Dinâmicas institucionais e competência técnica no zoneamento ambiental da
silvicultura no Rio Grande do Sul
INTRODUÇÃO1
Durante os anos de 2004-2009 o estado do Rio Grande do Sul foi palco de um
acirrado conflito a respeito da atividade de silvicultura. Tal conflito
evidenciou-se através de um grande número de discussões, debates, manifestações
e protestos públicos, envolvendo a imprensa, setores empresariais, agências
governamentais, partidos políticos, universidades e centros de pesquisa,
organizações e movimentos sociais diversificados (Barcelos, 2010; Oliveira,
2009). A questão do modelo de desenvolvimento mais adequado ao país foi um dos
aspetos comuns às diferentes posições em confronto: de um lado, os que eram
favoráveis, destacando a importância da sua expansão como alternativa de
desenvolvimento económico e, do outro, os que eram contrários e salientavam os
impactos ambientais de tal atividade ao constituir uma ameaça a um modelo de
desenvolvimento que integrasse as dimensões ambientais, sociais, culturais,
políticas e económicas. Havia, portanto, uma forte polarização entre os que
defendiam o progresso que tal programa representava para a região e os que
salientavam os impactos ambientais que ele acarretaria.
No primeiro caso, tratava-se de defender a silvicultura como uma forma de
alavanca do progresso para a região sul do Rio Grande do Sul e, com base em
justificativas de ordem económica, utilizavam-se argumentos que tinham como
ingredientes principais o aumento da oferta de emprego e o desenvolvimento
económico da chamada metade sul.
A Região Sul está cansada de acompanhar o anúncio de investimentos,
de perceber o interesse dos empresários em investir e depois ver os
problemas ambientais, entraves e demoras, afugentando os empresários
[ ]. Se não houver empregos, acontece o que vejo na minha cidade: as
pessoas invadem as margens das lagoas, que não têm tratamento de
esgoto. Isso é degradação do meio ambiente. As autoridades não fazem
nada, por se tratar de um problema social. Aí, quando uma empresa
quer se instalar aqui, gerar empregos, cuidar do meio ambiente, é
barrada exatamente por questões ambientais. [ ]. Sabemos que a Fepam
enfrenta problemas, que há falta de pessoal, mas conhecemos também os
problemas do nosso povo. Só na minha cidade são 20 mil desempregados.
Agora, podem ser mais 400 pessoas a ficarem desempregadas, e nada
pior do que olhar no semblante de quem está prestes a perder seu
emprego. Às vezes, funcionários que estão em seus gabinetes, com
salário certo para o resto da vida, têm o poder de decisão para
desempregar trabalhadores. E, nesse caso não se trata de apenas 400
pessoas, mas de 50 mil gaúchos que ficarão sem emprego [Sandro Boka
reforça protesto contra ameaça ao florestamento. Fonte: Assembleia
Legislativa do RS, Ageflor, 13-04-07].
No outro polo, os argumentos voltavam-se para a inadequação da expansão de tal
atividade para a vocação da região dos pampas, os impactos negativos e os
custos irreversíveis da silvicultura para o bioma pampa e para o futuro da
região, bem como o risco que ela oferecia à manutenção da biodiversidade da
região, podendo provocar a extinção de espécies, a alteração da composição da
flora e fauna nativas e a degradação da cultura existente. Nesse caso, frente à
harmonia até então existente entre a pecuária, lavoura de arroz, paisagem,
turismo, a cultura e a tradição do gaúcho, argumentava-se que a expansão de tal
atividade, ao invés de trazer desenvolvimento, poderia acarretar um aumento da
pobreza na metade sul, bem como transformar a cultura do pampa.
Uma nova revolução verde. O fazendeiro lasqueado pela falta de
política agrícola troca suas terras de pecuária e várzea de arroz por
seguras aplicações financeiras. Vai viver de renda. Alguns peões
domados pela escola da moto-serra serão os bóias-frias das
papeleiras. Os pequenos agricultores apertados pelas florestas fogem
de suas terras para a exclusão na cidade [Paulo Mendes, O laçador de
eucaliptos. Jornal Agora Rio Grande, 17-05-2007].
As abordagens inicialmente utilizadas para dar conta dos conflitos envolvendo o
licenciamento desse tipo de atividade foram muito marcadas pela perspetiva de
demonstração dos impactos ambientais da expansão do plantio de eucalipto para a
referida localidade ou região. Tais perspetivas estavam fundadas num forte
engajamento e comprometimento das ciências sociais com as causas ambientais e
com os modelos de desenvolvimento sustentável (Alonso e Costa, 2002). Nesse
sentido, destacam-se as análises excessivamente macroestruturais que
associavam as origens e desdobramentos de tais atividades à chamada lógica de
expansão do capitalismo, a qual se mostrava como um sistema que paralisava e
capturava os atores sociais no interior de alternativas infernais, deixando-
os sem escolha: ou resignação ou denúncia impotente ante a guerra económica
incontornável (Acselrad, 2007, p. 2). Sem descartar a importância da dimensão
macroestrutural na análise de tal questão, um dos aspetos que foi pouco
salientado por tal literatura diz respeito à apreensão das dinâmicas e lógicas
locais que respaldam a formulação e operacionalização de políticas públicas de
gestão ambiental e que não se reduzem a simples efeitos de tendências globais
e macroestruturais.
No âmbito das abordagens sobre políticas ambientais cabe destacar os trabalhos
centrados nas limitações políticas e institucionais dos mecanismos
participativos e deliberativos em matéria de formulação e operacionalização de
políticas públicas de gestão ambiental. Também neste caso, as abordagens se
caracterizam pela predominância de objetivos prescritivos e de perspetivas
normativas, deixando de lado a investigação empírica das causas sociais,
políticas e institucionais vinculadas ao funcionamento concreto das instâncias
de formulação e implementação de políticas ambientais (Alonso e Costa, 2002).
Nesse sentido, tem-se demonstrado que a rotinização e institucionalização dos
procedimentos e a concentração dos processos decisórios nas mãos de poucos
especialistas que detêm os conhecimentos técnicos, jurídicos e científicos
requeridos, constituem os principais fatores responsáveis pela falta de
incorporação da participação democrática e igualitária nos processos de
formulação e implementação de políticas ambientais (Zhouri; Laschefsky;
Pereira, 2005; Leite Lopes, 2004).
