem
internacional mostrar como a internacionalização do mercado
solidariza os interesses entre classes que no momento anterior
apareciam como adversas (a burguesia nacional e a burguesia
imperialista e mesmo setores das classes assalariadas e os monopólios
internacionais, por exemplo). Neste movimento, a própria ideia de
dependência, na medida em que é pensada e tem seu ponto de partida
como dependência nacional, revela suas limitações [Cardoso, 1995,
p. 94].
Ainda que do ponto de vista científico Cardoso valorize o procedimento teórico-
metodológico centrado na dialética marxista, o mesmo admite a
complementaridade, sem cair no ecletismo, com outras abordagens. Em vários
momentos se pronuncia contra a essencialização de conceitos, ou a construção de
conceitos imutáveis. Assim, afirma que os conceitos se vinculam ao próprio
movimento da história, sendo a história e o alcance teórico-prático limitados.
Os conceitos são analisados de forma similar ao alcance que o método dialético
gera como fator interpretativo das análises concretas do real.
Em síntese, parte-se da dialética marxista para alcançar as situações concretas
e respetivamente compreender as suas estruturas e dinâmicas nos casos
particulares, em unidade dialética com a totalidade capitalista. Por outro,
interrelacionam-se as classes, o Estado e os partidos, assim como também se
evidenciam as condições e consequências dos processos de mobilização nacional,
ambas levando em consideração as contradições e lutas travadas dentro e fora do
Estado entre os interesses imperialistas e nacionais. Ao passo que na primeira
parte o recorte metodológico é de grande influência marxista, na segunda o
tratamento teórico centrado em estratégias racionais dos diferentes atores
envolvidos é de grande influência weberiana.
DESENVOLVIMENTO E DEPENDÊNCIA COMO FATORES DE INTERPRETAÇÃO DO BRASIL
Uma vez definidos os procedimentos teórico-metodológicos pelos quais Cardoso
conduziu a análise sociológica, o autor contextualiza o tema do
desenvolvimento, principalmente nas interpretações de influência Cepalina,
funcional, teoria da modernização e marxista. Ao diferenciar-se destas
perspetivas, propõe outro caminho interpretativo.
Neste sentido, pode-se afirmar que Cardoso percorre a respetiva trajetória
argumentativa, a saber: crítica às teorias modernizadoras e de etapas do
desenvolvimento; crítica à teoria da superexploração imperialista; assume a
influência marxista, porém em diálogo com outras abordagens analíticas, e
evidencia a problematização do nacional e do internacional na reprodução
social, política e económica do Brasil.
Como principais aspetos dessa interpretação destaca-se que a dependência
consiste em evidenciar os determinantes externos (imperialistas) relacionados
com os determinantes internos (estrutura de classes); que há uma associação da
burguesia local com as empresas multinacionais industriais e com a
tecnoburocracia estatal (civil e militar) e, que o desenvolvimento dependente
e associado se vincula às assimetrias de poder e de capital internacionalmente.
Como evidenciado, Cardoso ao vincular que os países da América Latina, e o
Brasil em particular, apresentam uma situação concreta passível de ser
intitulada a partir do desenvolvimento e dependência associada, em que a
configuração do capitalismo em esfera global e a sua respetiva divisão
internacional do trabalho seria um fenómeno propriamente político, em que a
dimensão económica possui uma expressão relevante.
Ainda que o problema das relações entre Estados e entre nações continuasse
relevante na divisão internacional do trabalho, seriam as relações de classes,
no plano interno e na relação do endógeno com o exógeno, o aspeto fundamental
para se pensar o desenvolvimento dos países. Daí a interpretação de que apesar
de dependente, ou de assimetricamente com menos poder e com menos capacidade de
se apropriar dos ganhos de produtividade, os países em situação de dependência
(Brasil em particular), mediante pactos entre as elites políticas e económicas
locais com as elites estrangeiras, apesar de não corrigir todas as assimetrias
internas, poderiam provocar um tipo determinado de desenvolvimento associado.
