José Mariano Gago, estudante e dirigente associativo
ENTREVISTA
José Mariano Gago, estudante e dirigente associativo
Entrevista com José Mariano Gago por Luísa Tiago de Oliveira*1
*ISCTE-IUL, CIES, Av. das Forças Armadas, s/n 1649-026 Lisboa, Portugal. E-
mail: Oliveiraluisa.tiago@iscte.pt
Fim-de-semana. De manhã, o ministro da Ciência e do Ensino Superior, José
Mariano Gago, acompanhou o presidente da República Popular da China, em visita
oficial a Portugal, ao Mosteiro dos Jerónimos, onde foi levar uma coroa de
flores ao túmulo de Luís de Camões. Depois, dirigiu-se ao Ministério, onde
tinha combinado uma entrevista, necessária para um estudo sobre o ativismo
estudantil entre 1945 e 1980, no âmbito de um projeto coletivo de investigação.
Mariano Gago, político, cientista, professor, militante cultural, fora
presidente da Direção da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico
(AEIST) enquanto estudante, e era por isso que o queríamos ouvir, tal como o
tínhamos feito com muitos ex-presidentes da AEIST, escolhidos em eleições com
forte participação num tempo em que grande parte dos alunos do IST eram sócios
da Associação.¶A entrevista durou várias horas, seguindo-se-lhe várias sessões
de trabalho. Inicialmente, e dada a urgência, Mariano Gago leu e validou alguns
excertos que lhe apresentei e que me eram necessários para citar no estudo.
Meses depois, Mariano Gago reviu a longa entrevista, tendo em vista a sua
publicação no livro digital que constituiu um dos resultados do projeto. Desta
revisão resultou um texto extenso. Dias depois, pareceu-lhe desmesurado, pelo
que cortou muitas e muitas linhas, enquanto remetia o texto maior, já revisto,
mas carecendo, a seus olhos,de contextualização nalguns aspetos, para um
trabalho futuro. Seguiram-se algumas trocas de textos. A versão mais curta saiu
no livro digital; a que agora se publica contém elementos e reflexões
adicionais; a versão maior ficou agendada para retomar num dia que não virá,
pela sua morte injusta.¶Contudo, a revisão feita por Mariano Gago não se
limitou a cortar a dimensão do texto. Conservou dúvidas relativamente a datas,
como é próprio de qualquer conversa, e assumiu que o seu modo de entender hoje
o tempo e os acontecimentos que narrava poderia não corresponder ao que
percebia na época. Tentou retirar o que lhe parecia excessivamente pessoal, mas
acabou por moderar essa vontade, dada a minha insistência e o facto de haver
uma grelha de entrevista prévia, que apontava mesmo para questões de facto,
para usar a terminologia clássica, colocadas em termos pessoais. Manteve
passagens como as originadas por perguntas muito insistentes, o que é de
sublinhar. E, entre as convicções e o talvez, as palavras desenharam mapas,
percursos e mudanças.¶José Mariano Gago frequentou o IST, como aluno, entre
1965-1966 e 1970-1971, e no último ano letivo assumiu também funções enquanto
monitor. Presidiu à sua Associação de Estudantes no ano letivo de 1969-1970.¶Ao
entrar no Técnico, e em simultâneo na Faculdade de Letras, onde assistia a
várias cadeiras, era um jovem já politizado pelo contexto familiar, pela rede
informal do Liceu Camões, que envolvia alguns professores e alunos, e pelos
círculos culturais que frequentava, como o do suplemento juvenil do Diário de
Lisboa, em que colaborava, e os que se reuniam em alguns cafés. Chegado ao IST
e à AEIST, encontrou um ambiente estudantil recessivo. Os estudantes conheciam
um tempo de revezes na sequência de uma vaga de prisões ocorrida em 1964-1965,
que contrastava com o vivido em alguns jornadas combativas no pós Segunda
Guerra Mundial, na luta contra o Decreto n.º 40 900 e na crise académica de
1962.¶Os anos de 1967, 1968 e 1969, porém, marcam a transição para uma nova
fase, que se prolonga até ao 25 de Abril. Neste período extremamente vivo do
ativismo estudantil, a AEIST, uma organização muito importante no movimento
estudantil pelas suas instalações, atividades e poder económico, reforçou o seu
peso ' algo logo visível aquando das cheias que assolaram a área de Lisboa em
1967. Nos finais dos anos 60, afirmaram-se novas bandeiras de luta, para além
das reivindicações de mudanças no ensino, de liberdade e de democracia. Os
estudantes queriam conhecer a realidade nacional, afirmando-o explicitamente, e
também a realidade internacional. Discutiam com outra abertura a guerra
colonial, a condição feminina, e mesmo a questão sexual. Denunciando os
privilegiados, o ativismo estudantil considerava ter uma nova forma de olhar as
associações, os estudantes e a vida, e queria intervir num mundo em
transformação. Defendiam-se mudanças radicais na universidade e na
sociedade.¶Lugar de grandes movimentações, greves e repressão no final dos anos
60 e nos anos 70, a AEIST constituiu também a casa-mãe de correntes marxistas-
leninistas, designação então usada por grupos maoístas. A luta radicalizou-se,
com os estudantes a recorrerem a greves prolongadas a aulas e mesmo a exames,
distanciando-se alguns destes processos. Foi um ambiente marcado por tensões,
negociações, e pela repressão, que só acabou com o 25 de Abril.¶Entretanto, já
Mariano Gago acabara o curso e partira para fazer um doutoramento em Física das
Partículas em França. Foram os passos concretos, específicos e diretamente
experienciados pelo estudante do IST e presidente da AEIST José Mariano Gago
que quisemos conhecer nesta entrevista.
LUÍSA TIAGO DE OLIVEIRA - Quais são os momentos mais marcantes do movimento
estudantil que viveu, pessoalmente, enquanto estudante do IST?
JOSÉ MARIANO GAGO - Entrei no Técnico em outubro de 1965, com 17 anos, vindo
diretamente do Liceu. Terminei o curso quando este estava a passar dos 6 para
os 5 anos, no verão de 1971.
Se tivesse de situar um momento de mudança, provavelmente apontaria as cheias
de 1967 e a ação do movimento estudantil nessas cheias como os factos mais
relevantes. Há uma movimentação nas escolas e, designadamente, no Técnico, nos
dias seguintes, para procurar saber o que se passa, para informar (contra a
censura) e para ajudar as pessoas atingidas. Nessa altura, é a geração mais
velha (ou mais implicada, não sei) que organiza esse movimento, que toma as
decisões. Eu entro nessa ação apenas como estudante de base que vai para uma
aldeia acima de Vila Franca, com uma pá, desenterrar o que houvesse para
desenterrar. Passei alguns dias, ali, com colegas e amigos, não especialmente
do Técnico.
Se hoje, de memória, quiser encontrar um momento-chave em que estudantes
universitários, independentemente da sua divisão por faculdades, ou por cursos,
independentemente das turmas, das áreas ou das escolas que frequentam, se
encontram, se mobilizam, agem em conjunto e formam aquilo que se pode chamar um
movimento, será este o momento fundador. É pois um movimento de generosidade e
de revolta, de intervenção social e de formação de consciência política numa
situação concreta em que saímos para fora (dos nossos meios sociais, da
normalidade do dia a dia), em que se procura também informar, romper o cerco da
censura, e perceber o que se está a passar. A criação e distribuição de um
Jornal das Cheias darão uma voz escrita e um símbolo de reconhecimento interno
a este movimento ' e foi muito importante.
LTO - Nas cheias de 1967, viu cadáveres?
JMG - Desenterrava muitos cadáveres de animais. Nunca vi cadáveres de pessoas.
Houve amigos que viram. Onde estive havia muita lama, muitos bichos mortos e
muita destruição, mas não vi cadáveres de pessoas. Hoje, visto à distância,
talvez possa dizer que este episódio coletivo ‒ a resposta às cheias pelo
movimento estudantil de Lisboa (corporizado institucionalmente pela organização
das Associações de Estudantes e da JUC, em conjunto) ' tenha sido um elemento
importante (decisivo? não sei), para a vontade de participar no trabalho da
Associação de Estudantes. E julgo que não falo apenas de mim, mas de muitos
colegas cujo envolvimento coletivo começou nessa altura.
É possível que eu me tivesse já aproximado mais da Associação e que tivesse
procurado colaborar nas atividades culturais da Associação antes das cheias.
Talvez, acho que sim, mas não sei ao certo. Se foi antes, foi pouco tempo
antes. Se foi depois, foi pouco tempo depois. Não sei. Mas foi por essa altura.
LTO - Nessa altura, considerava-se politizado?
JMG - Sim. Tinha uma família de esquerda, sem intervenção partidária, o meu pai
tinha ajudado no MUD e na campanha de Norton de Matos. Em minha casa falava-se
de política e discutiam-se todas as questões. A minha mãe e o meu pai eram
completamente antifascistas e de esquerda, educaram-me nesses valores e
estimularam-me desde cedo a discutir tudo e, sobretudo, a abrir os olhos!
LTO - O que o levou a colaborar na secção cultural?
JMG - Não me lembro. Houve um momento em que decidi intervir na Associação de
Estudantes. Acho que fui lá e disse que queria colaborar na secção cultural.
Se bem me lembro, escrevia então crítica de livros, de teatro, cinema ' que me
propus fazer para o Boletim da Associação. Em geral, correu bem. Recordo uma
pega monumental com um controleiro do PCP da Associação que não achava graça
nenhuma a esta nova geração de novatos, literatos e estetas. Achava-nos muito
independentes para o seu gosto. E éramos, é claro!
Antes da crise do Técnico, em que entro verdadeiramente a sério no movimento
estudantil, arranjei tempo para frequentar um curso de teatro que o Rogério
Paulo fez durante um ano inteiro na Associação do Técnico. O curso de teatro
foi muito interessante porque permitia, por exemplo, juntar muita gente,
discutir teatro, aprender algumas coisas ' básicas, obviamente, se comparadas
com aquilo que os meus colegas do Grupo de Teatro da Faculdade de Letras
estavam a tentar fazer. Mas foi uma aprendizagem importante. Aliás, nunca me
esqueci quando o Rogério Paulo nos punha no ginásio da Associação dos
Estudantes a ler uma fala de uma peça qualquer e ele se punha na outra ponta. E
dizia:
Não oiço, fala mais alto.
Eu falava mais alto e ele dizia:
Mas essa fala não é a gritar, pois não? Essa pessoa está a falar baixo para a
pessoa do lado, portanto, eu tenho de ouvir aqui e tu tens de falar baixo para
a pessoa do lado.
Era uma aprendizagem de colocar a voz, de ter atenção a fazer-se ouvir. Isso
foi muito importante para mim para falar em público. Só reconheci isso mais
tarde. Isto é uma reinterpretação, na altura não percebi o que estava a
acontecer.
Percebia que gostava de fazer aquilo, gostei muito de fazer uma encenação de
Tchekhov, gostei muito também de ler clássicos modernos americanos de teatro e
de descobrir na excelente biblioteca da Embaixada Americana, que ficava ali
perto, coisas que eu nunca tinha visto e que não conhecia.
LTO - Há mais momentos marcantes que tenha vivido no movimento estudantil?
JMG - Durante 67/68, e no princípio de 68/69, começa a sentir-se uma mudança
muito significativa nas condições do movimento estudantil, na sua atmosfera,
na vontade de ação.
O Técnico é fechado em dezembro de 1968, antes do Natal, depois de um movimento
reivindicativo quase sem importância que, se bem me recordo, tinha a ver com a
gestão das cantinas e com a autonomia, coisas simples. Tudo se passa como se as
circunstâncias, essas ou outras, apenas tivessem servido uma vontade coletiva
de intervenção dos estudantes à procura de ocasião (e, quem sabe,
reciprocamente, uma vontade de ação repressiva, de intervenção clarificadora,
por parte de quem representava o regime). A hagiografia tradicional lembrar-se-
á de um congresso de estudos associativos, em 67 ou 68, que francamente não
me dizia muito. Parecia uma representação ritual ultrapassada, de outra época.