Diferentemente destas abordagens, observa-se que esta forte polarização em
termos dos referenciais que deveriam respaldar tal atividade estava na base dos
confrontos e disputas a respeito das instâncias político-administrativas de
discussão e de decisão para a formulação e execução de políticas regulatórias
na área de silvicultura (Barcelos, 2010). Associado a isso, observou-se também
que esse confronto ideológico orientou a discussão e as deliberações referentes
aos procedimentos e critérios técnicos e científicos que deveriam ser adotados
para o licenciamento ambiental da silvicultura (Oliveira, 2009).
Esse último aspeto é particularmente importante para o exame do papel
desempenhado pelo conhecimento técnico nas dinâmicas de formulação e
implementação de políticas públicas de gestão ambiental. Isto porque, nos
últimos anos, tanto a literatura sobre o ambientalismo quanto os estudos sobre
políticas públicas, têm salientado que a formação técnica e científica e as
competências de expertise, adquiridas através da formação universitária,
constituem ingredientes fundamentais dos processos de constituição e de
funcionamento das instituições administrativas, das dinâmicas de formação,
seleção e hierarquização das elites administrativas e dos processos de
elaboração e formulação de políticas públicas (Loureiro e Pacheco, 1995;
Rootes, 1999; Lascoumes e Le Galès, 2007; Anquentin, 2002; Gallet, 2002;
Hassenteufel, 2008; Weible, 2008). Segundo tais abordagens, mesmo que a crítica
à racionalidade técnica e científica esteja desde o início no centro da luta
ecologista, os processos de formulação e implementação de políticas ambientais
evidenciam justamente o contrário: que cada vez mais são mecanismos,
dispositivos e atores vinculados ao universo da técnica e da ciência os que
assumem um papel destacado na construção e administração das reivindicações e
dos problemas ambientais (Lascoumes, 1994). Nesse sentido, outro conjunto de
trabalhos tem salientado que uma das consequências principais dessa imposição
da expertise na formulação e implementação das políticas ambientais é a
institucionalização e a profissionalização do próprio ativismo ambientalista.
Ou seja, a participação regular das associações em instâncias formais de
proteção ambiental (conselhos, fóruns, comités, etc.) implicou o recrutamento
de militantes e dirigentes dotados de elevada formação técnica e científica e a
imposição de competências técnicas como um dos principais recursos militantes
nas intervenções públicas de tais organizações.
Todavia, ao contrário das perspetivas que postulam um papel decisivo e quase
exclusivo do conhecimento técnico e das competências de expertise na formulação
e implementação de políticas ambientais, os confrontos e desdobramentos
vinculados ao licenciamento da silvicultura em tal situação, demonstram que o
peso e a legitimidade do conhecimento técnico estão profundamente imbricados
com clivagens político-ideológicas e com disputas relacionadas com a esfera da
política partidária e a dinâmica político-eleitoral (Barcelos, 2010). Associado
a isso, observa-se que as modalidades de utilização da formação, conhecimentos,
argumentos e recursos técnicos para a imposição de critérios na
operacionalização de tal política dependem estreitamente dos vínculos
anteriores e simultâneos estabelecidos pelos seus formuladores com organizações
partidárias ou fações políticas regionais e locais e sua combinação com os
recursos acumulados através da inserção num conjunto diversificado de esferas
de atividade, no decorrer dos seus itinerários familiares, escolares,
profissionais e políticos.
Este artigo compreende essa problemática mais geral e pretende analisar o peso
e o significado da competência técnica no processo de formulação e
implementação da política de silvicultura. Ele defrontou-se inicialmente com o
problema referente à apreensão das lógicas próprias que respaldam o
funcionamento das instituições e da burocracia estatal. Assim, as disputas
relativas aos referenciais ideológicos, aos procedimentos e aos critérios
técnicos que fundamentam a execução desse tipo de política pública podem ser
explicadas pelas dinâmicas próprias de funcionamento das instituições político-
administrativas e pelos interesses específicos dos atores estatais. Tal
problema está presente tanto nas abordagens focadas mais diretamente nas
comunidades de políticas públicas (Marques, 2003), quanto naquelas que
enfatizam o papel dos referenciais ideológicos na conformação do sistema de
atores e na constituição dos mediadores que desempenham as funções normativas e
de liderança na condução da ação pública em determinado setor (Muller, 1995;
Muller e Surel, 2002). Nesse sentido, a utilização de recursos técnicos e
científicos adquiridos com base na atuação profissional e administrativa no
interior do próprio setor constitui o ingrediente-chave na compreensão das
formas de ocupação de postos dirigentes em órgãos e secretarias estatais e do
impacto dos mecanismos institucionais sobre a produção das políticas públicas
(Anquentin, 2002; Gallet, 2002; Rootes, 1999).
Tal formulação resultou ainda de discussões e confrontos referentes à
importância das redes sociais nas dinâmicas de formulação e operacionalização
de políticas públicas (Coradini, 1994; Marques, 2003; Lascoumes e Le Galès,
2007). Quanto a isso, com base no maior estímulo ao confronto entre os estudos
centrados na constituição ou posição social dos grupos dirigentes e os que
focalizam as lógicas processuais e as ações que estruturam as suas conceções e
práticas individuais (Coradini, 2008; Perissinoto e Codato, 2008), trata-se de
tomar como ponto de partida a posição e a inserção social das elites
administrativas, técnicas e políticas (Lascoumes e Le Galès, 2007; Zittoun,
2001). Nesse sentido, consideram-se os significados e os usos da expertise nas
suas relações com os processos diferenciados de configuração da burocracia
estatal e com as redes sociais que convergem para a elaboração e
operacionalização de tais políticas. Em consonância com isso, pretende-se
evidenciar a hipótese de que, na situação em análise, a inserção dos
formuladores de tal política em diversas redes sociais constitui um dos
principais ingredientes das dinâmicas políticas e institucionais vinculadas aos
processos de elaboração e operacionalização de políticas de gestão ambiental.
Assim, observa-se que os diversificados recursos acumulados pelos atores
interessados na sua elaboração e execução, têm como base vínculos estabelecidos
com esferas sociais diversas no decorrer dos seus itinerários familiares,
escolares, profissionais, políticos e militantes. Nesse sentido, este trabalho
demonstra que a inserção e respetivos vínculos com redes e esferas sociais
distintas têm uma forte incidência tanto para o acesso à posição dirigente na
formulação e operacionalização de tal política, quanto na conformação da base
de recursos utilizados pelos seus principais mediadores.
