Os estudantes angolanos do ensino superior em Lisboa: uma perspetiva
antropológica sobre as suas motivações e bem-estar subjetivo
INTRODUÇÃO
O presente artigo1 insere-se no âmbito da investigação desenvolvida pelas
ciências sociais no sentido de compreender os fatores determinantes das atuais
migrações internacionais. Constitui um estudo de caso específico destas
migrações, concentrando-se no fluxo de estudantes do ensino superior oriundos
de Angola em direção a Portugal, sendo que a investigação se restringe apenas à
cidade de Lisboa e aos estudantes inscritos ao nível da licenciatura.
No ano letivo de 2007-2008, o número de estudantes oriundos dos países da
Comunidade de Língua Oficial Portuguesa inscritos nas universidades portuguesas
subiu para 13 428, com 10 142 inscritos ao nível da licenciatura, 2 383 ao
nível do mestrado e apenas 727 ao nível do doutoramento. Neste mesmo período,
os estudantes angolanos constituíam a maior comunidade de estudantes
estrangeiros em Portugal (num total de 4 648), estando a esmagadora maioria
inscrita nos cursos de ciências sociais, comércio e direito (total: 3 113) (cf.
dados do GPEARI2).
A migração dos estudantes angolanos para Portugal poderá ter diversas
determinações na sua origem. Se, por um lado, existem motivações de ordem
pessoal envolvidas na decisão de emigrar, existem também fatores determinantes
de ordem estrutural e que condicionam, em parte, as escolhas dos sujeitos.
Entre estas determinações de ordem estrutural, repulsivas (push factors),
incluem-se as más condições do ensino superior em Angola (Carvalho, 2003).
Compreender os graves problemas e debilidades por que passa o ensino superior
em grande parte dos países africanos, e em Angola em particular, permite-nos
antecipar algumas das causas (entendidas como fatores de repulsão) que, no
início, influenciaram a decisão de emigrar por parte destes estudantes.
No entanto, o tipo de análise que se procurou fazer, ainda que tomando em
consideração estes fatores de ordem estrutural, concentra-se sobretudo no
discurso dos sujeitos, uma vez chegados a Lisboa, e procura colocar as emoções
no centro da discussão a respeito dos fatores determinantes na decisão de
emigrar, pretendendo problematizar a importância do estudo do bem-estar destes
estudantes para a compreensão das suas motivações.
O estudo do bem-estar subjetivo enquanto campo de análise específico reúne
contribuições de diferentes disciplinas. Uma influência importante resulta dos
estudos da sociologia, a partir de finais da década de 60 do século passado,
que procuraram determinar de que forma é que diferentes fatores sociais, como o
rendimento económico e o estado civil, e também fatores demográficos, como a
idade dos sujeitos, influenciam o seu bem-estar subjetivo (Campbell etal.,
1976). Outros estudos importantes provêm da área da saúde mental, procurando um
alargamento do conceito, para além da mera ausência de sintomas patológicos,
para passar a incluir também a sensação de felicidade e de realização pessoal.
Dentro da área da psicologia, estudou-se a relação entre diferentes tipos de
personalidade e o bem-estar subjetivo e, mais propriamente, a psicologia social
e cognitiva procurou estudar como diferentes variáveis contextuais influenciam
os sentimentos pessoais de bem-estar subjetivo. Não havendo uma teoria que
unifique o campo de investigação, considerou-se que algumas variáveis têm uma
influência relevante na determinação do bem-estar subjetivo, como a estrutura
da personalidade, a capacidade de adaptação a novas condições, a perseguição de
objetivos (Diener etal., 2003).
A maioria dos estudos na área da psicologia que procuraram medir o grau de bem-
estar subjetivo dos indivíduos ou grupos concluíram que os fatores demográficos
e socioeconómicos não têm um peso muito relevante na sua determinação (Jones et
al., 2003). De forma diversa, nesta investigação a partir da antropologia, mas
marcada pelo recurso à literatura teórica tanto da sociologia como da
psicologia social, aquilo que se tentou compreender foi até que ponto é que os
fatores demográficos e socioeconómicos geram diferentes noções de felicidade
nos sujeitos. Ou seja, até que ponto os fatores demográficos e socioeconómicos
têm um impacto sobre o bem-estar subjetivo, não em termos de grau ou quantidade
(não se pretendeu saber se a avaliação subjetiva do bem-estar era mais ou menos
positiva, e se a sua variação estaria correlacionada com fatores demográficos
e socioeconómicos) mas, sim, em termos de natureza ou qualidade (procurando
saber em que medida é que variam os elementos considerados pelos sujeitos como
constituintes essenciais para o seu bem-estar, em função dos fatores
demográficos e socioeconómicos).
No entanto, é importante não incorrer aqui numa espécie de determinismo
sociológico. Se o meio socioeconómico envolvente pode produzir diferentes
perceções de bem-estar nos sujeitos, no entanto a sua acomodação a esse mesmo
contexto envolvente raramente é passiva (e pacífica). Em geral, os sujeitos
procuram ativamente melhorar a sua condição socioeconómica, ao mesmo tempo que
aspiram a níveis de bem-estar cada vez mais elevados (Diener et al., 2000).
Para compreender estas aspirações é necessário ter em conta as comparações de
ordem identitária, entre os sujeitos e grupos que se encontram fora dos centros
de poder da atual economia global para com os sujeitos e grupos que ocupam os
núcleos de decisão da mesma e/ou auferem de um elevado nível de vida (Ferguson,
2006).
As comparações de ordem identitária, quase sempre expressas no idioma da
superioridade/inferioridade de um grupo face ao outro, são recorrentes no
discurso dos estudantes angolanos do ensino superior em Lisboa, quando pensam a
sua própria identidade por contraste com os portugueses e com estudantes de
outros países africanos. As comparações de ordem identitária surgem, assim, no
discurso dos estudantes angolanos a respeito da sua vida em Lisboa, diretamente
relacionadas com a questão emocional do bem-estar subjetivo, uma vez que neste
tipo de comparações identitárias se verificam, quase sempre, ganhos e perdas
(Tajfel, 1983). Estes ganhos e perdas de ordem emocional e identitária
transcendem largamente a dimensão económica, ao mesmo tempo que, como veremos,
estão diretamente relacionados com ela, permitindo complexificar a reflexão
teórica que coloca uma racionalidade económica estrita na base da decisão dos
sujeitos em emigrar.
