Líderes políticos e comportamento eleitoral: rumo a uma personalização da
política?
FÓRUM
Líderes políticos e comportamento eleitoral: rumo a uma personalização da
política?1
Frederico Ferreira da Silva*
*ICS, Universidade de Lisboa, Av. Professor Aníbal de Bettencourt, 9 1600-189
Lisboa, Portugal. E-mail: frederico.silva@ics.ulisboa.pt
Discutidos neste ensaio:
AARTS, K., BLAIS, A., SCHMIDTT, H. (eds.) (2011), Political Leaders and
Democratic Elections
, Oxford, Oxford University Press. ISBN: 9780199650569.
BITTNER, A. (2011), Platform of Personality? The Role of Party Leaders in
Elections,
Oxford, Oxford University Press. ISBN: 9780199595365.
KARVONEN, L. (2010), ThePersonalisation of Politics ' A Study of Parliamentary
Democracies, Colchester, ECPR Press. ISBN: 9781907301032.
POGUNTKE, T., WEBB, P. (2005), ThePresidentialization of Politics ' A
Comparative
Study of Modern Democracies, Oxford, Oxford University Press.
ISBN: 9780199218493.
O debate sobre a crescente personalização da política é extremamente pertinente
e atual. A imagem e perfis dos candidatos e líderes políticos são cada vez mais
discutidos nas sociedades contemporâneas, facto atribuível, entre outros
aspetos, ao processo de individualização. Os executivos são nomeados segundo os
respetivos líderes e as campanhas eleitorais são cada vez mais centradas nos
candidatos. Nos meios de comunicação social, os recorrentes debates televisivos
entre líderes alteraram a forma como estes são avaliados pelos eleitores
(Kriesi, 2012, p. 828). As características individuais dos políticos são
avaliadas, as suas personalidades analisadas e a popularidade dos mesmos junto
do eleitorado é frequentemente medida.
Os líderes têm, de facto, conquistado um lugar central no que
respeita à comunicação política devido aos efeitos interrelacionados
das inovações tecnológicas mediáticas e das mudanças organizacionais
dos próprios partidos. Tal tornou os líderes políticos cada vez mais
visíveis e, consequentemente, sujeitos a um constante escrutínio por
parte do público. Uma das principais consequências do processo reside
nas transformações na forma como os seguidores (eleitores) entendem e
avaliam os líderes. [ ] O foco ubíquo dos media em líderes
individuais ' e nos líderes enquanto indivíduos ' de facto conferiu
ao público a capacidade de os julgar como pessoas, assim
possibilitando a aplicação de enquadramentos/molduras cognitivas
normalmente empregues na vida quotidiana ao processo de avaliação dos
líderes [Garzia, 2011, p. 698].
Mas que impacto terão as avaliações dos líderes no voto? Os regimes políticos
estão a tornar-se mais individualizados e presidenciais? Estarão os líderes a
assumir um papel preponderante face aos partidos políticos? E em caso
afirmativo, que tipo de avaliações são feitas: com conteúdo político ou com
base apenas na imagem mediática da personalidade? Estas são algumas das
questões abordadas nestas obras que, para além da sua grande atualidade, reúnem
os resultados de recentes investigações de especialistas na área dos líderes
políticos, constituindo um acréscimo fundamental para o conhecimento científico
sobre o fenómeno que nos propomos debater, sintetizando de forma crítica os
respetivos contributos para o estudo da personalização da política.
As obras aqui analisadas refletem diferentes abordagens, e diversos pontos de
partida e de chegada relativamente ao fenómeno. Se o volume editado por
Poguntke e Webb (2005) e a obra de Amanda Bittner (2011) espelham um
posicionamento mais favorável à existência deste processo, a de Lauri Karvonen
(2010) deixa transparecer maior ceticismo. Já o volume editado por Aarts, Blais
e Schmitt (2011) compila perspetivas muito heterogéneas. Em todo o caso, todos
eles constituem um excecional contributo para o aprofundamento desta temática e
para uma reflexão sobre a sua complexidade teórica e metodológica por parte de
autores com um historial de investigação significativo neste domínio. Além
disso, têm o mérito de capitalizar resultados de estudos anteriores, integrando
o conhecimento já produzido sobre o tema, reforçando assim a sua atualidade e
valor.
