Apoio público, reconhecimento e organizações culturais: o caso do teatro
ORGANIZAÇÕES CULTURAIS E APOIO PÚBLICO: PONTO DE PARTIDA
Entre 2013-2014, a Direção-Geral das Artes-Secretaria de Estado da Cultura
(DGArtes-SEC) recenseou 800 organizações culturais que operavam em Portugal
continental. Algumas são organizações reconhecidas pela sua ação em termos
nacionais no país, outras estão circunscritas localmente, acumulam mais ou
menos atividades em função das suas missões, da intensidade das produções,
participação dos públicos e modalidades de financiamento. Metade destas
organizações culturais foram fundadas nos últimos 13 anos. E, regra geral,
desenvolvem atividades de cariz artístico, cultural e social nos domínios do
teatro, música, dança, cruzamentos disciplinares, fotografia, artes digitais e
arquitetura.
Este artigo tem como ponto de partida o estudo das organizações culturais, em
particular aquelas que recebem um apoio público central, da DGArtes-SEC,
através dos seus concursos ou programas de financiamento (por exemplo, dois dos
mais recentes são os apoios à internacionalização das artes e o Cultural
Footprint' Artes e Educação, que teremos oportunidade de discutir no Boletim
Trimestral das Artes). Estes concursos visam a atribuição de apoios destinados
à criação, produção e divulgação artística e cultural e têm duração variável:
são apoios anuais, bienais, quadrienais.1
Em 2013, a DGArtes-SEC atribuiu 245 apoios nos seus concursos, somando um total
de 219 organizações culturais financiadas (em 2012, eram 146 organizações).
Destes apoios merecem destaque a modalidade quadrienal, que abrangeu 58
entidades artísticas; os 46 apoios que se destinaram à internacionalização de
projetos e equipas; os 23 projetos apoiados na modalidade de acordo tripartido
da DGArtes-SEC, em colaboração com 35 municípios e 40 organizações culturais,
financiadas no período de 2013-2016; e os cinco projetos que fazem parte de um
programa de cooperação internacional, o Cultural Footprint (Pegada Cultural).
Em geral, verificou-se que a amplitude geográfica das organizações apoiadas e a
atividade dos seus profissionais tem forte concentração nas áreas
metropolitanas de Lisboa e do Porto, embora existam variações regionais
interessantes em função da modalidade de apoio2, dando-nos a ver novos modos de
trabalho, atividades e participação dos públicos. Estas variáveis estão hoje
mais correlacionadas com o apoio público da DGArtes-SEC e, em particular, com
os apoios tripartidos das artes.3
Por seu turno, a análise que realizámos às organizações culturais apoiadas
pelas Direções Regionais da Cultura (DRC), que trabalham em articulação com a
SEC, aponta para o financiamento de 287 organizações nos anos 2010-2012. Trata-
se aqui de apoiar estruturas semiprofissionais, amadoras, recreativas e
populares. De um lado, temos o apoio à ação-localizada das organizações que
geram o aparecimento ou a consolidação de projetos de aproximação aos públicos
locais; do outro lado, temos o apoio às ações de caráter social e de
valorização do património (Garcia, 2014, secção iv, pp. 98-216).
As nossas conclusões apontavam para a diversidade de missões das DRC, em função
das especificidades culturais e sociais dos territórios: no Norte foram
apoiados ranchos folclóricos, atividades de recolha de tradição oral, reedição
de canções regionais, trajes etnográficos, festas tradicionais, grupos de
caretos (o que pode resultar de lógicas de afirmação de um localismo cultural
regional). No Alentejo, o investimento destinou-se a estruturas
pluridisciplinares e de inserção social. No Algarve, os apoios foram para
galerias de arte, festivais de cinema, grupos de teatro e bandas filarmónicas.
Na região de Lisboa e Vale do Tejo apoiou-se o património cultural, as
instituições religiosas e as sociedades filarmónicas.4
A perspetiva evolutiva que traçamos da atuação conjugada destes diferentes
níveis e eixos de apoio financeiro público, da DGArtes-SEC e das DRC, é que as
organizações culturais, profissionais, semiprofissionais e amadoras, procuram
hoje expôr a população a um tipo de socialização com a arte e a cultura mais de
caráter associativo, mas também mais permanente, participativo e inclusivo, que
podemos designar por socialização de bairro. Este tipo de socialização é
realizada sobretudo através de bandas filarmónicas, grupos musicais e grupos de
teatro. Podemos dizer que, com estes últimos, abrem-se novíssimos espaços/
modalidades de convívio e de participação dos públicos (ver descrição dos
grupos de teatro de vocação local, Borges, no prelo).
As políticas de incentivo desenvolvidas pela DGArtes-SEC e pelas DRC às
coletividades locais não reduzem ainda a concentração geográfica das
organizações culturais, dos seus profissionais e iniciativas em torno das áreas
metropolitanas de Lisboa e do Porto (Garcia, 2014; ver estudo de caso norte-
americano em Markusen et al., 2011). Mas temos vindo a reforçar e a ancorar
localmente as manifestações artísticas e culturais. No BTArtes (n.º 3),
concluímos que os acordos tripartidos que associam a DGArtes-SEC, os municípios
e as organizações culturais dão forte capacidade produtiva a outras regiões,
com audiências mais alargadas, com apresentações médias trimestrais elevadas
(que chegam à meia centena) e atividades criativas e conexas em número
significativo: ateliers, atividades de apoio aos tempos livres, ocupação da
população sénior, produção de festivais.
