Circunstâncias globais e tendências recentes no espaço editorial do livro
universitário português
ARTIGO
Circunstâncias globais e tendências recentes no espaço editorial do livro
universitário português
Global circumstances and recent trends in the Portuguese university publishing
industry
LIVRO UNIVERSITÁRIO: OS DESAFIOS À CONSTRUÇÃO DO OBJETO
Neste artigo procurar-se-á dar conta de algumas dinâmicas atuais de mercado
editorial do livro universitário em Portugal.1 O primeiro desafio que resulta
deste esforço prende-se com a polissemia da própria matéria de que falamos
quando procuramos relacionar a edição de livros e o espaço académico,
nomeadamente o espaço universitário. Antes de mais, porque o estudo e análise
do universo editorial tende a ser assimilado, muitas vezes de modo automático,
à literatura (Medeiros, 2011), afastando o foco de domínios não literários,
como os que predominam no mundo editorial académico (excluindo, no plano
específico dos estudos literários, as edições críticas de obras de poesia ou
prosa). Por outro lado, e assumindo que apenas se está a tratar da articulação
que existe entre edição e universidade, o escopo do objeto e as possibilidades
de o conceber, observar e compreender multiplicam-se. Com efeito, refletir
sobre livros e universidades tomando a edição como eixo é olhar para uma
realidade plural e diversificada. Afinal, é possível falar-se de edição e
universidade, edição na universidade e edição da universidade.
Há uma longa tradição de atividade editorial clandestina ou tolerada no espaço
universitário como atividade tipográfica obedecendo a programas bem definidos e
com planos de publicação, e inclusive regimentos informais, normalmente de
caráter contestatário e oposicionista. Por exemplo, a impressão panfletária de
folhetos, jornais e brochuras no quadro da atividade dos estudantes é
reconhecida como um dos projetos mais persistentes e característicos da
universidade em contextos não democráticos (Cardina, 2008; Maués, 2012, 2013).
Falar de edição em universidades pode ser também falar da edição de periódicos
patrocinados por uma universidade ou faculdade, dentro ou fora do quadro da
chancela de editoras universitárias.
Admita-se agora uma perspetiva mais delimitada e dirigida especificamente à
edição de livros a partir de uma matriz institucional, isto é, de uma entidade
de vocação editorial que publique livros em contexto universitário. Retire-se
logo da equação toda a editora privada que se dedica à edição de coleções de
âmbito explicitamente universitário; coleções frequentemente tituladas com
designações com referência direta ao sub-setor em pauta, como Biblioteca
Universitária, Biblioteca de Textos Universitários, Universidade Moderna
ou Universitária.2 Dirija-se antes a atenção para editoras com laços formais
às universidades. Pode-se estar a referir a uma editora privada sedeada ou não
na universidade pública e que, por acordo ou contrato, publica livros e
periódicos dessa universidade, surgindo mesmo na capa o emblema da
universidade. Isto não quer dizer necessariamente coedição, pois a universidade
pode encomendar à própria editora privada um conjunto de livros. Em Portugal,
casos como o das Edições Colibri não são muitos, mas existem. Esta editora
privada, com mais de 20 anos de história, tem a sua sede formal na Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa e a sua livraria na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, produzindo essencialmente
títulos para uso no ensino superior. Totalmente inserida no espaço editorial e
físico da universidade, grande parte da sua estratégia passa por acordos de
edição de trabalhos de professores e investigadores de uma determinada
instituição de ensino superior, caso, por exemplo, da coleção Caminhos do
Conhecimento, aparecendo até recentemente a editora como verdadeira chancela
do Instituto Politécnico de Lisboa.
A análise do tema é, pois, mais rugosa e complexa do que poderia parecer à
primeira vista, a começar pela própria delimitação de conceitos e campos sobre
os quais essa análise incide. Este exercício não procura complicar o
desenvolvimento deste artigo, mas cumpre o objetivo de enfatizar a necessidade
de se interrogar o objeto, não o tomando como dado natural e imediatamente
apreensível. Abordar-se-á aqui, então, a edição de livros nas universidades
feita pelas editoras das universidades, tenham essas editoras chancela dessas
universidades ou de faculdades ou institutos dentro das universidades (ou
institutos politécnicos). Tratar-se-á do caso português, procurando
sistematizar alguns traços que se afiguram como caracterizadores da realidade
atual do mercado do livro para o ensino superior.