Várias investigações têm vindo a ser desenvolvidas nos últimos anos no sentido
de aferir a importância dos líderes para o comportamento eleitoral. Em Platform
or Personality?, Amanda Bittner (2011) identifica cinco grandes temas de estudo
nesta área. Em primeiro lugar, os estudos sobre as fontes de informação, ou
seja, o enquadramento mediático dos candidatos e temas políticos e o papel dos
meios de comunicação social em aspetos decisivos da campanha eleitoral, como
debates e discursos; as questões relacionadas com a seleção partidária dos
líderes e respetivo impacto eleitoral; os traços de personalidade que os
eleitores mais valorizam nas suas avaliações dos líderes; os tipos de fatores
que influenciam a avaliação dos candidatos (de natureza sociodemográfica,
ideológica, partidária, etc.); por último, o impacto dos líderes nas escolhas
partidárias e nos resultados eleitorais.
No entanto, perspetivas demasiado restritas aos contextos analíticos em causa,
abordagens teóricas e metodológicas distintas e desconexas dão origem a
resultados que são frequentemente contraditórios e, por isso, inconclusivos
relativamente à existência de uma clara tendência geral no sentido da
personalização. São comuns estudos parcelares com enfoque apenas num país, num
ato eleitoral, num tipo de sistema eleitoral, que incidem sobre diferentes
questões de investigação e reúnem um grande volume de informação detalhada
sobre um determinado contexto, mas que resultam em alguma dispersão ao nível
dos resultados. Perde-se a avaliação consistente do impacto da evolução ao
longo do tempo e dos contextos dos efeitos dos líderes no voto.
A obra editada por Poguntke e Webb (2005) reúne os contributos de um conjunto
de especialistas, convidados a avaliar o grau de presidencialização dos
respetivos países. Por presidencialização entende-se o processo mediante o qual
os regimes políticos se têm vindo a tornar mais presidenciais na sua prática
operacional, sem existir, na maioria dos casos, uma alteração na sua estrutura
formal, ou seja, no seu regime político (Poguntke e Webb, 2005, p. 1). Assim,
nos regimes presidencializados os líderes dispõem de uma maior autonomia e de
mais recursos de poder, assistindo-se a uma personalização do processo
eleitoral. A análise dos especialistas é feita segundo uma grelha analítica
fornecida pelos autores, explicitada no capítulo introdutório, que assenta no
que denominam as três faces da presidencialização: a face executiva, a face
partidária e a face eleitoral, todas elas reforçadas, através da
presidencialização, por fatores externos à estrutura formal do regime político.
A face executiva implica um aumento da autonomia governativa do líder por via
de cedências formais de poder em seu favor, como o poder de nomear ou de tomar
decisões unilaterais (Poguntke e Webb, 2005, p. 8). A face partidária envolve
uma mudança no poder intrapartidário em benefício do líder. A face eleitoral
pauta-se pela crescente atenção dada aos líderes no período de campanha
eleitoral, uma cobertura mediática essencialmente concentrada nos líderes e
pela influência acrescida dos mesmos nos comportamentos eleitorais.
Em The Personalisation of Politics: a Study of Parliamentary Democracies,
Karvonen (2010) centra-se apenas em democracias parlamentares, justificando não
fazer sentido analisar o grau de personalização de regimes que na sua essência
a promovem, como o presidencialismo. A investigação divide-se em quatro
capítulos, abrangendo as instituições políticas, os candidatos, líderes,
eleitores e os meios de comunicação social. Baseia-se exclusivamente em dados
de fontes secundárias muito diversas: expert surveys, os próprios dados do
estudo de Poguntke e Webb (2005), o European Voter Database, estatísticas de
imprensa e das campanhas eleitorais, entre outras. Embora refira em vários
momentos que não é sua intenção proceder a uma análise comparativa, acaba por
sofrer da mesma lacuna que aponta ao estudo de Poguntke e Webb (2005),
nomeadamente a fragilidade das conclusões que possam ser retiradas de dados que
provêm de fontes distintas e não comuns a todos os casos analisados. As
conclusões de Karvonen (2010) são um pouco ambíguas na medida em que suportam a
tese da personalização em algumas dimensões (é o caso da dimensão mediática, em
que observa uma maior concentração dos meios de comunicação social nos líderes
políticos enquanto indivíduos) e a refutam noutras (por exemplo, refere que os
efeitos de líder no voto são uma mera repercussão dos efeitos da identificação
partidária).