Neste artigo analisamos os perfis-tipo de trabalho das organizações culturais
apoiadas pela DGArtes-SEC: as suas missões, trabalhos artísticos, relação com
as populações e os contextos e as modalidades de divulgação. Ilustramos as
lógicas de atuação das organizações e dos seus públicos e, por fim,
apresentamos algumas conclusões que consideramos úteis para a intervenção
pública.
BACKGROUND TEÓRICO E ESTRATÉGIA METODOLÓGICA MÚLTIPLA
Este artigo aborda algumas das principais características das lógicas de
reputação e reconhecimento e a sua dimensão institucional (Lang e Lang, 2001
[1990]). É orientado por três questões que discutem as organizações culturais e
a construção da sua reputação. Até que ponto o investimento público nas
organizações culturais condiciona, sustenta e amplia a sua reputação e a dos
territórios onde estas operam? Será que a reputação é cumulativa e aumenta em
função daquilo que um território pode gerar? O que conta para a flutuação de
reconhecimento das organizações culturais?5
As nossas hipóteses são teórico-empíricas e assentam em contribuições da
sociologia e da economia da arte e da cultura, que estudam como e por que é que
devemos analisar economias da qualidade e produtos onde imperam a procura do
melhor. Estes mercados requerem ferramentas de intervenção singulares, os seus
bens são incomensuráveis, multidimensionais e de qualidade final incerta, como
mostrou Karpik (2007), na apresentação ao colóquio Desvendando o Teatro, em
2012. Os dispositivos de julgamento, avaliação e reconhecimento das
organizações culturais, atividades e perfis dos seus profissionais devem ser
pensados à luz destas características, como mostrou Urrutiaguer (2014) para as
companhias francesas.
Os profissionais que ajudam a construir e a sustentar a reputação das
organizações culturais (nomeadamente os seus diretores e equipas) atuam em
círculos locais, mais ou menos alargados, e acumulam capital social e
relacional que se amplia e transfere para a organização teatral.6 O apoio
público atua como um fator de distinção (Bourdieu, 1993) entre indivíduos e de
visibilidade dos seus diretores e atividades, porque aumenta a capacidade de
divulgação dos trabalhos, espetáculos, exposições; aumenta a capacidade de
negociação das organizações e dos profissionais, e pode fazer aumentar o
círculo de interessados, stakeholders e públicos. Estas dimensões do
reconhecimento parecem, em nosso entender, agir de forma concomitante com as
trajetórias profissionais dos diretores e equipas das organizações e com as
características do território regional cultural onde estas operam.
Para compreender a relação entre o apoio público central, os perfis de atuação
das organizações e os seus públicos, utilizamos aqui quadros teóricos
específicos: Markusen (2011, pp. 18-22) quando discute o valor da cultura, a
relação entre as suas missões e os diferentes eixos de financiamento e
parcerias; e Lopes e Dias (2014), quando estudam os efeitos da cultura no
perfil dos seus públicos-participantes, mais próximos dos criadores e
fazedores de espetáculos; e as formas como a cultura engendra mercados que
atuam com mais ou menos sucesso a nível local/regional. As análises de
Urrutiaguer (2014b) sobre a simetria relacional de artistas profissionais e
amadores como fonte de coesão social e integração da população na vida da
comunidade. Este autor traçou a tipologia territorial das organizações
financiadas em França, que considerou mais discriminante do que as diferenças
em função da modalidade de apoio público ou da área artística. Notou ainda que
o mais importante é a capacidade para as políticas públicas atuarem e lidarem
com a imensa diversidade da cultura local (Urrutiaguer, 2012 e 2014).7
Recorremos, ainda, aos estudos sobre os dilemas enfrentados pela ação cultural
e o cenário do teatro (Borges, Costa e Graça, 2012; Costa, Borges e Graça,
2013; Ferreira, 2013) e a sutentabilidade de sistemas criativos em territórios
distintos pelos efeitos da reputação nas cidades de Lisboa, Barcelona e São
Paulo (Costa, 2012).
Já no que toca à análise dos resultados que fomos obtendo nesta pesquisa,
recorremos a um conjunto de autores que avaliam os impactos sociais das
experiências artísticas (McCarthy etal., 2004; Belfiore e Bennet, 2007) e
estudam os novos modos de participação nas artes e os efeitos das decisões
locais (Johanson et al., 2014), a formação, emprego e cidadania na cultura
(Fortuna, 2014). Importa precisar o recurso que fazemos às contribuições de
Mercer e o cultural mapping (2003) e outras oriundas de relatórios de
avaliação internacionais como o Vital Signals (2014), pela reflexão em torno da
pertinência de análises e resultados regulares, criação de ferramentas de
conceptualização, apoio e avaliação de políticas públicas na cultura.
