Reciprocidade discursiva, enquadramento e deliberação: a consulta pública sobre
reforma política da ALMG
O conceito de reciprocidade é fundamental para a perspetiva deliberacionista de
democracia. Sem diálogo ' sem intercâmbio recíproco ' não se pode falar de
deliberação. Por definição, a mutualidade é constitutiva da deliberação se se
opera a partir da matriz habermasiana de pensamento. Isso porque a
racionalidade defendida por Habermas não reside numa capacidade cognitiva
individual, mas emerge do processo de troca pública de razões em que os
argumentos se atravessam e se modificam.
Como explorado em trabalho anterior (Mendonça e Santos, 2009), contudo, a ideia
de reciprocidade tende a ser interpretada como um fardo que os
deliberacionistas insistiriam em carregar. Na medida em que a reciprocidade é
frequentemente tomada como equivalente a altruísmo, harmonia e sublimação de
conflitos, apregoa-se que a ideia promoveria uma leitura irrealista e deturpada
das efetivas lutas por interesse na cena política. Tal interpretação, já se
argumentou, nasce de uma visão redutora da noção de reciprocidade, que não
capta o sentido do conceito de role taking na teoria habermasiana (idem, 2009).
A reciprocidade de que depende a deliberação não implica apagamento de
conflitos e interesses (Mansbridge etal., 2010).
No entanto, a complexidade dessa ideia de reciprocidade acaba por ser, de
facto, reduzida em diversas operacionalizações empíricas dos próprios
deliberacionistas. Isso fica claro na profusa literatura atual que se propõe
construir indicadores para o estudo de iniciativas virtuais. Este artigo busca
discutir a dificuldade de lidar metodologicamente com a noção de reciprocidade,
apresentando alguns caminhos para a superação de tal dificuldade. Tais caminhos
passam, argumentamos, por uma distinção de duas dimensões da reciprocidade: a
direta e a discursiva. Através de um estudo de caso sobre uma consulta pública
online da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, buscaremos ilustrar a
operacionalização dessas dimensões, enfocando especialmente a reciprocidade
discursiva, que supera alguns dos limites de estudos restritos à reciprocidade
direta.
O artigo está estruturado em três partes. Na primeira delas, fazemos uma breve
discussão sobre a operacionalizações do conceito de reciprocidade em estudos
sobre deliberação online e avançamos o argumento da supracitada distinção de
dimensões da reciprocidade. Advogamos que o conceito de enquadramento é de
relevância fulcral para a compreensão da frequentemente negligenciada
reciprocidade discursiva. Na segunda parte, contextualizamos o caso mobilizado:
uma consulta pública sobre reforma política. Finalmente, na terceira parte,
apresentamos uma análise da experiência centada na questão da reciprocidade.
DELIBERAÇÃO ONLINE E RECIPROCIDADE
A teoria deliberacionista da democracia é uma perspetiva que liga a
legitimidade democrática ao intercâmbio público de razões (Habermas, 1997;
2005; Bohman, 1998; Avritzer, 2000; Dryzek, 2000; Chambers, 2003; Gutmann e
Thompson, 2004; Thompson, 2008; Steiner, 2012; Vieira e Silva, 2013). A sua
formulação como um modelo democrático remonta aos anos 1980 ' em trabalhos como
os de Bessette e Joshua Cohen ', ganhando força ao longo dos anos 1990, no
processo que ficou conhecido como a viragem deliberativa da teoria democrática.
Na sua base, contudo, a ideias bem mais antigas que geralmente são traçadas
desde a democracia ateniense, aos escritos de Burke e Sieyès, passando por
Kant, Rousseau, Stuart Mill, Dewey e Arendt até chegar aos escritos de Rawls e,
mais fundamentalmente, Habermas (Dryzek, 2000). Dada esta diversidade de
fontes, é essencial reconhecer que o modelo se constitui como uma família
eclética, com abordagens bastante distintas (Mendonça, 2011). Atravessando
essas abordagens, existe, todavia, uma aposta em princípios como publicidade,
mutualidade, racionalidade e igualdade para a articulação de um modelo
democrático baseado no intercâmbio de razões em oposição à mera agregação de
preferências (Chambers, 2003; Mendonça, 2010).
Deliberação não é, pois, sinónimo de participação, nem uma crítica à ideia de
representação. Ela não implica um intercâmbio presencial direto e desapaixonado
de silogismos desinteressados. Tãopouco significa uma busca pelo consenso que
apague as diferenças e a pluralidade do mundo (Mansbridge etal. 2010; Dryzek e
Niemeyer, 2006). Salienta-se, ainda, que a abordagem deliberacionista não é uma
descrição empírica das democracias existentes. Trata-se de um conceito
normativo que, como bem destaca Pinzani (2009), não pode ser confirmado ou
negado por dados empíricos. Ele funciona como uma lente para compreender
processos reais que operam com algumas das suas premissas, embora nunca as
realizem plenamente. Entendemos, pois, que a deliberação não é mera utopia
inverosímil, mas uma noção que permite pensar criticamente práticas existentes.
Nesse sentido, torna-se necessário refletir sobre um dos pontos mais
controversos do conceito de deliberação, qual seja, a premissa do intercâmbio,
que pressupõe a existência de um diálogo efetivo no bojo do processo
deliberativo. A deliberação não é o simples apresentar de razões públicas, como
supõem aqueles que se baseiam na matriz rawlsiana, mas uma troca pública de
razões (Cooke, 2000). De acordo com deliberacionistas de diversos matizes, é
fundamental que haja mutualidade e co-operação para que se possa vislumbrar a
existência de deliberação (Gutmann e Thompson, 1996; Bohman, 1996; Habermas,
1997; Dryzek, 2000; Bächtiger et al., 2009). Tal reciprocidade não requer que
cada indivíduo abra mão das suas posições e concorde com os demais. O essencial
é que haja interação entre os discursos proferidos em público, de modo a que a
própria prática discursiva se encarregue da filtragem processual das razões
(Habermas, 2006; Mendonça e Santos, 2009). A reciprocidade implica, pois, a
existência de um cenário dialógico em que cada discurso não existe
isoladamente, mas se articula com uma trama mais ampla.
Embora instigante, esta conceção de reciprocidade é de difícil
operacionalização. Se a agenda de estudos empíricos sobre deliberação tem
reiterado a centralidade do conceito, existem diferentes maneiras para tentar
apreendê-lo. Nos estudos sobre discussão online, essas operacionalizações são
particularmente interessantes, já que uma das promessas ligadas à internet era
a de que ela promoveria práticas comunicativas mais horizontais e dialógicas.
Como assinalam Baek,Wojcieszak e Delli Carpini (2011, p. 364), a internet
ofereceu novas esperanças aos pesquisadores deliberacionistas que viram seus
potenciais equalizadores e pró-democráticos.