Em Political Leaders and Democratic Elections, os editores Aarts, Blais e
Schmitt (2011) têm como objetivo preencher o que acreditam ser uma enorme (e
injustificada) falha na literatura: avaliar o impacto dos líderes no voto
(2011, p. 2). Para tal, utilizam estudos eleitorais de nove países, numa
perspetiva cronológica longitudinal (1970-2000) combinada de 68 atos eleitorais
e, em alguns casos, dados do Comparative Study of Electoral Systems (CSES).2 O
livro tenta responder a um conjunto de interrogações recorrentes nos estudos
sobre efeitos de líder: porque deveriam os líderes influenciar as decisões de
voto? Quando e em que circunstâncias esses efeitos se fazem sentir com maior
intensidade? Em que contextos institucionais? Para que tipo de eleitores? O
alargado conjunto de especialistas sobre efeitos de líder possibilita uma
abordagem da personalização nas suas múltiplas dimensões, atendendo à
pluralidade de contextos políticos, institucionais, mediáticos e eleitorais, o
que contribui para o enriquecimento desta obra como um todo.
Platform or Personality? constitui um estudo aprofundado de Amanda Bittner
(2011), que procura responder a uma série de questões relativamente às quais a
autora não encontra respostas satisfatórias na literatura existente, e nas
quais em grande medida nos revemos. Inconformada perante a fragmentação de
estudos sobre líderes políticos, desenvolve um estudo comparativo longitudinal
sobre as avaliações dos líderes, recorrendo a dados de estudos eleitorais de um
conjunto de países. Elege como dimensões de análise fundamentais os traços de
personalidade dos líderes e as suas dimensões, os fatores que explicam as
avaliações dos líderes e o impacto eleitoral das mesmas. Analisa a influência
das características dos eleitores nas avaliações dos líderes, os estereótipos
partidários, o impacto dos traços de personalidade dos líderes nas eleições e a
influência dos contextos institucionais nos efeitos de líder. A reflexão prévia
sobre as potencialidades e limitações dos estudos anteriores assume-se como um
elemento crucial para a obra, na medida em que não apenas justifica como
valoriza muitas das opções metodológicas tomadas.
Um ponto relativamente consensual entre os autores numa temática pautada por
discordâncias diz respeito às potenciais causas das hipotéticas transformações
no sentido de uma personalização da política. Poguntke e Webb (2005) apontam
várias causas para a presidencialização da política, nomeadamente: a
internacionalização da política contemporânea, que transfere o poder para os
chefes de governo (e alguns dos seus colegas mais restritos), deixando aos
ministérios e parlamentos uma margem estreita para intervir em decisões tomadas
noutro local entre os líderes e as instâncias internacionais; a complexificação
do Estado, que confere ao líder um papel mais central na coordenação e
articulação dos diferentes organismos que o compõem; as mudanças estruturais
nos meios de comunicação social, com a disseminação da televisão a partir dos
anos 60, a sua posterior privatização e o enfoque personalizado nos líderes que
veio a desenvolver, no intuito de reduzir a complexidade dos temas políticos,
facto que acabou por ser também explorado pelos próprios atores políticos; por
último, a erosão das clivagens políticas tradicionais, com o fim da
ideologia, questiona as clássicas determinantes de voto a longo-prazo e abre a
possibilidade à consideração das características individuais dos candidatos
políticos nos comportamentos eleitorais devido ao vazio ideológico deixado.
Também Karvonen (2010) identifica as profundas mudanças nas estruturas sociais
como um fator potencialmente fomentador da personalização da política. Concebe
o fim da ideologia como um elemento fundamental no desalinhamento partidário,
crescente volatilidade eleitoral e desenvolvimento dos partidos eleitoralistas
catch-all. Inserida no processo de individualização da vida social, conforme
descrito por Bauman (2001), dá-se uma transformação nos interesses do
eleitorado, agora mais concentrado em aspetos individuais. Neste sentido, as
campanhas eleitorais e os meios de comunicação social conquistam uma
importância acrescida na medida em que se focam prioritariamente em atores
políticos individuais e nos seus traços pessoais.