Por fim, destacamos a nossa inspiração na prática metodológica de pesquisa-
ação, bottom-up e indicadores + (Ginty, 2013) e nas dimensões operacionais
que guiam esta pesquisa, anteriormente testadas por Jackson etal. (2002, 2006),
num contexto mais amplo e diferente do nosso, nos EUA, mas que entendemos aqui
como três orientações-chave para o caso do teatro:
i O conceito de cultura e a definição do trabalho das
organizações teatrais dependem dos valores, preferências, missões e
realidades quotidianas das organizações e comunidades locais, seus
protagonistas e intermediários num determinado território;
ii O conceito de participação das organizações teatrais, dos seus
profissionais e dos seus públicos inclui a diversidade de formas
através das quais todos estes elementos se envolvem nas artes e na
cultura;
iii As oportunidades de participação nas artes, e no teatro em
particular,têm impacto social eimpacto no reconhecimento das
organizações na comunidade onde operam.
No caso português, consideramos que os apoios públicos centrais são alavancas e
mecanismos de reconhecimento que consolidam objetivos, vocações e experiências
das organizações culturais; mas vamos procurar mostrar, de forma preliminar,
até que ponto têm (ou não) efeitos nos perfis de trabalho das organizações e se
esses efeitos persistem no tempo, como atuam num espaço regional específico,
com determinados públicos e steakholders; e como atuam nas trajetórias dos
profissionais da cultura. São, precisamente, os efeitos conjugados destes
elementos que nos parecem contribuir para ampliar a reputação das organizações
culturais.
INDICADORES BOTTOM-UP
Os indicadores bottom-up, descritos no trabalho de Ginty (2013), são
reveladores do quotidiano de trabalho das organizações, neste caso culturais, e
dos seus públicos. Este tipo de indicadores promove a adoção de mecanismos de
análise ligeiramente diferentes, de acordo com o contexto onde as organizações
operam. Não pretendemos criar um indicador para cada organização, mas agrupar
entidades com formas organizacionais e trabalhos semelhantes. Procuramos
descrever como, porquê e em que dimensões essas organizações se assemelham e
distanciam umas das outras. Pretendemos, ainda, extrair o significado daquilo
que localmente é relevante e promover um processo que produza resultados com
sentido para as organizações e os seus profissionais.
O quadro_1 apresenta uma perspetiva exploratória deste trabalho, em estudo e em
discussão com colegas e técnicos que diretamente assistem as organizações
culturais; e serão as organizações e os seus profissionais, que temos
entrevistado, a esclarecer até que ponto cada um dos indicadores é importante
para caracterizar o seu trabalho artístico, o seu tipo de organização e
funcionamento, os seus públicos e ação-localizada.8
Para desenvolver estes indicadores, procuramos a dimensão quotidiana e o
localismo dos projetos; e utilizamos derivados de informação coligidos
diretamente em situações de pesquisa, auxiliados pelas entrevistas e pelo
levantamento de informação que temos levado a cabo ao longo dos últimos anos.
Além disso, as organizações culturais apoiadas preenchem um formulário de
atualização da sua atividade e as respostas permitem conhecer, através dos seus
depoimentos, cada setor artístico e a forma como este se organiza no território
português. Fazemos uso da nossa experiência de pesquisa e observação no quadro
de estudos anteriores (Borges, 2001, 2007, 2009), pela participação nas
comissões de acompanhamento e avaliação do trabalho das entidades apoiadas pela
DGArtes-SEC (2009-2013) e pela participação na redação de relatórios anuais.
Utilizamos algum do material das entrevistas que, formal e informalmente,
realizámos com diretores das organizações.9
Este processo de pesquisa deve ser, para utilizar as palavras de Gintry (2013),
reflexivo e aberto à mudança dos contextos das organizações culturais; e, no
nosso caso, com objetivos comparativos, tendo em conta outros contextos
europeus. Assim, e como se pode ver, enveredamos por uma metodologia de
múltiplas fontes (Yin, 2009, pp. 85, 97) e articulamos o tratamento de dados
quantitativos, extraídos das bases de dados da DGArtes-SEC, e dados
qualitativos, que resultam de entrevistas e observações contínuas; dos
programas construídos pelos diretores, dos relatórios de avaliação das
estruturas, para assim estudar o caso do teatro. Esta metodologia é
considerada pelo autor de grande interesse nas pesquisas de avaliação e
planeamento, na medida em que se descreve a implementação de programas e os
seus efeitos; aprofunda-se a análise dos contextos; e os resultados obtidos são
uma meta-avaliação que ajuda a explicar as relações entre factos (Yin, 2009).
Vamos agora centrar a nossa análise nas organizações culturais, procurando
contribuir para a reflexão em torno das políticas públicas e dos seus desafios
mais recentes.
TIPOLOGIA DAS ORGANIZAÇÕES CULTURAIS APOIADAS PELA DGARTES-SEC
Com o objetivo de avaliar a relação entre os indicadores de produção de 146
estruturas culturais que tiveram apoio da DGArtes-SEC em 2012, e o montante de
apoio público (variável dependente que ajuda a analisar o reconhecimento),
realizámos análises de correlação de Pearson (unicaudal), cujos resultados se
apresentam a seguir.10
Da leitura do quadro_2, podemos afirmar que existem correlações
estatisticamente significativas (p<0,05) entre o apoio público e as atividades
artísticas de criação, programação, produção e a apresentação na localidade de
residência das organizações culturais, e ainda as ações de sensibilização e
formação. De uma forma já esperada, estes resultados mostram que a um maior
montante de apoio público está associado um maior número de atividade nos
indicadores mencionados.
