Desigualdades económicas multi-escalares: Portugal no contexto global
INTRODUÇÃO
As desigualdades económicas são uma marca estrutural do mundo em que vivemos.
Determinam hiatos de condições de existência e de aspirações sociais entre
populações, e assumem-se como uma variável central nos processos de
estruturação das sociedades, que têm não só implicações individuais ou
categoriais, mas também coletivas. A necessidade de se compreender e medir as
desigualdades económicas deve-se ao facto de este fenómeno ser moralmente
significante, no sentido em que acerca dele se constroem considerações de
admissibilidade valorativa, e de existir uma progressiva consciência da sua
relevância enquanto elemento estruturante dos processos políticos, económicos e
sociais de constituição das sociedades. Esta dupla relevância das desigualdades
económicas favoreceu a emergência de uma vasta literatura que problematiza um
leque bastante alargado de eixos e dimensões analíticas, elegendo de forma
isolada ou entrecruzada escalas analíticas diferenciadas.
Realizar-se-á neste artigo uma análise multi-escalar das desigualdades
económicas, através da apresentação e debate de alguns dos principais eixos de
problematização deste fenómeno recentemente desenvolvidos pela literatura
especializada. Na primeira parte analisar-se-á a magnitude e principais
dinâmicas da desigualdade económica global; na segunda parte, a exposição irá
centrar-se sobre as desigualdades económicas internas nos países europeus, com
especial ênfase no caso português e no fenómeno da concentração dos rendimentos
nos grupos que formam o topo da distribuição; a seguir debater-se-ão as
principais formulações em torno das causas explicativas das desigualdades
económicas; por último, apresentar-se-á uma síntese de estudos e de
contribuições teóricas que defendem a tese de que as desigualdades económicas
têm impactos negativos multidimensionais na vida coletiva.
DESIGUALDADES ECONÓMICAS GLOBAIS
O mundo é cada vez mais um dos referentes empíricos privilegiados do discurso
político, mediático e científico. A escassez e distribuição dos recursos, os
problemas ambientais, a interação entre as economias ou a fluidez do mercado de
capitais são alguns dos fatores que têm potenciado este tipo de enfoque. Num
mundo globalizado, baseado em interdependências entre países e organizações
internacionais, as relações e processos sociais estruturam-se também a uma
escala transnacional e transcontinental. Do ponto de vista analítico, a escala
global tem-se vindo a impor como uma tela empírica privilegiada para a
decifração e contextualização da realidade. Talvez por isso se tenha assistido
nos últimos anos ao aumento e aperfeiçoamento da produção de informação
estatística acerca do mundo ou de conjuntos mais ou menos alargados de países,
mas também à emergência de perspetivas analíticas cujo esforço de teorização e
conceptualização é orientado para essa escala (Costa, 2012a).
Branko Milanovic é um dos investigadores que nos últimos anos mais se tem
destacado nesta área. Um dos eixos analíticos que o autor tem desenvolvido
prende-se com a medição, a partir de diferentes parâmetros metodológicos, das
desigualdades de rendimento globais e sua evolução. De acordo com o autor, se o
indicador utilizado for o Produto Interno Bruto (PIB) per capita, as
desigualdades que atualmente existem entre os países são mais pronunciadas face
ao verificado antes da Revolução Industrial ou há três décadas atrás. Tal
decorre essencialmente do baixo crescimento ou mesmo empobrecimento de alguns
dos países mais pobres do mundo ' principalmente países africanos. No entanto,
se se tiver em linha de conta o peso populacional dos países para analisar as
desigualdades de rendimento (PIB) que entre eles existem, essa tendência já não
se verifica, devido ao crescimento económico da China e da Índia nas últimas
décadas ' dois países que juntos representam mais de ⅓ da humanidade.
Milanovic avança ainda com uma terceira opção, que consiste numa análise das
desigualdades de rendimento entre cidadãos do mundo (Milanovic, 2011).1 De
acordo com as suas estimativas, o valor do coeficiente de Gini2 para a
distribuição do rendimento a nível global é de 70%, o que significa que a
desigualdade de rendimento entre os cidadãos do mundo é superior à verificada
no plano interno em todos os países do mundo. Apenas a África do Sul tem um
nível interno de desigualdade económica próximo deste valor. A amplitude da
desigualdade global sugerida por este valor sintético ganha maior
inteligibilidade se se recorrer a medidas estatísticas complementares: os 10% e
5% mais ricos do mundo detêm, respetivamente, 56% e 37% do rendimento global,
enquanto os 10% e 5% mais pobres apenas 0,7% e 0,2%; o rendimento dos 1,75%
mais ricos equivale ao rendimento dos 77% mais pobres; os 5% mais pobres dos
Estados Unidos situam-se no percentil 68 da distribuição global do rendimento '
ao qual pertencem os 5% mais ricos da Índia; entre o grupo dos 10% mais ricos
do mundo 70% provêm da Europa Ocidental, da América do Norte e da Oceânia e
dele não fazem parte, em número significativo, indivíduos provenientes da China
ou da Índia; entre o grupo dos 1% mais ricos do mundo cerca de 83% provêm
destas três regiões ' dos 60 milhões de cidadãos do mundo que compõem o
percentil do topo da distribuição global do rendimento, cerca de metade (29
milhões) provêm dos Estados Unidos (idem, pp. 152, 156 e 157).
Outros autores têm também procurado medir este fenómeno. De acordo com
Korzeniewicz e Moran (2009, pp. 93-94), toda a população da Noruega pertence ao
decil do topo da distribuição global do rendimento, o mesmo acontecendo com os
60% mais ricos dos Estados Unidos. Por seu lado, os 30% mais pobres dos Estados
Unidos integram o segundo decil mais rico da distribuição global do rendimento.
Já 90% da população do Zimbabué se inclui nos três decis da base da
distribuição global do rendimento ' 80% nos dois primeiros decis. Segundo
Bourguignon (2012, p. 15), no início da segunda metade da década de 2000, o
rendimento dos 10% mais ricos do mundo era 90 vezes superior ao dos 10% mais
pobres, ou seja, enquanto os 600 milhões de indivíduos mais ricos do mundo
dispunham em média de 27 000 euros por ano, esse valor não ia além dos 300
euros para os 600 milhões mais pobres (idem).
Existe, neste sentido, uma concentração desproporcionada da população dos
países ocidentais no topo da distribuição global do rendimento. Se é verdade
que nas últimas décadas se assistiu de forma intensa e generalizada ao aumento
das desigualdades de rendimento no interior dos países mais desenvolvidos
(OECD, 2008 e 2011), a amplitude das desigualdades económicas é bem maior
quando se comparam populações pertencentes a países com níveis de
desenvolvimento diferenciados:
Há menos diferenças entre o nível de vida de um americano rico e o de
um americano pobre do que entre o nível de vida de um americano médio
e o de um somali médio3 [Bourguignon, 2012, p. 101].
As desigualdades globais são, portanto, ainda muito acentuadas e regiões há que
não têm acompanhado os progressos gerais. Os países mais pobres dos dias de
hoje, quase todos africanos, são mais pobres do que os seus homólogos de há
vinte anos (idem, p. 22). Apesar da deterioração da situação deste grupo de
países mais pobres, vários estudos têm vindo a defender que as desigualdades
económicas à escala global tenderam a diminuir (Bourguignon, 2012; UNDP, 2010)
ou a estabilizar (Milanovic, 2011), dependendo das metodologias usadas para
medir essa evolução. A perspetiva analítica de Milanovic é bastante ilustrativa
acerca das dinâmicas em causa neste processo. Segundo defende, as desigualdades
económicas entre cidadãos do mundo têm estado relativamente estacionárias nos
últimos 30 anos, devido à conjugação de tendências de sinal contrário. Tal como
foi referido, o aumento do rendimento médio em países muito populosos como a
China ou a Índia tem potenciado a redução destas disparidades. No entanto, não
só o hiato entre a riqueza agregada dos países tem crescido (PIB), como as
desigualdades de rendimento no seu interior se têm aprofundado em muitos casos.