Em termos gerais, Cardoso visava demonstrar que as relações entre o centro e a
periferia haviam mudado (e encontravam-se em mudança), mesmo quando analisadas
como movimento do capitalismo. Este tipo de análise criticava as teorias e
abordagens marxistas centradas no imperialismo, que acabam por ver como
impossível o desenvolvimento capitalista na periferia. Para Cardoso, as novas
relações de dependência permitiriam a industrialização das economias
subdesenvolvidas, em função dos pactos entre as classes e elites nacionais com
as internacionais. Percebe-se que o principal aqui é a força da política e não
meramente as estruturas económicas.
Ao preconizar que as relações económicas também são relações políticas, o
autor, duplamente influenciado pela dialética marxista e pela racionalidade da
ação ' weberiana ' (principalmente na orientação racional por finalidade)
defende que a política estabelece a dinâmica necessária aos processos, ou seja,
dependendo das opções e arranjos entre classes e/ou do surgimento de novas
classes/atores, existiriam as oportunidades concretas de desenvolvimento
económico, mesmo para os países subdesenvolvidos, num contexto geral de
dependência.
O contexto mundial (dimensão histórica, económica, política e social) é
fundamental para a reflexão de Cardoso, mas precisamente, é central para todas
as discussões (teorias e abordagens) daquilo a que Sachs (2005) chama moderna
teoria do desenvolvimento.5
É deste contexto que a Cepal faz parte, mais precisamente inserindo-se no
debate acerca da necessidade da promoção da industrialização maciça da
periferia do sistema mundial.
Para o debate cepalino as leis de livre comércio internacional centradas nas
vantagens comparativas, na especialização da produção, beneficiavam os países
industrializados em detrimento dos países primários exportadores (minerais ou
alimentícios). A solução seria a industrialização da periferia.
[ ] aquela altura (década de 1950) os textos cepalinos propunham, com
variáveis graus de empenho, o apelo ao capital estrangeiro ' de
preferência sob a forma de empréstimos intergovernamentais ' para
promover a rápida industrialização; propunham uma política fiscal
adequada, alterações substanciais no regime de propriedade da terra
e, sobretudo, propugnavam pela ação coordenadora do Estado para
conduzir o desenvolvimento nacional [Cardoso, 1995, p. 16].
Segundo Cardoso (1995), seria por meio da mudança da posição relativa das
economias periféricas no comércio internacional, que a Cepal visava obter
resultados similares aos dos países centrais. A urbanização, a industrialização
da economia e a modernização/tecnificação da produção agrário-mineradora seriam
os fatores necessários para romper os estrangulamentos presentes.
Neste sentido, não seria a inovação de teoria ou de abordagem a focalização das
análises na dependência externa da economia, factos estes bem argumentados pela
Cepal. Ainda que, ao centrar o debate na dualidade estrutural, estaria a
vincular a dependência entre nações (Estado-Nação), deixando analiticamente
pouco espaço para os problemas de classes/atores.
Cardoso (1995) evidencia que há relações estruturais e globais que unem as
situações concretas do centro às da periferia:
Os estudos sobre a dependência mostravam que os interesses das
economias centrais (e das classes que as sustentavam) se articulam no
interior dos países subdesenvolvidos com os interesses das classes
dominantes locais. Existe uma articulação estrutural entre centro e
periferia e esta articulação é global: não se limita ao circuito do
mercado internacional, mas penetra na sociedade, solidarizando
interesses de grupos e classes externos e internos e gerando pactos
políticos entre eles que desembocam no interior do Estado [Cardoso,
1995, p. 19].
Esta abordagem rompe com as análises centradas no reposicionamento entre os
países no que concerne a divisão internacional do trabalho, sejam elas
cepalinas ou dependentistas marxistas (imperialistas). O que ambas têm em comum
é a forte ênfase na relação global entre o externo (o imperialismo) e o interno
(a nação). Na análise de Cardoso há uma mediação entre o externo e o interno,
caracterizada pelo processo de relação entre as classes6 (em ambos os níveis de
forma antagónica e complementar). O desenvolvimento deixa de ser uma questão
económica e passa a ser uma questão política (Cardoso, 1995, p. 19).