Dois outros indicadores apresentaram uma correlação marginalmente
significativa (p<0,10). A sua relevância sociológica é importante para o
entendimento das questões abordadas neste artigo, justificando-se uma nota:
quanto maior o apoio público a uma organização cultural, maior o número de
trabalhadores temporários contratados, maior o número de produções programadas
e de residências artísticas promovidas no espaço da estrutura. O facto de o
indicador trabalhadores temporários ser marginalmente significativo mostra
uma das principais tendências das actividades culturais, que é o trabalho por
projeto (Borges, 2007). Outra conclusão pertinente é o localismo das
organizações financiadas: o elevado peso das apresentações realizadas no local
e a sua vocação para o trabalho na envolvente mais próxima, conjugado com as
atividades que visam a fertilização de públicos.
Para descrever as similitudes dos perfis de trabalho das organizações apoiadas
pela DGArtes-SEC, realizámos uma análise de clusters com os indicadores de
produção das organizações. O reconhecimento foi operacionalizado pelo montante
do apoio atribuído a cada entidade. As variáveis foram agrupadas em nove
variáveis-chave (Quadro_3).
No quadro_4, apresentamos os valores médios para cada cluster tendo em conta os
indicadores em análise.
A tipologia de quatro perfis, que apresentamos a seguir, pareceu-nos aquela que
melhor traduz as organizações culturais que operam com o apoio da DGArtes-SEC.
ORGANIZAÇÕES CULTURAIS COM ATIVIDADES DE FORMAÇÃO
(CLUSTER 1)
Este cluster reúne 51 organizações culturais: (14) dança, (13) música, (11)
cruzamentos disciplinares, (10) teatro, (2) artes plásticas e (1) design. Estas
organizações caracterizam-se pelo elevado número de atividades de formação,
dirigidas a outros profissionais e ao público em geral. Encontram-se aqui as
estruturas de ensino e os conservatórios regionais (Conservatório Regional de
Castelo Branco, Orfeão de Leiria ' Conservatório de Artes, CEM ' Centro em
Movimento); as companhias de dança (Clara Andermatt, Olga Roriz, Paulo Ribeiro,
Companhia de Dança de Almada) que organizam ações de formação, e os grupos de
teatro com características regionais específicas como a Jangada de Pedra,
PédeXumbo, Pintaí, Este ' Estação Teatral da Beira Interior, Teatro Extremo,
Filandorra. Estas estruturas operam preferencialmente ao nível local e circulam
pelo país, embora não o façam com a intensidade de outras organizações, na
medida em que lhe estão associadas as atividades de formação que dirigem nos
seus espaços.
ORGANIZAÇÕES CULTURAIS QUE INTERVÊM LOCALMENTE
(CLUSTER 2)
O segundo cluster reúne 20 estruturas, 10 são de teatro, oito de cruzamentos
disciplinares e duas de música. É o cluster que apresenta o maior número de
produções no local (125, em média), concentra o maior número de atividades,
maior número de público e maior apoio público (indicador de reconhecimento).
Podemos dizer que existe um efeito de acumulação e sobreposição de lógicas de
reconhecimento, isto é, a um maior apoio corresponde mais atividade, mais
público e divulgação. Estas estruturas são muito dinâmicas do ponto de vista da
produção cultural e estão muito enraizadas localmente pelo elevado número de
espetáculos. Em certos casos, como O Bando, Chapitô, Companhia de Teatro de
Almada, Teatro Viriato, Galeria Zé dos Bois, procura-se envolver áreas e
comunidades mais amplas e as estruturas são mobilizadoras: algumas desenvolvem
atividades artísticas orientadas para a contemporaneidade, outras desenvolvem
atividades transversais destinadas a públicos mais alargados. Estas
organizações desenvolvem parcerias com os seus munícipios (em 2014, o Teatro
Viriato é um exemplo bem sucedido pelo número de atividades e espetadores que
mobiliza); estas organizações associam-se e trabalham em rede com outras
entidades artísticas (em 2014, a Galeria Zé dos Bois associou-se a co-parceiros
como a Duplacena, CEM ' Centro em Movimento, Associação Vo'arte, A Tarumba e a
Karnart) e concentram-se em iniciativas de bairro (Borges, no prelo), como
acontece com os Artistas Unidos e o Teatro de Bairro, no centro da cidade de
Lisboa.
ORGANIZAÇÕES CULTURAIS COM VOCAÇÃO INTERNACIONAL
(CLUSTER 3)
Este cluster integra 18 estruturas, seis são de cruzamentos diciplinares, cinco
de dança, quatro de música, duas de artes plásticas e uma de teatro. Neste
conjunto de organizações culturais concentram-se as entidades que desenvolvem o
maior número médio de atividades de internacionalização e atividades de criação
artística. É o cluster em que as organizações parecem desterritorializar-se
mais, ampliando a sua rede de colaborações e tecendo percursos com uma dimensão
internacional. Embora atuando de forma diferenciada e com impacto distinto,
estas organizações culturais (forte presença da dança contemporânea)
desenvolvem projetos e eventos artísticos que desafiam os caminhos da
internacionalização. Alguns exemplos são: Rumo do Fumo, Mala Voadora, EIRA,
Prado, entre outras.