Tal hipótese baseia-se em vários estudos que têm salientado a importância do
plano político na constituição dos recursos que sustentam as dinâmicas de
constituição e de ação dos grupos sociais (Pécaut, 1990; Coradini, 1998, 2008;
Dezalay e Garth, 2002; Connif, 2006; Love e Barickman, 2006; Petrarca, 2008 e
2011). Assim como nos que salientam a forte dependência da constituição de
organizações e agências governamentais voltadas para a proteção ambiental em
relação à administração estatal e à dinâmica político-partidária em termos das
suas formulações ideológicas e dos seus recursos humanos, organizacionais e
financeiros (Jiménez, 1999).
O material utilizado como fonte de informação tem como base investigações
anteriores sobre o surgimento e as transformações do ativismo ambiental no
Brasil (Oliveira, 2005, 2008), bem como uma pesquisa realizada sobre as
disputas em torno da formulação de critérios técnicos para o zoneamento
ambiental da silvicultura no Rio Grande do Sul (Oliveira, 2009). Para este
artigo, realizou-se uma história social da administração estadual da proteção
ambiental, no intuito de identificar as condições e dinâmicas históricas e
sociais de constituição da estrutura administrativa da proteção ambiental e o
peso da formação escolar e da competência técnica na ocupação de posições de
direção no interior da mesma. Para isso, foram examinadas as principais medidas
e regulamentações vinculadas à política ambiental no Brasil, os estudos sobre
políticas ambientais, os documentos produzidos por organizações, secretarias e
conselhos de proteção ambiental. Além disso, procedeu-se ao levantamento de
informações biográficas referentes às trajetórias sociais, militantes e
profissionais e às múltiplas esferas de atividade (partidos políticos, agências
estatais, organizações e movimentos sociais diversificados) dos que ocuparam
posições de direção na Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do
Sul, desde sua criação, bem como dos que tiveram uma participação destacada no
processo de elaboração do documento Zoneamento Ambiental para a Atividade de
Silvicultura no RS (ZAAS). Para isso, além da consulta de jornais e da
internet, dispõe-se de 20 entrevistas com militantes de ONG ambientalistas,
técnicos da burocracia estatal vinculados a diferentes instituições da
administração pública de proteção ambiental, bem como assessores e técnicos das
empresas de celulose.
AGENDAS INTERNACIONAIS, SOBREPOSIÇÕES INSTITUCIONAIS E SETOR AMBIENTAL
A existência de organismos e agências governamentais destinados à proteção
ambiental no Brasil não é tão recente como geralmente se afirma. No final do
século XIX foram criados os primeiros parques nacionais e durante a implantação
da Constituição de 1934 foram formulados o Código de Águas e Minas e o primeiro
Código Florestal Federal Brasileiro. Essas primeiras iniciativas inspiraram-se
em políticas adotadas nos Estados Unidos, que vivia um momento de intensa
regulamentação e elaboração de orientações políticas para controlar o uso dos
recursos minerais e florestais (Svirsky e Capobianco, 1997).
Essa influência de problemáticas e de políticas externas é um traço
característico também do início da estruturação administrativa das agências
governamentais responsáveis pela defesa ambiental durante a década de 1970.
Isto porque a criação das primeiras agências nacionais esteve diretamente
vinculada à participação do Brasil na I Conferência das Nações Unidas para o
Ambiente Humano, em Estocolmo, no ano de 1972. Nessa conferência, a posição
inicial do governo brasileiro, juntamente com outros países em desenvolvimento,
de dar prioridade ao crescimento acelerado em detrimento de questões ligadas à
preservação do meio ambiente, foi objeto de pressões de grupos ambientalistas
estrangeiros (Loureiro e Pacheco, 1995, p. 138). Tal posição tratava a
problemática ambiental como a antítese do desenvolvimento almejado com o
argumento de que a principal poluição era a miséria e de que a proteção ao
meio ambiente era uma preocupação inventada pelos países ricos para pôr
obstáculos à industrialização do Terceiro Mundo (Menezes, 1997, p. 89). Diante
das críticas e pressões de instâncias internacionais geradas por essa posição
do governo brasileiro, e com o intuito de se conformar às diretrizes formuladas
por tais instâncias, evitando ficar vulnerável frente à obtenção de empréstimos
e investimentos vindos de fora do país, foi criada em 1973 a Secretaria
Especial do Meio Ambiente (SEMA). Além dessa conformação às agendas
internacionais, não havia qualquer definição clara e objetiva de uma política
ambiental para o país a ser conduzida por essa secretaria. Foi atribuída a ela
apenas um rol de objetivos de difícil operacionalidade (Menezes, 1997, p. 80).
Essa combinação de adequação às agendas internacionais com grandes indefinições
institucionais e uma estruturação precária constitui um aspeto que predomina ao
longo da existência e do funcionamento das estruturas administrativas de
proteção ambiental no Brasil. Assim, a SEMA constituía o órgão normativo e de
coordenação da área de meio ambiente no país, estando vinculada inicialmente ao
Ministério da Saúde e à Política Nacional de Saneamento, de modo que os seus
objetivos estavam orientados para a conservação dos recursos ambientais e para
o controlo da poluição industrial. Some-se a isto que sua criação e
funcionamento ocorreram de forma desarticulada de órgãos mais antigos como o
Instituto Brasileiro para o Desenvolvimento Florestal (IBDF), a
Superintendência para o Desenvolvimento da Borracha (SUDHEVEA) e a
Superintendência do Desenvolvimento da Pesca (SUDEPE), que tinham atribuições
tanto normativas quanto financiadoras de projetos de reflorestamento, e que no
caso do segundo estavam ligados ao desmatamento de extensas áreas da floresta
amazónica. É somente em 1989, ou seja, 16 anos após sua criação, que a SEMA
passa a fazer parte, juntamente com esses outros órgãos, de uma estrutura
unificada, formando o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Renováveis (IBAMA). Associada a essas indefinições institucionais, a existência
de tal secretaria foi marcada por uma grande precariedade em termos de recursos
humanos e materiais: possuía apenas três técnicos e devido à falta de eficácia
e de efetividade das suas ações institucionais tinha de funcionar em aliança
com os estados, delegando neles competências e funções. Isso, em contraste com
a lógica centralizadora que predominava ao nível federal nesse período e que se
fazia presente na conceção da própria estruturação ambiental, que deveria
funcionar sob a forma de um sistema coordenado por um organismo central
(Andreoli, 1992).