A situação muda, verdadeiramente, no dia em que, no meio de uma greve que se
fez no Técnico, no final de 1968, o diretor decide fechar o Pavilhão Central e
impedir-nos de ir para lá, o que fez com que, obviamente, ocupássemos o dito
Pavilhão Central. Este foi o detonador (provavelmente poderia ter sido outro)
concreto de uma expansão rápida do movimento estudantil, então meio parado e
virado para dentro, e da sua conversão num movimento de grandes proporções,
fortemente enraizado na mudança que estava a ocorrer na própria cultura
juvenil.
De repente, o Técnico mobilizou-se, instalou-se no Pavilhão Central que o
diretor tinha fechado, e mudou de natureza. Foi como se tivéssemos tomado o
poder. A partir daí, nada ia ser como dantes. Mas, repare, isso não queria
dizer que achássemos que o regime fosse acabar depressa, ou a guerra colonial.
Éramos estruturalmente pessimistas a esse respeito, naturalmente, ao fim de
tantos anos de barbaridade e de tanto imobilismo, de tanta gente ter tentado e
falhado. Mas, visto agora, alguma coisa muito profunda tinha mudado ' em nós
mesmos.
LTO - E porque fechou o diretor o Pavilhão Central do IST?
JMG - Sei lá! Fechou porque teve medo, ou achou que a escola estava em risco,
ou (na sua ideia) nós estávamos em risco. Em vez de deixar a greve decorrer
normalmente, como já tinha acontecido algumas vezes, teve uma atitude que foi
entendida como uma verdadeira provocação por toda a gente.
Mas pouco importava o pretexto. Eu diria que, do ponto de vista dos estudantes,
havia uma vontade de ação coletiva que estava patente, sem se perceber bem o
quê, e que tinha muito a ver com uma agenda que não tinha nada a ver com o
antigamente.
Era a vontade de assumir uma dinâmica de juventude moderna.
Quando entrei no Técnico, trocavam-se impressões extraordinárias. Ainda hoje me
recordo de uma moça que vinha do Liceu Dona Felipa de Lencastre que, pouco
antes dos exames do 7.º ano, tinha sido posta fora porque tinha ousado entrar
sem meias de vidro (como se dizia), o que era considerado uma total
indecência Vejam só, em junho, ir de pernas nuas para o Liceu!
A diferença de perceção entre a juventude e o poder institucional era de tal
maneira grande nesse momento que eu julgo que os intérpretes do poder não se
apercebiam que alguma coisa tinha mudado profundamente na sociedade e nesta
juventude, designadamente em Lisboa. Não encontrei esta diferença tão
acentuada, por exemplo, em Coimbra, mas em Lisboa o mundo tinha mudado sem que
muitas das pessoas que estavam à frente das instituições e que, de alguma
maneira, representavam aquilo que podemos chamar o poder se tivessem, de
todo, apercebido.
Os anos de 67/68 são (mais ou menos) o período da abertura das lojas Porfírios
na Baixa, onde se começam a vender jeans. É o período em que as operárias da
Standard Electric de Cascais, as moças do Liceu e, sobretudo, da Universidade,
pela primeira vez na história portuguesa, passam a vestir-se quase da mesma
maneira, fenómeno que no resto da Europa tinha começado a acontecer 20 anos
antes, no pós-guerra. Esta mudança de atitude da juventude, de valores, de
exposição e de comportamentos, mas também de não perceber o que está a fazer
aqui, neste mundo português fechado e atrasado, de dizer eu não tenho a ver
com este mundo, esta sensação é o que me parece marcar a enorme viragem mental
destes anos. E não foi assim também, à sua maneira, nos Estados Unidos, nesses
mesmos anos, ou na Europa do Maio de 68? É como se as mudanças sociais e
culturais que ocorriam um pouco por toda a parte também, desta vez, nos
tivessem dentro.
Talvez as cheias tenham permitido, de uma forma muito diferente do que era
habitual e de que nem sequer o movimento associativo se deve ter apercebido,
estar perante um grande movimento público de generosidade e solidariedade com
outros, mas que, de facto, era o princípio de uma história diferente, de uma
maneira de ser coletiva diferente. Não tinha nada a ver com reivindicações
tradicionais mas, pura e simplesmente, com outra forma de estar na vida.
E há uma mudança total. Nessa altura há muitos dirigentes estudantis da geração
anterior que demoram algum tempo a perceber que, de facto, o que têm perante
eles é um movimento muito diferente do habitual. Não estamos perante lutas a
defender a autonomia das eleições nas associações académicas ou a liberdade de
associação, ou contra o Decreto n.º 40 900. Não estamos a fazer as tradicionais
movimentações para defender a autonomia universitária ou os colegas presos. Não
é nada disso, ou melhor, não é apenas isso.
É mais profundo. Tem a ver com querer viver num país diferente. E, mais, talvez
a convicção (acho que é a primeira vez que existe no movimento estudantil
português) de que isso é possível, o que faz os mais velhos olharem para muitos
de nós com horror. Para eles, éramos uns completos patetas que não sabíamos o
que estava para vir, que isto era uma desgraça, que íamos fazer com que fossem
fechadas todas as associações, que não sabíamos o que era defender as
conquistas que tinha havido nos anos anteriores e éramos uns completos
irresponsáveis. Há aqui uma diferença de uma geração que, de alguma maneira,
prenuncia o 25 de Abril. É uma geração que não só não quer viver num mundo
assim, e acha que vai mudar tudo na vida quotidiana, na relação com a
autoridade, com o estudo, com a forma de vestir, na relação entre rapazes e
raparigas, como também que isso vai mesmo acontecer. Nós queremos ser iguais
aos outros países e achamos que isso vai mesmo acontecer cá.
Essa convicção profunda que se instala é um prenúncio de uma mudança social em
Portugal que, provavelmente, provoca uma enorme rutura de atitude desta geração
com gerações anteriores de responsáveis associativos. Não estão contra, mas não
percebem que se possa pensar assim. Nós não pensávamos, de maneira nenhuma, em
termos políticos, conspirativos e organizativos, pensávamos em termos de
sociedade e de vida.
É muito interessante verificar que, nesse pequeno episódio de dezembro de 68,
em que é fechado o Pavilhão Central e nós o vamos abrir ' quando eu digo nós
significa que, de repente, houve um grupo de pessoas que podiam estar quietas,
mas que ficaram indignadas ', explode um sentimento de indignação que se vai
tornar, a seguir, o grande motor do movimento estudantil.
No meu caso pessoal, é esse sentimento que motiva uma intervenção muito mais
ativa. Quando, no final de dezembro, chego ao Instituto Superior Técnico depois
das cenas que vou contar e, de repente, encontro o Técnico fechado, com carros
de assalto e com polícia por todo o lado, fico verdadeiramente indignado,
furioso. Esse mesmo sentimento de indignação impele à ação. O mesmo acontece
com grande parte dos meus colegas em todas as outras escolas, e pouco tem a ver
com a história do movimento Estudantil anterior e com a atividade político-
partidária que nele existira acentuadamente mas que, nessa altura (1968-1969),
estava muito reduzida com as prisões e expulsões de 62 e, depois, de 64 e 65.
A partir do momento da ocupação do Técnico pelos estudantes, rapidamente o
Pavilhão Central se converte numa espécie de local de assembleia-geral
permanente.
LTO - Essa ocupação é a resposta ao fecho do Pavilhão Central?
JMG - O Pavilhão Central é reaberto por nós. Somos nós que arranjamos um sítio
por onde entrar e abrimos as portas. Há uma desobediência absoluta e, a partir
desse momento, passamos a tomar conta da escola e a decidir o que fazer. E é
interessante que uma das nossas primeiras decisões, talvez a mais simbólica,
tomada nas primeiras horas depois da ocupação, e que curiosamente mais tarde
vai ser um pretexto para o fecho do Técnico decidido depois pelo governo, é o
fim da sala das alunas.
No Pavilhão Central do IST, havia uma sala reservada, que se chamava sala das
alunas e que, na brincadeira, todos nós, rapazes e raparigas, nesse ano
chamávamos o gineceu. Essa sala ficava no sítio onde está hoje o princípio da
Secretaria (no Pavilhão Central, à esquerda). Uma das primeiras decisões de
grupo foi dizer: vamos acabar com aquilo!.
Juntaram-se muitas pessoas, rapazes e raparigas, entraram e, simbolicamente,
acabaram com o gineceu de forma engraçada mas muito difícil de compreender
por quem está de fora. Aliás, tem um significado que nenhum dos próprios
protagonistas podia, na altura, compreender. Era preciso um ato simbólico na
forma de agir, não era apenas entrar lá. Houve quem fosse buscar papel de
cenário e, perante o aplauso universal de uma ou duas centenas de pessoas que
se meteram naquela sala, escreveu-se uma faixa que se afixou na parede e que
dizia Viva a revolução sexual!.
Essa faixa acabou por ser fotografada e a fotografia publicada, salvo erro, no
Diário da Manhã, órgão de imprensa afeto à União Nacional, junto com o
comunicado do Governo, quando uns dias depois o Técnico é fechado, dando como
justificação a depravação a que se tinha chegado e que tinha justificado a
intervenção das autoridades! Mas era um grito de alma.
LTO - Já tinham lido Wilhelm Reich?
JMG - Alguns sim, outros não. Claro que há muitos elementos que contribuem para
aquele ato mas, naquele momento, houve um ponto de viragem que tinha a ver com
o facto de a sexualidade ter aparecido numa juventude que, no essencial, se
queria livre, mas que (na sua maioria) era ainda muito casta e estava a
descobrir, pouco a pouco, a sexualidade. Era uma sexualidade tardia, a nossa,
por padrões europeus da época. E, ainda mais paradoxal, talvez a maioria dos
rapazes e raparigas que estavam naquela sala, nunca tinham tido relações
sexuais e vão tê-las provavelmente, pela primeira vez, no ano seguinte, com 18/
19 anos.
LTO - O que já mostra uma mudança no comportamento dos homens porque, em
gerações anteriores, poderiam já ter tido relações sexuais mas de outro foro.
JMG - Exatamente. Poucos seriam os rapazes que estavam ali que alguma vez
tinham recorrido à prostituição. Também já me perguntei como é que o Maio de 68
tinha chegado a Portugal.
LTO - O cartaz Viva a revolução sexual! é escrito em Dezembro de 68,
portanto, no pós-Maio de 68
JMG - O Maio de 68, aparentemente, passa muito longe. Não há informação e
poucas pessoas lêem jornais ou revistas estrangeiras. Pouco antes dessa crise
(talvez no outono de 1968), há uma noite memorável em que se fala sobre o Maio
de 68 na cantina do Técnico. Juntaram-se umas centenas de estudantes
simplesmente para tentar perceber o que estava a acontecer. Um ou outro que
trazem informações, uma revista, uma canção, um slogan.
Estamos a falar de um país, Portugal, que está a uma distância incomensurável
do resto do mundo, bloqueado pela censura, pela repressão.
O que eu acho aqui de realçar, por um lado, é o sentimento de que ainda hoje me
recordo, quase de humilhação por estar fora do mundo e por ser mantido à
distância do mundo, e, por outro lado, o fortíssimo sentimento de pertença a
esse mundo exterior e não a este onde estávamos. Aquela juventude, a minha
juventude, pertencia já a outra geração, a sua alma estava noutro sítio. De
certa forma, nós, aqui tão tolhidos e reprimidos, afastados de tudo, já éramos
como se fossemos os outros, já éramos como os outros, já éramos europeus antes
de o ser, modernos antes de nos termos libertado, e até estávamos a tentar
descobrir como sermos democráticos sem democracia no país.