METODOLOGIA
Optou-se pela realização de trinta entrevistas semi-estruturadas, sujeitas a
uma posterior análise temática de conteúdo (Bardin, 1977). Não se tratando de
uma investigação desenvolvida nos moldes da designada grounded theory,
seguiram-se, no entanto, as sugestões de alguns dos seus autores no que se
refere à análise das entrevistas (Glaser e Strauss, 2009 [1967]; Charmaz,
2007), nomeadamente a identificação de diferentes categorias temáticas, o
estabelecimento de relações de sentido entre as mesmas e a análise das
propriedades de cada categoria, resultando na identificação de subcategorias de
análise.
O estudo concentrou-se apenas na cidade de Lisboa. Um total de 30 indivíduos
constitui o conjunto entrevistado: 16 homens e 14 mulheres, com idades
compreendidas entre os 19 e os 42 anos (a grande maioria dos entrevistados com
idades entre os 20 e os 30 anos, com apenas uma mulher de 19 anos e dois homens
acima dos 30), dos quais 18 são trabalhadores-estudantes e bolseiros e 12
estudantes dependem dos familiares.
Apesar de a maioria dos alunos entrevistados ter vindo para Portugal para
ingressar diretamente no ensino superior ao nível da licenciatura, procurou-se
identificar casos diversos em função dos objetivos teóricos da investigação,
tendo em consideração, ainda que de uma forma bastante livre, a sugestão de
Glaser e Strauss (2009), no sentido da construção de uma amostra teórica: uma
das estudantes entrevistadas tinha já terminado a sua licenciatura há menos de
um ano e tinha regressado para Angola, encontrando-se de férias em Portugal no
momento da entrevista (o seu testemunho contribuiu para a reflexão a respeito
do regresso destes estudantes a Angola e dos possíveis problemas na sua
readaptação); uma das estudantes nasceu em Portugal, filha de pais angolanos,
mas identifica-se sobretudo como angolana e pretende ir para Angola, onde tem
bastante família, assim que termine o curso (a sua entrevista foi importante
para pensar as questões que se prendem com a construção da identidade étnica/
nacional); um dos estudantes encontra-se em Lisboa a fazer o mestrado, tendo
concluído a licenciatura em Angola, onde é, também, professor na universidade
(apresentava um conhecimento mais profundo do que muitos dos outros estudantes
entrevistados a respeito da realidade do ensino superior em Angola); um outro
estudante ocupa um cargo diretivo num núcleo de estudantes africanos de uma
universidade pública em Lisboa (oferecendo um testemunho informado a respeito
da situação dos estudantes angolanos em Lisboa, nomeadamente no que se refere à
sua situação socioeconómica); um outro entrevistado já terminou a sua
licenciatura e trabalha atualmente em Portugal (ao contrário da estudante que
regressou a Angola logo após terminar os seus estudos, sendo que esta diferença
e as explicações que os sujeitos avançam para a justificar foram importantes
para pensar a temática das motivações). Para além disso, foram entrevistados
alunos em diferentes anos da licenciatura e com variação no que se refere ao
tempo de permanência em Portugal e, tal como foi anteriormente referido,
procurou-se que as entrevistas realizadas fossem variadas no que se refere ao
género e situação socioeconómica dos sujeitos.
MOTIVAÇÕES E BEM-ESTAR SUBJETIVO: TRÊS DIMENSÕES DE ANÁLISE
Na investigação realizada procurou-se analisar a relação entre motivações e
bem-estar subjetivo no caso dos estudantes angolanos do ensino superior em
Lisboa. Compreender como as causas económicas da emigração apontadas pelos
sujeitos (por exemplo, a busca de uma formação universitária no sentido de
conseguir um melhor estatuto socioeconómico), se prendem com as suas motivações
em termos de bem-estar subjetivo presente e futuro (a ideia de que uma formação
universitária, permitindo uma ascensão socioeconómica faculta níveis mais
elevados de bem-estar em termos de circunstâncias presentes - qualidade de vida
- e em termos de realização pessoal ou ideal de bem-estar).
No que concerne à discussão teórica em torno das causas dos fluxos migratórios,
tanto a teoria económica neoclássica, colocando a seu ênfase na racionalidade
económica dos indivíduos (Castles, 2000; Pires, 2003), como a teoria do mercado
dual, que reflete sobre a integração dos imigrantes e dos trabalhadores locais
mais qualificados em diferentes segmentos do mercado laboral (Portes, 1999),
não colocam o seu foco na questão da relevância das motivações identitárias dos
sujeitos para a sua decisão de emigrar - a aproximação a indivíduos ou grupos
que ocupam uma posição mais perto dos centros decisores fundamentais na
presente economia global ' motivações essas que estão estreitamente
relacionadas com as dinâmicas do bem-estar subjetivo ' no sentido em que os
sujeitos retiram importantes ganhos emocionais como resultado desta ascensão
identitária, traduzidos num incremento do seu bem-estar. Foi este campo de
reflexão que se procurou explorar na investigação realizada.
A relação entre motivações e bem-estar subjetivo, enquanto objeto de análise
teórica, deverá ser decomposta em diferentes dimensões estruturantes, elas
mesmas constituídas por diferentes variáveis. Propõe-se a delimitação de três
dimensões essenciais de análise do bem-estar subjetivo: a dimensão
contextual; a dimensão identitária e a dimensão socioeconómica.
A DIMENSÃO CONTEXTUAL: FATORES ESTRUTURAIS DE ATRAÇÃO E DE REPULSÃO
Por dimensão contextual do bem-estar subjetivo referimo-nos a fatores
estruturais relacionados com a qualidade de vida dos estudantes, avaliada pelos
próprios de uma forma subjetiva (Santos, 2007), comparando as condições de vida
em Angola e em Portugal, em particular no que toca às condições de habitação,
de estudo e de trabalho em que se encontraram nos dois países. Com esta
dimensão de análise pretende-se analisar a relação entre qualidade de vida,
bem-estar subjetivo e as motivações dos estudantes, dado que a sua qualidade de
vida se revela determinante para a possibilidade (ou impossibilidade) de
atingirem certos objetivos (como alcançar uma formação universitária), que
podem eventualmente ser considerados essenciais para uma avaliação global
positiva do seu bem-estar. De facto, no discurso dos estudantes, a questão da
debilidade do ensino superior em Angola é quase sempre apontada como fator
determinante da sua decisão inicial de emigrar. Da mesma forma, a avaliação
negativa que fazem acerca da qualidade de vida em Angola, por comparação com
Portugal, funciona como fator de ponderação na hora da decisão entre permanecer
ou regressar, após terminados os estudos, sendo que as melhores infra-
estruturas da cidade de Lisboa e uma maior capacidade de organização da
sociedade portuguesa em geral, são os aspetos apontados como os principais
fatores de atração. No entanto, estes fatores de atração não têm força
suficiente para manter os estudantes angolanos em Portugal após a conclusão da
licenciatura: 22 dos 30 estudantes entrevistados pretendem regressar a Angola;
um planeia permanecer em Portugal, outro tenciona emigrar para outro país e
seis ainda não tinham decidido o que iriam fazer. Temos, então, de ir para além
da explicação que assenta na importância dos fatores estruturais de atração e
repulsão, para uma compreensão mais profunda dos fatores determinantes da
emigração destes estudantes, centrada na questão identitária e do bem-estar
subjetivo.