A dimensão mediática da personalização da política é aquela que para os
diversos autores surge como mais diretamente observável e consensual. Vários
dos autores destacam o carácter funcional da personalização da política à
própria natureza dos meios de comunicação social, particularmente à televisão.
As campanhas eleitorais e a cobertura mediática tornaram-se mais
personalizadas, com os líderes a evidenciarem-se como a face visível dos
partidos, permitindo uma abordagem mais individualizada dos conteúdos
informativos em entidades concretas ' líderes ' e não abstratas ' partidos.
A análise de Karvonen (2010) sobre a influência mediática revela claramente uma
concentração mais evidente dos meios de comunicação social nos líderes
políticos ao longo dos últimos anos. Estes são atualmente mais discutidos e
publicitados do que os partidos e são apresentados com base nas suas
características pessoais em vez dos laços coletivos dos partidos em que se
encontram inseridos.
Na sistematização final que Poguntke e Webb (2005) fazem dos dados recolhidos
pelos autores dos diferentes capítulos da sua obra, registam um aumento da
cobertura mediática dos líderes em todos os contextos analisados (exceto o
espanhol, em que sempre foi elevado, e o francês, que manteve também uma
tendência já de si elevada). As estratégias de campanha eleitoral cada vez mais
centradas nos líderes também são uma constante em todos os contextos analisados
(com as mesmas exceções, somadas à do Canadá, contexto em que as campanhas
também foram sempre muito centradas nos líderes).
Na mesma linha, o capítulo de Dieter Ohr na obra editada por Aarts, Blais e
Schmitt (2011) demonstra que para alguns países e alguns indicadores existem
indícios de que as campanhas eleitorais e o tratamento mediático dos conteúdos
políticos se tornaram mais centrados nos candidatos. Isto sucede mesmo nos
contextos parlamentares em que os partidos políticos ainda mantêm uma posição
forte, como é o caso da Suécia, em que se regista um aumento da cobertura dos
líderes políticos em notícias televisivas entre 1979 e 1999. Também no caso
alemão se confirma um aumento da cobertura mediática dos candidatos a chanceler
em jornais de referência (1949-2005) e na televisão (1990-1998). Ainda assim,
subsistem diferenças substanciais a este nível face ao regime americano no
qual, por exemplo, os autores encontram um aumento do rácio de menções de
candidatos vs. partidos de 1.7 para 5.6 entre 1952 e 1996.
Neste panorama de crescente personalização da cobertura mediática dos conteúdos
políticos, é legítimo equacionar-se o impacto dos líderes para os indivíduos
mais expostos a notícias televisivas. Na mesma obra, Gidengil (Aarts, Blais e
Schmitt, 2011) procedeu a uma avaliação dos efeitos de líder com base nas
características dos eleitores, no pressuposto de que estes seriam superiores
nos indivíduos que assistem a mais conteúdos televisivos noticiosos, o que
apenas se verificou num dos nove países analisados.3 Este é um aspeto apenas
referido por Gidengil (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) nas obras analisadas, e
que poderia ganhar com um maior aprofundamento.
Mas que impactos terá esta personalização da dimensão mediática nos
comportamentos eleitorais? Estarão a aumentar os efeitos de líder no
comportamento eleitoral?
Holmberg e Oscarsson, autores do terceiro capítulo do livro editado por Aarts,
Blais e Schmitt (2011), declaram-se céticos relativamente ao que consideram um
dos mitos mais populares do nosso tempo, nomeadamente, que na era da televisão
e das imagens visuais, os líderes políticos se tornaram mais poderosos e que a
política se tornou mais personalizada (2011, p. 35). Contudo, após a análise
empírica concluem que existem efeitos de líder na maioria dos sistemas
políticos estudados, especialmente nos caracterizados por sistemas
maioritários, em contraste com os sistemas de representação proporcional (menos
polarizados), com efeitos mais reduzidos: onde os partidos são menos
importantes, os líderes tendem a ser mais importantes.