A proposta de Raphäel Kies (2010) para a análise da reciprocidade deliberativa
em iniciativas digitais ilustra bem os procedimentos geralmente utilizados. Ele
sugere mensurar a proporção de posts que começam um tópico e a proporção
daqueles que se inserem em tópicos já iniciados. Essa estratégia também é
adotada por Jensen (2003), que codifica cada post como iniciador, resposta
ou monólogo. Outro elemento da proposta de Kies (2010) é avaliar se existem
posts que consideram opiniões já apresentadas no fórum. Stromer-Galley (2007)
aborda a questão da reciprocidade por meio da noção de engajamento. De acordo
com ela, o engajamento exige que os participantes de um processo conversem uns
com os outros sem se ignorar. Assim, Stromer-Galley propõe que se diagnostiquem
os índices de responsividade de posts, bem como a formulação de questões não
retóricas e as oportunidades em que uma meta-conversa é mobilizada.
Wales, Cotterill e Smith (2010), por sua vez, propõem-se diagnosticar
manifestações explícitas e não explícitas de acordo ou desacordo em relação a
outros comentários. Graham e Witschge (2003) advogam o levantamento das
respostas aos argumentos de outros participantes, por meio do mapeamento visual
da rede que conecta os participantes. Marques (2011) defende a realização de
uma análise focada na observação da alternância de turnos entre participantes
que se respondem de maneira não centralizada. Convém mencionar, por fim, que os
proponentes do DQI (Discourse Quality Index) ' o método que se tem mostrado
mais influente para os estudiosos da deliberação ' recentemente incorporaram a
noção de reciprocidade por meio da mensuração da interatividade (Bächtiger
etal., 2009). Para tanto, propõem pôr em foco o número de referências em
relação aos argumentos de outras pessoas.
A questão é que esses trabalhos costumam ater-se a uma das dimensões da
reciprocidade qual seja, a direta. Essa dimensão revela-se na existência de uma
troca mais explícita e imediata entre os participantes de um processo
dialógico. Por isso, a atenção recorrente a menções mútuas entre posts e ao uso
de ferramentas de plataformas que evidenciam se um dado comentário é uma
resposta a outro post ou o início de um novo assunto. Tais estratégias podem
ser importantes para a compreensão da deliberação, evidenciando a construção de
microprocessos discursivos internos a certos fóruns.
Há, contudo, uma segunda dimensão a ser considerada, que denominamos
reciprocidade discursiva. Essa dimensão não enfoca o diálogo entre
participantes, mas busca mapear choques mais amplos de discursos. O seu objeto
não é, pois, o post ou a intenção dialógica do participante, mas a rede
discursiva que se pode depreender de determinado fluxo discursivo. Uma análise
de reciprocidade discursiva não busca descortinar interpelações entre
indivíduos, mas reconstruir uma trama que mostra como determinados discursos se
chocam e se respondem. Tal análise revela-se especialmente importante num
momento de expansão da abordagem deliberativa que ganha ares mais sistémicos
(Mansbridge, 1999; Dryzek, 2000; Hendriks, 2006; Parkinson, 2006; Warren, 2007;
Goodin, 2008; Mendonça, 2009; Parkinson e Mansbridge, 2012). Nesse viés,
processos deliberativos não devem ser pensados apenas como conversas diretas
entre pessoas, mas como fluxos discursivos mais amplos que tomam corpo em
diferentes arenas e em diversos momentos.
Fica claro, assim, que a compreensão dessas duas dimensões da reciprocidade
requer procedimentos metodológicos distintos. Para o estudo da reciprocidade
direta, endossamos muitos dos caminhos frequentemente mobilizados pelos
estudiosos da deliberação online. Sugerimos, nesse sentido, atenção a quatro
indicadores: (1) a catalogação das relações diretas entre posts ' por meio de
referências explícitas ou de interações claras sem menção explícita; (2) a
observação dos posts que contêm perguntas não retóricas, demonstrando interesse
em dialogar; (3) a utilização de contra-argumentos ao próprio argumento
defendido; e (4) a manifestação de apreço ou repúdio (likee dislike) em relação
a comentários. Todos esses indicadores sugerem a concretização, ou o desejo, de
uma conversa entre os participantes de uma arena online.
Para o estudo da reciprocidade discursiva, por sua vez, entendemos que a
análise de enquadramento oferece um caminho metodológico com grande potencial
heurístico. Entender o movimento e as relações entre os diversos quadros
mobilizados pelos proferimentos ajuda a mapear os choques argumentativos entre
discursos, remontando a natureza de uma conversação abstrata. Para compreender
melhor esse potencial, bem como a sua forma de aplicação, torna-se necessário,
agora, realizar uma breve discussão sobre o conceito de enquadramento.
ENQUADRAMENTO E RECIPROCIDADE DISCURSIVA
A base da noção de enquadramento surgiu com os escritos sobre psicoterapia e
antropologia de Gregory Bateson (1953) e foi posteriormente trabalhada pela
microssociologia de Erving Goffman (1986). Bateson observou que para além do
caráter denotativo da linguagem, existem dimensões metalinguísticas e
metacomunicativas que dizem do próprio processo comunicativo do qual participam
os indivíduos. Para ele, o sentido do discurso não se constitui como algo
antecipadamente dado pelo conteúdo da mensagem, mas é construído
intersubjetivamente no contexto da comunicação (Bateson, 2002 [1953], p. 96). É
nesse sentido que Bateson propõe o conceito de enquadramento como aquilo que
baliza a interpretação e o engajamento dos atores em determinada interação.
Funcionando como uma moldura (frame) que inclui e exclui categorias de sentido,
o enquadramento permite perceber aquilo que não está diretamente presente no
enunciado e aquilo que é salientado.
Em Frame Analysis: an Essay on the Organization of Experience (1986), Erving
Goffman procura delimitar e aplicar a noção de enquadramento no desenvolvimento
de uma metodologia de análise microssociológica. O seu foco de estudo são as
interações quotidianas e a forma segundo a qual os indivíduos constroem sentido
e entendimento nessas interações por meio dos quadros. Seguindo a pragmática
batesoniana do discurso, Goffman define frame como um conjunto de princípios
que organizam o envolvimento dos indivíduos com os acontecimentos com os outros
(Goffman, 1986, p. 10). São os quadros que permitem que os indivíduos percebam
e identifiquem a situação na qual estão inseridos e as formas de engajamento
coerentes nos contextos comunicativos do qual participam. É importante
ressaltar que Goffman salienta as características socioculturais dos
enquadramentos, não os tratando como constructos fixos e isolados. Os quadros
são mutáveis, transformando-se historicamente, a partir da mobilização feita
por atores sociais e da dinâmica de encontros, deslocamentos e sobreposições
entre molduras de sentido.
A partir desses trabalhos, os estudos sobre enquadramento seguiram diversos
caminhos e foram apropriados por diferentes autores de maneiras distintas
(Entman, 1993; Porto, 2004; Van Gorp, 2007; Mendonça e Simões, 2012). Alguns
estudos da comunicação política, por exemplo, consideram os enquadramentos como
determinantes na formação de preferências individuais, investigando o potencial
de controlo da opinião pública por meio da seletividade dos quadros (Chong,
1993; Druckman e Nelson, 2003; Kahneman e Tverski, 1986). Paralelamente, Entman
(1993) sugere que o estudo dos enquadramentos desnuda as formas como a
comunicação exerce poder e desta maneira considera os quadros como estoques
culturais de sentido, utilizados para salientar ou enfatizar determinado
discurso.