A expansão do ambientalismo para diferentes espaços sociais, durante a década
de 1980, correspondeu à ampliação do papel do Ministério Público como defensor
dos direitos difusos, à criação de secretarias, órgãos públicos e conselhos
de meio ambiente e à exigência de realização de Estudos e Relatórios de
Avaliação de Impactos Ambientais (EIA-Rima) na implantação de atividades que
apresentassem riscos e impactos ambientais, os quais deveriam ser apresentados
e debatidos em audiências públicas. É também nesse período que foi instituída a
Política Nacional do Meio Ambiente por intermédio da Secretaria Especial do
Meio Ambiente, e que surgiu o Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio
Ambiente, com o objetivo de elaborar arranjos institucionais novos para a área
ambiental. Desta forma, foi criado o Sistema Nacional do Meio Ambiente
(SISNAMA), que procurava articular as instituições ligadas à proteção ambiental
nos níveis federal, estadual e municipal e que possibilitava a participação de
associações e organizações não-governamentais nessas diferentes instâncias na
implantação da política ambiental (Loureiro e Pacheco, 1995).
No entanto, é somente no ano de 1992, quatro meses após a realização da
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na cidade
do Rio de Janeiro, que foi criado o Ministério do Meio Ambiente. Dada a
carência de condições institucionais dos órgãos federais para atuar no âmbito
estadual, o resultado foi estimular os estados a criar as suas próprias
estruturas. Contudo, o processo de estabelecimento dos organismos estaduais e
municipais responsáveis pela política ambiental ocorreu de forma paralela e
desarticulada dos desdobramentos salientados no nível federal. Isto porque a
implantação de órgãos estaduais de meio ambiente esteve inicialmente vinculada
à formulação do II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que atribuía aos
estados e municípios competências específicas no controlo da poluição causada
pelo funcionamento das indústrias, de modo que a atuação de tais organismos
estaduais se restringia ao tratamento dos problemas já existentes causados pela
poluição industrial. Além disso, as diretrizes contidas no II PND eram muito
fragmentadas, tinham um caráter essencialmente corretivo, e não possibilitavam
uma organização de conjunto, resultando na expansão de estruturas
descentralizadas em relação ao âmbito federal e muito marcadas pelo contexto
próprio de cada estado ou região. Como resultado dessa acentuada
descentralização e fragmentação dos âmbitos municipal, estadual e federal na
implantação de políticas ambientais, os conflitos entre as agências
governamentais foram constantes e ampliados ainda mais com a entrada em vigor
da Constituição Federal de 1988, à qual introduziu a ação concorrente da União,
estados e municípios como co-responsáveis pela garantia da qualidade ambiental
(Loureiro e Pacheco, 1995). Como salienta Andreoli (1992, p. 19):
Essas indefinições, aliadas às áreas de vácuo institucional causadas
pelo avanço de legislação sem a respectiva estruturação dos órgãos, e
aquelas sobreposições já citadas estabeleceram, em alguns casos,
dificuldade de identificação da estrutura responsável, por parte da
sociedade civil.
Semelhante ao que se tem observado no âmbito da administração federal, a
constituição de agências de proteção ambiental no estado do Rio Grande do Sul
também ocorreu com base na especialização prévia e mudanças internas em setores
administrativos pré-existentes: no caso, a problemática da poluição, através da
Secretaria Estadual de Saúde. Nesse sentido, a Coordenadoria de Controle e
Equilíbrio Ecológico (CCEE) foi o primeiro órgão do estado ligado à preocupação
com a proteção ambiental, passando a fazer parte da Secretaria de Saúde e Meio
Ambiente nos anos de 1980. Nesse mesmo período foi criado o Departamento de
Meio Ambiente (DMA), cuja atuação se direcionava para a fiscalização da
indústria coureira, sendo em 1990 transformado na Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (FEPAM). O desenho institucional atual dos órgãos estaduais de
proteção ambiental é muito recente, tendo tido início apenas no ano de 1999,
com a criação da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Ela conjugou os órgãos
que estavam noutras secretarias: a Fundação de Zoobotânica (FZB) e o
Departamento de Florestas e Áreas Protegidas (DEFAP), que eram da Secretaria da
Agricultura e Abastecimento; a Fundação Estadual de Proteção Ambiental que era
da Secretaria da Saúde; e o Departamento de Recursos Hídricos (DRH) que fazia
parte da Secretaria de Obras e Saneamento.
Em linhas gerais, essas mudanças legais e nas estruturas administrativas
federais e estaduais não resultaram na profissionalização do setor,
caracterizada, entre outras coisas, pelo domínio de uma categoria profissional
que passa a liderá-lo com base na especialização, no reconhecimento e
legitimidade das qualificações técnicas no interior do mesmo (Muller, 1995;
Lascoumes, 1999; Marques, 2003). Pelo contrário, um dos traços marcantes e
recorrentes do setor de proteção ambiental, em consonância com o que se tem
observado no âmbito nacional e até mesmo em diferentes situações nacionais, é
que a criação e expansão das instituições especificamente voltadas para a
proteção ambiental não foram acompanhadas pela sua profissionalização
(Lascoumes, 1999). Nesse sentido, as constantes mudanças políticas e
eleitorais, externas aos interesses e às lógicas próprias do setor, constituem
ingredientes principais da dinâmica de funcionamento de tais instituições e dos
processos de recrutamento e seleção dos seus quadros dirigentes. Um breve exame
das mudanças nos principais postos de direção da SEMA desde a sua criação em
1999, constitui um bom indicador do peso que os critérios político-partidários
têm para a ocupação dos cargos mais importantes, assim como da fraca
pertinência das qualificações técnicas.
Criada em 1999, na administração do PT (1999), observa-se que o padrão mais
recorrente de ocupação e substituição dos cargos de secretário da SEMA tem como
base principal a combinação de formações diversificadas com a constante
inserção profissional em organizações partidárias e participação nas disputas
eleitorais. Com exceção do primeiro secretário de meio ambiente, que permaneceu
à frente da referida pasta durante toda a gestão do PT, desde a criação da
mesma em 1999, e cuja entrada foi precedida pela militância político-
partidária, mas também pela atuação em cargos de direção na área do meio
ambiente em outras administrações do mesmo partido, o mesmo não ocorre com os
seus sucessores. Assim, o padrão mais recorrente de ocupação de cargos em tal
secretaria tem sido caracterizado por escolhas político-partidárias e pela
própria dinâmica eleitoral. Nesse sentido, destacam-se as contínuas mudanças
dos titulares da referida pasta em função de candidatura como prefeito do
interior do estado, ou como deputados estaduais e federais. Outro padrão
característico é formado por aqueles que têm uma carreira em organizações
político-partidárias com um passado por secretarias e órgãos da administração
pública em função da filiação partidária. Por fim, cabe salientar que, em
apenas um caso, se observa a ocupação do cargo por funcionários de carreira da
própria administração estadual com experiência técnica na área. Trata-se do
caso da secretária na gestão do PSDB, a qual era formada em biologia e
museologia, tinha mestrado em botânica e era doutora em ciências pela UFRGS,
além de ser servidora da Fundação de Zoobotânica do Rio Grande do Sul.
