Imigração brasileira contemporânea: discursos e práticas de imigrantes
brasileiros em Londres
INTRODUÇÃO
Nos estudos sobre fluxos migratórios contemporâneos, a década de 80 do século
passado pode ser vista como o início de um novo boom migracional. Fatores como
o avanço nos sistemas de comunicação e, principalmente, de transportes, a troca
de informação e a possibilidade de superar longas distâncias geográficas num
curto espaço de tempo possibilitaram um aumento no fluxo populacional pelo
globo (Cresswell, 2006; Urry, 2008). Como afirma Urry (2008), parece que o
mundo todo está em movimento e que está no ar o sentimento de que há uma
estrutura de mobilidades. Sendo assim, nos últimos trinta anos, a migração e
a mobilidade tornaram-se questões relevantes dentro das agendas políticas e
académicas. Uma variedade de disciplinas passou a dar atenção a diferentes
aspetos presentes nos movimentos migratórios. Conforme apontam Castles e Miller
(2009):
[ ] researchers who base their work on quantitative analysis of large
data-sets (such as censuses or representative surveys) will ask
different questions and get different results from those who
qualitative studies of small groups. Those who examine the role of
migrant labour within the world economy using historical and
institutional approaches will again get different findings. Each of
these methods has its place, as long as it lays no claim to be the
only correct one [Castles e Miller, 2009, pp. 21].
Não por coincidência, nas últimas três décadas, a emigração surgiu como um
fator relevante no Brasil. De acordo com dados do Ministério Brasileiro de
Relações Exteriores (2009), um número considerável de brasileiros residiria no
exterior, aproximadamente 3,5 milhões, sendo os principais destinos os Estados
Unidos (1 280 000), o Paraguai (500 000), o Japão (280 000), e os países
europeus, como o Reino Unido (180 000), Portugal (137 000), Espanha (125 000),
Alemanha (89 200), Itália (70 000), França (60 000), Suíça (57 500) e a Bélgica
(42 000). Em relação aos que migraram para o continente europeu, podemos
constatar pelos dados apresentados que o Reino Unido apresenta atualmente a
maior comunidade, superando países que tradicionalmente são conhecidos por
receber um grande número de imigrantes brasileiros como, por exemplo, Portugal
e Espanha (Padilla, 2006a, 2006b; Cavalcanti, 2012).
Todavia, a migração brasileira no Reino Unido é formada por uma população que,
em geral, pode ser classificada pelo que Pai (2008) define como sendo de
imigrantes invisíveis. Por outras palavras, são imigrantes maioritariamente
jovens que entram no território britânico como turistas ou estudantes e
permanecem no país mesmo depois de os seus vistos caducarem, ou, então, que
possuem cidadania portuguesa, espanhola e/ou italiana. Em ambos os casos, a sua
identificação como brasileiro acaba por ser omitida como uma medida de
segurança (Bloch, Sigona e Zetter, 2009). Dessa forma, eles acabam por formar
um grupo difícil de ser evidenciado no cenário britânico, e as estimativas
sobre esse grupo acabam por ser imprecisas. Entretanto, segundo Evans etal.
(2007), os imigrantes brasileiros estariam entre as mais diversas
nacionalidades que vêm crescendo em Londres na última década. O que viria a
colocá-los como um dos grupos que compõem a chamada nova imigração, que tanto
contribuiu para a emergência do fenómeno conhecido como superdiversidade, em
Londres, a partir do final da década de 1990 (Vertovec, 2007).
Na tentativa de traçar um perfil socioeconómico do brasileiro em Londres, o
Departamento de Geografia da Queen Mary University of London (Evans etal.,
2007) realizou o relatório Brasileiros em Londres: Relatório para a Campanha
de Estrangeiros a Cidadãos (Strangers into Citizens). De acordo com este
documento quantitativo, 25% dos brasileiros entrevistados foram para Londres a
fim de estudar e trabalhar; 24% para trabalhar e poupar; 21% com o objetivo de
ficar em Londres para sempre; 16% tinham apenas interesse em estudar a língua
inglesa; 8% declararam outros interesses. Já em relação à ocupação, foi
constatado que 63% dos brasileiros entrevistados (de ambos os sexos) trabalham
em período integral (de 35 a 48 horas), seja como motoristas e baby-sitters, em
empregos relacionados com limpeza (conhecidos como cleaners), ou em hotéis,
restaurantes e na construção civil. Por outras palavras, a grande maioria
desses imigrantes estaria concentrada em trabalhos classificados pela
bibliografia como unskilled jobs (Margolis, 1994; Bloch, Sigona e Zetter, 2009)
ou, então, como o próprio grupo investigado classifica, trabalhos para
imigrantes.
Portanto, ao analisar esses dados quantitativos, os brasileiros que vivem em
Londres encaixar-se-iam, a priori, exatamente no modelo de migrante presente
nas teorias económicas neoclássicas, o do migrante económico, que migra de
uma região com mão de obra abundante e mal remunerada para um local com
escassez desse serviço e com salários mais atrativos, no qual trabalha um
elevado número de horas com a clara intenção de acumular capital e retornar em
seguida ao país de origem (Knowles, 2003). Contudo, por mais que muitos dos
brasileiros que estejam em Londres realizem, inicialmente, extensas jornadas de
trabalhos em empregos informais e de baixa qualificação, e a questão económica
apareça, para alguns, como um dos fatores decisivos para migrar, há sempre mais
de uma razão relacionada com o projeto migratório (Togni, 2012; Frangella,
2012). Dentre elas, podemos destacar a facilidade para o consumo, a maior
mobilidade e o acesso aos bens e serviços (bens materiais e simbólicos como
serviços públicos de boa qualidade, viagens, novas formas de sociabilidade)
(Martins Jr, 2012). Assim, o projeto migratório, quando analisado na comunidade
brasileira residente em Londres, vai além do desejo inicial de migrar para
trabalhar por alguns anos e retornar. Diversas metas são incluídas nesses
projetos migratórios ao longo do tempo na sociedade recetora, o que nos faz
considerar a necessidade de analisá-los como algo flexível ou, nos termos de
Frangella (2012), como algo mutante e constantemente remodelado.
Similar situação pode ser observada no relatório apresentado acima (Evans
etal., 2007), em que a maioria dos entrevistados chegou ao país com o objetivo
de permanecer temporariamente. Todavia, o que se verifica é que muitos acabam
permanecendo mais do que o tempo previsto, sem saber dizer ao certo a razão
pela qual estendem os seus projetos migratórios e/ou quando retornarão ao
Brasil. Isso seria um indicativo de um constante processo de construção e
reconstrução dos objetivos de vida desses migrantes (Martins Jr, 2012).