Isto verifica-se não só no perímetro da OCDE, mas também em países emergentes
como a China, a Índia, a África do Sul ou a Rússia, nos quais o aumento do
nível de rendimento médio tem sido acompanhado pela crescente desigualdade na
distribuição desse recurso económico.
A amplitude das desigualdades de rendimento continua, portanto, a ser mais
pronunciada quando se comparam populações ou grupos populacionais pertencentes
a países com diferentes níveis de desenvolvimento. Porém, no médio e longo
prazo, se o processo de aproximação das economias emergentes em relação ao
nível de riqueza das economias dos países desenvolvidos permanecer constante ou
conhecer uma intensificação, é provável que a amplitude das desigualdades se
venha a basear essencialmente nas diferenças entre ricos e pobres no interior
dos países. Neste sentido, pode equacionar-se um cenário em que a desigualdade
entre norte-americanos e chineses será progressivamente substituída pela
desigualdade entre ricos e pobres norte-americanos e ricos e pobres chineses4
(Bourguignon, 2012, p. 27). Esse cenário dependerá, no entanto, da forma como a
riqueza gerada vai ser internamente distribuída. No limite, tal como refere
Milanovic (2011) a propósito da China, se o crescimento económico dos países em
desenvolvimento não atenuar as desigualdades internas bastante pronunciadas
atualmente existentes em muitos deles, ou mesmo se as acentuar, há a
possibilidade de as desigualdades de rendimento entre cidadãos do mundo virem a
aumentar no futuro. Cada vez mais, tanto as desigualdades intranacionais como
as desigualdades internacionais farão parte intrínseca da composição das
desigualdades globais (Costa, 2012b, p. 157).
Nesta secção elegeu-se a escala global como o referente empírico privilegiado
para uma primeira aproximação ao fenómeno das desigualdades económicas e da
concentração do rendimento. No ponto seguinte o enfoque analítico dirigir-se-á
para a escala nacional, mais concretamente para as desigualdades económicas
internas nos países da União Europeia e para o fenómeno da concentração do
rendimento no topo da distribuição desse recurso económico. Esse zoom será
intensificado na análise dos ganhos salariais de um dos países mais desiguais
do mundo ocidental: Portugal.
DESIGUALDADES INTERNAS NOS PAÍSES EUROPEUS E OS GANHOS DO TOPO EM PORTUGAL
Tal como foi atrás evidenciado, o fenómeno das desigualdades económicas é
bastante pronunciado quando se tem como unidade de análise o globo. Os grandes
hiatos na distribuição do rendimento correspondem a desigualdades categoriais
de nacionalidade (Tilly, 2005), a oposições entre cidadãos de países ricos e
cidadãos de países pobres. Apesar desta evidência, vários estudos têm vindo a
chamar a atenção para o aumento expressivo, verificado nas últimas décadas, das
desigualdades económicas internas no seio dos países mais desenvolvidos do
mundo. Entre meados dos anos 80 do século passado e o final da primeira década
do século XXI, o aumento médio das desigualdades internas nos países da OCDE
foi de cerca de 10% (OECD, 2011). No entanto, nem todos os países seguiram esta
tendência nem tão pouco a magnitude das suas desigualdades internas assume a
mesma dimensão.
Em relação a esta segunda questão, e circunscrevendo a análise a países
europeus, constata-se que o nível de desigualdade interna é, de facto, bastante
variável. O valor do coeficiente de Gini5 nos países da UE-27 variava, em 2010,
entre 35,2% na Letónia e 23,8% na Eslovénia. Se as desigualdades internas forem
medidas através de rácios de quantis, verifica-se igualmente a existência de
realidades bastante diferenciadas: enquanto em Espanha o rendimento disponível
por adulto equivalente6 (ou familiar) dos 20% mais ricos era quase 6,8 vezes
superior ao dos 20% mais pobres, na República Checa e na Eslovénia esse valor
era de 3,5; e se em Espanha o rendimento dos 10% mais ricos era quase 15 vezes
superior ao dos 10% mais pobres, na Eslovénia esse valor era de 5,1.
As disparidades do nível de desigualdade interna à escala europeia são também
bastante pronunciadas quando se analisam porções do rendimento detido por
quantil. Veja-se, por exemplo, que enquanto em Portugal a porção do rendimento
familiar disponível dos 10% e 5% mais ricos representava, em 2010, 27,2% e
17,1% do total do rendimento dos agregados domésticos, estes valores eram de
19,6% na Noruega e de 11,6% na Suécia e na Eslovénia, respetivamente.
Portugal era, de facto, em 2010, o país da UE que apresentava um nível mais
elevado de concentração do rendimento familiar no grupo dos 20%, 10% e 5% mais
ricos. Tendo em conta este facto, e dado que o fenómeno da concentração do
rendimento no topo da distribuição é uma das mais relevantes dinâmicas que
subjazem ao aumento das desigualdades económicas nos países desenvolvidos
(OECD, 2011), é interessante do ponto de vista analítico ampliar ainda mais o
zoom sobre a distribuição dos recursos económicos, e circunscrever agora a
análise apenas a um país (Portugal) e a um tipo de recurso económico
particular: os rendimentos do trabalho.
A figura_1 ilustra o volume do ganho mensal ilíquido em Portugal no ano de 2009
por percentil.7 Os 20% com pior remuneração auferiam um ganho mensal inferior a
543 euros, o ganho mediano era de 741 euros e apenas a partir do percentil 70 é
que os salários atingiam os 1000 euros mensais. O limite inferior do ganho
salarial dos 20% mais ricos era cerca de 1300 euros e o dos 10% de 1874. Estes
são valores consideráveis se comparados com o ganho dos quantis da base da
distribuição ou com o valor mediano deste indicador, mas ainda assim não
descolam drasticamente do panorama remuneratório nacional ilustrado na figura
1. No interior do grupo dos 10% mais ricos há um aumento mais acentuado do
volume dos ganhos mensais, especialmente a partir do percentil 95: 2568 euros.
Este valor é cerca de duas vezes superior ao ganho da base do percentil 80 e
3,5 vezes superior ao ganho mediano. Ainda assim é nos percentis seguintes que
o hiato salarial face ao ganho mediano atinge uma dimensão mais pronunciada: o
ganho do percentil 99 (4644 euros), por exemplo, é 6,3 vezes superior ao
salário mediano. A ordem de grandeza dos ganhos salariais das frações de
percentil que integram o grupo dos 1% mais bem remunerados redimensionam,
porém, a magnitude deste hiato económico ' isso explica o facto de o valor do
ganho mensal do percentil do topo (o percentil 100) não ser apresentado nesta
figura.
A figura_2 contém informação detalhada para o ganho mensal de várias frações de
percentil do grupo dos 1% de trabalhadores mais bem remunerados. O ganho da
fração de percentil 99,5 era de 5800 euros. O da fração 99,9 aproximava-se dos
10000 euros. Este valor é duplicado quando se atenta no ganho da fração de
percentil 99,99 (19 208 euros), que é cerca de 26 vezes superior ao ganho
mediano. O próximo degrau da escada dos ganhos mensais, referente à fração de
percentil 99,999, corresponde a uma nova multiplicação da grandeza deste
indicador: 58 642 euros, 31,3 vezes superior ao ganho do percentil 90 e 79
vezes superior ao valor do ganho mediano. O ganho da fração de percentil
99,9999 é cerca de três vezes superior ao ganho da fração de percentil 99,999,
37,3 mais elevado do que o ganho do percentil 99 e 234 vezes superior ao ganho
mediano.