Desse modo, um breve recuo na constituição das instituições de administração da
proteção ambiental no caso em apreço, parece colocar-nos diante de modelos de
formulação e implementação de políticas públicas diferenciados daqueles
apresentados através das noções de redes de comunidades de políticas públicas
(Marques, 2003) ou de setorialização da ação pública, que pressupõe a
existência de uma liderança profissional e técnica que controle com
legitimidade as políticas formuladas nessa área (Muller, 1995). Tal exame
coloca-nos diante de uma grande instabilidade na estrutura e composição das
políticas ambientais, bem como da frequência de vínculos e recursos mobilizados
que esultam da inserção dos responsáveis por tal política em esferas de
atividade diversificadas e exteriores aos interesses e lógicas próprias de
funcionamento do setor.
Em função disso, grande parte do trabalho desenvolvido pela administração
pública consiste numa espécie de bricolage e de adaptação forçada às
necessidades da situação e às hierarquias políticas e administrativas
(Lascoumes, 1999). Isso limita amplamente tanto as fontes de expertise quanto
de contra-expertise na definição das escolhas políticas, uma vez que a produção
de saberes sobre o meio ambiente se encontra fortemente dependente de outras
fontes técnicas. Quanto a isso, observa-se que a imbricação da formação escolar
e profissional com o engajamento político em diversificadas redes de
organizações, movimentos e partidos constitui a sua base principal.
Quadro_1
POLÍTICA FLORESTAL, DIREITO E CONHECIMENTO TÉCNICO
Em consonância com esse quadro administrativo, observa-se que a fragilidade, o
desacordo e a sobreposição de funções aparecem como traços recorrentes da
política florestal brasileira, tendo como causa principal uma intensa
articulação dos grupos particulares consumidores de madeira com as agências
governamentais (Gonçalves, 2006).
Quanto a isso cabe salientar, primeiramente, que a exploração de madeira,
enquanto atividade privada teve início no período getulista e caracterizou-se
por uma forte polarização entre os que possuíam um ideário conservacionista e
os arautos do desenvolvimento, bem como pela ação dos institutos como
instâncias de intermediação entre o Estado e o setor privado (Gonçalves,
2006, p. 3). É no meio desta polarização e com base num consenso de que não se
poderia correr o risco de interromper o processo de industrialização que, a
partir da década de 1960, se constituiu um referencial, no sentido de Jobert e
Muller (1987), que via na plantação de eucalipto uma alternativa de proteção
florestal: ou seja, a plantação de florestas com finalidades comerciais ou
industriais constituíam uma forma de proteção das florestas naturais ainda
restantes (id. ibidem, p. 4).
Isso acarretou significativas mudanças na legislação e na estrutura
administrativa de intervenção no setor florestal: elaboração do Código
Florestal de 1965 que introduziu a obrigação de reposição de áreas desmatadas e
a concessão de incentivos fiscais para o plantio de florestas; Lei 5 106 de
1966 que possibilitava o desconto do Imposto de Renda dos interessados no
reflorestamento; criação do IBDF em 1967 para formular, orientar e executar a
política florestal (Gonçalves, 2006; Barcelos, 2010). Isso beneficiou a
silvicultura baseada em espécies exóticas de pinheiros e eucaliptos. Assim,
entre 1968 a 1974, os benefícios fiscais setoriais oferecidos pelo governo
passaram de 1,60% para 24,77%. Aos poucos, o segmento dos plantadores de
árvores exóticas tornou-se um dos clientes preferenciais do Estado,
principalmente através do BNDE. Acrescente-se a isso que a concentração de
condições favoráveis para obtenção de recursos públicos na SUDENE conduziu a
uma intensa migração das empresas para a região nordeste. Em decorrência da
reduzida capacidade de ação, dos crescentes desacordos, e da sobreposição de
funções das agências anteriores frente às estratégias e interesses das empresas
produtoras, foi criado o IBAMA, e em 1996 a ABEMA (Associação Brasileira de
Entidades do Meio Ambiente), que promoveu a descentralização das ações de
licenciamento e de fiscalização. No entanto, o aumento do poder das entidades
estaduais, ao invés de eliminar a sobreposição de funções, acabou por ampliar o
campo das disputas entre tais entidades e as representações regionais do IBAMA
(Gonçalves, 2006, pp. 13-14). Apesar da expansão do ambientalismo durante a
década de 1980, que, entre outras coisas, teve implicações na exigência de
realização de Estudos e Relatórios de Avaliação de Impactos Ambientais (EIA-
Rima) na implantação de atividades que apresentem riscos e impactos ambientais,
bem como das sucessivas alterações no desenho institucional da política
florestal, até meados dos anos 90 não existia qualquer regramento legal sobre o
plantio de monoculturas florestais: licenciamentos, relatórios de impactos
ambientais, audiências públicas, etc.
É também nesse contexto que se inicia a atividade de silvicultura no Rio Grande
do Sul, sem qualquer regramento legal, contando ainda com um ambiente
institucional bastante favorável (Barcelos, 2010, pp. 71-73). É o caso da
criação, em 2004, do Comitê Gestor do Arranjo Produtivo de Base Florestal do
Rio Grande do Sul (APB Florestal) composto por diversos órgãos governamentais
do governo do estado (Gabinete do Governador, Secretaria do Desenvolvimento e
Assuntos Internacionais, Secretaria da Agricultura e Abastecimento, do Meio
Ambiente, da Fazenda, do Planejamento, da Ciência e Tecnologia, Caixa Econômica
do RS, Gabinete da Reforma Agrária e Cooperativismo) e a Federação dos
Municípios (FAMURS), bem como por diversas entidades não governamentais
(Federações dos Agricultores, das Indústrias, do Comércio, das Associações
Comerciais, dos Trabalhadores na Agricultura, das Cooperativas Agropecuárias;
Associações dos Fumicultores do Brasil, dos Fabricantes de Móveis, dos
Reflorestadores; e Sindicatos das Indústrias de Madeira e das Indústrias de
Papel e Papelão). Centrado no referencial de luta pelo desenvolvimento
económico e com base numa poderosa imagem positiva, foram realizados vários
eventos onde eram apresentados os programas governamentais e projetos das
multinacionais produtoras de celulose para incentivar o plantio de pequeno e
médio porte, assim como a implantação de mega-plantios de eucalipto na metade
sul do estado (Barcelos, 2010, p. 76).
