Adolfo Coelho: os embates da língua e da linguagem
Com a exceção do anexo sobre os ciganos no Brasil, em Os Ciganos de Portugal
(Coelho, 1892), Francisco Adolfo Coelho, em princípio, interessou-se
lateralmente pela extensa presença portuguesa na cultura popular brasileira,
embora seja ela, com a língua, comum aos dois países. Jogos infantis,
provérbios, crenças, medicina mágica, técnicas artesanais, romances populares,
tudo teve no Brasil decisiva influência de Portugal, com acentuada mescla de
elementos culturais indígenas, de diferentes nações, e elementos culturais
africanos, de diferentes etnias. Embora, com o fim da escravidão e o começo da
grande imigração das últimas décadas do século XIX e das primeiras do século
XX, rapidamente se tenha difundido nas áreas de atração do imigrante, em
cidades como São Paulo, no sul e no sudeste, o folclore de outros países,
especialmente da Espanha e da Itália. Folclore convergente com o luso-
brasileiro, muitas conceções sendo comuns a várias culturas europeias,
reforçando-se reciprocamente (Fernandes, 1961). Penso nas crenças e ritos
relativos ao mau olhado e ao quebranto, de que Adolfo Coelho (1993a, pp. 497-
511) tratou em esclarecedor ensaio, o malocchio da Itália meridional, que no
Brasil encontrou cultura similar trazida pelos portugueses, tanto no
diagnóstico quanto no tratamento. Mesmo que no Brasil se tenha acrescentado às
manifestações malignas da fascinação a interferência do feitiço de origem
africana, o trabalho feito, o intuito do dano proposital a outrem.2
Provavelmente, aspetos da cultura popular brasileira são remanescentes perdidos
da cultura popular portuguesa, já desaparecidos em Portugal, o que deveria
atiçar a curiosidade de qualquer pesquisador do tema. Uma espécie de resíduo
arqueológico enterrado nos costumes de além-mar.
Um indício desse interesse limitado é o de que na publicação de Leituras
Escolares Brasileiras, coligidas e organizadas por Adolfo Coelho para a editora
paulista de Teixeira & Irmão, a reduzida presença propriamente brasileira
tenha merecido reparos dos leitores, como o de que nas fábulas figuram muitos
animais estranhos à nossa fauna, conforme comentou um crítico. Reparos cuja
procedência o próprio Adolfo Coelho reconheceu.3 Foi o que motivou o editor a
pedir ao autor e a publicar uma segunda série do livro destinado às crianças da
escola primária, com a inclusão de trechos de autores brasileiros e de
histórias brasileiras.
Já no plano da Linguística, Adolfo Coelho tinha consistente conhecimento das
variações da língua portuguesa falada no Brasil, como se infere de Os Dialetos
Românicos ou Neolatinos na África, Ásia e América, de 1881. Não só transcreve
extensamente um texto de Batista Caetano d'Almeida Nogueira sobre a língua
geral, publicado nos Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em 1879,
como cita várias vezes O Selvagem, de Couto de Magalhães, publicado em 1876. Em
seu texto, que Coelho transcreve, Almeida Nogueira observa que a língua geral,
apesar da sua proibição em 1727, perdura na língua portuguesa falada pelos
descendentes dos Brasis, dando-lhe um feitio característico que distingue
essencialmente essa fala brasileira da portuguesa, não só na inflexão da voz,
não só na fonética, mas ainda no torneo gramatical e no fraseado que tem seu
que de novo, não usado na terra lusitana, e afinal um grande número de
vocábulos de todo não portugueses (Nogueira, 1879, p. XI).
Adolfo Coelho tinha pleno conhecimento de um facto de grande importância no
estudo comparativo do português de Portugal com o português do Brasil: Alguns
eruditos brasileiros ' diz ele ' conhecedores dos dialetos indígenas, admitem
influência gramatical destes dialetos sobre o português do Brasil. Não
obstante, na elaboração do seu Manual Etimológico da Língua Portuguesa, de
1890, é surpreendente a pobreza do vocabulário brasileiro. Não só a pobreza de
palavras, mas também a pobreza e até a impropriedade das definições, reduzidas
a menos do que a definição corrente no Brasil (Coelho, 1890). Talvez, para que
pudessem ser compreendidas em Portugal. E, talvez também, porque na elaboração
do dicionário tivesse o autor optado por um português mínimo e abrangente, na
suposição de que um português básico poderia se tornar um português
referencial. Não me refiro às palavras portuguesas que ganharam pronúncia
peculiar no dialeto caipira ou sertanejo por influência da língua nheengatu ou
língua geral. Era essa, inicialmente, a língua de toda a costa brasileira,
falada por índios do grupo tupi, e também por mamelucos, caboclos e portugueses
aculturados nas tradições da terra.4 Tornou-se a língua cotidiana da colónia,
praticamente limitando-se o português a ser língua das câmaras municipais, da
justiça e dos papéis oficiais. Em suma, língua de repartição pública, língua do
Estado e não língua do povo.
Com a proibição da língua geral, em 1727, nativos, mamelucos, reinóis incultos,
nheengatu falantes, passaram a falar português com sotaque nheengatu. Tinham os
nativos dificuldade para pronunciar palavras portuguesas terminadas em
consoantes, como o infinitivo dos verbos ou as consoantes dobradas. Pero de
Magalhães Gândavo, que era professor de português e latim, já havia observado,
no século XVI, que a língua geral carecia de três letras, convém a saber, não
se acha nela F, nem L, nem R, cousa digna d'espanto (Gândavo, 1980 [1575], p.
33). Proibida a língua, adaptavam as palavras de língua portuguesa à fonética
da língua geral, suprimindo consoantes, valorizando ou mesmo introduzindo
vogais onde não havia. É o caso de palavras da pronúncia popular, como o
zóio, no lugar de os olhos, orêia, no lugar de orelha, trabaio, no lugar
de trabalho, muié, no lugar de mulher, fulô, no lugar de flor. Ou mecê,
no lugar de vossa mercê, um arcaísmo de tratamento cerimonioso que permaneceu
na fala das populações rústicas paulistas e mineiras, muito depois de o Império
ter abolido em parte as diferenças estamentais e a República ter abolido os
títulos nobiliárquicos.