É dentro desse contexto, somado às observações de Castles e Miller (2009) e de
Knowles (2003) sobre a necessidade de investigar projetos migratórios sob
diferentes perspetivas, que procuramos discutir a migração brasileira para
Londres para além dos modelos macroeconómicos, que se focam numa análise
exclusiva do trabalho e dos motivos económicos como fatores de atração e
repulsão de fluxos migratórios. Sabendo da diversidade de imigrantes
brasileiros em Londres, com as suas diferentes experiências e razões
migratórias (Martins Jr, 2012), analisamos aqui o projeto migratório somente
daqueles que migraram com o interesse inicial de trabalhar, acumular capital e,
então, retornar ao Brasil, mas que mais tarde reformularam os seus planos. Dito
de outra forma, pretendemos discutir como o discurso inicial de migrar para
trabalhar, fortemente assumido por esses migrantes, se apresenta nas suas
práticas cotidianas iniciais; e como, após um período de vivência na sociedade
recetora, esses mesmos sujeitos passam a inserir novas prioridades nas suas
vidas, pelo que o trabalhar para acumular dinheiro deixa de ser o motivo
principal do estar lá.
Partimos da hipótese de que os projetos migratórios representados pelo tripé
discursivo inicial trabalhar/acumular/retornar, assim como os estilos de vida
desses migrantes, sofrem mudanças e redefinições durante o tempo de estadia na
sociedade recetora (Knowles e Harper, 2009), e propomo-nos refletir sobre o
trabalho de campo realizado em Londres no qual os migrantes brasileiros devem
ser analisados para além de meros market-players (Castles e Miller, 2009)
dotados de escolhas racionais e projetos fixos, que não sofreriam influência da
dinâmica social presente na sociedade londrina. Conforme apontam as entrevistas
realizadas para este estudo, os indivíduos que acabaram de chegar à capital
britânica ou, então, que têm um menor tempo de migração, tendem a estar mais
focados no trabalho. Por outro lado, aqueles que têm maior tempo de experiência
migratória reduzem as suas cargas horárias de trabalho e passam a dedicar mais
tempo a outras atividades sociais, que, em geral, podem ser classificadas como
lúdicas.
METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada a partir de dois momentos distintos na capital
inglesa. O primeiro momento decorreu entre 2008 e 2009, quando um dos
pesquisadores fez uma incursão etnográfica de nove meses, convivendo com
brasileiros em Londres, e realizando anotações acerca dos trabalhos do grupo de
imigrantes e dos problemas de adaptação por eles enfrentados. Foi realizada uma
participação observante (Wacquant, 2002) em diversos tipos de trabalho como
empregado de limpeza, assistente de cozinha e empregado de mesa; convivendo
ainda socialmente com trabalhadores brasileiros fora do trabalho e observando
as táticas de sobrevivência e permanência que eles utilizam no seu
quotidiano. Esta vivência/convivência permitiu o acesso a informações mais
detalhadas, como, por exemplo, observar os desafios enfrentados por esses
imigrantes no que compete tanto ao uso do idioma local, quanto à obtenção de
emprego, já que muitos não possuem documentação para trabalhar legalmente.
Portanto, nesses nove meses foi realizado um trabalho etnográfico que observava
não só o dia a dia desses imigrantes brasileiros, mas também partilhava os seus
desafios e as suas dificuldades. Segundo Whyte (2005, p. 304), referindo-se ao
seu trabalho de campo: para encontrar as pessoas, passar a conhecê-las,
encaixar-me em suas atividades, tinha que gastar tempo com elas [e, apenas]
sentando e ouvindo, soube as respostas às perguntas que nem eu mesmo teria tido
a ideia de fazer se colhesse apenas por entrevistas.
O segundo momento da pesquisa deu-se em 2011, durante um período de três meses,
quando foram realizadas trinta entrevistas em profundidade, buscando resgatar a
trajetória de vida do grupo de trabalhadores brasileiros contactados na estadia
anterior. Essas entrevistas versaram sobre os seguintes pontos: as suas vidas
antes de saírem do Brasil, o processo de deslocamento (chegada e adaptação), a
procura de trabalho e a convivência com o outro, e, por fim, as perspetivas em
relação ao futuro. No que diz respeito à escolha dos participantes, foi
utilizada a metodologia bola de neve (Singer, 1999), na qual um entrevistado
indicava outros para entrevista. Para este artigo, especificamente, trabalhamos
com a trajetória daqueles que, inicialmente, tinham como ideia de projeto
migratório a tríade trabalhar-acumular-retornar1.
EMIGRAÇÃO BRASILEIRA COMO OPÇÃO ECONÓMICA
Os primeiros estudos sobre emigração brasileira (Sales, 1991; 1995; Margolis,
1994; Goza, 1992; Torresan, 1994) consideravam a crise económica da década de
80 e primeira metade da década de 90 do século XX como o fator principal desse
movimento de saída de trabalhadores em busca de melhores condições de vida e
trabalho em outros países. Ou seja, era uma migração de trabalhadores,
pertencentes a alguns segmentos sociais da população, que estavam desiludidos
com a situação do Brasil e decidiram buscar melhores oportunidades fora; eram
os exilados da crise económica que abasteciam o mercado de trabalho informal
dos EUA, Europa Ocidental e Japão (Assis, 1995; Fusco, 2007). Segundo o
Instituto de pesquisas migratórias e estudos interculturais (IMIS),in 1995 the
number of Brazilians living legally in the USA, Japan, Portugal, Italy, Spain,
Germany, Canada and other countries was estimated to be over a million (Focus
migration, 2008, pp. 5). O poder económico das moedas americana, japonesa e
europeias em relação à brasileira era considerado pelos brasileiros como a
oportunidade de melhorar as suas vidas no Brasil num curto espaço de tempo; e
a literatura sobre o tema indica que a ideia de migrar era encarada como uma
solução temporária pelos que podiam arcar com os custos da viagem e as tensões
envolvendo a distância familiar (Evans etal., 2007; Tsuda, 2003).