Tal análise era reforçada pelas situações concretas em que a relação do
empresariado nacional e do Estado, principalmente a partir da década de 1950,
vão estar em solidariedade com as empresas multinacionais, cuja expressão deste
processo seria a presença no crescimento do mercado interno do dinamismo entre
empresariado nacional, o setor estatal e as empresas multinacionais.
No artigo Hegemonia burguesa e interdependência econômica: raízes estruturais
da crise política brasileira, publicado na revista Les Temps modernes, n.º
257, editada por Sartre, e posteriormente publicada como livro Brasil: Tempos
Modernos, coordenado por Celso Furtado, Cardoso (1977), evidencia a importância
do Estado e da burguesia industrial para o desenvolvimento brasileiro, ou seja,
o desenvolvimentismo seria caracterizado pela possibilidade de uma política
económica de desenvolvimento nacional centrada nos setores industriais mais
dinâmicos da burguesia nacional.
Todavia, para Cardoso (1977) este modelo centrado no eixo estatismo, populismo
e desenvolvimentismo, não conseguiria já manter a hegemonia, sendo necessário
repensar novas reconstituições e novos sistemas de alianças, agora orientados
de forma solidária entre o interno e o externo.
Cardoso e Faletto (1970) no livro Dependência e Desenvolvimento na América
Latina: Ensaio de Interpretação Sociológica, reforçam a tese de que o problema
do desenvolvimento económico deveria ser percorrido por uma interpretação que
insistisse na natureza política dos processos económicos.
Por outro lado, as chamadas situações históricas que levam em consideração
simultaneamente o momento histórico e as condições estruturais do
desenvolvimento, quando aplicadas à interpretação dos países da América Latina,
evidenciam que o momento histórico é distinto, como também as condições
estruturais do desenvolvimento e da sociedade tornaram-se historicamente
diversas (Cardoso e Faletto,1970, p.139).
A partir daí, Cardoso e Faletto afirmam serem insuficientes para a análise
sociológica os conceitos de subdesenvolvimento e periferia económica. O
conceito de dependência demonstra maior força e vitalidade como instrumento
teórico, principalmente por conter na análise tanto os aspetos económicos do
subdesenvolvimento, quanto os políticos, sejam eles de dominação de um país
pelo outro ou de umas classes sobre outras, numa situação concreta de
dependência nacional.
A produção capitalista assumiria nesses países os aspetos e as particularidades
específicas das formações sociais cujo traço central é a dependência.
Porém, ao utilizarem o conceito de dependência, não o fazem em sintonia com o
debate puramente marxista da época. Para os autores seria um erro pensar a
relação de dependência como uma situação metafísica entre nações e/ou Estados.
É fundamental compreender de que forma as relações entre esses polos
estabelecem concretamente mediações, e quais os interesses e coerções que
evidenciam os conflitos e os consensos entre os diversos grupos e classes
sociais entre si.
A análise concreta de cada situação básica de dependência em que se relacionam
o Estado, as classes e a produção é um fator fundamental para a interpretação
sociológica de dependência.
Cardoso e Faletto (1970) mostram que na América Latina há duas situações
básicas de relacionamento entre as classes e o Estado e com a produção. A
primeira seria a especificidade das chamadas economias de enclave, e a
segunda o controle nacional do sistema exportador.
No entanto, as transformações históricas concretas na América Latina também
suscitam comentários sobre duas falácias da interpretação sociológica, a saber:
[ ] a crença no condicionamento mecânico da situação político-social
interna (ou nacional) pelo domínio externo, e a ideia oposta de que
tudo é contingência histórica [Cardoso e Faletto, 1970, p. 140].