Acabada de declarar esta intenção e logo a análise é confrontada com novo
desafio, este de natureza mais terminológica, com eventuais efeitos na
elaboração de tipologias. Neste caso, a questão que se coloca prende-se com a
dificuldade taxonómica na definição das categorias do livro e da edição que
presidem ao esforço analítico. Como considerar o tipo de livro e de edição para
estabelecer um cenário interpretativo da atual situação portuguesa? O que é o
livro para o ensino superior? Engloba as categorias de divulgação, de estudo,
monografia, ensaio, manual? Todas em simultâneo ou só algumas? E o que é a
edição para o ensino superior? Académica, científica, de ciências sociais,
universitária? É tudo isto ou só algumas destas categorias? Uma editora
universitária que possua uma coleção de literatura passível de apelar ao
consumo e fruição de um público mais alargado e sem qualquer relação com
intuitos de estudo e pesquisa, está a editar na universidade, mas não
forçosamente para a universidade ' isto, se assumirmos apenas a componente
científica como atributo principal deste sub-setor da edição. A análise da
edição de caráter científico é feita, por vezes, a partir da associação
automática e pouco problematizadora da categoria científico às ciências
naturais (Lewenstein, 2009). O próprio mercado é difícil de caracterizar em
virtude da grande diversificação dos compradores e das suas motivações (Minon,
1998; Dionísio etal., 2012).
José Castilho Marques Neto e Flávia Rosa (2010), por exemplo, sistematizam três
tipos de editoras em atuação no campo da edição académica e científica,
estabelecendo uma tipologia com forte vinculação à realidade brasileira dos
últimos anos. Estes dois autores falam de editoras universitárias strictu
sensu, ou clássicas, de editoras universitárias com vocação regional e de
editoras de livros universitários. Só as últimas teriam inclinação marcadamente
comercial, o que não quer dizer que os dois primeiros tipos de editora não
possam orientar a sua produção para o mercado. Nenhum destes três tipos de
editora escapa, porém, à tensão entre comércio e cultura, ambivalência
persistentemente sentida no mundo da edição (Medeiros, 2009a e 2009b), e ainda
mais neste sub-setor editorial específico. Mesmo as editoras universitárias de
iniciativa estatal carecem do recurso a estratégias que não só as viabilizem
economicamente, mas também as legitimem culturalmente, conferindo-lhes
reconhecimento simbólico vital para a durabilidade do próprio empreendimento.
Já Rémy Rieffel, autor que analisa a edição em ciências sociais e humanas em
França na segunda metade do século XX, propõe uma distinção entre edição de
tipo universitário, estritamente especializada e inscrevendo-se num mercado
muito estreito, e edição generalista', de tipo grande público, visando um
mercado mais amplo (Rieffel, 1998, pp. 89-90). Na ótica de Rieffel, a edição
de tipo universitário resulta normalmente de estruturas editoriais pequenas ou
médias e de departamentos especializados no interior de editoras maiores. Este
tipo de edição interfere de modo direto no debate de ideias pela qualidade e
temas científicos das obras publicadas. A edição de tipo grande público, de
dominância não universitária, destina-se essencialmente a um público cultivado,
não necessariamente académico, apostando simultaneamente na qualidade
científica do que é publicado, na notoriedade do autor e na associação de um
tema ou título à esperança de vendas significativas. Um e outro tipo de edição
científica possuem formas distintas de inscrição no mercado, correspondendo
igualmente a modos de prescrição editorial diferentes, dando origem a uma
espécie de mercado a duas velocidades, ideia avançada por Dominique Desjeux,
Isabelle Orhant e Sophie Taponier (1991). Rieffel (1998) não deixa de recordar,
porém, que a realidade é complexa e que estas duas fórmulas editoriais podem
ser permeáveis entre si.
Um outro autor, Marc Minon (1998), alerta para os riscos de marginalização
progressiva das obras especializadas e de tipo monográfico que uma edição de
ciências sociais e humanas a duas velocidades pode produzir (o autor afirma que
esta dualidade não é nova neste domínio particular do mercado editorial).
Também Minon nos fala das dificuldades de construção de um sistema de
classificação e nomenclatura que possibilite um sistema de conhecimento mais
detalhado, delimitado e comparativo deste sub-setor da edição. Este sub-setor
justapõe géneros que habitam o interior mas também o exterior dos usos e
necessidades universitárias e académicas, envolvendo legitimidades e modos de
produção, distribuição e visibilidade comercial e social bem diversos como são
as obras de divulgação, os manuais no seu sentido mais estrito, os ensaios, os
livros especializados, os livros monográficos ou as obras de referência. Para
lá das áreas científicas na sua pluralidade e das suas fronteiras, mais ou
menos fáceis de determinar, o que se verifica é que a edição académica e
científica tende a organizar-se em torno de segmentos demarcados segundo os
géneros (manual obrigatório, estudo monográfico original, obra de divulgação,
livro de referência e consulta, entre outros), realidade que fomenta a formação
de circuitos e sistemas editoriais e comerciais diferentes e autónomos entre
si.
Perante um cenário feito de riqueza e complexidade, o risco maior, sobretudo
para um artigo com os limites que lhe são inerentes, é o de se aprofundar de
tal modo as possibilidades hermenêuticas que a análise se perderia do próprio
campo que se busca perspetivar. Assim, a aproximação que se tentará fazer
partirá de um enfoque no mercado atual da edição universitária em Portugal,
considerada como a atividade editorial de editoras com chancela de instituições
do ensino superior, sejam elas universidades, institutos politécnicos,
faculdades ou centros de investigação ligados a essas instituições, de
iniciativa pública ou privada. A análise empreendida é amplamente informada
pela conceção defendida por Plínio Martins Filho e Marcello Rollemberg, para
quem a atividade editorial universitária desenvolve-se no contexto dos
propósitos universitários e das funções que historicamente lhe são conferidas
pela sociedade à qual serve, mesmo que, em princípio, esses propósitos sejam
profundamente diferentes daqueles que animam a indústria editorial comum
(Martins Filho e Rollemberg, 2001, pp. 47-48). Esta conceção está também
presente na análise das university presses norte-americanas feita por Joseph
Meisel (2010).