Os dados anteriores indicam que existia em 2009 um grande fosso económico entre
os grupos de trabalhadores mais bem remunerados, em particular os que integram
o percentil do topo da distribuição, e a generalidade dos assalariados. Esse
hiato é particularmente desproporcionado em relação à base da distribuição e ao
seu ponto intermédio, embora se verifique também uma enorme diferença em
relação aos ganhos salariais dos percentis 70 ou 80. Os ganhos do percentil 90,
95 ou mesmo do percentil 99 são comparativamente elevados face ao observado na
base e no meio da distribuição, mas é nos limites das frações do percentil do
topo que se observa o grande fosso económico na estrutura de distribuição dos
ganhos salariais em Portugal.
Estes dados apontam para uma grande concentração dos ganhos salariais na parte
superior da distribuição. De acordo com Rodrigues, Figueiras e Junqueira (2012,
p. 97), enquanto os 20% com pior remuneração auferiam, em 2009, 9,4% do total
deste recurso económico, no caso dos 10%, 5%, 1%, 0,5%, 0,1% e 0,01% mais bem
remunerados essa porção era de, respetivamente, 29,83%, 19,33%, 6,64%, 4,16%,
1,40% e 0,34%. Se a porção do ganho total auferido pelos 20% com pior
remuneração diminuiu 5,1% entre 1985 e 2009, esse valor aumentou,
respetivamente, 24,5%, 31,5%, 44,7%, 50,7%, 60,9% e 126,7% nos quantis do topo
mencionados. Ou seja, quanto mais próximo do topo da hierarquia económica está
um quantil de ganho, maior é o aumento relativo da porção por si auferida entre
1985 e 2009. No caso da fração de percentil 99,99 essa porção mais do que
duplicou.
Os dados até aqui analisados dizem respeito a grupos económicos
descaracterizados do ponto de vista do seu perfil socioprofissional. É
precisamente essa informação que se apresentará nos gráficos seguintes.
Na figura_3 é possível observar a composição de vários quantis de ganho
salarial de acordo com o nível de escolaridade dos trabalhadores. Em todos os
quantis da parte superior da distribuição do ganho apresentados existe uma
predominância dos trabalhadores com habilitações escolares de nível superior.
Essa predominância é menos vincada no grupo dos 20% mais bem remunerados, mas
intensifica-se nos quatro grupos seguintes. Entre os 0,5% mais bem remunerados,
78,3% concluíram o ensino superior, 15,9% concluíram no máximo o ensino
secundário e 5,8% não foram além do ensino básico. Curiosamente, o peso
relativo dos trabalhadores com o ensino superior diminui nas duas frações de
percentil mais próximas do topo da distribuição apresentadas na figura, o que
indicia que o tipo de atividades económicas que desempenham está menos
associada à posse de recursos escolares (1/4 dos trabalhadores do grupo dos
0,01% mais ricos concluiu no máximo o ensino básico). Num mercado de trabalho
em que cerca de 67% da população média empregada em 2009 não tinha ido além do
9.º ano (Carmo, Cantante e Baptista, 2010, p. 60), é bastante interessante
verificar que nos grupos da parte superior da distribuição do ganho salarial
exista uma clara prevalência dos trabalhadores com habilitações escolares de
nível superior.
Como seria de esperar, além de altamente escolarizados, os trabalhadores que
integram estes quantis do topo situam-se nos grupos profissionais mais
qualificados e/ou desempenham funções de direção. Esta tendência é menos
evidente quando se analisam os grandes grupos dos 20% e 10% mais bem
remunerados, os quais são constituídos maioritariamente por Técnicos e
Profissionais de Nível Intermédio. No grupo dos 5% mais bem remunerados existe
já uma ligeira prevalência dos Quadros Superiores da Administração Pública,
Dirigentes e Quadros Superiores de Empresas (Quadros Superiores e Dirigentes) e
dos Especialistas das Atividades Técnicas e Científicas. Nos quantis seguintes
verifica-se um predomínio bastante acentuado dos Quadros Superiores e
Dirigentes em relação aos demais grupos profissionais. No grupo dos 0,1% mais
bem remunerados representam mesmo 73,3% dos trabalhadores. Tal como foi
referido atrás em relação à composição escolar destes grupos, também aqui
existe uma clara desproporção do peso relativo dos grupos profissionais mais
qualificados e/ou que exercem funções de direção face ao verificado na
estrutura nacional dos grupos profissionais: apenas 4,1% dos trabalhadores por
conta de outrem do setor privado ou do setor público com contrato individual de
trabalho integravam, em 2009, o grupo profissional dos Quadros Superiores e
Dirigentes (GEP/MSSS, 2011, p. 112).
Outra perspetiva analítica passível de ser usada para delinear o perfil
socioprofissional dos trabalhadores que auferem ganhos salariais muito elevados
consiste em apurar quais as categorias profissionais em que uma parcela
significativa dos seus elementos pertence a um quantil do topo da distribuição.
Na figura_5 selecionaram-se as categorias profissionais em que pelo menos 15%
dos trabalhadores que as integram se situam no grupo dos 1% mais bem
remunerados.
As duas categorias profissionais em que mais de metade dos seus efetivos
integra o percentil do topo dos ganhos salariais são os Pilotos de Avião e
Trabalhadores Similares e os Controladores de Tráfego Aéreo: 61,7% e 51,5%,
respetivamente. Segue-se-lhe a categoria dos Diretores-Gerais (42,1%). Os
grupos profissionais que exercem funções de direção-geral ou setorial nas
empresas são, aliás, os que registam em maior número elevados níveis de
concentração dos seus efetivos no grupo dos 1% mais bem remunerados. Veja-se
que dez das quinze categorias profissionais em que pelo menos 15% dos seus
efetivos integram o percentil do topo do ganho salarial têm esse perfil
funcional. No universo das categorias profissionais em causa na figura_5,
importa sublinhar também a presença dos Oficiais de Pilotagem (17,9%), dos
Médicos (15,0%) e dos Atletas, Desportistas e Trabalhadores Similares (14,6%).
Se é verdade que as desigualdades económicas a nível global são mais profundas
quando comparadas com as desigualdades internas, estas são também bastante
expressivas em países como Portugal. O crescente hiato remuneratório entre uma
parcela ínfima da população do país e a sua esmagadora maioria cria um fosso
económico bastante amplo na sociedade portuguesa, o qual dificilmente é
compensado pela ação redistributiva do Estado. Perante a magnitude da
desigualdade económica multi-escalar que tem vindo a ser descrita, importa
questionar de forma integrada as suas causas explicativas. É isso que se irá
levar a cabo no ponto seguinte.
AS CAUSAS DA DESIGUALDADE ECONÓMICA
Não é fácil definir as causas que explicam as desigualdades económicas, muito
menos quando se procuram debater referentes empíricos e escalas analíticas
diferenciadas. No plano global, Acemoglu e Robinson (2013) desenvolveram uma
interessante proposta institucionalista de explicação das desigualdades
existentes entre países ricos e países pobres. De acordo com os autores, os
países que têm instituições políticas e económicas inclusivas, tendem a
prosperar, enquanto os que têm instituições políticas e económicas
extrativas, o desenvolvimento económico e o bem-estar das populações é
condicionado. Em sociedades com Estados centralizados e regimes políticos
pluralistas a ordem legal e as orientações políticas dos governos refletem os
anseios e interesses dos vários grupos que a compõem, e não apenas os de uma
minoria mais ou menos restrita. Essa ordem política e legal potencia e é
potenciada por instituições económicas que favoreçam a livre iniciativa e a
aposta na inovação tecnológica. Pelo contrário, nas sociedades tipicamente
marcadas por instituições extrativas, o poder político é controlado por um
elite que tende a limitar não só a expressão da pluralidade de posições
políticas, mas também a legitimar e reproduzir as condições de apropriação por
uma minoria da riqueza coletiva gerada. Estas dinâmicas são denominadas
círculos virtuosos e viciosos (idem), respetivamente. Os autores rejeitam
que as desigualdades globais possam ser explicadas por razões culturais,
geográficas ou pela ignorância das elites, propondo, portanto, uma
interpretação institucionalista dos processos de produção das desigualdades à
escala global, baseada ao mesmo tempo na admissão da contingência desses
processos e na defesa das suas condições sociais, políticas, económicas e
tecnológicas de possibilidade. Essas contingências e condições podem ser
eminentemente internas, mas podem também decorrer de processos que se
estruturam à escala internacional e que se imbricam com a realidade social,
política e económica de um dado país. O colonialismo e as suas diferentes
formas de concretização são disso um bom exemplo. Esta teoria opõe, portanto,
os países de acordo com a natureza das suas instituições e explica as
desigualdades globais a partir da interação da história com a história
institucional dos países. Tal como foi anteriormente referido, as desigualdades
entre cidadãos de países pobres e de países ricos continuam a ser mais intensas
do que as que se verificam ao nível interno, podendo esta aproximação teórica
ser uma boa ferramenta analítica para interpretar esse fosso.