ORGANIZAÇÕES CULTURAIS COM INICIATIVAS MÚLTIPLAS
(CLUSTER 4)
Este cluster reúne 57 entidades (42 de teatro e 15 de música) e é aquele que
tem uma distribuição mais equitativa entre os indicadores, apresenta um nível
de atividade médio e desenvolve um conjunto de iniciativas muito plurais.11 É
um cluster cuja segmentação interna do ponto de vista artístico é também muito
forte. Uma parte das entidades faz experimentação artística e desenvolve
atividades orientadas para a contemporaneidade e setores-nicho: Tarumba-Teatro
de Marionetas, Teatro Praga, Meridional, Cão Solteiro, Teatro da Garagem,
Teatro do Vestido. Outras entidades são companhias regionais: Companhia de
Teatro de Braga, Companhia de Teatro de Aveiro, Chão de Oliva, Teatro de
Montemuro, Teatro do Noroeste. Outras são entidades produtoras: Cassefaz,
Filipe Crawford. A observação das entidades sugere que, em alguns casos, são
entidades com objetivos de inovação ao nível artístico, pelo que não se
destacam pelo número de apresentações; noutros casos, são entidades que
trabalham com a comunidade local (séniores e crianças); noutros casos, ainda,
são entidades de acolhimento, mais voltadas para modelos de produção e
divulgação de iniciativas plurais.
UMA TIPOLOGIA TERRITORIAL E POR SETOR ARTÍSTICO
A análise de clusters (o mesmo método e indicadores utilizados acima) com as
cinco regiões, NUTS II, apresenta a tipologia territorial das organizações
culturais apoiadas pela DGArtes-SEC, que se pode ver no quadro_5. A análise
indicou a presença de dois clusters e as velhas assimetrias territoriais que
concentram as organizações, atividades, profissionais e públicos nas regiões de
Lisboa e Vale do Tejo e na região Norte.
As médias para os indicadores utilizados são apresentadas a seguir.
Um cluster agrupa as regiões do Alentejo, Algarve e Centro. Neste cluster
destaca-se o elevado número de apresentações nacionais e de atividades de
formação, realizado pelas suas organizações. O outro cluster agrupou as regiões
de Lisboa e Vale do Tejo e do Norte e destacou-se pelo elevado número de
público, pelo maior número de trabalhadores temporários e permanentes e pela
maior taxa de exibição local (localismo forte). É a este nível que as políticas
públicas nacionais para o setor podem ainda operar fortalecendo eixos criativos
que já existem, mas promovendo áreas de atuação com envolventes um pouco mais
amplas para estas duas regiões, em articulação com as estruturas existentes
nessas áreas ou com o incremento da fórmula dos apoios tripartidos da DGArtes-
SEC, com parceiros artísticos mais colaborativos. Na figura_1 é apresentada a
tipologia territorial das organizações culturais.
No que diz respeito aos setores artísticos, a análise de clusters12 realizada
com os cinco setores artísticos apoiados em 2012 apontou três orientações. As
médias dos clusters para cada um dos indicadores utilizados são apresentadas no
quadro_6.
O primeiro cluster engloba isoladamente as artes plásticas. Esta área artística
é aquela que apresenta maior média de audiência/público e, no ano em análise,
revelou-se o cluster com maior número médio de produções e/ou dias de exibição
. É o domínio artístico que mais se diferencia dos restantes. Trata-se de uma
atividade que tem longos períodos de exposição e os horários são mais alargados
do que nas restantes. É também o setor com maior atividade de
internacionalização, quando comparado com os demais clusters. Já se chamou a
atenção para o seu potencial no domínio da internacionalização ibero-americana,
no BTArtes, n.º 2. O segundo cluster agrupou o teatroeoscruzamentos
disciplinares, sendo aquele que tem a maior média de apoio público e o maior
número médio de atividades de programação. Por fim, o terceiro cluster reuniu a
dança e a música, tendo destaque o seu maior número de atividades de formação e
o facto de ser o cluster que emprega mais trabalhadores permanentes, o que se
explica pela forte presença de orquestras (Figura_2).
O CASO DO TEATRO
Uma análise hierárquica de clusters realizada com as organizações teatrais
apoiadas pela DGArtes-SEC produziu três perfis-tipo, com segmentações internas
importantes que as evidências qualitativas e a observação continuada ajudam a
descrever.
Grupos de teatro de formação de públicos e internacionalização (cluster 1)
Estas nove estruturas teatrais são caracterizadas pelo elevadíssimo número de
atividades de formação, mas também se destacam pela importância da sua
orientação para a circulação nacional. Podemos afirmar que algumas delas são
estruturas com uma vocação internacional, entre as quais A Mala Voadora e João
Garcia Miguel, na região de Lisboa, cujas equipas de direção são reconhecida
pelos seus trabalhos anteriores, desenvolvem produções nacionais e um elevado
número de ações de formação, mas também valorizam a coprodução de espetáculos
que se destinam a circular internacionalmente. Fazem parte deste tipo de
organizações estruturas como a ACTA (Algarve), BAAL 17 ' Companhia de Teatro
Educação (Alentejo), Filandorra (Norte), Extremo (Lisboa), Companhia de Teatro
de Braga e As Comédias do Minho (Norte).13 Esta última estrutura situa-se no
Vale do Minho e resulta de uma colaboração entre cinco municípios: Melgaço,
Monção, Paredes de Coura, Valença e Vila Nova de Cerveira. As atividades das
Comédias do Minho destinadas à formação e colaboração regular com projetos
internacionais são duas das marcas principais que contribuem para o seu
posicionamento neste cluster. Com o atual acordo tripartido da DGArtes-SEC
(2013-2016), as Comédias do Minho desenvolvem atividades nacionais, que
caracterizam como sendo comunitárias e pedagógicas (por exemplo, o FITAVALE e
as oficinas musicais), e apresentações em diferentes equipamentos situados no
seu território específico: Auditório de Verdoejo, biblioteca municipal em
Valença, cine-teatros de Vila Nova de Cerveira e João Verde, a Casa da Cultura
de Melgaço e o Centro Cultural de Paredes de Coura.