A EDIÇÃO UNIVERSITÁRIA EM PORTUGAL NA ATUALIDADE
A edição universitária é um objeto de estudo muito interessante e bastante
particular em Portugal, pois a atividade editorial das universidades existe e
em alguns casos é bastante antiga, tendo conhecido na última década, década e
meia, um processo de renovação e de atualização dos seus moldes de
funcionamento. Este processo não foi exuberante, tendo decorrido de forma não
homogénea. Com efeito, as editoras universitárias portuguesas, à semelhança do
que sucedeu com outras realidades nacionais do livro, como a brasileira,
conheceram uma panóplia de origens e trajetos (Bufrem, 2001). Estes percursos
foram frequentemente marcados por um início pouco ou nada pautado por uma
matriz editorial, isto é, por preocupações assentes essencialmente em quatro
dimensões.3 Em primeiro lugar, uma política editorial capaz de gerar um
programa definido e planeado, a partir do qual se construísse pelo departamento
editorial um catálogo que conferisse identidade à própria editora. Em segundo
lugar, a existência de conselhos ou comissões editoriais capazes de legitimar e
credibilizar as publicações produzidas; portanto, capazes de uma verdadeira
ação mediadora e prescritiva no universo das ideias e dos conhecimentos. Em
terceiro lugar, a profissionalização da força de trabalho e a formalização de
procedimentos e das relações entre os autores e a instituição. E por fim, em
quarto lugar, a manifestação efetiva de uma vocação de distribuição e
comercialização dessa produção, logo da sua circulação e da disseminação dos
conteúdos publicados. A atividade de publicação que não decorresse de um
conjunto razoável destas quatro dimensões, nem obedecesse a um programa com
linhas orientadoras, seria mais uma atividade de impressão do que de edição.
A edição universitária em Portugal nos dias que correm caracteriza-se, então,
por alguma dispersão que um muito recente movimento associativo pretende
mitigar. A constituição formal da Associação Portuguesa de Editoras do Ensino
Superior (APEES) ocorre em 13 de novembro de 2007, concretizando uma ideia que
foi aventada pela primeira vez em 2001, na sequência de um Encontro de
Imprensas Universitárias Europeias e de Língua Portuguesa, realizado em
Coimbra. O passo decisivo é dado numa reunião de editoras universitárias que
teve lugar em 11 de outubro de 2006, durante o Primeiro Encontro do Livro
Universitário de Coimbra.4 Os estatutos da associação demonstram a intenção de
dotar o movimento editorial universitário português de um enquadramento
associativo que promova o desenvolvimento e a modernização da atividade num
contexto de transformação vivido pelo setor. São definidos estatutariamente os
seguintes objetivos: contribuir para o melhoramento dos processos de produção,
comercialização e divulgação das editoras associadas; realizar atividades de
aperfeiçoamento dos recursos humanos do setor; fomentar o intercâmbio entre os
associados e entre estes e entidades externas; favorecer a participação das
editoras associadas em feiras e eventos do livro em Portugal e no exterior;
manter serviços de informação jurídica, bibliográfica e comercial para as
editoras associadas.5
Do objetivo de lograr no período de 2012-2014 a entrada em vigor da loja
virtual comum6 parece ter resultado mais recentemente o catálogo conjunto de
todas as editoras associadas na loja electrónica da Wook ' Livro
Universitário,7 fruto justamente de uma parceria da APEES com a Wook, sítio de
comércio electrónico da Porto Editora. Este catálogo constituirá eventualmente
uma aproximação ao catálogo unificado da Associação Brasileira das Editoras
Universitárias (ABEU), mais antigo e consolidado. Mas a associação portuguesa
não oferece ainda um sistema assemelhado ao Programa Interuniversitário para
Distribuição do Livro, patente igualmente na realidade brasileira do livro
universitário. E esta lacuna é tanto mais relevante quanto se sabe que os
circuitos de difusão e de transporte de livros ' concebidos crescentemente para
obras de tiragem maior e de rotação rápida ' não estão adaptados a uma
distribuição conveniente de títulos maioritariamente de venda lenta, muitas
vezes à unidade, e que carecem de espaços de venda com alguma vocação e
preparação para a edição universitária (Minon, 1998).