Reese (2007, p. 151), por sua vez, observa os enquadramentos como fatores
essencialmente estruturais que funcionam como organizadores simbólicos do mundo
social. E, ao mesmo tempo, Van Gorp (2007, p. 66) pensa os quadros como ecos de
fatores culturais compartilhados que lançam as bases da construção dos
discursos sociais. Por fim, a perspetiva construtivista de Gamson e Modigliani
(1989), procura unir a análise macroestrutural dos enquadramentos ao uso
cognitivo que os indivíduos deles fazem.
No que concerne ao uso do conceito para a compreensão da reciprocidade
discursiva, advogamos, como já feito em outros trabalhos, que é preciso
entender a inscrição de argumentos em quadros socioculturais (Mendonça e
Santos, 2009; Mendonça e Simões, 2012). Ao debater temas diversos, os atores
fundamentam as suas posições com argumentos que emolduram a natureza do
problema em discussão e as soluções propostas. Assim, os argumentos mobilizam
(e atualizam) quadros de sentido no processo de interpretação e construção da
realidade. São esses quadros (frames) que determinam o que é relevante, o que é
salientado e o que é desconsiderado num discurso. Evidentemente não se trata de
dizer que esses quadros se constituem como fatores estruturais absolutos que se
impõem sobre os indivíduos. Ao contrário, na medida em que o processo de
enquadramento também depende do uso pragmático que os indivíduos fazem dos
quadros, torna-se absolutamente necessário lembrar o caráter reflexivo da
construção dos enquadramentos.
Nesse sentido, a análise de enquadramento ajuda o observador a reconstruir as
linhas gerais que alicerçam as razões mobilizadas pelos atores num processo
discursivo. A compreensão e a remontagem dos quadros de um debate permitem
mapear os fluxos discursivos que orientam a discussão. Esse mapeamento, baseado
nas trajetórias, nas projeções e nos choques de discursos, possibilita
ultrapassar o foco em atores e proferimentos (em enunciadores e enunciados)
para perceber a tessitura comunicacional mais ampla.
É justamente por isso, que a análise de enquadramentos contribui para a
compreensão da reciprocidade discursiva. Ao captar as molduras mobilizadas ao
longo de um debate, pode-se reconstruir a forma como alguns diálogos acontecem
dentro de certos quadros, ao passo que outros se manifestam entre quadros. Na
primeira situação, mais fácil de entender, manifestam-se as tensões internas de
enquadramentos, sendo que atores que caminham no interior de uma moldura
discursiva, empurram-na em direções diversas. Pode-se, assim, remontar uma
discussão entre argumentos intraquadro. Na segunda situação, observa-se o
choque entre enquadramentos distintos. Se, frequentemente, o uso de quadros
diversos pode indicar uma desconsideração de outros discursos, há algumas
circunstâncias em que a mobilização de quadros diferentes também pode indicar a
existência de um diálogo com tentativas de deslocamentos mútuo. Nesse ponto, a
noção goffmaniana de Keying mostra-se particularmente útil, visto revelar a
existência de viradas interpretativas que buscam deslocar a compreensão de
certa questão.
O nosso argumento é o de que a reciprocidade discursiva pode manifestar-se
nessa reconstituição de diálogos intra-e inter-quadros. Neste estudo, baseamo-
nos em afirmações feitas pelos participantes de uma consulta online sobre
reforma política para indicar essa possibilidade da reciprocidade discursiva.
Antes, contudo, convém apresentar brevemente o caso e fazer uma leitura sobre a
reciprocidade direta observada na experiência. Só, então, nos moveremos para o
estudo da reciprocidade discursiva.
A CONSULTA PÚBLICA SOBRE REFORMA POLÍTICA DA ALMG
A Assembleia Legislativa de Minas Gerais tem promovido, desde o final da década
de 1980, amplas mudanças institucionais (Anastasia, 2001; Oliveira, 2009;
Mendonça e Cunha, 2012). Se tal processo foi impulsionado pelo desejo
estratégico da Casa para melhorar a sua imagem pública, ele desencadeou
alterações estruturais na própria forma de atuação do parlamento mineiro.
Houve, assim, significativos investimentos na profissionalização da instituição
e na criação de diversos fóruns participativos.
Esses diversos fóruns caracterizaram-se, primordialmente, por dois atributos:
(1) a sua natureza presencial; (2) o foco na mobilização de entidades da
sociedade civil organizada (Mendonça e Cunha, 2012). Mais recentemente,
contudo, e visando ampliar o escopo da interlocução com a sociedade, a ALMG tem
investido em mecanismos online de interação. Aposta-se que as interações
diferidas e difusas mediadas por computador possam aumentar a capilaridade da
instituição e promover o engajamento de cidadãos não mobilizados em torno de
entidades. É no seio dessa proposta que a Assembleia promove, entre outras
iniciativas, algumas consultas públicas online. Desde 2009, foram realizadas
quatro delas, com duração média de um mês. Essas consultas buscam, geralmente,
abastecer outros processos da própria ALMG, além de subsidiar discussões
públicas sobre aspetos considerados relevantes na agenda nacional.
No total, as consultas públicas online da ALMG receberam 1858 comentários. A
mais popular delas, alvo do presente texto, tratou do tema da reforma política
e contabilizou 752 posts. Realizada ao longo de 27 dias em junho de 2011, a
consulta foi dividida em dez fóruns: (1) cláusula de barreira ou cláusula de
desempenho; (2) coligação eleitoral; (3) data da posse dos chefes de poder
executivo; (4) fidelidade partidária; (5) filiação partidária e domicílio
eleitoral; (6) financiamento eleitoral e partidário; (7) reeleição e duração
dos mandatos; (8) sistemas eleitorais; (9) suplência de senador; (10)
unificação das eleições.
Num outro trabalho, buscamos explorar, quantitativamente, a natureza dos
comentários e as características dos participantes desta iniciativa (Mendonça e
Amaral, no prelo). Por razões de espaço e foco, não apresentaremos tais dados
aqui. Neste artigo, dedicar-nos-emos apenas a investigar a questão da
reciprocidade, apoiando-nos, para tanto, na sugerida distinção entre
reciprocidade direta e reciprocidade discursiva.
ANÁLISE DA RECIPROCIDADE DIRETA
Como já foi exposto, empregaram-se quatro indicadores para a investigação da
reciprocidade direta entre os participantes da referida consulta pública. O
primeiro deles foi a catalogação das relações entre posts, por meio de menções
explícitas ou de interações claras sem menção explícita. Os dados revelam que
somente 6% dos comentários podem ser definidos, claramente, como respostas a
outros posts. O quadro_1 apresenta esse dado estratificado por grupo de
discussão analisado.2
O segundo indicador é a mobilização de perguntas não retóricas, que revelariam
interesse em interagir com outros participantes. Há oito ocorrências, nos 745
comentários analisados (1,1%), de posts que colocam indagações efetivas aos
outros participantes da consulta. O terceiro indicador é a utilização de
contra-argumentos na defesa do próprio argumento. Por meio dele, buscamos
avaliar se os participantes procuram considerar (e, eventualmente, contestar)
argumentos contrários aos seus, o que demonstraria uma clara tentativa de se
inserirem numa rede discursiva mais ampla. Constatou-se que apenas 3,6% dos
posts analisados apresentam contra-argumentos à posição que advogam.