Outro fenómeno que também tem merecido o esforço analítico dos cientistas
sociais prende-se com as desigualdades económicas internas e sua evolução no
passado recente em países que se caracterizam por ter instituições políticas e
económicas tipicamente inclusivas. De facto, países com instituições políticas
inclusivas têm produzido estruturas sociais cada vez mais desiguais, gerado
hiatos de condições de existência cada vez mais pronunciados entre uma minoria
da população e a sua grande maioria. Várias têm sido as propostas analíticas
para a explicação da evolução das desigualdades económicas internas neste
conjunto de países.
Uma das formulações que mais atenção e debate mereceu na literatura
especializada foi a da corrida entre tecnologia e qualificações. De acordo com
a versão tradicional ou canónica desta perspetiva, se as tecnologias
aumentarem mais a produtividade dos trabalhadores com qualificações elevadas do
que a dos que não têm esse perfil qualificacional, e se o número de
trabalhadores altamente qualificados não acompanhar a procura, então o seu
prémio remuneratório vai subir, tal como as desigualdades económicas ' a
tecnologia (potenciadora de desigualdade) avançaria, neste caso, mais do que as
qualificações (mitigadoras de desigualdade). Segundo Anthony B. Atkinson
(2008), a evolução das desigualdades salariais nos países da OCDE poderá, de
facto, ser parcialmente explicada a partir desta perspetiva analítica.
Na sua versão reformulada (nuanced view, na denominação de Kierzenkowski e
Koske, 2012), esta perspetiva defende que os ganhos de produtividade associados
aos computadores e às máquinas, tal como os processos de offshoring, implicaram
a diminuição da procura de trabalhadores com qualificações intermédias que
tipicamente desempenham tarefas rotineiras (operariado, trabalho
administrativo, contabilidade, vendas), passíveis de serem substituídas por
tecnologia ou por trabalhadores de outros países. Pelo contrário, valorizaram
do ponto de vista remuneratório os trabalhadores altamente qualificados,
capazes de se adaptarem à mudança tecnológica e de desempenharem tarefas
abstratas não rotineiras (gestores, profissionais liberais, ocupações técnicas,
científicas e criativas), mas também os trabalhadores com poucas qualificações
que desempenham tarefas manuais não rotineiras no setor dos serviços, as quais
requerem essencialmente capacidades de adaptação interpessoal e ambiental e não
são passíveis de ser realizadas por máquinas ou através de offshoring (Acemoglu
e Autor, 2010; Autor, Levy e Murnane, 2003).
Subjacente a estas formulações analíticas está a ideia de que a integração
comercial, mas também financeira, num mundo globalizado tem implicações no tipo
de mão-de-obra procurada a nível interno e nos prémios ou penalizações
salariais associadas a esta dinâmica. O estudo Divided We Stand. Why Inequality
Keeps Rising (OECD, 2011) conclui que a abertura dos países da OCDE ao comércio
internacional e às transações financeiras poucos ou nenhuns efeitos tiveram, em
termos agregados, na evolução das suas desigualdades internas. Refere-se,
contudo, que o aumento das importações provenientes de países emergentes tende
a aumentar as desigualdades nos países da OCDE com legislações de proteção do
trabalho fracas, mas também que o investimento direto estrangeiro recebido
diminui as desigualdades salariais internas, enquanto o investimento direto no
estrangeiro tende a ter um efeito inverso. Embora considere que as mudanças
tecnológicas tenham tido algum impacto no aumento das desigualdades económicas
internas dos países da OCDE, esse e outros estudos defendem que os principais
fatores explicativos são de ordem institucional e qualificacional.
No que aos fatores institucionais diz respeito, importa distinguir, por um
lado, as políticas e as instituições que regulam o mercado de trabalho, das
questões de redistribuição por via das transferências e impostos, por outro. Em
relação às primeiras, o estudo conclui que os baixos níveis de sindicalização e
de contratação coletiva, a legislação laboral mais flexível e menor regulação
setorial da economia tendem a favorecer o aumento das desigualdades económicas
(OECD, 2011, p. 119). Este e outros estudos (ILO, 2008) têm vindo a chamar a
atenção para a menor capacidade demonstrada pelas instituições e políticas que
regulam o mercado de trabalho (sindicatos, salário mínimo, perfil contratual
dos trabalhadores) para reduzir o aumento das desigualdades económicas internas
nos países mais desenvolvidos.
Quanto às políticas de redistribuição monetária por via de prestações e dos
impostos, interessa também elencar várias tendências e processos. Embora entre
meados dos anos 80 e 90 do século passado tenha existido um aumento expressivo
das desigualdades económicas de mercado (desigualdades pré-redistribuição) nos
países da OCDE, a ação redistributiva do Estado compensou quase 34 desse
fenómeno (Immervoll e Richardson, 2011, p. 27; Kenworthy e Pontusson, 2005).
Na década seguinte as desigualdades de mercado conheceram uma ampliação mais
modesta, mas a eficácia da ação redistributiva do Estado diminuiu bastante, o
que contribuiu para um aumento significativo das desigualdades de rendimento
disponível. De acordo com Immervoll e Richardson (2011), se até meados dos anos
de 1990 o aumento das desigualdades económicas decorreu primordialmente da
intensificação das desigualdades de rendimento de mercado, na década seguinte
tal deveu-se principalmente à ineficácia dos sistemas redistributivos. Em
termos gerais, segundo estes autores, o aumento das desigualdades de mercado
num conjunto de países da OCDE8 foi duas vezes superior à redistribuição do
rendimento.9 No final da primeira década do século XXI, estima-se que as
transferências sociais, os impostos sobre os rendimentos e as contribuições
para a segurança social permitiam diminuir em cerca de 25% a desigualdade
económica de mercado no universo de países da OCDE, sendo que ¾ dessa redução
se deve às transferências sociais para os agregados domésticos e o restante aos
impostos (Joumard, Pisu e Bloch, 2012).