A DIMENSÃO IDENTITÁRIA: A EMIGRAÇÃO COMO PERDA OU OPORTUNIDADE?
Para alguns autores da área da saúde mental, a emigração é problematizada como
uma situação de perda ou de luto: luto pela distância em relação à família;
luto pela distância em relação aos amigos; luto pela distância em relação ao
grupo étnico de origem; luto pela distância em relação ao país de origem (em
termos de lugares de memória, emocionalmente investidos); e, por vezes (que não
é o caso da grande maioria dos estudantes angolanos), luto pela distância em
relação à língua de origem (Atxotegui, 2000).
Estas diferentes dimensões de luto podiam bem ser reunidas enquanto variáveis
relevantes para a compreensão de uma dimensão maior, que corresponde à
dimensão identitária do bem-estar subjetivo. Tanto a família, como os amigos,
o grupo étnico de origem, o país de origem (enquanto território de locais
investidos de emoções), ou a língua materna, se assumem como variáveis
essenciais para a definição da identidade dos sujeitos. São variáveis em dois
sentidos: primeiro, no sentido em que nem todos os indivíduos experimentam as
mesmas perdas (porque a distância em relação aos referentes identitários não é
a mesma para todos ' por exemplo, alguns estudantes angolanos têm familiares em
Portugal, e outros não; alguns estudantes emigraram para Portugal ao mesmo
tempo que outros amigos de Angola, enquanto para outros se tratou de um corte
mais ou menos radical com as amizades que mantinham até ao momento); e, em
segundo lugar, são variáveis na sua importância enquanto determinantes para o
bem-estar subjetivo dos sujeitos (as distâncias em relação aos diferentes
referentes identitários não são sentidas da mesma forma pelos vários sujeitos).
Assim, em primeiro lugar, deve-se considerar qual o peso que assumem os
elementos da dimensão identitária na constituição do bem-estar subjetivo e na
satisfação das necessidades emocionais dos sujeitos em contexto de emigração,
no caso os estudantes.
Mais concretamente, procurou-se responder à seguinte questão: qual ou quais
dos referentes identitários apontados (a família, os amigos, o grupo étnico de
origem; o seu país de origem; a língua materna) são considerados pelos sujeitos
como mais perturbadores, na sua ausência, dos seus níveis de bem-estar?
Na identificação dos elementos constituintes fundamentais para uma definição
do bem-estar, a proximidade da família apareceu como um fator destacado na
análise de conteúdo das 30 entrevistas realizadas. No mesmo sentindo,
introduzindo a questão das motivações na discussão, a presença de familiares em
Portugal aparece no discurso dos estudantes angolanos como uma das razões
essenciais da escolha de Lisboa como destino migratório. Da mesma forma, a
família surge como um dos fatores mais importante na determinação dos
estudantes em regressar para Angola. Assim, as motivações dos estudantes
parecem ser estruturadas pela importância atribuída a certos elementos básicos,
como a família, considerados como constituintes essenciais do bem-estar
pessoal.
No entanto, ainda que seja um dos aspetos que mais negativamente afeta o bem-
estar da generalidade dos estudantes, a forma como a distância da família é
vivida varia em função da sensibilidade do sujeito. Mas varia, principalmente,
em função do facto de a distância em relação à família não ser igual para
todos: embora se possa afirmar, de uma forma geral, que os pais da maioria dos
estudantes angolanos entrevistados não residem em Portugal, no entanto estes
possuem junto de si vários irmãos, tios e primos. Esta variação ocorre também
de acordo com fatores de ordem sociológica, em que a condição socioeconómica
dos sujeitos desempenha um papel fulcral.
Desde logo, nos fatores determinantes da emigração, permitindo-nos
complexificar a questão do caráter voluntário deste tipo de emigração, o que é
importante para pensar a relação entre motivações e bem-estar. Na verdade, para
alguns destes estudantes angolanos (parte substancial do grupo dos estudantes-
trabalhadores entrevistados), a emigração foi escolhida livremente, mas sob os
constrangimentos da falta de perspetivas económicas e de emprego. Para alguns
deles, que vieram para Portugal ainda crianças e por decisão dos pais (vindo
junto com estes, ou sendo enviados para casa de familiares), o caráter
voluntário deste tipo de emigração encontra-se ainda mais comprometido. Para
Salman Akhtar (1999), médico psiquiatra e psicanalista que tem trabalhado sobre
as variáveis psico-sociais que influenciam a vivência da emigração, o grau de
escolha envolvido na partida para um país estrangeiro vai afetar a posterior
adaptação do sujeito a esse país. Este autor considera igualmente que as
circunstâncias envolvendo a emigração são decisivas para a posterior adaptação
do sujeito. Portanto, no que se refere à forma como estes estudantes vivem a
distância em relação à família, tudo passa em primeiro plano por compreender
até que ponto estes estudantes vêem a sua emigração como verdadeiramente
voluntária e não como mais ou menos imposta por circunstâncias exteriores. Para
vários destes estudantes de condição socioeconómica mais desfavorecida, pode-se
mesmo afirmar que a emigração foi de certa forma imposta por condições externas
(desde as más condições económicas, ao conflito militar) que determinaram uma
separação, em certa medida compulsiva, em relação aos seus pais e à sua terra.3
A condição socioeconómica dos sujeitos, no que se refere à forma como estes
vivem a distância em relação às suas famílias, manifesta a sua influência num
segundo momento, na possibilidade que os estudantes têm ou não de visitar
periodicamente a sua família em Angola, o que Salman Akhtar, seguindo outros
autores, descreve como um importante reforço emocional. Este autor estabelece
justamente uma continuidade entre a distância da terra natal e a distância da
família e acrescenta que para o emigrante sobram duas formas de conseguir este
reforço emocional. A primeira forma corresponde ao que designa por extramural
refueling, que se refere à possibilidade de o emigrante estabelecer contactos
com os familiares e amigos, quer através de telefonemas internacionais, ou
mesmo fazendo viagens esporádicas à terra natal; a segunda forma corresponde ao
que designa por intramural refueling, que diz respeito ao apoio emocional que
outros familiares e conterrâneos, também emigrantes nesse país, podem prestar
de forma a minimizar a dor da distância em relação a familiares e amigos que
ficaram distantes.