Convém não esquecer que esta polimórfica reconfiguração do sub-setor da edição
universitária tem lugar num panorama de alterações profundas no universo do
ensino superior em Portugal, plano em que se inscreve a atividade e a pertença
institucional das editoras universitárias e a cuja população se destina
prioritariamente a sua produção. Em 2011 estavam matriculados no ensino
superior em Portugal 396 268 alunos. A meio da década de 1960 o número de
alunos inscritos era de apenas 25 000 e em finais dos anos 1970 rondava os 80
000. Em 45 anos a população universitária cresceu quase 16 vezes, um
crescimento impressionante e a um ritmo igualmente impressionante.8 Estes
alunos inserem-se num sistema de ensino superior constituído por universidades
e institutos politécnicos, num universo em que se movimentam por 296
estabelecimentos públicos e privados cerca de 38 000 docentes (dados de 2010).9
Se tomarmos apenas as instituições de ensino superior do setor público,
verificamos que o sistema universitário atual é composto por 15 universidades
públicas (eram quatro no início dos anos 1970),10 e que o sistema politécnico
engloba hoje 15 institutos politécnicos públicos e cinco escolas de ensino
politécnico público não integradas (surgidos essencialmente a partir da segunda
metade dos anos 1970) (Peixoto, 1989; Caraça, Conceição e Heitor, 1996).
Também o sistema de apoio à investigação científica conheceu um surto de
crescimento e complexificação, agregando hoje um largo conjunto de instituições
(entre centros de investigação e instituições públicas e privadas de
investigação e financiamento), algumas das quais com reconhecimento
internacional e albergando a tempo inteiro profissionais altamente
qualificados.
O quadro atual é, por isso, de forte ampliação de população potencialmente
autora e leitora de livros de timbre universitário. Este contexto de amplo e
rápido crescimento do público potencial das obras universitárias, contudo, não
se traduz de forma automática e inevitável num aumento de vendas, tiragens e
títulos de livros universitários. O campo editorial aparece como
particularmente sensível a alterações nos padrões de consumo e acesso ao
impresso, refletindo refluxos e progressos na produção, declínios e avanços nos
números de compra de livros e transformações nos hábitos de leitura (Rieffel,
1998). Um atributo evidente deste sub-setor da edição prende-se com a
estreiteza do mercado que abarca, constituído por um público minoritário
(Minon, 1998). E esta faixa estreita de consumidores pode significar uma
volatilidade muito própria de um tipo de edição pouquíssimo propenso ao best-
seller, caracterizada normalmente por obras de escoamento lento ou muito
dirigido, se se excluírem os manuais.
Veja-se o que dizem os dados. O mercado de livros do ensino superior em
Portugal representou em 2011 um volume de vendas na ordem dos 19,3 milhões de
euros, manifestando uma queda de 5,5% em relação a 2010. Desde 2008, ano em que
se verificou um crescimento acentuado da cifra de vendas, que se assiste a uma
diminuição continuada no montante total de vendas neste domínio editorial
específico.11 Esta tendência não é exclusiva deste segmento da edição. O setor
editorial português em termos globais tem vindo a conhecer em anos mais
recentes alguma estagnação ou mesmo declínio nos resultados globais de vendas,
embora não tão acentuado (Dionísio etal., 2012; Neves et al., 2012; Neves,
Santos e Vaz, 2012).
Isto quer dizer que a viragem que um conjunto de editoras universitárias
começou a fazer no sentido da sua transformação em verdadeiras chancelas de
edição, com enquadramento programático e procedimentos que as distanciassem de
um perfil e de uma ação essencialmente tipográfica, toma forma no decurso de
crescimento editorial e de surto académico da última década e meia,
encontrando-se neste momento numa encruzilhada e confrontando-se com um quadro
recessivo cujos efeitos ainda se estão a desenhar. É possível que o contexto
atual de uma realidade como a portuguesa, de crescentes dificuldades
económicas, venha a produzir efeitos regressivos na evolução que se tem vindo a
verificar no seio da edição universitária. Eis uma primeira tensão percetível
no panorama português atual da edição universitária: o movimento de mudança
modernizadora e desenvolvimentista encontra no seu caminho um ambiente
editorial geral de estagnação, senão de retrocesso.
Esses eventuais efeitos regressivos podem ser observáveis numa expectável
redução para o futuro próximo do número de títulos publicados e, portanto, num
encolhimento do catálogo de novidades e da própria atividade das editoras,
sendo este um cenário bastante provável. A retração, todavia, poderá não passar
necessariamente por uma diminuição da quantidade de títulos, e sim pela
alteração da qualidade e características do seu conteúdo e do processo que
conduziu à decisão de os publicar. A diminuição de tiragens e a opção pela
publicação de trabalhos cujos autores garantam parte ou a totalidade do
financiamento dos custos de produção é já uma realidade para editoras
importantes e prestigiadas, como a Imprensa de Ciências Sociais, editora do
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, que chegou ao fim de
2012 com um número de títulos mais de três vezes superior ao total de títulos
publicado no ano anterior. Esta editora publicou vinte e sete títulos em 2009,
vinte e quatro em 2010 e apenas sete em 2011. Em 2012 chegou aos vinte e três
títulos, alguns em reedição, recuperando para níveis muito próximos de 2009 e
2010.12 O número de títulos terá, então, subido numa proporção não pequena,
sobrevivendo à forte quebra de 2011. A questão que se levanta é que o processo
de escolha e produção sofre alterações evidentes. É, pois, a própria autonomia
científica de seleção dos livros a publicar, bem como a sua adequação a linhas
programáticas definidas e ligadas à própria identidade da editora
universitária, que podem estar em causa.