O aumento das desigualdades de rendimento deveu-se, em grande medida, à
crescente concentração desse recurso no topo da distribuição e ao enquadramento
fiscal desta tendência. De facto, os sistemas fiscais foram desafiados pelo
aumento da magnitude das desigualdades de rendimento bruto ou de mercado, que
avolumaram o nível de concentração deste recurso nos grupos que formam o topo
da distribuição, nomeadamente no percentil e frações de percentil do topo. Esta
tendência foi mais pronunciada nos países anglo-saxónicos, mas verificou-se
também, de forma menos intensa, nos do sul e norte da Europa ' na Europa
central e no Japão esse fenómeno foi menos evidente ou nulo (Atkinson, Piketty
e Saez, 2011). Este processo de concentração do rendimento no topo da
distribuição deve-se a dinâmicas variadas e nem sempre confluentes no universo
dos países ocidentais. Apesar de, no quadro dos rendimentos nacionais, a porção
dos rendimentos do trabalho ter diminuído nas últimas décadas face à porção dos
rendimentos de capital (ILO, 2013; OECD, 2012a), na maior parte dos países mais
desenvolvidos o aumento da concentração do rendimento no percentil do topo da
distribuição deveu-se ao incremento da componente salarial e remuneratória. Por
esta via, a importância relativa dos rendimentos do trabalho no percentil do
topo é mais elevada na atualidade do que no início do século XX (Atkinson,
Piketty e Saez, 2011, p. 5). Nos países do norte da Europa, por seu lado, a
crescente concentração do rendimento no percentil e frações de percentil do
topo está principalmente associada aos rendimentos de capital (Atkinson,
Piketty e Saez, 2010, p. 692).
As desigualdades económicas têm, portanto, sido potenciadas por duas forças de
divergência na distribuição do rendimento: as remunerações do trabalho muito
elevadas de grupos profissionais restritos; o aumento do valor do capital ou do
património privado face ao rendimento nacional (Piketty, 2013). De acordo com
Piketty, este segundo fenómeno é a força divergente fundamental e baseia-se no
facto de, em vários países da OCDE, as taxas de rentabilidade do capital
(lucros, dividendos, mais-valias, rendas, património imobiliário ) serem
superiores à taxa de crescimento do rendimento nacional. Essa foi a regra até
ao século XIX e poderá voltar a ser no século XXI. Tal tem várias implicações
perversas, em particular a reprodução intergeracional da riqueza e do
rendimento familiar, pela qual os patrimónios herdados dominam largamente os
patrimónios constituídos ao longo de uma vida de trabalho ( )10 (idem, p. 55).
Se é verdade que o aumento da concentração do rendimento no topo da
distribuição coloca desafios aos sistemas fiscais, a fiscalidade é em si um
fator incentivador dessa tendência. De acordo com Alvaredo etal. (2013), existe
uma forte correlação entre a redução das taxas de imposto marginais aplicáveis
aos rendimentos do topo e o aumento percentual da concentração do rendimento no
grupo dos 1% mais ricos. De acordo com a análise que estes autores levaram a
cabo para um conjunto de 18 países pertencentes à OCDE, verificou-se que os
países em que as taxas de imposto marginais aplicáveis aos rendimentos mais
elevados registaram uma descida mais significativa desde a década de 1960 (em
Portugal a partir de 1976) tendem a ser aqueles em que a porção do rendimento
antes de impostos detida pelos 1% do topo mais aumentou. Os autores rejeitam
que esta tendência se deva à diminuição da evasão fiscal decorrente da baixa de
impostos, ao aumento dos estímulos fiscais à produtividade de certos grupos
profissionais, ou à narrativa em torno das mudanças tecnológicas e da procura
por mão-de-obra qualificada ' em países com níveis tecnológicos e de
produtividade semelhante a evolução da concentração do rendimento no topo foi
bastante diferenciada. Defendem que um dos fundamentos principais da relação
entre a baixa de impostos nos escalões mais elevados e a ampliação dos
rendimentos dos mais ricos, se prende com o aumento dos incentivos que esse
quadro fiscal mais favorável introduz na negociação de condições contratuais
vantajosas, por parte dos executivos e dirigentes das empresas e de outros
grupos profissionais.
Também a desigualdade no enquadramento fiscal dos rendimentos do trabalho e de
capital é um fator que favorece a concentração do rendimento. Por um lado, os
rendimentos de capital, auferidos em grande parte pelos quantis mais ricos, têm
níveis de taxação mais baixos do que os impostos sobre os rendimentos do
trabalho, o que tem limitado a progressividade dos sistemas fiscais (Joumard,
Pisu e Bloch, 2012). Por outro, apesar do tendencial aumento da progressividade
dos impostos sobre o trabalho ' que permitiu reduzir uma parte do rendimento
disponível dos rendimentos do topo ', verificou-se uma diminuição da taxação
dos rendimentos do capital, da riqueza e das heranças em bastantes países, o
que contribuiu para a redução do alcance redistributivo dos sistemas fiscais
(idem).
Adicionalmente, a fraude e a evasão fiscal (OECD, 2011), os sistemas de
benefícios fiscais em áreas como a saúde, educação, habitação ou dos seguros de
reforma ' que beneficiam desproporcionalmente os indivíduos ou agregados
domésticos da parte superior da distribuição do rendimento (Joumard, Pisu e
Bloch, 2012; OECD, 2011) ', bem como os regimes derrogatórios e nichos
fiscais aplicáveis aos rendimentos de capital (Landis, Piketty e Saez, 2011,
p. 53), têm contribuído para a diminuição do alcance redistributivo da
fiscalidade.
Quanto aos fatores qualificacionais, o estudo Divided We Stand sustenta que o
aumento da proporção de trabalhadores com qualificações de nível superior reduz
em cerca de 2/3 o aumento da desigualdade económica entre os 10% mais ricos e
os 10% mais pobres associado às mudanças institucionais e tecnológicas (OECD,
2011, p. 123). O hiato de desigualdade económica entre trabalhadores
qualificados e não qualificados é, na verdade, uma evidência empírica
insofismável. Veja-se que, no universo de países da OCDE, a população que
concluiu o ensino superior aufere em termos médios uma remuneração do trabalho
cerca de 55% superior à auferida por quem concluiu no máximo o ensino
secundário ou pós-secundário não superior. E a remuneração desta população é
23% superior à de quem não foi além do ensino básico (ISCED 2) (OECD, 2012b).
Neste sentido, vários são os autores que sublinham a importância do acesso às
qualificações como vetor fundamental para igualizar a distribuição interna dos
recursos económicos disponíveis e as oportunidades de mobilidade social
(Bourguignon, 2012; Savidan, 2007). É consensual que a igualdade de
oportunidades nas sociedades do conhecimento se define em grande medida por
referência ao capital educativo. A escola é uma instituição nevrálgica na
definição das oportunidades que se abrem ao indivíduo no mercado de trabalho e
noutras esferas da existência social. Ela está no centro dos processos sociais
pelos quais se estruturam de forma interativa as posições e as oportunidades
sociais, as dinâmicas de mobilidade ou de reprodução social (Dubet, 2010). De
facto, o acesso às posições sociais e profissionais dominantes, ou a reprodução
das mesmas, dependem em muito do capital educativo adquirido. Num mercado de
trabalho que valoriza as credenciais formais e as competências escolares, este
tipo de recursos é cada vez mais central na definição das posições sociais.
Distinguem-se no interior dos países os trabalhadores Apple Mac dos
trabalhadores Big Mac (Giddens, 2007) e emergem internacionalmente classes
sociais globais que se estruturam em grande medida pelo capital escolar e
respetivo perfil profissional dos indivíduos que as integram (Wagner, 2007;
Sassen, 2005).
Os processos gerais de estruturação das desigualdades económicas descritos para
o conjunto de países da OCDE têm concretizações particulares em cada um dos
países de acordo com o seu perfil social, económico, institucional e
qualificacional. Promovendo um zoom analítico sobre Portugal, interessa começar
por referir que uma boa parte das desigualdades económicas em Portugal se
explica pela desigualdade de acesso aos recursos educativos e qualificacionais.