Em relação à primeira forma, o acesso a este tipo de reforço emocional por
parte dos estudantes angolanos varia drasticamente em função da situação
económica de cada um. No caso dos estudantes com melhor situação económica, as
viagens a Angola são algo que acontece de uma forma mais ou menos frequente
(nunca chegando a um ano de intervalo sem ir ao seu país de origem), ao passo
que os estudantes-trabalhadores e e alguns bolseiros, em situação mais
carenciada, chegam a ficar longos períodos sem ir a Angola (indo uma a duas
vezes durante toda a licenciatura). Paralelamente, as famílias dos estudantes
mais abonados têm possibilidades financeiras para vir visitar os filhos a
estudar em Portugal, ao passo que as famílias dos estudantes mais carenciados
não o podem fazer. Estabelecida esta diferença, é importante acrescentar que
todos os estudantes referiram a importância da comunicação regular via internet
e telefone com os familiares e com os amigos, como forma de minimizar os
impactos negativos da distância sobre o seu bem-estar:
Deixei amigos para trás [ ] sempre que vou lá é o reencontro, andamos
todos juntos. Falamos por telefone, no MSN [ ] os amigos, parecendo
que não, agora com a informática, estamos todos conectados [ ] tamos
todos conectados, aquilo é web cam por todo o lado, todo o mundo
vai-se vendo [homem de 24 anos, há 2 anos em Portugal]
Em relação à segunda forma, o acesso a este tipo de reforço emocional por parte
dos sujeitos é, em certa medida, influenciado pelo tipo de acesso conseguido
através da primeira forma, acima descrita. Ou seja, apesar de a importância de
estar perto dos amigos e de outros compatriotas angolanos terem sido fatores
menos referidos pelos sujeitos do que a importância de estar perto da família
como elemento fundamental para o seu bem-estar (independentemente do género e
da situação socioeconómica dos estudantes), encontra-se no discurso dos
estudantes mais carenciados uma maior importância concedida às relações de
amizade mantidas em Lisboa enquanto relações de reforço emocional (sobretudo em
épocas festivas como o Natal, tradicionalmente passadas com a família). Estas
relações de amizade (sobretudo quando envolvem um elevado nível de confiança e
solidariedade) desenvolvem-se principalmente com estudantes angolanos e,
também, com estudantes originários dos PALOP.
Ainda de acordo com Salman Akhtar (1999), uma variável a considerar quando
pensamos a vivência emocional da emigração diz respeito à especificidade do
país de origem. Concretamente, quando ocorre uma passagem de um país pobre para
um país mais rico, e na eventual culpa inconsciente que esse tipo de
movimentação pode despertar, no que se refere às pessoas deixadas para trás
pelos sujeitos, apesar dos ganhos decorrentes da deslocação.
Este tipo de culpa, podendo ocorrer apenas no domínio do inconsciente (algo que
não coube no âmbito desta investigação), não é muito visível no discurso dos
estudantes angolanos, a partir da análise das entrevistas realizadas, ainda que
surja no discurso de alguns trabalhadores-estudantes que, oriundos de contextos
de pobreza, deixaram para trás amigos que não puderam vir estudar para Portugal
por não terem tido qualquer espécie de apoio:
Eu procurei com toda a dedicação voltar a estudar e a escola aceitou-
me aqui em Portugal [ ] este é o grande pão que eu levo daqui de
Portugal [ ] a minha grande alegria constantemente é eu estar a pegar
estas ferramentas de saber [ ] que me permitem entrar em contacto
espiritual com os meus amigos e colocam-me uma grande
responsabilidade [ ] terminar o curso e regressar para de onde eu
vim, voltar a ter o contacto com a terra e iniciar aquilo que eu
gosto de fazer servir, ensinar e dar aos meus parceiros. É a minha
missão, se eu tenho a memória e a experiência desses meus amigos,
sabendo que eles também podiam cá estar e podiam também ser doutores,
serem engenheiros e não o puderam fazer porque não tiveram essa
oportunidade e alguém que lhes pudesse dar a mão ou um Estado que
pudesse preocupar-se com que o ensino fosse para todos [homem de 42
anos, há 20 anos em Portugal].
Este facto poderá ter diferentes explicações, que vão desde a psicologia
individual a questões que se prendem com a relação dos sujeitos com os seus
grupos de pertença. Por um lado, esta culpa individual pode não estar tão
presente pelo facto de a maior parte dos estudantes angolanos atribuir à sua
emigração para Portugal um caráter meramente passageiro. Acresce a este aspeto
a noção partilhada pela maior parte destes estudantes de que, ao adquirirem
formação superior, estão, no mínimo, quando a situação socioeconómica de origem
é boa, a fazer algo de que a família se orgulha e que apoia inteiramente, ou,
nalguns casos de maior carência, que estão a fazer algo de que a família
dependerá no futuro. Em ambos os casos, a emigração destes estudantes deixa de
se constituir como um projeto de natureza inteiramente individual para se
transformar num projeto que recebe um forte investimento familiar. Por outro
lado, esta culpa poderá não estar presente na mente dos sujeitos pelo facto de
estes estudantes acreditarem receber uma aprovação da sociedade angolana no
geral, uma vez que, pela falta de quadros qualificados do país, a aquisição de
formação superior por parte destes estudantes poderia ser entendida enquanto um
desígnio nacional. Pude verificar que, para muitos destes estudantes, existe o
desejo de contribuir para o desenvolvimento do seu país. Para outros, mais
orientados por um desejo de ascensão individual, subsiste ainda a ideia liberal
de que quanto mais indivíduos alcançarem o sucesso, melhor será para o país
como um todo:
Eu sei que há muita pobreza em Angola mas também acho que não pode
ser o Estado a fazer tudo, ou seja, quanto mais as pessoas
trabalharem e tiverem sucesso, mais riqueza vai haver para todo o
país [mulher de 25 anos, há 3 anos em Portugal].