A questão da autonomia e das fontes financeiras da edição universitária remete
para uma necessidade de retornar à discussão tipológica. As editoras
universitárias são aqui consideradas como aquelas que possuem vinculação formal
a instituições de ensino superior, sejam elas universidades ou institutos
politécnicos, sejam elas públicas ou privadas. Considera-se aqui, então, que a
edição universitária não opõe necessariamente entidades públicas e privadas. As
editoras universitárias podem ser obviamente privadas, desde logo se as
instituições de ensino que as enquadrem forem entidades particulares. É verdade
que as editoras universitárias privadas se encontram perante desafios e tensões
diferentes das enfrentadas pelas editoras universitárias públicas, mas não
completamente diferentes, como é o caso da dependência dos proventos inerentes
à atividade tanto da editora quanto da instituição a que pertence, e aos lucros
que possam ser canalizados para a componente editorial. Mas isso não significa
que a edição universitária privada deixe de obedecer à mesma lógica de
profissionalização e credibilidade científica e programática demonstrada pela
edição universitária pública. Assim, há vários casos de chancelas
universitárias privadas portuguesas que apresentam regimento, conselho
editorial, enfoque na distribuição, entre outras características que reforçam a
sua matriz editorial em detrimento de uma mera atuação gráfica e de impressão.
Tal como existem chancelas universitárias públicas em que estas mesmas
características não estão presentes ou existem de forma muito ténue.
Observando o mercado do livro científico e académico (duas categorias não
inteiramente sobreponíveis), percebe-se que ele se divide em termos gerais
entre editoras não universitárias e editoras universitárias, tal como mostra o
quadro_1. As editoras não universitárias podem ser genericamente definidas como
aquelas que não estão associadas formalmente a instituições de ensino superior
nem derivam da sua iniciativa para existirem. São predominantemente privadas e
com vocação comercial, apesar de haver exceções, como a Fundação Calouste
Gulbenkian, instituição privada que edita livros científicos sem o pressuposto
do ganho comercial (o que, aliás, tem afetado nos últimos anos a sua política
de distribuição, claramente descurada em função de outras prioridades). Da
recolha efetuada resultam 28 editoras não universitárias com atividade
editorial em Portugal nos domínios científico e académico, muito heterogéneas
quanto ao tipo de publicações e aos públicos a que se destinam.
Quanto às editoras universitárias, a pesquisa efetuada permitiu identificar 23,
das quais 17 são públicas ou de capitais públicos, o que equivale a cerca de
74% do total. Neste universo, a distribuição é menos desequilibrada no atinente
ao tipo de propriedade ou de inserção institucional, apesar de pender muito
claramente para as editoras de natureza e propriedade essencialmente públicas.
Das 23 editoras universitárias em questão, 13 são associadas da APEES,
representando 56,5% do total.13
Esta visão de sobrevoo oculta uma realidade, como se disse, diversificada.
Vejam-se, de forma não exaustiva, alguns casos que ilustram esta mesma
diversidade. A Imprensa da Universidade de Coimbra, por exemplo, tem
antecedentes que remontam ao século XVI, embora tenha sido a reforma pombalina,
ocorrida nos anos 70 do século XVIII, que permitiu à Imprensa da Universidade
assumir-se como a génese da ligação da Universidade de Coimbra com a atividade
impressora (Fonseca etal., 2001; Patrícioet al., 2001). Foi extinta em 1934,
pelo Decreto-Lei de 20 de junho, muito pouco tempo depois da
institucionalização do regime ditatorial do Estado Novo em Portugal. Foi
reativada em finais de 1998, embora a Universidade de Coimbra não tenha cessado
a atividade de impressão durante os 64 anos em que a Imprensa da Universidade
de Coimbra esteve encerrada. É um exemplo acabado de refundação, pela qual se
edifica uma nova estrutura editorial, a funcionar segundo orientações e lógicas
inteiramente novas. Tem regulamento e conselho editorial, sendo que os autores
serão preferencialmente docentes ou investigadores da Universidade de
Coimbra.14 É um dos membros fundadores da APEES e um dos seus maiores
dinamizadores. A distribuição não chega facilmente a todo o tipo de canais de
escoamento livreiro, nomeadamente às livrarias independentes, isto é, aquelas
que não fazem parte de uma rede. Apesar disso, a Imprensa da Universidade de
Coimbra não dispensa a utilização frequente de notas de imprensa para anunciar
e divulgar o que publica, disponibilizando ainda parcialmente (até 30%) todas
as novas obras e muitas das antigas no Google Books. Esta editora está presente
nas redes sociais virtuais, como o facebook ou o twitter, possuindo ainda uma
loja virtual própria (Cardoso, 2009; Pereira, 2010; Almeida, 2011; Silva,
2011).