Passaram a falar um português mutilado pelo sotaque nheengatu, língua que
sobrevive no dialeto caipira ou nos sons dialetais do português do Brasil até
hoje. O que faz do povo brasileiro, de facto, um povo bilíngue, no relativo
desencontro entre a língua falada e a língua escrita. Escreve-se uma coisa
dizendo-se outra. Isso é particularmente notável nas escolas sertanejas.
Encontrei em escolas rurais do sertão do Maranhão, no Brasil setentrional,
crianças que usavam a letra erre como acento agudo ou circunflexo nas palavras
oxítonas. Insistem os professores em ensinar-lhes que é errado dizer dizê,
contá, chorá, gritá, escrevê, que o correto é dizer, contar, chorar,
gritar, escrever. Instados, então, a acrescentar o erre do infinitivo para
corrigir a pronúncia dos verbos, para que a palavra fique corretamente escrita,
em seus escritos acrescentavam erre também nas oxítonas que não eram verbo:
aqui(r), ali(r), acola(r), você(r) etc.
Refiro-me, pois, ao próprio vocabulário nheengatu, disseminado na toponímia
brasileira e muito presente no vocabulário brasileiro. Basta dizer que cerca de
30 estações ferroviárias e de metro da grande São Paulo têm nomes nheengatu. E
refiro-me à incorporação de palavras nheengatu para designar do real o que não
pode ser designado em português, modos de ver o mundo e interpretar as
situações só possíveis na herança linguística das populações da costa,
anteriores à conquista portuguesa. A palavra tapera foi definida por Adolfo
Coelho (1890, p. 1 148) como brasileirismo, deste modo: terreno que se deixa
em mato. Tapera, na linguagem corrente, quer dizer mais do que isso, quer
dizer lugar que foi habitado e já não o é, além de ter sido cultivado e de já
não o ser, o que inclui a casa e a roça. Lugar abandonado. Em Guimarães Rosa,
como em geral na língua falada, as duas línguas podem ser acopladas para dizer
a mesma coisa, como se fosse uma redundância, sem sê-lo: restos de tapera, em
português resto e resto ou resto do resto. Lógica não raro transposta para
palavras exclusivamente portuguesas, como em nós estávamos em fundos fundos
(Rosa, 1974, p. 289), isto é o adjetivo convertido em substantivo e carente do
mesmo adjetivo para acentuar-lhe o significado: fim do fim.
O sufixo era nos substantivos dessa língua, como na palavra tapera, designa o
que já foi, mas continua sendo, ainda que diferente do que fora. Designa uma
temporalidade peculiar das coisas, que foram e ainda são, um atributo da
própria coisa, um substantivo e não um tempo de verbo. Quando se trata
especificamente da plantação já colhida, a palavra é tiguera, o quase
equivalente à palavra restolho ou à palavra palhada, isto é, aos restos que
ficaram da colheita concluída. É o que em algumas áreas do Nordeste do Brasil
gera o direito da palhada, direito dos pobres a recolherem para si os restos
do algodão já colhido ou, eventualmente, do milho que respingaram da colheita
dada por terminada pelo dono da plantação. A palavra gerando uma instituição
social do sistema de instituições que tem sentido na língua dominante.
A durabilidade da tapera é incerta, maior, porém, que a da tiguera, seu
par, momento do pousio da terra para o plantio seguinte, o terreno ainda
coberto pelos restos do cultivo anterior. Portanto, a palavra tapera contém
significações mais complexas do que simplesmente deixar o terreno no mato, as
significações do subentendido, próprio da sujeição do mundo social de
referência do dialeto caipira. Mais do que certeza, a incerteza; mais do que o
absoluto, o relativo. Guimarães Rosa põe na boca de seu personagem Riobaldo a
frase um retiro taperado, revestido da forma de tapera, como se fosse tapera,
não o sendo senão na forma ou na aparência. Ou, a frase num certo resto de
tapera, de fazenda, tapera que estava deixando de sê-lo, embora ainda o fosse.
Metamorfoses. A significação tupi subjugada pelos modos da língua portuguesa,
não o caso inteirado em si, mas a sobre-coisa, a outra coisa, de que fala o
autor de Grande Sertão: Veredas (Rosa, 1974, pp. 303, 393 e 152).
O universo desse vocabulário mestiço, de recíprocas capturas, esconde um
elemento cultural decisivo que Adolfo Coelho intuiu, mas não explicitou, não
obstante tenha sido ele um sensível antropólogo da cultura popular e de sua
influência na dinâmica da língua e da linguagem. As palavras nheengatu, na
formação do português do Brasil, não migraram para a linguagem local por uma
simples agregação de vocabulário nativo ao vocabulário da língua adventícia.
Formaram uma espécie de língua paralela na língua integrada, uma língua
desconstrutiva que ganha seu maior sentido na linguagem de gestos e silêncios
das populações rústicas. Falam elas a língua dominante, a do dominador, mas
falam, até simultaneamente, a contralíngua do dominado. Uma tensão dialética é
indisfarçável nessa convivência linguística de contrários. Na verdade, os
conteúdos do vocabulário português e do vocabulário nheengatu expressam a
oposição de mentalidades, de modos de ver o outro e o mundo e, sobretudo, o
modo de compreender a mestiçagem como junção de opostos e não, propriamente,
como harmónica fusão dos diferentes.
A língua do conquistador foi, no Brasil, pela mediação das escravidões, a
indígena e a negra, a língua do opressor e da opressão, língua de proibições e
castigos, de crenças culturalmente corrosivas e punitivas, em particular o
catolicismo da Contra-Reforma. Dela ainda existem resquícios na dupla
linguagem, no dizer que desdiz, sobretudo na fala das populações caipiras e
sertanejas.5 As estruturas profundas dessa duplicidade, sua lógica, estão
presentes nessa obra-prima da literatura brasileira, que é Grande Sertão:
Veredas, de João Guimarães Rosa, a que já me referi. E também numa composição
antológica do violeiro Renato Teixeira, Romaria,nas frases inacabadas em que as
palavras nheengatu engendram outras frases inacabadas de um duplo dizer, uma
língua dizente e uma sublíngua desdizente num mesmo dizer.