Como consequência, os primeiros estudos a respeito tinham como foco o trabalho
desenvolvido por esses imigrantes na sociedade recetora. Eram estudos de âmbito
macroeconómico e mais gerais que buscavam demonstrar as razões que
impulsionaram esses brasileiros e os tipos de trabalhos em que estavam
inseridos nos Estados Unidos, Japão e Europa. Conforme afirma Padilla (2012),
esses primeiros estudos classificavam os brasileiros como uma categoria geral e
diretamente associada ao fator trabalho, como no caso das pesquisas sobre
migração brasileira para o Japão, cujas análises eram exclusivamente focadas
nos trabalhos precários desenvolvidos nas fábricas nipónicas (Ocada, 2000;
Tsuda, 2003). Similar enfoque foi seguido nos estudos realizados nos Estados
Unidos, em que as análises evidenciavam os brasileiros imigrantes trabalhando
em serviços classificados como manuais, desqualificados, e por isso recusados
pela população nativa (Sales, 1995; Margolis, 1994). Portanto, tais pesquisas
dedicadas à discussão de fluxos migratórios e seus diversos mecanismos de
mobilidade e fixação tenderiam a adotar como base teórica inicial, para seus
respetivos estudos de caso, o processo de globalização e deslocamentos
exclusivamente sob uma perspetiva económica.
De certa forma, essas pesquisas dialogavam com as perspetivas económicas
neoclássicas, que consideravam o fenómeno da migração como resultado de um
fator único vinculado ao económico. Num plano macro, esses fluxos migratórios
buscariam um equilíbrio global das economias por meio da repulsão e atração de
trabalhadores; os países periféricos funcionariam como polos de repulsão de
trabalhadores, enquanto os países centrais atuariam como áreas de atração dos
mesmos (Castles e Miller, 2009). No plano micro, Borjas (1990) traz a ideia de
um global migration market, no qual os indivíduos são atores racionais que
decidem migrar a partir de um cálculo que visa o máximo retorno financeiro
possível. O cálculo envolveria a probabilidade de encontrar emprego, bem como
os custos (materiais, sociais e psicológicos) da viagem, de modo que os
indivíduos decidiriam emigrar quando o cálculo resultasse em ganhos financeiros
(Fusco, 2002).
Embora a maioria dos migrantes ocupem nichos de mercados que a população local
se recusa a ocupar, e o ganho económico seja um dos fatores que influenciam na
decisão de migrar, há algumas constatações empíricas que colocam limites à
interpretação neoclássica (Knowles e Harper, 2009; McGovern, 2007). Em algumas
situações, por exemplo, a maior propensão para a migração nem sempre vem dos
mais pobres, mas dos mais qualificados, podendo até contribuir para ampliar as
desigualdades entre o país de destino e o de origem (McGovern, 2007). Esse é o
caso dos imigrantes brasileiros apontados pelas pesquisas como jovens de classe
média e com um elevado nível educacional para os padrões nacionais (Sales,
1995; Assis, 1995; Martes, 1999; Soares, 1995; Fusco, 2007). Margolis (1994),
por exemplo, demonstra que os migrantes brasileiros não se enquadravam no
estereótipo de pobreza presente na imaginação do público americano. Pelo
contrário, na sua maioria eram brancos e proveniente da classe média urbana das
grandes cidades. De acordo com a autora, o típico imigrante brasileiro em Nova
Iorque na década de 1990 era an immigrant who was not escaping extreme poverty
or political repression. Brazilians are economic refugees fleeing from a
chaotic economy back home (Margolis, 1994, pp. xx). Similares constatações
foram feitas por Padilla (2006a, 2008) e Machado (2005) nos seus respetivos
estudos sobre brasileiros em Portugal, os quais, de modo geral, viram nessa
mudança a oportunidade de continuar as suas carreiras como dentistas,
publicitários e programadores.
A partir do final da década de 90, os estudos sobre a emigração brasileira
começam a apontar outros fatores para além da crise económica como razão para
migrar. As pesquisas passam a incidir sobre a forma como as redes sociais
auxiliam na compreensão não só dos motivos que levam esses indivíduos a migrar,
mas também das razões da escolha do local, da maneira como se articulam quando
chegam ao país recetor, e de como os laços sociais proporcionam facilidades e
ganhos num deslocamento (Padilla, 2006b, 2008; Siqueira, 2009). O sucesso
daqueles que migraram no período de crise teria funcionado como motivação para
que parentes e amigos seguissem o seu exemplo, ou seja, já não era tanto a
crise em si o motor da decisão de migrar, mas o próprio migrante pioneiro que
construiu um elo com os que ficaram (Fusco, 2002; Soares, 2002). Conforme
escreveu Levitt (2001), uma vez que iniciado o movimento, ele dissemina-se por
meio de redes migratórias. Essas redes informais seriam capazes de conetar
novos migrantes, retornados e não-migrantes em diferentes espaços por meio de
relações de parentesco e amizade. Contudo, muitos desses estudos ainda tinham
como foco o migrante trabalhador que se desloca a partir da constituição de
laços sociais, em alguns casos até condicionando a sua mobilidade à existência
de uma estrutura (redes sociais) que levaria o indivíduo ao seu destino.
A partir 2005, sensivelmente, novos estudos começam a separar o brasileiro
imigrante da figura macro de um trabalhador que se desloca por meio de uma rede
migratória em busca de emprego, e passam a focar-se em identidades cada vez
mais fragmentadas. Assim, a imigração brasileira, inicialmente centrada na
imagem de um indivíduo masculino e com um projeto migratório exclusivamente
focado no trabalho, passa a incorporar outros sujeitos e os seus estilos de
vida particulares. Entre estas pesquisas destacam-se as que focam mulheres,
travestis, jovens e crianças brasileiras e suas respetivas experiências e
projetos migratórios (Assis e Kosminsky, 2008; Assis e Siqueira, 2009;
Piscitelli etal., 2011 ). Nesses estudos, a própria noção de necessidade assume
diferentes conceções, de acordo com o estilo de vida que o indivíduo leva
(Knowles, 2003). Nem sempre o desejo de migrar é apenas económico, e muitas
vezes a necessidade/desejo inicial é modificada ao longo da trajetória desses
indivíduos, ou seja, a ideia da existência de um projeto migratório está a todo
o momento a ser ressignificada.
Em resumo, as pesquisas académicas têm apontado para a necessidade de refletir
a condição de existência do imigrante não totalmente centrada no espaço que
compõe o trabalho, mas também noutras localidades que são somadas na medida em
que os seus estilos de vida na sociedade recetora são transformados. Conforme
demonstra Dias (2010), há outros lugares e espaços que também compõem a vida
diária de imigrantes na sociedade recetora. Frequentar lugares como clubes,
jogos de futebol, locais religiosos ou outras formas de espaços de
sociabilidade proveria algumas possibilidades de atividades sociais desses
sujeitos, o que influenciaria o estilo de vida que passam a levar e a maneira
como os seus objetivos iniciais são reformulados, ou não. É a partir desta
perspetiva que expomos a seguir os relatos daqueles que migraram para Londres
com a intenção de trabalhar, acumular e retornar para o Brasil num período de
até dois anos, mas que, com a vivência num novo espaço, reconfiguraram os seus
projetos migratórios.