Por fim, o quarto indicador utilizado revela-se na expressão avaliativa de
outros participantes que gostam ou reprovam outros posts. Se essas avaliações
não trazem respostas e contra-argumentos, elas evidenciam alguma forma de
engajamento entre um leitor e um post. Apenas num de cada cinco posts (21,6%)
há alguma forma de avaliação, sendo que a maior parte dessas expressões
avaliativas é positiva (gostar). Considerando-se apenas os 161 posts que são
avaliados por, pelo menos, um outro participante, tem-se uma média de 4,4
avaliações por comentário.
Os dados da análise de reciprocidade direta são incontestavelmente baixos. Não
há como negar que a consulta pública apresenta um grau muito pequeno de
interatividade direta entre participantes. O nosso argumento, contudo, é o de
que essa avaliação não capta a complexidade da ideia de reciprocidade. Para
tanto, movemo-nos, agora, para a investigação daquilo que vimos chamando de
reciprocidade discursiva.
ANÁLISE DA RECIPROCIDADE DISCURSIVA
Se as categorias mobilizadas para mapear a reciprocidade direta são
relativamente simples, a compreensão da reciprocidade discursiva parece mais
complicada, porque menos explícita. Para captá-la, propusemos uma reconstrução
dos argumentos mobilizados pelos participantes a partir da noção de
enquadramentos. O nosso esforço será, portanto, o de remontar choques
discursivos por meio da identificação dos quadros que permitem enfeixar as
justificações proferidas para advogar certas posições. Como já mencionado, é
possível identificar embates discursivos dentro de quadros e entre quadros.
Para ilustrar tais embates, é necessário, em primeiro lugar, apresentar,
brevemente, os enquadramentos identificados no corpus analisado. Tal
identificação partiu da própria leitura dos comentários, sendo que o
enfeixamento dos mesmos em torno de quadros se deu numa série de debates
envolvendo todos os integrantes da pesquisa. A subsequente etapa de aplicação
das categorias ao corpusfoi marcada por uma série de adaptações e revisões das
conceções iniciais. Assim, chegou-se a um total de nove enquadramentos, a
saber:
1. Partido/indivíduo: enquadramento sobre o ator mais relevante no
funcionamento do sistema político, abordando as relações entre
partidos políticos, candidatos e eleitores. Salienta as formas
segundo a qual esses atores se articulam no interior do processo
político e em como essa relação se constitui como fonte de
interpretação dos temas da reforma política. Utilizado, por exemplo,
no debate sobre a pertença do mandato eletivo, no tema da fidelidade
partidária e nas discussões do voto em legenda. Aparece também nos
debates sobre o fortalecimento ideológico e estrutural dos partidos
políticos frente a uma maior autonomia dos candidatos.
2. Responsividade/accountability: enquadramento que diz da
prestação de contas públicas e da transparência do processo político.
Inscrevem-se nesse enquadramento argumentos referentes aos
dispositivos institucionais que permitam ou não a existência de um
processo político transparente e publicamente contabilizado. É
mobilizado, por exemplo, para tratar da proximidade entre os
representantes políticos e os eleitores, na pauta sobre o domicílio
eleitoral e nas questões sobre fiscalização da arrecadação de
recursos para campanhas eleitorais.
3. Custos/logística: enquadramento que fala da relação entre os
gastos realizados na manutenção do sistema político e a forma como
esse sistema se configura. Utilizado também em questões relativas ao
emprego do dinheiro público na sustentação da infraestrutura básica
do Estado em diferentes setores como a saúde, a educação e a
segurança pública. Empregado, por exemplo, nos temas de financiamento
de campanha, unificação das eleições e da suplência de senador.
4. Equilíbrio de forças políticas: enquadramento que trata de
problemas concernentes às relações de força existentes no processo
político e em como este se pode organizar para que essas relações se
estabilizem. Apresenta diferentes formas de organizar o processo
político de forma a estabilizar as relações de forças existentes.
Este enquadramento é utilizado, por exemplo, no tema da cláusula de
barreira e de desempenho.
5. Cultura política brasileira: enquadramento que relaciona
questões sociais e políticas à determinação de traços culturais
historicamente enraizados no comportamento político do povo
brasileiro. A especificidade dessas características é resgatada na
interpretação e análise de diferentes pontos do processo político
como o comportamento eleitoral e a opinião pública.
6. Mudança/permanência: enquadramento que diz da necessidade ou
não da oxigenação do sistema político. Sob ele se inscrevem
principalmente questões relativas à duração dos mandatos eleitorais e
aos processos de reeleição.
7. Liberdade para alcançar os próprios interesses: enquadramento
que resgata o princípio da liberdade individual. Diz do potencial de
impedimento ou garantia deste princípio que pode resultar das pautas
da reforma política.
8. Público/privado: trata dos encontros e afastamentos entre a
esfera pública e a esfera privada e das diversas consequências dessa
relação. Observa-se através de fenómenos como a corrupção e o
patrimonialismo e em outros nos quais o dever público é preterido em
relação a vontades particulares.
9. Outros: Trata dos argumentos que não se encaixam nos
enquadramentos classificados acima e que por não possuírem relevância
numérica foram agrupados nesta categoria.
O quadro_2 apresenta uma síntese da presença de cada um dos supra-apresentados
enquadramentos no interior dos dez grupos de discussão da consulta pública sob
análise.
Mapeados os quadros, é importante, então, procurar diagnosticar indícios
daquilo que a que temos chamado reciprocidade discursiva. A começar pela
reciprocidade no interior dos quadros.
RECIPROCIDADE DISCURSIVA INTRAQUADROS
É possível notar como os diferentes enquadramentos da consulta constituem
núcleos de sentido coerentes que organizam e estruturam certas discussões. Em
torno da maioria destes eixos, constroem-se contendas simbólicas que podem ser
traçadas e reconstruídas. Neste artigo, ater-nos-emos a ilustrar tais
possibilidades com o breve tratamento de choques discursivos no interior de
três quadros, a saber: (1) partidos/indivíduos; (2) responsividade e
accountability; (3) público/privado.
No primeiro enquadramento (partidos/indivíduos), as argumentações surgem em
torno da definição do ator político (candidatos ou partidos) mais apto a
garantir a representatividade do voto do eleitorado e o bom funcionamento do
sistema político. Nota-se, em primeiro lugar, um grande número de posts que
salientam a fraqueza dos partidos e reforçam a necessidade de um foco na pessoa
dos candidatos.
[ ] Eu_voto_no_candidato_e_não_no_partido [Comentador 1; Grupo
Fidelidade Partidária].
Esse exemplo destaca um argumento recorrente na consulta: a fraqueza dos
partidos e a personalização do vínculo entre representantes e representados.