Uma ideia frequentemente salientada por diversos autores sustém que a
personalização da política não depende apenas da existência de efeitos de líder
no voto (mais ou menos marcada, a existência de efeitos de líder é facto
relativamente consensual entre os autores da área) mas implica uma crescente
importância desses mesmos efeitos ao longo do tempo. Holmberg e Oscarsson
(Aarts, Blais e Schmitt, 2011) não encontram evidências nesse sentido. Na mesma
obra, tanto Aardal e Binder como Nadeau e Nevitte (Aarts, Blais e Schmitt,
2011) reforçam a inexistência de um aumento dos efeitos de líder nas últimas
décadas. Os dois últimos autores, em particular, identificam mesmo uma
tendência inversa à personalização, e na sua perspetiva os efeitos de líder têm
vindo a decair progressivamente nos últimos anos. Ao analisar os efeitos de
líder no voto ao longo de três períodos distintos (1950-1970; década de 80;
1990-2001) concluíram que nos anos 90 estes eram significativamente menos
decisivos do que nas décadas antecedentes.4
Karvonen chega a conclusões semelhantes. Relativamente aos líderes, os dados
demonstram que a sua importância para a escolha partidária não tem aumentado ao
longo do tempo. Os eleitores não formam opiniões mais fortes do que no passado
no que respeita aos líderes e são os eleitores mais alinhados partidariamente
os mais suscetíveis aos efeitos de líder. Assim, o autor entende que os efeitos
de líder são, em grande parte, consequência dos efeitos partidários e por isso
não devem ser levados em conta. Isolar os efeitos de líder dos efeitos dos
partidos é, de facto, uma dificuldade metodológica recorrentemente apontada
pelos investigadores nos estudos da área mas tal não significa uma
impossibilidade que justifique o seu desprezo.
Amanda Bittner (2011) observa tendências contrastantes. Nos dados analisados
pela autora para o contexto norte-americano, o impacto das avaliações de
líderes sobrepõe-se ao das variáveis sociodemográficas ou das atitudes perante
political issues, sendo mesmo por vezes superior ao da ideologia e
identificação partidária. O efeito líquido das características dos líderes pode
chegar aos 10%, como sucedeu em 1972 com o candidato republicano Richard Nixon
nos EUA. Ainda assim, estes 10% conquistados por Nixon não se revelaram
decisivos para o desfecho das eleições, uma vez que os republicanos venceram
por uma margem muito superior: 23,2%. Este exemplo é elucidativo do debate que
persiste mesmo no que respeita ao conceito de efeitos de líder. Autores como
Anthony King (2002), por exemplo, argumentam que só se pode falar de efeitos de
líder quando estes se assumam como decisivos para os resultados eleitorais.
Embora se possa reconhecer alguma validade neste argumento ele coloca-nos
perante um paradoxo: os 10% que Nixon conquistou em 1972 ou os 2,6% de Clinton
em 1996 não são considerados efeitos de líder porque a margem de vitória foi
superior; mas nas particularmente disputadas eleições americanas de 2000, os
0,4% de George W. Bush já são considerados efeitos de líder porque os
resultados eleitorais foram extremamente próximos (Barisione, 2009, p. 491).
Poguntke e Webb (2005) também reconhecem uma tendência para um crescimento dos
efeitos de líder no comportamento eleitoral na maioria dos casos analisados
(concretamente na Bélgica, Finlândia, Alemanha, Israel, Itália, Países Baixos,
Portugal, Reino Unido e EUA). Apenas o Canadá regista uma tendência inversa,
ainda que apenas com um ligeiro recuo da dimensão eleitoral da
presidencialização, sem prejuízo das outras dimensões, que mantêm um elevado
grau de personalização num contexto já de si especialmente presidencial.
Considerando as restantes dimensões do conceito de presidencialização
(executiva e partidária), Margaret Thatcher, Tony Blair e Silvio Berlusconi são
lideranças políticas exemplificativas do conceito, tendo imprimido um cunho
fortemente personalístico nos seus governos parlamentares. Os primeiros
exerceram o centralismo das suas lideranças fundamentalmente através da
acumulação de funções, recursos e poderes (Poguntke e Webb, 2005, p. 33),
tornando-os mais do que meros primus inter pares. O italiano essencialmente
através do caso extremo de controlo partidário levado a cabo sobre o partido
por si fundado, Forza Itália, concebido e desenvolvido como um partido pessoal
(Poguntke e Webb, 2005, pp. 97-98).