Em Grande Sertão, essa duplicidade está menos nas poucas palavras nheengatu e
muito mais na tensão dos opostos, nas indecisões da travessia e não nas
certezas dos lugares de partida e de chegada. Uma recusa da linearidade lógica
das passagens (e das gramáticas) para acentuar o diabólico do intransitivo, da
incerteza e da indefinição, mais do que a serenidade do transitivo: o real não
está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da
travessia (Rosa, 1974, p. 52). Ou está a duplicidade nas formas do falso, de
uma fala de Riobaldo, que Walnice Nogueira Galvão (1972) sublinhou. Está na
ambígua e indecisa sexualidade de Diadorim, jagunço que era mulher, em
feminilidade indicial, cujo mistério se abre apenas na morte, no não-ser, nessa
indecisão que separa o português que se fala no Brasil, do português que se
fala em Portugal. O falante sempre de prontidão para completar a frase conforme
o indício da expectativa de quem ouve e manda ou deixá-la à mercê do
subentendido do ouvinte. Uma linguagem dependente de suposições não explícitas
e afirmações meramente alusivas. Linguagem de incertezas e não de certezas. Em
Guimarães Rosa, a língua do sertão e dos avessos ganha o reconhecimento de sua
dimensão sublime. Dimensão inapreensível em verbetes de dicionário e,
provavelmente, na limitada compreensão do abismo que separa culturas de forte
origem comum, distanciadas, porém, pela criação cultural que decorre das
dominações e das ruturas políticas.
Como termo brasílico, Adolfo Coelho se refere ao caipora que define como
nome dado no Brasil ao fogo fátuo e, também, homem infeliz nos seus
negócios (Coelho, 1890, p. 282). Na época em que ele escreveu e publicou o
Manual, já havia uma razoável literatura de viajantes e missionários com
explanações detalhadas sobre o caipora ou caapora. Trata-se de um ente mítico
da tradição indígena, morador e guardião da mata, o oposto do curupira, que tem
os pés invertidos (Cascudo, 1972, vol. I, p. 205-207). O duplo, das
duplicidades e inversões tão fortes e estruturantes da cultura sertaneja. Mesmo
assim, temido porque figuração da contradição entre o homem e a natureza. Luís
da Câmara Cascudo anotou que no Nordeste do Brasil, o caapora é uma indiazinha,
amiga do contato humano. Quem a encontra ' registra ' fica infeliz nos
negócios, o que, na dimensão mítica, provavelmente explica uma das conotações
que Coelho dá à palavra, que já numa interpretação dos brancos aparecia em
relatórios e cartas de missionários no período colonial.
Ainda que Adolfo Coelho tenha reconhecido, mas não tenha expressamente se
interessado por algo tão peculiar como a recíproca influência das línguas na
relação metrópole-colónia, no caso brasileiro, encontro dessa influência
indícios em seu próprio Manual. Há nele a palavra caipira com esta
explicação: Nome que se deu aos membros do partido constitucional, durante a
guerra da sucessão em Portugal (Coelho, 1890). Imagino que o autor esteja se
referindo aos partidários de Dom Pedro IV (Dom Pedro I, do Brasil) na guerra
contra seu irmão, Dom Miguel, pelo trono de Portugal. Palavra que no Brasil
designa, depreciativamente, as populações camponesas originárias da escravidão
indígena e da mestiçagem de brancos com índias, os chamados bastardos, como
assinalou em livro do século XVIII o padre Manuel da Fonseca (1932 [1752, p.
233]). Parece que a designação estigmatizante acompanhou o fundador do Império
do Brasil em seu retorno a Portugal para defender os direitos de sua filha Dona
Maria II ao trono português. Uma indicação da presença de significações
brasileiras na língua cotidiana do Portugal de então, nesse caso invadida pelo
estigma de designações da subalternidade colonial.
O estudo de Adolfo Coelho sobre os ciganos, seu particular interesse no calão e
na etimologia das palavras ciganas, sugere-nos que, se tivesse tido a
oportunidade de um estudo similar e sistemático sobre a fala dos brasileiros e
a cultura popular no Brasil, ampliaria o elenco de observações e descobertas
sobre a língua portuguesa. Etimólogo, teria aí mais ampla confirmação de sua
reconhecida compreensão da língua como realidade viva, cambiante,
historicamente determinada. Nesse sentido, provavelmente, as omissões de Adolfo
Coelho em relação às peculiaridades antropológicas do português falado no
Brasil viessem de compreensível prudência em face de um desafio vasto, diante
das diferentes questões com que se defrontava no estudo da língua e da cultura
popular em Portugal.
Além do conhecimento de material escrito, revelado em Os Dialetos Românicos
(Coelho, 1881), ele tinha em seu grupo de referência pessoas familiarizadas, de
algum modo, com as pronúncias da língua brasileira e mesmo seus peculiares
significados. Tinha um irmão jornalista que chegou a ser editor de jornal no
Brasil. É improvável que no seu contato com esse irmão a diferença da língua
não tivesse sido objeto de reparo. Se Leite de Vasconcelos, sabendo-
o interessado na cultura e nos costumes ciganos lhe fez chegar às mãos o livro
de Melo Morais Filho sobre os ciganos brasileiros, é pouco provável que
comentários sobre o português do Brasil de algum modo não lhe chegassem aos
ouvidos.
Eça de Queirós, de seu grupo de referência, era amigo de Eduardo Prado, tão
amigo que, quando da morte do autor de As Cidades e as Serras, cujo personagem
Jacinto de Thormes foi nele inspirado, Prado acolheria em sua casa, em Paris, a
viúva e os filhos de Eça, enquanto não se providenciava o retorno da família a
Portugal. Eduardo Prado era de uma grande família de fazendeiros de café, filho
de dona Veridiana Prado, que tinha em casa por mordomo um índio botucudo e por
dama de companhia uma jovem negra. Um reduto de cultura nativa, altamente
valorizada na época pela elite culta. Nas fazendas dos Silva Prado, o dialeto
caipira era corrente, ainda que convivendo com línguas e dialetos de
muitíssimos imigrantes europeus que nelas trabalhavam como colonos de café. As
mulheres da geração de Veridiana Prado, em São Paulo, falavam dialeto caipira,
a crermos no testemunho horrorizado do poeta paulistano Álvares de Azevedo
(2000, p. 106) que nelas censurava justamente o não saber falar porque
falavam a linguagem caipira. No palacete de Dona Veridiana, foi recebido
Ramalho Ortigão, em 1887, do mesmo grupo de referência de Adolfo Coelho.