Enquanto a média mensal de ganhos salariais em Portugal, no ano de 2009, foi de
1034 euros, esse montante para os trabalhadores que concluíram o ensino
superior atingiu os 1938 euros.11 Este é um valor destacadamente acima do
apurado para os demais níveis de escolaridade: 1094 euros para os trabalhadores
que concluíram o ensino secundário e 787 entre os que não foram além do 9.º
ano. Embora não defina qual a posição relativa a ocupar no quintil do topo da
distribuição salarial, o ensino superior é um recurso estruturalmente
fundamental para se aceder a essa categoria económica. Veja-se que, em 2009,
cerca de 60% dos trabalhadores que tinham concluído o ensino superior faziam
parte do grupo dos 20% mais bem remunerados em Portugal, enquanto apenas 8,7%
dos que tinham concluído um nível básico de ensino e 3,0% dos que não tinham
qualquer nível de ensino integravam essa mesma categoria. Inversamente, apenas
2,4% dos trabalhadores com o ensino superior se situavam entre o grupo dos 20%
mais pobres, face a 26,4% dos que tinham um nível básico de ensino e 37,7% dos
que não tinham qualquer nível de ensino a integravam.12
Esta estreita relação entre o nível de escolaridade e a desigualdade económica
em Portugal é reforçada quando se analisam os dados referentes aos rendimentos
monetários por adulto equivalente ou familiares. No ano de 2008, cerca de 67%
dos indivíduos que concluíram o ensino superior pertenciam ao grupo dos 20%
mais ricos (5.º quintil). No caso dos que concluíram o ensino secundário ou
pós-secundário e dos que não foram além do 9.º ano esse valor é de 32,8% e
12,8%, respetivamente. Por outro lado, enquanto mais de 40% dos indivíduos que
concluíram no máximo o 9.º ano de escolaridade integravam os dois quintis de
rendimento mais baixos, apenas 8% dos que concluíram o ensino superior estavam
nessa situação (INE, 2010).
Não é por isso de estranhar que as qualificações dos trabalhadores expliquem
50% da desigualdade total na distribuição dos ganhos médios, o que representa
um aumento da capacidade explicativa desta variável de 14 pontos percentuais em
relação ao verificado em 1994 (Rodrigues, Figueiras e Junqueira, 2012, p.
151).
Contudo, tal como foi descrito ao nível internacional, existem em Portugal
fatores de natureza institucional que contribuem para a explicação da magnitude
da desigualdade económica interna. De entre este tipo de fatores destacam-se as
políticas públicas de redistribuição do rendimento.
De acordo com Nuno Alves (2012), embora Portugal fosse, no ano de 2009, um dos
países da União em que a redistribuição das prestações socias em dinheiro
assumia um cariz mais progressivo, era também um dos que registava um menor
impacto dessas prestações na diminuição das desigualdades económicas. Tal deve-
se, de acordo com o autor, ao facto de o volume de despesas neste tipo de
prestações ser relativamente baixo: representava cerca de 5,8% do rendimento
base dos agregados domésticos, contra 8,7% de média nos países da UE-27 (Alves,
2012, p. 51). Embora estas prestações em Portugal sejam eficientes, no sentido
em que são orientadas principalmente para os grupos mais pobres da população,
elas acabam por ter um impacto abaixo do observado nos países da União devido à
sua grandeza comparativamente diminuta. Quanto aos impostos, o autor indica que
o seu efeito redistributivo é mais elevado do que na média da UE-27. Refere,
igualmente, que a elevada fração do total de impostos sobre o rendimento paga
pelos decis de rendimento mais elevados em Portugal ' um dos máximos na União
Europeia ' resulta essencialmente da elevada desigualdade na distribuição do
rendimento bruto em Portugal, dado que as taxas médias de imposto nos decis de
rendimento mais elevado não diferem substancialmente da média europeia (idem,
p. 56). Conclui assim que as transferências monetárias do Estado para as
famílias e os impostos diretos permitiram diminuir em 20% o valor do
coeficiente de Gini em Portugal e em 22% na UE, o que corresponde, em ambos os
casos, a um decréscimo de oito pontos percentuais do valor dessa medida de
desigualdade.
As conclusões deste estudo assentam numa escolha metodológica pela qual se
consideram as pensões de reforma como rendimento não redistributivo. Quando se
introduzem as pensões de reforma no conjunto de transferências do Estado para
as famílias, prestações essas que representam cerca de 20% do rendimento
disponível (Rodrigues e Andrade, 2013, p. 17), o impacto redistributivo das
transferências sociais em Portugal situa-se abaixo do verificado em termos
médios nos países da OCDE (Joumard, Pisu e Bloch, 2012). De acordo com
Rodrigues e Andrade (2013), as funções do tipo Piggy Bank do Estado
Providência em Portugal, tais como as pensões de reforma, o subsídio de
desemprego ou de doença, que assentam numa lógica bismarckiana de seguro
pessoal, sobrepõem-se às funções do tipo Robin Hood, que se associam aos
sistemas beveridgeanos, tipicamente caracterizados pelas prestações sociais
baseadas em condições de recursos e pela progressividade do sistema fiscal.
Segundo Carlos Farinha Rodrigues, uma das principais razões que explicam que o
impacto das políticas redistributivas seja menor em Portugal do que na média
dos países da UE-27 prende-se com a inexistência de políticas públicas
diretamente vocacionadas para o combate às desigualdades:
Nós não temos tido em Portugal políticas efetivas de combate às
desigualdades. Nos últimos anos são raras as políticas que tenham
sido concebidas e aplicadas para reduzir as desigualdades. Há como
que um alheamento político face a este problema. O que aconteceu em
Portugal, e que é muito significativo, é que até 2009 tivemos
políticas de combate à pobreza e à exclusão social que tiveram
impactos positivos, no sentido em que permitiram alguma redução da
desigualdade económica. Eu costumo utilizar muito a expressão, o
combate à desigualdade em Portugal foi à boleia das políticas sociais
de combate à pobreza13.
Nesta secção do artigo promoveu-se uma análise das causas das desigualdades
económicas e da sua evolução no passado recente. No próximo ponto debater-se-ão
os seus efeitos.
PORQUE É QUE AS DESIGUALDADES ECONÓMICAS IMPORTAM
As desigualdades económicas são um fenómeno que, a várias escalas e em
múltiplas dimensões, têm efeitos perniciosos para a vida coletiva. Ao nível
global, o fenómeno que é porventura mais evidente para ilustrar este facto
prende-se com o fluxos migratórios dos países mais pobres para os países
prósperos do hemisfério norte. As grandes desigualdades económicas e de
condições de vida globais fazem com que a melhor estratégia para um cidadão
médio de um país pobre atingir um rendimento ou nível de vida médio de um país
rico seja investir na mobilidade territorial internacional e não na mobilidade
social intranacional (Costa, 2012b; Milanovic, 2011). De acordo com Branko
Milanovic (2007), a globalização tem vindo a acentuar a consciência, por parte
dos cidadãos dos países mais pobres, das desigualdades de rendimento e de
condições de vida existentes à escala planetária. Apesar das dificuldades e do
risco muitas vezes associado aos processos migratórios para os países mais
ricos, a aposta neste tipo de estratégia de mobilidade é altamente efetiva
(Korzeniewicz e Moran, 2009). Isto é, a probabilidade de um cidadão médio de um
país pobre alcançar o patamar económico médio de um cidadão de um país rico do
hemisfério norte é mais elevada se apostar na mobilidade territorial do que na
ascensão social interna ou no crescimento económico geral do país de origem
(idem). As desigualdades globais potenciam, portanto, os processos migratórios
do hemisfério sul para o hemisfério norte, com todos os problemas sociais,
ambientais, políticos e económicos que daqui decorrem. A impossibilidade física
e a indesejabilidade ética/política de se erigir uma fortaleza (Milanovic,
2007) entre estes dois mundos implica que as desigualdades globais sejam
combatidas de forma determinada e eficaz.