Não existe puramente uma relação mecânica de determinismo imposto pela
hegemonia externa, mas esta também não é irrelevante na análise. Existem
vínculos estruturais limitadores das possibilidades de ação no plano interno,
porém a intermediação da ação de classes, grupos, e mesmo movimentos sociais no
plano interno (em diálogo) dos países dependentes são essenciais para a
manutenção, rompimento ou transformação desses laços estruturais.
Pode-se dizer que há para os autores uma autonomia relativa, porém não sem
contradições e possibilidades de convergências entre o sistema económico e o
processo político. A novidade não estaria em evidenciar a dominação externa,
mas na construção (conteúdo e forma) que ela assume e quais os efeitos
produzidos nessa relação de dependência entre as classes e o Estado.
Os interesses externos passam cada vez mais a reproduzir-se no mercado interno,
de forma a estabelecer alianças políticas com as classes e grupos endógenos.
O debate proposto por Cardoso sobre o desenvolvimento e a dependência, ou como
muitas vezes se denomina de desenvolvimento dependente e associado, colocando a
questão da política no centro da análise sociológica teve grande influência no
Brasil e na América Latina, sendo bem recebida também na América do Norte e na
Europa. Tal facto levou o autor a ser um dos autores brasileiros mais
traduzidos e publicados no estrangeiro a propósito desta questão.
APONTAMENTOS E CRÍTICA
Porém, na época, não deixaram de existir controvérsias com marxistas, entre os
quais Ruy Mauro Marini, por exemplo. Referimo-nos em concreto ao debate
ocorrido na Revista Mexicana de Sociologia no ano de 1978.
Fernando Henrique Cardoso e José Serra escreveram nesse ano o artigo Las
desventuras de la dialectica de la dependência, quando ambos eram professores
visitantes no Institute for Advanced Study, Princeton, Estados Unidos. O artigo
ainda contou com forte debate no CEBRAP, tendo sido paricularmente importantes
para os autores os comentários críticos de Luiz Gonzaga Belluzzo e Vilmar
Faria. O foco do texto foi a revisão crítica das análises feitas por Ruy Mauro
Marini no seio da dialética da dependência.
Por sua vez, Ruy Mauro Marini no artigo Las razones del neodesarrollismo
(respuesta a F.H. Cardoso y J. Serra), publicado nessa mesma revista, rebate
as críticas recebidas. Neste texto Marini responde às críticas de Cardoso e
Serra evidenciando a partir da sua análise as insuficiências fundamentais
contidas nas críticas de Cardoso e Serra.
Ao passo que Marini entende que não é possível separar a dialética marxista
enquanto metodologia da teoria marxista de classes e da história como forma de
explicação do capitalismo, e que ambas incidem sobre a inteligibilidade das
condições de produção e reprodução do capitalismo na esfera mundial. Cardoso,
não somente separa a metodologia da teoria, como justifica que a principal
vantagem da metodologia a partir da dialética marxista justamente é a
possibilidade de integrar na interpretação sociológica outras teorias, entre
elas, a weberiana.
Por outro lado, Marini entende a dependência como condição estrutural do
capitalismo, cuja expressão do imperialismo e as condições de superexploração
colocariam os países dependentes em subordinação e subsunção formal e real ao
capital. Já Cardoso, ao integrar na sua análise Marx e Weber, conforme já
problematizado, interpreta que apesar do imperialismo e da lógica estrutural do
capitalismo, o pacto entre as elites políticas e económicas nacionais com as
elites internacionais geraria uma situação de desenvolvimento e dependência
associada, ou seja, dependendo da capacidade estratégica dos atores nacionais
nas resoluções de conflitos internos e pactuações com interesses externos, o
país até poderia extrair benefícios, mesmo numa situação concreta de
dependência.