No entanto, apesar da sua fraca expressão entre o conjunto entrevistado,
pareceu-me relevante mencionar aqui esta variável psico-social, como mote para
regressarmos à discussão sobre as teorias que explicam a emigração,
complexificando a análise. Tanto a teoria neoclássica da emigração, como a
teoria do mercado dual, deixam de fora as motivações identitárias dos sujeitos
enquanto determinantes dos fenómenos migratórios ' no que se refere à vontade
de aproximação dos sujeitos e grupos mais desfavorecidos aos centros decisivos
da economia global e às elites que ocupam esse centro. Esse desejo de ordem
identitária está inteiramente de acordo com a lógica da vivência do bem-estar
que anteriormente foi aqui discutida. Nomeadamente, quando se afirmou que o
conceito de bem-estar dos sujeitos é condicionado pelo contexto socioeconómico
em que cresceram e em que vivem, mas que tal condicionamento não implica uma
acomodação passiva, uma vez que os sujeitos estabelecem comparações constantes
no que se refere ao seu bem-estar, na relação com outros sujeitos ou grupos que
se encontram em situações socioeconómicas distintas.Dentro deste âmbito de
discussão, devemos pensar a emigração não apenas como uma situação de perda,
mas como uma situação de oportunidade. Oportunidade para a afirmação
identitária dos indivíduos enquanto membros de grupos familiares e de nações,
mas também, fundamentalmente, enquanto sujeitos não subsumidos nas relações de
identidade que estabelecem com a sua família, com os seus amigos, com o seu
grupo étnico de origem, com o seu país de origem, ou com a sua língua materna.
Esta afirmação identitária do indivíduo, podemos concluir a partir da análise
do material empírico recolhido, é forçada a ocorrer quanto mais desprotegido
se encontra o sujeito, ou seja, quanto mais longe se encontra dos seus
referentes identitários de base ' passando por uma experiência de luto, que
procura resolver impondo-se perante a sociedade do contexto migratório em que
se encontra. Esta afirmação da sua identidade individual caracteriza-se pela
perseguição voluntária de objetivos de diferente natureza, que estiveram na
origem da decisão de emigrar, o que confere importância ao estudo das
motivações dos sujeitos:
O emigrante tem de crescer muito para conseguir alguma coisa. É claro
que se tu tiveres em casa, se tu tiveres o apoio da família, pode não
ser financeiro, só mesmo apoio, tu poderes a qualquer altura
telefonar, desabafares, estás protegido, tens menos necessidade de te
impores. Agora, o emigrante angolano tem essa necessidade porque,
para já, desde logo, pensa muito no objetivo que o fez perder pelo
menos temporariamente a família, os amigos, o conforto do lar [ ]
[homem de 30 anos, há 8 anos em Portugal].
Neste sentido, pode-se afirmar que, no geral, sem variações relevantes no que
se refere ao género e condição socioeconómica dos sujeitos, para os estudantes
angolanos a emigração para Portugal é vista como oportunidade ao nível do
desenvolvimento da sua identidade pessoal. A experiência migratória é referida
como uma experiência de forte crescimento pessoal, que obrigou ao
desenvolvimento da autonomia e da auto-confiança, que lhes permitiram alcançar
os objetivos traçados:
Esta experiência prepara-me para enfrentar a vida de uma forma
completamente diferente, porque quando eu estou em Luanda com a minha
família, por exemplo, quando eu estava lá a viver, por mais que na
minha vida pessoal fosse eu a tomar as minhas decisões, no geral quem
toma as decisões são os meus pais porque é com eles que eu vivo, são
eles que me bancam por exemplo, mesmo agora sendo eles a bancar, a
casa é minha, sou eu que tou lá sozinha, sou eu que tenho que gerir o
meu dinheiro e isso cria uma independência completamente diferente
que faria uma diferença muito grande, por exemplo, se eu continuasse
a viver com eles depois quando eu acabasse o curso e fosse viver
sozinha ia ser muito mais difícil para mim do que vir agora ter esta
experiência e ir-me habituando aos poucos [ ] [mulher de 22 anos, há
3 anos em Portugal].
Muito do mal-estar destes estudantes resulta da sua dificuldade em atingir os
objetivos propostos, o que resulta no questionamento das suas capacidades para
lidar com os desafios que encontram, nomeadamente com os escolares, e, por
isso, em crises de auto-confiança.
Às vezes, quando eu estou muito triste, quando às vezes as coisas não correm
bem na faculdade, eu fico triste, eu digo Ai, eu sou uma burra, eu não tenho
capacidades, eu não consigo, eu não vou conseguir [ ] mas tem sempre alguém
que me diz Não, tu tens capacidades, tu és uma pessoa muito inteligente, tu
consegues, tu vais conseguir e, também, nós temos que ter fé naquilo que nós
fazemos, temos que nos sentir seguros e ter em mente que nós podemos, temos de
pensar positivo [mulher de 24 anos, há 3 anos em Portugal].
Vários estudantes referiram que a sua principal motivação para continuar face
às dificuldades com que se deparam em Portugal foi o desafio pessoal,
representado na capacidade de atingirem os objetivos definidos pelo próprio
(ligados à formação universitária e tendo em vista a futura realização
profissional), ainda mais importante que a força que o incentivo dos familiares
detém enquanto suporte emocional perante as dificuldades. A capacidade de
atingir estes objetivos faz com que os estudantes há mais tempo em Portugal,
estando prestes a terminar o curso, considerem com um certo relativismo as
dificuldades por que passaram na sua estadia em Lisboa (e que são muitas no
caso dos estudantes-trabalhadores), aceitando que foram etapas necessárias para
um objetivo maior (a conclusão dos seus estudos universitários), que, uma vez
cumprido, já começa a fazer-se sentir na forma de ganhos emocionais:
Digamos que eu não me arrependo de nada, se tivesse de voltar a fazer
tudo eu fazia, até porque agora a sensação é boa, é bom sentir isto
que as coisas começaram com muita dificuldade, que foi tudo muito
difícil, foi tudo muito custoso e agora as coisas estão a fluir,
simplesmente estou agora a acabar o meu curso, estou a dois meses de
terminar a licenciatura e sinto-me bem com isto, não me arrependo
absolutamente de nada, não tenho qualquer tipo de queixa em relação a
qualquer coisa que tenha acontecido porque, se calhar, tudo aconteceu
porque tinha uma razão de ser, senão não estava aqui hoje se não
tivesse enfrentado as dificuldades todas, não estava aqui hoje
[mulher de 26 anos, há 6 anos em Portugal].
Este aspeto é relevante porque aponta para a importância de, num estudo do bem-
estar subjetivo dos estudantes angolanos em Lisboa (mas penso que se aplicaria
a outras populações migrantes), considerar sempre o tempo de estadia no país
como variável a ter em conta.
Desta forma, o balanço que estes estudantes, em conclusão dos seus estudos,
fazem da sua estadia em Portugal é positivo, uma vez que as maiores
dificuldades já foram ultrapassadas e conseguem agora perspetivar o regresso a
Angola. Neste sentido, muitos consideram que a experiência de viver em Portugal
foi positiva sobretudo pela possibilidade que tiveram de ter contacto com uma
realidade diferente, cujas vantagens residem na adoção de hábitos culturais
mais europeus, nomeadamente a capacidade de organização, inclusive em termos
de respeito pelos direitos da cidadania, e na aquisição de uma formação
universitária com maior prestígio.