Grupos de teatro com vocação local ou os teatros do bairro (cluster 2)
O segundo cluster agrupa 11 estruturas de teatro com forte perfil de
programação, e com a média mais elevada de criação, produções locais e público.
Neste perfil integram-se os grupos de teatro que concentram o maior apoio
público médio e são também os grupos que mais contratam equipas temporárias e
permanentes. Este tipo de organizações desenvolve fortes estratégias de
divulgação. São disso exemplo: Ar de Filmes, Artistas Unidos, Cornucópia, Novo
Grupo, O Bando, A Barraca, Companhia de Teatro de Almada, todas elas estruturas
da região de Lisboa e Vale do Tejo que pertencem a este cluster; a Seiva Trupe
e o Teatro do Noroeste (Centro Dramático de Viana), no Norte; o Teatrão na
região Centro e o PIM!TAÍ, no Alentejo.
A sua prioridade é acordada menos às atividade de formação do público do que à
vontade de construir uma programação artística forte, seguindo as lógicas de
sociabilidade com os seus públicos de bairro. Para lá das suas
especificidades (são estruturas de produção de espetáculos de teatro, mas podem
apresentar cinema, música, eventos literários, exposições), o dinamismo da
criação, as estratégias de produção e divulgação multinível são os pontos que
têm em comum. Estas organizações têm bom conhecimento dos públicos para os
quais trabalham, fazem um uso intensivo das redes sociais e utilizam o preço-
único às quintas. Estas estratégias contribuem para a sua visibilidade, pelo
menos junto de grupos muito específicos, os jovens e o público sénior.
Dois exemplos ilustrativos: a Ar de Filmes define-se como uma estrutura
artística alternativa e experimental14, e tem ligações com outras estruturas
e projetos emergentes. A sua equipa procura públicos mais cosmopolitas, do
Bairro Alto à população local das zonas vizinhas, o Chiado e a Bica. Para o
fazer, apresentam uma programação transdisciplinar que favorece a fertilização
de públicos. Os Artistas Unidos desenvolvem uma estratégia semelhante por via
da sua localização, no Jardim Botânico, em Lisboa, do seu espaço de exposições,
das edições próprias à radiodifusão de textos de teatro, cruzando diversos
campos culturais. A difusão dos espetáculos destes dois grupos caracteriza-se
pela proximidade aos públicos, o que constitui um ponto forte comum às
estruturas deste perfil. Ar de Filmes trabalha para um público jovem e recorre
ao bilhete-família para encorajar a população local. Recentemente chamou a
atenção do seu público: Venham ver a Copa do Mundo no nosso grande ecrã. Os
Artistas Unidos associam-se às Festas de Lisboa e oferecem bilhetes-convite.
Grupos de teatro organizados em eixos-criativos e de convivialidade (cluster 3)
O terceiro cluster reúne 43 organizações culturais que apresentam um perfil de
trabalho semelhante nos indicadores utilizados na análise. No entanto, trata-se
de um cluster que tem forte segmentação quando se analisa a estrutura
artística, de produção e divulgação. Encontram-se aqui organizações, tais
como: Praga, Cão Solteiro, Mundo Perfeito, Karnart, Teatro Experimental de
Cascais, Meridional, Garagem, Primeiros Sintomas, Casa Conveniente, Teatro do
Vestido (todos em Lisboa); Teatro Bruto, Teatro de Ferro, Teatro de Marionetas,
Pé de Vento, Art'Imagem (no Norte); Teatro do Mar e O Semeador (no Alentejo), e
Teatro de Montemuro (no Centro). Destas organizações culturais, os Praga e
Mundo Perfeito destacam-se pelas apresentações em palcos e festivais
internacionais. Nestes grupos, os trabalhos artísticos são ora de pendor mais
intimista, com intervenções performativas abertas à comunidade local, ora de
pendor mais alargado, suportado pelo apoio de instituições reconhecidas
(Culturgest, Espaço do Tempo, Teatro Maria Matos, Museu Paula Rego, EDP).
Sublinha-se a sua forte territorialização e a ligação à zona envolvente, como
acontece com o Teatro do Vestido, Primeiros Sintomas e Casa Conveniente, ao
Cais Sodré, que potencializam eixos-criativos e de convivialidade que se
cruzam, interpenetram e ajudam a solidificar e a fidelizar os públicos locais.
Neste perfil agrupam-se ainda as companhias ditas regionais (Companhia de
Teatro de Aveiro, Centro Dramático de Évora, Teatro de Montemuro) e as
estruturas que produzem os festivais como o Festival Internacional de
Marionetas e o FITEI ' Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica.