Era a geração dos Beatles, que via filmes do Godard. Tínhamos poucas
referências e estávamos a reinventá-las. Não se tratava de copiar. A maioria
dos estudantes ' estou a falar do Técnico ' tinha contacto com cinema e música,
mas o contacto com a literatura ou a imprensa era muito reduzido. Havia o
turismo estudantil, é certo, mas a sua explosão dá-se também nessa altura. Se
perguntar se algum, de entre centenas de estudantes, conseguia, de vez em
quando, ler um jornal ou uma revista que viesse de França, ou, ainda menos, de
outro país europeu, diria que talvez um ou dois. Não era muito significativo.
Mas havia um movimento e uma transformação na sociedade portuguesa que nos
tocava a todos e que ressoava especialmente entre os estudantes, mesmo sem nos
apercebermos, e que resultou no símbolo daquela faixa escrita na antiga sala
das alunas.
LTO - Continuando a falar sobre a ocupação do Pavilhão Central do IST em
dezembro de 1968
JMG - Esse período de poucos dias até o Técnico fechar, creio que num fim-de-
semana, é um momento de grande discussão interna, de troca de informações e
descoberta do que é estar num coletivo vivo e em movimento. Não me recordo de
quase nada desses debates. O que me recordo bem é de, num dia de manhã, ter
vindo de minha casa de autocarro ' nessa altura já estávamos a viver nos
Olivais ', ter chegado ao Técnico e ter descoberto que a escola estava fechada
e ocupada, com dois carros de assalto bem à vista, soldados com metralhadoras
por todo o lado, um horror! Lembro-me de que nem desci do autocarro, de ter ido
à procura dos colegas, e de termos dado corpo à indignação que sentíamos.
LTO - Em que ano letivo estava?
Talvez no princípio do 4.º ano letivo ' os cursos eram então de 6 anos. Não sei
se, nesse dia ou no seguinte, houve um plenário em Económicas. Os estudantes do
Técnico, aqueles mais ativos, começaram a juntar-se noutros sítios e o
movimento estudantil mobilizou-se noutras associações de estudantes. Eu comecei
a ir e a participar em tudo.
LTO - Portanto, o fecho do IST foi um momento crucial?
JMG - Para mim, foi um momento crucial de indignação.
LTO - A palavra-chave é indignação?
JMG - Sim. Visto à distância, diria que era uma indignação depois da repressão
de um movimento essencialmente de afirmação juvenil, de tomada de consciência,
de vontade de afirmação, também, de querer uma vida diferente e querer estar
num mundo diferente. A partir daí, a história acelera-se muitíssimo.
Num dos primeiros plenários associativos que junta representantes de
associações e onde estou, está tudo muito indignado e aquela reunião já não é
só de direções de associações de estudantes, é de toda a gente que quer
aparecer. É por isso que eu lá estou, como muitos outros, sobretudo do Técnico.
Salvo erro, isto passa-se em Económicas e lembro-me de, a certa altura, o
secretário da RIA, por Letras, dizer:
A gente não quer que isto seja Nanterre!
Foi recebido com uma gargalhada geral. Até que alguém sussurrou:
Mas nós queremos!
Há uma mudança. Nessa altura, muitos dirigentes estudantis da geração anterior
demoram a perceber que, de facto, o que têm perante eles é um movimento muito
diferente. Não estamos perante lutas a defender a autonomia das eleições nas
associações académicas ou contra o decreto sobre as liberdades de associação.
Não estávamos a fazer as tradicionais movimentações para defender a autonomia
universitária ou os colegas presos. Nada disso. É mais profundo. Tem a ver com
a vontade irreprimível de querer viver numa sociedade diferente.
E, mais, talvez também tenha a ver com a convicção ' provavelmente pela
primeira vez, no movimento Estudantil em Portugal ' de que isso era mesmo
possível! Por isso, muitos dos mais velhos olhavam para nós com horror. Para
eles, éramos uns completos patetas que não sabíamos o que estava para vir, que
este movimento estudantil era uma desgraça, íamos fazer com que fechassem
todas as associações, não sabíamos o que era defender as conquistas das
gerações anteriores e que éramos portanto uns completos irresponsáveis.
Simplesmente, nós não estávamos organizados em partidos ou grupos políticos. Há
aqui uma geração que, de alguma maneira, parece prenunciaro 25 de Abril. É uma
geração que não só não quer viver num mundo assim e quer mudar tudo na vida
quotidiana, a relação com a autoridade, com o estudo, a forma de vestir, a
relação entre rapazes e raparigas, como verdadeiramente acha que isso vai mesmo
acontecer. Nós queremos ser iguais aos outros países e achamos que isso vai
mesmo acontecer cá.
Essa convicção profunda que se instala parece anunciar uma mudança social em
Portugal que, provavelmente, provoca também uma enorme rutura de atitude desta
geração com gerações anteriores de responsáveis estudantis que não estão
propriamente contra, mas não percebem que se possa pensar assim. Nós não
pensávamos, pelo menos nessa altura (vai ser diferente depois), em termos
políticos, conspirativos e organizativos, pensávamos em termos de sociedade e
de vida.
LTO - Como evolui a situação?
JMG - Creio que o Técnico vai estar fechado durante as férias do Natal e vai
reabrir, para as aulas, em janeiro com a Direção da Associação de Estudantes
suspensa, com as contas da Associação de Estudantes bloqueadas, e com o
Instituto Superior Técnico a pagar diretamente aos funcionários da Associação,
da cantina, da tipografia, etc., ou seja, com uma Associação de Estudantes
tutelada diretamente.
Anuncia-se a abertura de processos disciplinares aos dirigentes da Associação
de Estudantes. Nessa altura, era presidente da Associação o Luís Leitão, que no
final desse ano irá com mais dois colegas para a Alemanha. Teme-se que venham a
ter processos disciplinares, que venham a perder o ano, e que possam ser presos
mal o movimento esmoreça. Há uma oferta que é feita através de Mário Soares,
que fala com Willy Brandt, e que nos faz chegar a mensagem de que, se houver
estudantes que queiram ir para a Alemanha, a Social-Democracia Alemã tratará
deles e dar-lhes-á um estatuto de refugiado se for caso disso, ensina-lhes
alemão, põe-nos nas universidades, oferece-lhes uma bolsa de estudos, etc. E há
três estudantes, dirigentes da antiga direção da Associação de Estudantes do
IST, que decidem aceitar e ir. Ainda os visito, no ano seguinte, em Stuttgart.
LTO - A Associação está então fechada?
JMG - Está e não está. Está formalmente fechada mas tem de reabrir porque é
no seu interior que estão a cantina e os serviços que têm de funcionar. A
partir de certa altura, fica aberta, mas sem direção e sem autonomia, e cria-se
rapidamente uma espécie de movimento associativo no exílio.
LTO - O que era esse movimento associativo no exílio?
Cria-se uma comissão que decide não só organizar-se numa espécie de direção
clandestina da Associação, como também ter um boletim que imprime fora do
Técnico e que distribui dentro do Técnico. Cria-se, portanto, um movimento
para-associativo que conduziu e manteve um movimento dentro do Técnico, a
partir de estruturas de base, eleitas nos cursos e nas turmas, com delegados, e
a partir de uma pequena estrutura central que faz um boletim. Este processo
durou até ser, finalmente, autorizada a realização de eleições para a
Associação dos Estudantes e, de certa forma, vai aliás renovar a própria
associação de estudantes e o seu funcionamento.
Quando é autorizada a realização de eleições, há muita discussão entre as
pessoas mais ativas e que fazem parte deste movimento que, durante estes meses,
aguentou a participação dos estudantes do Técnico no movimento estudantil de
Lisboa e mesmo dentro do Técnico. Eu sou uma dessas pessoas e convencem-me a
aceitar ser candidato a presidente da Associação de Estudantes, nessas eleições
de maio de 1969. Julgo que era preciso perguntar à geração das pessoas mais
velhas que estavam prestes a sair da escola, colegas e amigos meus que nessa
altura estavam no 6.º ano, porque é que me tinham empurrado para ser eu o
presidente da Associação. Eles não podiam ser candidatos porque estavam a
acabar o curso. Mas, dentro do movimento estudantil, eu era um recém-chegado.
Quer dizer, não tinha uma história de anos, não tinha andado por lá, a não ser
marginalmente nas atividades culturais, não tinha estado em direções
anteriores. Era, claramente, um outsider. Tinha, verdadeiramente, aparecido no
movimento estudantil apenas no fecho do Técnico, na altura da crise, uns meses
antes.
LTO - Qual era, então, o grupo que o escolhe para ir para a frente?
JMG - Era simplesmente o grupo de estudantes que tinha tentado manter
organizado o movimento estudantil no Técnico nos últimos seis meses.
LTO - Nessa altura, onde está o anterior presidente da direção da Associação,
Luís Leitão?
JMG - O Luís Leitão ainda estava connosco, mas já a preparar a saída de
Portugal. Creio ter havido da nossa parte, também, a vontade de proteger, tanto
quanto possível, quem tinha estado na antiga direção da Associação e de não os
expor demais, porque já tinham estado suficientemente expostos.
LTO - Não há tensão com a anterior direção?
Não há nenhuma tensão, antes pelo contrário, todos somos grandes amigos. Hoje
diria que há um movimento que se gera a partir do movimento estudantil e da
movimentação de base que existe no Técnico. Nesses meses, decide-se reatar a
vida associativa, tomando conta da direção da Associação. Com a gente que sai
desse movimento. É o único movimento que é reconhecido dentro da escola, porque
foram as pessoas que mantiveram o movimento estudantil vivo e organizado
durante aqueles meses.
LTO - Como forma a sua lista?
JMG - Foi uma lista feita coletivamente, ao que me lembro, e discutida entre o
grupo organizador, onde se discutiu quem deveria ou não estar. Certamente que
os mais velhos (os que acabam então o curso) devem ter tido um papel
preponderante nas escolhas. Era preciso perguntar-lhes.
LTO - Como decorreu a campanha? Houve oposição? Os resultados foram bons?
JMG - Não houve oposição, ninguém queria oposição. Houve uma enorme unanimidade
e uma taxa de participação gigantesca. Correu muito bem.
LTO - Como foi o primeiro dia como presidente da Associação?
JMG - Foi extraordinário porque, a partir daí, havia uma responsabilidade muito
mais direta do que organizar reuniões nas turmas, escrever e distribuir papéis.
Já não era isso. Era mesmo tomar conta de uma instituição.
Nessa altura, a Associação de Estudantes do Técnico era uma estrutura que tinha
a seu cargo cerca de duzentos e tal funcionários, muita gente portanto:
contabilidade: secretaria, reprografia (todas as folhas eram feitas pela
Associação de Estudantes), cantina, turismo, desporto, etc.
Ser presidente da Associação dos Estudantes do Técnico era dirigir uma média
empresa. Como descobri muito rapidamente, tinha um orçamento na ordem da
grandeza do orçamento do Técnico, não só por ter a seu cargo muitas pessoas,
mas por causa da secção do turismo estudantil. O representante de Portugal no
turismo estudantil internacional era a secção de turismo do IST.
O turismo de estudantes tinha começado um ou dois anos antes a ter uma
importância significativa em Portugal. Fretavam-se aviões e muitos estudantes
iam para campos de férias noutros países. Os anos 60 foram anos de mobilidade
estudantil na Europa, que também chegou a Portugal, que participava nesses
consórcios de fretamento de aviões, de vender bilhetes a preços muitíssimo
baixos a estudantes, que ficavam em pousadas de juventude ou iam trabalhar
durante as férias. Esse movimento estava a atingir grande dimensão. Quando
tomámos conta da Associação, em maio, a situação era caótica. O verão estava à
porta (era quando voavam os aviões que fretávamos), as contas bancárias estavam
bloqueadas há cinco meses, desde o fecho do Técnico, os pagamentos
internacionais não eram feitos e havia reservas ' estamos a falar de dezenas de
aviões fretados ' que se arriscavam a ser todas canceladas. Portanto, e neste
sentido, já não estamos a falar de uma empresa pequena.