Vindo para Portugal é mais fácil conhecer outros países tipo Espanha,
França, conhecer novas culturas, e é sempre bom, aprende-se qualquer
coisa não é e também é a vantagem de ser um país mais evoluído do
que o meu, dá-me sempre a vantagem e outra visão do que as pessoas
que estão lá, não é uma visão diferente, um pouco mais ampla porque
quando estás num sítio que é mais desenvolvido há certas coisas que
quando aparecerem lá tu já sabes e tu já viste. Tem sido positivo
estudar em Portugal [ ] a nível de organização, têm uma melhor
organização os países menos desenvolvidos tentam copiar os países já
desenvolvidos [homem de 23 anos, há 3 anos em Portugal].
[ ] em Portugal adquiri uma maneira de pensar diferente, em termos de
direitos de igualdade, democracia [ ] o respeito por aquele que não
tem, que tem o mesmo direito do que aquele que tem [ ] [homem de 22
anos, há 3 anos em Portugal].
Um dos ganhos identitários decorrentes deste contacto com uma realidade mais
organizada, e da obtenção de uma formação universitária prestigiada, passa
pelas boas perspetivas no retorno a Angola: quer traduzidas na convicção da
maior facilidade de encontrar emprego comparativamente com quem estudou dentro
do país, quer traduzidas na possibilidade de transportar o que foi aprendido em
Portugal para Angola, servindo o desejo de contribuir para uma transformação
positiva do país.
Agora posso dizer que foi a melhor coisa que me podia ter acontecido,
iniciar outras coisas [ ] porque nós em Angola, Luanda, temos uma
visão um bocado limitada, não só a nível internacional, mas também a
nível nacional, há coisas que se passam lá dentro e que nós não nos
apercebemos, mas aqui tive mais noção das coisas [ ] eu acho que o
que eu passei aqui, eu espero que possa ajudar a mudar algumas coisas
lá, pode ser utópico, mas eu quero fazer a diferença [mulher de 25
anos, há 4 anos em Portugal].
Enquanto experiência de forte crescimento pessoal podemos perceber como a
emigração dos estudantes angolanos para Portugal, ainda que considerada pelos
próprios como temporária, deixa marcas nos sujeitos. De acordo com uma
estudante que acabou o curso em 2008 e que já regressou a Angola:
Foi uma experiência que muitas pessoas deviam passar tem aquelas
fases más que serviram para alguma coisa, para a pessoa valorizar as
fases boas se voltar a estar numa situação má já sei como sair, como
contornar, já sei com quem contar [ ] eu era muito dependente da
minha família, da minha mãe, era muito mesmo, eu era muito mimosa [ ]
nunca tinha saído para longe dos meus pais antes de vir para cá [ ]
se um dia houver alguma situação em que eu tenha de estar sozinha já
sei como me virar, já sei como lidar com muitas situações, boas e
más acho que contribuiu positivamente para a minha felicidade, tenho
óptimas recordações de cá, muitos bons momentos passados aqui até os
maus momentos às vezes fico com saudades quando estou lá, fico com
saudades do frio, da chuva [ ] [mulher de 26 anos].
A este respeito, parece muito pertinente, também para o caso dos estudantes
angolanos, a aplicação que Maria Celeste Fortes (2005), faz do conceito de
ritual de passagem, para descrever a vivência emocional e identitária
associada à experiência da emigração, no caso dos estudantes cabo-verdianos do
ensino superior em Lisboa. Referindo-se à obra de Van Gennep, Victor Turner
afirma que os rituais de passagem são [ ] ritos que acompanham toda a mudança
de lugar, estado, posição social, de idade (Turner, 1974, p. 116). Estes
rituais, na terminologia de Van Gennep, implicariam três fases essenciais, no
que se refere à posição dos sujeitos em relação ao resto da sociedade: a fase
de separação, de margem e de agregação.
No que diz respeito à fase de margem, que Turner designa por fase liminar, esta
constitui-se sobretudo como uma fase de suspensão do estatuto e dos papéis
sociais que os sujeitos ocupam, antes de voltarem a ser integrados na
sociedade. Maria Celeste Fortes aplica este conceito à experiência de emigração
dos estudantes cabo-verdianos do ensino superior, reconhecendo nesta, à
semelhança do que se pode aqui observar a respeito dos estudantes angolanos,
uma experiência de forte crescimento pessoal:
No plano pessoal e porque os estudantes vêem-se numa situação nova a
que terão de se adaptar com o mínimo de choque, sobretudo a nível
emocional, há um crescimento pessoal intenso. Passam assim de rapazes
ou raparigas dependentes dos pais para Homens e Mulheres que têm de
gerir as suas finanças, definir prioridades, e acima de tudo viver
sem a presença de familiares, longe do país natal [Fortes 2005, p.
63].
Esta autora aponta que a experiência de emigração pode constituir-se como uma
experiência de construção social da masculinidade e da feminilidade, vivida em
diferentes níveis de intensidade em função do género dos sujeitos, no que se
refere à maior liberdade e autonomia conquistada com a saída de Cabo-Verde:
Temos razões para crer, pela experiência de vida em Cabo-Verde, que a
saída é vivida com diferentes níveis de intensidade. As raparigas,
porque gozavam de menos liberdade do que os rapazes, vivem-na de uma
forma particular [Fortes, 2005, p. 68].
Não foi possível investigar com detalhe esta questão da construção social da
masculinidade e feminilidade associada à experiência da emigração dos
estudantes angolanos. No entanto, observou-se como esta fase de liminaridade é
vivida com diferentes níveis de intensidade em função da situação
socioeconómica dos sujeitos. A obra de Victor Turner destaca a grande
proximidade nas relações entre os sujeitos em fase liminar, determinada pela
sua separação conjunta do resto da sociedade e pela emergência de um forte
sentido de comunidade. Ora, se para todos os estudantes angolanos, a
experiência de emigração se constitui como uma experiência de intenso
crescimento pessoal, no caso dos estudantes em pior situação socioeconómica,
enfrentando desafios ainda mais difíceis de ultrapassar, esta situação de
liminaridade determina uma ainda maior importância da união com os outros
sujeitos em situação idêntica. Para os trabalhadores-estudantes, a
solidariedade, a entreajuda no seio do grupo, é essencial para a sobrevivência
financeira (em alguns momentos de aperto) e emocional (ao longo de toda a
experiência de emigração).