A utilização de procedimentos técnicos, como instrumento legal e
administrativo, na elaboração e condução da política de silvicultura no Rio
Grande do Sul, somente veio à tona a partir das intervenções do Ministério
Público Estadual. Através de sua autoridade institucional, ele teve um peso
decisivo na imposição da sua obrigatoriedade: (a) a avaliação dos impactos
ambientais através da realização de licenciamento com base na competência
técnica dos especialistas de órgãos administrativos estaduais legítimos (no
caso, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental), (b) a participação da
população por meio de audiências públicas e (c) a necessidade de um acordo
técnico composto por especialistas das diferentes partes em confronto. Assim,
pode-se dizer que, se a informação especializada constitui um recurso central
na definição de políticas públicas (Weible, 2008), no caso em estudo, a
competência técnica tornou-se um dos ingredientes principais de tal política a
partir da imposição de atores judiciais. Ou seja, anterior à própria disputa a
respeito dos critérios e procedimentos técnicos que deveriam ser aplicados na
operacionalização de tal política, foi necessário a imposição jurídica do
conhecimento técnico como procedimento legal e administrativo no âmbito de tal
política.
Estudos sobre a relação entre o Ministério Público e a sociedade na gestão de
conflitos ambientais têm demonstrado que esse tipo de intervenção tem como base
uma maior permeabilidade e abertura de tal instituição a valores e demandas do
ambiente externo, o que acabou por conferir-lhe crescente visibilidade pública
e legitimação social à sua intervenção nas disputas de natureza coletiva e
difusa (Maciel e Koerner, 2002, p. 130). Exemplo disso é a constatação de que
os promotores e procuradores se legitimam como guardiães da moralidade
pública e criticam os canais tradicionais de mediação política, como os
partidos e as instituições representativas (Engelmann, 2004). Essa redefinição
dos usos do direito está fundada, entre outras coisas, na ampliação da
concorrência no mundo jurídico e na diversificação dos usos políticos,
ideológicos ou sociais do direito emergente na década de 1990, bem como em
modificações consideráveis da composição social dos magistrados e,
consequentemente, em novas disposições para determinados usos do direito
(Engelmann, 2004).
Um caso exemplar dessa permeabilidade e abertura dos atores judiciais a valores
e demandas sociais e da sua relação com a diversificação da composição social
das disposições, dos vínculos sociais dos magistrados com organizações e
movimentos sociais, é a modalidade de carreira2 representada pela procuradora
do estado do Rio Grande do Sul, que esteve à frente das principais decisões e
medidas que resultaram na imposição do conhecimento técnico durante a
elaboração e implementação da política de silvicultura. Trata-se de uma
carreira profissional que combina uma trajetória de ascensão social com uma
intensa participação na política estudantil e partidária durante a formação
universitária e a posterior adesão ao ambientalismo como forma de ocupação de
posições de destaque na burocracia estatal. Filha de um carpinteiro com
escolaridade primária e origem italiana, que faleceu quando ela tinha apenas 6
meses, e de uma pedagoga com origem alemã e portuguesa, sua formação escolar
primária e secundária fez-se em bons colégios, segundo ela própria graças aos
investimentos de sua mãe e o apoio recebido de seu padrasto, que era um
advogado que tinha melhores condições do que as da sua família de origem.
Assim, durante a sua formação escolar e universitária nunca precisou de
trabalhar. Embora tenha participado, durante o segundo grau, do movimento de
jovens da Igreja Católica, através do Curso de Lideranças Jovens (CLJ), foi com
a entrada na universidade, em 1981, que começou a participar de forma mais
intensa, já no ano seguinte, no movimento estudantil e mais diretamente do
núcleo do Partido dos Trabalhadores da Faculdade de Direito, participação que
se prolongou até a conclusão da faculdade em 1985. Tais envolvimentos foram
influenciados pelo seu ex-marido, com o qual conviveu desde a graduação até
2001, e que era, segundo ela própria, uma pessoa muito politizada, membro de
uma família mais intelectualizada e que foi um dos principais dirigentes do
antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB). Nesse sentido, ela afirma que toda
sua aproximação política decorreu da convivência na universidade. Formada
em direito pela UFRGS, por influência do padrasto, e com especialização em
ecologia na UNISINOS, o seu direcionamento para a área do direito ambiental
começou em 1990. Ela foi influenciada por essa imbricação da formação
universitária com a militância estudantil e partidária e pela perspetiva
militante do direito, como também pelo ingresso no ensino universitário de
direito ambiental na UNISINOS e na Promotoria de Defesa Comunitária, que na
época se chamava Meio Ambiente e Consumidor. Iniciando a sua carreira no
Ministério Público estadual do interior, em 1988, foi com base na atuação em
tal promotoria que foi convidada, em 1991, pelo próprio promotor para se
deslocar para Porto Alegre, sua cidade de origem. Nesse sentido, como ela
própria salienta, uma vez que era uma pessoa sempre engajada politicamente,
que participava na defesa de interesses sociais e se voltava para a
participação popular, a possibilidade de atuar na área ambiental cai como
uma luva. A sua atuação na área de meio ambiente não se restringe ao posto
de promotora, participando também no que chama de uma não-ONG: trata-se do
Instituto O Direito por um Planeta Verde, o qual, segundo ela, é uma
organização voltada para a capacitação profissional na área do direito
ambiental. Como decorrente da sua vinculação a tal organização, ela atua como
coordenadora académica de um curso de especialização em direito ambiental que
faz parte de um convénio entre essa organização e a UFRGS. Além disso, coordena
um curso sobre direito ambiental e leciona na pós-graduação em gestão
ambiental, ambos na PUC, dá aulas na Escola Superior do Ministério Público na
área de direito ambiental, bem como em cursos técnicos de proteção ambiental.