A direção anterior tinha procurado profissionalizar, e bem, a secção de turismo
estudantil. Havia um jovem sueco que veio trabalhar para Portugal, era um
autêntico profissional; havia funcionários competentes de turismo,
administração, etc. Era uma pequena agência de turismo dentro do corpo da
Associação dos Estudantes; portanto, muito depressa foi preciso tomar decisões
nessa matéria.
Lembro-me que percebi muito depressa que tinha de dedicar muito tempo e energia
a, por um lado, aprender como se fazia, depois, a resolver os problemas da
gestão interna da Associação dos Estudantes, e, em terceiro lugar, resolver o
problema do turismo estudantil que, na altura, era absolutamente crítico para a
sobrevivência do próprio movimento estudantil português.
A Associação dos Estudantes do Técnico era a mais rica do país por causa do
turismo estudantil, facto que só percebi nessa altura.
O facto de ter o turismo estudantil dava-lhe a possibilidade, que nunca tinha
sido explorada, de se apoiar em fortes relações internacionais. Quando entrámos
na Associação do Técnico, a estratégia foi dizer: o turismo estudantil é uma
bênção dos céus e vai permitir internacionalizar e criar uma relação do
movimento estudantil em Portugal com o resto da Europa.
Voltando à situação financeira da Associação. Para conseguir desbloquear as
contas bancárias, a Direção da Associação de Estudantes pediu uma audiência ao
então ministro da Educação. Fomos recebidos pelo José Hermano Saraiva, mas não
serviu de nada.
A questão resolveu-se através do Banco Português do Atlântico, onde tínhamos as
contas da Associação. O José Bernardino, militante do PCP, tinha acabado de ser
solto da prisão onde estivera anos e, durante algum tempo, teve emprego na
Associação de Estudantes do Técnico como contabilista ' mais tarde foi-se
embora para o estrangeiro. Na altura, ele ofereceu-se para fazer um contacto
com o Vasco Vieira de Almeida, que trabalhava junto à administração do Banco
Português do Atlântico, e que ele conhecia. Eu andava à procura de contactos
para a direção do Banco Português do Atlântico e o José Bernardino, um dia, em
conversa, disse: Ah, mas eu conheço o Vasco Vieira de Almeida que trabalha lá.
Se quiseres, vamos lá. E fomos sem avisar. Chegámos à porta do Banco Português
do Atlântico, na Baixa, e dissemos: Nós queremos falar com o Dr. Vasco Vieira
de Almeida; importa-se de dizer que estão aqui duas pessoas para falar com
ele?. Cinco minutos depois, fomos recebidos pelo Vasco Vieira de Almeida que
então conheci pela primeira vez. Fui apresentado, expliquei o que se passava e
ele respondeu: Eu vou falar com o Dr. Cupertino e depois digo. Veio e disse:
O Dr. Cupertino acha que isto que vos está a acontecer não faz sentido e não
pode continuar; e vai tratar dessa matéria com o senhor Presidente do
Conselho.
E, um dia, as contas foram desbloqueadas e pudemos começar a fazer pagamentos.
A seguir a isso, tivemos ainda outros episódios dramáticos, ou caricatos, como
se quiser.
LTO - Como explica o empenho do banqueiro Cupertino de Miranda em ajudar a
Associação em última instância?
JMG - Acho que Cupertino de Miranda era um anti-salazarista. Era um homem que
nos achava graça, pensava que nós é que tínhamos razão e que o mundo não ia
para aquele lado, mas ia muito provavelmente no nosso sentido. Acho que era
isso.
Um exemplo: há um cheque nosso, de montante muito elevado, que nunca chega ao
destino. Nessa altura, os pagamentos eram feitos em cheques emitidos nos bancos
e mandados em correio registado para o destino. Não sei porquê. A PIDE desvia-
nos a correspondência e liquida-nos assim um pagamento. E, mais uma vez, o
Banco Português do Atlântico resolve o problema. Emite um segundo cheque e
assume o risco que isso representa. Estamos a falar de muito dinheiro, dinheiro
para fretar uns dez aviões ou coisa assim do género. Falei com o Banco e foi o
próprio Cupertino de Miranda que tomou a decisão: Emitam um segundo cheque.
LTO - Em que ano vos dá essa cobertura?
JMG - Em 1970. É já depois do congresso do turismo, quando as operações estão a
correr, quando já está tudo a começar a funcionar e nós pagamos.
LTO - É uma clara aposta.
JMG - Sim, é uma clara aposta. Não tenho a mais pequena dúvida disso!
LTO - José Bernardino era a única pessoa perseguida pelo regime que tinha
conseguido um emprego solidário na AEIST?
JMG - Não, claro. Por exemplo, o Zeca Afonso, de quem fui muito amigo, era
professor mas, quando deixou de ser autorizado a dar aulas nas escolas públicas
e também nas privadas, já quando morava em Setúbal, foi contratado como
professor de Judo na Associação de Estudantes do Técnico ' salvo erro, ele era
cinturão negro!
LTO - É impressionante o orçamento da Associação de Estudantes ser igual ao do
próprio IST!
JMG - É. Mas não esqueça que pesa aí, sobretudo, a componente do turismo e do
fretamento de aviões que era muito elevada. Havia também um número muito grande
de funcionários na Associação; não me lembro quanto era a massa salarial, mas
era certamente muito grande. E o Técnico de então quase não tinha investigação;
o orçamento do Técnico é que era pequeno!
Hoje, a sensação que tenho é que tive de aprender tudo. Aprendi com os
funcionários responsáveis das diferentes secções. Foi a primeira vez na minha
vida em que tive de fazer, de facto, como normalmente se faz numa empresa: ver
qual a estrutura que existe, falar regularmente com os responsáveis das
secções, ir aos sítios Nessa altura, talvez, o que eu tenha aprendido mais e
que fiz espontaneamente, porque não sabia, e acabei por ir fazendo ao longo de
toda a minha vida, foi não ficar quieto à espera que alguém viesse ter comigo,
ir a todas as secções e falar com os responsáveis, falar com todos os
funcionários e tentar fazer disto uma rotina regular para compreender o que é
que estava a acontecer em cada um dos sítios.
Aprendi na Associação o que hoje se diria ser um instrumento moderno de gestão:
gestão participada, procurar trabalhar com as pessoas responsáveis pelos
setores, procurar reuni-los, procurar saber um a um e fazer disto uma rotina.
LTO - Esse modo de agir como presidente esteve relacionado com as cheias?
JMG - Não sei se tem a ver com as cheias, se com a época, se com a procura do
que é ser de esquerda.
LTO - Será a valorização da prática?
JMG - Talvez, de práticas sociais de proximidade, de procura dos outros, de
criação de comunidade, não sei.
LTO - Nesse contexto, o peso do turismo estudantil nas atividades da AEIST era
mesmo grande.
JMG - Tinha um peso absolutamente decisivo, e não apenas financeiro, o seu
papel era central para a estratégia política que procurei desenvolver.
Há um episódio muito interessante, quase um acaso, muito curioso. No seu
início, não tem a ver comigo diretamente. Quando o Técnico estava fechado, ou
pouco tempo depois (portanto no final de 68 ou no princípio de 69), vem a
Lisboa um casal sueco, dirigentes nacionais, na Suécia, da União de Estudantes
Escandinavos, e querem saber o que se passa no movimento estudantil português.
Este primeiro contacto deve ter sido apenas a base para uma notícia num boletim
da união escandinava dos estudantes sobre o que se estava a passar em Portugal,
no movimento estudantil português, sobre o fascismo português, a guerra
colonial etc
Mais tarde, a memória deste contacto vai fornecer o primeiro ponto de ancoragem
em que nos vamos apoiar para tentar resolver o problema (internacional) do
turismo estudantil português e, a partir daí, construir uma estratégia de
abertura internacional.
A ideia foi esta: nós precisamos de aliados, temos isto muito atrapalhado e é
absolutamente crítico não largar o turismo estudantil. Havia fortíssimas
pressões de organizações estatais para tomar conta do turismo estudantil. O
governo português tinha tentado, junto das instâncias internacionais, que o
monopólio deste turismo deixasse de ser da Associação de Estudantes do Técnico
e passasse a ser entregue a uma organização estatal. Mas o movimento estudantil
internacional, que controlava o turismo estudantil internacional, tinha
recusado sempre, ou seja, tinha sempre defendido as associações de estudantes
portuguesas contra o governo. Mas era preciso retomar, revitalizar o turismo.
Estávamos numa situação fragilíssima e os nossos amigos suecos, havendo na
altura muito fluxo turístico de Portugal para a Suécia (também havia para
Inglaterra), podiam talvez ajudar-nos.
Organizo então uma ida à Suécia para tratar do turismo estudantil e esse casal
dá-me realmente uma lição de vida.
LTO - Porque considera que a ida à Suécia foi uma lição de vida?
Pela primeira vez, vejo o que é a vida quotidiana numa sociedade civilizada e
moderna. Vou às compras, ando com as pessoas e participo nas conversas que têm.
Todas as vezes que eu ia para a Suécia, e fui muitas vezes, toda aquela gente
falava entre si inglês por boa educação, para eu os entender. Hoje percebo a
sua enorme delicadeza de propósitos. Aprendi a conhecer (e a admirar) uma
sociedade que ignorava existir. Nessa altura, que viagens tinha feito? Conhecia
Espanha desde pequenino, tinha ido a Santiago de Compostela, a Córdova, a
Sevilha, etc. Em criança, Espanha dava-me a ideia de um país bombardeado, ainda
não reconstruído, pobre. Tinha ido a França e a Londres e viajado com os meus
pais e com os meus tios sistematicamente por Portugal. Não conhecia as ilhas.
Este era, mais ou menos, o meu conhecimento da Europa.
LTO - Para a idade, e para a época, esse conhecimento da Europa era excelente.
JMG - Mas é a entrada no movimento estudantil e a responsabilidade no turismo
estudantil que me obriga a viajar sistematicamente. Precisávamos de alianças e
dos votos das direções nacionais das associações de estudantes de outros
países, para não sermos substituídos como organização representante de
Portugal, o que seria fatal. Portanto, precisava de ir falar, pelo menos, com
os mais importantes e de saber quem eram. Quem me podia explicar as regras, e
apresentar-me aos outros, eram os nórdicos, que nos conheciam e formavam uma
União. Precisava de conhecer os outros que, mal sabia eu, estavam perdidos nas
convulsões do pós-Maio de 68.
Vou viajar pela Europa, a partir da Suécia e dos contactos que lá me são dados.
Primeiro, vou falar com os responsáveis dos países nórdicos que me encaminham
para Copenhaga, para quem dirige. Aí compreendo que se trata de um setor que
mexe com muito dinheiro. Conheço então o responsável comercial do negócio
escandinavo do turismo estudantil e a quem a direção nórdica das associações de
estudantes me recomenda: Você faça o que puder por este português que vai ter
consigo e que lhe vai explicar o assunto. Explique-lhe como é que ele deve
fazer para resolver o problema dele.
É alguém que se porta sempre de uma forma impecável e me ensina o que devo
fazer. Ensinou-me como é que se fretam aviões, em que altura, como se compete
com outras agências pelas linhas mais rentáveis. Ensina-me as bases elementares
do negócio, porque estamos a falar de um negócio à escala europeia que passava
por feiras comerciais (da primeira vez fui a Munique), onde estão gestores de
grandes agências nacionais que mexem com, o que hoje se diria, muitos milhões
de euros, e fazem negócios: Eu fico com esta linha. Eu faço sharing daquela.