Processo paralelo foi vivido pela Imprensa de Ciências Sociais, que se afirmou
na década passada como uma das mais importantes e prestigiadas editoras no
domínio das ciências sociais. Contrariamente à Imprensa da Universidade de
Coimbra, a Imprensa de Ciências Sociais tem formação recente, tendo o primeiro
livro desta chancela saído em 1998. Possui conselho editorial e é das poucas
editoras que se constituiu com a missão de publicar trabalhos de pesquisa e
outros ensaios em ciências sociais15 de um modo aberto ao exterior, sem os
circunscrever à produção científica e intelectual dos investigadores do
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no seio do qual a
editora foi criada. Possui loja virtual e até há bem pouco tempo tinha
distribuição de irradiação nacional. Desde há quase dois anos, encontrar livros
desta editora nas estantes e montras das chamadas livrarias independentes é bem
mais difícil. É importante salientar o facto de que não possui regimento ou
qualquer forma de regulamento autónomo, o que dá origem a uma prática de
organização editorial de certa maneira híbrida: estruturada e até
profissionalizada, mas ao mesmo tempo não formalizada em documento próprio.
A Universidade do Porto conta com várias editoras. A U. Porto Editorial, uma
das editoras do núcleo fundador da APEES, procura afirmar-se como editora da
universidade, embora tenha que dividir algum espaço com a FEUP Edições,16 a
editora da Faculdade de Engenharia desta universidade, e com a FAUP
Publicações, um serviço editorial da Faculdade de Arquitetura da Universidade
do Porto. Importa sublinhar que a FEUP Edições apresenta um conselho editorial
e funciona com condições de promoção e distribuição comercial explicitamente
formuladas, contando ainda com loja virtual. A U. Porto Editorial possui um
regulamento, com objetivos bem definidos, um conselho coordenador de edições e
um conselho editorial, já que [t]odas as obras a publicar serão objecto de
avaliação dos seus méritos, por entidades externas ou internas à U. Porto.17 A
loja virtual é a da própria Universidade do Porto. Possui distribuição nacional
com razoável cobertura, embora ausente da maior parte das livrarias
independentes e de algumas cadeias livreiras.
As edições UFP tiveram o seu primeiro título publicado em 1996, tendo a editora
como principal objetivo ser autosuficiente na realização de trabalhos gráficos
de qualidade e na execução duma política editorial, cujo primeiro escopo é
tornar visível o trabalho pedagógico e científico da nossa comunidade
universitária.18 Surge como um braço editorial da Universidade Fernando
Pessoa, uma universidade privada, existindo essencialmente para promover a
produção intelectual e patrimonial da instituição e dos seus membros
(Castelhano, 2011). Tem regulamento, mas não possui conselho editorial. É uma
das quatro editoras que inauguraram a APEES. Tem loja virtual e distribuição
próprias, mas só com muita dificuldade é possível encontrar publicações suas na
maior parte do sistema livreiro, sejam livrarias independentes ou cadeias
livreiras.
A Universidade Lusíada Editora, o outro membro do quarteto inicial de
promotores da APEES, sofreu em 2003 um processo profundo de reorganização
editorial no sentido de a dotar de estruturas editoriais modernas, com o
objectivo de apoiar a publicação de trabalhos originais, científicos e
académicos e de os divulgar de forma mais rápida e eficaz.19 É, portanto,
uma das editoras refundadas. Possui política regimental e um conselho
editorial, sendo das que mais aposta na edição eletrónica nos seus vários
formatos. Talvez por isso descure uma loja virtual e não tenha qualquer
distribuição para as livrarias.
A IST Press é a editora do Instituto Superior Técnico da Universidade de
Lisboa, designando-se como editora universitária, e possui conselho editorial e
um programa de edição bem definido, patente nas coleções editadas. As Edições
ISCSP são, tal como a IST Press e a Imprensa de Ciências Sociais, outra editora
ligada à Universidade de Lisboa, que pertence ao Instituto Superior de Ciências
Sociais e Políticas. Esta editora apresenta uma loja virtual. A Universidade de
Lisboa, apesar de não possuir editora própria, conta ainda com outra editora,
as Edições FMH, chancela da Faculdade de Motricidade Humana, que tem loja
virtual e alguma estrutura interna (Faria, 2009), embora possua um catálogo
pouco extenso. Praticamente nenhuma destas editoras tem um sistema permanente e
sustentado de distribuição, embora a IST Press afirme possuir uma rede de
distribuição própria que abrange as principais cidades nacionais e que se
estende igualmente a diversos países estrangeiros.20 Nenhuma destas editoras é
sócia da APEES.