AJUSTES E ADAPTAÇÕES NO PROJETO MIGRATÓRIO:
ACHADOS EMPÍRICOS
De acordo com Portes (2004), os fluxos migratórios seriam encorajados graças à
existência de um encaixe produzido pela necessidade de mão de obra por parte
dos países desenvolvidos e pelo desejo de melhorar os padrões de consumo do
mundo não desenvolvido. Os indivíduos são expostos e seduzidos pelos
benefícios do consumo moderno, mas, ao mesmo tempo, são-lhes negados os meios
económicos para atingir tais níveis de consumo. Assim, a migração aparecia para
alguns como uma das saídas encontradas para conseguir capital fora e obter um
padrão de consumo quando retornassem. De certa forma, essa perspetiva aproxima-
se, inicialmente, do caso de brasileiros que encontraram na migração para
Londres um meio de atingir determinadas expectativas de consumo na sociedade de
origem, que dificilmente conseguiriam apenas trabalhando no Brasil, dada a sua
situação económica.
Quando ouvimos as histórias daqueles que migraram para Londres nos anos 2000,
com o intuito inicial de trabalhar, acumular capital económico e retornar ao
país de origem, vários casos se assemelham aos dos estudos sobre redes sociais
e migração: alguns pioneiros migraram no período de crise e depois retornaram
ao país de origem com muito dinheiro e consumindo produtos que demonstravam o
seu sucesso no exterior (Sasaki, 2006; Tsuda, 2003). Este retorno não só serve
para estimular mais viagens, como resulta também na consolidação de redes
sociais internacionais que facilitam o movimento de novos migrantes (Massey e
Goldring, 1992; Levitt, 2001), como no caso dos primos Guilherme e Bernardo,
moradores numa pequena cidade do interior de São Paulo. Na década de 90,
algumas pessoas dessa cidade migraram para fora do país e voltavam sempre com
dinheiro, facto que fez com que muitos dos jovens dessa localidade tivessem o
sonho de sair do Brasil, trabalhar por um tempo nos EUA ou na Europa, acumular
o dinheiro ganho, e depois retornar para poder consumir alguns produtos que
gostavam e não tinham acesso; nos termos de Guilherme:
Era muito comum você escutar de alguém que foi para Portugal, sempre
você ouvia falar do Japão, EUA também, então eu tinha que sair. Eles
voltavam, compravam carro, compravam terreno, desfilavam, e eu vim de
uma família muito pobre, então eu via como uma oportunidade para mim
[Guilherme].
Bernardo, o primo mais velho, foi o primeiro a migrar. Em 2004, com 26 anos de
idade, ele trabalhava numa fábrica de motor de tanquinhos e armários na sua
cidade, ganhava R$ 560,00 reais por mês e dizia que naquela empresa não teria
futuro algum. Como tinha um vizinho a morar nos EUA, primeiro tentou o visto
para aquele país, o qual foi negado. Com os contactos dos pioneiros da sua
cidade que moravam na Inglaterra, conseguiu ir para Londres com visto de
turista:
Eram três que moravam aqui [em Londres] há treze anos, eram os irmãos
Fadiga. Eles iam para o Brasil direto, para a minha cidade, compravam
uns carrões para dar um rolé [dar voltas]. Por fim eles foram e se
apertaram lá e eu comprei um carro deles quando estavam voltando para
Londres. Só que eu dei metade do dinheiro, que eles precisavam na
hora, e falei que pagava o resto aos poucos. Nesse negócio de dever o
dinheiro nós ficamos amigos. Mandei um pouco, depois mandei outro
pouco e perguntei para ele: como que é aí? Ele falou: Ah, aqui tem
emprego para todo mundo Eu decidi ir, e eles iam-me ajudar, até
porque eu devia para eles e se tivesse lá do lado deles trampando
[trabalhando], eu ia pagar [Bernardo].
A presença de Bernardo em Londres facilitou, três anos mais tarde, em 2007, a
ida de seu primo Guilherme, com 25 anos, também ele interessado em ganhar a
vida na Europa. Na época, Guilherme trabalhava num posto de gasolina, e também
não via muita perspetiva de crescimento no seu trabalho; assim, vendeu a sua
moto e foi para Londres, com o objetivo de trabalhar arduamente, para regressar
ao Brasil no máximo passados cinco anos:
Quando eu vim para Londres, eu não sabia ligar um computador. Celular
eu tive só um no Brasil, porque o trabalho exigia, pra marcar hora
extra, se não, nunca teria tido um celular. A imagem que se tem é que
quando você vem pra cá, você vai ficar quatro ou cinco anos, e não dá
pra tomar uma coca-cola porque é caro, tem que economizar.
Economizar, sem sair, sem gastar nada. A ideia inicial era essa,
ficar quatro, cinco anos, juntar o máximo de dinheiro que der, ir
mandando para o Brasil e depois voltar. Tinha aquela ideia dos caras
que vão para o Japão, não comem, não dormem. Eu achava que funcionava
assim aqui. Lembro que no dia que eu cheguei meu primo falou: amanhã
a gente vai comprar um celular para você. Eu não queria celular não,
não posso gastar dinheiro com ligação, mas ele me falou: véio, sem
celular em Londres você não vive. No outro dia eu entendi o porquê.
A gente comprou o celular e cinco minutos depois uma menina que
morava com a gente e sabia que eu estava sem trabalho, ligou para o
meu primo para falar que tinha um trabalho de lavador de prato para
mim no Soho[região central de Londres]. Aí eu entendi porque era
importante um celular aqui, por causa dos contatos, mas até então eu
não sabia mexer em nada e agora tenho um monte de coisa aqui
[Guilherme].
O contacto ao qual Guilherme se refere é importante porque quase sempre o
primeiro trabalho vem dos laços que foram criados inicialmente. Conforme Durham
(1984) demonstra, é por meio dos grupos de relações primárias ' parentes e
amigos ' que o migrante recém-chegado obtém e ordena informações sobre
oportunidades de trabalho. Esse grupo de relações primárias funciona como
mediador entre os indivíduos e a sociedade, sendo o único ponto de apoio com
que os migrantes contam para iniciar o processo de ajustamento nessa nova vida.