Tal perspetiva aparece também no excerto abaixo:
No_Brasil_os_eleitores_votam_escolhendo_o_candidato_e_não_o_partido,
portanto é_um_absurdo_que_a_vontade_maior_do_voto_fique_prejudicada
quando_candidatos_a_vereador_e_deputados_mais_votados_não_são_eleitos
e_outros_com_muito_menos_votos_sejam. A vontade da maioria deve ser
respeitada e não esta regra vergonhosa da proporcionalidade. Assim,
sugiro que ACABEM COM A PROPORCIONALIDADE, E QUE OS MAIS VOTADOS
SEJAM ELEITOS, PREVALECENDO A VONTADE MAIOR DO ELEITOR! [Comentador
2; Grupo Sistemas Eleitorais].
O voto proporcional seria danoso na medida em que o voto efetivo se esvai
quando a regra da proporcionalidade traduz os votos em cadeiras. Alguns posts
alegam que o fechamento da lista pioraria ainda mais a situação, retirando do
eleitor a capacidade de escolha real entre candidatos. Quem escalaria o time
seriam os partidos, sendo estes últimos os fortalecidos pelo sistema
proporcional.
Na discussão sobre fidelidade partidária, todavia, a centralidade do candidato
parece ser rebatida, sendo que vários comentários apontam para a relevância do
enfeixamento ideológico possibilitado pelos partidos:
O_mandato_é_do_Partido._O_partido_representa_a_ideologia_que_aquele
grupo_busca. Devemos votar pensando nas ideias dos partidos. Político
que muda de ideia (partido) a todo instante, não tem compromisso com
a coisa pública. Deve ser extinta ou limitada a participação destes
políticos [Comentador 3; Grupo Fidelidade Partidária].
Sou totalmente a favor da fidelidade política, pois quando vc é
eleito a sua vaga_pertence_ao_partido_e_não_ao_candidato_eleito
[Comentadora 4;Grupo Filiação Partidária e Domicílio Eleitoral].
A crítica ao vaivém de políticos leva a uma defesa da centralidade dos partidos
para o bom funcionamento do sistema político. Com isso, contesta-se a premissa
básica dos argumentos que alegam que o sistema político deveria ser estruturado
em torno dos candidatos. O coletivo (partido) teria um papel fundamental no
enfeixamento ideológico das discussões, cabendo-lhe, pois, a titularidade da
cadeira conseguida por meio do voto proporcional.
Há discursos que questionam, todavia, esse papel de enfeixamento ideológico dos
partidos. Optando por um viés mais realista, volta-se o foco para os
candidatos. Os trechos abaixo ilustram este contra-argumento.
O mandato tem que ser do candidato e este tem que ser eleito pela
quantidade de votos que recebeu e ponto. É_muito_dificil_para_o
eleitor_saber_das_ideologias_do_partido._Afinal,_ele_votou_em_certo
candidato_porque_acredita_nele._O_partido_não_deve_se_apoderar_dos
votos_dos_cidadões. Assim corremos o risco de termos em execicio um
candidato que nem sabemos quem é ou que nem gostariamos que fosse
eleito. O partido muitas vezes serve como um trampolim para a eleição
de certos candidatos, através até da coligação, isso tem que acabar
[Comentador 5; Grupo Fidelidade Partidária].
Nota-se, assim, o desenrolar de argumentos e contra-argumentos no interior de
um mesmo quadro. O enquadramento não é a posição, mas o eixo estruturador que
permite captar o delineamento de um choque discursivo formado a partir de
atravessamentos entre discursos, e não necessariamente entre sujeitos.
O segundo enquadramento que mobilizaremos para ilustrar essas possibilidades de
debate intraquadro é o da responsividade e accountability
, que gira em torno da discussão dos mecanismos mais adequados para assegurar
que mandatários do poder político prestem contas dos seus atos aos cidadãos.
Muitos comentários argumentam que a forma mais adequada de assegurar a
responsividade é por meio da proximidade entre eleitor e político, o que os
leva a advogar regras rígidas acerca do domicílio eleitoral e o sistema
eleitoral maioritário. A proximidade entre candidato e representante seria
essencial para o acompanhamento (e sanção) dos representantes:
O_domicílio_eleitoral_é_interessante_para_que_os_cidadãos_realmente
votem_em_candidatos_que_têm_maior_conhecimento_sobre_o_local em que
residem e possam solucionar problemas regionais com maior presteza,
captar recursos para a região se desenvolver e representá-la
apropriadamente. É possível reduzir casos em que o candidato apenas
receba o voto dos cidadãos locais, mas não faça nada por eles
[Comentadora 6; Grupo Filiação Partidária e Domicílio Eleitoral].
O sistema maioritário uninominal permitirá que o cidadão opine,
apresente propostas e cobre_diretamente_do_representante_distrital.
Este_sistema_torna_o_político_mais_próximo_do_cidadão e permite que o
desempenho fraco dos eleitos seja reprovado nas urnas [Comentador 7;
Grupo Sistemas Eleitorais].
O sistema uninominal é o mais justo, o eleitor vota no candidato_e
aquele_candidato_eleito_tem_relação_com_o_local_do_seu_eleitorado
(distrito), melhora a representatividade, melhora a relação do
eleitor com o seu representante, pois_eles_estarão_mais_próximos [ ]
[Comentador 8; Grupo Financiamento Eleitoral e Partidário].
Defende-se uma responsabilização pessoal de governantes que deveriam estar
sujeitos a escrutíneo e monitoramento direto:
LISTA FECHADA? HEHEHE, PARECE PIADA. QUAL O MEDO DE MOSTRAR A CARA?
VOTAMOS NOS CANDIDATOS E DEVEMOS COBRAR DIRETAMENTE A ELES
[Comentadora 9; Grupo Sistema Eleitoral].
[A_lista_fechada] afasta_ainda_mais_o_eleitor_e_dificulta_ainda_mais
a_cobrança_sobre_os_políticos, que, afinal, não serão eleitos com o
voto de ninguém (diretamente), mas do partido. Se hoje eles não se
preocupam com o eleitor, imaginem quando o eleitor não puder deixar
de votar neles, porque o voto é só do partido. Eles_não_vão_ter_de
dar_satisfação_a_ninguém [Comentador 10; Grupo Sistema Eleitoral].
Alguns comentários parecem negar, contudo, essa necessidade da proximidade para
a geração da responsividade. Argumenta-se que a proximidade física e a
personalização do vínculo não são necessariamente modos de promover
responsividade e accountability.
Não acho relevante que o domicílio eleitoral do candidato seja o
mesmo em que nasceu ou mora. O candidato pode possuir domicílio
registrado há mais de um ano em uma localidade em que concorrerá à
eleição e, de fato, morar em outro lugar. Os_candidatos_devem_ser
julgados_pela_competência_e_propostas_e_não_pela_residência
[Comentadora 11; Grupo Filiação Partidária e Domicílio Eleitoral].
O argumento aparece, sobretudo, nas críticas ao financiamento privado de
campanha, cujo elo de proximidade gerado seria perigoso e propenso à corrupção.