Em 1880, Ortigão tinha um extenso rodapé na Gazeta de Notícias, do Rio de
Janeiro, sob o título de Cartas portuguesas. Embora textos de difusão do
movimento cultural português no Brasil, seu intercâmbio com intelectuais
brasileiros certamente o puseram em contacto com o debate sobre a língua que no
Brasil se falava, não raro tendo como referência a obra de Adolfo Coelho. Em
1887, estando em São Paulo, Ortigão ouviu um concerto de viola caipira do
violeiro e compositor Pedro Vaz, primo-irmão do poeta Fagundes Varela,
apresentado ao público paulistano pelo também poeta Ezequiel Freire.6 Nesse
concerto, a viola caipira, instrumento musical de mestiços, de gente que falava
português com sotaque nheengatu, saiu de tulhas e estradas da roça e, pela
primeira vez, subiu a um palco de teatro. O violeiro teve o convite e o
estímulo de uma elite que vivia um momento de afirmação cultural da identidade
nacional brasileira, às vésperas da abolição da escravatura e da proclamação da
República. Um momento de questionamento da pureza e do absolutismo do português
de Portugal e das regras formais portuguesas em nome do que muitos entendiam
ser a língua brasileira.
Adolfo Coelho era de uma geração ativa no debate que então havia sobre as
mudanças sociais em Portugal, geração à qual não era estranho o peculiar
português do Brasil e o debate que sobre a língua no Brasil havia. Ainda que
houvesse um distanciamento entre Ramalho Ortigão e Adolfo Coelho, que se nota
na crítica que aquele dirigiu a este, em artigo publicado no Brasil. Foi a
propósito da posição que este adotara nas celebrações do centenário do Marquês
de Pombal, em 1882, sugerindo que a reforma pombalina não eliminou o caráter
jesuítico da educação em Portugal, coisa que Ortigão questiona (Ortigão, 1882,
p. 1).
Embora muitos livros brasileiros fossem na época impressos em Portugal, isso
não quer dizer que fossem primeiro para as bibliotecas portuguesas. Em temas
como os que interessaram a Adolfo Coelho, é compreensível que a distância e a
própria falta de interesse dos brasileiros por seu próprio folclore não
propiciassem a um autor estrangeiro os materiais de referência para um eventual
estudo comparativo de costumes paralelos e de mesma origem. Na referência ao
livro do médico brasileiro Melo Moraes Filho (1981 [1886]), sobre os ciganos no
Brasil, Adolfo Coelho diz que o livro lhe chegou às mãos por iniciativa de
Leite de Vasconcelos, como mencionei. Embora tenha encontrado na documentação
portuguesa informações sobre os ciganos que foram para o Brasil, dependeu do
acesso ao livro de Moraes e, portanto, a uma primeira sistematização
etnográfica de informações sobre o tema. Caso contrário, disporia apenas de
dados fragmentários sobre os ciganos de terras brasileiras.
Apesar das extensas transcrições que fez de trechos do livro de Mello Moraes
Filho, Adolfo Coelho foi-lhe crítico severo. Negou-lhe o caráter etnográfico e
lamentou que um médico não tivesse adotado em sua pesquisa critérios
propriamente científicos. Sublinhou que o livro se limita à descrição dos
materiais colhidos e não se estende à explicação propriamente científica. Fez
reparos ao facto de que Moraes tivesse se valido basicamente dos dados colhidos
junto a um único cigano do Rio de Janeiro, Pinto Noites. Mas, o próprio Adolfo
Coelho valeu-se, também, de dados para ele obtidos em grande parte através de
um único informante, o folclorista António Tomás Pires, de Elvas. O etnógrafo e
linguista português faz ressalvas, em especial, quanto ao ser cigano ou não
cigano o material colhido por Melo Moraes Filho, parecendo-lhe, antes, que
muito do material etnográfico de seu colega brasileiro dissesse respeito à
cultura popular portuguesa migrada e adaptada ao Brasil.
Esse é o ponto referencial das diferenças entre os dois autores, relativas à
mentalidade de ambos e à diferente conceção que tinham do que eram os
respetivos povos.7 Muito mais do que a temática dos ciganos, importa e muito a
conceção de popular que os separa e do modo de estudá-la que os afasta. No
Brasil, a crise do escravismo e a sua abolição em 1888 estavam associadas a uma
crise da mentalidade patriarcal e, portanto, à necessidade de uma nova
localização dos grupos primitivos ou infantis, como os chamavam os
estudiosos, num imaginário de dominações e desigualdades estamentais. O
diferente continuava sendo o inferior porque supostamente inferior no processo
de evolução social. É compreensível, portanto, que o estudo de Melo Moraes
Filho sobre os ciganos se limitasse a neles reconhecer a diferença de costumes
e de origem em relação ao que ia se definindo como cultura brasileira. É um
significativo documento da tomada de consciência, no Brasil, do nós e do outro,
do diferente. A carência de tratamento científico das informações por ele
colhidas, a que se refere Adolfo Coelho, diz respeito também a uma diferença do
que deve ser uma etnografia. Moraes descreve; Coelho descreve e explica.
Tanto na linguística quanto na etnologia, a questão do método para Adolfo
Coelho está posta de maneira clara. Ele a sintetiza num artigo de 1896 e a
retoma, em 1913, no elogio fúnebre ao folclorista António Tomás Pires, seu
colaborador e principal informante (Coelho, 1993e, vol. 1, pp. 562 e 672).
Coelho define como graus do estudo desses temas: o descritivo (o simples
colecionamento de dados), o comparativo (colecionamento de paralelos da
tradição do mesmo e de diferentes povos, no presente e no passado), o histórico
(determinação da origem étnica da tradição, sua emigração eventual e
transformações), o genético (formação da tradição).
Meio século depois, o filósofo e sociólogo francês Henri Lefebvre (1949 e
1953), que não conheceu a obra de Adolfo Coelho, percorrerá um caminho muito
próximo ao definir a sua formulação do método dialético, o chamado método
regressivo-progressivo, que Sartre reconheceu como simples e irrepreensível
(Sartre, 1963, pp. 49-50). Na conceção de Lefebvre, há certa horizontalidade
atemporal no atual, uma ocultação dos desencontrados tempos que contém. A
compreensão dialética dos processos sociais e de sua historicidade, a dinâmica
social do presente, depende de identificar-se os momentos coexistentes do
desenvolvimento desigual, tanto em relação ao propriamente cronológico e
histórico quanto, também, em relação às temporalidades desencontradas do
processo social e da consciência social que dele tem a sociedade.