Sobretudo, entre aqueles que não falam a língua local, como no caso de Max:
Nunca conseguia trabalho porque os caras falavam que eu não sabia
inglês, então não tinha como trabalhar. Era a única coisa que eu
entendia, cara, Se num sabe falar inglês, não pode trabalhar Com
dois meses e meio que eu tava aqui nós tínhamos 5,00 libras no bolso,
eu falei para minha esposa que se a gente não conseguisse trabalho em
uma semana a gente ia embora. Eu liguei para o meu amigo do Capão e
falamos que a gente estava precisando de trabalho. Um deles
trabalhava de cleaner e disse que ia conversar lá no trabalho dele.
No outro dia, à noite, ele ligou para nós e disse Ó, eu tenho um
emprego para sua esposa, manda ela vir trabalhar em tal lugar no
final do [ônibus] 189 Na hora eu pensei Graças a Deus é no 189,
porque a gente não sabe ir para outro lugar!. Ela foi, encontrou com
ele na Oxford [Street]. Na mesma semana a gerente dela, uma
portuguesa, falou para ela me levar para trabalhar lá também [Max].
Conforme as entrevistas demonstram, uma vez adquirido o primeiro trabalho, os
migrantes recém-chegados passam a ter uma devoção inicial àquela ocupação.
Assim, eles trabalham o maior número de horas possível e sempre pegando
pesado para não desapontar aqueles que o empregaram, pois, como a maioria
entra no país com visto de turista e não pode trabalhar legalmente, sentem uma
gratidão em realção aos patrões:
Era um ambiente legal, pessoal tudo latino, boliviano, colombiano. O
dono era um espanhol explorador. Um velho explorador, que já contrata
ilegal para pagar metade. Exatamente a metade. Trabalhava oito horas,
ganhava na época 150 pounds [libras] por semana quando eu teria que
ganhar 290, 300. [ ] Eu entrava às quatro da tarde e saía à meia-
noite. Tinha um dia de folga na semana Meu primo me levou para o
cara lá, um brasileiro, para tirar os documentos falsos, pegar o que
precisa para trabalhar e tal, porque eu queria arrumar outro
trabalho. Arrumei um cleaning da madrugada. Foi foda, porque eu saía
de lá do restaurante à meia-noite, chegava em casa, coisa de uma hora
da manhã, tomava um banho, e sempre meu primo tava em casa, sempre a
gente conversava. Eu ia dormir por volta de três da manhã. E lá no
cleaning eu entrava às seis da manhã. Tinha que sair às cinco horas
de casa, e quando acabava tinha que correr para o restaurante
[Guilherme].
Bernardo chegou a trabalhar de graça um mês no seu primeiro emprego para provar
ao patrão que podia desempenhar a função e conseguir um segundo trabalho:
Os irmãos Fadiga me arrumaram um trabalho para limpar escritório na
madrugada, depois me levaram para trabalhar no campo de críquete que
um deles era gerente. Só que como eu não falava inglês e não tinha
documentação, eu tive que trabalhar um tempo sem ganhar nada
[Bernardo].
Muitos, no início, seguem essa mesma prática apresentada nas entrevistas de
Guilherme e Bernardo: fazem extensas jornadas de trabalho, chegam a trabalhar
mais de oitenta horas semanais, sentem gratidão pelo trabalho conseguido e
ainda competem entre eles para ver quem trabalhou mais horas na semana. Na
realidade, era justamente essa a ideia que tinham quando se deslocaram:
trabalhar o máximo que aguentassem para retornar o mais rápido possível.
Contudo, com um tempo de convivência na sociedade recetora, e com o aumento da
rede de sociabilidade desses imigrantes, na grande maioria dos casos
entrevistados, os seus estilos de vida vão-se transformando e, assim, o projeto
migratório inicial passa a ser revisto, ganhando novas prioridades. O projeto
inicialmente centrado somente no trabalho passa a perder força na medida em que
outras metas surgem na vida desses sujeitos. Como afirma Guilherme: Eu não
tinha essa ideia de ter essas coisas [produtos eletrónicos], nunca. Vivendo
aqui as coisas vão mudando, a sua cabeça muda muito. Ou seja, a ideia inicial
de trabalhar e acumular dinheiro em Londres, a fim de consumir e melhorar de
vida no Brasil, é revista, e a possibilidade de consumir um novo estilo de
vida na própria sociedade recetora ganha destaque na fala dos entrevistados.
REFORMULANDO O PROJETO MIGRATÓRIO: CONSUMO E LAZER EM LONDRES
Nos casos de Guilherme, Bernardo e Max a ideia inicial de trabalhar arduamente
para garantir um futuro no Brasil foi substituída por uma estada maior no
Reino Unido, e um dos fatores para essa mudança terá sido a facilidade de
consumo local. Segundo Max, que trabalhava como empregado de mesa no Brasil, o
mesmo tipo de emprego possibilitava o acesso a um grande número de bens
materiais, que dificilmente poderia ter tido no Brasil. Ademais, a distância da
familia pode ser suprida com a possibilidade de viajar uma vez por ano ao
Brasil, uma vez que os rendimentos do seu trabalho em Londres possibilitariam
tal aquisição. Similar observação é feita por Bernardo, que afirma ter um poder
de compra maior em Londres do que teria no Brasil:
A vida que eu tenho aqui eu jamais terei lá, com um salário e meio eu
comprei uma Kawasaki Ninja [moto] que custa 35 000,00 reais no
Brasil, tipo, uma casa lá custa 70, 80 000, e você constrói aquilo
para ficar lá a vida toda pagando a casa parcelada. Aqui, com um mês,
você compra muita coisa, todo mundo sabe disso, isso é a realidade,
por isso que todo mundo vem e para de pensar em voltar. Hoje mesmo eu
estava conversando com a Marta na igreja, é uma mulher, já com mais
de quarenta anos, ela me disse que vive em um quarto com as duas
filhas, vive mal, todo mundo apertado, mas elas têm tudo, ela disse
que nunca mais vai voltar para o Brasil, tá ilegal aqui, só que o
pessoal da igreja já disse que vai ajudá-la. Aqui elas têm tudo, as
filhas dela estão encantadas com a vida aqui. Aqui, se você quiser
você faz uma picanha na chapa todo dia, toma uma cervejinha. Lá você
tem que comprar salsicha. Mesmo trabalhando de cleanervocê faz isso
aqui [Bernardo].