A accountability política não deveria advir da relação com o cidadão privado,
mas de instituições neutras e capazes de pressionar governantes. Não seria a
proximidade o elemento essencial para gerar transparência e responsividade, mas
a presença de instituições livres que fiscalizem e disponibilizem tais
informações-chave aos eleitores.
Sou a favor da proibição de financiamentos privado, já que este acaba
por criar um vínculo entre o partido e os interesses dos credores
particulares, corrompendo o exercício do interesse publico e dos
princípios morais. Para_isso_devemos_ter_orgãos_fiscalizadores
atuantes_como_MPE/U_e_TCE/U [Comentador 12; Grupo Financiamento
Eleitoral e Partidário].
O exercício do interesse público, como defendido neste argumento, não se dá
pela proximidade entre interesses privados e representantes políticos. Ao
contrário, ele dependeria do estabelecimento de uma cisão, que colocaria a
responsabilidade por essa accountability em algumas instituições.
O que torna problemática a satisfação irrestrita da vontade do eleitor é o
conflito entre estes interesses públicos e os interesses privados. Isso leva-
nos ao terceiro enquadramento que irá ser aqui trabalhado, qual seja, o que
trata do público/privado.Existe uma defesa geral acerca do predomínio do
interesse público em busca do qual o sistema político deveria ser estruturado.
Isso aparece, por exemplo, nas muitas defesas do financiamento público de
campanhas:
[O financiamento público de campanha é fundamental na garantia do
princípio da isonomia proclama pela Constituição Federal [ ] Além
disso, as formas escusas na qual os grandes partidos políticos
conseguem o financiamento eleitoral é uma grande barreira à
democracia, pois os_partidos_tornam-se_vinculados_à_empresas_das
quais_eles_recebem_o_financiamento_e_não_da_população_na_qual_eles
deveriam_representar. Portanto, o financiamento público de campanha,
devidamente regulado pelo TCU e outros órgãos de fiscalização
[Comentador 13; Grupo Financiamento Eleitoral e Partidário].
Podemos perceber, neste exemplo, como se define o conflito entre os interesses
públicos e os privados. Segundo o argumento acima, o financiamento público das
campanhas poderia inverter o quadro atual das relações políticas em benefício
do interesse coletivo, que seria frequentemente desvirtuado pela satisfação a
compromissos contraídos pelos partidos e candidatos nas campanhas eleitorais.
Uma mudança institucional, como o financiamento público, poderia criar certos
constrangimentos e possibilidades de modo a fortalecer o interesse público:
Pode até parecer contrasenso, mas o financiamento público pode ser
uma forma de moralizar os gastos nas campanhas eleitorais, pois é
notório a lavagem de dinheiro e quem investe em político na maioria
das vezes tem interesses obscuros [Comentador 14; Grupo Financiamento
Eleitoral e Partidário].
Diversos comentários argumentam, contudo, que o problema não é o arranjo
institucional que gera essa colonização do público pelos apetites privados. O
problema seria de ordem pessoal, derivando-se do comportamento não democrático
dos políticos.
Qualquer sistema é falho se não for avaliado o perfil, nível de ética
e moral do candidato, o_problema_não_está_nos_sistemas,_e_sim_nas
pessoas_que_ingressam_nos_partidos, permitir que pessoas entrem para
política para defender seus próprios interesses, esse é o grande erro
[Comentador 15; Grupo Sistemas Eleitorais].
Contesta-se, assim, o argumento segundo o qual seria essencial reformular o
sistema para que os comportamentos dos atores fossem alterados. Advoga-se que,
mesmo que haja mudanças institucionais, elas podem ser utilizadas
estrategicamente pelos políticos.
ALGUMAS PROPOSTAS FAZEM COM QUE OS POLITICOS BURLAM AS REGRAS POR
SEREM IRRELEVANTES. NEM DEVERIA EXISTIR O DOMICILIO ELEITORAL, JA QUE
É MUITO SIMPLES COMPROVAR MORADIA EM QUALQUER LUGAR. ISSO NÃO
MELHORARIA EM NADA O PROCESSO ELEITORAL EM NOSSO PAIS. É NECESSARIO
APRENDER A VOTAR [Comentadora 9; Grupo Filiação Partidária e
Domicílio Eleitoral].
Se os políticos são favoráveis ao financiamento público, com certeza
eles ganharão muito e nós o povo perderemos mais uma vez [Comentadora
16; Grupo Financiamento Eleitoral e Partidário].
Há, todavia, argumentos que contestam frontalmente essa visão focada no
comportamento dos atores. O excerto abaixo ilustra tal perspetiva:
Sou Contra a Coligação Eleitoral, com ela temos alianças_de
partidos_com_propostas_divergentes_que_acabam_por_corromper_a
personalidade_desses_devido_à_dependência_que_se_cria_durante_essas
aliancas [Comentador 12; Grupo Coligação Eleitoral].
Nota-se que o problema já não é moral ou individual, mas do regramento
institucional. Isso quer dizer que não são as qualidades pessoais dos políticos
o fruto do esvaziamento ideológico, mas a disposição atual das regras políticas
que permite, por exemplo, alianças de dependência que terminam por
descaracterizar os partidos.
Também se notam alguns comentários que defendem que o interesse privado não é o
problema da política. Tais posts questionam o estabelecimento de uma dicotomia
entre público e privado e apontam que a vontade particular pode conduzir ao
interesse público. O problema não seria o privado em si, mas a corrupção. Isso
aparece, por exemplo, na fala daqueles que defendem o financiamento privado de
campanhas eleitorais.
Se_eu_tenho_o_direito_de_escolher_meu_candidato,_também_quero_o
direito_de_poder_investir_na_campanha_do_mesmo_caso_eu_queira, desde
que o candidato preste contas de todas as verbas recebidas
[Comentador 17; Grupo Financiamento Eleitoral e Partidário].
No exemplo acima, vemos uma defesa da expressão privada como maneira de
promoção do interesse público. O direito a contribuir com uma campanha seria
oriundo do direito à liberdade e à participação política. Resguardar esses
direitos implica assegurar a expressão dos interesses privados, de cujo choque
adviria o interesse público. Interessante observar, ainda, como o participante
frisa a necessidade de prestação de contas por parte dos candidatos, numa
tentativa de controlo de práticas corruptas.
✳
Os exemplos trabalhados na presente secção buscam evidenciar a possibilidade de
diálogos entre discursos no interior de quadros que emolduram esses discursos.
Os responsáveis pelas postagens dos comentários podem não ter a clara visão da
contenda discursiva mais ampla em que se inserem os seus comentários. É
provável que não leiam os outros comentários e que não lhes respondam
diretamente. Portam, contudo, o potencial de se integrar numa trama discursiva,
cujos retalhos permitem a edificação de um choque argumentativo.
RECIPROCIDADE DISCURSIVA INTERQUADROS
Se a reciprocidade discursiva pode ser mapeada a partir da identificação de
argumentos e contra-argumentos dentro de um mesmo quadro, as intrincadas tramas
discursivas de um debate público não residem apenas no interior de um mesmo
quadro. É plausível pensar ' e a observação mostra tratar-se de algo recorrente
' que um quadro pode ser mobilizado para deslocar outro quadro. Como já
afirmava Goffman (1986), por meio do conceito de keying, o deslocamento de
quadros tem um potencial desestabilizante, compelindo à reflexividade. Assim, o
choque de discursos pode envolver contendas entre quadros, de modo a que haja
viradas da chave interpretativa.