Nesse sentido, o método sociológico deve levar à datação das relações e das
conceções sociais e também à descoberta de sua génese, o momento de sua
constituição estrutural. É na tensão dessas temporalidades desencontradas que a
dinâmica social se instala, o pretérito vivo anunciando não só o que
sobreviveu, a tradição e os costumes, mas também o possível, o potencialmente
contido nas relações do atual, o socialmente não realizado, mas estruturalmente
contido, viável e até necessário. Nesses desencontros, viver é uma tensão.
Viver é perigoso, dirá Guimarães Rosa na peculiar dialética da narrativa de
Riobaldo, seu personagem.
O percurso de Adolfo Coelho, e mesmo as determinações extra-científicas de sua
ciência, são bem diversos dos de Lefebvre, porque outro o momento, porque
aquele influenciado pela realidade ainda densa do romantismo alemão, e suas
tensões com o positivismo francês, e porque este influenciado por variante
crítica e momento posteriores desse romantismo, a dialética de Marx. Mas, há
convergências cuja comparação é inevitável. É o método que permite compreender
o pensamento crítico de Adolfo Coelho no marco da Antropologia, suas objeções
ao positivismo e seu ativismo como educador e educador popular e propugnador de
uma revolução na educação e por meio da educação. É o método que permite
compreender o pensamento crítico de Henri Lefebvre no marco da Sociologia, suas
objeções ao marxismo vulgar (e também à invasão positivista através do marxismo
de Althusser) e seu ativismo político como educador popular e propugnador de
uma revolução no cotidiano.
Com o desencontro de épocas, Francisco Adolfo Coelho não teve propriamente
influência na antropologia e na sociologia brasileiras, então mal esboçadas e
muito embrionárias. Embora haja uma referência comparativa de Silvio Romero
(1907) à sua obra em livro sobre a literatura popular do Brasil. É um autor a
ser visitado e conhecido à luz, justamente, de uma sociologia do conhecimento
focada nas razões das omissões e desconhecimentos. Adolfo Coelho tem sido,
desde seus primeiros trabalhos, um autor difundido e lido no Brasil pelos
interessados na língua e na linguística. Uma autoridade em língua portuguesa,
na etimologia e no sentido das palavras. Mas não despertou maior interesse como
antropólogo e folclorista, não obstante os grandes estudiosos do folclore
tenham no Brasil percorrido os mesmos caminhos por ele percorridos.
É fácil rastrear nos jornais brasileiros a difusão de sua obra de filólogo e de
sua obra didática. No catálogo da Livraria Magalhães, de São Paulo, de 1911,
consta Leituras Portuguesas.8 A mesma livraria chegou a dar reiterado destaque,
de um de seus livros, Contos da Avozinha, anunciado em 1911 e novamente em
1919.9 Uma das livrarias da Rua de São José, no Rio de Janeiro, difundiu, mais
de uma vez, seus livros em catálogo de liquidação, já que a livraria seria
substituída por uma fábrica de licores e xaropes.10 Único meio de se ficar
sabendo quais livros vendiam as livrarias brasileiras entre o final do século
XIX e o início do século XX. Um indício do que os brasileiros liam nessa época.
A mais importante livraria virtual brasileira de livros usados, neste 2013,
Estante Virtual, tem 27 exemplares de seus livros anunciados à venda, dos quais
três exemplares de Os Ciganos de Portugal, edições originais. Livros que,
geralmente chegam às livrarias especializadas em raridades pela aquisição de
bibliotecas de pessoas falecidas. Uma indicação da presença da obra de Adolfo
Coelho em bibliotecas particulares até uma geração antes da nossa.
O Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro, tem de Adolfo Coelho,
dois livros e oito exemplares da edição de 1880 de Os Lusíadas, por ele
revista. Apesar de a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro dispor de apenas
dois livros de Adolfo Coelho em sua coleção de obras raras, as bibliotecas da
Universidade de São Paulo tem 13 exemplares de suas obras. Dessas, duas das que
estão na excelente biblioteca do Instituto de Estudos Brasileiros procedem da
biblioteca do falecido Yan de Almeida Prado, participante da Semana de Arte
Moderna, de 1922, bibliófilo, enólogo e autor, patrono da lendária Pensão
Humaitá, nome que à sua casa deram os intelectuais que frequentaram seus
famosos almoços de sábado por mais de 50 anos. Essas indicações permitem falar
numa datação do interesse, no Brasil, pela obra de Adolfo Coelho, que cobre o
período que vai desde as Conferências Democráticas, de 1871, cuja proibição foi
noticiada no Brasil, e de suas primeiras publicações, até aproximadamente 1920,
cerca de meio século.
Francisco Adolfo foi invocado, durante esses 50 anos, como autoridade em língua
portuguesa, em citações e até mesmo em polémicas de brasileiros sobre a língua.
Tinha leitores atentos, como se vê em artigo de 1883, em que alguém denuncia
plágio de uma página de seu livro Questões da Língua Portuguesa, por um
candidato em concurso à cadeira de italiano no Imperial Colégio Pedro II.11 Até
numa polémica entre médicos, foi invocada a autoridade de Adolfo Coelho sobre o
sentido da palavra experimentar.12
Muitas das discussões e dos desacordos públicos quanto à correta grafia das
palavras decorriam da falta de uma regulação reconhecida que dissesse aos
puristas e mesmo aos gramáticos do improviso qual era a forma correta de
escrever determinada palavra: acento era com dois esses ou com c? Se com dois
esses, era para acentuar ou para sentar? De modo que foi recebida no Brasil com
alívio a reforma da língua promovida por uma comissão, em Portugal, presidida
justamente por Adolfo Coelho (Moura, 1912, p. 3). A tal ponto que o diretor de
um grupo escolar, uma escola primária, de Itu, no interior de São Paulo, propôs
aos diretores das demais escolas do Estado que se solicitasse ao governo
estadual a adoção da reforma proposta pela comissão presidida por Adolfo Coelho
como norma oficial da língua no ensino do Estado de São Paulo.13 No mesmo
sentido manifestaram-se educadores de outras localidades, caindo o nome de
Adolfo Coelho na boca do povo como autoridade de última instância na língua.
Houve, também, quem chiasse cheio de escrúpulos com o argumento patriótico de
que a língua portuguesa não era falada apenas em Portugal e que havia uma
versão brasileira dessa língua. Ganhava destaque a dificuldade, tanto em
Portugal quanto no Brasil, criada pelas diferenças entre o português falado e o
português escrito. No Brasil insurgia-se o filólogo Silvio de Almeida contra a
opinião de Leite de Vasconcelos, favorável a uma escrita que reproduzisse o
falado, o que tornaria impossível a adoção da reforma portuguesa no Brasil.