Como Guilherme afirma na sua entrevista, à medida que o seu tempo de estadia em
Londres se ampliava, o seu estilo de vida remodelava-se em função das novas
prioridades e, assim, o projeto inicial de trabalhar um grande número de horas
para poder retornar logo ao Brasil perdia força. Além disso, menciona ainda a
questão dos limites da sua resistência física como outro fator que impede
alguém de viver somente para uma vida voltada para o trabalho:
Porque tem uma questão aqui que é a seguinte: Londres te dá uma coisa
mas te tira outra. Londres te dá o direito de você levar a vida que
quiser, mesmo limpando bosta dos outros, mas ela te tira a saúde. Eu
sei que em dez anos eu não vou ter a mesma saúde que eu tenho hoje,
eu já não tenho a mesma de quando eu cheguei. E se você não tiver
saúde aqui, não tiver seu corpo bom, você não tem nada, porque você
não vai conseguir acordar cedo e voltar à noite. Ninguém é de ferro.
E quem vem para juntar dinheiro tem que se sacrificar Aliás, todo
mundo se sacrifica, principalmente no início, mas depois você não
aguenta, principalmente se você não tem família. Agora quem tem
família, se sacrifica por um tempo e já vai embora, porque não dá
para ficar para sempre. Eu conheci um pessoal que fazia isso, mas
eram aqueles que tinham família. Então, é nessa correria que os caras
trabalham tomando uns Red Bull [gíria utilizada pelo entrevistado
para se referir ao uso de cocaína], porque no começo você tá naquela
fissura de trabalhar e trabalhar Esses dias eu tava em um
restaurante brasileiro e ouvi os caras conversando, reclamando que
trabalham só oito horas por dia e que queriam muito mais horas,
queriam fazer vinte horas no dia. Você percebe que é um cara que tá
aqui há pouco tempo, porque quem acaba de chegar sempre é nessa
correria, principalmente os pobres que vieram para cá devendo
dinheiro no Brasil e precisam pagar a galera lá, e ainda tem o medo
de que a polícia pode te pegar a qualquer momento e você tem que
voltar para o Brasil devendo para todo mundo. Hoje, tem que me pagar
muito dinheiro mesmo para trabalhar dobrado, porque não vale a pena,
não no começo eu iria de olhos fechados, hoje não, você consegue ter
uma vida muito boa aqui, comprar de tudo, sem trabalhar muito
[Guilherme].
Os depoimentos apresentados acima sugerem que a facilidade do consumo passa a
ser um dos motivos para permanecer em Londres, já que a dificuldade de comprar
certos bens, como roupas, calçado e produtos eletrónicos era bem maior no
Brasil, enquanto em Londres, mesmo realizando um tipo de trabalho considerado
desqualificado, os imigrantes tinham acesso fácil a produtos que não existiam
no país de origem. Podemos notar assim que, ao contrário da estratégia
migratória apresentada por autores como, por exemplo, Portes (2004) e Mills
(1997), em que o consumo se dá na sociedade de origem, as entrevistas aqui
apresentadas apontam para um consumo na própria sociedade recetora. Por outras
palavras, tal material etnográfico oferece-nos uma perspetiva para além da
existência de uma ligação, no projeto migratório, entre o trabalho na sociedade
recetora e um consumo posterior realizado no país de origem. Novas prioridades
nas suas respetivas vidas, incluindo as de consumo, passariam a ser vistas como
um dos motivos na reformulação do projeto migratório inicial de trabalhar e
acumular para retornar.
Todavia, além de um estilo de vida que dá prioridade ao consumo na sociedade
recetora, outros fatores orientam esse processo de reformulação dos projetos
migratórios iniciais. Como demonstra Flaviano, brasileiro que reside há mais de
quatro anos em Londres, existem outros valores que não podem ser abandonados em
virtude do trabalho. Segundo o seu testemunho, durante os primeiros anos
passados na capital britânica, costumava trabalhar cerca de 14 horas diárias,
seis dias por semana, entre turnos dobrados na cozinha de um Pub e como
empregado de limpezas em escritórios. Entretanto, passado algum tempo, Flaviano
disse que a ideia inicial de trabalhar e retornar rapidamente para o Brasil
fora deixada de lado, valendo a pena as privações pelo prazer de jogar
futebol às sextas à noite com amigos em Londres ou, simplesmente, estar com
eles para tomar uma cerveja. Nas suas palavras, a hora de ir embora passou a
ser uma decisão de Deus:
Você passa a semana inteira trabalhando igual um camelo. Aí chega a
sexta-feira, junta só a brazucada lá, 20 a 25 brasileiros, bate
aquele futebol tranquilo. Tem briga, tem xingamento, mas saiu da
quadra acabou, fica tudo lá. E é assim que tem que ser. É um dos
grandes pontos que eu fico feliz aqui, velho. Os amigos que eu fiz
aqui e essas coisas assim, que ninguém da nada por isso, mas pra
gente vale muita coisa. Era mais puxado, não era assim. No começo era
de 6:30 h da manhã até 00:00 h fora de casa pra muita gente
trabalhar e juntar este dinheiro e ir embora logo é um propósito
grande. Só que eu este negócio de ir embora logo, eu deixei de lado.
Eu vou embora na hora que Deus falar que tá na hora de ir embora
[Flaviano].
O excerto acima transcrito, permite-nos constatar que além do acesso ao consumo
ser um fator que faz com que os migrantes brasileiros em Londres, aqui
investigados, reformulem os seus respetivos projetos migratórios, a ampliação
das redes de contacto e a inserção de novas práticas sociais também contribuem
para essa dinâmica. Tal hipótese é corroborada pelo argumento defendido por
Dias (2009, 2010), para quem a extensão temporal da experiência migratória no
país recetor faz com que o imigrante amplie a sua esfera de sociabilidade para
além das esferas da casa e do trabalho, inserindo assim novas relações de
amizade e, por exemplo, espaços de lazer nas suas práticas cotidianas.
Essa importância de inserir o lazer no quotidiano é demonstrada também no
relato de Rose, que na época da entrevista residia e trabalhava em Londres há
mais de quatro anos. Rose trabalhava como empregada de mesa, e nunca havia tido
coragem de permanecer ilegalmente em Londres. Portanto, o seu salário era
exclusivamente destinado à renovação do visto e à manutenção de um estilo de
vida livre, voltado para o lazer e para as viagens:
É um saco ficar renovando o visto, já vou para a terceira renovação.