Assumindo esta relevância dos efeitos de líder, importa saber para quem, de que
forma e em que circunstâncias os líderes se assumem como influentes nas
escolhas eleitorais. André Blais (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) salienta que as
características pessoais dos líderes podem operar como pistas para os eleitores
em situações de escassez de informação, por exemplo, no que toca a questões
sobre as quais não existe um posicionamento partidário claramente definido. Por
outro lado, são um importante preditor do comportamento dos eleitores em
situações imprevisíveis e por isso ausentes de programas ou debates partidários
(crises, guerras, etc.).
A hipótese frequentemente avançada na literatura de que os efeitos de líder
possam fazer sentir-se de forma mais intensa nos eleitores indecisos porque, em
princípio, estarão menos estruturados ideológica e partidariamente e decidirão
o voto em época de campanha eleitoral é refutada pela investigação de Gidengil
(Aarts, Blais e Schmitt, 2011). Tal não se confirmou em nenhum dos atos
eleitorais analisados, pelo contrário nos casos dos Países Baixos (1998),
Canadá (2000), Espanha (2000), Austrália (2001) e Reino Unido (2001) os
eleitores que decidiram mais cedo o seu voto foram os mais influenciados pelas
avaliações dos líderes. Além disso, nas eleições de 1998 nos Países Baixos e
nas de 2000 em Espanha, Canadá e EUA foram os eleitores mais identificados
partidariamente os mais suscetíveis aos efeitos de líder, o que põe em causa o
argumento do desalinhamento partidário funcionar a favor da personalização.
Amanda Bittner constatou a existência de estereótipos partidários segundo os
quais os eleitores julgam os líderes, independentemente da identificação
partidária. Estes estereótipos dependem de características que os eleitores
atribuem como específicas dos partidos. Os líderes conservadores são
percecionados como mais competentes, os líderes de esquerda têm melhores
avaliações de carácter ' os dois traços apontados pela autora como mais
relevantes para a avaliação dos líderes.
Ao contrário do que se poderia esperar, esta associação não é feita pelos
indivíduos menos sofisticados que seguem estereótipos por não terem acesso a
outras fontes de informação, a tendência é ainda mais acentuada nos indivíduos
politicamente mais sofisticados. Esta associação não se reflete meramente na
avaliação dos líderes: os eleitores mais sofisticados têm maior probabilidade
de traduzir essas mesmas avaliações estereotipadas nas suas decisões de voto.
Estes eleitores, para além de considerarem um maior número de variáveis nas
suas escolhas eleitorais, fazem-no com um impacto superior ao dos eleitores
menos sofisticados. Não estaremos, portanto, perante um eleitorado desalinhado
que recorre a avaliações dos líderes políticos por não ter acesso a outro tipo
de informação política e que forme avaliações desprovidas de conteúdo político.
Ainda na obra de Bittner, é merecedor de destaque o facto de o impacto
eleitoral das avaliações do carácter dos líderes surgir como superior às
avaliações de competência. Globalmente, este impacto das avaliações é mais
elevado nos grandes partidos do que nos pequenos.
No último capítulo de Political Leaders and Democratic Elections, Ohr e
Oscarsson (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) analisam o impacto dos traços de
personalidade dos líderes num âmbito mais alargado do que Bittner, que propõe
uma sistematização dos diversos traços em duas categorias centrais: competência
e carácter. Ohr e Oscarsson debruçam-se sobre traços associados à performance
politicamente relevantes, como as capacidades de liderança, confiança,
credibilidade e empatia. Embora o modelo utilizado seja algo simplista na
medida em que para além dos traços referidos apenas inclui a identificação
partidária, os autores concluem que, controlando esta, todas os traços
desempenham um papel importante nas avaliações globais dos líderes e nas
decisões de voto de uma forma relativamente homogénea nos três sistemas
políticos analisados pelos autores: EUA (1988-2008), Austrália (1993-2007) e
Suécia (1988-2006), que embora seja o contexto com um enquadramento
institucional menos favorável à personalização demonstrou grande impacto das
características dos líderes. Mais ainda, identificam a valorização de
determinados atributos em particular dependendo do contexto em análise: se na
Suécia a credibilidade é uma característica particularmente importante, nos EUA
a liderança e a empatia são mais valorizadas (embora a confiança se tenha
revelado o traço mais importante na análise que os eleitores fizeram de Clinton
em 1996) e na Austrália todas assumem um peso similar.