Falava em cisma linguístico.14
No extremo, havia quem sugerisse que a comissão portuguesa não tinha autoridade
para definir regras da língua aos brasileiros, que a pronunciavam de outro
modo. O descontentamento chegou a criar, na prática, dois partidos, os que
defendiam a pureza da língua herdada de Portugal e os que defendiam a
existência de uma versão brasileira da língua portuguesa. Sem o querer, Adolfo
Coelho tornou-se no Brasil personagem de uma disputa política que envolvia a
questão da consumação da Independência do país muito além do mero e suposto
brado do príncipe Dom Pedro na colina do Ipiranga, na tarde de 7 de setembro de
1822, que dera início à rutura da dependência colonial e à formação da nação
brasileira. A Independência, para muitos, teria que ser a independência
política, mas também a independência cultural e até a independência da
linguagem.
Num debate na Câmara Legislativa Estadual de São Paulo, em 1915, abriu-se uma
polémica sobre o uso da palavra porcentagem e não percentagem em
determinado documento oficial. As partes teimavam, cada qual insistindo numa ou
noutra palavra, com vossa excelência daqui e vossa excelência de lá, até que um
deputado invocou Adolfo Coelho como cúmplice de sua autoridade legislativa e de
seu acerto linguístico, pondo fim ao bate boca.15 É interessante levar em conta
o quanto Adolfo Coelho, no fim das contas, era invocado numa disputa nativista
em favor da tese que, justamente, contrariava sua orientação antropológica. O
deputado João Sampaio recorria a Coelho para sustentar a tese de que a palavra
porcentagem, que constava do documento, não era da língua portuguesa. O
deputado Antonio Mercado retrucou dizendo que não era portuguesa, mas era
brasileira ou paulista. Ao que ouviu o aparte do deputado Freitas Vale, sob
risadas: Quando houver língua brasileira, vossa excelência terá razão....
Recebeu, então, de Mercado, este comentário: Não temos uma língua brasileira,
mas temos um dizer brasileiro, diferente do português em muitos pontos. Há
neologismos nossos, que são desconhecidos em Portugal.16 Ora, Freitas Vale era
o mecenas das artes em São Paulo, anfitrião dos artistas que se reuniam em seu
palacete, a Vila Kirial, apoio dos modernos e da arte moderna, gente cuja
mentalidade tinha por referência uma postura identitária de cunho nativista e,
portanto, contrária aos que insistiam no respeito ao que era formalmente
próprio da língua portuguesa.
Embora a invocação de Adolfo Coelho tenha se limitado à questão da língua, é
curioso que tenha faltado aí justamente a invocação de sua antropologia.
Especialista na língua portuguesa, esse autor se interessou, também, pelo
caráter estamental da língua, o que fica patente nas suas reflexões sobre a
categoria povo. O povo, como categoria política e republicana, como categoria
social do renascimento português e da fundação moderna da nacionalidade, estava
nascendo em Portugal. Povo era, sobretudo, a população simples, gente iletrada,
os depositários de costumes e tradições (Coelho, 1993d, vol. II, pp. 180-182).
Mas o povo estava nascendo também no Brasil, a partir de uma mesma matriz
linguística e cultural. A Constituição imperial de 1824 fora escrita sob
inspiração da Santíssima Trindade, em nome do poder político do imperador e da
autoridade da religião católica. Já a Constituição de 1891, proclamada a
República, fora pela primeira vez escrita por uma Constituinte reunida em nome
do povo brasileiro. Assim como em Portugal Adolfo Coelho tratara de dar
conteúdo antropológico à categoria social que nascia politicamente, à palavra
que a designava, no Brasil a categoria povo contorcia-se nas dores de um parto
sangrento.
Em Portugal, inspirado no romantismo alemão, Adolfo Coelho, em nome da cultura
popular e, portanto, em nome do povo, fazia restrições ao positivismo e à
França em que ele vicejava. No Brasil, ao contrário, a elite política
republicana falava em nome do povo e impunha ao país um novo regime por meio de
um golpe de Estado e golpe dos militares positivistas, até mesmo contra os
republicanos civis. Na bandeira republicana o brasão do Império foi substituído
pela esfera tarjada com a consigna positivista de Ordem e progresso. A
República foi saudada, ainda, como advento dos princípios e valores da
Revolução Francesa, 100 anos depois de sua ocorrência.
Num certo sentido, o Brasil se afastava de Portugal também aí e começava a
afrancesar-se, o que perdurará até a Revolução de Outubro de 1930. Se em
Portugal a categoria povo estava sendo politicamente inventada, na cultura
popular que sobrevivera sem identidade política ao longo dos séculos, no Brasil
o povo sem identidade política tornava-se instrumento de gestação e invenção de
uma elite que sempre fora mero resíduo do Estado. O povo que mal acabara de
nascer conceitualmente, era referência para criar um sistema político, que até
hoje perdura, de abdicação de seus direitos como povo em favor de uma conceção
deformada de representação política, o representado como ausente. Foi Fernando
Henrique Cardoso (1977, pp. 77-99) quem, num estudo dos anos 1970, chamou a
atenção para o facto de que, diversamente de outros países da América Latina, a
Independência brasileira não resultara de uma revolução contra a dominação da
metrópole, mas de uma proclamação do próprio herdeiro da coroa portuguesa. Em
consequência, o próprio Estado teve que criar tanto a elite quanto o povo, o
que no fim das contas marcaria as limitações graves de nossa sociedade civil,
sempre dependente dos favores do Estado e sempre pobre no campo das inovações
sociais e políticas, sempre aberta a lideranças carismáticas e a uma visão
messiânica e milenarista do próprio destino.