João Quartim de Moraes também polemizou com Fernando Henrique Cardoso e
Francisco Weffort sobre a dependência. Moraes, para fins de participação no
seminário sobre Dépendance et structure de classes em Ámerique Latine, em
Genebra pelo centro suíço de estudos do Terceiro Mundo, escreveu o artigo Le
statut theorique de la notion de dépendance, posteriormente traduzido pelo
autor e publicado na Revista Crítica Marxista, n.º 31, de 2010.
Para Moraes (2010), não basta reconhecer o papel dos fatores internos e
atribuir uma situação concreta de dependência para uma utilização correta e
adequada da dialética materialista, é preciso buscar a génese da dependência
enquanto formação histórica específica de dominação. A forma como Cardoso
relaciona os fatores internos e externos nas situações concretas de dependência
mascara e impede-o de demonstrar como na teoria e na prática, a dependência é
uma forma específica de articulação de determinações internas e externas e,
enquanto totalidade complexa, estruturalmente reproduz os interesses
dominantes. Ou seja, reproduzem-se no plano interno as contradições na
dependência, mas sem resolvê-las e superá-las, mantendo-se como país
estruturalmente dependente.
Outras controvérsias também ocorreram nos debates promovidos pelo CEBRAP
durante a década de 1970, entre elas com o sociólogo Francisco de Oliveira.
Oliveira (1998) aceita a tese central de Cardoso de que a dimensão do político
é central para as reflexões sobre o desenvolvimento e a dependência, todavia,
refuta a ideia de que a reprodução do capitalismo brasileiro (expresso num
padrão particular de desenvolvimento e em condições de dependência) se daria
somente e em função da articulação entre interesses e pactos entre atores
nacionais e internacionais. Para Oliveira, os interesses de classes e conflitos
no âmbito interno também produziam efeitos no momentos de não sintonia e pactos
entre atores internos e externos, dando assim mais dinâmica ao nacional nas
análises de classes.
Por último, porém não esgotando as críticas, é preciso recuperar e
contextualizar a abordagem do Cardoso à luz de novos estudos e experiências
históricas relevantes que separam as discussões da década de 1960 e 1970, das
realizadas no final do século XX e início do século XXI.
Ainda que de modo breve, vamos apresentar tal problemática em dois aspetos, a
saber: as discussões acerca do método dialético na análise dos diferentes
ciclos de crise que têm ocorrido no chamado capitalismo global. Em segundo,
colocar o problema do desenvolvimento/dependência acerca das análises do
sistema- mundo e das relações Norte-Sul e de pós-colonialismo.
No primeiro aspetos, Meszaros (2002) evidencia que na crítica produzida a
partir dos escritos de Marx e de diferentes outros autores marxistas, como
Lukács e Rosa Luxemburgo, haveria uma profunda reflexão sobre a sociabilidade e
os conflitos contemporâneos. Por outro lado, a lógica do sistema do capital (a
sua forma de produção e reprodução no tempo e no espaço) continuaria
destrutiva, isto porque a expressão social do sistema do capital envolveria
(ainda que com contradições) uma tríade formada pelo capital, pelo trabalho e
pelo Estado. O resultado deste processo marca a dinâmica de um metabolismo
social do capital incontrolável, mas, ao mesmo tempo, expansionista e
destrutível.
Meszaros (2009) afirma que as crises e o colapso do sistema financeiro não
seriam novas crises, mas historicamente evidenciariam o quanto a dinâmica do
capital é perversa, cumulativa e endémica, ou seja, as crises seriam
estruturais. Por isto, o papel do Estado, seja na sua forma socialdemocrata,
com práticas de política-económica keynesianas, ou mesmo desenvolvimentistas,
estaria destinado ao fracasso, retornando a partir daí a crítica marxista de
necessidade de produção coletiva de novas formas de organização social,
cultural e económica.
Antunes (2002) compartilha esta perspetiva de crise sistémica e estrutural, em
que uma das suas principais manifestações ocorre na destruição da força de
trabalho em quantidade e qualidade inimagináveis.