E está ali um jovem recém-chegado de uma agência apetecível, porque é do sul da
Europa e, portanto, interessante para os nórdicos, mas que está em rutura de
pagamentos e que tem o Governo contra si. Não era fácil. Mas acabámos por
conseguir ficar com o turismo estudantil. Depois, eu viajo pela Europa para
falar com as direções das associações de estudantes para, além de tratar do
turismo, explicar o que é que se está a passar em Portugal e para, no fundo,
estabelecer contactos e procurar apoios.
Tenho noção de que poder viajar desta maneira (estando a ser constantemente
vigiado pela PIDE aqui ' até quando andava de autocarro em Lisboa tinha sempre
um ou dois carros atrás de mim) era uma oportunidade extraordinária que,
possivelmente, teria sido impossibilitada pela PIDE em anos anteriores.
LTO - Mas porque atribuía o então estudante José Mariano Gago tanta importância
à questão do internacionalismo estudantil?
JMG - Repare que isso faz parte do universo daquela geração. Imagino que o
mesmo se estivesse a passar em muitos outros setores da sociedade portuguesa.
Nós queremos quebrar o isolamento, estar dentro do mundo! Acho que a sua
pergunta faz todo o sentido.
Há ali uma rutura, uma maneira nova de olhar, de sentir, que começa a pensar em
Portugal integrado no mundo, em nós mesmos como fazendo parte do mundo a que
aspirávamos, uma recusa a deixarmo-nos isolar pelo isolamento que nos é
imposto. Para mim, era evidente que a única maneira de ir para a frente, e de
fazer aquilo que queríamos, passava por estar, falar com os outros, ver o que
estava a acontecer no resto do mundo, ligarmo-nos aos outros E faz-se,
falando, estando, aproveitando todas as oportunidades. Vou a Londres falar com
a associação de estudantes inglesa. Vou falar uma ou duas vezes com a UNEF em
França. Estabeleço contacto com os nórdicos, com os belgas e com os alemães. E,
com eles, acontece uma história muito interessante.
LTO - A história do turismo estudantil é interessante.
JMG - A história alemã é outro momento de amizade. Um amigo que tinha vindo da
Alemanha põe-nos em contacto com o movimento estudantil alemão e com a
Sozialistischer Deutscher Studentenbund (SDS) ' a organização dos estudantes
sociais-democratas que, nessa altura, estão ainda no Partido Social-Democrata
Alemão, que irão abandonar. Pouco depois, é o princípio da desgraça da esquerda
alemã e o princípio do terrorismo dos anos 70. A SDS Alemã é um movimento
radical, muito inteligente, muito interessante e fortemente internacionalizado,
havendo nas universidades alemãs ' em Stuttgart que conheci melhor ' um
movimento estudantil quase único então na Europa (como na Suécia, mas talvez
ainda mais intensamente) em que a Universidade se quer virada para fora, para
os problemas e para a compreensão da miséria do mundo. Está virada para todo o
lado: o Vietname, a América Latina
Na Alemanha, tal como na Suécia, encontro um olhar, uma atenção e uma
generosidade especiais. Das várias vezes que estive de visita à Suécia, estavam
a discutir a atribuição do estatuto de refugiado político aos desertores
americanos da Guerra do Vietname. Se bem me recordo, julgo ter sido o único
país europeu a fazê-lo porque, em geral, não se dá o estatuto de refugiado a um
desertor, apenas por objeção de consciência.
A Universidade na Alemanha, quer estivesse a funcionar normalmente, quer
estivesse ocupada, fervilhava de cultura, de vida e de criatividade. A
organização da SDS alemã ' que era, no fundo, a organização política mais
enraizada nas associações de estudantes na Alemanha ' era impressionante.
Numa altura em que lá estive, tinham feito publicar e pago um anúncio nos
jornais da Alemanha que foi um golpe de marketing extraordinário. Anunciavam
que iam queimar um cão vivo depois de o regarem de petróleo numa praça de
Berlim no dia tantos e às tantas horas. Isto criou uma agitação na Alemanha
inacreditável: dizia-se que os estudantes tinham enlouquecido e só faziam
coisas aberrantes. Os estudantes deixaram andar assim o debate durante uns dias
e, depois, publicaram outro anúncio explicando que todos os dias eram mortos
com napalm, no Vietname, pessoas inocentes e que os cidadãos alemães não
pareciam muito incomodados com isso. E que, obviamente, os estudantes não
pensavam em queimar cão algum, mas apenas despertar a população, chamar--lhe a
atenção para o que se passava no Vietnam. Para mim, este episódio foi marcante.
Não sabia, nunca tinha imaginado que se pudesse pensar assim e agir
politicamente desta forma.
Entrava-se, ao fim da tarde, numa faculdade em Stuttgart, tinham acabado as
aulas e estava numa sala um estudante da Colômbia a explicar o que lá se
passava e também alguém, muito mais velho, de Espanha, que ainda tinha estado
na Guerra Civil O mundo parecia passar por ali.
Os dirigentes estudantis ingleses pareciam então mais preocupados consigo
mesmos (e não pareciam saber do que se passava na América!) e os franceses
pareciam dilacerados entre quem é que tinha tido razão em fazer o quê um ano
antes. Não conheci então a Itália, infelizmente. O que recordo é que o que se
passava então na Alemanha e nos países nórdicos era outro mundo, sendo que a
Alemanha parecia então à beira de um precipício.
LTO - E porque estava a Alemanha à beira do abismo?
JMG - Nessa altura, conheci Stuttgart, mas não conheci, de todo, Berlim. Para
esses meus amigos alemães, a Alemanha parecia-lhes completamente bloqueada.
Achavam que nada podia mudar, nunca.
A reação conservadora do poder económico, do poder político, e a dificuldade de
se fazerem ouvir pela social-democracia instalada eram vistas por eles como uma
tampa de chumbo inamovível, insuportável: assim nada vai mudar. E julgo que
ninguém percebia que essa juventude estava completamente pelos cabelos.
Alguma coisa tinha de acontecer. Os jovens mais ativos e criativos não se
sentiam dentro do sistema, nem representados. Desses que conheci na altura,
aqueles que mantiveram mais a sanidade foram os que entraram no movimento
sindical, normalmente pela via profissional, como economistas, e os que estavam
mais ligados às artes, esses, produziram arte, tinham essa arma, faziam
explodir simbolicamente os modelos estabelecidos através da arte. Os outros,
deixei de os ver, e presumo que alguns foram para o terrorismo.
LTO - Percebia-se essa deriva para o terrorismo?
JMG - Claro. Era óbvio que alguma coisa má estava a acontecer na Europa.
LTO - Com as suas relações, como é que o movimento português não o considera a
si, José Mariano Gago, um social-democrata?
JMG - O que era ser social-democrata em Portugal, nessa altura? Nós sentíamo-
nos revolucionários! Ser-se tratado como social-democrata em Portugal, neste
nosso meio, nessa época, era pouco menos que insultuoso Ser social-democrata
aqui era então visto por nós como não querer a independência das colónias mas
apenas uma equívoca autodeterminação, acreditar numa transição democrática
através de eleições Julgo ser essa, então, a convicção dominante entre grande
parte dos jovens mais ativos da minha geração no movimento estudantil de
Lisboa.
Contudo, um dia, na Suécia, os meus amigos de lá mostram-me um pequeno
apontamento que tinham escrito sobre mim, que têm em casa: Fulano tal,
dirigente estudantil português, socialista não comunista. Definição rápida de
um sueco social-democrata, que me conhece há menos de um ano, e que não pode
perceber a dificuldade conceptual de tentar ser jovem radical, e de esquerda,
num regime fascista
Nem na Suécia nem na Alemanha (nem noutro lado) tenho quaisquer relações
partidárias com o Partido Social-Democrata ou com dirigentes do Partido Social-
Democrata. As minhas relações são sempre com dirigentes estudantis. É em
Uppsala que entro em contacto com estudantes que são militantes do PAIGC e que
se encontram em exílio político na Suécia. Estou também com portugueses que
fugiram de Portugal. Nessa altura, estão lá colegas que saíram um ano antes do
Técnico, alunos da Academia Militar (e do IST) que desertaram para a Suécia. O
objetivo é simplesmente romper o bloqueio informativo e obter, para a
Associação do Técnico, informação do outro lado para distribuir dentro do
movimento estudantil em Portugal. O que é que, de facto, se está a passar em
África? Esse era o objetivo. Concretizamo-lo mais uma vez através do turismo
estudantil. À Associação do Técnico chegavam pelo correio montanhas de sacos
com papéis e prospetos de turismo. Partimos do princípio que, se forem
incluídos sistematicamente, folhetos com informações dentro de alguns dos sacos
e entre esses prospetos turísticos, nem todos são apanhados e alguns hão-de
passar. Que me lembre, foi tudo recuperado.
LTO - O que eram esses folhetos clandestinos?
JMG - A maioria eram publicações do PAIGC. Que fazíamos com essa informação?
Circulava pelos amigos, é claro, e, normalmente, depois de lhes cortarmos os
cabeçalhos, afixávamos tudo numa espécie de grande jornal de parede que
tínhamos criado à entrada da Associação e onde cada qual podia afixar o que
quisesse. Formalmente, a Associação não tinha nada a ver com aquilo, cada um
punha lá o que considerasse informação relevante. Não me recordo de ter sequer
contado nada disto dentro da direção da Associação. Os papéis eram lá postos,
apareciam lá. Passou a haver um corrupio de gente que passava por lá para ler
um jornal de parede com informações não censuradas, de toda a espécie. Dei o
exemplo dos textos do PAIGC mas, no essencial, as informações afixadas diziam
respeito ao próprio movimento estudantil em todo o país, e também ao que a
censura não tinha deixado publicar nos jornais e que milagrosamente nos
aparecia ali afixado Claro que havia pides à entrada.
A importância deste meio de informação, o jornal de parede, acentuou-se na
primeira greve da Carris e, depois, com as greves na cintura de Lisboa, em
1969-1970.
Nessa altura, este passou a ser o sítio público com mais e melhor informação
que existia em Lisboa, possivelmente em Portugal, porque muita gente ia lá
deixar informação. Púnhamos lá toda a informação que tínhamos. Encorajávamos
quem quisesse a deixar informações que se afixavam. A difusão de muita
informação sobre África foi feita aí. O movimento estudantil estava a assumir
novas funções, portanto, e a promover diretamente o exercício de liberdades que
eram reprimidas. Podemos perguntar: e houve mais do que isso?
LTO - Isso representa uma grande abertura à sociedade.
JMG - Estou aqui a falar na primeira pessoa, mas a mudança social e política
dessa época de transição é feita de muitas histórias e inúmeros percursos que,
em conjunto, traçam um caminho novo para a sociedade portuguesa ' e, de certa
maneira, porventura vão prefigurar o que ela vai ser depois.
Como presidente da Associação de Estudantes do Técnico, procurei e tive
contacto com comités de greve da área de Lisboa com o objetivo de dar
informação sobre o que estava a acontecer na Universidade e assegurar que nós
dávamos informação para dentro do movimento estudantil e, através dele, para o
resto do país.
No verão de 70, organizámos uma operação maciça, montada a partir da tipografia
do Técnico, de distribuição, nas férias, de informação pelo país todo, a partir
das associações de estudantes. Fizemos, salvo erro, 30 mil cópias de um folheto
de informação que continha desde informação sobre o movimento estudantil até
informação sobre a guerra em África e sobre as lutas operárias, que deixámos em
molhos nas associações de estudantes para quem quisesse levar e distribuir nas
férias. Esta operação de informação, que pretendia ter alcance nacional, foi
pensada estrategicamente.