Eu partilhei uma residência com mais dois angolanos, uma residência
universitária, que a gente chamava, não era formalmente, mas que era
a nossa república [ ] era ali onde tudo acontecia, onde nos
organizávamos, onde desabafávamos, onde nos chateávamos, onde de
certa forma também buscávamos um pouco de força para a gente poder
continuar também, porque era muito complicado, era muito difícil [ ]
tinha sempre um ombro para poder desabafar, para estudar, para
brincar e sentia-me muito mais acolhido e sentia que as coisas
evoluíam para melhor como aluno e foi importante partilhar o espaço e
também dar ânimo, nós apoiávamo-nos mutuamente eu lembro-me de ter
colegas meus que na altura havia aquela necessidade É pá, este mês
não tenho dinheiro para pagar a renda, não tenho dinheiro comprar o
passe para ir para a escola, não tenho dinheiro para fotocópias
[homem de 30 anos, há 8 anos em Portugal].
Neste sentido, a emigração destes estudantes constitui-se como um ritual de
passagem que, baseado na produção de sofrimento, correspondente à dor da perda
da proteção infantil, confere um estatuto de idade adulta. Em concordância com
esta ideia, na análise das entrevistas encontra-se recorrentemente a ideia de
uma troca entre algum mal-estar decorrente da situação presente em contexto de
emigração, pela perspetiva de um futuro que, sob diferentes aspetos, será
melhor.
Essas boas perspetivas futuras correspondem à última fase deste ritual de
passagem, ou seja, à reintegração na sociedade de origem, mas com uma mudança
de estatuto social e familiar (agora adulto). E este novo estatuto (espera o
estudante), deverá conferir ganhos na relação com os pais e familiares através
da conquista da independência e da admiração ou respeito, mas também com a
organização social onde se vão inserir, seja o aparelho estatal, o mercado de
trabalho emergente, a capital de Angola, etc.).
A DIMENSÃO SOCIOECONÓMICA: O PODER E A CLASSE SOCIAL
Diferentes autores apontam para a ideia de que quando os sujeitos têm ou ganham
poder (económico, simbólico, ou outro), experimentam satisfação, confiança e
segurança (Turner etal., 2006). Quando acontece o reverso e há uma perda
considerável de poder, experimentam ansiedade, medo e perda de confiança.
Apontam ainda que a detenção deste poder permite perspetivar o futuro com mais
confiança e segurança. Estas considerações derivam da tentativa de relacionar
emoções identitárias, neste caso narcísicas, associadas a uma construção da
auto-estima baseada na comparação social vantajosa (Tajfel, 1981) com o poder,
constituído, desta forma, como uma variável importante para a determinação do
bem-estar subjetivo. Esta comparação social ocorre quer ao nível inter-pessoal
quer ao nível de relacionamento entre grupos e, em ambos os casos, a comparação
terá de ter um saldo positivo para o sujeito ou para o seu grupo de pertença,
sob o risco de o sujeito ver ferida a sua auto-estima, em parte baseada na sua
identidade social (Tajfel, 1983). Reconhecer esta parcela social da
identidade dos sujeitos e a existência de comparações sociais com outros grupos
de pertença, implica certas consequências:
Podemos supor que um indivíduo tenderá a manter-se como membro dum
grupo e a procurar pertencer a novos grupos se esses grupos
contribuíram de alguma maneira, para os aspetos positivos da sua
identidade social [ ] Se um grupo não preenche este requisito, o
indivíduo tenderá a abandoná-lo [ ] [Tajfel, 1983, p. 291].
Se, por variadas razões, for impossível para o sujeito abandonar o seu grupo de
pertença, para Tajfel existem, pelo menos, duas soluções possíveis: por um
lado, mudar a interpretação pessoal dos atributos do grupo de modo a que as
suas características indesejáveis (o estatuto socioeconómico baixo, por
exemplo) se tornem justificáveis, ou aceitáveis através de uma reinterpretação;
ou, por outro lado, aceitar a situação tal como é e empenhar-se na ação social
que possa levar às mudanças desejáveis da situação.
Ora, a emigração dos estudantes angolanos para Lisboa parece-me um bom exemplo
de empenhamento numa ação social (a aquisição de formação superior
prestigiada) que pode levar às mudanças desejadas (a subida de estatuto
social).4 Assim, se por um lado temos de atentar na importância da motivação
económica na decisão de estes estudantes emigrarem, tornando-se necessário
considerar uma dimensão socioeconómica do bem-estar subjetivo, por outro lado
devemos procurar transcender as propostas da teoria neoclássica das migrações
em torno de uma racionalidade económica como elemento dominante no centro das
motivações humanas, tentando identificar os elos de ligação profunda entre
motivações de ordem económica (a procura da ascensão socioeconómica) e
motivações de ordem identitária (o desejo, despertado pela comparação
identitária, de aproximação a grupos de elite que estão próximos dos centros de
poder/a procura da afirmação da identidade pessoal do sujeito) e de ordem
emocional (a busca de maior sentimento de bem-estar).
A propósito do que se designa aqui por dimensão socioeconómica do bem-estar
subjetivo, a hipótese que se levanta agora é, num primeiro plano, a de que a
classe social se interliga diretamente com a questão do bem-estar subjetivo.
Esta dimensão adquire, então, uma importância fundamental para a investigação,
por permitir a desconstrução de uma ideia de comunidade, enquanto um todo
homogéneo, e permitir olhar para as diferenças socioeconómicas internas ao
coletivo dos estudantes angolanos do ensino superior em Lisboa. Neste sentido,
traz uma nova luz à compreensão das dimensões identitária e contextual do bem-
estar subjetivo, anteriormente discutidas, uma vez que estas podem manifestar-
se de formas diferentes nos sujeitos, em função da sua situação socioeconómica.
Atentando nas motivações económicas dos sujeitos, começando por observar as
razões que os levaram a emigrar para Portugal, pode-se observar que a
totalidade de respostas recolhidas nas entrevistas que apontam a busca de
melhores condições económicas como uma razão essencial para emigrar provêm dos
trabalhadores-estudantes. Se, de facto, como afirma a literatura teórica sobre
o tema, a detenção de poder económico permite ganhos emocionais (sensação de
satisfação, confiança, segurança) é previsível que os sujeitos oriundos de
situações mais carenciadas procurem a ascensão económica. Mas, como igualmente
uma grande parte da literatura sobre migrações tem demonstrado, a maior parte
daqueles que emigram não são os mais pobres dos pobres do seu país de origem.
Ora, o mesmo sucede com os estudantes angolanos entrevistados: muitos dos
trabalhadores-estudantes experimentaram uma perda de estatuto socioeconómico e
uma degradação efetiva das suas condições de vida. À semelhança do que foi
aqui discutido a respeito da dimensão identitária do bem-estar subjetivo, esta
experiência de perda de estatuto social soma-se à perda dos referentes
identitários. O sujeito tem de conseguir gerir esta perda, o que implica um
grande salto ao nível do crescimento pessoal, transformando essa perda em
oportunidade.