Por outro lado, os autores deste capítulo fazem ainda uma análise de traços
politicamente menos relevantes, exclusivamente no que respeita às eleições
alemãs (1998): aparência convincente, vida familiar e atratividade física.
Apenas significantes no caso da vida familiar de Schroeder, estes traços
revelam-se menos importantes do que os associados à performance. Ainda que
restringida a uma eleição em particular, esta distinção parece-nos extremamente
pertinente para perceber o teor das avaliações de líder e as suas consequências
para a democracia. Se os líderes importarem para os eleitores por
características ligadas à sua performance política não há motivo para que as
eleições passem a ser percebidas como concursos de beleza desprovidos de
conteúdo político. Possivelmente, assim se explica que sejam os eleitores mais
sofisticados os que mais recorrentemente têm sido apontados como considerando
os efeitos de líder.
Relativamente ao enquadramento institucional, seria expectável que em regimes
presidenciais os efeitos de líder sobre o voto assumissem uma maior
preponderância. O capítulo de Martin Wattenberg (Aarts, Blais e Schmitt, 2011)
destaca a prevalência do carácter iminentemente personalizado das eleições
americanas, embora não descarte uma aproximação por parte dos sistemas
parlamentares num curto-prazo. No mesmo sentido, Curtice e Hunjan (Aarts, Blais
e Schmitt, 2011) salientam as diferenças de importância dos líderes entre os
regimes presidenciais e os parlamentares, mesmo no que toca a sistemas
maioritários. Sobre os regimes parlamentares, tanto Nadeau e Levitte como
Holmberg e Oscarsson (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) registam maior influência
dos efeitos de líder nos sistemas maioritários do que nos de representação
proporcional. Já Bittner (2011) salienta que o cariz mais proporcional dos
sistemas eleitorais e um número reduzido de partidos em competição (remetendo
para uma relação eleitor-líder mais estreita e uma maior proximidade ideológica
entre os partidos) confere maior ênfase aos líderes nas decisões de voto. Além
disso, o desenho institucional do sistema eleitoral parece ter mais influência
no voto para os líderes dos partidos de esquerda.
Estes casos ilustram como apesar dos valiosos contributos dados por estas obras
para a compreensão de um fenómeno tão complexo, persiste o problema da
incongruência das conclusões alcançadas. Não deixa de ser interessante que
estudos sobre objetos tão similares, e por vezes com origem nas mesmas bases de
dados, produzam resultados tão contrastantes entre si.
Lauri Karvonen (2010) rejeita que estejamos perante uma evidente tendência
geral no sentido da personalização da política, embora os resultados obtidos
pela sua investigação sejam ambíguos e deixem a porta aberta à possibilidade de
estarmos apenas no início de um processo já em curso. Em todo o caso, parece-
nos uma tese, de facto, discutível e que carece de um maior aprofundamento,
dada a divergência entre académicos e resultados das respetivas investigações.
Partilhamos da visão de Amanda Bittner (2011) acerca da elevada fragmentação
dos estudos neste domínio, que abrangem um leque muito vasto de contextos e
dimensões analisadas, obstando a generalizações. Na nossa opinião, das obras
analisadas esta é a que espelha uma maior coerência, do quadro teórico à
metodologia e, consequentemente, aos resultados. A tentativa de sintetização de
dados de mais de uma centena de inquéritos de cerca de 35 estudos eleitorais
internacionais com questões sobre líderes políticos parece-nos bem conseguida e
o argumento da bidimensionalidade dos traços de personalidade (carácter e
competência) bastante válido. Contudo, deixa de parte alguns fatores que
poderiam ser relevantes e que são abordados nas restantes obras, nomeadamente
no que respeita ao papel dos meios de comunicação social e à dimensão
institucional, alvo de maior atenção por parte de Poguntke e Webb (2005) e
Karvonen (2010), abordando questões tão relevantes como o aumento dos poderes
executivo e partidário dos líderes políticos (aspeto também visado por
Wattenberg no livro organizado por Aarts, Blais e Schmitt, 2011). Aliás, devido
à distinção conceptual entre presidencialização e personalização (esta última
mais direcionada para a face eleitoral da presidencialização), poucos estudos
têm versado sobre o que Poguntke e Webb chamam a face partidária e executiva.