LTO - Esta luta atende a duas dimensões: a social e a colonial. É assim?
JMG - Exatamente.
LTO - Foi assumida pelo Técnico ou pela RIA [Reunião Inter Associações]?
JMG - Foi a RIA que assumiu. Muita gente colaborou. A impressão fez-se no
Técnico. A distribuição foi assumida por todas as Associações.
LTO - O que publicava a tipografia da Associação de Estudantes do Técnico?
JMG - Durante o dia, publicava o que era normal: as folhas, isto é, os textos
didáticos para as diferentes cadeiras, livros, formulários, tudo.
LTO - E à noite?
JMG - Alguns de nós sabiam operar as máquinas que tínhamos na altura: stencil,
stencil eletrónico, offset, etc., e a deixar a oficina impecável. Claro que com
a cumplicidade implícita de funcionários que se apercebiam perfeitamente de que
tínhamos lá andado a trabalhar. É impossível, mesmo que se seja muito bom,
entrar numa tipografia à noite e, no dia seguinte, um especialista não perceber
que alguém lá esteve a mexer.
LTO - Já me contou que encontraram uma assoalhada falsa
JMG - Procurei um espaço sobretudo para guardar documentação, coisas recebidas
que não queríamos levar para casa e que não deviam estar à vista. Além disso,
sabíamos que, dentro do Técnico, havia contínuos que eram pides e sabíamos, ou
julgávamos saber, que havia funcionários, até dentro da própria Associação, que
eram informadores. Vivia-se num mundo muito difícil.
Quando estávamos a tentar construir uma espécie de cachapuz que permitisse
guardar coisas que não fossem detetadas facilmente (claro que numa busca
sistemática encontrar-se-iam), descobrimos por acaso que essa arrecadação já
estava feita mas tinha sido entaipada.
Medindo bem, verificou-se haver ali uma divisão de que nunca nos tínhamos
apercebido. Entre duas divisões, havia outra entaipada pelos dois lados. Sempre
tínhamos julgado que aquela porta bloqueada que havia numa sala, de um lado,
era a mesma porta do outro, até um dia termos pensado que aquilo era um bom
sítio, começarmos a medir e descobrirmos que havia talvez 1 metro entre as duas
portas. Portanto, havia uma divisão ali no meio. Afinal, não era a mesma porta,
eram duas portas. Um truque quase infantil. Forçámos uma das portas, abrimo-la,
fechámo-la e pusemos tudo igual.
Dentro dessa pequena divisão abandonada, encontrámos uma cama de campanha onde
se podia dormir e, portanto, onde se podia esconder uma pessoa, e um velho
copiógrafo inutilizado porque um dos rolos estava estragado ' e nunca o
consegui recuperar. E encontrámos, também, os restos de um stencil
antiquíssimo. Era, imagine-se, um comunicado de apoio dos estudantes que iam
conduzir os elétricos da Carris (em greve) em 1919!
Não sei de onde aquilo podia ter vindo. Nessa altura, já existia o IST mas não
estava sequer naquelas instalações da Alameda, que só iriam ser construídas
décadas depois, portanto, não faço ideia como é que aquele copiógrafo e aquele
stencil puderam aterrar ali. Teriam sequer alguma coisa a ver um com o outro?
Não sei.
LTO - Como é que interpreta a existência desse comunicado? Porque é que lá
estava escondido?
JMG - Não sei. Não faço ideia.
LTO - Nunca mais o viu?
JMG - Não. Fizemos então uma compilação sistemática de toda a documentação
antiga que se conseguiu encontrar na Associação e de toda a documentação
produzida por nós, desde o jornal das cheias até tudo o resto. Tudo se guardou
nos arquivos da Associação que foram organizados.
Anos mais tarde, quando voltei a Portugal e ao Técnico, ainda contactei os
dirigentes da altura e a maioria do arquivo tinha desaparecido. Estará parte
nos arquivos da PIDE? Teria sido simplesmente vandalizado, nalguma altura,
antes ou depois do 25 de Abril? Haverá partes que foram guardadas em casa de
alguém? Não sei.
LTO - Discutiram esse comunicado? Falaram sobre ele?
JMG - Falámos entre nós, mas não sabíamos o que era, ninguém sabia.
LTO - Foi uma novidade?
JMG - Nenhum de nós sabia o que tinha sido Portugal em 1919, por volta da época
do Sidónio Pais. Não havia ali ninguém por perto que nos pudesse esclarecer.
Ainda falei com mais duas ou três pessoas mas ninguém sabia.
Histórias antigas eram assim: na altura das cheias, corria no movimento
estudantil que não era a primeira vez que isto tinha acontecido, que tinha
havido um movimento de solidariedade feito por estudantes na Cova do Vapor, na
altura da sua destruição pelo mar nos anos 40, mas também não se sabia bem
quando. Não se sabia de onde é que vinha esta informação, nunca a consegui
sustentar, mas havia alguém que dizia que tinha ouvido de alguém. Era tudo o
que se sabia. Mas tão vagas referências chegavam para que, nalguns de nós, se
formasse a convicção de fazermos parte de uma linhagem, de uma história antiga,
de outras tentativas e de movimentos análogos, mesmo que tal fosse impossível
de provar, e até pudesse ser falso (há algum romantismo nisso, bem sei, como se
alguns átomos do espírito da geração romântica ainda estivessem presentes no ar
que respirávamos ).Talvez nós andássemos à procura de uma História, de um
passado onde nos filiarmos, de uma genealogia simbólica, à procura afinal de
nos sentirmos menos sós, isto é, de conseguirmos perceber--nos como parte de
uma História que vem de trás.
LTO - Talvez nós andássemos à procura de uma História e ( ) de nos sentirmos
menos sós, disse. Sentiam-se sozinhos?
JMG - Achávamos que era tudo muito difícil! Não havia informação, não havia
História, éramos independentes de partidos e tínhamos que tentar saber o que se
passava no resto do mundo, o que se passava em África Estava tudo escondido,
não havia nada! O que nos vinha das gerações anteriores era uma mistura muito
complicada de factos e de mitos As causas em nome das quais aquelas lutas
tinham sido travadas diziam-nos pouco. Obviamente que exprimíamos e sentíamos
uma solidariedade total com os que estavam presos, assinávamos as coisas todas,
fazíamos o que era preciso, protegíamos quem precisasse de ser protegido. Mas
era outro mundo.
LTO - O vosso movimento constituía uma afirmação de uma cultura muito juvenil?
JMG - Também, certamente, mas isso já teria acontecido antes, com todas as
outras gerações jovens.
Acho contudo que estava em jogo a emergência de uma cultura política moderna,
que era diferente da que nos era transmitida pelas gerações anteriores. Era uma
cultura política que não podia admitir que houvesse princípios em nome dos
quais o movimento estudantil não pudesse discutir publicamente a guerra de
África e não pudesse defender a independência das colónias e a deserção quando
se era chamado para a guerra colonial.
Passou então a ser comum nas associações de estudantes discutir-se a deserção.
Quando toda a gente consciente achava que era abominável ir para África matar a
gente de lá que queria a independência das suas terras, parecia óbvio que tinha
de se introduzir no movimento estudantil o debate sobre o que se devia fazer:
se era ir para a tropa (e tentar lá dentro não sei o quê, nunca percebi) ou se
era, honestamente, desertar. Mas levantar essa questão fundamental nunca tinha
acontecido no movimento estudantil até então e aconteceu pela primeira vez,
publicamente, em 1970, em Lisboa.
LTO - Tudo aquilo acontece no ano de 69/70, ano em que é presidente?
JMG - Tudo parece acelerar, nesse ano. Não sei como é que consegui fazer todas
essas coisas durante esse ano que, visto à distância, parece imenso, cheio
Isto numa altura que não era fácil para o movimento estudantil em lado nenhum,
e com a crise de 69 em Coimbra.
Ia regularmente a Coimbra e dormia em qualquer república. As repúblicas de
Coimbra tinham decidido coletivamente (o que me comove ainda hoje) que eu podia
aparecer a qualquer hora em qualquer república e seria sempre acolhido.
Confesso que me sentia então muito mais próximo do Conselho das Repúblicas de
Coimbra (mais radical, mais plural, mais próximo dos movimentos de
independência africanos) do que da Associação Académica.
Nessa altura, tinha também descoberto os arquitetos de Belas-Artes no Porto,
através de amigos, quando andava à procura do movimento estudantil na cidade.
No Porto, e com a geração dos arquitetos modernos, em torno da qual se
estendiam redes de solidariedade e de debate únicas, parecia que se estava num
mundo civilizado, tive como que a sensação de chegar pela segunda vez à Suécia
LTO - Se eu tivesse que caracterizar o ano de 69/70, diria que é um ano de
grande empenhamento no turismo estudantil, na relação com Coimbra e com o
Porto, nas relações com o exterior em geral.
JMG - Não sei. No caso de Lisboa, o ano de 1969/70 caracteriza-se pela
organização do movimento estudantil como movimento de intervenção política não
partidária.
LTO - Com grande ligação à questão colonial e à questão das lutas sociais. É
isto?
JMG - Ligação, empenhamento, atenção às lutas sociais, atenção a África e, no
caso concreto do Técnico, há que acrescentar ainda a própria reforma curricular
em que participámos muito ativamente.
Isto é curioso. O movimento estudantil do Técnico, esse mesmo movimento que
afronta o tabu da deserção, da guerra colonial, que se mobiliza para informar o
país e para modernizar o movimento estudantil no seu conjunto, entra muito
ativamente na reforma do ensino de engenharia ' como se essa também fosse uma
dimensão obrigatória do seu movimento de ida para fora e de se aproximar do
mundo lá fora.
LTO - Em que consiste o vosso empenhamento na reforma do sistema de ensino?
JMG - O Conselho Escolar do Técnico era muito interessante porque, quando é
reformulado por Fraústo da Silva, tem representantes eleitos dos professores,
dos assistentes e dos estudantes. O debate sobre a reforma curricular do
Técnico torna-se uma discussão não apenas para a sua modernização científica e
técnica, mas também sobre a própria decência do ensino.
LTO - Em que outras grandes mudanças participaram?
JMG - No IST, o movimento estudantil, durante esse ano, talvez tenha sido mais
ativo ao nível do funcionamento dos cursos do que o que era costume, porque o
próprio funcionamento da Associação tinha mudado. As Comissões de Curso eleitas
funcionavam e tinham propostas: substituir cadeiras antiquadas por cadeiras
modernas que não estavam nos nossos currículos, promover uma relação com a
investigação muito mais forte.
LTO - Em que consistiam as disciplinas de oficinas no IST?
JMG - Exceto, talvez, nas máquinas, as oficinas já eram uma pálida amostra do
que devem ter sido. Eu ainda fiz Máquinas Elétricas, onde aprendíamos a
testar motores e alternadores elétricos correntes na indústria e nos
transportes. Havia eletrónica num pequeno centro de investigação eletrónica
recente, mas não oficinas ou laboratórios de eletrónica para os alunos. Na
altura, as oficinas estavam decadentes. Julgo que havia oficinas mecânicas para
o curso de Mecânica e de Civil. No meu setor não tínhamos oficinas mecânicas.
Frequentei oficinas de máquinas elétricas, mas nunca oficinas normais de
eletricidade, nem de mecânica.
Só quando estava talvez no 4.º ou 5.º ano do Técnico fiz o meu primeiro
programa de computadores, num curso livre organizado pela IBM no Técnico. Na
altura, no Técnico não existia tal coisa! A máquina (o computador da IBM)
estava num edifício em frente da livraria Bucholz onde a IBM portuguesa tinha
instalações. Aprendíamos, programávamos, íamos lá levar o que tínhamos feito e,
depois, íamos receber os resultados.
