Frágil Como o Mundo: Etnografia do Quotidiano Operário
RECENSÕES
MONTEIRO, Bruno
Frágil Como o Mundo: Etnografia do Quotidiano Operário,
Porto, Afrontamento, 2014, 250 pp.
ISBN 9789723613681
Ana Delicado*
*Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Av. Professor Aníbal de
Bettencout, 9 1600-189, Lisboa, Portugal. E-mail: ana.delicado@ics.ulisboa.pt
Frágil como o Mundo é um livro incomum no panorama sociológico português. Como
o próprio título indica, sustenta-se essencialmente num trabalho de campo de
cariz etnográfico desenvolvido ao longo de vários anos junto de uma comunidade
operária no Norte do país. Bruno Monteiro realizou uma experiência de
observação participante numa fábrica de mobiliário, onde trabalhou como
operador de máquina e auxiliar de produção durante 14 semanas em 2007, e
residiu numa habitação partilhada alugada na localidade de Rebordosa durante 16
semanas, em 2008.
A análise é pois consubstanciada não só nas três dezenas de entrevistas em
profundidade a operários (em alguns casos cônjuges), mas também em notas do
diário de campo, com a descrição detalhada de ações e conversas associadas, e
na própria experiência física do autor enquanto operário.
Solidamente alicerçado na teoria clássica da sociologia/antropologia (através
de um uso extensivo de autores como Elias, Mauss, Goffman, Bourdieu,
Wittgenstein, Burawoy, Douglas, Geertz), ao longo dos 10 capítulos do livro
são tratados temas como a aprendizagem do ofício pela aquisição de uma
competência corporal (um senso prático), as relações de poder e dominação entre
gestores e trabalhadores na fábrica, as estratégias de colaboração e
resistência, a socialização dos operários e a noção de vocação, a sociabilidade
entre eles, as perspetivas de futuro (conjugado sempre no condicional).
O objetivo central da obra é introduzido pelo autor nas páginas iniciais: ao
tentar explicitar as evidências da existência operária procuramos interrogar as
modalidades de envolvimento prático com o mundo social a partir de condições
historicamente vividas enfrentadas por operários socialmente incarnados e
situados (p. 11).
É no (e sobre o) cenário da fábrica que ocorre grande parte da observação, mas
o autor também segue os seus operários no café, no ginásio, no clube de
futebol, nas saídas noturnas e no centro de emprego, local de concentração de
equívocos simbólicos (p. 219), ao qual é dedicado um capítulo inteiro que
narra e analisa a interação entre os desempregados e os funcionários da
administração estatal, separados por um hiato cultural dificilmente
transponível.
O pano de fundo que atravessa o livro é composto, por um lado, pela crise do
setor mobiliário português face à concorrência desigual com grandes
multinacionais, que agudizou os problemas de precarização, desemprego e baixos
salários deste grupo profissional, e, por outro (e em resposta ao primeiro),
pela transformação organizacional da fábrica observada, assente na inovação
tecnológica, na mecanização e informatização dos processos, e na adoção de um
modelo de gestão mais profissionalizado, pondo em causa a arte tradicional e as
relações sociais típicas de um negócio familiar. É pois um contexto de elevada
pressão, em que os operários são sujeitos a crescentes exigências de
produtividade e disciplina, racionalização e hierarquização, em que o tempo se
contrai e os ritmos de trabalho aceleram, em que o desgaste físico e
psicológico se manifesta e as relações entre colegas se degradam, minadas pela
desconfiança, pela inveja, pelo azar, pelas privações económicas. Numa feroz
denúncia do capitalismo, a crise é assim analisada como experiência
visceralmente vivida em situação e coletivamente partilhada (p. 197).
É devido a esta conjuntura, também, que se extremam as tensões entre operários
mais novos e mais velhos. Os mais jovens têm, por um lado, uma maior formação
escolar, capacidade de adaptação e familiaridade com o discurso dos gestores,
mas por outro são mais sensíveis ao estigma da condição operária, vista como um
falhanço na obtenção de um emprego limpo nos serviços, a qual procuram
ocultar através do consumo conspícuo e no esmero com a aparência pessoal. Os
operários mais antigos veem a sua experiência e destreza manual desvalorizadas
no confronto entre máquinas novas e pessoas velhas (nas palavras de um
operário jovem citado na p. 232), sendo remetidos à obsolescência e a um maior
risco de desemprego e pobreza.
Em todos os capítulos é prestada uma particular atenção ao corpo,
designadamente à experiência sensorial do trabalho e às mazelas físicas e
psicológicas por ele causadas (o corpo como um capital de risco), ao efeito
disciplinador dos regulamentos de segurança, aos cuidados na apresentação de si
fora da fábrica por parte dos operários mais jovens.
O livro destaca-se pelo esforço sistemático em dar voz aos operários, quer
através de (longas) citações das entrevistas, que chegam a ocupar várias
páginas consecutivas, quer no uso recorrente no texto dos termos usados pelos
próprios, por exemplo dar obra ao ser, ser marceneiro limpo, ganhar calo,
é um armante, andava com as vespas. Há uma opção deliberada por manter nas
transcrições o registo da oralidade, com as repetições, os coloquialismos e
regionalismos, as hesitações, as transgressões gramaticais e de ortografia.
Algumas limitações podem no entanto ser apontadas a este trabalho. O diálogo
com a literatura sociológica e antropológica portuguesa sobre operários é
escasso e parece limitado a autores a norte do Mondego. Estão ausentes, por
exemplo, as referências aos operários anarquistas de João Freire (1992), as
famílias operárias estudadas por Ana Nunes de Almeida (1993), os tipógrafos de
Susana Durão (2003), os trabalhadores da refinaria de Sines de Paulo Granjo
(2004), bem como a trabalhos mais recentes sobre outros profissionais menos
qualificados, como os jovens em inserções precárias (Alves etal., 2011) ou as
operadoras de caixa de supermercado (Cruz, 2003), entre outros. Por outro
lado, o capítulo dedicado à resistência dos trabalhadores face à imposição de
regras de higiene e segurança no trabalho poderia ter beneficiado de alguma
sustentação na literatura sobre risco profissional.
Como este livro recolhe alguns textos já publicados e outros inéditos,
provenientes do trabalho de investigação desenvolvido no âmbito da licenciatura
e mestrado do autor, o fio condutor da narrativa é bastante difuso e há várias
repetições em diferentes capítulos, como a descrição da metodologia ou a
recorrência de temáticas como a do corpo bestializado (pp. 34, 47, 80) ou os
dados de enquadramento sobre o setor mobiliário (pp. 105, 149).
O autor desenvolve um olhar deliberadamente seletivo sobre o objeto, focado nos
operários (homens) e remetendo quase à condição de figurantes os outros
assalariados da fábrica (incluindo a enigmática figura da engenheira),
gestores, patrões e as famílias dos operários (mulheres, filhos), referidos de
passagem mas praticamente sem direito a discurso na primeira pessoa.
Os resultados de investigação apresentados nesta obra inserem-se num trabalho
mais vasto de etnografia da contemporaneidade operária (p. 131), que inclui
outras experiências como o acompanhamento de uma equipa de futebol amador ou de
um grupo de trabalhadores da construção civil na emigração para Espanha. Estes
objetos de observação são referidos no livro de forma exploratória, mas não
desenvolvidos, pelo que se aguarda com elevada expetativa e interesse futuras
publicações sobre estas matérias.