A maneira mais fácil de captar essa reciprocidade interquadros é focando-nos
numa temática específica, para observar a disputa para enquadrá-la com molduras
distintas. Pensemos, por exemplo, na discussão acerca do tema financiamento de
campanha. Grande parte dos defensores do financiamento exclusivamente público
de campanha ancoram-se no quadro equilíbrio de forças políticas para alegar que
tal medida promoveria uma democracia mais justa ao chocar-se com assimetrias
sociais cristalizadas:
Sou a favor de Financiamento Público somente. Não_é_correto_que
candidatos_tenham_recursos_diferentes_para_disputa_eleitoral deve
aver igualdade financeira e assim ganha aquele que tiver melhor
proposta e consiga provar ao eleitor que é merecedor de seu voto por
ser aquele que mais confiança inspira [Comentador 18; Grupo
Financiamento Eleitoral e Partidário].
Sou a favor do financiamento público de campanha. Creio que seja a
maneira mais eficiente e eficaz para equilibrar a desigualdade que os
investimentos privados causam nas eleições [Comentador 19; Grupo
Financiamento Eleitoral e Partidário].
Pela igualdade de oportunidade (para se eleger), FINANCIAMENTO
EXCLUSIVAMENTE PÚBLICO [Comentadora 20; Grupo Financiamento Eleitoral
e Partidário].
Para se contrapor a essa visão, o quadro dos custos/logísticamostra-se
relevante. Alguns participantes colocam o destino dos gastos públicos acima da
equidade eleitoral, advogando que o mais importante é evitar custos ao erário
que seriam desnecessários e equivocados.
[ ] sou radicalmente contra o financiamento eleitoral partidário
exclusivamente por recursos públicos, uma vez que temos que colocar
em mente que existem_muitas_prioridades_para_as_verbas_públicas,_como
saúde,_educação,_segurança,_cultura,_moradia,_transporte,_saneamento
básico, etc, e que ainda para essas prioridades os recursos são
insuficientes [Comentadora 21; Grupo Financiamento Eleitoral e
Partidário].
Seria outra forma de desperdicio_de_dinheiro_público Sou contra o
financiamento das campanhas eleitorais! [Comentador 22; Grupo
Financiamento Eleitoral e Partidário].
Nos excertos acima, os participantes procuram mudar a chave da discussão. O
keying proposto busca afirmar que, mais importante do que a igual- dade de
oportunidade entre candidatos são os serviços e políticas que dependem de
recursos públicos e que beneficiam os cidadãos. O enquadramento de custos/
logísticaatravessa a fala evidenciando a moldura de sentido a emergir.
É possível deslocar o quadro custos/logística, todavia, ao tematizar a forma
como o gasto público é feito e os interesses nele envolvidos. O enquadramento
público/privadomuda a chave interpretativa novamente ao apontar que o
predomínio dos interesses privados pode significar ameaça muito mais
significativa aos cofres públicos.
O problema do financiamento de campanha é que não_existe_almoço
grátis,_o_doador_investe_em_busca_de_retorno,_ou_seja,_influência.
Pelo financiamento público e pela punição exemplar de quem for pego
com dinheiro sem explicação ou seja cassação [Comentador 23; Grupo
Financiamento Eleitoral e Partidário].
Pode-se notar como o choque de discursos em torno do financiamento de campanha
envolve uma contenda entre enquadramentos, os quais propõem diferentes matrizes
para interpretar a questão e mudanças de chave semânticas. Equilíbrio de
forças, custos/logística e público/privado disputam o tratamento da temática de
maneira a oferecer soluções para os problemas da política brasileira.
Outra ilustração daquilo que estamos aqui chamando de reciprocidade
interquadros pode ser encontrada na discussão sobre a temática da cláusula de
barreira. O quadro público/privadoaparece, por exemplo, nos comentários que
defendem que o excesso de partidos alimenta um processo de privatização do
público, em que os interesses de pessoas e grupos são colocados acima dos
interesses da sociedade.
Sou a favor [da cláusula de barreira]. Como amplamente divulga-se na
mídia, estes_partidos_apenas_se_beneficiam_do_sistema_sem_trazer
qualquer_contribuição_verdadeira_para_a_sociedade [Comentador 24;
Grupo Cláusula de Barreira].
Alguns comentários operam, contudo, na chave do equilíbrio de forças para
afirmar que a questão da cláusula de barreira não deve ser pensada sob a ótica
da privatização do público. A questão central seria assegurar a existência dos
grupos minoritários, já que a democracia não se pode confundir com uma ditadura
da maioria que suprime a dissonância:
Contra a cláusula de barreira (desempenho), considerando_que_um_país
chamado_democrático_deve_respeitar_suas_minorias, que envolve
participação_destas_no_processo_de_construção_das_decisões_realizadas
pelo_instrumento_dos_partidos_políticos [Comentador 25; Grupo
Cláusula de Barreira].
Um enquadramento parece confrontar o outro, levando a posições diferentes,
nesse caso. Seria, obviamente, possível questionar cada posição dentro dos
quadros mobilizados pelos comentadores para justificá-las. O que nos interessa
aqui, contudo, é esse movimento em que um quadro busca empurrar o outro e
propor-se como a gramática mais interessante para a avaliação de uma questão
pública.
Os dois exemplos apresentados acima (sobre financiamento de campanha e sobre
cláusula de barreira) mostram como quadros distintos podem sustentar argumentos
diferentes num mesmo debate amarrando os fios de uma narrativa partilhada. É
possível dar um passo além e buscar reciprocidade interquadros para além dos
limites de um fórum específico, já que algumas questões atravessam diferentes
temas delimitados pela consulta pública. O nosso argumento, aqui, é que o
encontro dos quadros pode ser observado também em temas mais amplos.
Um tema recorrente a perpassar vários fóruns da consulta é o da soberania do
eleitorado. Argumenta-se, em diferentes momentos, que a vontade do eleitor é um
bem supremo que deve ser repeitado e promovido. Na sustentação de tal ideia, é
possível vislumbrar a emergência de enquadramentos distintos.
Observa-se, em primeiro lugar, como o tema pode ser in-formado pelo quadro
partidose indivíduos
No Brasil os eleitores votam escolhendo o candidato e não o partido
[ ] A vontade da maioria deve ser respeitada e não esta regra
vergonhosa da proporcionalidade. Assim, sugiro que ACABEM_COM_A
PROPORCIONALIDADE,_E_QUE_OS_MAIS_VOTADOS_SEJAM_ELEITOS,_PREVALECENDO
A_VONTADE_MAIOR_DO_ELEITOR! ! ! [Comentador 26; Grupo Sistemas
Eleitorais].
Contrário ao voto proporcional, o post faz uma defesa da vontade do eleitor,
estabelecendo uma contraposição entre o cidadão e a suposta centralidade dos
partidos. A proporcionalidade transferiria para o partido a prerrogativa de
escolha dos candidatos, desvirtuando a vontade do eleitorado.