Eu queria ter um documento para poder fazer o que eu quisesse. Se eu
quiser morar na Espanha amanhã, eu vou para a Espanha, se eu quiser
morar na Itália, eu vou Sabe, eu queria ser cigana. No Brasil nunca
me faltou nada. Trabalhando em loja era tranquilo, toda bonitinha,
tomando cafezinho com meus clientes, coca-cola, batendo papo, e no
meio desses papos já tô vendendo. Então é um dinheiro fácil que não
carrego peso, não me sujo e fico amiga dos clientes, vou para
festinhas dos meus clientes. Mas aqui é mais fácil e mais rápido, o
dinheiro vale mais. Lá nunca me faltou nada, mas você precisa
planejar as coisas e eu nunca planejei a minha vida. Mas, por
exemplo, lá, eu sei que se eu quisesse viajar seria mais difícil.
Quero continuar viajando a Europa, Estados Unidos, Tailândia, porque
eu queria ir para a Tailândia. Vou renovar meu visto e, se Deus
quiser, eu vou Estou trabalhando agora para isso, para juntar
dinheiro vou renovar o visto por dois anos com esse curso de
marketing que paguei agora. Vou juntar dinheiro, 15, 20 dias em
Tailândia. Coisa que eu sei que eu jamais conseguiria fazer no
Brasil, não com um salário de vendedora aqui você pode sair todo dia
se quiser, ir a um pub, teatro, museu, parques, uma vida que não dá
para levar no Brasil [Rose].
Knowles e Harper (2009, p. 234) notam que no migrant can live completely in a
bubble. Dessa forma, na medida em que as relações sociais desses imigrantes
brasileiros aqui apresentados vão sendo ampliadas, o seu conhecimento acerca do
espaço sociogeográfico vai-se tornando mais seguro, novas prioridades são
inseridas nos seus estilos de vida, indo para além da dimensão do trabalho. E,
com isso, o seu tempo de permanência na sociedade recetora, Londres, também vai
sendo estendido. Como podemos perceber pelos relatos acima, o ato de frequentar
bares, boates, parques públicos e outras áreas de lazer como museus e teatros,
por exemplo, também faz parte das práticas quotidianas do imigrante brasileiro
em Londres. O migrante passa então a desenvolver outras práticas sociais, não
cingindo a sua vivência apenas ao trabalho e aos limites domésticos.
Valendo-nos do conceito de pedaços, cunhado por Magnani (2008), partimos da
hipótese de que tais espaços sociais estariam num campo intermédio entre os
espaços privados da residência e os públicos como, por exemplo, o do trabalho,
os quais possibilitam a ampliação das práticas cotidianas para além do
trabalho. Sendo assim, frequentar jogos de futebol e bares com colegas nos
horários de lazer ou, ainda, museus e teatros, que seriam difíceis de serem
visitados caso estivessem no Brasil, passam a ser pedaços e atividades
inseridas ao longo do tempo na vida desses imigrantes, que cada vez mais vão
interagindo com a sociedade recetora. Nas entrevistas apresentadas acima, nota-
se que esses pedaços vão ganhando importância na medida em que o tempo de
migração vai sendo prolongado e a dedicação exclusiva ao trabalho vai sendo
reformulada. Segundo Magnani:
É nesses espaços em que se tece a trama do qoutidiano: a vida do dia-
a-dia, a prática da devoção, a troca de informações e pequenos
serviços, os inevitáveis conflitos, a participação em atividades
vicinais. É também o espaço privilegiado para a prática do lazer nos
fins de semana nos bairros populares. Dessa forma, o pedaço é ao
mesmo tempo resultado de práticas coletivas (entre as quais as de
lazer) e condição para seu exercício e fruição [Magnani, 2008, p.
32].
Por fim, é interessante notar que apesar de haver, de facto, um constante
processo de reformulação nos projetos migratórios dos imigrantes brasileiros
aqui investigados, o qual resultaria em um prolongamento da permanência dos
mesmos na sociedade recetora, a ideia do retorno continua presente nos
discursos. Conforme Knowles e Harper (2009) argumentam, no mundo contemporâneo
o fator movimento não seria apenas um ponto a ser observado no processo
migratório, é importante saber como os migrantes organizam as suas vidas
quotidianas em torno de rotinas muitas vezes organizadas por longos e curtos
projetos migratórios. This is how lifestyle migrants live: without deep
connection (Idem, 2009, p. 240). Por outras palavras, no movimento migratório
o fator temporariness ganharia uma dimensão importante na elaboração e
redefinição dos projetos migratórios, fazendo com que o sujeito não produza
conexões profundas tanto com a sociedade recetora, quanto com a própria
sociedade de origem. Dessa forma, os imigrantes estariam constatemente
avaliando o tempo de estadia, e muitos estariam adiando o retorno, não
recusando a ideia de que um dia esse momento chegará. Podemos observar tal
facto no depoimento de Guilherme:
Eu não sei quanto tempo eu vou ficar aqui. Então eu pretendo aprender
inglês, para sair daqui com um algo a mais, e ver se consigo pagar
uns dois apartamentos, porque se um dia eu encher o saco disso aqui
eu vou ter que ir embora. Mas eu tenho medo, porque muita gente fala
que quem fica muito tempo aqui não se adapta ao Brasil quando volta.
Porque você vem para cá, você ganha 4 000, 5 000 reais por mês, e lá
você ganhava 500,00 reais. Você num vai voltar para ganhar 500,00
reais. Só que o frio e a solidão aqui é foda, cara. A solidão ainda
diminuiu um pouco, porque antes, quando eu não falava inglês, era bem
pior. Você não entender o que as pessoas estão dizendo é complicado,
você se sente tirado, excluído. Então eu não sei, cara, eu vou
vivendo aqui, mas tentando melhorar a minha vida aqui, para, caso eu
volte para o Brasil, eu tenho um lugar para morar, tenho o inglês
[Guilherme].
Como o depoimento acima demonstra, a todo instante, a comparação dos padrões de
vida (medidas pelo salário, pelas oportunidades, pelo consumo e pelo estilo de
vida) que Guilherme tinha no Brasil com os padrões encontrados na Inglaterra
geram a incerteza do retorno e a necessidade de não apresentar fortes conexões
com ambos os países. Todavia, o retorno está presente no seu pensamento. Cria-
se um projeto atrelado à ideia de temporariedade curta, onde o fator
imprevisível do encher o saco é o que vai determinar o retorno. Sendo assim,
não seria paradoxal afirmarmos que a ideia de estender o projeto migratório
também significa estar permanentemente pronto para partir.
Tal observação é corroborada pela observação realizada em trabalho de campo.