Apesar de ser mencionada pela APEES como membro, a Universidade do Minho não
parece possuir uma editora própria que agregue a atividade de publicação da
instituição (o mesmo parece ocorrer com a Universidade Nova de Lisboa, sem
atividade editorial agregadora com a chancela da universidade, mas igualmente
indicada como associada da APEES). No interior da Universidade do Minho há
unidades orgânicas que apresentam a sua própria formulação editorial, como a
CIEd Edições, designação da ação editorial do Centro de Investigação em
Educação da Universidade do Minho. A EDIUAL ' Universidade Autónoma Editora,
outra editora associada da APEES, não tem página virtual própria nem parece
representar para a Universidade Autónoma de Lisboa, uma instituição privada,
uma preocupação estratégica.
A Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro não tem uma editora que funcione
autonomamente, possuindo antes um setor editorial que publica várias séries.
Trata-se de uma unidade integrada nos Serviços de Documentação e Bibliotecas e
que tem por missão editar/publicar.21 Possui um regulamento de publicações,
apesar de não constar desse regulamento a referência a qualquer conselho ou
comissão editorial. A reduzida atividade editorial está voltada para o interior
da comunidade académica da universidade. Não tem distribuição organizada. É
também sócia da APEES.
Como último exemplo, refira-se a divisão editorial do Instituto Piaget, que
iniciou atividade em 1988, ostentando mais de 1500 títulos publicados,
divididos por 24 coleções.22 O catálogo, bastante extenso, é essencialmente
feito de traduções, no que é um caso único no panorama português da edição
universitária. Esta editora, que não é um membro da APEES, tem sido porventura
a que mais tem penetrado no tecido livreiro, graças a uma política de
distribuição verdadeiramente nacional. Além disso, dispõe de uma rede de oito
livrarias próprias, situadas nos campi universitários que possui em Portugal (a
que se acrescenta outro campus em Cabo Verde). Apresenta ainda uma loja
virtual.
APORIAS E POSSIBILIDADES DO LIVRO UNIVERSITÁRIO PORTUGUÊS
Olhando para o cenário atual, é, portanto, possível afirmar que, de modos
variados e com intensidade distinta, algumas editoras universitárias
portuguesas parecem começar a desenhar e a definir um espaço de produção
cultural autónomo, mesmo que ainda bastante distante de realidades como a
brasileira e a norte-americana,23 que atuam, aliás, em mercados de dimensão não
comparável ao português em termos internos. Como avisadamente declara Paulo
Franchetti: Creio que em Portugal não há nada que se compare à edição
universitária brasileira. Não só pela quantidade de editoras, mas também pelo
papel central que as editoras universitárias representam na vida intelectual do
país (Tantas Páginas, 2012). Em vários casos, porém, já se vislumbra na
realidade editorial universitária portuguesa uma rutura com fórmulas de
programação avulsa e de execução precária e excluída do aval científico,
contribuindo para a renovação das ideias e para o lançamento de novos autores.
Nestes casos, e seguindo a proposição de Geraldo Jesuíno da Costa, as editoras
universitárias demonstram vontade de se estabelecerem ou refundarem com base
numa ligação efetiva ' e não apenas enunciada ' aos canais geradores de
conhecimento dentro e fora da instituição em que se enquadram, incentivando,
recolhendo, organizando e dirigindo o produto do intelecto humano a toda a
sociedade (Costa, 1986, p. 91).
Com um atraso de 10 a 15 anos em relação ao movimento que varreu a edição
universitária num país como o Brasil durante os anos 1980, especialmente na
segunda metade, época em que grande parte das editoras universitárias
brasileiras foram criadas ou refundadas (Bufrem, 2001; Marques Neto e Rosa,
2010),24 a edição universitária portuguesa vai timidamente ganhando foros de
maioridade, desempenhando papéis cada vez mais longínquos da condição
institucional de braço gráfico de impressão de textos universitários. A edição
universitária em Portugal não está, então, estagnada, apresentando pelo menos
um conjunto representativo das editoras um dinamismo e uma renovação de
procedimentos e tecnologia assinaláveis. É possível perceber esta atenção à
atualidade e à diversificação de meios nas estruturas organizativas das
editoriais, nos modos de produção e nas opções de distribuição e divulgação
dessa produção.
O estilo e as estratégias, ou a sua ausência, demonstradas pelas várias
editoras universitárias são governados, nas palavras de Leilah Bufrem, por uma
estrutura de relações em que se destacam instituições, obras e um conjunto de
agentes intelectuais sinalizadores da dinâmica intelectual da qual participam
(Bufrem, 2001, p. 16). Para que possa existir um percurso de consolidação e
identidade de atuação verdadeiramente editorial, esta estrutura de relações
pressupõe, no entender da autora, um contexto favorável no qual a estabilidade
financeira e normativa e a constância de procedimentos e programa não são peças
menores. Este será o cenário ideal para que uma determinada editora
universitária consiga concretizar e sedimentar uma autonomia de atuação
reconhecida e identificável, bem como cumprir o seu papel de legitimação
cultural. Parece ser este o caminho que está a ser percorrido por um conjunto
de editoras universitárias portuguesas. Pelo menos até agora.