Harvey (1996), partindo do debate acerca do termo pós-moderno, vincula-o ao
conjunto de transformações culturais e tecnológicas ocorridas no final do
século XX, a partir da explicação iniciada por Marx que consistia em
compreender que os processos sociais produzidos e conduzidos no sistema
capitalista seriam marcados por fragmentações, individualismo, alienação,
contradição, inovação e destruição criadora, entre outros fatores e processos.
Neste sentido, a modernização capitalista teria criado um novo
internacionalismo que envolveria as relações sociais num processo histórico-
geográfico em que o capital continuaria como dominador do espaço-tempo, ainda
que sob uma nova articulação.
No segundo aspeto, autores como Wallerstein (1974, 2004), Arrighi (1998) e
Theotônio dos Santos (2002, 2010, 2012) ao analisarem as transformações
capitalistas no final do século XX, evidenciam um movimento de produção e
reprodução do capital num sistema mundial de relações económicas, sociais,
políticas e culturais, porém extremamente hierarquizado, em que o Estado-nação,
ainda que importante, não é já a única unidade de análise, centrando esforços
na dinâmica contida no sistema-mundo como um todo. Esses autores acabam por
revisitar a teoria da dependência na sua característica marxista e evidenciam
as novas transformações, formas de organização e de reprodução do capital na
esfera mundial. A existência de países centrais, semiperiféricos e periféricos
articulam-se simultaneamente com uma economia hegemónica no sistema-mundo.
Boaventura Sousa Santos (2003, 2010), em consonância com as abordagens pós-
coloniais, salienta que as relações assimétricas entre o Norte e o Sul devem
ser compreendidas a partir de uma nova epistemologia. A análise contemplaria os
principais processos de estruturação, de prática social e dos conjuntos de
transformações a partir de quatro constelações de relações sociais, ou seja, de
espaço-tempo estruturais, a saber: espaço-tempo doméstico; espaço-tempo da
produção; espaço-tempo da cidadania e espaço-tempo mundial.
O fim da colonização na esfera política não significou o fim do colonialismo na
esfera social, seja permanecendo como mentalidade autoritária, ou mesmo de
reprodução económica desigual. A relação Norte-Sul expressaria simultaneamente
uma forma de dominação social, cultural e económica na esfera global,
reafirmando velhas desigualdades e gerando novas assimetrias.
Os dois aspetos expostos reforçam a ideia de que problematizar o
desenvolvimento e a dependência de um país ou uma região requer considerar a
lógica de produção e reprodução do capitalismo, em que as metamorfoses,
contradições e assimetrias são mantidas de forma desigual. Ou seja, ainda que
se considere a centralidade do político para se pensar a relação entre os
países, e que a dominação seria uma construção em que as elites políticas e
económicas nacionais e regionais pactuam com as elites externa, é preciso levar
em consideração a forma e o conteúdo (lógica) da reprodução do capital sob as
dinâmicas do sistema-mundo e/ou pós-colonial e a produção desigual e
hierarquizada geradas pelas mesmas.
Neste sentido, o pacto político entre elites (internas e externas) não seria
síntese de superação ou reposicionamento dos países no sistema capitalista, mas
sim reafirmação e reprodução desigual, fragmentada e hierarquizada das relações
económicas, mas também, sociais e culturais de um sistema de capital.
As controvérsias sobre a temática do desenvolvimento a partir do debate e
diálogo crítico com o proposto por Cardoso, por si só, representam a relevância
das análises geradas. Elas inserem-se neste texto muito mais como um apêndice
do que propriamente como argumentos, até porque não foram desenvolvidas com a
propriedade que deveriam ser tratas.
Por outro lado, servem para nos indicar que revisitar Cardoso a partir do tipo
de investigação que propomos merece desdobramentos que, quando articulados em
conjunto nos dão melhores condições para compreender as possibilidades e os
limites da interpretação contida na análise sociológica do autor.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Procurámos neste texto revisitar a obra do sociólogo Fernando Henrique
Cardoso, mais precisamente os aspetos relacionados com a análise e
interpretação sociológica sobre o desenvolvimento e a dependência.