O novo Portugal das conceções de Adolfo Coelho nasceria da incorporação da
cultura popular num projeto de nação, através da educação. As tradições do
povo, o seu saber, e a pedagogia do povo seriam desconstruídos para alicerçar a
modernização da sociedade portuguesa, para realizar o espírito de uma sociedade
nova. O apreço pela cultura popular e seu sentido na conceção romântica e densa
da educação está exposto na conferência pública no Casino Lisbonense, de 17 de
junho de 1871, sobre a A Questão do Ensino (Coelho, 1873). A contundência da
análise crítica incidia diretamente sobre a aliança entre o trono e o altar e a
expunha como fator de bloqueio do desenvolvimento do país. O efeito foi
imediato. As Conferências Democráticas foram interrompidas e proibidas pelo
governo. O facto repercutiu imediatamente. O protesto de 25 de junho, assinado
por Adolfo Coelho, Antero de Quental, Jaime Batalha Reis, Salomão Saraga e Eça
de Queirós foi publicado em São Paulo e no Rio de Janeiro.17 No dia 5 de
outubro, o Correio Paulistano publicou em quase toda a primeira página e parte
da segunda a íntegra do extenso manifesto que Antero de Quental enviara ao
Marquês de Ávila, presidente do Conselho de Ministros, denunciando a medida
repressiva e contra ela protestando.18 Dois anos depois, o assunto ainda
repercutia. A propósito da publicação de Opúsculos, de Alexandre Herculano, o
Diário de S. Paulo destacava no livro a refutação eruditamente argumentada e
inédita da portaria que suspendeu as conferências democráticas do Casino
Lisbonense.19
Antes que as opiniões de filólogo de Adolfo Coelho se tornassem correntes nos
jornais brasileiros, tiveram eco no Brasil as conferências do Casino e dava-
lhes a repressão do governo português a visibilidade que no país afinal
tiveram. Mas, os jornais que divulgaram a questão das Conferências Democráticas
eram jornais que expressavam no Brasil a opinião e as simpatias da fação
republicana civil. Não será ela a responsável pela proclamação da República, em
1889, que terá como protagonista a fação republicana positivista e militar, de
ideias em boa medida opostas às de conferências, como a de Adolfo Coelho. A
república brasileira se firmará em nome do povo, mas desconfiando do povo.
Temia-o pela ignorância e pelos resquícios da escravidão na mentalidade servil.
Temia-o, também, por um suposto risco de insurreição monarquista, apoiada nas
populações camponesas. Temia a Vandéia camponesa, como ficou muito claro já nos
primeiros escritos jornalísticos de Euclides da Cunha (1939). Antes mesmo de
chegar ao sertão de Canudos, onde se desenrolava a guerra contra os camponeses
insurgentes, muito mais em nome da fé peculiar e própria do catolicismo popular
contra a intervenção do catolicismo da romanização, que ao Brasil chegava
através dos missionários alemães e italianos.
Em 1896, uma crescente população rural, de negros e ex-escravos, de
descendentes de índios da escravidão indígena, especialmente tapuias, muitos
mestiços e mesmo alguns brancos começaram a se reunir em torno de Antonio
Mendes Maciel, o António Conselheiro, num povoado abandonado, Canudos, no
sertão da Bahia. O fim do século se aproximava e o novo século anunciava, no
imaginário popular, a proximidade do milénio e do fim dos tempos. São vários os
indícios de que António Conselheiro adotava o profetismo joaquimita relativo ao
advento da monarquia do Divino Espírito Santo. Essa conceção se ligou no Brasil
ao sebastianismo. O longo arrazoado que o padre Antonio Vieira escreveu para
defender-se perante a Inquisição, no século XVII, mostra claramente essa
associação (Vieira, 1994).
Tendo os devotos da comunidade do Conselheiro comprado e pago e madeira para a
reforma da velha igreja arruinada de Canudos e não tendo o comerciante entregue
a compra, foi o grupo em procissão buscá-la à força, levando à frente a
bandeira do Divino. Foi o que bastou para que chegasse ao governo a notícia de
que havia no sertão um ajuntamento de fanáticos monarquistas hostis. A denúncia
gerou a repressão militar numa guerra que durou um ano, com milhares de mortos
e feridos. Oficiais que participaram da campanha tratavam-se por cidadão '
cidadão general, cidadão major. Imaginavam-se defensores de uma Revolução
Francesa tardia, combatendo uma verdadeira reação monarquista, no que era
apenas um movimento religioso e milenarista. Vinte anos depois, no sertão de
Santa Catarina, no sul do Brasil, idêntico movimento joaquimita recebeu do
exército violenta repressão, de que resultou novo banho de sangue.
Diversamente do entendimento que da cultura popular tinha Adolfo Coelho, os
modernizadores brasileiros impuseram-se pela força das armas contra os valores
de uma cultura camponesa rica de referências e orientações. Coelho, num ensaio
primoroso e seminal sobre cultura e analfabetismo sublinha que o analfabeto não
é necessariamente o inculto e que há na cultura popular uma enorme riqueza de
informações acumuladas pela memória e não pela escrita (Coelho, 1993b e 1993c,
vol. II, pp. 253-271 e 273-299). Uma tese como essa tinha pouca possibilidade
de sensibilizar os agentes da modernização e da república no Brasil, e menos
ainda sensibilizá-los como fundamento de um projeto social. É compreensível que
Adolfo Coelho tenha sido aceito no Brasil como filólogo e gramático e não como
antropólogo e etnógrafo. Não só os rumos do processo histórico só aparentemente
eram os mesmos em Portugal e no Brasil, em direção à República, como os agentes
da mudança eram os militares e não os educadores. No Brasil, o móvel da mudança
era a força e não a inteligência.
Só com a criação da Universidade de São Paulo, em 1934, é que entra na pauta de
interesses propriamente académico. A USP foi criada como reação civil de uma
elite derrotada militarmente na Revolução Constitucionalista de 1932 contra o
governo de Getúlio Vargas, que algum tempo depois se tornaria um governo
ditatorial, com o Estado Novo. A USP foi a inteligência contra a força. Para
organizá-la, o governo do Estado de São Paulo mandou à Europa o professor da
Escola Politécnica, Teodoro Ramos, para recrutar em vários países os
professores que lecionariam na nova Universidade. A orientação era claramente
anticlerical e a alma da Universidade seria a Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras. Vários judeus e protestantes compuseram o corpo docente da nova
escola. Em Portugal, Teodoro Ramos recrutou três professores: Rebelo Soares,
Fidelino de Figueiredo e Urbano Canuto Soares. Foi este último, catedrático de
Latim, quem introduziu na Universidade o estudo da obra de Adolfo Coelho.20
Com a Sociedade de Estudos Filológicos, criada na Faculdade de Filosofia e
presidida por Otoniel Mota, ativa já em 1942, os sócios escolhiam patronos. O
professor Francisco Silveira Bueno, catedrático de Filologia Portuguesa,
escolheu Adolfo Coelho para seu patrono.21 No dia 29 de agosto, Silveira Bueno
fez a conferência principal da sessão de estudos da sociedade, justamente sobre
a vida e a obra de Adolfo Coelho.22
Em 1971, o suplemento literário de O Estado de S. Paulo dedicou um longo artigo
de Fernando Mendonça ao centenário das Conferências Democráticas e seus vários
participantes, com este comentário: Adolfo Coelho desenhou perspetivas mais ou
menos cruéis para O Ensino' em Portugal (Mendonça, 1971).Os temas das
Conferências foram repassados, não se devendo deixar de fora que em 1971 vivia-
se o pior momento da ditadura militar brasileira, decorrente do golpe de Estado
de 1964, e que o jornal se encontrava sob censura prévia da Polícia Federal. Os
espaços censurados eram preenchidos por trechos de Os Lusíadas, de Camões.