Mas esta onda modernizadora não resolveu alguns dos problemas que a edição
universitária portuguesa tem de enfrentar. Uma das características que se
verificou, por exemplo, no Brasil, e que em Portugal ainda está por demonstrar,
é o contributo do elemento associativo e de colaboração interinstitucional do
próprio campo na mudança de paradigma. A APEES tem logrado pouca visibilidade
até agora, parecendo uma associação mais discreta e, pelo menos por enquanto,
menos atuante e interventiva perante outros atores, como os poderes públicos,
quando comparada com associações congéneres, como a ABEU. Tem ainda revelado
uma capacidade mais lenta de recrutar novos membros do que se poderia prever. É
essencial, todavia, não esquecer que a APEES é de formação recente,
encontrando-se em campo num contexto como o presente, que torna particularmente
difícil a condução de projetos coletivos no sentido da expansão da atividade e
da definição e operacionalização de objetivos e perfis estratégicos.
Deteta-se a ausência de passos significativos em certas áreas ligadas às
estratégias editoriais, decorram elas da responsabilidade de cada editora
tomada individualmente ou da APEES como agente coletivo. Um dos exemplos do
caminho que falta trilhar em termos estratégicos é a ausência em Portugal de
prémios científicos promovidos especificamente por editoras universitárias e
inseridos em estratégias de consagração autoral e sedimentação simbólica e
institucional. Uma das tensões que se verificam na atual edição universitária é
a que tende a opor a tendência de modernização às permanências históricas, mais
ligadas a uma atividade impressora pautada pela atuação avulsa.
Por outro lado, apesar dos progressos, um dos traços que se tem mantido na
atividade editorial das universidades e institutos politécnicos portugueses
consiste no facto de que os livros editados tendem a não estar agregados a uma
chancela forte e facilmente reconhecível. Se é certo que existem algumas
exceções a este quadro, como a Imprensa de Ciências Sociais, a tendência clara
é a de a atividade editorial no sub-setor académico e científico vista como
mais consolidada e representativa continuar a ser atribuída a editoras não
universitárias, sobretudo no domínio das ciências sociais e humanas. É
justamente neste domínio, o das ciências sociais e humanas, que se concentra o
maior número de editoras, tanto universitárias25 quanto não universitárias. A
edição de livros e manuais ligados à engenharia, à medicina e às ciências
naturais parece ser um pouco distinta, pois os circuitos de distribuição são
mais restritos e o reconhecimento de chancela pela comunidade leitora também se
produz de modo menos generalizado.
Um dos problemas que se colocam à edição universitária em Portugal é, portanto,
o da significativa ausência da grande circulação das edições de livros
publicados por universidades portuguesas, arredadas normalmente da distribuição
nacional de caráter comercial e frequentemente encerradas em redes de difusão
do livro bastante reduzidas. Isto também se pode dever à característica que
impera na maior parte das editoras observadas, que é a da construção de
catálogo com base predominante, quando não exclusiva, na produção de
conhecimento do conjunto de docentes, investigadores e colaboradores da
universidade de que fazem parte. Tendencialmente viradas para a edição de obras
de e para a sua população docente e discente, a atividade editorial com origem
e marca das universidades portuguesas ' que é cada vez maior e em muitos casos,
mais profissional e modernizada ' acaba por entregar o mercado mais alargado de
livros académicos e científicos às editoras não universitárias, com uma
tradição de inserção no mercado incomparavelmente maior.
E, finalmente, não se podem extrair da equação dois aspetos fundamentais, que
aqui não foram abordados, e que colocam desafios cada vez maiores aos moldes
tradicionais como a edição universitária se liga à produção de livros e ao
próprio processo comunicativo como processo essencial da ciência (Garvey,
1979). Um dos aspetos é a via de publicação que se tem privilegiado na produção
científica e académica nas últimas décadas, com especial intensidade nas
ciências naturais: a da literatura em periódicos, crescentemente suportados em
mecanismos de seleção com base num sistema de arbitragem científica (peer
review e doubleblind review).26 E o outro concerne à natureza desmaterializada
do livro que o surto da produção digital e do meio de difusão eletrónica
apresentam como opções para o presente e o futuro da circulação publicada do
conhecimento no meio universitário (Thompson, 2005 e 2009), podendo retirar
protagonismo ao livro impresso e aos modos como o seu fabrico, seleção e
distribuição têm construído o plano simbólico e de legitimidade cultural da
edição na e para a universidade. São provavelmente estes os desafios maiores
com que este sub-setor se defronta, em conjunto evidentemente com o tipo de
interferência na evolução da edição universitária que o contexto político e
económico pode ter, dimensão premente no panorama português atual do ensino
superior, suscitando interrogações e inquietações várias (Curto, 2014). Impõe-
se a pergunta, que extravasa a realidade portuguesa nas suas particularidades:
que espaço no futuro ocupará o livro universitário como elemento referenciador
para múltiplas comunidades e como lugar de memória social capaz de conferir a
essas mesmas comunidades formas mais ou menos comuns de conhecimento e
reconhecimento?