Em 71, saí do Técnico e fui para a Polytechnique. Só aprendi o que era uma
verdadeira oficina mecânica aí, na Escola Politécnica em Paris, e depois no
CERN, quando cheguei a Genebra.
Percebi que tínhamos, no IST, um excelente curso à escala europeia, no que diz
respeito à maioria da formação de base. Talvez tivesse aprendido mais
estatística e mais matemática do que a esmagadora maioria dos meus colegas
jovens investigadores. E tanta física clássica como eles, mas, na maioria, de
forma escolar, sem enraizamento na atividade científica moderna, que nos
faltava. E não tinha, de todo, uma prática experimental decente e uma
familiaridade com oficinas e práticas técnicas. Se nos comparássemos então com
alemães ou ingleses, tínhamos muito menos experiência empírica do que todos
eles. E, além disso, em todos esses países mais avançados, as boas
universidades eram universidades de investigação, os professores ensinavam não
só o que tinham lido nos livros (como aqui) mas a sua própria vivência de
investigação científica ou de desenvolvimento na indústria.
Muitos dos assistentes, jovens e menos jovens, eram ótimos e foram eles que
começaram a fazer o Técnico moderno. A reforma acabou por lhes dar poder e por
estimular o desenvolvimento de setores de investigação na escola, então
incipientes ainda, mas já significativos na química, por exemplo. Começava a
haver gente formada lá fora que voltara, investigadores que publicavam,
produziam.
Acho fundamental o papel de alguns bons professores, mais velhos, que não
faziam investigação, mas que sabiam o que era investigação e ciência e
desejavam-na para o país ' como o Prof. Abreu Faro, que foi presidente do
Instituto de Alta Cultura, meu professor (e um educador extraordinário), pessoa
de quem fui muito amigo e que empurrou tantos de nós para fazer investigação no
estrangeiro. Ainda o ouço quando repetia, com humildade e determinação raras:
Nunca fiz investigação, não sou um cientista, mas quero que a geração dos meus
alunos faça ciência e que faça disto uma universidade a sério (isto era o
Técnico, era a universidade portuguesa toda).
LTO - E o movimento estudantil tinha essa bandeira de luta?
JMG - No Técnico, tínhamos a bandeira da modernização dos conteúdos e das
práticas de ensino, da qual constava a aspiração a atividades experimentais
normais, laboratórios modernos e à incorporação da investigação no ensino. No
fundo, contra o caráter arcaico do ensino, e pela modernidade tal como a
imaginávamos. E, por outro lado, os textos teóricos que escrevemos e alimentam
o debate no movimento estudantil (essencialmente com base em Económicas e no
Técnico, nessa altura) são orientados contra o caráter de classe da educação
universitária de então ' restrita a uma minoria social e reprodutora de valores
conservadores.
Fazíamos o que podíamos para ajudar a melhorar o ensino na Escola, mas também
sabíamos que não eram reformas locais que iam conseguir democratizar o ensino
em Portugal ' e por isso o movimento estudantil se opôs frontalmente à ilusão
das reformas marcelistas.
LTO - Quando deixou de ser presidente da Associação?
JMG - No final do ano letivo 1969/70, portanto talvez em junho de 1970, deixei
de ser presidente da Direção.
LTO - Quis deixar de ser presidente?
JMG - Fazia parte da ética republicana: era-se presidente um ano, ponto final.
Nem passava pela cabeça de ninguém. A seguir a mim, veio o João Vieira Lopes,
que tinha estado na minha direção. Fiquei ainda no grupo que partilhava algumas
decisões. Já não me lembro se era da mesa da Assembleia-Geral ou Conselho
Fiscal. Nesse último ano, ainda continuei a ajudar no turismo estudantil.
LTO - Em 70/71, já era monitor?
JMG - Exatamente. Fui monitor no ano a seguir a ter estado na direção da
Associação. Em 71, concorro a uma bolsa de doutoramento do Instituto de Alta
Cultura, tenho uma bolsa para ir para França e vou fazer um doutoramento em
Física de Partículas.
LTO - A viragem para os anos 70 é marcada por uma nova relação com a sociedade,
não é? Que dimensões práticas tem?
JMG - Diria assim: o movimento estudantil sente a responsabilidade de informar
a universidade sobre o que é Portugal e, para isso, sente a necessidade de
saber, de perceber Portugal, a sociedade, a economia, o mundo Daí o tentar
estudar e tentar aprender tudo, procurar interpretar o que se passa, com as
poucas informações, as fontes limitadas, o acesso escasso a quem nos pudesse
explicar, tudo isso ainda com um sentido de urgência, e de forma, sei lá,
inocente, quase pueril.
Exemplos pessoais. Tentei perceber o que era a indústria portuguesa, que papel
tinha, ou teria, no futuro de Portugal. Eu sabia que ia sair de Portugal por
muito tempo, talvez para sempre, e tentava aproveitar os períodos disponíveis
para aprender, tentar perceber. Escolhi um estágio nos estaleiros navais de
Viana do Castelo e também no departamento de investigação da CUF. Fui falar com
o Armando de Castro ao Porto. Contactei o Francisco Pereira de Moura e estudei
os livros dele (fui aliás às suas provas públicas), contactei o João Martins
Pereira. Todos me ajudam, ensinam a ler as estatísticas, me dão relatórios e
livros, falam, explicam, transmitem a sua visão. E vou a Trás-os-Montes, a Rio
de Onor, recomendado por amigos do Porto, que ainda tinham ajudado a
investigação de Jorge Dias.
LTO - Portanto, o então finalista José Mariano Gago andou entre o IST, os
estaleiros de Viana do Castelo, Belas-Artes do Porto e a caminho de Rio de
Onor. É isto?
JMG - Parece pueril, não é? Trata-se de uma procura de conhecimento, certamente
muito amadora, de jovens que, nessa idade, achavam ter a obrigação de saber
muito mais e de perceber muito mais ' mas tudo isto num país em que nada
funcionava, em que não se era informado e em que tudo o que era importante
parecia fechado a sete chaves. Esses jovens procuravam ler tudo o que
encontravam nas livrarias e procuravam desesperadamente orientação intelectual
que lhes permitisse estudar, entender Portugal, perceber um bocadinho o mundo.
Estou a contar o meu caso, mas há muitos outros, certamente muito mais
interessantes.
LTO - Quanto ao Prof. Francisco Pereira de Moura: o que aconteceu?
JMG - O movimento estudantil mobilizou-se em peso para estar presente nas
provas para professor extraordinário de Francisco Pereira de Moura do ISEG, que
foram nesse ano e tiveram lugar num anfiteatro do Técnico. Se bem me lembro,
não foram só estudantes de Económicas e do Técnico; acho que nós passámos a
palavra aos presidentes das associações de estudantes de Lisboa e houve uma
mobilização de dirigentes académicos que lá esteve presente em silêncio.
LTO - Era uma pessoa querida?
JMG - Claro, muitíssimo. Ele sabia de Portugal e da economia portuguesa.
LTO - E há mais professores que tenham conseguido esse apoio?
JMG - Não sei dizer. Lembro-me muito da ternura que tínhamos pelo Prof. Lindley
Cintra, uma pessoa queridíssima, que considerávamos corajoso.
LTO - Lindley Cintra faz recolhas sobre a língua portuguesa; Pereira de Moura
escreve LTO -Para Onde vai a Economia Portuguesa. Segundo li, o movimento
estudantil de Económicas, com afinidades com o do IST, começa a editar uma
revista, que depois vai dar a LTO -Arma/Crítica, com o levantamento da
realidade portuguesa.
JMG - Era exatamente esse o modelo que nós tínhamos, também.
LTO - Portanto, há uma vontade de conhecer Portugal, o mundo e as colónias?
JMG - Há uma vontade profunda de conhecer Portugal em todas as suas dimensões,
desde as recolhas etnográficas até à história colonial. Cada qual terá a sua
própria história. É por todo o lado uma busca incessante, mesmo que possa
parecer, repito, quase infantil.
LTO - Porque é que é infantil?
JMG - Por estarmos então num país desgraçado! Com 21 ou 22 anos, se
estivéssemos num país normal, culto e livre, e numa boa universidade, estávamos
ainda nisto? Não teríamos saltado já todas essas etapas, aprendido com as
gerações anteriores, sido orientados para estudar o que não se sabia? Não
estávamos era com certeza condenados a descobrir a pólvora aos 21 anos! Bem sei
que estou a caricaturar. Mas tudo isto era pequenino, fechado, desorganizado,
tristinho e tarde e a más horas. Nós sabíamos que a cultura era outra coisa.
Sabíamos que a universidade tinha de ser outra coisa! Por amor de Deus! O
Einstein escreveu os primeiros artigos da relatividade aos vinte e poucos anos.
A Universidade europeia não era nada isto que se vivia em Portugal já há muitas
décadas e nós, de repente, tivemos a noção clara desta desgraça.
LTO - Os que vos tinham antecedido também tinham alguma preocupação com o
enquadramento internacional?
JMG - Não sei. Mas provavelmente esta experiência de que sou testemunha é
possível simplesmente porque ocorre num período de relativa acalmia de
repressão, apesar de tudo, quando comparado com outras épocas.
LTO - É uma conjuntura especial.
JMG - É. Nesse ano, a viragem do movimento estudantil de Lisboa talvez possa
ser descrita, numa perspetiva histórica e política, como uma verdadeira
mutação: no final de 1969 as direções eleitas das associações de estudantes de
Lisboa deixam, na sua quase totalidade, de ser controladas pelo PCP (ou por
qualquer outra força política organizada). Durante a maior parte do ano letivo
1969/70, os dirigentes máximos das associações académicas de Lisboa não são
filiados em quaisquer partidos ou organizações políticas. Essa viragem
liberta o movimento estudantil em Lisboa para um tipo de intervenção nova,
designadamente de oposição frontal à guerra colonial.
Se tiver de escolher uma ação política que fiz que considero verdadeiramente
relevante no movimento estudantil foi, na primavera de 1970, ter promovido em
Lisboa uma reunião pública com os presidentes de todas as associações de
estudantes, e que ocupou o átrio da Faculdade de Letras de Lisboa, contra a
guerra colonial, considerado um tabu do movimento estudantil.
O PCP estava completamente contra que o movimento estudantil se metesse nisso.
Mas para nós era essencial que o movimento estudantil tocasse naquilo que era
um elemento absolutamente central: os rapazes saiam dali e iam para a guerra.
Estava na nossa consciência: o que é que nós estávamos a fazer no movimento
estudantil se não tocássemos nesse problema? Foi uma reunião que eu dirigi e,
por solidariedade, todos os presidentes de associações de estudantes estiveram
presentes. O átrio da Faculdade de Letras estava completamente cheio de gente e
com um professor, o Lindley Cintra, e um investigador da Universidade, o Afonso
de Barros, presentes. Lembro-me onde é que o Lindley estava, naquele átrio.
Diria que isso marca, também, uma mudança na relação do movimento estudantil
com a política e com a sociedade. Durante essa reunião, a Cidade Universitária
é cercada e estávamos convencidos que seriamos presos nessa noite, o que não
aconteceu; as pessoas só começaram a ser presas muito tempo depois. Mas este
tempo foi deveras extraordinário, em muitas dimensões.
LTO - Pode dar exemplos desse tempo ( ) deveras extraordinário?
JMG - A manifestação de protesto organizada pelo movimento estudantil de Lisboa
e de Coimbra, juntos, na Final da Taça, no Estádio Nacional, em Lisboa, é um
exemplo marcante. Hoje quase parece inconcebível que isto tenha acontecido.
Coimbra está ocupada e a ferro e fogo.. A Académica é apurada para a final da
Taça de Portugal no Estádio Nacional e decidimos fazer, com Coimbra, uma grande
operação de divulgação de informação no Estádio Nacional. Foi das organizações
mais difíceis que fizemos em Lisboa.