The Presidentialization of Politics (Poguntke e Webb, 2005) encontra-se bem
estruturado. Apresenta a tese da presidencialização no capítulo inicial,
definindo o presidencialismo, as suas principais características, as várias
faces da presidencialização e possíveis causas e consequências da
presidencialização da política. Dá a conhecer a inovadora grelha analítica que
enformará a exposição dos autores nos capítulos seguintes. Ao fazê-lo, assegura
alguma coerência e estruturação nos capítulos seguintes, colmatando a
inexistência de dados comuns a todos os contextos estudados com o que mais
tarde os autores designariam de um equivalente funcional (Poguntke, Webb e
Kolodny, 2012, p. 83), tendo em consideração a compreensão dos indicadores
enquadrados nos contextos particulares. Assim, embora os autores não se baseiem
todos nas mesmas fontes de dados, o que na crítica que lhes é feita por
Karvonen (2010) impede que se possa considerar um estudo comparativo, o estudo
não perde grande potencial e mantém a possibilidade de proceder a comparações
credíveis entre os contextos analisados. Aliás, essa mesma sistematização das
conclusões dos vários capítulos é efetuada com sucesso pelos editores no
capítulo final, captando de forma holista os resultados dos vários capítulos e
revestindo a obra de coerência interna.
O volume de Aarts, Blais e Schmitt (2011) teria ganho em seguir uma lógica
semelhante à do livro editado por Poguntke e Webb (2005). Uma opção dessa
natureza conferiria à obra maior solidez nas suas conclusões globais, em
detrimento de uma súmula de resultados avulsos de cada capítulo, por vezes sem
uma ligação muito clara entre si. No entanto, tal tarefa é naturalmente mais
simples num volume em que a generalidade dos capítulos concorre no mesmo
sentido e sob uma grelha muito estruturada, do que numa obra como Political
Leaders and Democratic Elections, em que existem perspetivas tão diversas e por
vezes mesmo conflituantes entre os autores convidados sobre dimensões que em
certos casos se sobrepõem. Embora parte substancial do valor da obra resulte
dessa mesma diversidade de perspetivas sobre o mesmo objeto e suas dimensões,
ficam por dar respostas mais claras a algumas das questões levantadas no
capítulo introdutório por André Blais. Por exemplo, os resultados de Aardal e
Binder e de Nadeau e Nevitte (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) apontam para um
decréscimo e uma reduzida influência dos efeitos de líder no voto, ao passo que
os de Holmberg e Oscarsson (Aarts, Blais e Schmitt, 2011) são reveladores da
importância desses mesmos efeitos de líder, ainda que concluam não estarem em
crescimento acentuado.
Porém, cremos que a obra sobreviveria às críticas de Karvonen (2010) uma vez
que, ao contrário de Poguntke e Webb (2005), assenta num conjunto de dados
estandardizados para todos os autores (embora nem sempre seja claro quais os
dados que estes estão a utilizar nos respetivos capítulos, se os de estudos
eleitorais nacionais, se os do CSES), num período temporal claramente definido.
Além disso, como era declaradamente intenção dos editores, os capítulos não são
específicos de cada país, mas transversais a vários contextos, dado que o
objetivo central da obra é compreender variações dos efeitos de líder no tempo
e entre casos. No entanto, ao contrário de todas as outras, a conclusão geral a
retirar do volume de Aarts, Blais e Schmitt (2011) não é explicitada em momento
algum nem surge como evidente ao leitor.
A problemática da personalização da política sai largamente enriquecida pelos
contributos teóricos e empíricos destas quatro obras, da máxima importância
para a investigação na área. Não obstante, exige-se uma maior clarificação de
questões que continuam a gerar respostas ambivalentes. Assim, justifica-se um
maior aprofundamento da investigação desenvolvida neste âmbito num futuro
próximo de modo a melhor compreender a influência do papel dos líderes
políticos nas sociedades contemporâneas.