Tu não estás a imaginar um miúdo, um jovem angolano que vive como um
burguês, como eu costumo dizer, muitos de nós tínhamos este modo de
vida e não valorizávamos aquilo que tínhamos mas fora de Angola
começamos a valorizar [ ] de repente estás a partilhar um espaço com
duas pessoas por exemplo, não tens dinheiro para esbanjar, tens que
andar de transportes públicos, ainda tens que aturar um indivíduo que
não te conhece de lado nenhum mas que parte do princípio de que tu és
um otário e mal formado é complicado, tens de crescer, tens de
crescer, ou seja, se calhar nunca trabalhaste em Angola porque se
calhar os teus pais até te davam uma vida boa, nunca te imaginaste a
ter um trabalho como servente nas obras, a dar ao cabedal, a ganhar
calos, a seres mal tratado a torto e a direito tens de crescer e
meter na cabeça que eu tenho de fazer isto porque eu não quero
continuar nisto, ou cresces ou frustras-te há muita gente que não
consegue aguentar a pressão e há pessoas que também colaboram para
isso eu lembro-me que houve um ano em que eu só fiz uma cadeira [ ]
e tinha tudo para segunda época e que houve colegas que a nível de
gozo disseram É pá, é melhor desistir isso de ser doutor não é para
todos [ ] e tu ouvires este discurso ou tu te frustras ou vai ou
racha [ ] [homem de 30 anos, há 8 anos em Portugal].
Observámos que para os trabalhadores-estudantes, de uma forma diferente dos
estudantes angolanos que não necessitam de trabalhar, porque podem contar com o
sustento dos pais, a experiência de crescimento pessoal é uma experiência
difícil que conjuga em si mesma as dinâmicas de perda e de oportunidade
próprias da dimensão identitária. Erik Erikson (1976 [1950]), que desenvolveu
amplamente o conceito de identidade, observou esta dinâmica de perda/
oportunidade em várias fases do crescimento individual, no sentido da
estruturação da identidade pessoal, e constatou que a dinâmica essencial
própria da fase dos jovens adultos (idade em que se encontra a maior parte dos
estudantes angolanos entrevistados) diz respeito à da intimidade vs.
isolamento:
Assim, o adulto jovem, que emerge da busca e persistência em uma
identidade, anseia e se dispõe a fundir a sua identidade com a de
outros [ ] A evitação de tais experiências devido ao terror da perda
do ego pode conduzir a uma profunda sensação de isolamento e a uma
consequente auto-absorção [Erikson 1976, pp. 242-243].
Podemos observar este tipo de dinâmica identitária nas vivências dos
trabalhadores-estudantes angolanos em Lisboa. Por um lado, o crescimento
pessoal forçado pelas circunstâncias de emigração e pela necessidade de ir
trabalhar é negativamente entendido como a perda de uma hipotética juventude
mais descontraída (sendo que lhes é tirado o tempo para viver a fusão da sua
identidade com a de outros, experiência que estes estudantes observam nos seus
colegas angolanos e, também, nos portugueses, que ainda vivem em casa dos pais
e com uma boa situação económica), ao mesmo tempo que é positivamente entendido
como uma oportunidade para a definição da identidade individual ' o caminho
para a identificação consigo mesmo ‒ que afasta estes jovens das crises
existenciais próprias da idade (e que igualmente caracterizariam os seus
colegas angolanos e portugueses com melhor situação económica):
Como dizem, eu cresci muito rápido, eu tenho 22 anos agora e não sei
até que ponto isso foi muito bom para mim, até que ponto isso foi
muito mau, mas sei que consegui alcançar coisas que os jovens hoje
aos 25 anos nem sonham e eu não abro mão disso podia ter uma postura
mais relaxada, mas não tive essa possibilidade [ ] e então é um
bocadinho mau por causa disso [ ] porque aqui na faculdade eu tenho
de lidar com pessoas muito novas muito novas é da minha idade e que
eu acho muito infantis [ ] esse eu acho que foi o pior lado dessa
experiência que eu tive [ ] o lado bom é que eu consegui alcançar aos
22 anos n coisas que um jovem normal jamais vai alcançar eu nunca
tive crises existenciais, eu sempre soube a faculdade que queria
entrar e o curso que queria, eu sei o que quero fazer quando sair
daqui e é isso que vai acontecer, eu sei o que quero, trabalho para
isso, e não tenho muito tempo para entrar em crise e em dúvidas [ ] e
tenho uma independência boa, lido comigo como ninguém e sinto-me bem
com aquilo que faço [ ] [mulher de 22 anos, há 4 anos em Portugal].
CONCLUSÃO
A investigação que subjaz à produção deste artigo teve uma natureza
essencialmente exploratória. Mais do que procurar encontrar respostas claras
para as questões levantadas, tentou-se problematizar a questão da relação entre
motivações e bem-estar subjetivo, identificando três dimensões essenciais para
a investigação. Estas diferentes dimensões de análise, referentes aos fatores
contextuais que determinam a qualidade de vida, às questões de ordem
identitária, e à situação socioeconómica dos sujeitos, devem ser entendidas
como os campos principais onde se processa a estruturação do bem-estar dos
indivíduos. Através da comparação com outras investigações que repetidamente
atentassem nestas dimensões de análise, poderíamos eventualmente desenvolver um
modelo teórico que, aplicável a cada caso particular, mas indo além das suas
especificidades, servisse para uma compreensão das causas da emigração e do
bem-estar dos emigrantes, que tivesse em conta o ponto de vista dos sujeitos,
colocando as questões de ordem identitária e emocional que, a par das
motivações de ordem económica, mais amplamente trabalhadas pelas principais
teorias da emigração, devem estar no centro da discussão. Este modelo deveria
ser acompanhado da análise das estratégias emocionais e identitárias (Bastos,
2002) que os sujeitos mobilizam para fazer face às dificuldades decorrentes da
sua situação de emigrantes, de forma a preservarem o seu bem-estar e a
conseguirem afirmar a sua identidade individual e de grupo.
Uma intenção fundamental guiou a presente investigação desde o início:
compreender a parte emocional e identitária envolvida na experiência da
emigração, transcendendo as explicações de natureza estritamente económica, com
o propósito de contribuir para um olhar sobre os imigrantes como sujeitos,
homens e mulheres com motivações e um ideal de bem-estar, para que quando se
estuda as questões da integração dos imigrantes não se fique apenas pela
discussão da tão importante questão laboral.