Questionando o social: A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Questionando o social - A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Joana Cunha Leal*
*FCSH, UNL, Avenida de Berna, 26-C 1069-061 Lisboa, Portugal. E-mail:
j.cunhaleal@fcsh.unl.pt
Em Homo Academicus, Pierre Bourdieu apresenta uma análise das condições
históricas de produção do conhecimento científico entre 1968 e 1988 na França.
Desde então, grandes mudanças ocorreram no sistema universitário a nível global
e, em especial, no sistema de investigação científica. Por relação a Portugal
hoje, quais seriam para si as grandes questões a levantar para a realização de
um esforço semelhante?
O Homo Academicus de Pierre Bourdieu diz-nos tanto acerca das condições
históricas de produção do conhecimento científico em França após o Maio de
1968, quanto sobre o projeto sociológico do seu autor. Este duplo interesse
bastaria para impedir a sua obsolescência. No entanto, creio que Homo
Academicusmantém a sua pertinência considerando também a atualidade de alguns
dos problemas que Bourdieu analisa, pelo menos no que respeita ao sistema
universitário português das últimas décadas.
Houve grandes mudanças na universidade portuguesa nos últimos anos, as maiores
e mais importantes das quais parecem ser: (1) a abertura democrática do acesso
ao ensino superior e a concomitante expansão das instituições universitárias;
(2) o peso crescente das mulheres no sistema universitário quer ao nível da
docência e da investigação, quer ao nível da população estudantil; (3) o
enfraquecimento do paradigma académico em que o poder se encontra fundado na
hierarquia de posições académicas e é aferido em termos nacionais ou mesmo
locais, a favor do fortalecimento do paradigma de investigação científica
emanado do universo das ciências, em que o poder se desloca para o prestígio
alcançado pela produção científica, e é aferido em termos que atendem também ao
panorama internacional. A priorização da investigação científica decorreu em
Portugal ao abrigo da política de investimento assegurada pela FCT, que foi
responsável também, em muitas áreas, pela generalização da exigência de
internacionalização da ciência.
Estas mudanças representaram conquistas importantes, e parece-me mais ou menos
óbvio que qualquer inquérito sobre o sistema universitário em Portugal deverá
tê-las em conta, considerando, à imagem do trabalho de Bourdieu (e mesmo na
sua direta sequência, pelo menos no que respeita à potência crítica da oposição
entre paradigma académico e científico), a interligação e resistente opacidade
das questões e dos jogos de força que tais mudanças implicam e sustentam,
observando questões como por exemplo:
a) A subida significativa da presença das mulheres na vida
universitária, percetível em diversas áreas, tem correspondência ao
nível da sua chegada a posições de decisão? Ou, pelo contrário,
perpetua-se a desigualdade de género entrincheirada na estrutura
social? Em que termos essa desigualdade se repercute? Quais as áreas
em que a participação das mulheres é mais, ou é menos, acentuada? Que
relação pode estabelecer-se entre estes dados e o processo de
abertura do acesso e expansão do ensino superior? Ou ainda, que
relação pode estabelecer-se entre esses dados e a afirmação ou
esbatimento de disciplinas e áreas de investigação no quadro
universitário?
b) A abertura e expansão do acesso ao ensino terá contribuído para
o reforço do paradigma científico nas universidades? Ou, pelo
contrário, a política científica nacional das últimas décadas,
particularmente o papel catalizador da FCT, veio sobrepor-se às
lógicas académicas instaladas, forçando a transição para esse
paradigma científico? Nesse sentido, poder-se-á considerar que a
valorização da investigação científica resultou sobretudo de uma
coação política sobre o sistema? Que papel coube às Unidades de
Investigação nesse processo? Em que medida contribuíram para o
reforço do paradigma científico na universidade? E ainda, em que
termos foi sobrevivendo a base mais conservadora de resistência a
esse paradigma?
Na sequência destas interrogações outras não cessam de surgir, por conta quer
das novas antinomias geradas no interior da própria produção científica ' por
exemplo, as que opõem padrões qualitativos à produtividade orientada para a
obtenção de resultados quantitativos, ou as que opõem exigências de
internacionalização à descredibilização das publicações indexadas em bases de
referência ', quer da contração-reação que ditou recentemente o fim do quadro
expansionista e inclusivo vigente nas últimas décadas. Na bagagem chegam
igualmente a valorização do trabalho científico (serão já áreas científicas?)
com impacto imediato na economia em detrimento das áreas de investigação pura
ou crítica, e a convicção despudorada de que a universidade deve ser um
privilégio das elites. Temo que a valorização da hierarquia das titulações
académicas que voltou a emergir em leituras correntes do ECDU complete o
sentido recessivo do paradigma científico pela retoma de lógicas de privilégios
académicos.