LTO - Pode concretizar?
JMG - Era difícil meter dezenas de milhares de comunicados dentro do Estádio
Nacional, quando as pessoas e todos os acessos eram revistados, com a PIDE
mobilizada em todas as bancadas. Mas não houve uma única pessoa que fosse
presa. Conseguir desencadear no Estádio Nacional uma operação com palavras de
ordem e informação em todas as bancadas, sem que a PIDE conseguisse chegar a
alguém, foi talvez a operação mais difícil em que estivemos envolvidos. Não me
recordo quem foi o verdadeiro comandante operacional do nosso lado, mas o seu
talento poupou vidas e permitiu atingir os resultados pretendidos.
Quem levou a maioria dos papéis lá para dento foram raparigas, sempre na roupa
interior, e eram precisas muitas porque foram distribuídos dezenas de milhares
de papéis. Havia o problema de metodicamente organizar o espaço. A polícia
estava cá em baixo e tentava subir e a população foi extraordinária porque
impediu a passagem da polícia em todo o sítio. Era a Final da Taça e o Estádio
Nacional estava à cunha.
A certa altura as palavras de ordem começaram a ser gritadas e houve faixas,
enroladas por dentro da roupa, que se levantavam. Quando a polícia tentava
subir, a faixa já tinha desaparecido. Era preciso passar a primeira, a segunda,
a terceira, a quarta fila e, depois, já estava tudo aos gritos por causa do
jogo que decorria no relvado. Foi uma tensão horrível. Eu estive lá dentro e
ainda hoje não consigo entrar no Estádio Nacional sem me lembrar e sem olhar
para as bancadas como terreno de uma operação muito arriscada.
LTO - Mas como dividiram e organizaram as tarefas no Estádio Nacional?
JMG - Houve uma organização por equipas que ocuparam setores do Estádio. Uns
tinham os papéis, outros distribuíam-nos, outros tinham as faixas, outros
gritavam, outros, pura e simplesmente, protegiam aqueles, outros protegiam os
que protegiam aqueles Era muita gente! Foi uma operação que, de pessoal ativo,
deve ter envolvido mais de 500 pessoas.
LTO - E qual o papel da Associação Académica de Coimbra?
JMG - Coimbra esteve presente em força. Era natural, vinham ver o jogo, apoiar
a sua equipa. Os ativistas estavam enquadrados por nós para a distribuição dos
papéis e para serem protegidos dentro do Estádio e à saída.
LTO - Digamos que, nessa organização, haveria um topo, os que distribuíam os
comunicados e os da proteção.
JMG - Tínhamos proteção em todo o lado, disfarçada, à entrada do Estádio, junto
de cada cavalo da Guarda Nacional Republicana e junto de todos os pides que
tínhamos localizado.
LTO - Como é que montaram a operação?
JMG - Quando se é novo, faz-se tudo!
LTO - Não pode ser! De onde é que vem essa sabedoria? Dos engenheiros, dos
militares?
JMG - Não sei, mas havia quem soubesse.
LTO - Do Partido Comunista Português?
JMG - Não, nem pensar! Mas havia gente que achava que sabia ou descobriu como é
que se fazia. E também se aprende fazendo, não é verdade?
LTO - Mas é difícil manter o sigilo com 500 pessoas.
JMG - Obviamente que havia pides naquele debate tremendo que teve lugar na
reunião preparatória da RIA de Lisboa com a Associação de Coimbra. A PIDE sabia
que aquilo ia acontecer. Simplesmente, nós seguíamos escrupulosamente uma
regra: mesmo em RIA fechada (e as RIA fechadas passavam-se a seguir às RIA
abertas e nelas só participavam os presidentes das associações de estudantes),
não se tratam assuntos operacionais. Trata-se da ideia geral mas nunca de
assuntos operacionais nem se refere quem é a pessoa ou pessoas que estão
encarregadas das operações. Foi a regra que nós adotamos durante todo esse ano.
E nunca eram autorizadas fotografias, mesmo em plenários.
LTO - Onde é que aprendeu tal?
JMG - Não sei. Aprendíamos uns com os outros. Alguma coisa deve ter vindo de
trás, dos mais velhos. O resto, das nossas cabeças.
LTO - Outra questão importante é a relação com o Instituto Industrial. Como a
caracteriza?
JMG - A certa altura, desenvolveu-se um movimento estudantil organizado, sob a
forma de pró-associação, no Comercial e no Industrial que se aproximou do
Técnico, que era o centro das operações em Lisboa. Procurou vir às RIA e
naturalmente abrimos-lhes todas as portas.
Das primeiras vezes que houve ações conjuntas com o Industrial e o Comercial,
nós sentimos que havia uma repressão brutal e desmedida sobre eles. A eles, a
polícia ia lá dar-lhes pancada. Não era costume, não acontecia em período de
paz a polícia ir para a porta do Técnico à noite para nos dar pancada quando
saíamos da Associação de Estudantes, depois de uma reunião. Mas fazia isso no
Comercial e no Industrial. Percebia-se que havia uma perseguição efetiva contra
a emergência de organização estudantil no Industrial e no Comercial e contra a
sua aliança com o movimento universitário. Na altura, interpretámos isto como
uma separação de classe. E é verdade que, através do Industrial e do
Comercial, passámos a ter acesso a outros grupos sociais que não contactávamos
diretamente. Foi através deles que tivemos acesso direto a muita gente do meio
operário.
LTO - Gente que procuravam ' como, por exemplo, na altura em que queriam
informações sobre a greve da Carris?
JMG - Sim, por exemplo. E foi através de muitas pessoas do Industrial e
Comercial que, mais facilmente, organizámos algumas redes de deserção.
LTO - Porquê?
JMG - Porque vinham do povo, ora essa! Era outro meio social.
LTO - Essa diferença era muito nítida?
JMG - Então não era??!!
LTO - Que relações tinham como movimento estudantil dos liceus?
JMG - Tivemos contacto, sim, mas não muito, com o movimento dos liceus que
estava a crescer mas ainda não tinha atingido a dimensão que teria depois.
LTO - E com o das escolas técnicas?
JMG - Não sei. A experiência significativa que eu, pessoalmente, posso
transmitir não está no MAEESL (Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino
Secundário de Lisboa). Está no Comercial e Industrial como tendo dado ao
movimento estudantil, por uma via lateral, uma relação com outros meios sociais
de que, provavelmente, poucas pessoas se aperceberam. Eu próprio procurei
estabelecer uma relação muito direta com o Comercial e o Industrial que,
depois, foi muito importante para a abertura ao que se passava noutros meios
sociais.
LTO - Porque teve essa preocupação com o Comercial e o Industrial? Como surgiu?
JMG - Acho que era uma vontade de ir ter com o país, de não ficar fechado nas
fronteiras da classe social.
LTO - Vê-se que procurou perceber e transmitir a história do movimento
estudantil. Sentia que os estudantes entravam e saíam da universidade, que
tinham uma presença efémera e que a memória não era passada?
JMG - Procurámos tentar saber o que tinha havido para trás.
LTO - Não tinham um pai/partido a quem perguntar?
JMG - Queríamos saber. Naturalmente, tentámos falar com quem tinha estado
implicado diretamente nas crises anteriores, 62, ou 64, mas sabíamos pouco.
LTO - E sabiam das manifestações dos tempos da Segunda Guerra Mundial?
JMG - Sabia pelos meus pais e outros saberiam pela família, mas não tínhamos
recebido essa informação por via interna do movimento estudantil, não.
LTO - Sabiam da luta contra o Decreto n.º 40 900?
JMG - Ah, sim. No passado, o 40 900 era o pão nosso de cada dia! Mas como é
que era possível um movimento estudantil moderno mobilizar-se em torno de um
abaixo-assinado contra um decreto?! Não cabia na cabeça de ninguém. Nós éramos
já de outra geração.
LTO - E onde aprendeu?
JMG - Estive no congresso do movimento associativo e ouvi tudo muito
atentamente. Não sei se antes, se no ano das cheias. No Técnico, havia quem
soubesse. Mas falar-se com os verdadeiros protagonistas do passado era muito
difícil, muita gente tinha sido presa e outros tinham simplesmente acabado os
cursos, ou desistido, e não era fácil, nesses tempos, encontrá-los. Procurei o
Jorge Dias de Deus, o António Redol, o José Bernardino, o Jorge Sampaio, o
Vítor Wengoriovius e muitos outros antigos dirigentes.
LTO - Tinha como objetivo perceber o que se tinha passado anteriormente?
JMG - Acho que é mais simples do que isso. É aquela mania de tentar perceber
Portugal, tentar perceber tudo, onde é que nós estamos, de onde vimos, para
onde vamos, o que somos. E não era só o Técnico que queria perceber.
LTO - E também perceber a prisão, a tortura e as pessoas?
JMG - Na altura, mesmo não estando integrados num partido político ou numa
organização política, estávamos à espera de ser presos a qualquer momento. E,
depois, quando alguns de nós começaram a fazer trabalho clandestino ' porque o
primeiro trabalho clandestino, a sério, fora do movimento estudantil, que
alguns de nós começaram a fazer foi, além de trazer ou dar informação, ajudar
pessoas a fugir ', sabíamos que havia muita coisa para nos meter na cadeia.
Rapazes que queriam desertar e passar a fronteira era trivial Havia muito boas
razões para nos prenderem.
LTO - Não digo que querer perceber o que acontecia na prisão e na tortura fosse
para se preparar para essa eventualidade; mas poderia ser para querer perceber
o que acontecia às pessoas que passaram por tal.
JMG - Claro, mas isso sabia-se. Nós líamos, falávamos com toda a gente
Procurávamos saber o que se passava dentro da cadeia e no interrogatório, fazia
parte da nossa cultura.
LTO - Queria perceber o drama íntimo de cada um, especialmente dos que tinham
falado na cadeia?
JMG - Essa atitude humana não sei se era partilhada por muita gente. Nunca tive
uma atitude de condenação sumária. Mas vi muita gente à minha volta que achava
que era preciso ostracizar todos os que tinham fraquejado na tortura. Conheci
mesmo um fanático que defendia a sua eliminação! Se há pecado que não cometi
foi esse de estar contra as pessoas que falaram na cadeia, especialmente
aqueles que, dois anos mais tarde, me denunciaram. Difícil foi fazer acreditar
aos próprios que eu não tinha nada mas absolutamente nada contra eles. Foi
muito difícil e não sei se consegui ou sequer se fiz tudo o que era preciso.
LTO - Disse-me, também, que falou sobre a história do movimento estudantil, por
exemplo, com a Valentina Garcia
JMG - A Valentina é uma amiga! Foi a primeira mulher a ser presidente da AEIST.
Numa certa época, aconteceu alguns dos dirigentes da Associação terem sido meus
alunos no 1.º ano e tornarem-se amigos. Houve também muitos membros de
sucessivas direções do Técnico que vieram ter comigo para eu lhes contar a
história que conhecia. Nos anos 80, houve muita gente que veio ter comigo para
saber: Conta lá como foi no teu tempo. E eu senti muita vontade de contar e
de perceber. Era como se houvesse ali uma continuidade, uma História a fazer-
se.
NOTAS
1
Este texto é uma versão mais alargada de uma entrevista a José Mariano Gago,
datada de 07-11-2010, e elaborada no quadro do Projecto IST: Um século de
existência. Cultura, Técnica e Sociedade IST The first hundred years (PTDC/
ANT/65979/2006), financiado pela FCT e pelo IST, coordenado por Jorge Freitas
Branco. Sobre a versão anterior, ver: BRANCO, Jorge Freitas, ed. - Visões do
Técnico, no Centenário 1911-2011 [Em linha]. Lisboa, ISCTE-IUL, 2013.
Disponível em WWW: http://hdl.handle.net/10071/4497