Este cluster é muito diversificado em termos de modelos organizacionais,
estéticos e de envolvimento local, até pelo contexto, rural e urbano, e os
perfis dos seus públicos/habitantes.
Os públicos vizinhos são convidados a participar nas ações artísticas dos
grupos. Na Casa Conveniente, que ocupa uma antiga loja do bairro lisboeta, ao
Cais do Sodré, o público entra e sai quando deseja durante as representações
que podem durar quatro horas; no Teatro da Garagem, com sede no Teatro Taborda,
à Costa do Castelo, em Lisboa, os locais são convidados a entrar na cena.
Outros exemplos: as leituras encenadas e não ensaiadas dos Primeiros Sintomas,
ao Cais Sodré; os espetáculos apresentados na aldeia de Campo Benfeito, na
Serra de Montemuro, durante o Festival Altitudes, mostram-nos o teatro em
convívio com a população local.
O Teatro do Vestido, com apresentação no Cais do Sodré, em Lisboa, é outro
exemplo. O grupo desenvolve projetos de tipo experimental, de teatro-ativismo,
intervenções e representações em lugares públicos. Os espaços escolhidos para
uma intervenção recente foram os quartos de hotel cedidos por uma
infraestrutura hoteleira. Já os Praga são uma estrutura que ocupa o eixo Cais
Sodré/Santos: um espaço cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, e, em conjunto
com estruturas livreiras, este grupo de teatro abre-se à população local. A
equipa caracteriza-se pelo seu dinamismo e múltiplas experiências de trabalho
no domínio da cena artística contemporânea, procura chamar a atenção para a
originalidade da sua prática e objetivos transdisciplinares (teatro,
arquitetura, artes visuais), colabora com prestigiadas instituições culturais e
participa em festivais internacionais. Os seus espetáculos baseiam-se num
processo de metamorfose contínua com variações imprevisíveis durante as
representações, o que constitui a sua identidade artística.15 A capacidade de
reinvenção dos espetáculos e as performances-acontecimento são colocadas ao
serviço de um projeto que, nas palavras do diretor, procura transferir a
responsabilidade última das criações artísticas para o espetador. Esta forma
de trabalhar cria à sua volta (também via net) uma comunidade de espetadores-
conhecedores-acompanhantes do trabalho do grupo.
Regra geral, a territorialização destas organizações em torno de eixos-
criativos e de convivialidade é forte e apoia-se numa cooperação criativa,
inspiradora para os artistas, e de índole convivial com os seus públicos. Os
públicos que vivem e acompanham a vida destes grupos são atraídos pela sua
oferta artística, mas também pelo convívio, o que facilita a sua fidelização. O
trabalho destas organizações é particularmente voltado para a criação de
ligações informais com a população, no bairro ou na aldeia, podendo beneficiar
do apoio de outras instituições e parcerias que reforçam a sustentabilidade das
estruturas. Estas organizações e os seus públicos formam uma comunidade.
CONCLUSÕES E PRINCIPAIS TENDÊNCIAS EVOLUTIVAS
O objetivo deste artigo foi analisar as formas como o apoio público central
opera na criação, divulgação e ação-localizada das organizações culturais.
Utilizou-se o caso do teatro e considerou-se uma tipologia de perfis de atuação
das organizações, a partir da qual descrevemos objetivos, missões, mas também
contextos e territórios culturais específicos.
Analisou-se o apoio público como indicador de reconhecimento das organizações e
avaliaram-se outros indicadores: organizativos, tipos de trabalho artístico,
relação com os públicos, modalidades de divulgação e tipos de circulação
territorial. Tendo em conta a diversidade dos perfis e missões das organizações
culturais portuguesas, insiste-se na importância de construir orientações
diversificadas da intervenção pública no setor da cultura. Essa diversidade de
orientações deve passar pela criação de modelos de atuação e de financiamento
específicos e localizados (como já se vai fazendo sobretudo com os acordos
tripartidos) que reflitam o conhecimento que temos hoje das organizações e dos
seus profissionais, como se estruturam e trabalham, e as suas principais
dificuldades.
O artigo traçou os perfis-chave de atuação das organizações culturais com apoio
da DGArtes-SEC: as organizações de formação; organizações com forte
enraizamento local; organizações da internacionalização; e as organizações de
iniciativas plurais (criativas e atividades conexas). No caso do teatro,
considerámos que os seus grupos se organizam em três perfis-tipo, que se
interpenetram, mas distinguem em torno de características específicas, que
destacamos a seguir:
i As organizações teatrais com atividades de formação (de caráter
pedagógico e/ou comunitário, como as oficinas e os ateliers); mas com
importantes estratégias de internacionalização que, por vezes,
aparecem associadas às suas atividades de formação de públicos e de
profissionais;
ii As organizações teatrais com forte dimensão local e atividades
de criação muito regulares. São os teatros de bairro que procuram
fidelizar o público com estratégias de divulgação multinível e, no
caso de alguns, com o envolvimento e a participação do público de
envolventes mais amplas;
iii As organizações teatrais que integram eixos-criativos e de
convivialidade muito fortes; são estruturas que se localizam num
espaço cultural específico, que promovem espaços de convivialidade e
informalidade com os seus parceiros (artistas, municípios) e públicos
locais. Em conjunto funcionam como uma comunidade.