Ela foi também a segunda presidente da Associação Brasileira do Ministério
Público do Meio Ambiente, fundada em 1997, por um mandato de 3 anos.
A ação do Ministério Público destacando a importância do licenciamento e
exigindo a elaboração de um zoneamento ambiental por parte da Fundação Estadual
de Proteção Ambiental (FEPAM), que é o órgão responsável pelas análises e
estudos de impacto ambiental, constituiu um dos primeiros impactos às ações que
vinham sendo desenvolvidas pela APB Florestal para expansão da silvicultura no
estado. Ela foi ao encontro e reforçou a posição dos ambientalistas e a noção
de desertos verdes, inclusive ao colocar o licenciamento na pauta da
elaboração e implementação de tal política. Com isso, em torno da elaboração do
Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS), a competência técnica tornou-se um
recurso central nas discussões e debates a respeito da operacionalização de tal
política.
Todavia, tratando-se de um contexto político e institucional intensamente
marcado pela divisão, polarização e competição entre os principais grupos
envolvidos, o peso da competência técnica e dos recursos de expertise não foram
suficientes para produzir uma espécie de acordo técnico capaz de gerar certo
consenso ou mesmo afetar diretamente as decisões a respeito dos critérios que
deveriam ser aplicados na atividade de silvicultura. Pelo contrário, em tal
situação predominou o que Weible (2008, p. 620) denomina de uso político da
informação especializada, pois ela foi utilizada de forma distorcida e
seletiva, seja para legitimar as decisões já tomadas pela APB Florestal, seja
como uma arma política pelos ambientalistas na luta contra os seus
adversários.
Esse tipo de utilização do conhecimento técnico ocorre de forma bem
diversificada e tem como base uma combinação de recursos, vínculos, disposições
e formas de articulação da formação escolar com a militância política,
decorrentes do engajamento político e da inserção em esferas de atividade e em
diversas redes de organizações e movimentos sociais. Essa intensa imbricação da
formação profissional com o engajamento político constitui um dos elementos
constantes do conjunto de técnicos diretamente ligados aos conflitos em torno
de tal política. Tomando como base os que participaram de forma destacada na
elaboração e nos debates a respeito do Zoneamento Ambiental da Silvicultura,
podem-se distinguir três padrões principais de utilização política do
conhecimento técnico.
Num extremo, destaca-se o padrão de carreira dos que atuam como assessores
técnicos das empresas de celulose e do próprio Governo do estado. Trata-se de
técnicos com formação universitária geralmente em engenharia florestal e cuja
formação e exercício profissional foram marcados pela articulação com a
participação em associações de engenharia florestal, em ONG do setor florestal,
bem como na assessoria técnica para órgãos federais como o IBAMA,
administrações públicas e diversas empresas privadas do setor madeireiro.
No outro extremo, está o padrão de carreira dos ativistas das ONG
ambientalistas. Estas caracterizam-se pelo predomínio de indivíduos com origens
sociais médias e heterogéneas, com formação em biologia, jornalismo, direito e
que têm como principal base de recursos as inserções e os vínculos
estabelecidos no decorrer dos seus itinerários familiar, escolar e profissional
com organizações e movimentos sociais diversificados (estudantis, sindicais,
partidárias, religiosas, etc.) e cujas conceções de participação política
remetem para a politização das mais diferentes esferas de atividade com base
nessa intensa militância política (Oliveira, 2008). Nesses casos, a articulação
da formação universitária com a participação em organizações estudantis e,
posteriormente, em partidos políticos e em instâncias de proteção ambiental,
constitui um dos ingredientes principais dos seus itinerários escolares.
Numa posição intermediária entre esses dois extremos está o padrão de carreira
dos funcionários da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, da Fundação Estadual
de Proteção Ambiental e Fundação Zoobotânica. Como já foi salientado
anteriormente, existem fortes indícios de que os técnicos da burocracia estatal
tenham desempenhado um papel secundário na formulação de tal política. Um dos
aspetos que demonstra isso é o facto de as posições-chave na elaboração da
proposta de zoneamento ambiental estarem a cargo de assessores técnicos
externos que foram convidados pelos responsáveis da administração estadual. Uma
das fontes da desqualificação da posição dos técnicos dos órgãos ambientais
pela administração atual pode ser encontrada nos tipos de inserções e de
vínculos por eles estabelecidos no decorrer das suas carreiras profissionais
com associações ambientalistas e organizações partidárias. Isto porque, ao
contrário dos assessores técnicos das empresas e mais próximo dos
ambientalistas, as carreiras profissionais dos que exercem funções técnicas em
tais órgãos, caracterizam-se por um itinerário escolar e universitário marcado
pelo engajamento político em grémios estudantis e centros académicos e a sua
combinação com a participação em associações ambientalistas e organizações
partidárias. Todavia, nesses casos, ao invés dos ambientalistas, tal
participação não resulta na ocupação de cargos nas referidas organizações.
Desse modo, se a atuação em ONG constitui um traço recorrente da sua formação
escolar, ela ocorre principalmente através de estágios durante a formação
universitária, não se desdobrando na militância que tem como base principal a
ocupação de cargos de direção em tais organizações ou através delas na
burocracia estatal.
Apesar de algumas semelhanças no tocante à articulação da formação escolar e
profissional com esferas de atividades e redes sociais diversificadas, a
caracterização dos principais padrões de carreiras que conduzem à ocupação de
posições destacadas na elaboração do zoneamento ambiental possibilita
evidenciar a diversificação das modalidades de utilização da formação técnica
na formulação de políticas de gestão ambiental e nas suas relações com
disposições e recursos acumulados através de vínculos estabelecidos com
diversos espaços e redes sociais. Isso evidencia o quanto a capacidade de
utilização do conhecimento técnico para a imposição de critérios na
operacionalização da política de silvicultura se mostra estreitamente ligada à
inserção simultânea em diversas redes sociais. Tais redes não se formam apenas
através da consolidação de vínculos no interior da administração estatal, mas
resultam principalmente da participação dos atores em variadas esferas de
atividade e possibilita que se solidifiquem relações com lideranças e
organizações externas à esfera estatal. Quando essas influências não são
suficientes para impor as suas respetivas decisões, verifica-se uma grande
incapacidade de influenciar de modo decisivo na formulação dos critérios
técnicos de aplicação dessas políticas.