Por meio dele, foi possível constatar que alguns dos brasileiros investigados
afirmavam a ideia do retorno nos seus respetivos projetos migratórios, ao mesmo
tempo que buscavam acomodações maiores e com mais privacidade, o que exigia um
gasto maior do que o dos quartos provisórios, que geralmente dividiam com
outros brasileiros (Dias, 2010). Ademais, eles passam a adquirir produtos como
sofás, frigoríficos e fogões, que, de certa maneira, indicariam um processo de
fixação:
Semana passada eu e a Carol decidimos ir morar sozinhas, para ter
mais privacidade só para a gente. Mudamos para uma casa perto da que
morávamos antes. Daí um dinheiro que eu tinha guardado acabei
gastando para comprar as coisas da casa, né?! Compramos cama, sofá,
um computador novo, televisão, enfim, tudo porque queríamos uma casa
nova com tudo novo [Aline].
Segundo estudos empíricos dedicados à investigação de redes migratórias
brasileiras, em países onde a presença desse grupo já está estabelecida, tal
opção de consumo possibilita perceber que o grupo aqui investigado inicia um
possível processo de fixação na sociedade recetora; mesmo que os
entrevistados apresentem ainda um discurso que afirme o retorno. Margolis
(1994) no seu estudo sobre brasileiros em Nova Iorque, por exemplo, demonstra
que a ideia do retorno estava sempre presente não apenas entre aqueles que
foram com o claro propósito de trabalhar por um período estipulado, mas também
entre aqueles que já ultrapassaram o tempo estimado e alcançaram as metas
planeadas; começando, então, o processo de settlement,ou seja,de fixação. Sales
(1999), ao trabalhar com brasileiros em Boston, encontra situação semelhante, e
afirma que esses indivíduos passam por um processo de redefinição do projeto de
vida, uma vez que migraram inicialmente com a intenção de retornar num período
de tempo curto. Eles depois acabavam redefinindo as suas situações, passando a
considerar a possibilidade de ficarem nos EUA por mais tempo, porém sempre
mantendo a ideia do retorno presente.
Por outras palavras, o ato de migrar passa a ser reformulado a todo instante
pelo migrante brasileiro investigado em Londres, e por mais que a ideia do
retorno seja algo sempre presente na reformulação dos seus respetivos projetos
migratórios, muitos compram bens que sugerem um possível prolongamento das suas
estadias na sociedade recetora, senão uma situação de fixação. Assim, na medida
em que o imigrante brasileiro remodela o seu projeto migratório de acordo com
as oportunidades alcançadas em Londres, ele demonstra também pretender estender
a sua estadia, porém nunca assumindo uma posição fixa que revele uma conexão
profunda com qualquer uma das sociedades envolvidas, brasileira e inglesa. Como
afirma Sayad (1998), o retorno é algo constituinte no discurso do migrante,
mesmo que ele nunca venha a retornar de facto.
CONSIDERAÇÕES FINAIS, LIMITES E IMPLICAÇÕES
Este artigo procurou demonstrar que os estudos sobre a migração de brasileiros
não devem ficar limitados a interpretações somente económicas, ainda que o
impulso inicial para circular entre as fronteiras nacionais, para alguns
indivíduos, seja a busca de melhores oportunidades financeiras. Por meio dos
resultados obtidos no trabalho de campo realizado com brasileiros em Londres,
bem como da leitura de uma bibliografia que se foca numa investigação social
micro, este artigo oferece evidências e ferramentas para se entender de que
forma o fator trabalho se torna apenas mais um entre tantos fatores complexos
que circulam na trajetória de vida desses migrantes.
Sem dúvida, a perspetiva económica oferece explicações importantes para se
entender as influências presentes nos motivos que impulsionam indivíduos
provenientes de países periféricos a migrarem para países centrais. Todavia,
acreditamos que essa perspetiva teórica cobre apenas o motivo inicial de
algumas experiências migratórias. De facto, aqueles que migraram com o objetivo
único de trabalhar por um tempo e acumular, veem a migração, inicialmente, como
uma oportunidade de conseguir capital económico num curto período de tempo no
exterior e ter uma vida melhor no país de origem (Portes, 2004; Mills, 1997). É
exatamente por isso que quando chegam à capital inglesa esses brasileiros
investigados possuiriam uma ânsia e dedicação inicial muito forte pelo
trabalho, chegando a trabalhar mais de 80 horas por semana nas mais distintas
atividades.
Contudo, ao realizar uma análise micro, focada no estilo de vida desses
migrantes ao longo das suas respetivas experiências migratórias, é possível
perceber que os seus projetos iniciais sofrem reformulações. Após um tempo
residindo na sociedade recetora, novas perspetivas aparecem na vida do
imigrante, com a ampliação das suas redes de contacto. Assim, espaços sociais
e novas necessidades passam a ser incorporados no seu cotidiano. Se antes a
ideia era acumular dinheiro para ter uma vida, e um padrão de consumo, melhor
no Brasil, agora o retorno deixa de ser algo imediato. A facilidade para o
consumo de bens materiais, viagens e bens culturais (teatro, museu, bares,
restaurantes), na sociedade recetora, torna-se central na vida desses
indivíduos, deixando a tríade inicial trabalhar-acumular-retornar para
segundo plano. Na realidade, a ideia do acumular volta aos discursos quando o
retorno se faz presente nas conversas. Contudo, como foi possível verificar,
esses indíviduos realizam práticas que apontam mais para um suposto processo de
fixação do que de retorno. Além disso, a ânsia inicial pelo trabalhar muito é
substítuida por uma vida voltada também para o lazer na sociedade recetora.
Dessa forma, uma investigação que destaque os espaços de sociabilidade e os
diferentes discursos e práticas sociais criados pelo imigrante durante o tempo
de estadia na sociedade de imigração torna-se fundamental para entendermos a
sua complexidade. O que nos leva a ressaltar a necessidade de complementar a
perspetiva económica macro com uma análise social centrada no estudo micro,
focada na observação participante, entrevistas e, ainda, mapeamentos das suas
redes sociais onde novos espaços de sociabilidade são diariamente frequentados.
Como no caso dos brasileiros em Londres apresentados aqui, que estão em
constante processo de negociação e reconstrução dos seus objetivos, a partir do
momento em que chegam à cidade.
É importante ressaltar que as discussões e os achados de pesquisa, apresentados
e desenvolvidos ao longo deste artigo, oferecem importantes pontos de partida
para pesquisas futuras acerca dos brasileiros que vivem no exterior, assim como
para trabalhos sobre migração no geral. O tamanho da amostra utilizada não
permite fazer generalizações sobre a população estudada, mas oferece indícios
de como o projeto migratório é fluído e, em alguns casos, de acordo com o que
sublinhou Knowles (2003), o estilo de vida migrante inicialmente voltado para o
trabalho é ressignificado para uma vida que passa a dar primazia a outros fins.