As tendências evolutivas destas organizações culturais e, em particular, das
estruturas de teatro mostram-nos que a sua forte implantação local não se opõe
à sua internacionalização; da mesma maneira que ao seu dinamismo criativo e
artístico não se opõem às atividades formativas ou as atividades conexas que
organizam. Estas dinâmicas não são contraditórias, antes pelo contrário, são
cada vez mais complementares, pela tendência para o reforço da
territorialização da cultura e das suas equipas (que atuam hoje de forma mais
profissionalizada em diferentes áreas de intervenção); pela tendência para o
reforço de novas culturas artísticas e redes de profissionais com efeitos na
criação propriamente dita; o reforço do cosmopolitismo das organizações
culturais portuguesas que podem trabalhar numa pequena localidade e ter
presença assegurada em teatros, encontros e festivais internacionais; o reforço
dos públicos e das experiências artísticas e culturais com segmentos da
população específicos, nomeadamente as crianças, os jovens e os séniores.
Em geral, o apoio financeiro da DGArtes-SEC atua como um reforço dos mecanismos
de reputação e reconhecimento das organizações culturais e ajuda a fortalecer o
seu trabalho. É também responsável pela institucionalização de parcerias, até
então informais, que envolvem mais instituições, mais municípios, mais
parceiros, e artistas associados. Veja-se a título ilustrativo, o acordo
tripartido da Associação Zé dos Bois que reúne entidades parceiras (em
Lisboa); a associação do Espaço do Tempo com a Alma D'Arame, Oficinas do
Convento, Projeto Ruínas (no Alentejo); o Teatrão e o Círculo de Artes
Plásticas de Coimbra, a Casa da Esquina e o Jazz ao Centro Clube (na região
Centro).
Mas, a polarização territorial das organizações culturais em torno das áreas
metropolitanas (v. BTArtes, n.º 3) merece mais atenção, na medida em que exige
maior capacidade de reinvenção das suas missões. A necessidade de financiamento
e as dificuldades que estas estruturas enfrentam podem ser contrabalançadas
pelo desenvolvimento de financiamentos concertados (centrais, regionais e
municipais), pela sua associação a entidades fora das áreas metropolitanas e
pela participação das estruturas em programas culturais lançados pela UE
(equipas técnicas da DGArtes-SEC, com competência neste domínio, podem ajudar a
dinamizar fortemente esta vertente).
A sustentabilidade de algumas das organizações culturais vai sendo assegurada
pela interligação que as próprias vão tecendo entre si, pelo trabalho em rede
(que deve aumentar) e pelo aproveitamento de eixos-criativos locais que juntam
grupos e profissionais. A atuação das organizações culturais já procura, por si
mesma, pouco a pouco, a sua envolvente regional. Estimular essa vocação poderá
ter efeitos multiplicadores dos investimentos públicos realizados, quer pelos
impactos sociais, quer pelo estímulo ao emprego de profissionais da cultura,
quer pelo maior envolvimento na comunidade e no território local. A abertura
dos grupos de teatro à comunidade é uma boa estratégia de envolvimento do
público na cultura e nas decisões que sobre ela são tomadas. Para as
organizações culturais os desafios são hoje fortes e as orientações das
políticas públicas devem ter em conta estes quatro aspetos centrais:
i A cumplicidade das organizações culturais com a comunidade
local. As atividades culturais (veja-se o caso do teatro) são cada
vez mais consideradas património e representam muito trabalho
conjunto e colaborativo que está para lá das lógicas de
reconhecimento mais institucionais da cultura, passando antes pelo
dinamismo das organizações, equipas e diretores; pela sua atuação
informal, de proximidade e envolvimento com os públicos;
ii A definição de políticas públicas para o setor deverá ter em
conta a forte territorialização destas organizações, que já começam a
explorar eixos-criativos mais alargados. Este desafio exige o estudo
das DRC e das suas missões, isto é, estes apoios públicos e os seus
contextos específicos merecem ser escrutinados (Johanson etal.,
2014);
iii O desenvolvimento de atividades plurais (conexas, formativas)
por parte das organizações pode surgir como resposta às solicitações
de municípios e das próprias comunidades locais, o que não fragiliza
as organizações nem os seus profissionais, se for essa a sua vocação.
As atividades conexas consolidam a posição das organizações culturais
como parceiras de municípios com forte envolvimento na vida da
comunidade (a ligação de algumas delas a entidades semiprofissionais
e de formação é de elevado interesse). Ao mesmo tempo, as atividades
conexas permitem encontrar os meios, os recursos necessários para que
as organizações desenvolvam o seu trabalho artístico e tornem as suas
equipas sustentáveis;
iv É por isso que é importante desenvolver sistemas de apoio que
sejam flexíveis e adequados às missões das organizações culturais e
dos territórios onde operam. A assistência que a DGArtes-SEC e as
DRC, os seus técnicos e peritos, podem e devem facultar às
organizações culturais é útil para discutir com as mesmas as melhores
opções para as estruturas e os seus territórios culturais. Mas a arte
não é, nem deve tornar-se, apenas aquilo que os sistemas de apoio, os
seus técnicos e peritos fazem acontecer.