Essa incapacidade de gerar um consenso ou acordo técnico sobre a
operacionalização de tal política mostrou-se particularmente visível nos
desdobramentos do processo que conduziu à aprovação final do zoneamento
ambiental. Isto porque, em decorrência da forte polarização e conflito entre os
principais grupos envolvidos, não foi possível chegar a um acordo a respeito de
tal zoneamento com base no conhecimento e na competência técnica. Foi somente
no âmbito das disputas em torno das instâncias, regras e procedimentos
institucionais que se encontraram os elementos decisivos para a imposição de um
acordo técnico.
Por parte da APB Florestal, o documento elaborado pelos técnicos da Fundação
Estadual de Proteção Ambiental e da Fundação Zoobotânica era demasiadamente
restritivo e teria como consequência inviabilizar os investimentos que estavam
a ser feitos na região. Em função disso foi criado um Grupo de Trabalho pelo
próprio secretário do Meio Ambiente para analisar tal documento e formular uma
proposta alternativa ao mesmo, composto basicamente por membros da APB
Florestal. Com base no modelo de zoneamento alternativo, tal grupo promoveu uma
intensa politização e ideologização das instâncias onde o zoneamento deveria
ser discutido, que era o Conselho Estadual de Proteção Ambiental (CONSEMA) e as
audiências públicas exigidas pela Promotoria do Ministério Público. Assim,
nesses espaços os dois modelos de zoneamento eram apresentados como uma
oposição entre os inimigos e os defensores do desenvolvimento. Além
disso, as intervenções e discussões em tais instâncias foram marcadas pelo alto
índice de aplausos e vaias, bem diferente de uma discussão a respeito de um
documento técnico. Acrescente-se a isso, a intensa mobilização de diversos
atores externos à área ambiental para conseguir a aprovação da proposta
alternativa do ZAS (prefeitos, vereadores e população dos municípios
interessados) (Barcelos, 2010).
Do lado dos ambientalistas, após a aprovação do ZAS alternativo, atuando em
conjunto com a Promotoria de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público,
entraram com ações pedindo a anulação do processo o que, de facto, ocorreu em
agosto de 2008, por decisão judicial. Além disso, foi determinado que o
processo fosse de novo discutido e retornasse à instância do CONSEMA para ser
novamente apreciado. Tal decisão colocaria, mais uma vez, os técnicos no centro
do processo de elaboração de um terceiro zoneamento ambiental. A partir daí o
debate ocorreu apenas na Câmara Técnica de Biodiversidade e Políticas
Florestais e numa dinâmica menos conflituosa, envolvendo basicamente os
técnicos que representavam as empresas e os ambientalistas. Um ano depois de
ser anulado o segundo zoneamento ambiental, foi definida uma proposta
consensual na referida Câmara Técnica. E após isso, tal proposta foi levada ao
plenário do CONSEMA e aprovada por unanimidade.
CONCLUSÕES
Como este artigo procurou demonstrar, em consonância com o que tem sido
destacado pela literatura pertinente, o conhecimento técnico constitui um dos
recursos importantes nos processos de elaboração e operacionalização de
políticas públicas. Sem dúvida, a necessidade de realização de estudos de
impacto ambiental e de elaboração de critérios técnicos para aplicação da
política de silvicultura, constituiu um dos ingredientes principais da luta dos
ambientalistas e dos seus aliados nos desdobramentos de tal política. Todavia,
para que o debate transcorresse de forma técnica foi necessária a intervenção
judicial da Promotoria do Ministério Público Estadual. Portanto, neste caso, a
intervenção de atores e recursos institucionais do judiciário constituiu uma
condição prévia e fundamental para que a expertise técnica se tornasse um
recurso legítimo na definição da referida política.
A acentuada fragmentação e fragilidade institucional que tem caracterizado a
dinâmica de configuração do setor ambiental, constituem aspetos importantes
para a compreensão do lugar ocupado pelo conhecimento técnico no âmbito de tal
política. Isto porque a existência e o funcionamento das instituições
administrativas e burocráticas de formulação e execução de políticas de
proteção ambiental são constantemente afetados pelas mudanças políticas e
eleitorais, externas aos interesses e lógicas próprias do setor ambiental,
assim como por clivagens político-ideológicas relacionadas com a dinâmica
político-eleitoral e mais amplamente com a esfera da política partidária.
Contribui para isso, a inexistência de profissionalização do setor, no sentido
do domínio de determinada categoria profissional com base no reconhecimento e
legitimidade das qualificações técnicas. Isso fica particularmente visível
quando se examinam os processos de recrutamento e seleção dos principais
quadros dirigentes das organizações administrativas de proteção ambiental.
Devido a isso, a ação administrativa em matéria de proteção ambiental tem-se
caracterizado pela adaptação forçada às necessidades da situação e às
hierarquias políticas e administrativas (Lascoumes, 1990; Coradini, 1994).
Em consonância com isso, observou-se que a utilização de recursos político-
partidários e judiciais constituiu uma marca constante da dinâmica de
elaboração e implementação da política de silvicultura. Além disso, os atores
judiciais passaram, nos últimos anos, a ocupar um papel central na definição
das políticas de gestão ambiental, principalmente no sentido de garantir a
elaboração de critérios técnicos para a operacionalização de tal política.
Neste caso, pode-se dizer que, diferentemente do que tem sido comummente aceite
pelos estudos sobre o ambientalismo e a formulação de políticas de gestão
ambiental, esse estudo permitiu perceber que o conhecimento técnico não
constitui um recurso exclusivo e central nas dinâmicas de formulação e
implementação de políticas ambientais. A competência técnica tornou-se um dos
ingredientes principais de tal política somente a partir da imposição de atores
judiciais.
Tal investigação demonstrou que é preciso levar em conta o contexto político,
para evitar cair em simplificações e deturpações na análise do peso e do lugar
ocupado pelo conhecimento técnico nas dinâmicas de elaboração e
operacionalização de políticas públicas (Weible, 2008). Isso requer uma atenção
especial à configuração das relações de poder e dominação entre os principais
grupos envolvidos na referida política. Com base nisso, podem-se encontrar
diferentes modalidades de usos da expertise. Na situação em estudo, tratando-se
de relações entre grupos com forte teor de polarização ideológica e de
conflito, predominou um uso político da expertise. A combinação entre as formas
de competição dos atores envolvidos e os tipos de uso da expertise constitui um
aspeto importante para a apreensão das diversas modalidades de utilização da
competência técnica no âmbito das políticas públicas.