A defesa da vontade do eleitor também se manifesta a partir do enquadramento
público/privado quando o foco da discussão são as coligações eleitorais. Na
opinião do participante, as coligações eleitorais implicariam a eliminação da
vontade dos eleitores, já que candidatos menos votados só seriam eleitos em
virtude de articulações políticas pouco compreensíveis ao eleitor.
[A_coligação_eleitoral] É_uma_forma_que_favorece_aos_vaticínios
candidatos, que dificilmente ganhariam a eleição, lhos garantindo,
com a coligação, um cargo na administração ou na assessoria do
candidato eleito, mesmo_contra_a_sua_vontade_e_a_dos_eleitores. Não
sou a favor da coligação eleitoral [Comentador 27; Grupo Coligação
Eleitoral].
É possível encontrar a defesa da vontade do eleitor também na lógica do
enquadramento da liberdade para alcançar os próprios interesses, como o
evidenciam alguns comentários sobre a cláusula de barreiras:
Deveríamos ter o direito de nos lançar de forma independente de
qualquer partido a qualquer cargo eletivo e_que_se_faça_a_vontade_do
eleitor_na_escolha. Por esses motivos sou_contra_qualquer_barreira_à
livre_manifestação_através_do_voto! [Comentador 28; Grupo Cláusula de
Barreira].
O exemplo é interessante porque articula, em si, dois quadros: partido/indi-
víduo e liberdade para alcançar os próprios interesses. O que costura ambos é a
centralidade da vontade do eleitor, que deve ser protegida e respeitada.
Se, anteriormente, buscamos mostrar choques entre quadros, as ilustrações agora
exploradas sinalizam para a tessitura de uma teia discursiva sobre um mesmo
tema que se vai ancorando em diversos quadros. Numa discussão pública, por um
lado, um mesmo tema pode desvelar choques entre quadros que disputam a
gramática a dotar de sentido os rumos da discussão. Por outro lado, o tema pode
ver-se edificado por uma costura de quadros que não se deslocam, mas que se
sobrepõem na construção de uma posição coerente. Diferentes quadros, cruzando
toda a consulta, podem emergir na defesa de uma mesma ideia.
Em ambos os casos, argumentamos, é possível falar de uma espécie de
reciprocidade interquadros. Não se trata, obviamente, da reciprocidade direta
entre comentadores, mas da recomposição de uma contenda pública de discursos,
ancorada em enquadramentos diversos que se chocam ou se articulam. Essa leitura
permite conceber um debate público cuja dialogicidade não reside nas intenções
dos sujeitos, mas na própria interação entre discursos. Quadros diferentes não
implicam a dispersão da discussão ou a ausência de debate. Argumentos
antagónicos sobre o mesmo tema podem ser enquadrados de forma diferente sem
prejuízo da coerência da discussão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo buscou discutir a difícil operacionalização da noção de
reciprocidade em estudos empíricos norteados pela abordagem deliberacionista de
democracia. Frequentemente reduzida a um diálogo direto entre participantes no
interior de um fórum de discussão, muitos estudos acabam por perder a conceção
mais ampla de reciprocidade que alicerça a abordagem deliberacionista. Nesse
sentido, propusemos uma forma de operacionalização do conceito que tem em
atenção a sua dupla dimensão: a reciprocidade direta, expressa num toma-lá-dá-
cá efetivo e concreto entre participantes; e a reciprocidade discursiva, que se
manifesta a partir de uma mutualidade entre discursos que se chocam
publicamente.
A noção mais ampla de reciprocidade aqui proposta pretende, assim, suprir uma
lacuna presente em análises empíricas deliberacionistas. Não se trata,
obviamente, de negar a importância da reciprocidade direta, mas de reconhecer
que sua análise isolada pode gerar resultados superficiais e equivocados,
desvalorizando processos discursivos que encetam a reflexão pública
argumentativamente. Afirmamos que a análise de enquadramentos ajuda a captar
essa reciprocidade discursiva mais fluida, oferecendo uma possibilidade de
mapear molduras interpretativas mobilizadas pelos participantes na organização
e fundamentação dos seus argumentos.
Advogamos, ainda, que a análise de enquadramentos permite captar a
reciprocidade discursiva de duas formas. Há, em primeiro lugar, a possibilidade
de debates no interior de certos quadros (reciprocidade discursiva
intraquadro), que aborda a utilização de um mesmo enquadramento na construção
de argumentos diferentes que atravessam a consulta. Em segundo lugar, há a
possibilidade de choques discursivos entre enquadramentos (reciprocidade
discursiva interquadros), em que viradas de chave interpretativa (Keying)
colocam em confronto molduras de sentido distintas para pensar um mesmo tema. É
importante destacar que, em ambos os casos, não se pretende que os quadros
operem como categorias estanques que pressuporiam um congelamento dos discursos
em caixas de sentido hermeticamente fechadas, mas oferecem uma abordagem fluida
para captar choques públicos de discurso na sua devida complexidade e sem um
olhar centrado nos indivíduos.
Para ilustrar o potencial dessa análise, apresentámos um breve estudo de caso
sobre uma consulta pública online realizada pela Assembleia Legislativa de
Minas Gerais em 2011. A instituição abriu-se à sociedade civil para discutir
importantes temas pertinentes à reforma política, atualmente em pauta no
Congresso Nacional, contando com mais de 700 comentários. A análise do caso
mostra números extremamente baixos de reciprocidade direta, embora a análise da
reciprocidade discursiva sugira o potencial deliberativo dos discursos ali
presentes. Procuramos demonstrar, por meio da análise qualitativa de
enquadramentos, os fios de alguns debates tanto no interior de alguns quadros,
como no deslocamento entre quadros.
O nosso esforço, aqui, não foi o de quantificar a reciprocidade discursiva,
algo que não nos parece a estratégia mais interessante. Tãopouco buscámos
argumentar que tenha havido deliberação efetiva na consulta, o que demandaria a
análise de uma série de variáveis que fogem ao escopo do presente artigo.3 É
preciso deixar claro que os nossos achados também não descrevem o interessante
processo de discursivo dessa consulta na sua integralidade, nem a perceção dos
próprios atores sobre ele. Uma análise mais específica dos comentários deveria
notar as estratégias discursivas utilizadas; o emprego do humor e de
testemunhos pessoais; as confusões e mal entendidos sobre o tema em questão; e
as expressões de indignação, cinismo e descrença em relação ao sistema
político.4 Tudo isso é relevante para a compreensão da consulta, mas o nosso
intuito foi apenas o de explorar, nesse oceano complexo de discursos, os
choques de razões a atravessar o processo. Choque esse que ultrapassa as
intenções e perceções mais imediatas dos atores para se estruturar numa arena,
por definição, discursiva. O que buscamos argumentar, assim, é que a noção
deliberativa de reciprocidade precisa de ser complexificada em estudos
empíricos para que processos discursivos potencialmente ricos não sejam
simplesmente classificados como meras expressões de opiniões individuais.