Celebrar as Conferências era uma forma indireta de falar nelas como resistência
à censura e à repressão. O tema vinha a calhar.
O jornal voltaria a Adolfo Coelho, em 1976, na mesma quadra da ditadura
militar, quando publicou um Suplemento do Centenário da Linguística. Na última
página foram publicadas as extensas considerações finais de Isaac Nicolau
Salum, professor titular de Filologia Românica, da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Ele lembra que a
Linguística foi introduzida em Portugal por Adolfo Coelho, em 1868, e no Brasil
por Pacheco da Silva Júnior, em 1878, e Júlio Ribeiro, em 1879. Inclui em seu
texto um inventário de autores e obras que no Brasil avançaram na direção de
uma compreensão da fala brasileira, da linguagem dialetal. Dentre outros
autores, lembra Amadeu Amaral e seu livro O Dialeto Caipira, e Ada Natal
Rodrigues, que fez um doutorado na USP sobre O Dialeto Caipira na Região de
Piracicaba. De certo modo, ainda que não citado, Adolfo Coelho retorna,
finalmente, no encontro entre Linguística e Antropologia, numa certa abertura
para a incorporação da cultura popular ao horizonte dos estudos da linguagem.
Foi justamente o patrono da reedição de O Dialeto Caipira, de Amadeu Amaral,
Paulo Duarte, cuja extensa introdução escreveu, quem retornou a Adolfo Coelho
já no marco da influência da Universidade de São Paulo na retomada do interesse
por sua obra. Fê-lo num artigo em dois capítulos sobre o verbo xingar, de
origem cigana, reportando-se ao livro do pesquisador português sobre os ciganos
(Duarte, 1949, p. 2).
Há um outro retorno que convém mencionar. É evidente que a conferência de
Adolfo Coelho no Casino Lisbonense, em 1871, foi a gota d'água da repressão
governamental. Ele foi incisivo nas referências aos problemas da sujeição do
ensino à mentalidade católica e ao controlo da Igreja. A modernização do ensino
e da sociedade teria que passar pela libertação da educação da influência da
Igreja. No Brasil, de certo modo, a República, ao separar o Estado da Igreja,
foi na mesma direção e abriu caminho para a escola pública e laica. Isso,
porém, não seria suficiente para uma efetiva emancipação do ensino e a
libertação do estudo da língua dos constrangimentos formais que a cerceavam, a
língua do povo praticamente tratada como língua clandestina e errada.
O texto de Salum mostra como houve um alargamento no estudo da linguagem, no
reconhecimento da importância da língua falada. Ele menciona, na origem da
Linguística brasileira, Júlio Ribeiro, que era protestante. O presidente da
Sociedade de Estudos Filológicos, em 1942, era Otoniel Mota, pastor
presbiteriano, que, no início do século XX, e por muitos anos, fora pastor
evangélico no sertão do Paranapanema e em pequenas localidades da frente
pioneira. De certo modo, ele criou uma linhagem de estudiosos protestantes da
língua, na Universidade de São Paulo. Em seu livro mais conhecido, Do Rancho ao
Palácio, Otoniel Mota (1941), descendente de velhas famílias paulistas, ele
próprio um caipira, rastreia as conexões entre a cultura caipira, os costumes,
o dialeto, a língua falada pela população da roça. Não obstante educado no
dialeto caipira e orgulhoso de sua origem caipira, Otoniel Mota era um purista
da língua portuguesa. Referia-se com alguma ironia à tal língua brasileira,
cujo reconhecimento era pleiteado, desde fins do século XIX, pelos adeptos de
um brasileirismo de afirmação identitária. Nos temas de que trata nesse livro,
de certo modo, aproxima-se de Adolfo Coelho, em relação a Portugal, autor que,
como filólogo, conhecia e ensinava.
Seu parente, Cornélio Pires, também presbiteriano, foi um dos principais
pesquisadores do folclore caipira, que em 1911 fez a primeira conferência
pública e erudita sobre a cultura caipira na Escola Americana, protestante,
hoje Universidade Presbiteriana Mackenzie. Seu primo, o professor e jornalista
Amadeu Amaral, fez pesquisa de campo no interior de São Paulo e publicou o
Dialeto Caipira, um livro referencial, a que já me referi.
No outro extremo do arco do tempo, situa-se o próprio Isaac Nicolau Salum.
Todos os três eram presbiterianos, calvinistas. Seguiram a tradição protestante
de buscar no vernáculo e na língua popular a dinâmica da fala e da compreensão.
Um contraponto ao latim como língua de enquadramento do cristianismo católico,
que, antes das reformas do Papa João XXIII, abria um abismo entre os ritos e o
sacerdócio, de um lado, e o exercício da fé pelos fiéis, de outro.
Tendo a supor que em boa parte isso se deveu ao facto de que a tradução da
Bíblia disponível em português fosse a de João Ferreira d'Almeida, um português
do século XVII que emigrara para a Holanda e lá se tornara membro da Igreja
Reformada. A tradução de Almeida é carregada de palavras e expressões do
português arcaico de que o dialeto caipira é também eivado. Portanto, o estudo
da língua espontânea no contraponto da língua controlada. Não é estranho,
aliás, que a edição brasileira da Bíblia de Jerusalém, em anos recentes, feita
por uma editora católica, tenha contado com a participação de vários docentes
da linhagem protestante da Universidade de São Paulo, a mais eminentemente
universidade pública, republicana e laica, do Brasil, e mesmo de quem não é
protestante.23 Dá o que pensar que o interesse protestante pela língua e pela
cultura popular no Brasil tenha um paralelo com o anticlericalismo e simpatias
de Adolfo Coelho pelo protestantismo em Portugal. Lá e cá, o protestantismo era
republicano.