A análise dos efeitos negativos das desigualdades coloca-se também ao nível dos
processos de estruturação social, política e económica dos países. Há muito que
as ciências sociais têm investigado os efeitos das desigualdades sociais nas
condições de vida e nas oportunidades à disposição de indivíduos ou de
categorias sociais mais alargadas (por exemplo, as classes sociais, os grupos
étnicos ou o género). As desigualdades sociais tendem a reproduzir-se e a
acumular-se (Bihr e Pfefferkorn, 2008; Bourdieu, 1979) e a igualdade de
oportunidades é severamente condicionada pelas desigualdades de posição ou
condição social (Dubet, 2010). As desigualdades, nomeadamente as desigualdades
de recursos económicos, têm impactos na vida e nas possibilidades de existência
dos indivíduos e, em termos mais abstratos, das categorias sociais, quer do
ponto de vista sincrónico, quer ao nível temporal. Tendem a acumular-se na
esfera da existência social dos indivíduos e a reproduzir-se no tempo. Do ponto
de vista dos processos de estruturação social, as desigualdades têm, portanto,
um efeito potencialmente nocivo ao nível da mobilidade social, do
desenvolvimento e aproveitamento de capacidades e talentos, e de reprodução de
fenómenos como a pobreza e a exclusão social. Mas até que ponto a análise dos
efeitos das desigualdades se pode realizar a uma escala mais vasta,
nomeadamente no plano dos seus efeitos para as sociedades enquanto entidades
coletivas?
Este é um trilho analítico que tem sido percorrido nos últimos anos por vários
investigadores, através da problematização dos impactos dessas disparidades na
vida coletiva. Richard Wilkinson e Kate Pickett demonstram no livro The Spirit
Level (2009) que os países que apresentam níveis de desigualdades de rendimento
mais elevados tendem a ter performances comparativamente negativas em áreas tão
diversas como a mortalidade infantil, os níveis de encarceramento, os níveis de
felicidade e de confiança da população ou o sucesso escolar. Esta obra chama a
atenção para o facto de as desigualdades de rendimento poderem ter
consequências negativas multidimensionais para a sociedade como um todo, e não
apenas para parcelas mais ou menos bem circunscritas da população.
Uma interessante pista de investigação que tem sido desenvolvida no âmbito mais
vasto da problemática dos impactos coletivos das desigualdades económicas,
prende-se com as implicações macroeconómicas das desigualdades de rendimento,
mais concretamente a relação existente entre este fenómeno e a crise financeira
iniciada entre 2007 e 2008 nos EUA. A tese central das várias abordagens a esta
problemática é a de que o aumento das desigualdades económicas verificado nos
Estados Unidos e noutros países da OCDE nas últimas décadas, aliado à
desregulação do setor financeiro, favoreceu a emergência da atual crise
financeira e económica.
Num estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional, denominado
Inequality, leverage and crises, Michael Kumhof e Romain Rancière (2010)
chamam a atenção para a crescente concentração da riqueza monetária nos grupos
do topo da distribuição do rendimento, verificada nas últimas décadas nos
Estados Unidos. Segundo concluem, a porção do rendimento detido pelos 5% mais
ricos desse país aumentou de 22% em 1983 para 34% em 2007, tendência semelhante
ao verificado entre 1920 e 1928 ' período que antecedeu o crash da bolsa de
Nova Iorque. Enquanto os 10% mais ricos viram a sua remuneração real por hora
de trabalho aumentar 70% entre 1967 e 2005, a remuneração real por hora de
trabalho dos trabalhadores com um rendimento mediano e dos 10% mais pobres
diminuiu nesse intervalo temporal 5% e 25%, respetivamente. O avolumar da
desigualdade de rendimento entre esses dois grupos, que se concretizou na
deterioração do poder de compra dos 95% mais pobres e no aumento substancial do
rendimento dos 5% mais ricos, implicou uma crescente necessidade de acesso ao
crédito por parte do primeiro grupo, e uma maior disponibilidade para emprestar
dinheiro por parte do segundo. Entre 1983 e 2007, o nível de endividamento dos
mais ricos situou-se de forma consistente nos 70% do rendimento disponível, mas
no caso dos 95% mais pobres esse indicador mais do que duplicou, atingindo os
140%. Se em 1983 os 5% mais ricos dos Estados Unidos tinham um nível de
endividamento15 pontos percentuais superior ao verificado entre os restantes
95% da população, em 2007 o nível de endividamento deste segundo grupo era o
dobro do existente entre os mais ricos. A desigualdade económica esteve,
portanto, no coração da crise financeira, no sentido em que os termos dos
empréstimos concedidos a quem não os podia com grande probabilidade pagar criou
uma instabilidade intrínseca no sistema financeiro (Galbraith, 2012). Segundo
esta tese, a diminuição do poder de compra da maior parte da população norte-
americana potenciou o endividamento das famílias, tendo esse fenómeno sido
favorecido por decisões políticas conducentes à desregulação do mercado
financeiro. Essa desregulação e o comportamento irresponsável das instituições
financeiras exacerbaram a crise, mas a sua causa estrutural prendeu-se com o
aumento das desigualdades económicas e, em particular, da concentração do
rendimento nos grupos do topo da distribuição (Milanovic, 2011, p. 193).
Esta argumentação é secundada e aprofundada por autores como Stockhammer
(2012), Lysandrou (2011), Fitoussi e Stiglitz (2009) e Horn etal.(2009). De
acordo com estas perspetivas, o aumento das desigualdades económicas no
interior dos países tem de ser enquadrada não só no universo restrito da
distribuição interna do rendimento e da riqueza, mas também no âmbito mais
vasto dos fluxos financeiros internacionais.14 As desigualdades económicas
internas e o aumento da concentração do rendimento em grupos minoritários da
população dos países implicou uma perda de poder de compra por parte da sua
grande maioria e, nesse sentido, uma diminuição potencial da procura agregada.
Essa diminuição da procura interna foi, no entanto, mitigada pela desregulação
dos fluxos financeiros internacionais, a qual facilitou a acumulação de défices
de balança corrente em alguns países. Neste esquema analítico, opõem-se países
como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Grécia, a Irlanda e Portugal, com um
modelo de crescimento suportado em dívida, à Alemanha, China, Áustria e
Japão, com um modelo de crescimento suportando pelas exportações
(Stockhammer, 2012). Em ambos os casos, as orientações macroeconómicas dos
países estão associadas, segundo este autor, à estagnação da procura doméstica
decorrente do aumento das desigualdades económicas internas. Stockhammer
defende, porém, que para se perceber, na sua globalidade, a relação entre
desigualdade económica e a crise financeira iniciada em 2007/2008 nos Estados
Unidos é necessário analisar também o fenómeno do aumento da propensão para se
especular.
É precisamente esse o prisma analítico desenvolvido por Lysandrou (2011).
Segundo este autor, a desigualdade económica pode explicar o aumento da procura
de crédito bancário, mas não a securização desse crédito e a sua transformação
numa mercadoria passível de ser comercializada, apesar da falta de
transparência e opacidade de alguns dos produtos financeiros derivados. Essa
explicação deve ser procurada no aumento da concentração da riqueza privada
mundial numa pequena minoria da população. Na perspetiva de Lysandrou, essa
tendência implicou uma procura excessiva de investimentos financeiros
tradicionais (dívida soberana, por exemplo), o que por sua vez pressionou o
setor financeiro para criar ou privilegiar recipientes de riqueza
alternativos, mais atrativos do ponto de vista da sua rentabilidade. Os CDO
(Collateralized Debt Obligations), um dos produtos financeiros derivados
associados aos empréstimos no crédito à habitação no mercado subprime dos
Estados Unidos (o qual desencadeou a crise de 2007/2008), foram criados pelos
bancos para satisfazer os ensejos de vários agentes, em particular dos fundos
de investimento ' que em 2006 detinham 50% desses produtos (Lysandrou, p. 196).