Por meio da análise bibliográfica e de acervos documentais (Instituto Fernando
Henrique Cardoso) visámos analisar os fundamentos pelos quais Cardoso expõe
como condições do seu fazer sociológico sobre a interpretação do
desenvolvimento e a dependência no Brasil (e na América Latina).
Fica evidente que a trajetória, o local, enfim, as relações e pertença
institucional do autor são aspetos relevantes para as suas análises. Basta
ilustrarmos que o fazer sociologia como sinónimo e rigor de se produzir um
conhecimento científico, relativamente imune às ideologias, sem ser metafísico,
mas sem cair numa produção positivista, não era apenas um propósito de Cardoso,
mas sim, de toda a chamada escola de sociologia da USP, principalmente a partir
do grupo do sociólogo Florestan Fernandes.
Daí a importância de se construir e problematizar a abordagem histórico-
estrutural na perspetiva que Cardoso estabeleceu. Neste processo, dois
mecanismos são fundamentais, o primeiro é a incorporação da dialética marxista
como arcabouço teórico-metodológico, ainda que em complementariedade com outros
procedimentos metodológicos, sem cair no ecletismo, conforme fundamento do
autor. Cabe ressaltar que quando Cardoso foi ler O Capital no grupo de estudos
na USP, já era leitor e conhecedor dos principais teóricos e abordagens
sociológicas com influência no Brasil (e na América Latina) fora do campo
marxista, conforme exposto neste artigo.
Em segundo lugar, por estabelecer que a análise sociológica sobre a
problemática do desenvolvimento e da dependência centralmente estaria voltada
para a política, mesmo quando se tratava aparentemente de fenómenos económicos.
A dinâmica de classes no plano endógeno e exógeno, o tipo de relação concreta
em situação de dependência estabelecida neste processo, assim como elas
(relações de classes) vinculavam-se ao Estado e à forma de produção do
capitalismo fora dos países centrais (desenvolvidos) ganha força analítica e,
consequentemente, interpretação sociológica.
É possível ver uma estreita conexão entre o rigor de se produzir um
conhecimento sociológico a partir dos países em situação de dependência
(subdesenvolvidos ' periféricos) com uma análise propriamente dita em que as
situações concretas desses países ' centrados na política ' levou Cardoso a uma
dupla consequência; se diferenciou das diversas abordagens presentes entre os
anos de 1950 e 1970 (económicas, sociológicas, históricas ou da ciência
política), com isto afirmou-se como uma possibilidade de interpretação
sociológica (científica), por assim dizer, produzida a partir do nativo.
Em segundo lugar, ao trazer elementos novos para o debate, também trouxe as
controvérsias quanto ao alcance das suas análises, principalmente na sua
relação com as produções centradas no marxismo de forma mais ortodoxa. Isto
porque, as interpretações, explicações, compreensões, ou seja, as análises
produzidas se referiam a um país ou macro região (América Latina) requerente de
desenvolvimento económico e social, mas também de democracia, sem perder de
vista, que para muitos autores da época, este debate estaria contido na solução
socialista aos problemas da América Latina. Quanto a esta última questão,
parece-nos que Cardoso mais uma vez se apoia na construção de um conhecimento
científico e não ideológico, ou seja, as suas ações no campo da sociologia
seriam muito mais um tipo de ação racional por valor, do que por finalidade. O
socialismo não seria a finalidade das suas análises, ainda que não descartado
como possibilidade histórica de realização.
Por fim, repensar o desenvolvimento e a dependência a partir de novas
epistemologias e de novos constructos intelectuais, levando em consideração o
conjunto de transformações ocorridas nos últimos 40 anos é necessário, menos no
intuito de validar ou não a interpretação de Cardoso, mas sim de problematizar
e aprofundar a questão do desenvolvimento e da dependência como formas
históricas, económicas, políticas e territoriais de organização capitalista.