Os principais clientes dos fundos de investimento são os investidores
institucionais, mas sobretudo os indivíduos com elevado património líquido
(high net worth individuals, HNWI), que Lysandrou define como os detentores
de uma riqueza líquida superior a um milhão de dólares ou a 30 milhões de
dólares, no caso dos ultra HNWI. Ou seja, o tipo de produtos financeiros de
alto risco que estiveram na base da crise financeira de 2007/2008 foram
delineados para e procurados por um conjunto muito restrito de investidores,
nomeadamente privados. De acordo com a estimativa apresentada pelo autor, este
grupo restrito da população mundial passou de 7,5 milhões de indivíduos em 2000
para 9,5 milhões em 2007 (0,01% da população mundial), tendo a sua riqueza
aumentado cerca de 60% nesse período. Em 2006, embora detivessem apenas 15 do
total de ativos financeiros, eram proprietários de mais de metade dos ativos
financeiros alternativos, tais como os CDS (Lysandrou, 2011, pp. 190, 201).
A relação entre desigualdade económica e o sistema financeiro e económico pode,
portanto, ser equacionada a partir de ângulos de análise diferenciados e, em
parte, complementares. Importa, contudo, sublinhar que este tipo de formulações
têm sido questionadas por vários estudos, que concluem que não existe uma
relação direta entre situações de aumento das desigualdades de rendimento ou
riqueza nos países e a emergência de crises económicas e financeiras (Atkinson
e Morelli, 2011). Ou seja, a efetivação da relação entre as desigualdades
económicas e a emergência de crises financeiras não é linear e depende dos
contextos sociais, institucionais e políticos que enquadram esse tipo de
dinâmica.
Paul Krugman, por seu lado, defende uma aproximação de cariz político a este
fenómeno. Segundo refere, a crescente desigualdade na sociedade norte-americana
potenciou a depressão económica e a crise financeira, pois os mais ricos
conseguiram impor politicamente a sua agenda e os seus interesses. O dinheiro
compra influência, refere (Krugman, 2012, p. 85), e tem a capacidade de
intervir numa área fundamental dos processos de distribuição do rendimento: as
políticas fiscais.
Joseph Stiglitz (2012) concorda também com esta tese. De acordo com o autor, a
elite económica dos Estados Unidos tem vindo a impor os seus interesses e a sua
visão do mundo no campo político, conseguindo deste modo que as políticas
públicas contribuam para a reprodução das desigualdades sociais e para a
perpetuação da sua posição dominante na estrutura social. As políticas de
favorecimento fiscal dos mais ricos ou a canalização de rendas para estes
mesmos indivíduos são exemplos do controlo ideológico dos mais ricos nos
centros de decisão política. No entender de Stiglitz, o aumento da concentração
do rendimento tem impactos negativos nos níveis de confiança e de coesão social
existentes numa sociedade, tende a rigidificar as estruturas sociais dos
países, a esbater as dinâmicas de mobilidade social e, caso os rendimentos mais
elevados não sejam proporcionalmente taxados, a fragilizar a receita fiscal
necessária para o investimento público em educação, infraestruturas ou
tecnologia. Mas o efeito mais estruturante das desigualdades materializa-se na
criação de condições institucionais, legais, políticas e cognitivas que tendem
a garantir a sua reprodução:
As sociedades mais igualitárias esforçam-se bastante para preservar a
sua coesão social; nas sociedades mais desiguais, as políticas dos
governos e de outras instituições tendem a favorecer a persistência
das desigualdades15 [Stiglitz, 2012, p. 77].
Apesar destes processos e dinâmicas sociais, a estruturação das desigualdades
não segue uma direção predeterminada, pois depende da forma como a sociedade
lida com elas, mais concretamente do modo como as políticas públicas as
enquadram e agem sobre elas. Ou seja, as desigualdades sociais e económicas
podem ser política, jurídica e institucionalmente potenciadas ou mitigadas.
Aproximações analíticas como as que foram apresentadas nesta secção alertam, no
entanto, para o facto de que elevados níveis de desigualdade produzem efeitos
que afetam de modo mais ou menos direto toda a estrutura social. Não é por isso
de estranhar que a crítica das desigualdades e o reconhecimento dos seus
efeitos negativos para a vida coletiva tenham uma crescente adesão no debate
público. Por vezes, em contextos institucionais ou editoriais surpreendentes,
como o Fórum Económico de Davos e do seu estudo Global Risks 2012 (2011) ou da
revista inglesa The Economist.16
CONCLUSÃO
As desigualdades económicas manifestam e ajudam a reproduzir fossos de
oportunidades e de condições de vida em várias áreas e a diferentes escalas.
Apesar da melhoria das condições de vida de grande parte da população dos
países subdesenvolvidos/em desenvolvimento, o fosso face ao mundo ocidental é
ainda imenso. Na Noruega estuda-se, em média, cerca de 13 anos, mas na Etiópia
o valor desse indicador é inferior a dois anos (UNDP, 2011). Quem nascer no
Japão pode esperar viver mais 35 anos do que quem nascer na Guiné-Bissau, na
República Centro Africana ou no Afeganistão. Morrem todos os dias devido a
causas passíveis de serem evitadas 19 mil crianças, cerca de metade das quais
na África sub-Sahariana (UNICEF, 2012). Estima-se que 868 milhões de pessoas
sofressem de problemas de subnutrição no período 2010-2012, valor que
representa 12,5% da população mundial ' sendo que a esmagadora maioria desta
população (852 milhões) vive em países em desenvolvimento, nos quais 14,9% da
população enfrenta este problema (FAO, 2012).
Também no denominado mundo ocidental, aquele que habita na sua grande maioria o
hemisfério norte, as desigualdades económicas vão-se afirmando como um dos
principais fenómenos estruturais das sociedades. A amplitude das desigualdades
internas que aí emergem não assume a expressão dramática verificada quando a
tela de análise é o globo, mas o fosso entre os muito ricos e a restante
população é cada vez mais claro.
A atual crise financeira adicionou uma nova dinâmica estruturante ao fenómeno
das desigualdades económicas no mundo ocidental, que convém estudar em
profundidade no futuro: o desemprego. Segundo as estimativas do Eurostat, mais
de 26 milhões de trabalhadores dos países da UE-28 estavam desempregados no
final do ano de 2013, o que corresponde a uma taxa de desemprego na ordem dos
11%. Em alguns países este fenómeno assume proporções bem mais graves,
chegando mesmo a ultrapassar os 25% na Grécia e em Espanha. Em Portugal o valor
deste indicador era de 15,4% e o desemprego médio anual para 2013 situou-se em
16,3%, valor que seria bem mais elevado se não fosse o fenómeno da emigração
massiva e o número de trabalhadores que embora estejam disponíveis para
trabalhar desistiram de procurar trabalho ' sendo por isso considerados
inativos. Acrescente-se a isto que uma boa parte da população desempregada em
Portugal não recebe qualquer subsídio de desemprego.
Se até aqui a grande força motriz do aumento das desigualdades económicas de
mercado, em Portugal e na grande maioria dos países ocidentais, decorreu da
crescente concentração do rendimento nos grupos do topo da distribuição, o
desemprego assume-se como um novo mecanismo produtor de assimetrias materiais a
partir da base. Tal como tem sucedido com os rendimentos do topo, também o
desemprego pressionará a capacidade redistributiva dos Estados e, portanto, o
seu papel na diminuição das desigualdades de rendimento disponível. Importa a
este nível ter em consideração que as desigualdades económicas não são um
elemento neutro nos processos de estruturação social e económica das
sociedades. James K. Galbraith (2012, p. 14) defende que as desigualdades devem
ser estudadas devido ao seu caráter informativo e não por serem chocantes.
Acrescentar-se-ia que a magnitude chocante das desigualdades económicas que se
descreveu e analisou neste artigo deve ser um dos elementos informativos a ter
em conta na definição de políticas públicas e de respostas institucionais a
aplicar às várias escalas de intervenção. Não só por uma questão de justiça,
mas também porque as desigualdades têm implicações negativas multidimensionais
e multi-escalares para a vida coletiva.